SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.1 issue15º Encontro de História e SaúdeData bases author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.1 no.1 Rio de Janeiro July/Oct. 1994

https://doi.org/10.1590/S0104-59701994000100012 

IMAGENS

 

A dama branca e suas faces: a representação iconográfica da tuberculose

 

 

Pedro Paulo Soares

Especialista em história da cultura

 

 

Desde a Antiguidade, a tuberculose, com sua presença impiedosa e diferentes denominações — tísica, consunção, peste branca —, influenciou o comportamento daqueles a quem atingiu. Sob o nome de consunção esteve ligada à idéia de combustão do ser, gradualmente produzida pela febre. Sua ligação com os pulmões engendrou metáforas aéreas, voláteis, espirituais e profanas. Tais concepções constituíram o eixo da representação idealizada da tuberculose, existente desde a Idade Média e o Renascimento, com sensível reforço durante o século XIX, quando ficou conhecida como 'mal do século'.

A idealização da doença propiciou sua aceitação, bem como o embelezamento do lado triste e repugnante a ela associado. A febre, a tosse, o emagrecimento e a hemoptise foram cantados em verso e prosa. O espírito romântico do século XIX exacerbou essa mórbida afetividade, esse apaixonado fascínio pelo mal. A tuberculose, no século passado, foi uma doença da paixão, ceifando a vida de literatos, poetas, músicos, filósofos e mundanas célebres. Na virada do século XX, passou a ser considerada um mal social e sua ocorrência encontra-se, desde então, associada às condições de vida.

Quanto a sua iconografia, há inúmeras referências materiais apoiadas em técnicas e suportes diversos, autênticos documentos visuais, entre os quais citamos as litografias de costumes publicadas pelos jornais ilustrados do século XIX, os desenhos produzidos para campanhas de educação sanitária e divulgados para o público sob a forma de almanaques, folhetos e cartazes, distribuídos ou fixados em locais de movimento, e, por fim, as incontáveis fotografias, tomadas como simples registro, como instrumento na observação clínica ou no cotidiano do fotojornalismo.

De modo breve, a seleção adiante apresentada sintetiza um trajeto para as representações iconográficas da tuberculose.

Trata-se de um itinerário que nos conduz de uma idealização do mal na figura do doente, representada principalmente sob a forma de ilustrações alegóricas, a uma interferência direta sobre a doença, um olhar desmistificador que utiliza modernas técnicas de reprodução e novas formas de linguagem — fotografias ou histórias em quadrinhos — para construir representações 'realistas' para a enfermidade.

Figura 1

 

 

No detalhe de A Primavera, de Sandro Boticelli, a modelo coberta por flores: Simonetta Vespucci, célebre tísica, musa do pintor e dama de Giuliano de Médicis. A seu lado, uma ninfa em vestes diáfanas verte flores negras pela boca, em uma hemoptise floral, uma referência clássica retirada da tradição renascentista. Na alegoria, a valorização da jovem tuberculosa sublinha o efêmero de sua existência, sinalizado pela passagem das estações. O artista contribuiu para estabelecer, no plano dos cânones do belo físico, alguns parâmetros relativos à descrição dos tipos femininos. A beleza pálida, frágil, fugaz de Simonetta transformou-se em uma das matrizes arquetípicas da iconografia ocidental.

Figura 2

 

 

Em 'História de uma cocote', desenhada por Vale e publicada no jornal O Tupy em agosto de 1872, constatamos a permanência do modelo feminino como suporte para mais uma representação alegórica da tuberculose. Mistura de romantismo e darwinismo social, a narrativa acompanha a trajetória alegre de uma

Dama das Camélias tupiniquim. Após uma infância saudável, abençoada por anjos, a jovem libertina desperdiça a saúde e a vida entre danças, namoros e orgias, terminando tísica em um leito de hospital. A seu lado, como única companhia, uma escarradeira testemunha a presença da Peste Branca, cruel destino para uma vida degenerada.

Figuras 3 e 4

 

 

 

 

Dois cartazes da Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose, confeccionados no Rio de Janeiro na década de 1920, são exemplos de uma iconografia com sentido de campanha, voltada para a educação do povo. Representando uma era de avanços, tanto na área do conhecimento científico sobre a doença quanto na compreensão do papel do Estado na luta contra o mal, essas imagens nos mostram um momento de transição entre o mórbido sensualismo predominante no passado e a visão social da tuberculose que prevalecerá por todo o século XX. Apesar do conteúdo didático implícito no primeiro cartaz que adota a linguagem dos quadrinhos, sugerindo uma nova postura de vida orientada por formas de conduta 'saudáveis', notamos que a influência romântica na descrição da doença situa-se no centro da composição, área estratégica, onde um grupo de mulheres simboliza a luta entre o mal, indicado por corpos que despencam em torpor, e sua prevenção, outro corpo feminino em postura ascensional, portador dos emblemas do conhecimento e da ação: o fogo e a espada.

O segundo cartaz sugere ainda mais claramente a tradição romântica que associa Eros a Tanatos, representados por uma mulher que, seminua e com as vestes esvoaçantes — metáfora aérea por excelência —, apaga com gesto delicado uma morte negra e pestilencial que se espalhou pelo país.

Figuras 5 e 6

 

 

 

 

Observando as fotografias que adotam a linguagem do fotojornalismo, notamos a inclusão de novos personagens entre os elementos que compõem as representações iconográficas da tuberculose. Surgem pela primeira vez as imagens do sistema de saúde e de seus representantes: médicos, enfermeiras e visitadoras sanitárias.

A fotografia, em seu 'compromisso com o real', retratou a atuação dos profissionais nos sanatórios, dispensários e ambulatórios, em visitas domiciliares nos morros e cortiços do Rio, ajudando a fixar para o público a 'face' social da tuberculose, deslocando sua representação da idealização do doente para o conhecimento e a desmistificação da doença.

No entanto, observando a fotografia que retrata uma cena de ambulatório, notamos a total inadequação na 'construção' da imagem. A postura do médico que ausculta a paciente revela um equívoco de procedimento, expondo-o à infecção pela proximidade com a respiração da doente.

Figura 7

 

 

'O bacilo da tuberculose', do desenhista Luís Sá, ele próprio tuberculoso, reafirma a importância do meio social e das condições de vida na propagação do terrível inimigo, jocosamente descrito como um malandro bêbado, vivendo em meio à sujeira. O que poderia ser menos romântico?

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License