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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5 no.2 Rio de Janeiro July/Oct. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701998000200001 

 

 

 

 

Ciência e nação: romantismo e história natural na obra de E. J. da Silva Maia*

Science and nation: romanticism and natural history in the works of E. J. da Silva Maia

 

 

 

*Este texto foi extraído do relatório final do projeto
de pesquisa vinculado à bolsa de recém-doutor
concedida pelo CNPq e desenvolvido no Programa de
Pós-graduação em história social da UFRJ.

 

 

 

 

 

Lorelai Kury

Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz e professora
do Departamento de História da UERJ.
Doutora em história pela École des Hautes Études
en Sciences Sociales (Paris).

 

Kury, L.: ‘Ciência e nação: Romantismo e história natural na obra de E. J. da Silva Maia’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, V(2): 267-91, jul.-out. 1998.

A obra do médico e naturalista Emílio Joaquim da Silva Maia (1808-59) é compreendida como um projeto científico de descoberta do Brasil e de seus habitantes. Seu nacionalismo e sua abordagem romântica da natureza são as bases sobre as quais ele constrói suas teorias científicas, em particular seus estudos sobre a geografia zoológica. Silva Maia faz com que o problema da especificidade biológica das diferentes regiões do mundo seja subordinado aos debates da época sobre a construção do Brasil como nação independente. As escolhas e interpretações que efetua com relação à história natural européia vão no sentido de buscar compreender a natureza brasileira como uma realização particular do cosmos, de acordo com as abordagens de Alexander von Humboldt.

PALAVRAS-CHAVE: história natural, biogeografia, Romantismo.

Kury, L.: ‘Science and nation: Romanticism and natural history in the works of E. J. da
Silva Maia’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, V(2): 267-91, Jul.-Oct. 1998.

The works of physician and naturalist Emílio Joaquim da Silva Maia (1808-59) can be viewed as a scientific project that discovers Brazil and its inhabitants. Maia’s nationalism and his romantic view of nature formed the underpinnings of his scientific theories, especially his studies on zoological geography. He subordinated the issue of the biological specificity of different regions of the world to his era’s debates on the construction of Brazil as an independent nation. In his interpretations of European natural history, Maia endeavored to understand Brazilian nature as a specific achievement of the Cosmos, in keeping with Alexander von Humboldt’s approach.

KEYWORDS: natural history, bio-geography, romanticism.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Sobre a relação entre nacionalidade e
ciência, ver Crosland
(1977, pp. 95-113).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 As citações
subseqüentes também
se referem ao estudo nº 1.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 Sobre os viajantes do Iluminismo, ver Bourget
(1992) e Moravia (1967, pp. 937-1.011).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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4 Páginas não numeradas.

     O estudo da geografia zoológica proposto por Emílio Joaquim da Silva Maia em meados do século XIX pode ser compreendido como um projeto de descoberta do país e de seus habitantes, um mapeamento da nação em busca de sua essência e de sua especificidade.
     A história natural forneceu modelos interpretativos e imagens que foram utilizados por duas gerações de intelectuais para construir e entender o Brasil. A historiografia sobre o século XIX brasileiro tem frisado o papel desempenhado pelas representações da natureza brasileira no Romantismo e no nacionalismo da época (Cândido, 1959, e Ventura, 1991). Além disso, a personagem ideal do viajante em geral e do viajante-naturalista, em particular, parece ter encarnado o observador exemplar do Brasil (Süssekind, 1990). Portador de um olhar civilizado dirigido aos trópicos e capaz de classificar e hierarquizar o que vê, o naturalista estrangeiro inspirou parte da elite local em sua tarefa de forjar uma identidade para a nação brasileira. Nas artes, na literatura e na história não é difícil perceber a presença do ponto de vista do naturalista.
     Embora forme, no século XIX, um conjunto de conhecimentos bem demarcado, a história natural nem por isso constitui um campo isento de dissensões. Na Europa, as ciências da natureza variavam segundo os contextos nacionais e, no interior de cada país, abrigavam disputas e consensos. De forma geral, é todavia possível identificar linhas de força comuns às teorias e às instituições científicas européias, sendo mesmo possível falar em uma história natural européia, de forma a tratar convergências e conflitos de maneira global.1  No Brasil, o modelo de ciência transplantado da Europa aclimatou-se à nova latitude, adaptando-se à cultura local e ao ambiente político do recém-fundado império.
     Assim, o ‘olhar’ do naturalista não pode ser definido de forma simples, como se fosse único. O objetivo deste trabalho é propor uma interpretação da história natural européia e de sua apropriação no Brasil no período que se prolonga da década de 1820 à de 1860, a partir da análise dos trabalhos científicos de Emílio Joaquim da Silva Maia.

A história natural no Brasil no século XIX: esboço de periodização

     A produção científica de Silva Maia situa-se entre 1830 a 1859, ano de sua morte. Considerar romântica a sua abordagem não é uma simples decorrência do paralelismo entre suas posições e a produção literária e artística do período. Em primeiro lugar, nem todos os naturalistas que atuaram na época podem ser classificados como românticos. Em segundo lugar, mostra-se procedente o atributo na medida em que Silva Maia adota o ponto de vista humboldtiano para interpretar a natureza pátria, relacionando-o de forma orgânica ao seu ideal de nação. Apesar da especificidade da postura de Silva Maia, tudo leva a crer que o universo de questões colocadas pelas ciências naturais de meados do século XIX aponta no sentido de buscarem-se os fundamentos para a afirmação de uma ciência nacional. Assim, do ponto de vista da identidade intelectual do país, a geração de Silva Maia debaterá prioritariamente com as correntes de pensamento que concebiam as nações como a essência de cada povo, articulando-se de forma orgânica com a totalidade constituída por todos os povos do planeta.
     A unidade do período em questão talvez se torne mais clara se for lida a partir das características que a distinguem das linhas mestras das ciências da natureza nos períodos imediatamente anterior e posterior.

Período de 1770 a 1820

     É um período identificável como de predomínio das concepções da Ilustração luso-brasileira, marcado pelo pragmatismo científico e pelas tentativas de racionalização da exploração da natureza brasileira. Estas tentativas, capitaneadas pela Academia de Ciências de Lisboa e pelo Museu d’Ajuda, dirigido por Domingos Vandelli (Munteal Filho, 1998), iam no sentido de substituir certos produtos importados por similares obtidos no Brasil, bem como de descobrir novas fontes de riqueza no território brasileiro.
     Com o estabelecimento da corte portuguesa no Rio de Janeiro e com a elevação do Brasil a Reino Unido ao de Portugal e Algarves (1815), os naturalistas estrangeiros passaram a ser admitidos com maior facilidade nas terras brasileiras. O movimento de pesquisas e viagens por todo o território já foi chamado de "novo descobrimento do Brasil" (Holanda, 1993, p. 13).
     Naquele momento, o olhar estrangeiro sobre o Brasil começou a interiorizar-se no meio das elites, prevalecendo o modelo institucional francês nas instituições científicas então criadas, como é o caso do Jardim Botânico e do Museu Imperial.

Período de 1820 a 1870

     Politicamente, as primeiras décadas deste período são um momento de disputa acirrada em torno do projeto de Brasil que deveria ser instaurado com a Independência. Do ponto de vista da institucionalização e do pensamento científico, porém, desde a década de 1820 percebe-se a intenção de se fundar uma ciência nacional.
     O Museu Imperial consolida-se como instituição central para a história natural no país e tenta coordenar as atividades de estrangeiros e nacionais, esforçando-se por aumentar suas coleções. Se comparado às instituições congêneres européias, pode ser considerado como de significação científica reduzida. Contudo, no quadro de formação do Estado nacional no Brasil, o Museu, as faculdades de Medicina e de Direito, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e algumas outras instituições constituem um conjunto que garante a inserção dos grupos intelectuais ligados às elites e fornece material simbólico para a consolidação da nação.
     Ocupando a natureza brasileira lugar de destaque como elemento simbólico da especificidade nacional, a história natural e a divulgação de suas teorias no seio da elite letrada adquirem relevância para além das questões estritamente científicas.
     O modelo científico francês se estabelece solidamente. Além disso, as teorias e as imagens que os viajantes estrangeiros então constroem sobre o Brasil tornam-se os parâmetros que os homens de ciência utilizam para pensar sua realidade local. O que é específico ao Romantismo é que o esforço de construção de uma identidade nacional extrai suas bases do próprio pensamento europeu: a ciência no Brasil deveria constituir-se como ciência tropical.

Período de 1870 ao início do século XX

     Tradicionalmente distingue-se a década de 1870 como de ruptura no campo intelectual por força da afirmação daquilo que Sílvio Romero chamou de "bando de idéias novas". Instruídos pelo positivismo, os intelectuais do período tendem a ver a situação do Brasil como uma etapa atrasada do desenvolvimento das sociedades civilizadas. A ideologia do progresso que se afirma tende a refutar o Romantismo e sua busca da especificidade do modelo nacional. Os novos ideais identitários exigem transformações que facultem situar o Brasil na mesma rota de desenvolvimento das nações européias.
     Nesse período os problema da raça e da mestiçagem tornam-se centrais para a compreensão do país (Schwarz,1995). Além das avaliações quanto ao clima e à natureza locais, de longa tradição, as raças que formam o povo brasileiro passam a ser vistas como responsáveis por nosso atraso na marcha do progresso.
     Para os objetivos deste trabalho, é importante ressaltar também que a relação que os homens de ciência estabelecem com seu passado é substancialmente diferente da que caracterizara o período anterior. O meio intelectual de coloração positivista tende a frisar a ruptura intelectual com o passado colonial e romântico, voltando-se quase que integralmente para o futuro do país.
     Estes traços gerais de contextualização do pensamento científico no século XIX podem ser úteis para a compreensão da obra de Silva Maia e de sua prática científica, na medida em que ele é herdeiro do Iluminismo e atua num universo de questões ainda não impregnado pelo positivismo de Auguste Comte e de Herbert Spencer, nem pelo evolucionismo de tipo darwinista e neolamarckista.

Um naturalista e a história pátria

     Emílio Joaquim da Silva Maia nasceu na Bahia, em 1808, diplomou-se em filosofia natural pela Universidade de Coimbra em 1828, e em medicina pela Faculdade de Paris, em 1833. Em 1834, veio fixar-se no Rio de Janeiro, onde participou das mais importantes sociedades científicas e culturais do país. Membro da Academia Imperial de Medicina, contribuiu com diversos artigos para o periódico da instituição, a Revista Médica Fluminense. Foi membro igualmente da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e do IHGB. Professor de ciências naturais no Colégio Pedro II, teve destacada atuação como naturalista do Museu Nacional, onde chefiou a Seção de Anatomia Comparada e Zoologia de 1842 a 1859, ano de sua morte. Ainda como naturalista, foi um dos fundadores da efêmera Sociedade Vellosiana. Deixou inúmeros artigos publicados sobre medicina, história e ciências naturais, em periódicos como Minerva Brasiliense e a Revista do Instituto Histórico, bem como em publicações avulsas. Foi também vereador no Rio de Janeiro (Macedo, 1876, e Feio, 1960).
     Estes dados biográficos gerais traçam um contorno inicial do perfil desta personagem e dão idéia de sua inserção como intelectual do Império. Embora polígrafo, Silva Maia concentrou suas atividades no campo da medicina (Kury, 1994) e da história natural. Uma primeira leitura do conjunto de sua obra permite constatar que as idéias e teorias que defendeu têm como traço característico a apologia da natureza brasileira e sua identificação com a essência da pátria. À semelhança de diversos intelectuais de sua geração, buscou encontrar elementos simbólicos capazes de alicerçar o sentimento de nacionalidade que tentavam construir e difundir.
     Contrariamente aos positivistas, que buscavam distinguir-se do passado, Silva Maia procurava difundir textos científicos mais antigos produzidos no Brasil para mostrar que já existia uma ciência brasileira desde a colônia. Exalta o conhecimento acumulado pelos jesuítas ao longo de três séculos. Em seus textos de caráter histórico, o naturalista brasileiro analisa positivamente a ação das sociedades literárias e científicas do século XVIII, enfatizando a objetividade e a importância dos trabalhos que realizaram. Enaltece igualmente a herança colonial do final do século XVIII e do início do século XIX, principalmente as tentativas ilustradas em prol de um melhor conhecimento do território, louvando os esforços de viajantes, como Alexandre Rodrigues Ferreira, Martim Francisco Ribeiro de Andrade e Xavier Ribeiro de Sampaio. Silva Maia valoriza também a vinda da Corte, fundamental incentivo da "pacífica e completa revolução por que o Brasil passou em 1808" (Silva Maia, s. d.a, doc. 6, p. 98). Um de seus patronos intelectuais foi José Bonifácio de Andrada e Silva, de quem publicou uma biografia em 1846 (idem, 1846). Um dos procedimentos mais marcantes dos Estudos históricos de Silva Maia é a transposição de categorias biológicas para a compreensão da ‘vida’ das nações. Da mesma forma que os seres orgânicos, estas últimas "formam-se, prosperam e acabam". Todos seguem o ciclo vital de nascimento, crescimento e morte. Assim como os vegetais e os animais, as nações precisam de alimentos e condições adequadas para seu completo desenvolvimento: "Os chefes políticos tanta necessidade têm de inteligência, retidão e vigilância, como o ser orgânico de ar, calórico, umidade e nutrição" (idem, s. d.a, doc. 1, p. 2).2
     A falta destas circunstâncias explica o fato de a ‘razão e a justiça’ não terem ainda triunfado sobre a face da terra. Nesta perspectiva, cada nação poderia alcançar o máximo desenvolvimento se fosse bem administrada e se seguisse os princípios da humanidade. Cada animal ou planta, corretamente nutrido e vivendo em clima propício, desenvolveria também o máximo de suas aptidões.
     Apesar de entender a história como a sucessão de ciclos vitais das nações, Silva Maia acredita no progresso da humanidade, que muda e melhora "constantemente de condição e de prerrogativas". Citando Chateaubriand, afirma que a marcha ascendente do gênero humano, regida pelo princípio da perfectibilidade, só será concluída quando "chegar à altura do Eterno". Este tipo de concepção vai ao encontro de suas crenças biológicas: para Silva Maia, cada formação orgânica específica desenvolve de forma particular o plano comum da criação.
     Ele propõe, em síntese, uma concepção do processo histórico cíclica e progressiva ao mesmo tempo. O progresso ou a perfectibilidade seguem os desígnios da Providência, desenvolvendo-se ‘nobreza’ que o Criador pôs no semblante do homem, que traz dentro de si o princípio divino. Um dos principais indícios do progresso do espírito humano são as ciências. Citando Bacon, reafirma Silva Maia o caráter duplo do ciclo vital e da perfectibilidade: "Os homens se sucederão, a ciência progredirá." Esta ensina o homem a seguir os preceitos da higiene, a viver de acordo com o clima em que habita e com a profissão que exerce e a evitar os ‘gozos’ inúteis da vida social.
     Do ponto de vista científico, reconhece Silva Maia, o Brasil ainda não contribuíra significativamente para o progresso do espírito humano. Numa das sessões da Academia de Medicina, apresentou a seus colegas um artigo de autor francês que defendia ser a quantidade de ácido sulfúrico produzido por cada país o indício mais seguro do grau de civilização atingido. Sob este critério, o Brasil faria triste figura (Academia Imperial de Medicina, 1835, p. 23). Silva Maia é, entretanto, bastante otimista. Para ele o Brasil estaria destinado a um grande futuro. A nação existia havia muito pouco tempo e não teria podido desenvolver-se adequadamente. Mas, em breve, à imagem de seus irmãos da América do Norte, poderia "ir em auxílio da regeneração da velha Europa".
     A contribuição brasileira à marcha do espírito humano viria a partir do pleno desenvolvimento de suas potencialidades particulares. Segundo Silva Maia (s. d.a, doc. 1. pp. 9, 15):

Do minucioso e refletido estudo sobre o nosso passado, colhe-se sempre boa lição; tal é a única maneira de chegar-se ao profícuo conhecimento dos passos, por menores que sejam, dados pelas gerações de outros tempos, que falavam a mesma língua ou pertenciam à mesma sociedade no meio da qual nascemos; e cujas virtudes, vícios, crenças, saber e disposições orgânicas nos transmitiram com o idioma e com o sangue. Só deste modo pode-se descortinar a verdade histórica tantas vezes ofuscada, e alguma idéia possuir-se da ascendente marcha do espírito brasileiro, no começo cheia de medonhos empecilhos.

     Ainda nos moldes de uma abordagem biológica da história, Silva Maia apresenta no conjunto de sua obra uma visão particular da natureza brasileira, cuja compreensão e estudo seriam fundamentais para o pleno desenvolvimento da civilização no país. Segundo ele, a Providência teria colocado o Brasil num quadro físico privilegiado. O país contaria, além disso, com animais, plantas e minerais valiosos e prodigiosos, que existiriam em profusão. O Império brasileiro é, sem sombra de dúvida, "uma das primeiras nações do mundo quanto à magnificência dos dons naturais". Os problemas enfrentados pela nação explicam-se por sua ‘tenra idade’. Ela precisa de alimentos e de tempo para digeri-los "para com rapidez crescer e bem desenvolver todas as colossais partes do monstruoso organismo" (idem, s. d.a, doc. 6, p. 115).
     Assim, confiante na Providência que dotara o Brasil de uma natureza magnífica, o naturalista brasileiro acredita que o destino da nação estaria selado por esta distinção. A civilização que começara a estabelecer-se no país é essencialmente tropical e por isto marcada pela fertilidade, pela riqueza e pela abundância. A compreensão desta particularidade seria a única forma de adequar o progresso do espírito humano a estas latitudes: "Cada vegetal tem sua temperatura, cada animal tem sua pátria e cada homem seu império. Este é o principal gérmen deste sagrado amor da pátria." (idem, 1835, p. 18).

Uma ciência digna do gênio brasileiro

     De acordo com a valorização que Silva Maia faz do passado do Brasil e de modo a reforçar a defesa da positividade da natureza brasileira, o naturalista dialoga com os viajantes e cronistas que visitaram a América portuguesa. Para ele, as descrições entusiásticas que foram feitas do país não eram de forma alguma exageradas. As florestas verdejantes, os imensos rios de águas cristalinas, a infinidade de animais multicores, o clima sempre ameno, onde reinava uma eterna primavera, tudo isso era verdadeiro. Neste ponto, Silva Maia opõe-se à tradição iluminista das viagens, que se constrói exatamente a partir das críticas aos métodos imprecisos e à imaginação fantasiosa dos viajantes do passado.3
     A escolha do objeto de sua especialização e o método de pesquisa que aplica para conhecê-lo são reveladores de sua postura romântica. Silva Maia estudava os beija-flores e chegou a escolher morar no Rio Comprido, região menos urbanizada da cidade, para poder observar melhor os pássaros.
     Embora nunca houvesse viajado, defendia a observação direta dos fenômenos da natureza. Observou beija-flores no Rio Comprido e em outras localidades dos arredores do Rio de Janeiro. Ao comentar suas pequenas excursões silvestres, aproveita para abordar um de seus temas favoritos: o desmatamento do Brasil. Ecologista avant la lettre, Silva Maia começou a ser conhecido pelos historiadores que tratam da história da natureza por causa de suas posições em favor da preservação das florestas (Dean, 1996). Observou com tristeza a diminuição do número de beija-flores e de pássaros em geral no Rio de Janeiro, e atribuiu as causas do fenômeno à urbanização e à caça indiscriminada. O problema das mudanças climáticas e da diminuição da flora e da fauna brasileiras já tinha sido abordado por ele em artigo sobre o corte das matas (Silva Maia, 1835), no qual apontava a ação destruidora do homem como a causa da insalubridade reinante no país. O papel que confere à vegetação — de agente purificador dos ares e de regulador da umidade atmosférica — associa Silva Maia às correntes da história natural e da química européias que abordam o problema da natureza em termos da harmonia primordial, a que a dinâmica da circulação dos elementos tendia a dar continuidade (Drouin, 1991).
     Assim, os beija-flores precisam das matas e o Brasil, dos beija-flores, pois constituíam uma de suas mais belas criações. Estes pássaros teriam, segundo ele, a América meridional como ‘centro de habitação’, ou seja, seriam exclusivos dessa parte do continente. Por isso, só foram conhecidos depois de Colombo e chamaram a atenção dos primeiros viajantes. André Thevet e Jean de Léry foram alguns dos que se detiveram na descrição dos colibris. Observa Silva Maia (1851a, p. 47):

Estes autores, ambos companheiros de Villegagnon, foram considerados no seu tempo como pouco exatos. Entretanto, a este respeito, salvo o não compreender-se o que eles chamavam o seu canto, cousa alguma fabulosa era anunciada. Os três séculos que se têm seguido comprovando melhor suas asserções só dilataram mais o extenso quadro das admiráveis propriedades que os adornam.

     As descrições de Thevet e de Léry são muito semelhantes. Elas insistem sobretudo na pequenez do pássaro – chamado hoje em dia, em francês, de oiseau-mouche – e, estranhamente para o leitor moderno, na potência de seu canto. A passagem do livro de Thevet (1983, p. 114), em que se trata de beija-flores é a seguinte:

Não posso esquecer um outro pássaro nomeado govambuch que não é maior que uma pequena mariposa ou uma grande mosca, o qual, ainda que seja pequeno, é tão bonito de se ver como não se poderia mais. Seu bico é longo e muito delicado, e sua cor acinzentada. E ainda que ele seja o menor pássaro que exista (como eu penso) sob o céu, entretanto ele canta maravilhosamente bem e é muito agradável de se ouvir.

     A descrição de Silva Maia (1851a, p. 48) é muito mais ‘maravilhosa’ do que as de Thevet e de Léry:

Circulam com a rapidez do raio ordinariamente no meio de uma atmosfera embalsamada pelo perfume de milhares de flores, quase sempre cobertos de ouro e das mais resplandecentes cores das pedras preciosas. O brando vermelho do rubim, o vermelho intenso da granada, o lindo amarelo do topázio, o carregado amarelo cor de ouro, o agradável verde da esmeralda, o verde-escuro da malaquita, o belo azul da safira e o violeta da ametista, existindo separados em muitas espécies brasileiras, servem a estas de caracteres diferenciais. Outras vezes estas mesmas cores se misturando e formando pasmosas combinações deleitam a vista, extasiando o coração, e aparecem de maneira a não poderem ser imitadas pelo pincel o mais delicado; no entretanto assim mesmo caracterizam perfeitamente algumas espécies.

     Se nos detivermos de forma mais cuidadosa na análise do trecho de Silva Maia, podemos verificar a presença de um elemento moderno em sua descrição do conjunto das espécies de colibris da América meridional. As belas cores que menciona constituem ‘caracteres diferenciais’ das espécies, ou seja, distinguem cada grupo de pássaros de seus mais próximos, permitindo situá-los na gradação de uma classificação sistemática. Mesmo as misturas de cores podem ser usadas para a identificação de espécies. No entanto, o que prevalece no texto é um tom estetizante e valorativo, muito distante das secas descrições presentes nos tratados dos naturalistas da época. Mais do que com Cuvier, Silva Maia (idem, ibdem) parece preocupar-se com a relação que as ciências brasileiras devem estabelecer com as artes:

Nada conheço mais digno de ser cantado pela poesia americana do que esta formosa avezinha a que os mexicanos com tanta razão deram o nome de tzitztototl (Hernandez), que quer dizer raios ou cabelos do sol. Enquanto, com o desenvolvimento das letras brasílicas, liras belas e harmoniosas se preparam para entoar perfeitos e suaves versos sobre uma das mais estupendas produções do país, vamos nós, homens de ciência, bem a estudando para assim aumentarmos o catálogo dos fatos que um dia terão de ser todos cantados pelo gênio brasileiro.

     Assim, nada parece mais distante da exatidão das descrições taxonômicas, dominadas na época pelo ‘método natural’ e pela anatomia comparada. Silva Maia prefere inserir seus colibris numa paisagem americana, numa atmosfera embalsamada pelo perfume das flores, sempre "dando mais realce às cenas já aparatosas da natureza americana". Longe da ciência dos detalhes, Silva Maia busca a totalidade. Sua adesão à ciência de Cuvier, a quem chama de ‘sábio mestre’ (Sociedade Vellosiana, 1851, p. 37), é apenas formal. Sua fonte de inspiração é sem dúvida Humboldt, mais romantizado, talvez seguindo as descrições das harmonias da natureza caras a Bernardin de Saint-Pierre.
     A importância da ciência humboldtiana para a América Latina tem sido comentada por diversos autores, como, por exemplo, Minguet (1969). Parece importante ressaltar que a leitura americana de Humboldt deve ser considerada no quadro mais amplo das independências. A obra do célebre naturalista foi relida à luz da valorização das naturezas locais, como se verifica em Silva Maia. A coerência do trabalho histórico do naturalista brasileiro e de suas pesquisas sobre os colibris aparece, dessa forma, de maneira clara.
     Sua opção por uma visão totalizante da natureza faz com que Silva Maia se exima da realização de uma ciência nos moldes de Cuvier. Esta ciência dos ‘reformadores da história natural’ exige a possibilidade do trabalho de gabinete e o acesso a coleções amplas e criteriosas. Cuvier inspira-se no método de classificação ‘natural’ elaborado por Antoine-Laurent de Jussieu para estabelecer o critério de subordinação de caracteres, onde a definição de cada grupo animal depende da presença obrigatória ou secundária de cada caráter. Baseia-se no estudo das funções de cada parte do organismo e das relações necessárias entre elas. A conseqüência mais atraente do método de Cuvier é a possibilidade de deduzir a forma de um animal a partir apenas de alguns fragmentos de seu organismo, o que é particularmente útil no caso dos fósseis. Um dos desdobramentos mais importantes desse processo de transformações do trabalho científico diz respeito às habilidades e à formação dos novos naturalistas. Tanto os botânicos quanto os zoólogos precisam conhecer as partes internas dos animais e das plantas, o que se faz pela dissecação. Além disso, tanto o método natural quanto a anatomia comparada pressupõem que o naturalista tenha acesso a coleções as mais completas possíveis. Para tanto, ele deve recorrer a instituições de pesquisa, como os museus. Assim, cada vez mais, o trabalho da história natural é realizado por profissionais com formação específica inseridos no meio científico (Corsi, 1982, Outram, 1986, e Kury, 1995).
     Quando Silva Maia tenta enquadrar-se nos moldes da ‘ciência do detalhe’, esbarra em dificuldades impostas pela própria organização das instituições científicas brasileiras, incipiente segundo os padrões europeus. Em 1843, ele publica, na Minerva Brasiliense, a descrição de duas novas espécies de beija-flores: Thereza e Januaria. Imediatamente, é advertido por um certo Jules Boursier, da cidade francesa de Lyon, de que a espécie Januaria existe também na Guiana, já tendo sido descrita. O aparato da ciência francesa e sua rede colonial permitiram ao francês acesso a coleções e a textos científicos que não estiveram ao alcance de Silva Maia. Isso nos leva a refletir sobre os limites da utilização de métodos científicos, que extrapolam a mera escolha ideológica. A forma de praticar a ciência pressupõe um conjunto maior de instrumentos para a produção do saber, que, no caso da França de Cuvier e de Boursier, contou para sua montagem com o apoio do Estado e com a constituição de uma vasta rede de instituições, de agentes coloniais e de viajantes espalhados pelo mundo.

A descoberta do Brasil através da geografia zoológica

     Ao escolher os colibris como objeto privilegiado de suas análises, Silva Maia optou por uma abordagem estética da natureza brasileira. Além disso, justificou seus estudos pelo fato de serem os beija-flores animais exclusivos da América meridional. Seu interesse maior, expresso de forma enfática no conjunto de seus trabalhos, é demonstrar a adequação das floras e faunas aos climas nos quais vivem. Além da especificidade do clima, leva em conta as particularidades de cada continente. Em seu trabalho sobre a geografia zoológica (Silva Maia, 1851b), talvez o mais completo que produziu, defende um conjunto de idéias consoante com os trabalhos científicos realizados na Europa. José Lacerda de Araújo Feio publicou este texto em 1960 e o enriqueceu com um número expressivo de notas explicativas. Apesar da importância que esta edição apresenta ainda hoje, há bons motivos para supor que Feio não desvendou satisfatoriamente as fontes teóricas de Silva Maia. No estado atual da pesquisa em que se apóia este artigo, parece possível sugerir que Silva Maia dialoga preferencialmente com Buffon, com os Saint-Hilaire e com Humboldt. Suas hipóteses sobre 14 ‘centros de habitação’ diferenciados não são claras. Trata-se de uma distribuição original, ou já era presente em algum autor da época? O uso da palavra prende-se, provavelmente, à distinção entre "habitação" (região onde crescem os vegetais) e "estação" (tipo de localidade) proposta pelo botânico Augustin-Pyramus de Candolle (1820).
     As teorias de Silva Maia sobre a distribuição geográfica dos animais pelo planeta alicerçam-se em dois pólos básicos: recorre a concepções dinâmicas sobre a adaptação dos seres vivos aos meios e, ao mesmo tempo, faz apelo aos desígnios da Providência para explicar a adequação das formas animais aos diferentes climas. É importante ressaltar que, em geral, as teorias transformistas e evolucionistas de Geoffroy de Saint-Hilaire e de Lamarck opõem-se às explicações providencialistas. Silva Maia efetua uma conjunção aparentemente contraditória com a intenção de valorizar e enaltecer a fauna americana.
     Em sua geografia zoológica, afirma que o objeto desta ciência consiste em "procurar a origem e história das evoluções animais, estudar as relações ou dessemelhanças que entre eles reinam conforme a diferença dos centros de habitação e indagar como as formas gravitam entre limites determinados, modificando-se segundo os tempos e lugares" (Silva Maia, 1851b, pp. 41, 42).
     Esta passagem é das que autorizam Feio (1960) a levantar a hipótese de uma filiação de Silva Maia ao lamarckismo. A expressão ‘entre limites determinados’ permite, no entanto, vinculá-lo ao transformismo, conforme as idéias que defende em seus cursos, como se verá mais adiante. De qualquer forma, não fica claro nesse texto se Silva Maia acredita na dispersão animal a partir de um centro único ou se, ao contrário, acha que as espécies são endêmicas a cada continente. Como se sabe, Buffon, autor freqüentemente citado por ele, afirmava que os seres vivos da América (em seus últimos trabalhos, apenas da América do Sul) eram produções particulares ao continente.
     Silva Maia (idem, ibdem) define a América meridional como um dos 14 ‘centros de habitação’ animais do planeta. Ele não cita os demais. A região conteria espécies que lhe seriam exclusivas. Entre outras, "os guaribas (mycetes); os micos (cebus); os muribuis (ateles); ... esta parte do mundo é a pátria das onças (felis); do guará ou lobo ruivo (lupus); ... dos tamanduás que tão úteis são como devoradores de formigas...".
     O autor se estende bastante na descrição das espécies da América do Sul, com o objetivo de ressaltar a incrível variedade existente na região. Conclui que "a América meridional, ao mesmo tempo que é a mais cheia de animais, apresenta uma natureza animal toda especial". Assim como para Buffon, para Silva Maia é errôneo considerar o planeta Terra como um espaço homogêneo. A especificidade da natureza americana observada pelo naturalista francês será um dos argumentos para aqueles que defendem a hipótese de os seres vivos terem sido criados em várias regiões ao mesmo tempo, ou seja, existiam diversos ‘centros de criação’. Buffon, com efeito, acreditava que cada animal tinha sua ‘pátria de origem’, onde se desenvolveria de forma mais perfeita. As migrações teriam causado as ‘degenerações’, como no caso do homem, que lhe parecia ser adequado aos climas temperados.
     É precisamente este traço do pensamento de Buffon que Silva Maia retoma, embora tenha procedido a uma inversão do julgamento do naturalista francês quanto à inferioridade da natureza americana. Em seu surpreendente artigo sobre a geografia zoológica, Silva Maia (1815b) reconhece a importância de Buffon para suas teorias e para a geografia zoológica em geral: "Até o tempo de Buffon a geografia zoológica existia mergulhada em profundas trevas. Tudo achava-se confundido quando este gênio empreendedor, estudando bem as novas formas zoológicas que a América ia apresentando, assegurou que os dois mundos tinham espécies inteiramente distintas."
     Silva Maia reconhece ser verdadeira a opinião de Buffon de que os animais do Novo Mundo seriam menores em tamanho que os do velho continente. De fato, segundo ele, a anta é o maior animal do Brasil! No entanto, tal constatação não preocupa Silva Maia, já que a América meridional apresenta quantidade e variedade de animais superiores às do velho mundo. Os climas tropicais, diz ele, abrigam "o máximo da intensidade da vida animal". O número de espécies decresceria de acordo com o afastamento de cada região com relação ao Equador. Este fato seria explicado pela umidade e pelo calor, que favoreceriam o desenvolvimento da vida. Além disso, os climas quentes seriam os únicos a possuir os animais próximos ao homem (os macacos): "só aí existem os que na escala animal possuem a organização mais complicada e as faculdades mais elevadas" (idem, ibidem, p. 44).
     Silva Maia (idem) conclui que a ‘zona tórrida’ é também onde se encontram as formas vivas mais belas, extravagantes, singulares, e acrescenta: "Hoje está fora de toda a dúvida, que nas regiões tropicais a natureza se mostra mais fértil, e mui pródiga; suas respectivas faunas são admiráveis pela grandeza e luxo que ostentam."
     É interessante ressaltar a proximidade que estas últimas idéias guardam com o pensamento de Alexander von Humboldt. O famoso naturalista europeu singularizou-se por uma visão globalizante e estetizante da natureza, aliada a procedimentos de medição e análise extremamente precisos (Nicolson, 1990, e Dettelbach, 1996). Humboldt divide as regiões do globo por meio de linhas isotérmicas, baseadas em medidas de temperatura e pressão, que são particulares a paisagens cujo aspecto é determinado por grupos de vegetais, percebidos em unidades coletivas e não individualmente. No âmbito de cada região, o naturalista distingue sub-regiões diversas, que variam fundamentalmente em função da altitude. Em suma, a fisionomia de cada região delineia-se de acordo com as condições geográficas e climáticas. Cada uma é inserida num todo, o planeta Terra, que Humboldt designa como Cosmos.
     Embora reserve adjetivos positivos para todas as regiões do globo, distingue a zona tropical pela força de sua natureza (1828, vol. 2, pp. 19, 20):

Aquele ... que sabe de um olhar circunscrever a natureza e fazer abstração dos fenômenos locais, vê como, desde os pólos até o Equador, à medida que o calor vivificante aumenta, a força orgânica e a vida aumentam também gradualmente. Mas, no curso deste crescimento, belezas particulares são reservadas a cada zona: aos climas do trópico pertencem a diversidade de forma e a grandeza dos vegetais: aos climas do norte, o aspecto dos prados e o despertar periódico da natureza aos primeiros sopros do ar primaveril.

     Além de Humboldt e de Candolle, diversos trabalhos baseados na geografia das plantas e do animais vêm a lume nas primeiras décadas do século XIX. Na França, vários autores defendem pontos de vista muito semelhantes aos de Silva Maia, como é o caso de Marcel de Serres. É mesmo possível que o brasileiro tenha tido contato com a obra deste quando de sua estada em Paris no início da década de 1830. Em artigo publicado no Journal de Physique, em 1823, Serres também estabelece a distinção entre habitação e estação, seguindo Candolle. Sustenta que o Criador distribuiu os seres organizados em regiões fixas segundo a adequação de seus corpos às condições físicas de cada região. Alguns seres — normalmente os mais úteis ao homem — possuiriam, no entanto, a capacidade de escapar a esta primeira distribuição, propagando-se para outras localidades. Os centros de habitação corresponderiam, segundo Serres, à distribuição originária dos seres sobre o globo. Desse modo, ‘habitação’ inclui componentes não apenas climáticos, mas geográficos, como é o caso das diferenças entre os continentes.
     A importância crescente da geografia botânica e zoológica pode também ser exemplificada pelo trabalho do naturalista suíço Louis Agassiz, que viria ao Brasil depois de se estabelecer nos Estados Unidos da América do Norte. Ainda no início de sua carreira, em 1845, Agassiz publicou um artigo onde desenvolveu argumentos que o acompanhariam pelo resto de sua carreira científica. Para ele, todos os seres organizados têm uma ‘pátria’, ou seja, a área onde podem ser encontrados é limitada. O único ser que habita todo o planeta é o homem. O mais interessante da explicação de Agassiz reside no fato de que a ‘pátria’ de cada animal não é ligada aos climas: faunas diferentes vivem em climas semelhantes. O zoólogo suíço acredita que exista uma "ligação mais íntima entre os seres vivos e o canto de terra que os viu nascer" (Agassiz, 1845, p. 4). Isto é válido para as grandes divisões ‘primordiais’, como é o caso dos continentes, e a explicação para tal fenômeno só pode ser encontrada nos desígnios do Criador.
     O clima reaparece como elemento importante quando se trata das divisões no interior das grandes zonas, que Agassiz chama de "províncias zoológicas". Estas, sim, dependem em grande parte de condições ligadas à temperatura, ao solo e à vegetação. O clima é considerado elemento secundário na delimitação das faunas. A especificidade de cada região depende de fatores que não compreendemos. Nas palavras de Agassiz (idem, p. 29): "Cada fauna é marcada por um selo particular, (que expressa) o desenvolvimento de um plano cuja ligação com as causas físicas nos escapa ainda."
     Por esses exemplos, vê-se que a geografia botânica e a geografia zoológica formam um dos caminhos principais que os naturalistas percorrem em meados do século XIX. A obra de Silva Maia não constitui uma excrescência no interior da história natural, mas, ao contrário, insere-se num amplo conjunto de teorias e hipóteses que buscam explicar a distribuição dos seres vivos sobre a Terra. Este tipo de questão é essencial para a defesa darwiniana das migrações, ponto importante da teoria da evolução das espécies pela seleção natural, da qual não nos ocuparemos aqui.
     Segundo Browne (1992), a linguagem e as preocupações da biogeografia já nascem intimamente vinculadas à lógica de expansão colonial das potências européias, principalmente a França e a Inglaterra. Sem dúvida, há trocas entre o vocabulário político e biológico, e os métodos de conhecimento da história natural são úteis na avaliação dos recursos naturais de cada região. É importante, no entanto, ressaltar que as apropriações das teorias e métodos da biogeografia, além de divergirem de autor para autor, variam segundo os diversos contextos culturais e políticos. Na América do Sul, as reflexões sobre a geografia do mundo natural ganham força no contexto das independências e da formação dos Estados nacionais. Talvez resida aí a razão pela qual a obra de Alexander von Humboldt e a biogeografia tenham sido tão bem recebidas entre nós.
     No Brasil, o início da preocupação científica com a geografia das plantas e dos animais acompanha o movimento de valorização sistemática da natureza brasileira, iniciado em fins do século XVIII. Os cronistas e viajantes que haviam visitado a América portuguesa até então descreveram as singularidades da flora e fauna que viam, remetendo sempre, porém, suas descrições para o universo de imagens conhecidas dos europeus. É comum que este tipo de literatura fale de tigres, leões e rouxinóis no Brasil. Com as transformações ocorridas na história natural, desde fins do século XVIII, a questão da especificidade da natureza local sai do universo da estranheza e da singularidade para compor o universo dos fenômenos naturais e universais.
     No século XIX, os textos fundadores da ciência brasileira incorporaram as questões da biogeografia como temas centrais. Já em 1819, foi publicada no Rio de Janeiro uma tradução das instruções para viajantes elaborada pelo Museu de História Natural de Paris, cuja primeira edição data de 1818. A este texto, somam-se instruções aos correspondentes da Academia de Ciências de Lisboa e uma introdução intitulada Algumas reflexões sobre a história natural do Brazil, e estabelecimento do Museu e Jardim Botanico em a côrte do Rio de Janeiro, sem autoria revelada. Este último é, de fato, um programa de pesquisas em história natural no Brasil (Lopes, 1997). Seu autor, provavelmente ligado ao Museu Real, concede atenção particular às questões ligadas à geografia do mundo natural:

Tendo o grande Buffon já anunciado, e sendo hoje demonstrado entre os naturalistas, que todos os animais, que não têm meios de atravessar o oceano, são na parte meridional da América (não obstante certa analogia de forma) diferentes na espécie, e até em famílias inteiras, dos animais das outras partes da terra, ainda dos da América setentrional; é claro que só desta parte meridional os museus do mundo podem ser providos dos animais que aqui são exclusivamente produzidos (Anônimo, 1819, p. IV).

     Sobre a geografia dos animais, tema recorrente em todo o texto, este não cita autores mais recentes, posteriores a Buffon. Quanto à geografia das plantas, menciona a leitura do Ensaio sobre a geografia das plantas, de Humboldt. Em seu balanço da história natural internacional, portuguesa e brasileira, o autor assinala as obras essenciais produzidas no Brasil ou por brasileiros. Constam de seu elenco o Caramuru, de Santa Rita Durão, a Corografia brasílica, de Aires de Casal, o periódico O Patriota, os trabalhos de frei Veloso, entre outras obras menores, algumas manuscritas. Durão dedica todo o canto VII de seu poema épico de 1781 à descrição da natureza brasileira. O herói Diogo canta as belezas da América diante dos reis franceses Catarina de Médicis e Henrique II, e preocupa-se com a origem dos animais: "Feras as antas são americanas, / E próprias do Brasil as suraranas."
     A obra de Aires de Casal (1817, p. 61) consagra larga parte da introdução à descrição da flora e da fauna do Brasil. A anta, por exemplo, tem aí lugar de destaque: "A anta, à qual quase todas as nações indígenas chamam Tapira, é o mais corpulento dos quadrúpedes brasílicos; e não entra na classe de espécie alguma dos conhecidos, fazendo um gênero à parte na história dos animais." Em seguida, é minuciosamente descrita, em suas partes constitutivas, cores, hábitos e utilidade para o homem, no estilo dos tratados de história natural da época.
     O papel dos periódicos das primeiras décadas do século XIX já foi devidamente assinalado pela historiografia (Dias, 1968). Neles, as ciências tiveram papel de destaque. Uma das principais características de O Patriota residia na divulgação de trabalhos científicos versando sobre o Brasil ou produzidos por brasileiros desde o século XVIII. O texto Memória sobre a cultura dos algodoeiros, de Manoel Arruda Câmara, escrito em 1797, foi publicado ao longo do ano de 1813. As discussões científicas nos termos da geografia das plantas já aparecem plenamente desenvolvidas nesta obra e imbricadas às discussões sobre as possibilidades de aclimatação de plantas em diferentes climas. Afirma Câmara (1813), por exemplo, que: "A natureza concedeu a cada país, ou a cada clima, seus privilégios exclusivos, de que sempre gozarão apesar de todo o esforço da arte."
     Desse modo, o texto anônimo de 1819 parece ter construído uma espécie de história das ciências no Brasil, dando ênfase às discussões sobre a particularidade da flora e da fauna locais. Emílio Joaquim da Silva Maia desenvolve pois, algumas décadas mais tarde, um programa que já se vinha estabelecendo desde a fundação do Museu Real no Rio de Janeiro em 1818.
     O texto anônimo é ainda mais surpreendente pelo fato de indicar uma linha de pesquisa capaz de reencontrar a unidade do mundo natural do planeta, apesar das particularidades nacionais. Manifesta interesse pelas "aplicações sobre a analogia de estrutura" entre os animais, desenvolvida por Étienne Geoffroy de Saint-Hilaire, um dos autores que mais influenciaram Silva Maia.

Especificidade do Brasil e unidade do Cosmos

     A zoologia, área de atuação de Silva Maia, teve como grande expoente, durante boa parte do século XIX, o naturalista francês Georges Cuvier. A própria Sociedade Vellosiana, fundada pelos mais importantes naturalistas da Corte em 1850, adota Cuvier no que diz respeito ao estudo dos animais (Sociedade Vellosiana, 1851, p. 37). Silva Maia fora aluno do célebre zoólogo, quando realizava seus estudos de medicina em Paris. Mas o fato de adotar-se Cuvier não significa que todas as suas concepções biológicas fossem incorporadas pelos naturalistas ligados à Sociedade Vellosiana ou Silva Maia. Feio (1960, p. 31), principal biógrafo deste, ao analisar a sua obra intitulada ‘Algumas idéias sobre geografia zoológica’, diz: "É realmente difícil, para nós, avaliarmos o esforço feito por Silva Maia quando mais que, no bojo de seu trabalho, se lê nas entrelinhas a noção de evolução e não se percebe bem uma indicação tácita lamarckiana, embora devesse ser."
     A leitura desse e de outros escritos de Silva Maia indica que suas preocupações com as relações dinâmicas que os seres estabelecem com o meio exterior o afastam em grande parte de idéias caras a Cuvier, fixista convicto e um dos principais opositores de Lamarck. No entanto, nada indica que Silva Maia fosse lamarckista, contrariamente à opinião de Feio. Ser adepto das teorias de Lamarck significa crer em sua teoria da evolução das espécies, baseada na transmissão das modificações adquiridas e na lei que determina que o uso freqüente de um órgão o fortifica e expande, e a falta de uso o enfraquece e faz com que desapareça gradualmente. Além disso, o evolucionismo de Lamarck pressupõe, também, a aceitação da teoria materialista da geração espontânea e das explicações acerca do desenvolvimento dos órgãos baseadas no movimento dos fluidos interiores do organismo (Lamarck, 1994). O católico Silva Maia, embora acredite que os seres vivos sofram modificações de acordo com as circunstâncias exteriores às quais estão submetidos, parece não compactuar com Lamarck na compreensão da vida em nosso planeta como desenvolvimento gradativo a partir de formas simples que, por geração espontânea apareceram no mar e deram origem a todos os seres vigentes. O naturalista brasileiro parece ter sido adepto do transformismo bem mais restrito de Geoffroy de Saint-Hilaire. Suas preocupações com a adequação dos organismos aos lugares e aos climas têm origem em diversas tradições, de Buffon à teologia natural, e não caracterizam necessariamente posições evolucionistas. Silva Maia realiza apropriação particular de diversas tradições da história natural que têm como ponto central uma visão orgânica da natureza e da história, englobando ao mesmo tempo providencialismo e transformismo.
     A biblioteca do IHGB possui um documento manuscrito (Silva Maia, s. d.b) que nunca foi usado por nenhum de seus biógrafos. Trata-se de um caderno que ele usava para preparar seus cursos de zoologia no Colégio Pedro II, onde lecionou de 1838 a 1859. O próprio Silva Maia o teria oferecido a um aluno não identificado, que o doou à instituição em 1906. Este interessante caderno de notas confirma a suspeita de adesão de Silva Maia às idéias de Étienne Geoffroy de Saint-Hilaire, em particular à sua ‘teoria dos análogos’ (Saint-Hilaire, 1818-22). O naturalista francês defendia basicamente a idéia de que o reino animal, em sua globalidade, seguia um mesmo plano estrutural, e cada espécie animal realizaria, à sua maneira, o plano subjacente. Como o próprio Silva Maia explica, se o esqueleto dos animais fosse composto por alguma substância flexível, poderia ser moldado a qualquer espécie. Como se sabe, grande parte da atividade científica de Geoffroy de Saint-Hilaire foi consagrada à descoberta das modalidades específicas com que cada espécie encarnava a unidade inicial do plano da Criação. No início de sua carreira, traçou apenas analogias entre os vertebrados; aos poucos começou a incluir os invertebrados na mesma unidade inicial. Cada animal possuiria, de forma latente, a estrutura do plano comum, ainda que muitas partes fossem "abortadas". Daí a importância que a embriologia passou a ter para ele. Saint-Hilaire ‘descobriu’ que os embriões de todos os animais possuem todas as partes estruturais comuns. Os animais mais simples desenvolveriam só algumas destas partes. O homem, animal mais complexo, em sua fase embrionária, viveria o desenvolvimento das formas animais mais rudimentares (recapitulação). O feto humano, por exemplo, apresenta uma cauda rudimentar. Em seu desenvolvimento embrionário, as aves apresentam esboços de dentes que não têm continuidade. A estrutura comum ao reino animal não se manifestaria necessariamente em nenhum animal real; ela existiria num plano teórico abstrato.
     Tal concepção causou grande polêmica no meio científico europeu. O auge das críticas a Geoffroy de Saint-Hilaire produziu-se em 1830, quando Cuvier o atacou vigorosamente na Academia das Ciências de Paris. O embate entre os dois naturalistas tornou-se uma referência nos debates científicos e filosóficos de meados do século XIX. Para ilustrar a importância do evento, a literatura sobre o tema retoma famosa passagem de carta que Goethe escreveu a Frédéric Soret. O grande escritor alemão comenta de forma entusiástica os ‘acontecimentos’ de 1830. Seu interlocutor francês pensa tratar-se dos embates políticos e sociais que haviam agitado a França e a Europa naquele ano, mas Goethe refere-se à polêmica científica. Toma o partido de Geoffroy de Saint-Hilaire, pois considera suas idéias como o equivalente para o reino animal das idéias que ele próprio defendera sobre as plantas. Goethe (1993) se aventurara pela botânica e defendera a idéia de que todos os vegetais apresentariam semelhanças estruturais entre si e moldar-se-iam a partir do modelo de uma ‘planta originária’ (Urpflanze). Por trás da diversidade das formas vegetais, Goethe entrevê uma unidade morfológica original. A plasticidade e a variabilidade das formas existentes manifestam a adaptabilidade das plantas às condições de vida que encontram. Assim, não se trata de uma evolução dos seres no tempo, como para o pensamento evolucionista, mas da possibilidade existente para cada ser de transformar, metamorfosear um modelo originário, em busca de adequação ao ambiente e às condições que regem sua vida.
     A oposição entre as teorias de Geoffroy de Saint-Hilaire (e Goethe) e de Georges Cuvier já ocasionou interpretações diversas. Falou-se de uma luta entre platonismo e aristotelismo, entre a prevalência da forma ou da função, entre uma abordagem idealista e outra teleológica, além de já se ter mencionado, de forma anacrônica, um embate entre evolucionismo e fixismo (Appel, 1987).
     Cuvier, o opositor de Geoffroy de Saint-Hilaire, foi um dos naturalistas mais influentes no século XIX. Muitos encaram a lentidão com que o darwinismo se implanta na França como conseqüência da força de suas doutrinas. Um dos principais criadores da anatomia comparada, Cuvier também se caracterizava por ser fixista e por acreditar que o planeta Terra teria sofrido grandes transformações catastróficas que explicariam o desaparecimento de diversas espécies animais. Os fósseis eram vestígios e provas de sua existência. Cuvier era crítico da pretensa cadeia dos seres, idéia antiga sistematizada paradigmaticamente por Charles Bonnet. Julgava que houvera sucessivas criações de seres na terra e que, entre estes universos, existiriam ‘saltos’ e não continuidade. Por exemplo, não haveria nenhuma espécie intermediária entre o elefante atual e o mamute ou o mastodonte. As análises de Cuvier sobre o reino animal baseavam-se na adequação de cada órgão à função que exerceria na economia animal. O Criador havia previsto as necessidades de cada ser, provendo-os de órgãos necessários à satisfação destas necessidades. Análises recentes buscam demonstrar que a teleologia de Cuvier não era antiquada; não seguia os moldes da teologia natural do século XVIII, nem seria baseada na noção de causa final de Aristóteles. As referências filosóficas do naturalista tenderiam a considerar a adequação dos organismos aos lugares que habitam e ao gênero de vida que levam em termos de ‘condições de existência’, de acordo com uma possível leitura, mesmo que indireta, de Kant (Outram, 1986).
     Silva Maia, ao longo de sua carreira, sempre reverenciou a memória do ‘grande’ Cuvier, embora conteste suas posições quanto à fixidez das espécies. Na apostila conservada no IHGB, o naturalista brasileiro descreve passo a passo as principais idéias de Geoffroy de Saint-Hilaire, posicionando-se contra as críticas de seu adversário. A autoridade de Cuvier quanto aos conhecimentos anatômicos e sua proposta para classificação dos animais a partir do critério de subordinação de caracteres são correntemente adotadas pela zoologia da época. Silva Maia (s.d. b) adota a tese de Cuvier de que a Terra sofreu grandes cataclismos que extinguiram diversas espécies, mas continua acreditando que existe uma ‘verdadeira progressão’ que relaciona os seres entre si: "Como é de supor, muitas das espécies animais e vegetais se têm perdido com os duplicados cataclismos do globo, mas ainda assim alguns dos restos que o centro da terra apresenta manifestavam a existência de seres intermediários às classes, que verdadeiras lacunas tinham entre si."4
     A adoção destas idéias constitui um argumento a mais para a tese de que Silva Maia não era adepto do lamarckismo. Para esta corrente as mudanças se faziam lentamente e deviam-se a causas quotidianas e não extraordinárias. O aspecto não fixista das idéias de Silva Maia não se insere numa doutrina sistemática do evolucionismo, como é o caso de Lamarck. A doutrina eclética e muitas vezes contraditória de Geoffroy de Saint-Hilaire pressupõe que os seres se adaptam aos meios, mas não há evidências de que acreditasse que todos os seres descendessem de espécies simples modificadas ao longo do tempo. Geoffroy de Saint-Hilaire não leva em consideração o tempo, nem fala claramente na herança de caracteres adquiridos. Na busca de uma unidade do mundo vivo, remete todos os animais a um arquétipo comum, que se realiza continuamente nos seres concretos. Não há imutabilidade porque a organização dos seres não é dada a priori: depende das condições exteriores a cada organismo.
     Assim, Silva Maia, como Geoffroy de Saint-Hilaire, crê ao mesmo tempo na unidade e na plasticidade das espécies animais. Sua principal preocupação não é o tempo, mas a realização em cada ser particular de um modelo originário universal. Estas realizações particulares são regidas, segundo ele, pela adequação dos organismos às circunstâncias exteriores. Em sua apostila de curso, Silva Maia propõe questões essenciais para a compreensão de seus ensinamentos, entre as quais a seguinte: "O meio em que o animal vive influirá na sua organização?" A resposta é evidentemente positiva. Ele começa por descrever a ‘benéfica’ ação da Providência que "adaptou todos os animais para os fins que tinham de preencher, por isso em suas formas, em seus aparelhos ou órgãos, fez as modificações precisas conforme a vida do animal". (Silva Maia, s.d. b). Após estas afirmações incontestadas há séculos, Maia (idem) expõe como entende a aplicação da doutrina de Geoffroy de Saint-Hilaire para a compreensão dos desígnios da Providência:

Cumpre agora notar que muitos naturalistas pensam que estes diversos animais, tendo de habitar elementos diferentes, tiveram por isso as modificações orgânicas que apresentam, mas outros naturalistas, ao fato da uniformidade de desenvolvimento orgânico animal, disseram que, em diversas porções de animais, o desenvolvimento orgânico não continuando, eles viram-se uns nas circunstâncias de irem habitar os meios onde só podiam viver. Eis a diferença única de encarar esta questão entre os que seguem ou rejeitam a doutrina de Geoffroy de Saint-Hilaire.

Conclusão

     A formação científica de Silva Maia e seu ideal de nacionalidade permitem que ele manipule teorias diversas sobre a natureza dos homens e dos lugares e que faça uma síntese singular, romântica por excelência. A valorização das forças da natureza era, de fato, comum ao Romantismo europeu e ao brasileiro. Entre os cientistas e médicos, Silva Maia foi aquele que sistematizou de forma mais coerente um conjunto de conceitos, oriundos de diversas tradições européias, capaz de explicar cientificamente a natureza do Brasil sem afastar-se da sensibilidade romântica que alicerçava seu sentimento de pátria. Embora o meio intelectual e científico da Corte se unisse consensualmente em torno da defesa da integridade nacional e participasse da construção das bases ideológicas que permitissem a coesão da classe senhorial (Mattos, 1987), a sensibilidade romântica não era comum a todos que o integravam. No meio científico, duas grandes maneiras de encarar a natureza dividem as preferências: uma totalizante, qualitativa, romântica; outra que busca a precisão, a mensuração e a fidelidade aos ‘fatos’.
     As escolhas e as sínteses elaboradas por Silva Maia vão no sentido de buscar bases científicas sólidas que justifiquem sua defesa apaixonada da natureza americana e da brasileira em particular. Como um todo, suas formulações, tanto históricas, quanto médicas e biológicas, convergem para a exaltação de uma nação brasileira idealizada, destinada a um futuro brilhante. Ao mesmo tempo, tendo sido formado a partir de uma ótica de valorização do processo civilizatório, tal como se deu na Europa Ocidental, filia-se Silva Maia a determinadas correntes de pensamento que compreendem a especificidade de cada ‘civilização’, buscando situar cada particularidade num destino comum da humanidade guiada pelo progresso e pelas Luzes. O que Silva Maia pretende para o Brasil é o reencontro de sua essência, de sua natureza, para que então uma civilização adequada a esta essência possa florescer.
     Embora a ciência ‘romântica’ de Silva Maia não fosse consensual, os temas que estuda e as soluções que propõe deitam raízes no início do século XIX, quando o problema da especificidade biológica das diferentes regiões do mundo começa a se imbricar aos debates sobre a construção do Brasil como nação independente. Nesse sentido, seria interessante proceder a uma análise mais ampla da institucionalização da história natural no Brasil e verificar suas linhas de continuidade e de ruptura com relação à literatura colonial que se dedicou à descrição da natureza da América portuguesa.

 

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Recebido para publicação em julho de 1998.

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