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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5  suppl.0 Rio de Janeiro July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701998000400003 

 

 

 

Entre Clio e
Calíope: a
construção da
narrativa histórica
em Os sertões

Between Clio
and Calliope:
construction of the
historical narrative in
Os sertões

 

 

 

 

 

 

Luiz Fernando Valente

Professor adjunto de estudos portugueses e brasileiros e literatura comparada
Associate professor of portuguese and brazilian studies and comparative literature
Box O, Brown University
Providence, Rhode Island 02912 — USA
E-mail:
luiz_valente@brown.edu

 

 

VALENTE, L.: ‘Entre Clio e Calíope: a construção da narrativa histórica’.

História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. V (suplemento), 39-55 julho 1998.

Este artigo focaliza a complexa aliança entre a história e a ficção em Os sertões a partir de novas teorias sobre a textualidade da história e de novas metodologias de abordagem do texto literário, como o ‘novo historicismo’. Após uma sinopse dessas teorias e metodologias, examina os processos de construção da narrativa de Os sertões, demonstrando como o texto é marcado pela interpenetração do sistema que informa o cientista com o que rege o artista. À medida que o arcabouço intelectual e científico importado da Europa se mostra insuficiente para registrar a realidade brasileira, o texto euclidiano começa a deslizar entre a história e a ficção. A conclusão: apenas interstícios entre história e ficção Euclides consegue localizar aquela verdade que, desde a ‘Nota preliminar’, afirmava ser seu objetivo principal.

PALAVRAS-CHAVE: textualidade, ficcionalização, narrativa histórica, novo historicismo, sertão, Euclides da Cunha.

 

VALENTE, L.: ‘Between Clio and Calliope: construction of the historical narrative in
Os sertões’.

 

História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. V (supplement), 39-55 July 1998.

The complex alliance between history and fiction found in Os sertões is examined from the perspective of new theories on the textuality of history and new methodologies in the study of literary texts, such as the so-called new historicism. After presenting a synthesis of these tools, the essay examines the construction of the narrative in Os sertões and shows how Cunha’s text is characterized by an inter-penetration of the system that informed the scientist with the system that governed the artist. As the intellectual and scientific framework imported from Europe proves inadequate in recording the Brazilian reality, Cunhas’ text begins slipping back and forth between history and fiction. In conclusion, it is argued that only in the interstices between history and fiction does Cunha manage to situate that truth which, starting right in his ‘Preliminary note’, he claimed as his prime objective.

KEYWORDS: textual aspects, fictional aspects, historical narrative, new historicism, sertão, backlands, Euclides da Cunha.

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução: o ecletismo de Os sertões

A coexistência em Os sertões do cientificismo com a literariedade, ou mais especificamente da história com a ficção, constitui antiga preocupação e uma questão não resolvida para os leitores de Euclides da Cunha. Já em 1903, apenas um ano após a publicação do livro, Araripe Júnior estabelecia conexões entre Os sertões e a obra historiográfica de Xenofonte, ao mesmo tempo que comparava Euclides com mestres da ficção oitocentista, como Gustave Flaubert e sir Walter Scott. Oito anos mais tarde, Afrânio Peixoto (1921, p. 32), escolhido para preencher a vaga de Euclides na Academia Brasileira de Letras (ABL), afirmava em seu discurso de recepção que Os sertões "não é livro de história, estratégia ou geografia, é apenas o livro que conta o efeito dos sertões sobre a alma de Euclides da Cunha". Esse debate é retomado por Afrânio Coutinho (1966, p. 57) num artigo publicado em 1952 no suplemento literário do Diário de notícias do Rio de Janeiro, em que classifica Os sertões como "uma obra de ficção, uma narrativa heróica, uma epopéia em prosa, da família de Guerra e paz, da Canção de Rolando, e cujo antepassado mais ilustre é a Ilíada". A opinião de Coutinho ecoa com diferentes variantes nos trabalhos de Olímpio de Sousa Andrade (1960), M. Cavalcanti Proença (1966) e Franklin de Oliveira (1983), até ser categoricamente rejeitada por Luís Costa Lima (1989, p. 239), para quem "discurso da realidade, Os sertões são dominantemente uma obra de sociologia". Assumindo uma posição mediadora, Bernucci (1995, p. 23) sugere que "colhido pelas tensões e conflitos irresolúveis desses dois mundos díspares, Euclides procura diminuir os efeitos dessa febre agônica optando por uma conciliação entre eles". De qualquer forma, a questão merece ser revisitada não só por ser fundamental para a interpretação de Os sertões, mas também porque a obra-prima de Euclides é um excelente ponto de partida para qualquer reflexão sobre as fluidas fronteiras entre história e ficção.

O ecletismo de Os sertões parece incomodar um grande número de críticos, embora o próprio Euclides (1996, II, p. 621) houvesse afirmado em carta a José Veríssimo que "o escritor do futuro será forçosamente um polígrafo; e qualquer trabalho literário se distinguirá dos estritamente científicos, apenas, por uma síntese mais delicada, excluída a avidez das análises e das experiências". Com a exceção de Bernucci (1995, p. 20), cujo ensaio enfatiza a interpenetração de um lastro historiográfico e científico com "as inserções provindas do imaginário", e de Andrade (1960, p. 314), que afirma ser Os sertões "livro inclassificável, indefinido entre os gêneros", os estudiosos citados parecem estar excessivamente preocupados em tentar estabelecer limites precisos entre os elementos supostamente literários e não-literários do livro deEuclides. Essa tentativa mostra que partem ainda de uma concepção fechada e exclusivista do que é história e do que é ficção, operando, conscientemente ou não, dentro de paradigmas herdados do século XIX, sobre os quais o próprio Euclides levantou dúvidas.

Nossa proposta é reabrir a questão do relacionamento entre história e ficção em Os sertões, a partir de novas teorias sobre a textualidade da história e de novas metodologias de abordagem do texto literário, representativas do crescente interesse contemporâneo pelo histórico que, conforme lembra Nora (1989, p. 15), "transcende o círculo dos historiadores profissionais", e do que se vem chamando de "a guinada histórica"1 nas ciências humanas. Após uma breve sinopse dessas teorias e metodologias, o ensaio examinará alguns processos de composição do texto euclidiano, focalizando a ‘Nota preliminar’ e duas passagens de ‘A terra’. Embora teçamos comentários sobre a obra vista como um todo, resolvemos concentrar-nos em ‘A terra’ porque das três partes de Os sertões é a menos trabalhada pelos críticos, especialmente pelos que se interessam pelos aspectos mais estritamente literários da obra. Assim, esperamos poder contribuir para uma reavaliação de ‘A terra’ e, ao mesmo tempo, demonstrar sua importância para a discussão do relacionamento entre história e ficção na obra de Euclides da Cunha.

Teorizando os laços entre ficção e história: White, White , White, Chartier, LaCapra e os ‘novos historicistas’

As teorias de Hayden White (1978, 1973) representam o mais contundente ataque ao mito da objetividade da história, corporificado na obra de Leopold von Ranke (1790-1886), para o qual a tarefa do historiador seria representar o passado "como realmente aconteceu" (wie es eigentlich gewesen). Para White, esse ideal de completa objetividade não podia passar de uma falácia, já que qualquer reconstrução do passado é um ato interpretativo, dependendo de escolhas morais e estéticas do historiador. White aproxima a história da ficção ao caracterizar a narrativa histo-riográfica como uma ficção verbal, não encontrada, mas inventada. Ele propõe, além disso, que os eventos históricos não constituem automaticamente a história, mas são transformados na história pelo historiador, através de técnicas análogas àquelas utilizadas pelo ficcionista. É por isso que ao interpretar o mesmo evento um historiador pode representá-lo tragicamente, enquanto outros podem representá-lo cômica, romântica ou satiricamente. Em outras palavras, a forma da narrativa historiográfica não é intrínseca aos eventos descritos, mas depende das escolhas feitas pela atividade mediadora do historiador ao constituí-los. Assim, para comunicar os eventos do passado, a história se serve de uma estruturadiscursiva e de técnicas narrativas, tais como o enredo. A narrativa histórica não é uma reprodução transparente dos eventos do passado, mas uma estrutura simbólica que explora as analogias entre os eventos reais e as estruturas convencionais que usamos em nossas ficções. Apropriando-se de algumas idéias formuladas por Kermode (1996), White sugere que a coerência do texto histórico não pode ser a mera coerência cronológica dos fatos. Ao contrário, o autor de Metahistory insiste que o historiador procede como o poeta ou o romancista, na medida em que para os três a tarefa fundamental é transformar o que era problemático e misterioso em algo de reconhecível através da forma e do pacto que sempre existe entre o criador e o leitor de qualquer texto, historiográfico ou não. White enfatiza o aspecto tropológico do discurso historiográfico, ressaltando ao mesmo tempo que nenhum tropo possui mais autoridade do que outro na representação historiográfica. Desse modo, a escolha de uma perspectiva histórica, inclusive o próprio desejo de tornar a história científica, representa uma decisão que é mais estética ou moral do que epistemológica. White rejeita como artificial a distinção tradicional entre a ficção como a narrativa do que é imaginado e a história como narrativa do que realmente aconteceu, porque para ele nosso conhecimento do real humano passa sempre pelo imaginário. Conquanto reconheça que a obra de um historiador se origina de uma atividade intelectual cujas preocupações são também de ordem científica e filosófica, White propõe que o ato de transformar o passado em história é fundamentalmente um ato poético, o que não permite ao historiador assumir uma perspectiva completamente neutra ou objetiva. White conclui polemicamente que o problema atual da história como disciplina é ter perdido a consciência dos seus laços com a literatura ao se pretender científica e objetiva.

Como Hayden White, Roger Chartier (1997) aponta a existência de uma crise epistemológica no pensamento histórico contemporâneo, caracterizada pelo enfraquecimento das formas tradicionais de conhecimento. Também como White, Chartier insiste na textualidade da história, afirmando que os historiadores produzem textos e estabelecendo paralelos entre as narrativas ficcionais e as narrativas históricas, tais como a invenção de personagens e a construção da temporalidade e da causalidade. Chartier afasta-se, entretanto, do historiador norte-americano, a quem acusa de eliminar as diferenças entre a história e a ficção, insistindo, ao contrário, que essas diferenças precisam ser delineadas, apesar de reconhecer a enorme dificuldade em fazê-lo. É consciente dessa dificuldade que Chartier, apropriando-se do comentário de Michel de Certeau sobre a obra de Michel Foucault, diz estar caminhando "à beira de um precipício", título, aliás, de uma coleção de artigos seus, publicada nos Estados Unidos. Emboraconcorde com White que o passado só é acessível através dos textos que o representam e organizam, e que os eventos históricos são construídos pelo discurso historiográfico, Chartier propõe que a história difere da ficção por ser governada pelo princípio da verdade. Ao produzirem seus respectivos textos, a intenção de historiadores é diferente da intenção dos ficcionistas. Além disso, Chartier sublinha que o conhecimento histórico, apesar de suas bases textuais, pode e precisa ser verificado. Dessa maneira, Chartier (idem, pp. 8-9, 20) alinha-se com o realismo prático da chamada nova teoria da objetividade, proposta por Joyce Appleby, Lynn Hunt e Margaret Jacob, que, embora não excluindo a possibilidade de uma pluralidade de interpretações, postulam que "as percepções que temos do mundo têm alguma correspondência com aquele mundo e . . . que existem padrões que, mesmo sendo eles próprios produtos históricos, podem ser utilizados para discriminarmos entre afirmações válidas e inválidas". Por outro lado, ele reintroduz a subjetividade dentro dessa pretendida objetividade, ao enfatizar a capacidade inventiva dos indivíduos e das comunidades, que, como os artistas que criam obras singulares dentro das constrições de regras, gêneros e tradições, são capazes de transcender as normas e convenções destinadas a limitar o que podem e devem fazer. Em outras palavras, o contexto histórico não é unificado e estável, mas constituído por uma pluralidade de vozes, enquanto o indivíduo e suas produções não são meros produtos passivos do contexto, mas também agentes transformadores desse contexto. Ao mesmo tempo, Chartier insiste que os textos não têm sentido fixo, imutável e universal, pois o significado é sempre negociado entre uma proposta (pelo autor) e uma recepção (pelo leitor). Assim, o historiador francês registra sua simpatia pelo chamado novo historicismo, representado por críticos literários como Stephen Greenblatt, Louis de Montrose, Steven Mullaney e outros, para os quais, usando as palavras de Greenblatt, "a obra de arte é o produto de uma negociação entre um criador ou uma classe de criadores e as instituições e práticas da sociedade".

À semelhança de White e Chartier, Dominick LaCapra (1985, 1983) se ocupa também do relacionamento entre ficção e história. Enfatizando o papel da textualidade tanto na escrita quanto no conhecimento do passado, LaCapra discute a questão da preemi-nência da concepção documentarista da comprensão histórica, ao reconhecer que, enquanto textos, os próprios documentos já constituem uma mediação da realidade. LaCapra desconstrói o binômio texto/contexto, mostrando como estamos sempre implicados na linguagem, isto é, a reconstrução histórica de qualquer contexto se dá em meio às sobras textualizadas do passado. LaCapra, à semelhança de White, acentua a opacidade dos documentos e questiona a possibilidade de uma completa neutralidade doinvestigador, sugerindo, ao contrário, que a historicidade do próprio historiador exerce inevitavelmente um papel fundamental nas perguntas que ele levanta bem como nas respostas que propõe. É preciso ressaltar que LaCapra não nega o valor do modelo documental, que considera, aliás, como uma condição necessária da prática da história. Entretanto, insiste na necessidade de se considerar também a dimensão retórica da historiografia. Para LaCapra, a retórica não é um mero uso instrumental da linguagem, mas envolve uma compreesão dialógica do discurso e da verdade, que questiona a possibilidade de qualquer relato totalizador e completamente objetivo do passado. Ele acusa os historiadores de serem, em geral, maus leitores, porque lêem textos como simples fontes de informação sobre um determinado conteúdo, esquecendo que os mesmos são eventos históricos, relacionados com outros eventos e contextos, e, portanto, geradores de complexos problemas de interpretação. LaCapra insiste, assim, na necessidade de um método dialógico (no sentido bakhtiniano) para se interpretar o passado.

Um dos problemas para LaCapra (1985, pp. 126, 132) é, portanto, encontrar alternativas para o uso meramente documental ou neopositivista de textos literários. Ele se interessa em particular pelo romance, queixando-se de que, em geral, quando o historiador utiliza o romance, o faz de maneira simplista, em que o romance é visto como mero documento de um fato passado: "A literatura torna-se redundante quando nos diz o que pode ser colhido em outras fontes documentais." Acreditando que qualquer texto também suplementa aquilo que representa, e que a ficção é sempre penetrada pela realidade exterior, LaCapra propõe que a literatura oferece algo de único para o investigador do passado. Assim, aproxima-se de Chartier ao acentuar o elemento crítico e transformador da ficção, e ao reconhecer, sempre dentro de uma linha bakhtiniana, a capacidade que possui o romance de incorporar vozes contestatórias e contradiscursos. Para LaCapra, o romance pode ser até mesmo um modelo a ser seguido pelo historiador: "Uma diferente maneira de se ler romances poderá nos alertar não só para as vozes contestatórias e os contradiscursos do passado mas também para os modos como a historiografia se poderá tornar uma voz mais crítica dentro das ‘ciências humanas’."

Levantando-se tanto contra a crítica formalista e estruturalista, que via os textos como autônomos, quanto contra as abordagens positivistas ou neopositivistas, que consideravam o literário como reflexo do histórico, o novo historicismo das décadas de 1980 e 1990 reconfigura o relacionamento entre os textos e os contextos em que foram produzidos. Os novos historicistas rejeitam o conceito de um zeitgeist homogêneo, unificado e coerente, insistindo, ao contrário, que a sociedade oferece a todo momento um estoqueheterogêneo, polivalente e contraditório de crenças, códigos e costumes, com os quais os indivíduos estabelecem relações neces-sariamente complicadas. Enquanto sujeito social, o indivíduo é ao mesmo tempo iniciador de ações e dependente de uma rede complexa de instituições e normas, cuja existência presente e história passada transcendem sua compreensão e seu controle. A partir dessa concepção do relacionamento entre indivíduo e sociedade, torna-se impossível assumir uma posição de completa objetividade, como pretende a historiografia e a crítica literária herdadas do século XIX. Na medida em que é um ser social, o historiador, como aliás o escritor, o artista e o crítico, está inevitavelmente situado dentro dessa complexa rede de relações sociais, nas quais sujeito e objeto se encontram, se confrontam e se entrelaçam. Ao mesmo tempo, a história não é vista como uma reconstrução indisputável e acabada do que realmente aconteceu, mas como um texto mediado pela subjetividade do historiador, isto é, uma representação parcial, e portanto, aberta ao mesmo escrutínio interpretativo que um texto literário. Os novos historicistas contestam qualquer explicação totalizante de um período, enfatizando que há sempre uma variedade de atividades aparen-temente contraditórias acontecendo a qualquer momento. Assim, para eles a literatura nunca será um mero reflexo da história. Ao contrário, o novo historicismo propõe que a história e a literatura se alimentam uma da outra, e são duas maneiras igualmente válidas de representar as relações sociais e históricas. Como explica Mullaney (1996, p. 163),

o literário não é assim concebido nem como um campo estético nem como um produto cultural separado e separável —um reflexo de idéias e ideologias produzidas alhures — mas como um campo entre outros para a negociação e produção de significado social, dos sujeitos históricos e dos sistemas de poder que ao mesmo tempo abrem possibilidades para esses sujeitos, e as restringem.

Os sertões: entre a história e a ficção

Quando Euclides da Cunha (1996, II) toma da pena para escrever Os sertões, sua intenção não é produzir uma obra ficcional. Como revela a ‘Nota preliminar’, mesmo quando o livro transborda seu objetivo inicial, que "se resumia à história da Campanha de Canudos", Euclides continua trabalhando sob a égide de Clio. Ao afirmar que escreve "ante o olhar de futuros historiadores", Euclides já no terceiro parágrafo se situa firmemente na tradição historiográfica, enquanto no sexto confessa sua crença numa impessoal "força motriz da história". Insistindo que seu propósito

é buscar a verdade, como assinala a citação com que fecha a nota introdutória, Euclides assume a postura que, segundo Chartier, é essencial para diferenciar o historiador do ficcionista.2 Além disso, ao mencionar Gumplowicz e Taine, e ao fazer referência ao conceito de "sub-raças" e à tese social-darwinista do "esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes", Euclides revela sua dívida para com o mainstream do pensamento histórico-científico europeu da segunda metade do século XIX.

Entretanto, a ‘Nota preliminar’ contém vários elementos que des-estabilizam essas aparentes certezas. A objetividade, impessoalidade e distância, tradicionalmente vistas desde o final do século passado como requisitos para a pesquisa histórica, são pelo menos parcialmente abandonadas pela adoção de um ponto de vista coletivo, "nós filhos do mesmo solo", através do qual Euclides se historiciza como membro, ainda que relutante, das elites que, parafraseando Anderson (1983), imaginam a nação brasileira. Reminiscente do nacionalismo de José de Alencar e Gonçalves Dias, esse ponto de vista coletivo seria, em princípio, mais apropriado ao poema épico ou à literatura de fundação romântica, do que à narrativa histórica de inspiração positivista, que aspirava à impessoalidade e à objetividade. Além disso, a citação escolhida por Euclides para defender seu método de escrita é não uma descrição do labor específico do historiador, mas sim uma vaga definição oferecida por Taine — ele mesmo um autor de história literária — do que faz o "narrador sincero" ao construir seus textos. Finalmente, ao referir-se à campanha de Canudos como um "crime", Euclides assume uma posição crítica e moral praticamente antagônica à objetividade supostamente científica e moralmente neutra expressa no conceito do "esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes", ao qual havia aludido apenas três parágrafos antes. Começando por demonstrar a hegemonia de poderosas idéias européias no ambiente intelectual brasileiro da segunda metade do século XIX, a nota acaba, porém, por introduzir uma perspectiva alternativa, que já sugere em embrião o que as crescentes contradições em Os sertões vão revelar: que o arcabouço ideológico importado da Europa, ao qual Euclides parecia inicialmente se curvar, vai se mostrar insuficiente para seus propósitos.3 Dessa forma, desde o início Os sertões, confirmando a proposição de LaCapra sobre a historiografia, mantêm um relacionamento dialógico4 com o contexto ideológico em que se inserem.

Dentro da estrutura tríplice de Os sertões, livro no qual geografia e história são duas faces da mesma moeda, a primeira parte, ‘A terra’, é concebida como a etapa inicial dentro de um grande esquema destinado a explicar como os eventos de Canudos seriam um produto inevitável do meio sertanejo e do ‘Homem’ (título dasegunda parte) que ali fincou suas raízes. Nesse esquema, a primeira parte pretendia ser um relato neutro de observações precisas sobre a geologia, a hidrografia, a orografia e a climatologia do sertão, destinado a reconstruir a ‘história’ do ambiente físico em que ‘A luta’ (título da terceira parte) entre o sertanejo e as tropas republicanas teria lugar. Em consonância com esse esquema, o primeiro capítulo de ‘A terra’ começa com uma descrição deliberadamente objetiva da geografia física brasileira.5 Gradualmente, entretanto, a linguagem conceitual abre espaços para a linguagem figurada. Por exemplo, já no segundo parágrafo, a descrição dos acidentes geográficos da orla marítima entre Rio de Janeiro e Espírito Santo culmina num símile que introduz uma nota de dramaticidade: "à maneira de escombros do conflito secular que ali se trava entre os mares e a terra". Mas é no final do quinto parágrafo que aparece uma passagem realmente surpreendente: "A terra sobranceia o oceano, dominante, do fastígio das escarpas; e quem a alcança, como quem vinga a rampa de um majestoso palco, justifica todos os exageros descritivos — do gongorismo de Rocha Pita às extravagâncias geniais de Buckle — que fazem deste país região privilegiada, onde a natureza armou a sua mais portentosa oficina."

O que chama especial atenção aqui não é tanto a referência às "extravagâncias geniais" de Henry Thomas Buckle (1821-62), cujo projeto de uma história científica fundamentada numa série de ‘leis’, entre as quais figura proeminentemente o determinismo do meio sobre o homem, exerce, naturalmente, uma enorme influência no pensamento de Euclides, quanto a inesperada conexão entre as idéias do autor de History of civilization in England e a retórica barroca de Sebastião da Rocha Pita (1660-1738) na História da América portuguesa. Se por um lado, ao mencionar Buckle, Euclides assinala sua dívida para com o cientificismo europeu oitocentista, por outro, ao mencionar Rocha Pita, reconhece que para levar a cabo seu empreendimento a objetividade científica não basta. Euclides procura conciliar os modelos de Buckle e Rocha Pita, sugerindo que as próprias condições singulares do meio físico brasileiro, levantadas de acordo com critérios objetivos, condicionam a busca da verdade histórica à redescoberta de um estilo inventado pelos textos que primeiro definiram a monumental singularidade da terra brasileira. Em realidade, porém, o "narrador sincero" tem à sua frente uma tarefa paradoxal: articular o determinismo de Buckle, baseado em leis impessoais, com o ufanismo gongórico de Rocha Pita, baseado numa visão subjetiva da grandiosidade do Brasil e em escolhas estilísticas altamente idiossincráticas. Ao mover-se na direção do conceito do excep-cionalismo brasileiro, particularmente ao admitir seu assombro perante a supostamente única e estupenda natureza brasileira, Euclides, apesar de positivista e republicano, não só aparece como um herdeiro dos nossos primeiros cronistas, mas se revela mais uma vez como um continuador do projeto dos românticos. O que é, contudo, ainda mais importante para os propósitos deste ensaio, ao tentar conciliar o cientificismo universalista de Buckle com o barroquismo nacionalista de Rocha Pita, Euclides mostra que seu método narrativo repousa na interpenetração do sistema que informa o cientista com o que rege o artista. À medida que a subjetividade e a retórica penetram na pretendida objetividade e sobriedade científicas, o texto de Euclides começa a deslizar entre o histórico e o ficcional.

O penúltimo segmento do primeiro capítulo da seção ‘A terra’, intitulado ‘Primeiras impressões’, se abre com uma frase que exemplifica perfeitamente o dilema euclidiano: "É uma paragem impressionadora." O ponto de partida da frase é a aparente certeza de que a paisagem física pode ser definida com precisão e objetividade. Em outras palavras, quando iniciamos a leitura da frase, ouvimos a voz de alguém que acredita ser possível dizer objetiva, impessoal e precisamente o que aquela paragem é. Entretanto, o ponto de vista impessoal rapidamente cede lugar à perspectiva de um observador que se envolve com o que pretende descrever, como sugere o adjetivo "impressionadora", com o qual a frase se fecha. O movimento da objetividade para a subjetividade, microcosmicamente identificado nessa passagem, se reproduz macrocosmicamente no segmento considerado como um todo. O parágrafo final menciona explicitamente um observador cujas impressões são comunicadas por meio da alegoria do sertão como um antigo mar, que aliás expande uma imagem já presente em O sertanejo de Alencar,6 e que vai reaparecer transformada em profecia no discurso milenarista do próprio Antônio Conselheiro:7 "E por mais inexperto que seja o observador — ao deixar as perspectivas majestosas, que se desdobram ao Sul, trocando-as pelos cenários emocionantes daquela natureza torturada, tem a impressão persistente de calcar o fundo recém-sublevado de um mar extinto, tendo ainda estereotipada naquelas camadas rígidas a agitação das ondas e das voragens."

Essa imagem do mar que vira sertão, mas deixa neste suas marcas, está em consonância com o transformismo (Lima, 1989, pp. 220-36) que constitui o alicerce do pensamento histórico e sociológico de Euclides. Influenciado pelo evolucionismo, Euclides concebe o mundo como em constante processo de transformação e luta perene pela sobrevivência, como não deixa dúvida o terceiro parágrafo deste segmento: "As forças que trabalham a terra atacam-na na contextura íntima e na superfície, sem intervalos na ação demolidora, substituindo-se com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região." Há uma grande diferença, contudo, entre descrever o sertão com termos científicos, tais como "assomadas gnáissicas", e representá-lo metaforicamente como "um recém-sublevado mar extinto" ou como "mares de pedra", expressão que aparece no quarto parágrafo. Pode-se dizer, portanto, que o texto transita entre o ontológico e o afetivo, entre o objetivo e o subjetivo, entre o científico e o poético, e, em última instância, entre o histórico e o ficcional. Ao reconstruir a história de Canudos, Euclides utiliza tanto a terminologia científica quanto a tropologia literária, ao mesmo tempo que não consegue evadir o choque de opostos. O segmento em questão, aliás, é construído em grande parte com base em contrastes — objetividade e subjetividade, interior e exterior, movimento e repouso, espaço e tempo — como ilustra o segundo parágrafo:

As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os rebentos das montanhas; todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça — dispondo-se em cenários em que ressalta, predominante, o aspecto atormentado das paisagens.

Ainda mais significativo é que no texto de Euclides os opostos se contaminam mutuamente, na procura de um equilíbrio que permanece, contudo, instável e precário: "Dissociam-na nos verões queimosos: degradam-na nos invernos torrenciais. Vão do desequilíbrio molecular, agindo surdamente, à dinâmica portentosa das tormentas. Ligam-se e completam-se. E consoante o preponderar de uma e outra, ou o entrelaçamento de ambas, modificam-se os aspectos naturais."

Mediadora de opostos, a natureza sertaneja funciona como um microcosmo dos contrastes que Euclides aponta como constituindo a trágica realidade do Brasil, dividido entre Norte e Sul, litoral e sertão, poderosos e marginalizados. Dessa forma, Euclides, que, conforme demonstramos, era um apreciador dos primeiros cronistas e leitor dos românticos, revê a visão utópica elaborada por aqueles e desconstrói o estereótipo criado por estes de uma natureza benfazeja, um dos elementos essenciais do complexo ideológico que rege o pensamento das elites brasileiras do século XIX.8

Todavia, é no grande livro da natureza que lições importantes vão ser aprendidas. Aquele equilíbrio que só se pode atingir através do embate de opostos, é, para Euclides, que afirmou em capítulo posterior que "a nossa história traduz notavelmente estasmodalidades mesológicas", uma imagem do processo histórico brasileiro no século passado. Expliquemo-nos. Os trabalhos fundamentais de José Murilo de Carvalho, Emília Viotti da Costa e Richard Graham mostraram que o projeto nacional das elites brasileiras, no século passado, repousava na idéia da construção de uma ordem. No entanto, sabemos que a ordem construída pelas elites, embora apresentada oficialmente como um produto espontâneo e natural do caráter nacional brasileiro, supostamente marcado pela benevolência, cordialidade e preferência pela conciliação, dependia, na realidade, da cooptação, do controle e da marginalização de largos segmentos da sociedade brasileira. Como demonstra Sevcenko (1983, p. 210), Euclides tinha profundas diferenças de opinião com esse projeto. Tendo aprendido com a natureza sertaneja que qualquer equilíbrio é precário e que, além disso, é resultado não de uma acomodação, mas de um combate entre forças opostas, porém igualmente poderosas, Euclides formula uma nova concepção de ordem, esta sim autenticada por uma relação sincera com o ambiente natural brasileiro. Essa ordem, que reconhece e enfatiza contrastes e oposições, constitui uma alternativa à visão hegemônica das elites.9 Em outras palavras, o enredo10 construído por Euclides para representar sua cosmovisão coloca em questão a fábula construída pelas elites.

Ressalta também na passagem citada anteriormente o uso da antropomorfização, à qual Euclides recorre em várias outras partes do segmento. Por exemplo, no parágrafo seguinte declara que as paisagens "denunciam ... o martírio secular da terra" e mais tarde fala dos "espessos lastros de seixos e lajes fraturadas, delatando idênticas violências". Assim, à semelhança do "narrador sincero", que é levado a apontar o suposto crime perpetrado contra os sertanejos, os acidentes geográficos ‘denunciam’ a violência cometida contra a natureza, e, à semelhança dos sertanejos, o meio físico do sertão é visto também como vítima inocente de um "martírio".11 Como já sugerimos, Euclides nunca rejeita os fundamentos científicos de sua época, incluindo a idéia de que os seres humanos são produtos do meio em que vivem. Todavia, a ficcionalização da natureza sertaneja, transformada numa verdadeira personagem através da antropomorfização, permite a Euclides reconfigurar imaginariamente o relacionamento entre o ambiente e o homem. Se em teoria é o meio que determina as ações humanas, agora o meio se transforma em contato com o homem, assumindo até mesmo características humanas. Desde o início, portanto, o livro constrói, através de processos ficcionais, uma alternativa para o determinismo mesológico, que no curso de Os sertões vai se tornando cada vez mais problemático e insuficiente como explicação dos eventos de Canudos. Tal como as metáforas com que o segmento se encerra, a antropomorfização não é um meroartifício retórico, mas uma escolha formal indispensável para que Euclides possa construir sua versão da história de Canudos, e através dela comunicar sua visão sobre o sertão e o Brasil. Podemos concluir, portanto, que Euclides, mesmo acatando vários dos seus preceitos, reconhece as limitações da história positiva e da ciência de sua época para discorrer sobre um Brasil que avulta cada vez mais singular e paradoxal, e, portanto, recorre à ficção a fim de compensar aquelas insuficiências.

Conclusão

Os processos descritos não se restringem à primeira parte, mas repetem-se por todo o texto de Os sertões, intensificando-se na segunda e terceira partes. O arcabouço intelectual herdado da Europa oferece a Euclides os fundamentos para delinear as linhas mestras de sua investigação sobre Canudos. Entretanto, as características universais daquele pensamento tornam-se insuficientes para Euclides, cujo projeto é prioritariamente nacional. A excepcionalidade do sertão (e, por extensão, do Brasil) desafia os próprios fundamentos da ciência. Assim, "não observamos (a seca) através do rigorismo do processo clássico, mas graças a higrômetros inesperados e bizarros", enquanto os ciclos climáticos do sertão "recordam o desdobramento de uma lei natural ignorada". O conhecimento científico existente se revela precário para lidar com a singularidade do sertão: "Nenhum pioneiro da ciência suportou ainda as agruras daquele rincão sertanejo, em prazo suficiente para o definir." Por isso, o sertão "até hoje desconhecido, ainda o será por muito tempo".

A ficcionalização é intrínseca ao texto de Os sertões porque só através dela o autor pode aprofundar sua indagação e começar a imaginar possíveis soluções para as contradições que sua pesquisa historiográfica vai descobrindo, inclusive as limitações da ciência importada dos grandes centros culturais para representar a realidade do sertão. Dessa forma, podemos ler o recurso à ficção como uma alternativa ao processo de colonização intelectual do Brasil pela Europa, e uma afirmação da diferença nacional. Não deve surpreender, portanto, que Euclides vá buscar nos primeiros cronistas e em ficcionistas brasileiros como Alencar seus modelos literários. Finalmente, uma leitura de Os sertões como um texto que transita entre o conceitual e o simbólico permite penetrar mais profundamente na complexa visão euclidiana do processo histórico brasileiro.

Em Os sertões, história e ficção nunca se opõem, mas, antes, se completam e se iluminam. Enquanto construção do sertão, do sertanejo, dos eventos de Canudos e finalmente de um verdadeiro ‘retrato do Brasil’,12 o texto euclidiano revela a contigüidade entrehistória e ficção apontada por White, Chartier e LaCapra. Ao mesmo tempo, como sugerem não só estes historiadores, mas também os teóricos do novo historicismo, o texto de Os sertões demonstra que a ficção não é mero reflexo de um contexto histórico-cultural, que supostamente a precede e prefigura, mas possui a capacidade de criar alternativas que suplementam e reconfiguram aquele contexto. Na visão euclidiana o sertão, o sertanejo e os eventos de Canudos se situam num espaço geográfico, histórico e imaginário de limites imprecisos e contornos contraditórios, codificados em imagens como terra ignota, centauro-bronco, ou Tróia de taipa. Não há dúvida de que a intenção de Euclides é buscar a verdade. Entretanto, reconhece que a verdade reside numa zona de fronteiras indefinidas, acessível somente nos interstícios entre a história e a ficção.


Notas

1 O retorno à história é amplamente documentado na antologia The historic turn in the human sciences, de cujo título traduzimos a expressão "guinada histórica". O volume é resultado de um simpósio com o mesmo nome, realizado na Universidade de Michigan no início da década de 1990.

2 Seria bom notar que no seu discurso de posse na ABL, Euclides, referindo-se às suas reações quando do primeiro encontro com o rio Amazonas, não deixa dúvida quanto à sua filiação intelectual (1966, I, p. 206): "O caso que vos citei é expressivo. Delata que me desviei, sobretudo, dessa literatura imaginosa, de ficções, onde desde cedo se exercita e se revigora o nosso subjetivismo, tão imperioso por vezes que faz do escritor um minúsculo epítome do universo, capaz de o interpretar a priori, como se tudo quanto ele ignora fosse apenas uma parte não vista de si mesmo."

3 Com intenções diferentes das nossas, Sevcenko (1983, pp. 122-3) mostra que, apesar de sintonizado com as principais correntes de pensamento de seu tempo, Euclides tem consciência de que não pode resolver todas as questões que sua obra pretende atacar. Referindo-se tanto a Euclides quanto a Lima Barreto, Sevcenko afirma o seguinte: "A busca de inserção da sociedade brasileira numa ordem humanitária sem fronteiras trazia porém um outro problema de importância crucial para os autores: a questão nacional ... . Mas sobretudo revelava-se nas suas obras o mesmo empenho em forçar as elites a executar um meio giro sobre seus próprios pés e voltar seu olhar do Atlântico para o interior da nação, quer seja para o sertão, para o subúrbio ou para o seu semelhante nativo, mas de qualquer forma para o Brasil e não para a Europa."

4 Bakhtin (1981, p. 279), aliás, acreditava que o dialógico era intrínseco à condição histórica, e por isso estava presente em qualquer forma de discurso: "The dialogic orientation of discourse is a phenomenon that is, of course, a property of any discourse. It is the natural orientation of any living discourse. On all its various routes toward the object, in all its directions, the word encounters an alien word and cannot help encountering it in a living, tension-filled interaction. Only the mythical Adam, who approached a virginal and as yet verbally unqualified world with the first word, could really have escaped from start to finish this dialogic inter-orientation with the alien word that occurs in the object. Concrete historical human discourse does not have this privilege: it can deviate from such inter-orientation only on a conditional basis and only to a certain degree."

5 Em uma carta a José Veríssimo, datada de 3 de dezembro de 1902, Euclides (1996, I, p. 621) expressa a necessidade de um embasamento científico, mesmo quando se quer produzir uma obra de arte: "Eu estou convencido que a verdadeira expressão artística exige, fundamentalmente, a noção científica do caso que a desperta — e que, nesse caso, a comedida intervenção de uma tecnografia própria se impõe obrigatoriamente — e é justo que se não exagere ao ponto de dar um aspecto de compêndio ao livro que se escreve."

6 "Nem era preciso mais, tão forte é a seiva desses pastos, saturados do sal que ali deixaram as águas do oceano, quando cobriram toda a vastíssima região" (Alencar, 1959 , III, p. 1.127). Para uma perceptiva análise de outros elos literários entre Euclides e Alencar, particularmente a representação do sertanejo, seria útil consultar Bernucci (1995, pp., 19-24).

7 "Em 1896 há de rebanhos mil correr da praia para o sertão; então o sertão virará praia e a praia virará sertão" (Cunha, 1966, II, p. 208).

8 A relação entre o texto euclidiano e os textos dos primeiros cronistas e dos românticos é parodística, entendida aqui a paródia como uma combinação de distanciamento crítico com apreciação, como demonstrou convincentemente Bakhtin (1984, p. 127): "Parody here was not, of course, a naked rejection of the parodied object." Essa visão da paródia é retomada por vários críticos contemporâneos, tais como E. Greene (1982, p. 46), que propõe que "toda imitação criativa mistura rejeição filial com respeito, assim como toda paródia presta sua própria homenagem oblíqua" e Hutcheon (1985, p. 20), que considera a paródia "como um método de marcar continuidade e ao mesmo tempo permitir distância".

9 Ao fazer isso, Euclides é, a nosso ver, um continuador de José de Alencar, cujos romances de fundação revelam as contradições do pensamento das elites brasileiras no século XIX, e contêm elementos que surpreendentemente colocam em questão uma parte importante do seu projeto. Ver Valente (1993).

10 White (1973) insiste que uma das semelhanças mais importantes entre o historiador e o ficcionista é que ambos comunicam suas visões através da construção de enredos (emplotment).

11 A primeira parte do livro termina, significativamente, com as seguintes frases: "O martírio do homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da Vida. Nasce do martírio secular da Terra..."

12 Sob este aspecto, poderíamos ver Euclides como um precursor de um verdadeiro gênero dentro da história intelectual brasileira do século XX, exemplificado em obras de Paulo Prado, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e outros.

 

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