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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5  suppl.0 Rio de Janeiro July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701998000400004 

 

 

 

A ontologia discursiva de

Os sertões

The discursive ontology of

Os sertões

 

 

 

 

 

 

Leopoldo M. Bernucci

Doutor em literatura latino-americana pela Universidade de Michigan, professor na Universidade de Boulder, no Colorado.
McKenna Languages Building Campus Box 278, Boulder, Co., 80309-0278 — USA
E-mail: bernucci@spot.colorado.edu

 

 

 

BERNUCCI, L. M.: ‘A ontologia discursiva de Os sertões’.

História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. V (suplemento), 57-72 julho 1998.

Este artigo discute atributos de Os sertões, analisando sua ontologia discursiva, em particular os aspectos ligados às narrativas imaginárias e literárias. Mostra que a principal obra de Euclides conjuga pelo menos dois modos discursivos: o das ciências e um outro que caracteriza as narrativas sobre realidades imaginárias e literárias. Trechos são destacados com o objetivo de demonstrar que na sua construção híbrida participam elementos que poderiam pertencer tanto à ficção como à historiografia. Apoiando-se em Hayden White, o autor contempla três modos interpretativos da história de Canudos em Os sertões: o argumentativo, o explicativo e o ideológico. Finalmente, realiza breve comparação com A guerra do fim do mundo, de Vargas Llosa, quanto ao modo e a seqüência como são narrados os fatos.

PALAVRAS-CHAVE: Euclides da Cunha, Os sertões, crítica literária, literatura brasileira, Canudos, Mario Vargas Llosa, A guerra do fim do mundo.

 

 

BERNUCCI, L. M.: ‘The discursive ontology of Os sertões’.

História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. V (supplement), 57-72 July 1998.

This analysis of the discursive ontology of Os sertões is particularly concerned with the book’s imaginary and literary narratives. Cunha’s main work combines at least two discursive styles: the discourse of the sciences and the discourse that characterizes narratives dealing with imaginary and literary realities. Selected excerpts show how the hybrid construction of Os sertões relies on elements which may belong to the realm of either fiction or historiography. Based on the ideas of Hayden White, the article detects three ways in which Os sertões interprets the history of Canudos: argumentative, explanatory, and ideological. The text ends with a brief comparison of the narration and sequencing of facts in Vargas Llosa’s La guerra del fin del mundo and Cunha’s Os sertões.

KEYWORDS: Euclides da Cunha, Os sertões, rebellion in the backlands, literary criticism, Brazilian literature, Canudos, Mario Vargas Llosa, La guerra del fin del mundo, The war of the end of the world.

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1 Esta definição interessa sobretudo ao campo dos estudos literários, onde o narrador de um conto ou de um romance é sempre tratado como um ser diferente do seu autor. Fica fácil, portanto, ver como as normas historiográficas contrariam esta regra, segundo a qual, por exemplo, o narrador de Histoire de France é o próprio Michelet.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Todas as citações do presente trabalho provêm da edição crítica de Os sertões (Galvão, 1985).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 Alguns desses modos de narrar seriam o relato em primeira e terceira pessoas, os diálogos entre personagens, quadras populares, lendas e milagres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4 Como definição de um tipo de representação de acontecimentos históricos, o sentido dado à mimese aqui é intencionalmente amplo, pois pretende incluir tanto os relatos históricos poéticos quanto os poemas históricos, sem que o processo da criação literária fosse concebido sob o pendor da originalidade. A questão, todavia, tem um alcance bem maior e insistir nela levaria a desviar-nos do assunto principal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução: o ecletismo de Os sertões

Quaisquer considerações traçadas em torno do problemático eixo história-ficção devem, a meu ver, ter em conta duas noções básicas para distinguir os atributos daquele e para dissipar possíveis equívocos: as noções de ficcionalidade e literariedade. Se é verdade que ao falarmos de história e ficção, pensamos a primeira como disciplina ou locus de conhecimento em que o passado é submetido a análises ou estudos rigorosos, e a segunda, por sua vez, a compreendemos como gênero (K. Hamburger) ou status ontológico atribuível à maioria dos textos chamados literários. É uma forma prática de diferenciar os componentes do par que serve de título ao presente trabalho, mas que infelizmente não resolve, pelo menos em nível filosófico, a inadequação no juntar as duas coisas. O que ocorreria, então, se contemplássemos agora outra possibilidade talvez melhor ajustada às categorias sugeridas: história-literatura? Primando ainda por uma inevitável e mútua negação, o novo par também não pode ser visto como simples dualidade; é muito mais que isso, porque somos forçados a pensá-lo como dicotomia, mas dicotomia cujos termos contrários possuem zonas de contato entre si. O motivo de procedermos assim, quando examinamos de perto o problema da ontologia discursiva, é o que proponho discutir aqui, tendo como base o grande livro de Euclides da Cunha.

Se nem todas as obras ficcionais devem ser consideradas literárias (i.e., as histórias em quadrinhos, o cinema, os contos de fada), é porque o critério de ficcionalidade estaria determinado não, como quer um crítico, pelo maior ou menor ‘grau’ de uma certa "subjetividade selecionadora, capaz ou não de transgredir seu caráter de discurso da realidade e, [portanto], de convertê-lo em discurso ficcional" (Costa Lima, 1984, p. 224). E se o critério não for esse, como entender, então, que Os sertões podem ser lidos como um livro de história, um tratado de sociologia, um estudo geológico, enfim, como obra em que os pressupostos científicos, empíricos e objetivos, reclamados pelo rigor metodológico que normalmente caracteriza esses tipos de texto, estariam ostensivamente regulando o seu discurso? A despeito das estreitas relações intertextuais entre Os sertões e a obra ficcional de Victor Hugo (Quatrevingt-treize), Afonso Arinos (Os jagunços), e apesar ainda das múltiplas narrações imaginárias que Euclides ali insere, esta "Bíblia da nossa nacionalidade", como assim o chamou Nabuco, definitivamente não pode ser considerada ficcional.

Porém, antes de nos aprofundarmos no assunto, procurarei muito brevemente definir melhor dois termos aqui abordados; ficcionalidade e literariedade. O primeiro, se seguirmos a elaboração teórica já dada pela crítica (W. Mignolo), entende-se como uma propriedade atribuída aos discursos conforme um certo conhecimento que temos das convenções no uso da linguagem, que nos permite então distinguir a ficção da mentira, do erro e da verdade. A principal marca distintiva para o reconhecimento da conformidade da convenção de ficcionalidade é a não-co-referencialidade entre narrador e autor.1 O segundo termo, por seu turno, é uma propriedade atribuída a um dado discurso conforme um certo conhecimento que temos das normas institucionais, através das quais se decide se um discurso é ou não literário. Tais normas se baseiam, entre outros, em critérios genéricos, lingüísticos e estilísticos (Searle, 1975, pp. 319-32).

Sendo menos densa a noção de literariedade, quando aplicada a Os sertões ela nos faz reconhecer, por exemplo, que numa primeira instância o parecer encomiástico de José Veríssimo (1902, p. 45) positivamente problematizou a questão ontológica que interessa ao livro e, depois, trouxe o seu autor à galeria dos notáveis literatos. Vejamos como esse juízo foi elaborado:

O livro, por tantos títulos notável, do Sr. Euclides da Cunha é ao mesmo tempo o livro de um homem de ciência, um geógrafo, um geólogo, um etnógrafo; de um homem de pensamento, um filósofo, um sociólogo, um historiador; e de um homem de sentimento, um poeta, um romancista, um artista, que sabe ver e descrever, que vibra e sente tanto aos aspectos da natureza como ao contato do homem, e estremece todo, tocado até ao fundo da alma, comovido até às lágrimas, em face da dor humana, venha ela das condições fatais do mundo físico, as "secas" que assolam os sertões do Norte brasileiro, venha da estupidez ou maldade dos homens, como a campanha de Canudos.

Importa para a compreensão do fenômeno ora estudado a observação que faz Veríssimo do saber ver e descrever. Uma vez que as bases científicas de Euclides foram assentadas, procurou-se ressaltar nele a sensibilidade do poeta, confirmando para a história literária a presença incomum daquela personalidade vibrante frente à natureza e à tragédia histórica e capaz de transformar os fatos em verdadeiros painéis artísticos de onde os sentimentos universais de dor, loucura, paixão e amor se desprendem. Pôde ainda Euclides converter aqueles quadros da natureza estudados por Spix e von Martius em magníficas paisagens que somente através da sua representação conseguiam assim ser humanizados.

Não causa nenhuma surpresa notar que depois de Veríssimo a crítica continuou lendo o livro nessas duas claves, a da ciência e a da arte, que por certo foram assimiladas em forma de consórcio em praticamente tudo o que Euclides escreveu, ou seja, em Os sertões e nas obras posteriores. Todavia, nada estaria indicando, com absoluta segurança, que o autor assim estivesse ‘elaborando’ a sua poética narrativa para seguir conscientemente certos passospreviamente delineados, mas fica a impressão de que num dado momento, entre as muitas contradições do seu pensamento, uma estrela-guia deveria ser colocada no horizonte do polígrafo que era dado a inventar, mas sempre com conhecimento de causa. É assim que ele se expressa ao definir o processo discursivo adotado para suas obras: "Eu estou convencido que a verdadeira impressão artística exige, fundamentalmente, a noção científica do caso que a desperta..." (E. da Cunha, 1966, p. 621.)

Seja por via direta ou analógica, antes de falar de Os sertões como obra de ficção, será preciso entendê-la como a feliz conjunção de pelo menos dois modos discursivos. Para simplificar a nossa exposição chamemos um deles o das ciências, e o outro, aquele que tipicamente prevalece nos discursos ficcionais literários. Deixarei de lado, por um momento, o discurso da história para retomá-lo mais adiante.

Digamos que no primeiro se aspira à objetividade do contar, ao rigor dos dados coletados, às citações corretas dos livros de pesquisa; e que no segundo, a imaginação do autor se empenha em preencher as frinchas das narrativas históricas, alterar, se necessário, as qualidades particulares dos homens e dos objetos com vistas a despertá-los do estado inerte em que se encontram subjugados pelos fatos. Portanto, traço predominante de Os sertões, o seu caráter científico, em sentido lato, não deixa porém de compartilhar um espaço textual com as inserções provindas, não necessariamente da ficção, mas do imaginário. Estas, como alguns já assinalaram, estariam autenticadas pelas elaborações do estilo e da sintaxe, ou ainda pelas extraordinárias cenas do épico cami-nhando paralelamente aos tétricos quadros do trágico. Mas em que consiste na verdade a presença do imaginário em Os sertões? Se, por um lado, seguirmos cuidadosamente a configuração do sertanejo que nos apresenta Euclides (‘O homem’, terceira parte), veremos que está guiada por pressupostos retóricos, sobretudo no jogo das antíteses que exercita o autor. O sertanejo é forte de espírito e fraco de físico. Eis aí a projeção de uma fórmula bipolar que será válida tanto para a descrição dos fenômenos naturais como para a dos jagunços. Dentro desta dinâmica da dupla valia, é possível observar ainda que Euclides fará o mesmo com a caracterização física de Antônio Conselheiro e Moreira César. Trata-se da fôrma de uma única máscara pintada com idênticas cores e obedecendo a motivações retóricas dos fortes contrastes. Para o Conselheiro, a pele macerada, a "palidez quase cadavérica" e a "face morta, rígida como uma máscara, sem olhar e sem risos". Para Moreira César, a palidez da "face imóvel como um molde de cera" (pp. 219, 252, 322).2

Se pelo contrário prestarmos atenção à maneira como Euclides narra episódios de batalhas em que os jagunços que atiravameram, numa primeira instância, "combatentes avaros no contar, um a um, os cartuchos, timbrando em não perderem um único" (p. 412) e mais tarde, guerreiros que não poupavam sua munição (p. 530), encontraremos sem dúvida uma flagrante contradição. O que fazer ainda com a posição do narrador que inicialmente declara ter Antônio Conselheiro passado de trabalhador a vadio, quando depois de algumas páginas adiante vemos o asceta empreendido na tarefa incansável de construir igrejas, as quais, num dado momento, podiam ser "elegantes" e "belíssimas" (pp. 220-7), e em outros, "pesadas, rudes e imperfeitas"? (p. 242). Com os exemplos que acabamos de ver, não quero sugerir que haja descuidos ou erros de composição cometidos pelo autor. Não se trata portanto de ‘equívocos’, mas sim de um plano cujo resultado é decorrente de impulsos de dissolução produzidos pela energia do literato que em muitas páginas sobrepuja a do homem das ciências. Um autêntico deslize, no entanto, e muito óbvio, é a expressão "armados até aos dentes" (p. 267) usada por Euclides como se pertencesse a Frei João Evangelista de Monte Marciano, depois de o próprio autor haver assinalado que a expressão é de outro vigário, do padre Vicente Ferreira dos Passos (p. 231). Outro equívoco, é a data incorreta (1884) do linchamento de Apulcro de Castro, que na realidade aconteceu em 1883, e da morte do Conselheiro, inicialmente dada como sendo no dia 22 de agosto (p. 522) quando na verdade ocorreu justamente um mês depois (p. 564).

Que, por exemplo, Euclides — muito coerentemente dentro do espírito épico do livro — faça a descrição de Monte Santo (p. 288) aderido à melhor tradição latina e vernácula que utiliza o locus amoenus, parece demonstrar que a descrição da paisagem não está dada para representá-la fotograficamente. Este aspecto que Ernest Curtius observa com respeito às descrições da natureza na Idade Média denota para o nosso caso uma disposição prevista no terreno do imaginário, onde o que importa é menos a precisão do objeto do que o efeito ou a impressão da linguagem que o descreve.

Quanto à descrição da geografia do sertão, para muitos de seus intérpretes já não cabem dúvidas de que Euclides se inclina para o lado do imaginário. Recorde-se, uma vez mais, o tão citado encontro entre Siqueira Meneses e Gilberto Amado, durante o qual o militar e então governador do Sergipe declara que Euclides "não viu nada" e "nada daquilo é verdade" (p. 180). Gilberto Freyre escreve que "A paisagem que transborda d’Os sertões é aquela que a personalidade angustiante de Euclydes da Cunha precisou de exagerar para completar-se e exprimir-se nela: para afirmar-se". Josué de Castro (1948, p. 187) comenta com indignação os "exageros euclidianos que comprometem até certo ponto o valor científico de muitas das afirmações do grande sociólogo". E Josué de Castro (idem, p. 188) observa também, a propósitode Fernão Cardim, que "não foi só Euclides — geógrafo e poeta— que se deixou levar por este exagero de ver rios correndo e fontes brotando destas plantas milagrosas que criam oásis vivos no deserto adusto ...". José Lins do Rego (pp. 216-19), homem da terra, afirma ainda que "este sertanejo de Euclides era mais uma ficção do gênio criador, era mais o homem da imaginação do poeta que o homem verdadeiro dos nossos sertões nordestinos". E finalmente –– numa atitude idêntica à do Lévi-Strauss das primeiras páginas de Tristes tropiques, nas quais reclama a urgência de abandonar o sistema figurado de representação da realidade nordestina para, ao contrário, descrevê-la tal como ela é — Mário de Andrade (1976, pp. 294-95), com tom acrimonioso, não deixaria igualmente de atacar o livro de Euclides num dos seus diários de viagem:

Pois eu garanto que Os sertões são um livro falso. A desgraça climática do Nordeste não se descreve. Carece ver o que ela é. É medonha. O livro de Euclides da Cunha é uma boniteza genial porém uma falsificação hedionda. Repugnante. Mas parece que nós brasileiros preferimos nos orgulhar duma literatura linda a largar da literatura duma vez para encetarmos o nosso trabalho de homens. Euclides da Cunha transformou em brilho de frase sonora e imagens chiques o que é cegueira insuportável deste solão; transformou em heroísmo o que é miséria pura, em epopéia… Não se trata de heroísmo não. Se trata de miséria, de miséria mesquinha, insuportável, medonha. Deus me livre de negar resistência a este nordestino resistente. Mas chamar isso de heroísmo é desconhecer um simples fenômeno de adaptação. Os mais fortes vão-se embora.

Tópico da literatura clássica da Antiguidade, da épica medieval e renascentista, o lugar ameno aparece também em Os sertões sob outra forma, talvez mais mítica do que a da simples descrição da aprazibilidade do lugar. Por isso, a ele se ligam os componentes do mito da "Terra sem Males" ou a "Terra da Promissão" que Roger Bastide soube ver com acuidade. Com efeito, será ainda este mito que delineará a visão utópica dos jagunços que nos oferece Euclides a qual ratifica o mesmo propósito idealizante que comunica o missionário Frei João Evangelista ao visitar Canudos: "Ali, porém, nem é preciso trabalhar; é a terra da promissão, onde corre um rio de leite, e são de cuscuz de milho os barrancos."

Com relação ainda à utilização do Relatório do padre capuchinho que visitou Canudos, é desconcertante ouvir do narrador de Os sertões, sempre às voltas com a exatidão das datas, que a visita do religioso ocorre "em 1895, em certa manhã de maio" (p. 251) quando na verdade, lemos no Relatório que sua chegada foi precisamente registrada no dia 13 daquele mesmo mês e ano. Por que a omissão de um dado exato nesse trecho do livro, se emoutros o narrador prima pelo detalhe e pela meticulosidade? Cada parte militar, batalhão e manobra do exército, enfim, cada referência numérica sempre aparece cuidadosamente anotada por ele. É fácil ver como Euclides abandona aqui a pena do historiador tradicional para tomar a do literato. Está mais interessado no episódio em si, pelas suas potencialidades artisticamente narráveis, do que na precisão histórica do Relatório. Não é gratuito, portanto, que a reconstrução desse documento pelo autor de Os sertões aponte outras características do discurso do imaginário. A sua maneira simétrica de começo e fim, por exemplo, cria uma verdadeira moldura narrativa onde o missionário aparece "no alto de um contraforte da Favela" (p. 251) para logo desaparecer também do "alto da montanha" do mesmo nome (p. 255). A metáfora bíblica criada para a sua chegada "Daniel vai penetrar na furna dos leões…" (p. 251), e o convite do narrador, "Acompanhemo-lo" (p. 251), ao leitor, para que contemple os passos de sua missão, são traços inequívocos de uma narração que suspende o uso dos habituais marcadores do discurso histórico, pelo o que esta possui também de dramático e paradigmático ao ecoar os momentos míticos de conversão várias vezes aludidos nos Livros Sagrados. É ainda pouco histórico, ou melhor, pouco científico, o modo como a voz do narrador se desloca de um ponto a outro, indo da objetividade à subjetividade de quem narra, oscilando entre a forma impessoal (nota-se), a pseudopessoal (vimos) e a pessoal (o viajante, o forasteiro). Como bem observa Walnice N. Galvão, é no plano da enunciação onde se pode melhor observar uma certa multiplicidade do ponto de vista do narrador que, a meu modo de ver, é atípica do discurso sociológico ou histórico da época. É na peculiar justaposição de vários modos de narrar, mesmo quando estes se encontram num "único nível de fala" (Sevcenko, 1983, p. 133), onde se espelha o ânimo infatigável desse contador de histórias que Euclides tão bem representava.3 Contudo, ele próprio admitia ser este narrador de que falamos? Acredito que não, e o próprio discurso de recepção de Euclides (1966, I, p. 206) na Academia Brasileira de Letras vem comprovar este fato:

... me desviei, sobremodo, dessa literatura imaginosa, de ficções, onde desde cedo se exercita e se revigora o nosso subjetivismo, tão imperioso por vezes que faz o escritor um minúsculo epítome do universo, capaz de o interpretar a priori, como se tudo quanto ele ignora fosse apenas uma parte ainda não vista de si mesmo.

Exemplo admirável –– no plano das idealizações –– do rechaço do imaginário e do apego quase servil ao racionalismo do seu pensamento, a mente cientificista de Euclides também é respon-sável pela sua postura paradoxal diante das fontes de conhecimento aseu serviço. Entre um estudo de Humboldt e um romance de Alencar, o seu racionalismo recalcitrante parece ditar que o autor propenda para a escolha do primeiro. Mas se isto for verdade, como entender então que ao mesmo tempo de Alencar ficou o legado das belas reconstruções feitas a partir de algumas páginas de O sertanejo e de O gaúcho? Porque no fulcro do autor de Iracema, Euclides cria um diálogo intertextual que irá celebrizar as páginas de Os sertões. Ora lançando mão de O sertanejo para a descrição de Antônio Conselheiro, ora servindo-se, em menor escala, de O gaúcho para descrever o sertanejo, o vaqueiro e o gaúcho como tipos, Euclides extrai da obra do escritor romântico cearense trechos verdadeiramente poéticos (Bernucci, 1995, p. 23). E por acaso não seria, justamente, a necessidade de buscar uma mimese adequada para um livro que se quer histórico (Os sertões) que levaria Euclides a entroncar-se também com Hugo? Porque o conceito de mimese para o escritor francês ainda se apoiava no sentido dado pelos renascentistas italianos, o da imitatio.4

A discrepância entre as realizações artísticas e a precisão científica se faz sentir em muitos trechos de Os sertões. Ao perseguir a verdade, palavra de difícil definição para o historiador, Euclides teve, muitas vezes e com alguma ousadia, que adivinhar e argumentar, principalmente por saber pouco sobre a geologia e a botânica do sertão baiano e porque apenas tinha passado uns dias em Canudos. Não deixa de haver uma certa dose de ironia nesta busca de uma precisão científica descrita por uma linguagem prenhe de riqueza criativa e tonalidades, essa mesma linguagem que os poetas apaixonadamente gostam de explorar e que os cientistas procuram evitar. Por esta razão, Euclides pode ser considerado um escritor original que, em princípio, gostava de narrar pelo simples fato de narrar, logrando assim o efeito estético desejado que iria auxiliá-lo na explicação dos fenômenos históricos e científicos. Mas o homem das ciências predomina ao longo do livro.

Ainda hoje parece ser consenso da melhor crítica reconhecer em Euclides não um escritor com veia de ficcionista mas apenas um escritor investido no seu papel de cientista e historiador. Entretanto, seria ingênuo pensar que o narrador sincero tomado de Taine, e de que fala Euclides na ‘Nota preliminar’, deva ser sempre o porta-voz objetivo de Os sertões. "... [O] historiador", diz ele, "precisa de certo afastamento dos quadros que contempla" (p. 327), o que significa que, como ele próprio confessaria, sua escritura "tem o traço defeituoso dessa impressão isolada, desfavorecida, ademais, por um meio contraposto à serenidade do pensamento, tolhido pelas emoções da guerra" (p. 110). Narrador que se quer sincero, assumindo o compromisso de esmiuçar e fazer a história de seu país, Euclides não podia deixar de sofrer os influxos de sua época, isto é, de ter a consciência dividida entre astendências de um romantismo imaginativo e as de um naturalismo ainda pululante. Colhido pelas tensões e conflitos irresolúveis desses dois mundos díspares, o escritor procura diminuir os efeitos dessa aparente contradição optando por uma conciliação entre eles.

Em Os sertões, as afirmações de Euclides, bem como a sua escolha de vocabulário, revelam o curioso uso que ele faz das fontes historiográficas e ficcionais. Por um lado, o escritor que irremediavelmente depende desses materiais vai registrando-os, de um modo até certo ponto convencional, em notas de rodapé ou no corpo da obra, mas por outro, os mantém parcialmente ocultos sem nenhuma referência aos seus respectivos autores. Não fica claro, infelizmente, se esta atitude composicional é o resultado do desejo que o escritor tem de ser original — e, no caso, de tentar controlar a sua ansiedade da influência — ou se representa uma exagerada precaução de sua parte por ter usado e abusado de suas fontes escritas. Mesmo hoje, depois de muitos dos seus aspectos genéticos terem sido cuidadosamente estudados, o que se conhece sobre as fontes originais de Os sertões está geralmente limitado àquilo que sabemos através das notas de rodapé deixadas pelo autor.

Embora Euclides cite vários autores em Os sertões, muitas das suas fontes escritas (jornais, documentos oficiais, estudos científicos) não estão explícita ou sistematicamente anotadas. Portanto, de uma perspectiva histórico-literária, o nosso autor reescreve os episódios relacionados com Canudos de um modo estético, transformando o conteúdo de suas fontes ficcionais e não-ficcionais no processo de escritura do livro. Acrescente-se a isto o fato de que a sua consciência política e de publicista e o seu talento de escritor levaram-no a acreditar que a utilização de uma estratégia discursiva que dramatizasse os episódios e os quadros da natureza era o meio mais eficiente, por exemplo, para chamar atenção às teorias sociais ligadas à formação da nossa nacionalidade e ao isolamento do sertanejo. Era também o seu objetivo proporcionar ao leitor uma compreensão justa das causas verdadeiras que motivaram as atrocidades cometidas pelo exército militar durante a campanha.

Tratava-se, é verdade, de resolver a questão da originalidade de raiz romântica, da qual Euclides não pôde esquivar-se. Devia ser resolvida com base no equilíbrio justo entre as matérias de substância do discurso e não as de quantidade. Se eram legítimos os empréstimos mesmo sendo excessivos, entendia ele, estes deveriam entrar para a página receptora de maneira a fundir-se, a unificar-se num só estilo com vistas a produzir novas deduções. Tudo se justificava em nome do conhecimento, desde que para alcançá-lo se abolisse a pieguice da linguagem que estava a seu serviço. Era necessário, então, dar corpo literário ao espírito da precisão. Mas este preceito se cumpria? É na exatidão de sua crítica

ao Dr. Tapajós onde deveríamos encontrar o método de composição euclidiano no que diz respeito às autoritas:

Assim é que a sucessão das citações é tão vertiginosa às vezes, que a falta das aspas consagradas não nos permite saber onde termina a colaboração do cientista e recomeça a responsabilidade literária do autor (Cunha, 1966, I, p. 398).

Subtraindo a prática das citações, que em Euclides é precária e com alguma freqüência nula, a passagem acima revive o mito do aprendiz de feiticeiro, o que quer dizer que a mesma crítica pode também ser usada contra o próprio autor de Os sertões. Observando de perto tal prática, nota-se que um discurso emprestado como o do coronel Dantas Barreto ou do tenente-coronel Siqueira Meneses entra às vezes com notação de fonte e outras vezes sem o reconhecimento da autoria, e não porque a citação tivesse pouca importância, como certos trechos escritos por esses dois militares estariam indicando.

Se o ensejo para imaginar lhe calhava bem, para Euclides os quadros fictícios deveriam ser plausíveis e circunstanciais, e, na medida do possível, deveriam aproximar-se com maior intensidade daquilo que se considera verdadeiro, ou pelo menos deveriam ter a aparência de verdade, isto é, ser verossímeis, sendo assim ambas as coisas difíceis de desentranhar. Ao querer defender um determinado modo de representação, não bastando a supressão da destruição das evidências, quando o caso parecia pouco convincente, era necessário às vezes proceder como o bom orador na época de Quintiliano, que a partir da tribuna recorria aos fatos e realidades inventados para defender uma causa concreta.

Para quem era sensível às potencialidades da língua, aos recursos retóricos do discurso ficcional e às qualidades artísticas de um texto, não deveria ser difícil perceber que Os sertões não poderia acomodar um só discurso, mas vários. Se pensarmos como Thomas Pavel que "não há nenhuma garantia de que todas as frases de um texto possam ser identificadas como pertencentes a um mesmo mundo, ou a um mesmo universo", poderemos melhor entender o status ontológico de Os sertões.

... sendo o número de universos indefinidamente grande, e sendo que alguns universos são incompatíveis com outros, da mescla de fragmentos de várias linhas do real e do possível resultam textos mais ou menos divergentes uns dos outros, a tal ponto que alguns deles, agrupando substâncias de universos longínquos, de mundos impossíveis ... podem cruzar uma certa fronteira e prestar-se mais que outros a uma leitura ficcional (idem, p. 71).

Como descrição de um processo, a citação ajuda a compreender a formação de gêneros híbridos. Entretanto, como linguagem descritiva, a mesma padece de imprecisão terminológica, pois uma ‘leitura ficcional’ ocorre independentemente dos componentes internos de um texto. Porque não se trata aqui de aceitar ou não o universo imaginário de um texto única e exclusivamente sob a pressão de sua composição semântica, pois, se um texto fala de objetos ‘possíveis’, as suas frases, portadoras de entidades não existentes, não terão que ser necessariamente consideradas ficcionais. Nem se deve pensar que critérios pragmáticos (i.e., institucionais, culturais), quando isolados, devam ser suficientes para determinar a característica ficcional de um texto. Errará também aquele que, adotando critérios estilísticos e textuais, unicamente, queira aplicá-los a demarcações genéricas ou convencionais. Por fim, não há nenhuma garantia de que os determinantes lingüísticos de um texto, como bem o demonstra Hayden White, possam configurá-lo de tal forma a ser mais ou menos ficcional, ou mais ou menos histórico.

White (1978, pp. 126-27), analisando o fenômeno da repre-sentação historiográfica da segunda metade do século XIX, e comparando-a com a que se dá em nossos dias, dirá que "já não nos sentimos, portanto, tentados a acreditar — como os historiadores pós-românticos faziam — que a ficção é a antítese do fato ... ou que podemos relacionar os fatos entre si sem o auxílio de alguma matriz ... ficcional". E se isto for verdade, imaginemos Euclides entre os tantos grandes historiadores do período (Michelet, Carlyle, Ranke, Burckhardt) , e até mesmo os anteriores a ele (Tucídides, Heródoto), que "tinham a suficiente autoconsciência para reconhecer que sendo qualquer número de fatos igual e legitimamente descritível, não haveria portanto uma única e correta descrição original de algo, sobre a base da qual uma interpretação desse algo pudesse subseqüentemente ser verificada".

Na concatenação dos fatos históricos e na organização causal das observações empíricas de Os sertões, coube ao autor encontrar um meio eficaz que liberasse os dados, posteriormente manipulados por ele, dos grilhões descritivos da ciência e da estreiteza linear e cronológica dos relatórios. Euclides entendeu como ninguém que a complexidade do caso Canudos era por demais incompatível até mesmo com o gênero romance, sempre muito preocupado com os ambientes familiares e burgueses, como assim o conhecemos nesses anos de virada do século. O espaço teria que ser maior e o ar mais rarefeito para se respirar ao mesmo tempo, e tomando-os de um só fôlego, história, ciência, folclore, crônica jornalística e literatura. Havia ainda nele a percepção de que uma reflexão profunda, tal como a que somente ele consegue fazer calar no âmago de uma tragédia nacional, apenas poderia realizar-se comuma série de outras análises encadeadas, que possibilitassem a compreensão do grande fenômeno social através de um percurso pela nossa história colonial, nossa etnia, nossa geologia tão diversificada e, finalmente, uma incursão dolorida pelos momentos de crise daquela tão sórdida república. Deveria encaixar-se nesse formato híbrido também, os episódios de sabor romanesco que envolvem o Conselheiro, esposa e mãe (pp. 218-19), mas tudo dentro do perímetro calculadamente traçado em que somente a nota trágica poderia entrar, abrindo exceção às vezes a certos quadros patéticos, mas nunca cômicos. É bem diversa a realidade que encontramos no Rei dos jagunços de Manuel Benício e em Os jagunços de Afonso Arinos. Para não desviarmos do nosso assunto principal, basta assinalar que a fortuna crítica dessas duas obras se encarregou de mostrar mais defeitos que virtudes em ambas. É útil notar também que um romance mais contemporâneo, A guerra do fim do mundo, de Mario Vargas Llosa, adotando uma estratégia narrativa essencialmente fabular, a despeito de seu enorme sucesso e incontestável qualidade literária, é menos feliz nos momentos em que o leitor se vê sobressaltado pela verbosidade política ou pelo excesso de análise histórico-sociológica.

Retomando uma vez mais os estudos de White, procuremos daqui para a frente observar, segundo as categorias discursivas por ele estudadas, como o historiador ou o romancista poria em enredo (emplotment) uma certa história, com fio narrativo e elementos motivados, seja por um desejo de explicar o caso irônica, metonímica ou metaforicamente.

Se aceitarmos que Os sertões são uma obra predominantemente historiográfica, dando ao adjetivo uma acepção um tanto ampla, como já o fizemos anteriormente com ‘científico’, poderemos, então, contemplar três modos interpretativos ou explicativos da história de Canudos:

1. Argumentativo. Esteticamente, é a maneira como Euclides da Cunha trabalha o argumento da história de Canudos de modo que seja percebida como tragédia.

2. Explicativo. Epistemologicamente, este modo traduz a seleção que faz o autor dos paradigmas que norteiam a compreensão do fenômeno histórico, encarado da perspectiva determinista e positivista da época. Aqui entram as leis científicas e pensamentos filosóficos de seu tempo, fortemente caracterizados pelas análises de causa e efeito dos fatos históricos, o que não deixa de revelar um cacoete mecanicista em seu trabalho.

3. Ideológico. Eticamente, é a seleção de uma estratégia inter-pretativa pela qual as implicações ideológicas de uma dada representação podem ser extraídas para servir à compreensão dos problemas sociais correntes. A visível inclinação republicana deEuclides e sua intolerância com respeito aos fanatismos fazem-no dirigir ataques tanto aos monarquistas quanto aos jacobinos.

Esta economia das estratégias interpretativas de Euclides deriva da homologia de um esquema mais amplo e abarcador que nos oferece White. Segundo este, haveria ainda uma correspondência direta entre as estratégias interpretativas, os modos de pôr em enredo a história, os modos de implicação ideológica e seus respectivos tropos: a metáfora, a sinédoque, a metonímia e a ironia.

Assim, Os sertões são um livro trágico pela estruturação de seu argumento em torno da hecatombe final e pelo crescendo que anima esta destruição. Mecanicista, porque os paradigmas naturalista-deterministas do autor obrigaram-no a ver o conflito como o produto de um determinado ser (A. Conselheiro), de uma determinada raça (a do sertanejo) e de um determinado meio e momento histórico (a Colônia e a Primeira República). Radical, porque Euclides, sendo republicano e intelectual, não pôde evitar que seus ideais políticos e ideológicos o cegassem, a ponto de não poder ou não querer ver completamente a história do ângulo de seus adversários. Metafórico, porque vê Canudos com os instrumentos do pensamento e da filosofia europeus vigentes, estudando seus fenômenos como repetições ou casos já presenciados ao longo da história das lutas político-religiosas do Ocidente.

A título de comparação, uma vez mais, volto ao romance de Vargas Llosa, que combina o modo argumentativo da tragédia porque é precisamente o sentimento trágico da catástrofe final aquilo que lhe interessa, na medida em que esta representa um final apocalíptico de enorme impacto. Ademais, isto ocorre devido à estrutura travada do romance, no qual se ligam as profecias iniciais ao cumprimento destas no momento da consumada tragédia. Como modo de explicação, A guerra do fim do mundo adota uma forma contextualista e um modo ideológico liberal. Este último é colocado em evidência principalmente através das ideologias representadas pelas várias vozes dos personagens intelectuais: o barão de Jeremoabo, Galileo Gall e o jornalista míope.

Se seguirmos ainda a White que diz que "o problema do historiador, à semelhança do romancista, é dar sentido a um conjunto de eventos hipotéticos, arrumando-os numa série que é ao mesmo tempo cronológica e sintaticamente estruturada", poderemos sumariamente analisar o conjunto de sucessos narrados em Os sertões e em A guerra do fim do mundo. Incorrendo, de modo inevitável, em uma esquematização que, espero, não seja árida, poderíamos ver a série geral dos fatos narrados na obra de Euclides do seguinte modo:

A,b, c, d, e, f, g,..................., n

White (p. 93) afirma que toda história que outorgue qualquer evento original dando-lhe um status de fator decisivo (A), na estruturação de toda a série de eventos subseqüentes àquele, é determinista. Vale dizer, o fator decisivo na estrutura geral de Os sertões está centrado nos acontecimentos narrados na primeira parte do livro, ‘A terra’, a qual está imediatamente ligada à segunda, ‘O homem’, divisões fundamentais para a compreensão da visão determinista do autor. Por outro lado, em A guerra do fim do mundo o fator decisivo (G) estaria no último capítulo, quando se dá a destruição total de Canudos, narrada com toda a força explicativa que um fim apocalíptico e escatológico exige:

a, b, c, d, e, f, G......, n

Embora o romance mantenha uma ordem mais ou menos linear de narrar, seus episódios não correspondem exatamente à mesma seqüência disposta por Euclides em Os sertões. Os dados biográficos do Conselheiro não aparecem no texto ficcional e a narração em torno de sua morte recebe um tratamento muito mais extenso que o dado por Euclides. Outro tanto deve ser dito dos episódios em que se narram as cenas da queima dos editais em Bom Conselho e da compra das madeiras em Juazeiro, as quais o romance refunde numa só: a narração do primeiro episódio com o desenlace do segundo. A cena da morte de Moreira César adquire em A guerra do fim do mundo uma dupla perspectiva e por isso também é narrada duas vezes, ao passo que esse tipo de ênfase, reforçada duas vezes pela narração, ocorre em Os sertões com o episódio da ‘matadeira’.

Os poucos exemplos que acabo de oferecer poderão servir para demonstrar que na construção de um enredo, seja este histórico ou ficcional, entram uma série de elementos comuns que tanto podem pertencer à ficção como à historiografia. Procurei valer-me, para efeitos de concisão, do romance mas nada impede que no seu lugar coloquemos também o conto ou a novela, porquanto as suas características ficcionais são semelhantes às daquele. Observo, por último, que a capacidade canibalesca de Os sertões é idêntica à dos textos romanescos. Nestes, tudo entra, e a qualidade das fontes apropriadas nem sempre se mede. Estas, aliás, uma vez ficcionalizadas, libertam-se também das peias impostas pelo discurso científico e passam a ser transformadas pelo novo discurso do autor. Lukács (1982, p. 178) tinha razão, citando Burckhardt, ao dizer que existem fatos tão áridos que somente a manipulação subjetiva do autor pode trazê-los à vida. Não seria este um dos preceitos mais caros a Os sertões?


   
   

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