SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.5 suppl.The discursive ontology of Os sertõesThe book that shook Brazil: the acclaim of Os sertões at the turn of the century author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5  suppl.0 Rio de Janeiro July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701998000400005 

 

 

 

Os sertões : atualidade e arcaísmo na representação cultural de um conflito brasileiro*

Os sertões: present time and archaism in the cultural representation of a Brazilian conflict*

 

 

 

 

Este trabalho foi originalmente apresentado no encontro da Latin American Studies Association, no Continental Plaza Hotel, em Guadalajara, México, entre 17 e 19 de abril de 1997.

 

Paulo Venancio Filho

Professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Rua Padre Leonel França, 150/403 Gávea,
Rio de Janeiro — RJ Brasil
e-mail: pvenancio@ax.apc.org

 

 

 

BERNUCCI, L. M.: ‘A ontologia discursiva de Os sertões’.

VENANCIO F., P.: ‘Os sertões: atualidade e arcaísmo na representação cultural de um conflito brasileiro’.

História, Ciências, Saúde — Manguinhos,

vol. V (suplemento), 73-91 julho 1998.

Este texto busca contrapor os aspectos antagônicos da revolta de Canudos tal como percebido por Euclides da Cunha em Os sertões. A revolta revelava tragicamente a permanência de um arcaísmo irresolvido. O horror da guerra, o confronto entre a ‘civilização’ e a ‘barbárie’ ainda se manifestam cem anos depois do conflito. O mesmo confronto que a literatura já pressentia e descrevia. Aquele que, no plano não menos verdadeiro da ficção, também se revela no romance O coração das trevas, de Joseph Conrad, publicado em 1902, o mesmo ano da publicação de Os sertões.

PALAVRAS-CHAVE: revolta de Canudos, Euclides da Cunha, Os sertões, cultura brasileira.

 

 

VENANCIO F., P.:‘Os sertões: present time and archaism in the cultural representation of a Brazilian conflict’.

História, Ciências, Saúde — Manguinhos,

vol. V (suplemento), 73-91 July 1998.

The article examines antagonistic aspects of the battle of Canudos as portrayed by Euclides da Cunha in Os sertões. In tragic fashion, the rebellion made it apparent that an archaism had not been resolved. The horror of war, the conflict between civilization and barbarism, is still with us one hundred years later — the same conflict that literature foresaw and described. In the realm of fiction (yet no less truthful), this conflict was also portrayed in Joseph Conrad’s Heart of Darkness, published in 1902, the same year as Os sertões.

KEYWORDS: rebellion in Canudos, Euclides da Cunha, Os sertões, rebellion in the backlands, Brazilian culture

.

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vou chamá-las de trilhas. No dicionário diz: "pista, vestígio, ras- tro; vereda, senda, trilho". Trilhar quer dizer "abrir caminho por", "andar por", "seguir", "percorrer". Podem ser — embora nem sempre sejam — atalhos: "caminho fora da estrada comum, para encurtar distâncias, o tempo de percurso; corte, vereda". Nem sempre encurtam o caminho. Por elas só pode ir um único indivíduo a pé, ou por outro meio primitivo de transporte: cavalo, mula. A trilha obriga que se ande em fila, um atrás do outro. Se a estrada é obra do cálculo, do planejamento, da racionalidade, a trilha é improviso, astúcia, subtração à imposição de uma ordem ou direção preestabelecida. Deve ser sempre obra de um indivíduo pioneiro, aquele que foi o primeiro, anônimo, logo seguido por muitos.

Sempre me intrigou a presença de trilhas nas cidades brasileiras. Elas surgem assim, sem lógica, desprovidas de planejamento, não autorizadas e sem autoria, cortando gramados, jardins, parques. Comuns no ambiente não-urbano, escapam à lógica do comportamento urbano. E não há uma só cidade brasileira onde não sejam encontradas, sobre a terra, grama, cimento ou asfalto. Estão lá, desafiadoras, no ambiente urbano mais intensamente racionalizado e projetado. Pois essas trilhas, creio, são a manifestação viva de impulsos ancestrais. Imagino ser este fenômeno uma espécie de continuidade daqueles que há cem anos se manifestaram em Canudos. Algo que escapa ao desenho da civilização racional urbanizada. Reação instintiva contra as grandes distâncias e a ausência de limites. Exprimem não propriamente um desafio, nem um desdém pela ordem, simplesmente condição em que esta não se cristalizou como comportamento habitual. Como se fosse possível o indivíduo se orientar por outros princípios, por outras motivações, ignorando aqueles que a vida nas cidades modernas obrigatoriamente coloca. Essas trilhas são uma manifestação epidérmica de um fracasso e de uma resistência. Também de um antagonismo fundamental. Um arcaísmo atual, o mesmo que há cem anos se manifestou em Canudos.

Exemplo máximo de absorção do fato histórico pela forma literária, poderia se dizer que Os sertões são Canudos e Canudos são Os sertões. O livro permanece como a representação definitiva do evento. Tivemos dezenas, centenas de revoltas e só Canudos encontrou uma representação cultural permanente, plena e definitiva. Só Canudos através de Os sertões conheceu a fixação artística superior. "Como todo grande livro, este também organiza, estrutura e dá forma a tendências profundas do meio social, expressando-as de maneira simbólica" (Galvão, 1981, p. 79). Não fosse o livro, Canudos seria mais uma entre outras rebeliões sociais esquecidas da história brasileira. Não existiria, poder-se-ia dizer, parafraseando Euclides, nem como representação histórica, nemcomo representação cultural. Euclides deu a Canudos uma espessura, uma dinâmica e uma dimensão que, nas artes, empalidecem as representações da Independência, da guerra do Paraguai, da Abolição, da República, fatos em si muito mais relevantes, mas enquadrados, em sua época, em molduras convencionais, comemorativas, oficiais, às quais faltava uma dimensão profunda e substancial. Eventos de consistência rala e apática, que desconhecem a nervosidade vibrátil do evento de Canudos fixada por Euclides. Obra perturbadora e desconfortável,

o livro de Euclides é um livro irritante, sua linguagem é rebuscada, sua posição incerta e oscilante quando não abertamente contraditória, as antíteses procuram efeitos de resultado confuso. A fissura entre a ciência exibida e os terríveis fatos narrados impede uma síntese explicativa. A figura da antítese e do oxímoro só exibe a incapacidade de pensar a especificidade do fenômeno. A postura de estrategista do Exército colide com a simpatia pelos rebeldes. A indagação que fica é se, com todo o esforço feito para apagar tão exemplar episódio da memória nacional, não fora o livro de Euclides para nos irritar e obrigar a pensar num problema até hoje presente sob outras formas, também não nos teríamos esquecido. Os sertões são um elemento instigador da memória brasileira que nos faz lembrar o que já fizemos e continuamos a fazer com a maioria dos nossos compatriotas (Galvão, 1981, p. 84).

O povo assistiu à República bestificado — é a frase emblemática que revela a distância, a indiferença até, do acolhimento e recepção, sem nenhuma grandeza, de um dos acontecimentos decisivos da história brasileira. A indiferença e desvinculação, a falta de repercussão quase total diante dos eventos nacionais é quase norma. Eventos dos quais o povo não foi chamado a participar, sucessão de imagens pálidas, convencionais, sem expressão e intensidade. Entre eles, Canudos é um relâmpago cruel e Os sertões, um monumento incômodo que só pode ser resumido contradi-toriamente. Mais que um evento histórico, Canudos é um ‘problema’ ainda permanente. E por ter incorporado estruturalmente a dinâmica específica e única do fenômeno, o livro ainda persiste eloqüente.

Antônio Conselheiro é de certa forma apenas o condutor de uma inquietação e insatisfação sociais. Tradutor de um sintoma, de um enorme coeficiente de humilhações acumulado que nem mesmo numa terra de ninguém, num fim de mundo, foi permitido que existisse. Também é ainda a figura paternal da dominação tradicional, pois havia uma correspondência, como não poderia deixar de ser, entre os fatores de coesão entre os jagunços e aqueles tradicionais da sociedade sertaneja: lealdade extrema, dedicação irrestrita, obediência cega.

Aparecia nos sertões o oposto do homem do litoral esclarecido para liderar uma massa que ainda não tinha sido vista como tal nem nas capitais brasileiras: "...E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até aos ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão, em que se apoia o passo tardo dos peregrinos..." (Cunha, 1980, p. 109.) "Era truanesco e era pavoroso. Imagine-se um bufão arrebatado numa visão do Apocalipse... E o grande desventurado realizava, nesta ocasião, o seu único milagre: conseguia não se tornar ridículo..." (idem, p. 113). "... mas não o isolou — incompreendido, desequilibrado, retrógrado, rebelde — no meio em que agiu". Integrou-o, fortaleceu-o.

O sertanejo surgia como um homem novo. Novo porque ignorado. O tipo era conhecido e familiar no contexto do convívio do sistema de poder patriarcal e rural. Aquela massa de homens, mulheres e crianças era inédita. Nunca tinha sido vista com tal nitidez, compacta e coesa. Uma comunidade única, e estranha, de desprivilegiados, despossuídos e desvalidos. Era preciso explicá-la.

Era necessário colocar a revolta no quadro das ciências de então. Aquilo ofendia a consciência do cientista, do técnico, do homem médio esclarecido que Euclides representava. Na massa de Canudos avultavam as deficiências enormes do país a exigir transformação. Euclides também era um tipo novo, o oposto do jagunço. E ambos se encontraram. Um encontrou no positivismo uma filosofia e uma ideologia médias, o outro, no messianismo e salvacionismo do Conselheiro, uma forma exaltada da existência desenganada. Euclides vinha de uma geração que tinha na sua formação técnica e positiva os únicos requisitos de integração na vida político-administrativa do país. O homem das posturas objetivas, imediatas, agressivas, absolutas, universais a propor a liquidação do passado colonial e imperial.

Em sua formação acadêmica, predominaram as tendências que marcaram a Escola Militar na época, e que, embora aí concentradas, também se mostram em outros setores da vida letrada brasileira. As duas grandes causas do tempo são a abolição dos escravos e a implantação da República. A ciência, as matemáticas, o positivismo, o determinismo, o evolucionismo são privilegiados, Comte, Darwin e Spencer, os nomes-chave. ... Nesse sentido, a formação de Euclides não difere da formação de seus contemporâneos. Ou, mais precisamente, não difere da formação do pequeno setor ilustrado, que fazia parte da classe dominante, que era, por assim dizer, sua vanguarda intelectual (Galvão, 1981, p. 66).

Reformador e jagunço, um e outro irremediavelmente vincu-lados. Porque Euclides pensa com a mentalidade do jagunço: plástica, flexível, dinâmica. Pensa com a lógica do sertão. Euclides percebe a contragosto a identificação indesejada que se vai revelando, o vínculo irremediável que existe entre ambos. Homens próximos, paralelos e antagônicos. Quase homólogos. Até na sua escrita selvagem, angulosa, tensa, que supunha impossível de ser vertida para o francês, a língua do prestígio intelectual do homem culto brasileiro da época: "Temo que meu estilo, algo bárbaro, não se afeiçoe a tão delicado relevo." O relevo da paisagem temperada européia que o sertanejo Euclides pode ferir. O jagunço encontra uma participação que chega à forma e à escrita literária assim:

O homem dos sertões ... mais do que qualquer outro está em função imediata da terra. É uma variável dependente no jogar dos elementos. Da consciência da fraqueza para os debelar, resulta, mais forte, este apelar constante para o maravilhoso, esta condição inferior de pupilo estúpido da divindade. Em paragens mais benéficas a necessidade de uma tutela sobrenatural não seria tão imperiosa. Ali, porém, as tendências pessoais como se acolchetam às vicissitudes externas e deste entrelaçamento resulta, copiando o contraste que observamos entre a exaltação impulsiva e a apatia enervadora da atividade, a indiferença fatalista pelo futuro e a exaltação religiosa. Os ensinamentos dos missionários não poderiam exercitar-se estremes das tendências gerais da sua época. Por isto, como um palimpsesto, a consciência imperfeita dos matutos revela nas quadras agitadas, rompendo dentre os ideais belíssimos do catolicismo incompreendido, todos os estigmas do estádio inferior (Cunha, 1980, p. 97).

A dimensão épica do antagonismo está hoje reduzida à bana-lidade cotidiana, anônima, dispersa. Através de Euclides, mesmo com seus equívocos, temos uma visão total e unificada do fenômeno. A realidade vai desmentir todas as ilusões, corrigir as idéias antecipadas, as formulações apriorísticas. Começa uma progressiva revelação. Podem existir incorreções históricas no relato de Euclides, explicações científicas ultrapassadas, até precon-ceituosas, e no entanto nessa obra, para sua grandeza, até os erros e equívocos contribuem, não a diminuem. Aquelas construções teóricas e aquele esforço de interpretação hiperbólico permanecem fascinantes, tanto quanto os problemas continuam irresolvidos, ainda que, hoje, porventura, tenham encontrado correção científica maior. O conflito básico é o mesmo, só que disperso, polimorfo, generalizado. É que afinal, mal ou bem, Canudos foi integrada. Nunca mais poderá se repetir com tal grau de concentração. Deixou aquele fim do mundo do sertão para estar em todos os lugares, múltipla e polimorfa, cotidiana e banalizada. E, afinal, não é uma suprema e grotesca ironia o fato de que, no mesmo lugar onde há um século se morria de sede, hoje é possível se afogar. Canudos éuma grande e inútil represa que submerge os "monumentos de uma sociedade obscura". Até sua incompatibilidade geográfica foi assimilada e reduzida.

A atualidade de Os sertões está na presença atual modificada do arcaísmo. Canudos não se repetiu, vem se transformando. Certas tendências que ali se manifestaram de forma extrema se repetem desde então. De ambos os lados. As forças opostas que ali se enfrentaram ainda não foram sintetizadas. O mesmo descaso, o mesmo desleixo, o mesmo desinteresse, por um lado, as mesmas condições de vida miseráveis, por outro. Nas grandes metrópoles brasileiras encontram-se tipos que poderiam perfeitamente estar saindo de Canudos, caquéticos, secos e envelhecidos, embora sem a força e a energia que são produto da deficiência, não da abundância. Só no conflito e no antagonismo a sociedade parece se lembrar de que é mestiça, pobre em grande parte, desigual e injusta. Não é muito diferente a visão de hoje daquela de Euclides ante os prisioneiros derrotados. Eram prisioneiros que enver-gonhavam, que tornavam a vitória humilhante, inglória: "Era, com efeito, contraproducente compensação a tão luxuosos gastos de combates, de reveses e de milhares de vidas, o apresamento daquela caqueirada humana — do mesmo passo angulhante e sinistra, entre trágica e imunda, passando-lhes pelos olhos, num longo enxurro de carcaças e molambos..." (Cunha, 1980, p. 403.)

Euclides demorou cinco anos escrevendo Os sertões. O assunto não podia ser explicado de imediato. Havia que inquirir as causas profundas daquela grande paisagem fraturada. Colocar na história o que se passara fora dela: "Canudos tinha muito propriamente, em roda, uma cercadura de montanhas. Era um parêntese; era um hiato; era um vácuo. Não existia" (idem, ibidem, p. 382). Um parêntese de três séculos de abandono e esquecimento que repentinamente emergia e "sob tal aspecto era, antes de tudo, um ensinamento e poderia ter despertado uma grande curiosidade. A mesma curiosidade do arqueólogo ao deparar as palafitas de uma aldeia lacustre, junto a uma cidade industrial da Suíça..." (idem, ibidem, p. 247). A distância geográfica da desigualdade, que há um século era imensa, encurtou. Canudos, modificada, está ao lado e não mais no sertão longínquo, inóspito e desconhecido. O arraial foi, em estado bruto e primitivo, pré-capitalista por assim dizer, o embrião da realidade que os economistas buscam enquadrar em fórmulas que sintetizem a mais extrema desigualdade — a miséria da Índia, a riqueza da Bélgica, por exemplo — desigualdade que, há um século, levou canhões Krupp a bombardear casebres de barro.

O movimento do livro não deixa de ter analogias com o movimento da campanha. Sua aspereza dramática, os ritmos quebrados e angulosos, a secura e aridez das frases ou uma exuberância que dava a Joaquim Nabuco a impressão de "umimenso cipoal". Apesar de toda a tensão dramática, da vertigem dos contrastes e do clímax dos antagonismos, uma linha de equilíbrio, uma disciplina, quase uma postura técnica, ao final, corrige os arrebatamentos. A visão de cientista, objetiva, distanciada, imparcial, impossível de ser sustentada. Emoções e sentimentos surgem duros, a contragosto. Os sertões não foram atacados de improviso e com desleixo como Canudos. Sem estratégia, plano ou direção. Foram cinco anos escrevendo o livro. Os sertões corrigem a campanha de Canudos. Uma obra meditada, como poucas, na literatura brasileira. É que "essa aparência selvática só desconcerta quando se compara a página de Euclides à eloqüência uniforme e meridiana — ao impressionismo ‘lassicizado’ — do próprio Nabuco". A mesma diferença, noutro plano, entre a guerra clássica e a do sertão, que chamou a atenção de Araripe Jr. Este "já registrara o contraste entre o estilo ‘estilhaçado’ de Os sertões e o efeito hierático, inteiriço e compassado, das cláusulas oratórias de Rui". De fato,

a prosa euclidiana é um caso de ‘escrita artística’ de alta voltagem, um idioma impressionista carregado de explosividade, porque embebido num pathos apocalíptico. A tensão e o dinamismo da linguagem de Os sertões são funcionais; acompanham os fenômenos agônicos e paroxísticos versados pelo livro, as hecatombes naturais, o conflito social, o desvario psíquico. Por isso, a solenidade euclidiana difere substancialmente do majestoso parnasianismo de Rui ou da placidez dos parágrafos de Nabuco; a solenidade de Euclides é a monumentalidade dramática; Euclides é de fato ‘escultural’ — mas escultural à Rodin. Nele, a tendência de amplificar as cenas, personagens e paisagens repousa num campo áspero de enérgicas antíteses. Nada é mais típico desse estilo hiperbólico que o famoso oxímoro — a qualificação contraditória — com que nos apresenta a figura forte-débil, atlético-aleijada do sertanejo: ‘Hércules-Quasímodo’ (Merquior, 1996, p. 226).

Livro inclassificável, "barroco/científico", no qual a "ciência poetizada, como se pode caracterizar o discurso euclidiano, pratica uma dialética entre descobrir e encobrir, explicar e murmurar, elucidar e aludir" (Zilly, 1996, p. 10). Agonístico e paroxístico,

Os sertões são o clássico do ensaio de ciências humanas no Brasil, numa época em que os estudos sociológicos ainda conservavam muitas afinidades com a formação humanística, e seus autores autodidatas pioneiros ... livro meio científico, meio literário — exemplo notável daquela ‘intelectualização da literatura’ que marca os estilos pós-românticos — abordou alguns temas atualíssimos da pesquisa antropológica. Um deles é a interpretação dos surtos milenaristas, isto é, da escatologia dos jagunços — da mística doadvento do reino de Deus entre os seguidores do messias Antônio Conselheiro. Euclides sentiu também muito lucidamente o problema da definição sociológica de certas formas de anormalidade mental. Ao reconhecer o entrosamento dos aspectos irracionais da personalidade do profeta de Canudos com as aspirações e carências de uma comunidade rústica, sufocada pelos flagelos naturais e a indiferença das camadas dominantes, intuiu brilhantemente a natureza psicossocial da noção de loucura — dessa ‘zona mental onde se acotovelam gênios e degenerados’. De Antônio Conselheiro, cujo delírio místico traduzia o desespero de uma sociedade, ele afirmou genialmente que foi ‘para a história como poderia ter ido para o hospício’. O positivista Euclides da Cunha suspeitava da existência de uma sociologia do psiquismo, do mesmo modo que o darwinista social viera a constatar a força titânica das raças ‘inferiores’. Permanentes pela energia poética de seu estilo, Os sertões sobrevivem também por seus iluminadores vislumbres sociológicos (Merquior, 1996, pp. 267-68).

Porém há outros aspectos, como nota o tradutor alemão do livro, que conferem atualidade à experiência literária de Os sertões:

Hoje em dia ... o leitor culto aprecia um certo efeito de estranhamento, está disposto a submeter-se a períodos insólitos, termos estrangeiros, raros ou arcaicos, metáforas arrojadas, técnicas narrativas polifônicas, o que me permitiu manejar com maior audácia os recursos do alemão, abrasileirando-o, barbarizando-o um pouco, um pouco só, porque o estilo euclidiano também não é tão bárbaro assim. Tentei, como tradutor, aplicar a definição com que o próprio Euclides, tradutor de uma realidade histórica, caracterizou na nota preliminar, citando Taine, a tarefa do ‘narrador sincero’: "...il veut sentir en barbare, parmi les barbares, et, parmi les anciens, en ancien". (Zilly, 1996, p. 8).

Como realização artística, Os sertões são, já o dissemos, o oposto dos métodos militares empregados em Canudos. A obra, que é toda planificação, estratégia, correção impecável, busca neutralizar, no plano literário, o desastre militar. Desde o início, Euclides percebeu o caráter único e extraordinário da revolta sertaneja. O plano de Os sertões é o desdobrar lógico e implacável do evento, uma seqüência aristotélica comteana ambientada num meio paradoxal e contraditório. Encadeada, sucessiva, organizada, mas também quebrada, descontínua, fragmentada. De ‘A terra’ a ‘A luta’ inexorável, pois o fenômeno aparecia, na superfície, de todo incompreensível. Era preciso buscar suas origens remotas.

A escrita literária de aspiração científica é, também, reação epidérmica e não intelectual ao sertão. Não só a energia psíquica mas também a sensibilidade física obedece àquela lei da inconstância, assistemática, dos longos momentos de inércia e dos súbitosparoxismos. Paroxismos intensos da fé. Como se a esfera da afetividade, a disposição à religiosidade fosse, ela também, uma espécie de epiderme, reagindo só a grandes impactos. Às comoções, aos delírios, às profecias que arrancam do entorpecimento da sensibilidade, da estrutura de defesa adquirida do sertanejo. Pois a imparcialidade do cientista sofre o mesmo impacto. É possível que o homem civilizado, formado numa tradição de cultura inteiramente secularizada, reagisse de outra forma ao barbarismo. Não aquele homem do século XIX ainda, para quem as supers-tições e os obscurantismos eram dados reais, observáveis cotidianamente, eram parte da psicologia familiar, inclusive em meio urbano, onde a infância seguia povoada de histórias da tradição popular repletas de entidades sobrenaturais. Mesmo à idade em que já resolvia equações diferenciais, calculava trajetórias eliptícas, imaginava pontes, estradas, ferrovias, o fundo de superstição se fazia sentir. Parece existir uma continuidade de impulso psicológico, igual temor e deslumbramento. Há uma face infantil na crença que o brasileiro tem do progresso, aquela superstição positiva. E não são os recém-convertidos os que mais repulsa externam pela fé há pouco abandonada?

O principal compromisso de Euclides não é com a ciência nem com a poesia, mas é com a verdade, com a preservação da memória, com a história, com a justiça. Ele fala, de modo apaixonado e persuasivo, aos brasileiros e à humanidade como professor, advogado, orador fúnebre, num discurso de pesquisa e instrução, de defesa e acusação, de luto e glorificação.

A sua visão da história está intimamente ligada aos aspectos jurídicos do livro, que inicia uma espécie de processo em que o autor desempenha os papéis de testemunha, de perito, de advogado da defesa, de acusador e juiz. Talvez o de acusador seja o mais importante, porque se trata de um livro ‘vingativo’ e de ‘ataque’, nas palavras do autor. Além de ser ocasionalmente o acusador dos jagunços, Euclides é, antes de tudo, seu defensor e portanto o acusador do Exército, do governo, da civilização, quase um procurador geral da História — com maiúscula! —, porque esta é a suprema instância da humanidade depois da morte de Deus (Zilly, 1996, p. 12).

Euclides formou-se no quadro de uma ciência que transportava seus modelos explicativos da natureza para a esfera do homem e da sociedade. Há fenômenos naturais que escapam ao domínio do homem — a natureza não pode ser inteiramente controlada, nem tampouco o homem. Mas para uma mentalidade que identifica homem e natureza sob as mesmas leis fundamentais, ambos podem ser educados, corrigidos, reformados técnica e cientificamente. Osertão exige uma reforma tanto natural quanto humana, uma conseqüência da outra, causa e efeito. A natureza sertaneja ofende as leis mais sensatas, contraria, confunde ou anula princípios universais, é incompreensível ao observador estrangeiro que a examina de fora. O próprio sertão é uma aberração que, no início do livro, Euclides afirma estar fora do esquema geográfico de Hegel. Suas leis são únicas, único é seu tipo de homem e sociedade.

A história é apresentada como trágica, repleta de infelicidades, infâmias e catástrofes, um imbricamento de progressos e retrocessos marcados por hecatombes. Essa visão do processo histórico como terrível painel de egoísmos, cegueiras e violências tem algo de hegeliano, uma semelhança que acentuei um pouco escolhendo entre os possíveis correspondentes de matadouro, metáfora para o teatro da guerra no sertão, o termo Schlachtbank, aludindo à famosa metáfora da história na Filosofia da história. Se para Hegel a história é, apesar disso, o palco do progresso rumo à liberdade, para Euclides ela só tem algum sentido quando representa a memória da humanidade e faz justiça, pelo menos simbólica e postumamente, graças ao seu órgão privilegiado que é a literatura, a crônica poética do narrador sincero. O juízo do autor sobre a guerra de Canudos sendo provisório, o verdadeiro tribunal da história é a posteridade, personificada nos leitores e historiadores do mundo civilizado, brasileiro e outros. Faz parte desse júri também o leitor alemão de 1996 (Zilly, 1996, p. 12).

Faz um século seis mil homens, todo um Exército, num confronto que durou três meses, depararam-se, numa vala, com dois homens, um velho e uma criança. Eram os últimos combatentes de Canudos. A vitória era uma espécie de derrota, deixava o vitorioso envergonhado e glorificava o vencido. Caio Prado Júnior escreveu que no final do século XIX o Brasil vivia um mal-estar de alto a baixo. Canudos foi, provavelmente, o maior mal-estar da época. Uma convulsão horrível. Ali se revelou a face selvagem de nossa civilização cordial. Num sertão ignoto onde se permitia tudo, sem testemunhas. Debaixo de um sol que tudo calcinava. Ali, nas condições mais extremas, as mais absurdas, defrontaram-se duas mentalidades, dois tipos de homens. Sem que um soubesse do outro, inimigos mortais por falta de alternativa. Inimigos por incompetência, descaso:

Na verdade, há dois processos: o já mencionado, movido por Euclides contra a civilização, em nome dos valores básicos dela mesma, como a inviolabilidade da vida humana e o Estado respeitador das leis; e outro processo movido pela civilização, representado pelo governo e pelo Exército, contra o povo de Canudos, que, expulso pela sociedade moderna, se retirou aosemideserto para realizar um projeto social-religioso alternativo, pelo que é condenado à morte sem ser ouvido (Zilly, 1996, p. 12)

À sua revelia, contra si mesmo e contra "as sua próprias prevenções, o narrador sincero é obrigado cada vez mais a uma reavaliação dos adversários e a uma inversão dos seus atributos: os jagunços acabam sendo os heróis, e os militares predestinados ao heroísmo acabam sendo assassinos, além de serem maus profissionais" (Zilly, 1996, p. 12).

Euclides só poderia admitir um Exército ideal, platônico uma organização que enfeixasse física e intelectualmente os ideais superiores da República, ideais afinal tão ilusórios, irreais, deslocados quanto os que mobilizavam os sertanejos. A campanha demonstrou quão insensato era crer na infalibilidade dos desígnios retilíneos da ciência, da ordem e do progresso, que o Exército supostamente corporificava. A luta recusou o percurso programado e se fez de todo imprevisível, fora do esquadro, desmedida, sem ordem de grandeza definida, irracional, assistemática. Contra quem exatamente? Quantos? Porque ela irrompia de onde menos se esperava. Do sertão mais árido, desértico, desabitado, sem água, comida nem armas. É notável que a atualidade do livro se revele, em parte, em conflitos situados não em lugares primitivos e distantes mas na própria Europa multissecularmente civilizada. É o que Zilly (idem, p. 10) observa:

O breve otimismo de muita gente depois do colapso do comunismo cedeu lugar a um profundo pessimismo quanto à capacidade ou disposição de nações, etnias, classes e indivíduos para resolver ou neutralizar seus conflitos sem uso da violência, conforme regras consensuais, de maneira mais ou menos civilizada. Os sertões apresentam um tipo de clash of cultures que é infelizmente mais freqüente do que nunca: o impacto entre grupos atrasados, muitas vezes rurais, cultural e religiosamente tradicionais, ‘fundamentalistas’, periféricos, de um lado, e do outro, a civilização moderna, racional, secularizada e globalizadora que os atropela com brutalidade e arrogância.

A revolta de Canudos encontrou sua interpretação num livro que é depoimento, explicação científica, denúncia, literatura, geografia humana, antropologia, história, psicologia. Nela um engenheiro, militar, republicano se defrontou com o fanatismo, a superstição, o misticismo. Ele, que encarnava a ilustração, confrontou a bárbarie. Pelas mãos de um dos vencedores, os vencidos escreveram, parcialmente, sua história. Um vencedor que se percebeu derrotado. Impotente. Em parte criminoso, partícipe do crime que denunciou. Ele, produto da civilização, tal qual os canhões Krupp que bombardearam Canudos: "Como observador

cético do homem civilizado, Euclides assustou-se com aquilo que o filósofo alemão Günther Anders chamou de "caráter antiquado do homem", ou seja, a sua organização mental inadequada para lidar de modo responsável com as ciências e tecnologias modernas, perigosas por sua capacidade altamente destrutiva" (idem, ibidem, p. 10). Não é que o Exército evita marchar num dia 13, dia de azar, "e iam combater o fanatismo", comenta Euclides. A inversão constante de papéis não escapa ao escritor: "Vê claramente que o fanatismo e o misticismo não estavam só do lado dos jagunços, mas também do lado dos civilizados" (idem, ibidem, p. 10). Trata-se da

... revisão do heroísmo. Para Euclides, a guerra portanto é a prática mais chocante da civilização. Esvaem-se logo duas ilusões, aquela sobre a guerra civilizada, que respeitaria certas regras éticas, a vida dos não-combatentes e dos prisioneiros, e a ilusão sobre o caráter heróico e grandioso da guerra, inspirada na poesia e na epopéia. A simbiose entre guerra e literatura é tão antiga quanto a própria literatura , como também é antiga a simbiose entre a guerra e a glória e o heroísmo (p. 10).

Euclides era engenheiro formado numa escola militar, instruído no mesmo espírito do Exército republicano que dizimou os rebeldes sertanejos. Ele, um cientista que se vê diante do incompreensível. Matar como soldado num Exército não escapa à ordem civilizada e racional. Outra coisa é lutar como fanático messiânico no fim do mundo. Isto Euclides pode até explicar, mas não pode compreender. Para tanto teria que ser outro. Ao mesmo tempo, o Exército também não é aquela estrutura racional aperfeiçoada que gostaria que fosse. Um tal Exército não daria chance a Canudos, não levaria dois anos para dizimar um grupo de jagunços mal armados:

Aqui aparece mais um traço de Os sertões, onde está presente uma minuciosa análise de cada passo do Exército na guerra, os acertos e os erros, as alternativas possíveis, as responsabilidades assumidas ou não. Enfim uma postura de estrategista do Exército. Em Os sertões, Euclides, enquanto deplora a sorte dos insurrectos e a crueldade com que foram tratados, ao mesmo tempo, e como se não houvesse contradição nisso, aponta a estratégia que teria tornado a ação do Exército mais eficiente (Galvão, 1981, p. 70).

Canudos é um somatório de erros e equívocos, de mais de três séculos que subsiste, transformado. Que o fanático messiânico isolado exista, isso pode ser tolerado. O que não se tolera é a multidão, o agrupamento, a cidade. Um doido pode sair à rua e discursar, mas que não arraste consigo ninguém, não tenha aousadia de fundar uma cidade... no Brasil, onde não existia povo, segundo a observação de um cientista francês. Pois foi a massa que apareceu no sertão longínquo, distante e ameaçadora:

O governo civil, iniciado em 1894, não tivera a base essencial de uma opinião pública organizada. Encontrara o país dividido em vitoriosos e vencidos. E quedara na impotência de corrigir uma situação que, não sendo francamente revolucionária e não sendo também normal, repelia por igual os recursos extremos da força e o influxo sereno das leis. Estava defronte de uma sociedade que progredindo em saltos, da máxima frouxidão ao rigorismo máximo das conspirações incessantes aos estados de sítio repetidos, parecia espelhar incisivo contraste entre a sua organização intelectual imperfeita e a organização política incompreendida.

De sorte que lhe sendo impossível substituir o lento trabalho de evolução para alevantar a primeira ao nível da última, deixava que se verificasse o fenômeno inverso: a significação superior dos princípios democráticos decaía — sofismada, invertida, anulada (Cunha, 1980, p. 201).

E aí, o "fetichismo político exigia manipansos de farda" (idem, p. 202).

O povo assistiu à República bestificado. Ali, no Rio de Janeiro, perante os líderes do movimento que desfilavam com toda a pompa e circunstância. Mas a quatro mil quilômetros de distância, aonde não se previa, a multidão reagiu. Não era a multidão que se esperava, nem ela reagiu como se desejava. Era na verdade uma das primeiras multidões de que se tinha notícia no Brasil e agia no sentido inverso ao das que exigiam seus direitos na Europa. Para se fazer presente, precisou se afastar. Para se fazer notar, teve de se esconder. Como bem percebeu Euclides, escolheu uma semicova imensa. Até nisso agiu pressentindo um destino. Só assim, sendo hiato, parêntese, não existindo, como escreveu Euclides, é que foi possível Canudos existir. Fora da história. Mais fora do mundo do que no fim do mundo, onde se deu o encontro inédito entre uns que foram exterminar, e outros, que foram exterminados. Este foi o modo de resolução do conflito: guerra de extermínio. Não se buscou outro. Canudos desobedeceu frontalmente ao sentido corrente do desmando do superior sobre o fraco, do forte sobre o desvalido, do rico sobre o miserável. Sentido único, aceito, consentido. Além de revolta, Canudos foi um abuso, um ultraje ao sistema do mando. Uma baderna intolerável de gente que precisava ser colocada no seu lugar de sertanejos obedientes ao padre, ao proprietário e ao patrão, das leis, enfim, que chegam do litoral e que devem ser acatadas sem discussão.

Dessa maneira, qualquer coisa que parecesse ameaçar remo-tamente a consolidação do novo regime republicano era logo postana conta de reacionária e restauradora. Assim aparecia, para os contemporâneos, qualquer perturbação da ordem. Foi preciso que se passassem várias décadas antes que se deixasse de aplicar a pecha de ‘monarquista’ ao mínimo sinal de descontentamento (Galvão, 1981, p. 68).

Além de subverterem a ordem local das coisas, desafiando o Exército ao se referirem a ele como "fraqueza do governo", os sertanejos insultavam a ordem universal: "Era preciso um grande exemplo e uma lição. Os rudes impenitentes, os criminosos retardatários, que tinham a gravíssima culpa de um apego estúpido às mais antigas tradições, requeriam corretivo enérgico. Era preciso que saíssem afinal da barbaria em que escandalizavam o nosso tempo, e entrassem repentinamente pela civilização adentro, a pranchadas" (Cunha, 1980, p. 176).

Como documento de civilização, Os sertões são também um documento de barbárie pois relatam um fracasso exemplar da civilização. Num outro contexto, ao perceber fenômeno análogo, Herald Rosenberg (1974) distinguiu elementos novos, aplicáveis também às esferas da cultura e da arte:

Para mim o exemplo mais dramático da ilusão do recém-chegado de estar alhures é a derrota de Braddock. Lembro-me de uma gravura em meu livro de história do curso primário que mostrava os casacos-vermelhos marchando ombro a ombro através da mata, enquanto, por detrás das árvores e dos rochedos, índios nus e caçadores de peles alvejavam-nos com tiros de mosquete. ... os casacos-vermelhos marcham em fila pela imensidão do Novo Mundo, com a sua desordem de penhascos, vegetação e exímios atiradores, como se estivessem em uma parada ou nos prados de um clássico campo de batalha da Europa, e um por um vão tombando e morrendo. Nunca me satisfiz com a explicação de que os casacos-vermelhos simplesmente fossem obtusos e cabeçudos, cópias canhestras do rei Jorge III. Na minha opinião, foram derrotados por sua habilidade. ... De acordo com as pressuposições de sua arte militar, por meio da qual eram controlados os seus sentidos, um campo de batalha deveria ter determinada aparência e disposição, vale dizer, um estilo. Não sendo cabíveis, aquelas árvores e rochas americanas, de onde vinham mortais mas insignificativas ferroadas, são esquecidas. Os casacos-vermelhos vão caindo na expectativa de, a qualquer momento, darem entrada no verdadeiro campo de batalha, os gramados suavemente ondulados prescritos pelos cânones do seu ofício e pressupostos por todos os princípios que tornam inteligível a guerra ao soldado do século XVIII.

A dificuldade dos casacos-vermelhos consistia em se encon-trarem no lugar errado. O mundo dos sonhos de um estilo vaisempre se antecipando e revestindo o mundo real. ... O que poderia Braddock fazer no meio daquelas árvores inesperadas? Uma só coisa: dar ordem de cerrar fileiras, maior cadência na marcha, batida mais ruidosa de tambores ... Ser um homem novo não é uma condição e sim um esforço — esforço subseqüente a uma revelação em benefício da qual formas existentes são descartadas como irrelevantes ou radicalmente revistas. As realizações autênticas da arte norte-americana originam-se da tensão de tais experiências singulares. Em honra aos inimigos de Braddock, relaciono aos caçadores de pele a denominação desse esforço antiformal ou transformal. Os que se encontravam atrás da árvores eram ‘homens sem arte’, para usar um rótulo de Windham Lewis referente a Faulkner e Hemingway. O que não significa que não saibam combater. Estudaram manobras entre esquilos e ursos-pardos, e fiam-se no seu conhecimento perante a tradição de César e Frederico. O seu princípio é simples: se for vermelho, atire! (Rosenberg, 1974, pp. 3-7.)

Também em Canudos a natureza está fora do lugar:

Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios ‘feldmarechais’ — guerreiros de cujas mãos caiu o ‘franquisque’ heróico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens (Cunha, 1980, p. 162).

Se esses feldmarechais vissem também os sertanejos. Mas há uma diferença entre uma guerra de libertação e uma guerra de extermínio, e do soldado prussiano para o brasileiro:

Homens de todas as cores, amálgama de diversas raças ... Seguem para a batalha como para algum folguedo turbulento. Intoleráveis na paz que os molifica, e infirma, e relaxa; inclassificáveis nas paradas das ruas, em que passam sem garbo, sem aprumo, corcundas sob a espingarda desastradamente manejada, a guerra é o seu melhor campo de instrução e o inimigo o instrutor predileto, transmudando-os em poucos dias, disciplinando-os, enrijando-os, dando-lhes em pouco tempo, nos exercícios extenuadores da marcha e do combate, o que nunca tiveram nas capitais festivas — a altivez do porte, a segurança do passo, a precisão do tiro, a celeridade das cargas. Não sucumbem à provação. São inimitáveis no caminhar dias a fio pelos mais malgrados caminhos. Não boquejam a reclamação mais breve nas piores aperturas; e nenhuns se lhes emparelham no resistir à fome, atravessando largos dias ‘àbrisa’, segundo o dizer de seu calão pinturesco. Depois dos mais angustiosos transes, vimos valentes escaveirados meterem à bulha o martírio e troçarem, rindo, com a miséria.

No combate, certo, nenhum é capaz de entrar e sair, como o prussiano, com um podômetro preso à bota — é desordenado, é revolto, é turbulento, é um garoto heróico e terrível, arrojando contra o adversário, de par com a bala ou a pranchada, um dito zombeteiro e irônico. Por isto se impropria ao desdobramento das grandes massas nas campanhas clássicas. Manietam-no as formaturas corretas. Estonteia-o o mecanismo da manobra complexa. Tortura-o a obrigação de combater adstrito ao ritmo das cornetas; e de bom grado obediente aos amplos movimentos da estratégia, seguindo, impassível, para os pontos mais difíceis, quando o inimigo lhe chega à ponta do sabre quer combater a seu modo. Bate-se, então, sem rancor, mas estrepitosamente, fanfarrão, folgando entre as cutiladas e as balas, arriscando-se doudamente, barateando a bravura. Fá-lo, porém, de olhos fixos nos chefes que o dirigem e de cuja energia parece viver exclusivamente. De sorte que à mínima vacilação daqueles tem, de chofre, extintas todas as ousadias e cai num abatimento instantâneo salteado de desânimos invencíveis (Cunha, 1980, p. 219).

Sobre a ordem do dia das forças atacantes, a expedição Febrônio, Euclides descreve os esquemas estratégicos que não se adaptam:

Não há uma palavra sobre inevitáveis assaltos repentinos. Nada afinal visando uma distribuição de unidades, de acordo com os caracteres especiais do adversário e do terreno. Adstrito a uns rudimentos de tática prussiana, transplantados às nossas ordenanças, o chefe expedicionário, como se levasse o pequeno corpo do Exército para algum campo esmoitado da Bélgica, dividiu-o em três colunas, parecendo dispô-lo, de antemão, para recontros em que lhe fosse dado entrar repartido em atiradores, reforço e apoio. ... Entre a incoercível tática prussiana, em que é tudo a precisão mecânica da bala, e a nervosa tática latina, em que é tudo o arrojo cavalheiresco da espada, tínhamos a esgrima perigosa com os guerrilheiros esquivos cuja força estava na própria fraqueza, na fuga sistemática, num vaivém doudejante de arrancadas e recuos, dispersos, escapantes no seio da natureza protetora (idem, pp. 179-80, grifos meus).

E logo em seguida a correção do Euclides, estrategista:

... as forças, dispersas em marcha, a partir da base das operações, deviam ir, a pouco e pouco, apertando os fanáticos, concentrar-se em Canudos.

Fez-se sempre o contrário. Partiam unidas, em colunas, dentro da estrutura maciça das brigadas. Avançavam emboladas pelos caminhos em fora. Iam dispersar-se, repentinamente — em Canudos... (idem, ibidem, p. 181).

Rosenberg descreve dois tipos de mentalidades afastadas, conflitantes, e a novidade do simples "atire no vermelho". Euclides percebe no Exército um esquema sobreposto ao homem, anulando suas características essenciais. A vantagem, afinal, do sertanejo é que ele, tal como o revolucionário americano, é que não sabia combater. Estava aí sua novidade.

Canudos, grande evento pelo avesso, só escandaliza porque foi feita incivilizadamente. Uma barbárie integral, sem o verniz das carnificinas civilizadas. O homem culto fica sem poder optar por um dos lados, indeciso, perplexo, imóvel. Há três séculos separados.

Num patamar, soldados e jagunços se igualam e identificam.

Não arremetiam mais em chusma sobre a linha, desafiando as últimas granadas; flanqueavam-na, em correrias pelos altos, deixando que agisse, quase exclusiva, a sua arma formidável — a terra. Esta bastava-lhes. O curiboca que partira a lazarina ou o ferrão se perdera no torvelinho, volvia o olhar em torno — e a montanha era um arsenal. Ali estavam blocos esparsos ou arrumados em pilhas vacilantes prestes a desencadear o potencial de quedas violentas, pelos declives. Abarcava-os; transmudava a espingarda imprestável em alavanca; e os monólitos abalados oscilavam, e caíam, e rolavam ... [e] passavam, como balas rosas monstruosas sobre as tropas apavoradas ... Entretanto, os sertanejos por bem dizer não agrediam.

Num tripúdio de símios amotinados pareciam haver transmudado tudo aquilo num passatempo doloroso e num apedrejamento. Desfilavam pelos altos em corrimaças turbulentas e ruidosas. Os lutadores embaixo seguiam como atores infelizes, no epílogo de um drama mal representado (idem, ibidem, p. 193).

E Euclides não percebia que escrevia da mesma maneira.

Porque os sertanejos também pertenciam à "outra margem" que, Joseph Conrad (1982, pp. 51-2), num ritmo semelhante, descreveu em Heart of darkness (Coração das trevas) — os selvagens que seguem o barco que sobe o rio Congo. Publicada em 1902, o mesmo ano de Os sertões, a parábola do capitalismo mercantilista de Conrad narra também o testemunho de um homem ao qual, no coração da África, é revelado o avesso da grande empresa civilizatória européia — a loucura, a miséria e o desespero que estavam por trás da riqueza e do bem-estar das sociedades civilizadas.

A terra parecia espectral. Estávamos acostumados a olhar a forma acorrentada de um monstro conquistado, mas ali - ali olhava-se uma coisa monstruosa e solta. Era fantástico, e os homens eram... Não, não eram inumanos. Bem, vocês sabem, isso é que é o pior... essa suspeita de que não eram inumanos. Chegava-nos lentamente. Eles uivavam e saltavam, rodopiavam e faziam caretas horrendas; mas o que mais nos emocionava era simplesmente a idéia da humanidade deles — como a nossa —, a idéia de nosso remoto parentesco com aquele bárbaro e apaixonado furor. Feio. Sim, era bastante feio; mas se éramos homens o bastante admitiríamos para nós mesmos que havia em nós o mais débil vestígio de uma reação à terrível franqueza daquele barulho, uma vaga suspeita de que havia naquilo um sentido que nós — tão distantes da noite das primeiras eras — podíamos compreender. E por que não? A mente humana é capaz de qualquer coisa — porque tudo está nela, todo o passado como todo o futuro. Que havia ali afinal? Alegria, medo, dor, dedicação, coragem, raiva — quem sabe? — Que o tolo fique boquiaberto e estremeça — o homem sabe, e pode contemplar sem piscar. Mas deve ao menos ser tão homem quanto aqueles da margem. Deve enfrentar a verdade com sua própria matéria autêntica - com sua própria força inata.

Canudos é o primeiro documento superiormente artístico do encontro perplexo e trágico, e ainda atual e irresolvido, com o outro de nós mesmos. E Os sertões, um livro grandiosamente excêntrico na literatura brasileira, quiçá universal.


   
   

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Conrad, Joseph 1982 Heart of darkness. Londres, Penguin Books.        [ Links ]

Cunha, Euclides da 1980 Os sertões. Rio de Janeiro, Francisco Alves.        [ Links ]

Galvão, Walnice Nogueira 1981 Gatos de outros sacos. ensaios críticos. São Paulo, Brasiliense.         [ Links ]

Merquior, 1996 De Anchieta a Euclides. José Guilherme Rio de Janeiro, Topbooks.         [ Links ]

Rosenberg, Harold 1974 A tradição do novo. São Paulo, Perspectiva.        [ Links ]

Zilly, Berthold 1996 ‘Um depoimento brasileiro para a história universal: traduzibilidade e atualidade de Euclides da Cunha’. Revista Humboldt, vol. 38, nº 72, Bonn.         [ Links ]

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License