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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos v.5  supl.0 Rio de Janeiro jul. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701998000400010 

 

 

 

Missões
civilizatórias da
República e
interpretação do
Brasil*

The civilizing
missions of the
Republic and
interpretations of
Brazil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Este artigo apresenta uma versão modificada do capítulo 3 de minha tese de doutoramento, defendida no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) em 1997 com o título:
Um sertão chamado Brasil: intelectuais, sertanejos e imaginação social.

Nísia Trindade Lima

Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e profa. da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)
Av. Brasil, 4365 Prédio do Relógio
21040-360 Rio de Janeiro — RJ Brasil
E-mail: lima@fiocruz.br

 

 

 

 

 

LIMA, N. S.: ‘Missões civilizatórias da República e interpretação do Brasil’.

História, Ciências, Saúde — Manguinhos,

vol. V (suplemento), 163-193 julho 1998.

Este artigo discute a importância das viagens ao interior, nas três primeiras décadas da República, para a construção de interpretações do Brasil referidas à idéia do contraste entre sertão e litoral. A proposta de conhecimento dos sertões brasileiros é analisada como expressão de um movimento de forte conteúdo simbólico que acompanhou os projetos de delimitação de fronteiras, saneamento e integração econômica e política. Dado seu impacto na formação de matrizes do pensamento social brasileiro, o artigo discute as representações relacionadas à viagem de Euclides da Cunha a Canudos, consagradas em Os sertões, e aquelas presentes nos relatórios da Missão Rondon e das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), atual Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

PALAVRAS -CHAVE: missões republicanas, sertão, pensamento social brasileiro, viagens científicas do Instituto Oswaldo Cruz, Euclides da Cunha, Missão Rondon.

 

 

 

 

LIMA, N. S.: ‘The civilizing missions of the Republic and Interpretations of Brazil’.

História, Ciências, Saúde — Manguinhos,

vol. V (supplement), 163-193 July 1998.

The article discusses how journeys into the Brazilian interior during the first three decades of the Republic played a role in constructing interpretations of Brazil underpinned by the notion of contrast between sertão and coast. This missionary movement heavily imbued with symbolism accompanied official projects in boundary definitions, sanitation, settlement, and economic and political integration. Closely associated with the expansion of government presence, it included among its leadership intellectuals informed by scientism and by the ideals of progress identified with the new regime. Bearing in mind their impact in the process of casting Brazilian social thought, the article discusses representations regarding Euclides da Cunha’s journey to the region of Canudos, immortalized in his classic Os sertões, as well as the representations found in reports by the Rondon Mission and scientific expeditions sponsored by the Instituto Oswaldo Cruz.

KEYWORDS: Republican missions, sertão, backlands, Brazilian social thought, Instituto Oswaldo Cruz’s scientific missions, Euclides da Cunha, Rondon Mission

   

 

 

 

 

 

"Não há, ó gente, ó não, luar como este do sertão."

Raro é o brasileiro que não conhece este verso da música de Catulo da Paixão Cearense. Na singela exaltação da beleza das noites enluaradas e no lamento diante de sua perda com a iluminação artificial nas cidades, expressava-se o que, na década de 1910, muitos chamaram de uma moda do sertão. Naquele momento, este tornou-se um tema privilegiado tanto em concepções que exaltavam a natureza e o homem sertanejos, como em abordagens críticas ao que viam como manifestação de ufanismo.

Em diálogo com o sertanismo de inspiração romântica, mas não necessariamente em oposição a ele, é possível também falar de um movimento de valorização do sertão que acompanhou projetos de construção de ferrovias, de delimitação de fronteiras, de saneamento, de mapeamento cartográfico e utilização de recursos naturais. Fortemente associado à presença do Estado, ele reuniu atores sociais informados pelo cientificismo dominante entre a intelectualidade.

Ações, cujas origens podem ser localizadas no Império, não apenas se intensificaram como ganharam novos significados durante os primeiros anos da República. Datam daquele período importantes expedições ao interior, como as de Cândido Rondon; as da Comissão Geológica em São Paulo; a do astrônomo Louis Cruls em 1892 ao Planalto Central visando à mudança da capital; e as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz. Não é preciso lembrar a importância que a viagem de Euclides da Cunha à região conflagrada de Canudos e o impacto de Os sertões tiveram para os intelectuais do período em questão.1

Neste artigo, discuto a associação entre ideal civilizatório e proposta de incorporação dos sertões brasileiros durante a Primeira República. Pretendo argumentar que a ênfase no dualismo entre litoral e interior, ainda que se alternando a atribuição de valores positivos e negativos a um ou outro pólo, tornou o debate sobre o sertão um tema-chave no pensamento social brasileiro e nos projetos de construção da nacionalidade. Em certo sentido, pode-se mesmo afirmar que a idéia de sertão se transforma numa metáfora para pensar o Brasil.

Para desenvolver tal argumento, apresento inicialmente breve apreciação sobre os diferentes significados atribuídos à palavra sertão, em período anterior ao analisado neste trabalho. A seguir, detenho-me nos textos que considero os mais representativos do ideário dos intelectuais-cientistas da Primeira República e de seu debate sobre os sertões brasileiros: o da obra mais importante de Euclides da Cunha e o dos relatórios das expedições de Rondon e das viagens ao interior do Brasil realizadas pelos cientistas do Instituto Oswaldo Cruz.

Em termos dos símbolos e valores mobilizados, a natureza mis-sionária das atividades desses intelectuais-cientistas os aproximariaa uma forma menos pura de liderança carismática, no sentido empregado por Max Weber (1974): ênfase nos feitos extraordinários dos líderes das expedições; o termo missão para designar as viagens; rejeição à idéia de lucro privado; e dificuldade em rotinizar as ações. De fato podemos nos referir à intelectualidade do período como sendo portadora de uma "cultura heróica"; atribuía a si própria a função de construir a nação forjando sua unidade territorial e moral (Rezende de Carvalho, 1996).

Sertões imaginados

A (re)descoberta do sertão — sua abordagem pelas expedições/missões científicas das duas primeiras décadas deste século — não pode ser compreendida sem que nos indaguemos sobre a presença do tema em momentos anteriores. Afinal, o que é sertão?

De acordo com estudos etimológicos, a palavra seria oriunda de desertão. Seu sentido encontrava-se, segundo dicionários da língua portuguesa dos séculos XVIII e XIX, em duas idéias: a espacial, de interior, e outra, de conteúdo social, indicando região desértica, pouco povoada (Mader, 1995, p. 2). Em estudo sobre a idéia de sertão no Brasil colonial dos séculos XVI e XVII, Maria Elisa S. Mader (op. cit., p. 13) observa que seu sentido transcendia o de uma delimitação espacial precisa. Discutindo o imaginário elaborado por viajantes, missionários e cronistas e reportando-se, entre outras análises, à de Sérgio Buarque de Holanda (1996) sobre a especificidade da colonização portuguesa — uma colonização de mercadores voltados para o mar; de "semeadores" em que faltava o traçado meticuloso e planejado do colonizador espanhol —, a autora analisa os sentidos que o termo foi adquirindo nos diferentes textos de época. Mais do que em oposição a litoral é em contraste com a idéia de "região colonial" que o imaginário sobre o sertão se constitui. A "região colonial" representaria o espaço preenchido pelo colonizador. "Constitui-se no mundo da ordem, estabelecida por duas instâncias de poder: a Igreja e o Estado." Como sua antítese, encontra-se o sertão: "o território do vazio, o domínio do desconhecido, o espaço ainda não preenchido pela colonização".

Ainda que tal representação não seja objeto desta pesquisa, há o interesse em observar como a tendência posterior de "naturalizar" a palavra, referindo-a a um espaço físico claramente delimitado, desconsidera sua gênese e a alta carga de valores simbólicos a ela associada.

No século XIX, a definição mais corrente para sertão era a que o identificava às áreas despovoadas do interior do Brasil (Amado, 1995, p. 148). Duas outras conotações podem ser identificadas no mesmo período. Uma, mais próxima ao uso atual do termo, que o associa à área semi-árida do Nordeste brasileiro, e outra, tambémmuito presente entre autores contemporâneos, que prioriza a atividade econômica e os padrões de sociabilidade, aproximando sertão à civilização do couro.

Obra clássica que localiza o sertão no semi-árido nordestino é O sertanejo de José de Alencar. O autor descreve sítios cearenses em que estivera na infância e os personagens, como já observaram outros estudos, guardam nítida semelhança com os descritos posteriormente por Euclides da Cunha em Os sertões (Bernucci, 1995). Como se sabe, o romancista planejara elaborar um amplo painel das diferentes regiões brasileiras, projeto que deixou inacabado, mas que certamente influenciou tanto a fase sertanista do romantismo, como os textos que comumente são identificados com o naturalismo. A força dos elementos naturais, a simbiose entre o homem sertanejo e a natureza com seus segredos e quase impenetrabilidade são elementos que vemos se reproduzir numa narrativa como a de Euclides da Cunha, e mesmo nos textos dos relatórios das expedições científicas de Rondon (1915) e dos cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (Chagas, 1913; Cruz, 1913, 1910; Penna e Neiva, 1916).

Como observa Candice Vidal e Souza (1997), a abordagem do sertão enquanto modo de vida associado à atividade pecuária apresenta-se, entre outras obras, em textos expressivos de Capistrano de Abreu, Oliveira Vianna e Nelson Werneck Sodré. Em Capistrano de Abreu encontramos a ênfase na proximidade entre ambiente inóspito e vida ascética dos primeiros povoadores do sertão; tema retomado por Oliveira Vianna, que relaciona a expansão do povoamento ao avanço da civilização rural pelo interior do país. Para este autor: "a impressão do sertão apreendida em relatos de viajantes estrangeiros é falsa. Aqueles que viram apenas o deserto desumanizado e a ausência de cultura não perceberam o mundo que pulsa sob a aparência de vazio" (idem, p. 62).

O mito do sertão enquanto espaço vazio encobriria, na perspectiva de Oliveira Vianna, a natureza de um mundo que experimentava as conseqüências do isolamento físico e social — uma espécie de "rebelião permanente" como marca constitutiva do sertão pastoril (ibidem, p. 63). A imagem de autonomia e distância em relação ao poder público, acentuada pelo autor, é muito próxima à que encontramos em texto de Nelson Werneck Sodré: "A expansão notável dos rebanhos, nos chapadões e nas terras baixas do pantanal não pôde ser acompanhada de perto pelo poder público. Autoridade e meio de repressão, como a própria moeda, que é símbolo do Estado, permaneceram nas cidades. Em torno delas, na razão direta da distância, campeia a impiedade" (idem, ibidem, p. 69).

É esta idéia de distância em relação ao poder público e a projetos modernizadores, enfatizada nos textos de Oliveira Vianna e Nelson Werneck Sodré, entre outros autores, que pode ser apontada comodenominador comum dos vários significados atribuídos à palavra sertão. Como procuro demonstrar, para os intelectuais-cientistas do primeiro período republicano, sertão integra o mesmo campo semântico de incorporação, progresso, civilização e conquista. Assim, por exemplo, a Comissão Geológica de São Paulo utiliza o termo para designar o Oeste do estado, região pouco habitada no início do século e que foi, com a participação decisiva dos trabalhos dos geólogos, progressivamente mapeada, integrada e ocupada pelas fazendas de café (Figueirôa, 1997).

Nesse sentido, não seria propriamente a civilização do couro o elemento definidor de sertão, e sim a idéia de distância em relação ao poder público e aos projetos modernizadores. Talvez sua melhor tradução possa ser encontrada em uma das mais expressivas imagens referidas ao movimento sanitarista da Primeira República: o sertão no Brasil começa onde termina a avenida Central.2

Sertão, nessa perspectiva, é concebido como um dos pólos do dualismo que contrapõe o atraso ao moderno, e é analisado, com freqüência, como o espaço dominado pela natureza e pela barbárie. No outro pólo, litoral não significa simplesmente a faixa de terra junto ao mar, mas principalmente o espaço da civilização. Este sentido metafórico evidencia-se na diversidade de lugares e contextos em que a palavra foi utilizada: para nomear o interior da capitania de São Vicente (Prado, 1961, p. 234); o Oeste paulista nas primeiras décadas do século XX (Figueirôa, 1997); a Amazônia (Rondon, 1910; Jobim, 1957, p. 179); a cidade do Recife (Freyre, 1977, 147); a capitania de Minas Gerais (Goulart, 1961, p. 49); a ilha de Santa Catarina (Prado, idem, p. 337); áreas do Nordeste e Centro-Oeste brasileiros (Penna e Neiva, 1917); o Norte de Goiás (Albuquerque, Benchimol et alii, 1991); subúrbios da cidade do Rio de Janeiro (Peixoto, 1918).3

O dualismo sertão/litoral apresenta duas faces. Numa delas, o pólo negativo é representado pelo sertão, identificado com a resistência ao moderno e à civilização. Na outra, o sinal se inverte: o litoral é apresentado como sinônimo de inautenticidade, enquanto antítese da nação. Em muitos autores, entre os quais a posição de Euclides da Cunha é exemplar, a ambivalência consiste na principal característica da representação que constroem sobre o país e seus contrastes.

As perspectivas que valorizam positivamente, ou abordam de forma ambivalente aquele que é visto como o pólo do atraso e da resistência ao progresso, vêem o sertão como a possibilidade do desenvolvimento de uma autêntica consciência nacional. Do ponto de vista de uma opção intelectual por certo tipo de historiografia, temos a idéia de uma história dos bandeirantes como alternativa à história da costa — história de reis ou oficial — de que nos fala Vicente Licínio Cardoso (1933). Este ponto é reforçado de maneiraenfática por Gilberto Freyre (1977), que assinala em "a idéia da ruptura com os antepassados europeus no momento da expansão pelo sertão" (Souza, 1997, p. 109).

A partir de outras referências, a identificação do litoral à Europa constitui parte expressiva da crítica ao bovarismo dos intelectuais durante a Belle Époque. Como observa Nicolau Sevcenko (1989, p. 123), ao reportar-se às afinidades entre Euclides da Cunha e Lima Barreto: "Revelava-se nas suas obras o mesmo empenho em forçar as elites a executar um meio giro sobre seus próprios pés e voltar o seu olhar do Atlântico para o interior da nação, quer seja para o sertão, para o subúrbio ou para seu semelhante nativo, mas de qualquer forma para o Brasil e não para a Europa."

Este giro sobre os pés, que leva o intelectual a dirigir o olhar para o interior do país, permite que se superponha ao dualismo mais comumente associado à visão negativa sobre o Brasil — civilização x barbárie — uma oposição que de certa forma se aproxima à apontada por Norbert Elias (1990) em sua discussão sobre a gênese dos conceitos de cultura e civilização na Europa do século XVIII. Trata-se, em nosso caso, de uma oposição entre civilização de copistas e cultura autêntica, cultura que, em todo caso, ainda estava por ser ‘descoberta’. Nessa perspectiva, sertão assume o sentido de núcleo da construção da nacionalidade brasileira; idéia magistralmente apresentada na obra de Euclides da Cunha.

Os sertões como viagem: da rua do Ouvidor à caatinga

Texto clássico e identificado em muitas obras como marco inicial da constituição de um argumento sociológico sobre o Brasil, Os sertões pode ser lido como uma viagem cuja origem estaria no Rio de Janeiro da Belle Époque. O dualismo litoral/interior poderia encontrar uma nova representação geográfica na oposição entre a rua do Ouvidor, com suas livrarias, cafés e muito do que Euclides da Cunha considerou expressão de uma civilização de copistas, e o sertão de Canudos, ambiente caracterizado pela supremacia da natureza sobre o homem; pela quase impenetrabilidade da caatinga e pela autenticidade da nação. Certamente, este sentido convive com a representação negativa do homem sertanejo, que com sua mentalidade e religiosidade mestiça e atávica resistia à mudança e ao fatalismo de um processo civilizatório do qual não poderia escapar. Mas é essa ambivalência que, na perspectiva euclidiana, torna não apenas possível como positivo e necessário para a "civilização do litoral" o projeto de incorporação efetiva do interior à construção do Estado nacional no Brasil.

Representante do estilo intelectual da chamada "geração de 1870", Euclides portava a força das novas idéias associadas à República (Sevcenko, 1989, p. 127). Destaca-se entre as influênciasintelectuais que recebeu o positivismo, de forte presença em sua formação acadêmica, tendo sido aluno no Colégio Aquino e na Escola Militar da Praia Vermelha de uma de suas maiores expressões: Benjamin Constant. É interessante, entretanto, que a formação militar não seja muitas vezes valorizada como fator decisivo no estilo de pensamento e ação intelectual que adotou.

Os analistas da obra de Euclides da Cunha, e de Os sertões em particular, tendem a defini-la a partir de uma identidade disciplinar/profissional específica. Ela é vista ora como geográfica, ora como de cunho naturalista, sociológica ou mesmo ficcional. De fato, todas podem ser pertinentes de acordo com o ângulo em que se observa a produção intelectual do autor que, como afirmou Roquette-Pinto (1927, p. 66), a despeito de seus limites e determinismo, permitiu que se associassem tipos humanos pouco conhecidos — o sertanejo, o vaqueiro, o jagunço, o caucheiro —, ao meio em que viviam, com tal poder descritivo que seria legítimo aproximá-lo ao "naturalista-ficcionista" Goethe. Menos lembrado, como observei, tem sido o "Euclides militar", condição importante para que se reflita sobre a influência específica do positivismo em sua obra, particularmente da corrente pacifista e integradora representada por Benjamin Constant. Desse ideário militar-positivista desponta o projeto de integração do interior: "a incorporação do sertão à vida nacional e o revigoramento da civilização pela matéria-prima étnica e social do sertanejo" (Sevcenko, 1989, p. 120). Como pretendo argumentar, tal aspecto aproxima a caracterização do sertão feita por Euclides da Cunha à que se apresenta nos textos de Rondon.

A caracterização do sertanejo seria mais a de um retrógrado do que a de um degenerado. As raízes indígenas teriam relevância nessa caracterização do sertanejo e dos sertões e na própria auto-imagem de Euclides da Cunha. Segundo Nicolau Sevcenko (op. cit., p. 204):

Esse escritor ... que considerava a si próprio, com orgulho, como uma "mistura de celta, tapuia e grego", concentraria a sua atenção sobre o universo de raiz indígena genuína, circunscrito no interior do triângulo territorial formado pelos sertões nordestino e amazonense, tendo São Paulo como vértice. Nele prepondera um tipo de mestiço altamente adaptado às condições do país e que, por isso, apenas e circunstancialmente, "é um retrógrado e não um degenerado", como os "mestiços histéricos" do litoral, segundo o modelo de Faville. Redimidos de seu anacronismo secular, a eles se destinaria a própria conquista étnico-social do país.

Da mesma forma, verificam-se em vários trabalhos de Euclides da Cunha evidências de que o ponto de origem da viagem a Canudos e de outras viagens em que o tema da incorporação à construção danacionalidade estivesse presente deveria se deslocar do Rio de Janeiro para São Paulo, visto por ele como foco da história do país; era a partir de São Paulo — berço da civilização mestiça dos bandeirantes — que o sertão deveria ser estudado e integrado. Esta referência é enfatizada, entre outros autores, por Roger Bastide (1978, pp. 120-222), que, retomando uma linha de argumentação desenvolvida originalmente por Sílvio Romero, vê Euclides da Cunha como intelectual representativo daquele estado e Machado de Assis como expressão do mundo cultural do Rio de Janeiro.

A imagem da rua do Ouvidor enquanto ambiência da civilização era, com freqüência, contestada pelo autor de Os sertões. Ao comentar ações de empastelamento de jornais monarquistas à época da guerra de Canudos, procurava demonstrar que talvez não fosse tão grande a distância entre os citadinos e os sertanejos (Cunha, 1966, pp. 327, 395): "A rua do Ouvidor valia por um desvio das caatingas ... O homem do sertão, encourado e bruto, tinha parceiros porventura mais perigosos." Sua crítica dirigia-se, nesse caso, também à ação dos jacobinos e florianistas, o que não impedia que se admirasse ante o heroísmo de muitos soldados como quando observa com certa dose de ironia:

... entre nós os dias revoltos da República tinham imprimido, sobretudo na mocidade militar, um lirismo patriótico que lhe desequilibrara todo o estado emocional, desvairando-a e arrebatando-a em idealizações de iluminados. A luta pela República, e contra os seus imaginários inimigos, era uma cruzada. Os modernos templários, se não envergavam a armadura debaixo do hábito e não levavam a cruz aberta nos copos da espada, combatiam com a mesma fé inamolgável. Os que daquele modo se abatiam à entrada de Canudos tinham todos, sem excetuar um único, colgada ao peito esquerdo, em medalhas de bronze, a efígie do marechal Floriano Peixoto e, morrendo, saudavam a sua memória...

A viagem de Euclides a Canudos teria contribuído para acentuar as ambivalências do escritor face aos ideais de progresso então dominantes e para alterar profundamente sua visão sobre os sertanejos. Uma das evidências deste fato encontra-se na própria mudança do título originalmente proposto para Os sertões: A nossa Vendéia. A comparação entre a rebelião camponesa e a guerra de Canudos foi objeto de muitas críticas pelo estabelecimento de analogias entre a experiência francesa e os problemas da recente República brasileira, particularmente no que diz respeito à atribuição de um sentido monarquista à resistência dos sertanejos brasileiros. Em contraste com os primeiros artigos publicados na imprensa, vemos em Os sertões acentuar-se a crítica aos excessos e contradições da República.

De toda forma, como argumenta Leopoldo Bernucci (1995), permanece válida a comparação entre Os sertões e Quatrevingt-treize de Victor Hugo, dedicado à rebelião da Vendéia. Também o autor francês não escaparia das tensões entre a ênfase cientificista da literatura de cunho naturalista e o romantismo, encontrando-se com freqüência dividido entre a visão de uma civilização que deveria se impor e a denúncia de seus problemas e contradições.

A influência da literatura de Victor Hugo fica também evidenciada na caracterização do sertanejo feita na segunda parte de Os sertões. Mais significativa do que a conhecida frase: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte" (Cunha, 1966, pp. 170, 172), é a imagem ambígua de Hércules-Quasímodo, pois de acordo com as circunstâncias: "da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias". Na comparação entre o gaúcho e o sertanejo, as circunstâncias — o meio — aparecem novamente como fator preponderante: no caso do primeiro tipo, "a luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem dos sertões do norte ... passa pela vida, aventureiro, jovial ... valente e fanfarrão". Circunstâncias adversas fazem com que o sertanejo oscile entre virilidade e fragilidade: entre os tipos do semideus Hércules e do monstruoso Quasímodo.

Neste confronto entre os tipos nacionais, vemos a influência do romantismo, não apenas o de Victor Hugo como, de forma mais evidente, a retomada de um dos projetos intelectuais de José de Alencar: a constituição de um painel abrangente sobre os tipos regionais brasileiros. As proximidades entre o texto de Euclides da Cunha e o do romancista são enfatizadas na análise de Bernucci (1995). Ao estabelecer pontos comuns entre eles, o autor chama atenção para os impasses vividos por Euclides, que, apesar da intenção manifesta de uma descrição das paisagens e dos homens sob inspiração cientificista à moda de Humboldt ou de Gumplowicz, inspira-se na ficção romântica de Alencar para a descrição do "sertanejo-centauro" e a do gaúcho que constrói como sua antítese. Confrontamo-nos, assim, com a polissemia de um texto em que o "narrador sincero" representado por Euclides da Cunha revela a forte tensão entre o romantismo imaginativo e o naturalismo ainda incipiente.4

Numa das passagens bastante criticada por analistas da época, a quem Euclides (1985, pp. 145, 479) responde, acentua-se a ambigüidade do autor diante da forte representação do sertanejo. Afinal, para ele, ao lado da célebre afirmativa: "Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos", superpunha-se a idéia de que em Canudos "entalhava-se o cerne da nacionalidade". Por isso, nos momentos finais da resistência ao cerco militar, o emprego da dinamite representaria uma consagração: "Atacava-se a fundo a rocha viva da nossa raça."

As oposições entre litoral e sertão não seriam, dessa forma, inconciliáveis, mas passíveis de solução através de um projeto nacional que incorporasse efetivamente o interior do país. Razões de natureza estratégica, especialmente o problema das fronteiras, eram igualmente levadas em consideração no conjunto de sua obra. O país deveria rumar em direção ao Pacífico e tecer uma malha ferroviária capaz de integrar suas distintas regiões. Daí a admiração que, mais de uma vez, manifestou pelas atividades de Rondon.

Muitos estudos têm se debruçado sobre a obra euclidiana e, em particular, sobre Os sertões;5 muitas também são as análises comparativas que a cotejam com a de outros intelectuais: José de Alencar, Afonso Arinos, Victor Hugo, Sarmiento, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Manoel Bonfim são alguns dos nomes mais expressivos contemplados por estudos dessa natureza. Alguns autores ressaltam o determinismo e a influência das teorias racistas; outros a ambigüidade, vendo em Euclides uma voz dissonante diante das idéias de progresso (Kropf, 1996). Algumas análises ressaltam as proximidades entre o teor cientificista e a estética naturalista; outras os componentes românticos da obra euclidiana, ponto aliás que também sublinhei nesta breve apreciação. Textos polissêmicos, sem dúvida, de um intelectual, a um só tempo, típico de sua geração e original na abordagem e estilo com que tratou o tema do que poderíamos chamar de um projeto para o Brasil.

O que tentei sublinhar aqui foi a sua visão peculiar de integração dos sertões — um sertão mameluco —, que poderia ser a base para a constituição do que via como uma civilização autêntica para o país. Importa também observar o impacto da obra euclidiana entre seus contemporâneos e epígonos. Os sertões são vistos, desde sua publicação em 1902, como um grito de alerta para a elite política do país. Esta, assim como a intelectualidade, era com freqüência caracterizada como superficial e presa a um cosmo-politismo de aparência, insensível "à visão dantesca do sertão brasileiro". A crítica é acentuada, entre outros, em artigo de Mário Pinto Serva (1918, p. 218) que contestava a opção por se "organizar academias de letras e construir avenidas à beira-mar, para satisfazer o parasitismo litorâneo" ao invés de se "investir recursos para lutar contra a seca do Nordeste, ou para a colonização da Amazônia".

As proximidades entre a argumentação euclidiana e a de Rondon sobre a incorporação dos sertões e os ecos da obra-denúncia de Euclides da Cunha entre os cientistas que participaram das viagens científicas do Instituto Oswaldo Cruz, comentados a seguir, permitem que se conheça melhor esse projeto de parte da intelligentsia brasileira de redimir e mesmo formar a nação brasileira a partir dos sertões.

A viagem ao sertão como epopéia: notas campanha sobre sobre a campanha sertanista de Rondon

Cândido Mariano da Silva Rondon é uma das figuras míticas da história do Brasil republicano. Mato-grossense, de uma família de poucos recursos e órfão, como outros jovens encontrou na carreira militar uma perspectiva de futuro profissional num país de estreitas possibilidades para as camadas médias. Sua formação acadêmica na Escola Militar da Praia Vermelha teve, assim como na vida de Euclides da Cunha, importância decisiva. Além de aluno, tornou-se uma espécie de seguidor de Benjamin Constant, chegando a participar da mobilização dos militares que antecedeu a proclamação da República.

Em contraste com a posição de Euclides, no entanto, aderiu ao positivismo ortodoxo do apostolado, tendo inclusive se casado de acordo com a doutrina e liturgia positivistas às quais manteve-se fiel até 1958,6 ano de sua morte. Em sua biografia, redigida também por uma positivista,7 a partir dos diários que escreveu, várias passagens são alusivas a esta que aparecia como uma identidade tão valorizada quanto as de militar e sertanista.

Suas atividades na construção de linhas telegráficas remontam ao início da carreira de oficial do Corpo de Engenharia Militar. Em várias fontes encontramos tentativas de organizar cronologicamente os trabalhos da Comissão Rondon.8 Em geral, se tomarmos a autoconstrução feita pelo sertanista, este tende a separar o período que vai de 1891 a 1906, quando inicialmente sob a liderança de Gomes Carneiro e, posteriormente, assumindo a responsabilidade pelos trabalhos, foram construídas linhas telegráficas no estado de Mato Grosso. Segundo Rondon, não se tratava apenas de assegurar as comunicações da capital federal com as linhas daquele estado. Tratava-se de obra muito mais extensa e completa: encerrar os principais pontos estratégicos do país, na fronteira com o Paraguai e a Bolívia, de forma a permitir comunicação e vigilância.

No governo Afonso Penna, Rondon assumiu aquela que seria uma das mais marcantes missões de sua biografia: a liderança da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas de Mato Grosso ao Amazonas com o objetivo de ligar à capital federal, pelo fio telegráfico, os territórios do Amazonas, do Acre, do Alto Purus e do Alto Juruá, por intermédio da capital de Mato Grosso, já em comunicação com o Rio de Janeiro. Os pontos extremos da linha seriam Cuiabá e Santo Antônio do Madeira, que delimitavam o "grande sertão do Noroeste" (Roquette-Pinto, 1938, p. 55).

Em diferentes documentos, são narrados os trabalhos e conquistas da comissão: a descoberta do rio Juruena; o percurso pela serra do Norte; a correção de erros cartográficos; e a pacificação de tribos indígenas.9 Um dos aspectos mais enfatizados no discurso de Rondon consistia no conhecimento do território brasileiro e de seus acidentes geográficos propiciado pelas viagens que realizou.

Os textos em que Rondon avalia a contribuição de suas várias viagens à hinterlândia destacam a contribuição ao conhecimento da geografia do país: a revisão dos mapas cartográficos, o escla-recimento sobre as nascentes e embocaduras de rios. Ao contato com os homens selvagens somava-se a idéia de um domínio sobre a natureza. A construção das linhas telegráficas era acompanhada por trabalho de reconhecimento dos rios, da flora, da fauna, de conhecimento das condições epidemiológicas e de contato com as tribos indígenas, com ênfase no conhecimento de seus costumes e das línguas faladas. Os relatórios da Comissão Construtora das Linhas Telegráficas de Mato Grosso ao Amazonas são um exemplo típico de associação entre os objetivos mais imediatos e ‘pragmáticos’ de efetivar as comunicações e integração dos ‘sertões’ às preocupações e estilo de trabalho típicos dos naturalistas do século XIX: volumosas descrições de espécimes da flora e da fauna; detalhadas descrições geográficas e geológicas acompanhadas de pranchas primorosas; glossário de termos indígenas, entre outras características, fazem do conjunto dos trabalhos realizados, como observou o cientista Arthur Neiva, uma das mais valiosas contribuições à ciência brasileira (Azevedo, 1958).10

A despeito dessa proximidade com o estilo de trabalho científico das viagens dos naturalistas, a identidade escolhida por Rondon para construir sua imagem pública não é a de cientista, mas a de sertanista. Em conferência realizada após a descoberta do rio Juruena e encerramento de uma etapa de seu trabalho, esta ênfase fica clara. Rondon apresenta-se como um "sertanista" que lidava há vinte anos, "com as rudezas semibárbaras da linguagem dos caboclos e com as asperezas torturantes dos idiomas indígenas". Sua narrativa enfatiza as semelhanças com a epopéia dos bandeirantes. Entre os pontos de contato ressaltados, destaca, pela natureza da atividade de instalação dos postes telegráficos, a necessidade de percorrer longos trechos a pé, sem poder mesmo contar com a navegação fluvial e, dessa forma, efetivamente "adentrar os sertões".

Repete-se com Rondon um tema bastante presente em textos de Euclides da Cunha, nos relatórios das expedições dos cientistas de Manguinhos e na obra literária de Monteiro Lobato: o abandono que se sucede aos "surtos de progresso"; a imagem das "cidades mortas" para empregar a famosa expressão do escritor paulista. Este é o caso, entre outros, da cidade de Mato Grosso, em cuja descrição presente no relatório da Comissão Rondon, o sertanista recorre a texto de Taunay:

vendo-se estas derrocadas, abrigo de uma população de 340 habitantes derrotados pelo paludismo e pela miséria, custa crerque se está na mesma cidade em que, há apenas um século, mais de 2.300 pessoas assistiam aportar ao cais do Guaporé as monções vindas do Pará, ou enviavam a Lisboa arrobas e arrobas de ouro, ou então acolhiam no meio de intermináveis festejos e pomposas galas os capitães-generais (Visconde de Taunay, A cidade de Mato Grosso, apud Rondon, p. 15).

As inúmeras dificuldades para atingir os objetivos de sua missão de desbravar e integrar o que era tido como "sertão do Noroeste" consistem naturalmente em aspectos bastante valorizados tanto nos relatórios como, por se destinarem a um público mais amplo, nas conferências proferidas por Rondon. Nestas a extensão do território percorrido reforça a construção mítica dos feitos da Comissão Construtora das Linhas Telegráficas.

Nas conferências, o que se destaca é ainda a responsabilidade das elites políticas e intelectuais neste esforço de integração das populações indígenas e sertanejas. Eram comuns frases como: "Nós, os descendentes dos conquistadores destas terras, podemos realmente fazer muito em benefício dos habitantes dos sertões" (Rondon, 1922, p. 81).

A imagem de Rondon como protetor e pacificador de tribos indígenas não é objeto dessa pesquisa. Mas me pareceu interessante na leitura de diferentes documentos a contraposição freqüen-temente estabelecida por ele entre o ponto de vista militar e o humano. Se o segundo deveria prevalecer na relação com as populações indígenas, o sentido de honra, hierarquia e disciplina — esteios da organização militar — deveria sempre orientar as relações entre oficiais e soldados.

Um ponto controverso sobre a Missão Rondon encontra-se exatamente no tratamento dispensado aos soldados que parti-cipavam das operações. O sertanista chegou a responder a processo militar por excesso na aplicação de sanções disciplinares, questionando-se inclusive o recurso a castigos corporais. Há várias referências de Rondon ao problema, em que este se queixa inclusive do processo de arregimentação dos trabalhadores para construção das linhas telegráficas. Como observa Francisco Foot Hardman (1991, p. 166), após revoltas militares como a da fortaleza Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e a da Chibata, na Marinha, em 1910, era destinado à Comissão Rondon um contingente de revoltosos. Fato também lembrado pelo assistente de Rondon, major Amilcar de Magalhães, que afirmava não ser "nada invejável a situação dos oficiais ante esse amontoado de feras humanas". Punição disciplinar, risco de emboscadas pelos indígenas, ameaça bastante concreta de doenças como a malária, enfim, não é difícil imaginar que a deserção e indisciplina dos soldados consistissem num dos pro-blemas mais sérios enfrentados pela Comissão.11

Rondon tece vários comentários a respeito da necessidade de utilizar métodos que, de acordo com seus princípios, condenava, mas que se impunham diante da dificuldade de disciplinar os contingentes de soldados arregimentados para trabalhar nas linhas telegráficas. Esses pareciam estar bem distantes do positivismo de seus chefes. Evidentemente dados como os enfatizados na obra de Foot Hardman (op. cit.) ficam obscurecidos pela imagem mitológica dos trabalhos da Missão Rondon.

Algumas das viagens realizadas pela Comissão eram longas, durando cerca de nove meses em áreas de difícil acesso e, com freqüência, assoladas pelo impaludismo. Rondon termina a missão de conquista do rio Juruena acometido de forte ataque da doença. Este quadro reforçava a imagem da epopéia sertanista.

O sertão de Rondon constitui-se de uma imensa área delimitada, ao Norte, por um trecho do curso do Amazonas, e, ao Noroeste e Sudeste, pelos cursos totais do Madeira e do Guaporé. Após os trabalhos de construção da linha telegráfica, a região permaneceu isolada e com o mesmo aspecto de abandono verificado pelo militar em cidades como Mato Grosso e Santo Antônio do Madeira, merecendo mais tarde o olhar pessimista de Lévi-Strauss (1955).

Algumas vozes teceram comentários críticos às ações realizadas por Rondon. Este foi o caso de Juarez Távora, que, logo após a Revolução de 1930, observou em entrevista à imprensa que, dentro de um critério de importância e urgência, nem sempre se justificaram as ações dos governos da Primeira República no interior do país, exemplificando com o caso da construção das linhas telegráficas (Viveiros, 1958, p. 579).

Outras missões foram desempenhadas pelo militar-sertanista: a repressão às atividades da Coluna Prestes, no Paraná,12 a inspeção de fronteiras; a conservação das linhas telegráficas e, no governo Vargas, a chefia da Comissão Mista Brasil-Peru-Colômbia para dirimir problemas de limites entre aqueles países. Em sua longa trajetória, talvez as atividades por que mais ficou conhecido sejam as do Serviço Nacional de Proteção ao Índio, cujas origens remontam ao ano de 1910, com a criação do Serviço Nacional de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais.

Os trabalhos da Missão Rondon e as atividades do Serviço de Proteção ao Índio, tiveram, além disso, notável influência na formação de novas gerações de antropólogos, entre os quais destacam-se Edgar Roquette-Pinto e, posteriormente, Darcy Ribeiro. As viagens do primeiro à região que denominou Rondônia13 podem ser vistas como importante desdobramento da Missão Rondon. Participando, em 1912, de viagem da Comissão Construtora das Linhas Telegráficas de Mato Groso ao Amazonas, Roquette-Pinto travou contato com os índios nhambiquaras, cuja pacificação é atribuída aos trabalhos de Rondon. O estudo dessa tribo indígena ea coleta de valioso material do ponto de vista médico e etnográfico resultaram no livro Rondônia, premiado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1917. Neste livro Roquette-Pinto, além de apresentar extenso estudo daquela tribo, tece vários comentários sobre o processo de incorporação dos sertões, especialmente no que se refere às condições de vida e trabalho, registrando vários problemas relativos ao chamado sistema de "barracões". É nesse sentido que dirige sua avaliação crítica aos resultados alcançados pelo Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais, criado por Rondon em 1910. Sobre os trabalhadores e sertanejos, reproduzindo conhecida imagem utilizada por Euclides da Cunha, registra em seu livro (1938, p. 61): "Estrangeiros em sua própria terra, continuam os trabalhadores rurais do interior do Brasil a viver nas condições desgraçadas de uma disfarçada servidão. Falhou a primeira tentativa séria de ampará-los; a idéia, o que é pior, ficou destarte compro-metida."

Um aspecto menos lembrado nas referências às idéias que orientavam as atividades de Rondon consiste em sua visão sobre o sertão: um sertão de forte miscigenação entre o branco e o indígena. É o que se revela na conferência comemorativa dos duzentos anos da cidade de Cuiabá. A citação é longa, mas se justifica pela expressividade dos argumentos utilizados:

O português, sozinho, ver-se-ia por muito tempo, e talvez para sempre, apegado a alguns estabelecimentos, mais ou menos precários, lançados ao longo da orla marítima. Se ele foge a essa fatalidade e penetra na vastidão das terras interiores, é apoiado no índio — elemento inestimável na conquista do sertão, conquista em que ele representa, invariavelmente, o número, a habilidade, a agudeza, a orientação, o segredo do sucesso, por ser ágil, sóbrio, nada exigente, sadio quando em liberdade, capaz de descobrir recursos onde ninguém jamais o suspeitara e apto a desvendar mistérios.

Mas os grandes feitos que hoje comemoramos não resultaram dessa espécie de aliança, desse concurso efetivo e necessário da capacidade coordenadora do português com a força das massas indígenas que ele submetia e dirigia. Esforços tão novos como esses que foram teatro os vastos sertões que se estendiam para além da linha de Tordesilhas exigiam, para se traduzirem em fatos, a criação de um novo tipo de homem, o mameluco, ou para melhor nos exprimirmos, exigiam o aparecimento do legítimo brasileiro — nascido da transfusão num só indivíduo das qualidades, da inteligência, de caráter e sentimento que se encontravam separadamente acentuadas, ora no europeu, ora no americano.

A criação desse novo tipo durou todo o primeiro século de nossa incorporação ao mundo civilizado e, embora ela tenha semanifestado por toda a parte onde o europeu assentou os seus estabelecimentos e entrou em contato com os indígenas, foi em São Paulo que apareceram seus melhores frutos. Um conjunto muito especial de circunstâncias favoráveis, geográficas e políticas, entre as quais merecerá, talvez, especial menção o afrouxamento dos laços que prendiam as populações aos governantes — pelas dificuldades de estes fazerem sentir a sua ação coercitiva num ponto afastado do litoral — deram aí lugar à plena expansão do gênio empreendedor, aventuroso, insubmisso, pouco previdente, meio nômade, alheio às exigências do conforto do corpo e da alma, que constitui a parte do índio na formação do tipo brasileiro (Viveiros, 1958, p. 468).

Essa posição de Rondon pode ser relacionada à proposta, posteriormente apresentada por Roquette-Pinto, de desenvolvimento de uma etnografia sertaneja. Para este, a antropologia deveria ampliar sua agenda de temas, não se limitando ao estudo dos indígenas. A ênfase na ‘incorporação’, um dos elementos centrais no processo de nation-building,14 em detrimento das singularidades desses ‘outros’ representados por indígenas e sertanejos, pode ainda ser sublinhada como um dos traços mais característicos no debate em torno dos temas prioritários a serem estudados pelas ciências sociais no Brasil (Peirano, 1981).

A descoberta do Brasil do interior pelas viagens científicas do Instituto Oswaldo Cruz

Em texto que pode ser considerado uma das mais importantes fontes sobre a história do Instituto Oswaldo Cruz, Olympio da Fonseca Filho (1974) observa que, a despeito de não terem o vulto da epopéia sertanista realizada na mesma época pela "Missão Rondon", as viagens dos cientistas de Manguinhos,15 no primeiro quartel do século XX, tiveram importante significado tanto para a pesquisa científica como para o conhecimento do interior do Brasil.

As principais viagens ao interior ocorreram após 1910, quando o Instituto Oswaldo Cruz já se consolidara como centro de pesquisa experimental. Podem ser vistas como uma espécie de ampliação das fronteiras daquela instituição científica, tanto em termos do elenco de pesquisas e atividades realizadas quanto de expansão geográfica através de viagens científicas e, em algumas loca-lidades, de criação de postos permanentes.16 Destinaram-se ao desen-volvimento de trabalhos profiláticos que acompanharam ações relacionadas às atividades exportadoras, base da economia do país: construção de ferrovias; saneamento de portos; estudos voltados ao desenvolvimento da extração da borracha na Amazônia (Albuquerque et alii, 1990). Na década de 1910, importantes viagens ocorreram por requisição da Inspetoria de Obras Contra as Secas; o objetivo era realizar amplo levantamento das condiçõesepidemiológicas e sócio-econômicas das regiões percorridas pelo rio São Francisco e de outras áreas do Nordeste e Centro-Oeste brasileiros. Nesse caso, destacavam-se os imperativos de construção nacional e os ideais civilizadores.17

O contato dos cientistas de Manguinhos com o Brasil do interior seguiu o percurso trilhado por outros atores sociais, como os engenheiros que lideravam a construção das ferrovias. Em geral, os médicos desempenharam importante papel em trabalhos dessa natureza, especialmente na profilaxia da malária, problema freqüente e pano de fundo em todos os registros das missões destinadas a "conhecer e integrar os sertões".18 No caso específico do Instituto Oswaldo Cruz, as atividades sanitárias requeridas pela construção de ferrovias foram acompanhadas de intenso trabalho científico destinado ao estudo da forma de transmissão de importantes doenças e, em especial, da presença e comportamento de seus vetores. As coleções científicas do Instituto Oswaldo Cruz foram enriquecidas com exemplares de mosquitos, barbeiros e moluscos, fundamentais para as linhas de pesquisa que então se desenvolviam. É esse também o contexto da descoberta que projetaria o nome de Carlos Chagas como sucessor de Oswaldo Cruz e um dos mais importantes cientistas brasileiros.

Em 1908, Carlos Chagas e Belisário Penna dirigiram-se para Lassance, um lugarejo no norte de Minas Gerais, por requisição da Estrada de Ferro Central do Brasil, com a finalidade principal de realizar a profilaxia da malária que dizimava os trabalhadores contratados pela empresa para prolongar a linha férrea até Pirapora. Durante os trabalhos, Chagas realizou várias observações sobre um inseto hematófago, comum na região, popularmente conhecido como barbeiro, verificando ser este o vetor de uma doença até então desconhecida, e que associou a uma série de manifestações mórbidas, especialmente cardiopatia, cretinismo e hipertiroidismo. A doença, causada por um protozoário denominado por Carlos Chagas Tripanozoma cruzi, recebeu o nome científico de tripanosomíase americana, tornando-se conhecida como doença de Chagas. A despeito da intensa controvérsia científica sobre a descoberta, que envolveu inclusive a Academia Nacional de Medicina, ela se tornou um símbolo da medicina brasileira e da alta qualificação da ciência nacional.19

As dificuldades de realizar a profilaxia da malária foram também responsáveis pela contratação de Oswaldo Cruz, em 1909, pela Madeira — Mamoré Railway Company. Tratava-se nada menos daquela que ficou conhecida como "ferrovia do diabo", em cujo trabalho de construção morreram milhares de trabalhadores (Foot Hardman, 1991). O relatório das atividades de Oswaldo Cruz (1910) contém relatos impressionantes sobre o quadro de doenças e o abandono das localidades, apresentando descrições muito próximas àquelas da

Comissão Rondon. O cientista de Manguinhos visitara também, no mesmo período que aquela expedição, Santo Antônio do Madeira e a região banhada pelo Jaci-Paraná, descrevendo, como o sertanista, o abandono e o espectro da morte que rondava os habitantes. É o que enfatiza na seguinte passagem (op. cit., p. 10): "Não se conhecem entre os habitantes de Santo Antônio pessoas nascidas no local: essas morrem todas. Sem o mínimo exagero, pode-se afirmar que toda a população de Santo Antônio está infetada pelo impaludismo."

Outros aspectos enfatizados consistem na resistência dos trabalhadores às medidas profiláticas adotadas e na pequena capacidade de a empresa ferroviária atrair trabalhadores nacionais. As medidas básicas propostas por Oswaldo Cruz consistiam na ingestão diária de 75 centigramas de quinina e no toque de recolher ao pôr-do-sol, devendo ser os trabalhadores alojados em galpões telados. O sistema de combate à doença era orientado pela visão das medidas profiláticas como "obrigações de trabalho", por isso o cientista justificava desconto de salário para os trabalhadores que não as seguissem e um sistema de gratificações para aqueles que ficassem três meses sem acesso febril de impaludismo! A profilaxia indicava confiança absoluta nos procedimentos médicos, atribuindo-se os problemas ao descuido ou à resistência dos trabalhadores; quanto a medidas de saneamento básico, à época denominado profilaxia regional (dessecamento de pântanos e eliminação de plantas culicígenas), eram praticamente descartadas devido aos elevados custos que atingiriam na região.

De acordo com o relatório de Oswaldo Cruz, o engajamento de trabalhadores nacionais era difícil em virtude do alto preço da borracha. Nos trabalhos da linha ferroviária o salário era em média de 8$000 diários, numa jornada de dez horas, ao passo que nos seringais o ganho oscilava de 17 a 100$000 diários, com apenas quatro horas de trabalho. Esses dados eram relativizados, observando o cientista o endividamento a que eram submetidos os seringueiros pelo conhecido sistema de barracão. De todo modo, eram trabalhadores estrangeiros que predominavam numa verdadeira Babel que reunia homens originários de Barbados, Trinidad, Jamaica, Panamá, Colômbia e Cuba.

O projeto de ligar regiões longínquas pela malha ferroviária levou, no mesmo período, ao norte de Goiás, o cientista de Manguinhos, Astrogildo Machado, com a missão de efetivar a profilaxia da malária nos canteiros de obra da ferrovia que, segundo o traçado original, permitiria a integração das bacias do São Francisco e do Amazonas, através do vale do Tocantins. Assim como o da Madeira—Mamoré, este projeto teve curta duração, mas suscitou uma série de reflexões sobre as possibilidades de "povoamento nos trópicos", inclusive pela presença avassaladora da malária (Albuquerque et alii, 1991).

A análise dos relatórios médicos em missão de apoio à constru-ção das ferrovias indica que estes constituem fonte imprescindível para o estudo dos ‘bastidores’ dos projetos: as condições de trabalho, a disciplina imposta, a relação com as medidas de profilaxia, as possibilidades de arregimentação dos trabalhadores, as contraposições entre educação sanitária e medidas compulsórias, mas revelam pouco sobre as localidades percorridas e os hábitos das populações locais. Talvez o que mais se revele sejam os cenários de "cidades mortas" ou ameaçadas pelo espectro de doenças. A natureza do trabalho imprime, contudo, um bias, que dirige o olhar para a microssociedade artificialmente organizada em torno da ferrovia. Por isso, nesse caso, talvez seja um pouco difícil falar de um retrato do Brasil, que vai sendo esboçado principalmente nas viagens científicas voltadas para projetos de desenvolvimento regional. É o caso das viagens realizadas por requisição da Superintendência da Defesa da Borracha e da Inspetoria de Obras contra as Secas.

Em setembro de 1912, uma comissão do Instituto Oswaldo Cruz formada por João Pedroso, Carlos Chagas e Pacheco Leão avaliou as condições sanitárias e de vida dos principais centros de produção da borracha, percorrendo, entre outros, os rios Solimões, Juruá, Purus, Acre, Iaco, Negro e baixo Rio Branco (Cruz, 1913). De acordo com as expectativas da Superintendência da Defesa da Borracha, tratava-se de conhecimento da região e elaboração de um plano que permitisse exploração racional de seus recursos, protegendo os seringueiros dos riscos represen-tados pelas doenças que acompanhavam o "avanço dos seringais", especialmente a malária — o "duende da Amazônia" como a denominou Oswaldo Cruz (op. cit., pp. 50, 160). Outras doenças eram consideradas importantes no estudo do quadro epidemiológico da região: a leishmaniose, conhecida como "ferida brava", o beribéri e a febre amarela. O que os cientistas enfatizavam no texto do relatório eram as precárias condições de vida, observando, contudo, as possibilidades de povoamento e desenvolvimento da região com o concurso das medidas sanitárias que recomendavam. O mais expressivo texto sobre as relações entre o discurso médico que se firmava com os cientistas de Manguinhos e o imaginário sobre a Amazônia é o de Carlos Chagas em conferência realizada em outubro de 1913 no Palácio Monroe, como podemos ver a seguir:

Se a grande Amazônia, em seus aspectos excepcionais de um mundo novo e resplendente de maravilhas sem fim, tem constituído o maior tesouro de sábios naturalistas, fornecendo-lhes farta messe de elementos valiosos para ilustrar a história natural do universo; se ao poeta e ao romancista os grandes dramas da vida humana, desenrolados naquelas florestas, têm inspirado uma imensa literaturaépica, cujas páginas mais belas glorificam o heroísmo do homem em luta permanente com a inclemência das coisas; ... certo é que, do ponto de vista médico, ela permanece ignorada, se não objeto de fantasias aterradoras, que malsinam o vale do nosso rio gigante.

Se a natureza aparece como principal protagonista nas descrições dos relatórios de viagem à Amazônia, as populações locais ganham maior expressão nos textos das três viagens realizadas por requisição da Inspetoria de Obras contra as Secas, em localidades do vale do rio São Francisco e em outras áreas do Nordeste e do Centro-Oeste brasileiros. O objetivo oficial das viagens era "proceder a amplo levantamento das condições de saúde das populações do sertão" (Albuquerque et alii, 1991, p. 54).

Durante o ano de 1912, três expedições chefiadas por cientistas do Instituto Oswaldo Cruz percorreram as localidades objeto da atenção da Inspetoria de Obras contra as Secas. De abril a julho, Adolpho Lutz e Astrogildo Machado percorreram o vale do São Francisco de Pirapora, em Minas Gerais, a Juazeiro, na Bahia, visitando a maioria dos povoados ribeirinhos. Caracterizam o vale do rio São Francisco como uma região atrasada, atribuindo o atraso à questão racial, ao clima e à distância de muitos povoados em relação ao litoral. Uma visão muito negativa das populações ribeirinhas é apresentada no relatório da viagem, considerando os cientistas que "não pode haver progresso, onde a gente se contenta a vegetar sem melhorar as condições da sua vida" (Lutz e Machado, 1915, p. 9). Na rápida observação que fazem sobre a influência da raça no atraso da região, acentuam a pequena presença do indígena e o predomínio de mestiços do branco com o negro. No mesmo período, José Gomes de Faria e João Pedro de Albuquerque empreenderam expedição pelos estados do Ceará e Piauí, da qual ficaram como fonte de pesquisa as fotografias de viagem, não se tendo registro de diário ou relatório.

A terceira expedição científica contratada pela Inspetoria de Obras contra as Secas, em contraste, não só reuniu um amplo registro fotográfico, como apresentou o relatório de viagem que, publicado em 1916, se tornou um marco de origem do movimento pelo saneamento rural na Primeira República, constituindo uma das referências centrais do discurso em que o médico Miguel Pereira proferiu a célebre frase: "O Brasil é um imenso hospital" (Lima e Hochman, 1996, pp. 24-6). Chefiada pelos médicos Belisário Penna e Arthur Neiva, a expedição percorreu, durante nove meses, localidades do Nordeste e parte do estado de Goiás, empreendendo amplo levantamento da flora, da fauna, do quadro de doenças e das condições de vida das populações locais. O retrato do Brasil, então esboçado, aponta a doença, e não o clima ou a raça, como principal problema para o progresso das regiões. O atraso estava intimamente associadoao isolamento ou, para utilizar os termos do relatório, ao abandono a que eram relegadas as populações do interior do Brasil. Esse quadro era responsável pela ausência de qualquer sentimento de identidade nacional, tal como evidencia o seguinte trecho do relatório: "raro o indivíduo que sabe o que é o Brasil. Piauí é uma terra, Ceará, outra terra. Pernambuco, outra ... A única bandeira que conhecem é a do Divino" (Penna e Neiva, 1916, p. 121).

O texto do relatório e outros que a ele se seguiram em torno da temática do saneamento do Brasil constituíram um quadro de referên-cia importante para o debate sobre a identidade nacional no país, através da metáfora da doença como explicação para os problemas do atraso e dos contrastes nacionais.20 Este tema revela, como bem aponta Thomas Skidmore (1976), o debate mais amplo promovido pelos movimentos nacionalistas que se sucederam à Primeira Guerra Mundial, substituindo a ênfase negativa na raça pela importância atribuída à saúde e à educação no processo de recuperação ou mesmo fundação da nacionalidade (Skidmore, 1976; Oliveira, 1990).

No caso específico do movimento pelo saneamento rural, é possível entendê-lo, retomando a perspectiva proposta por Luiz Antônio de Castro Santos (1987, 1985), como uma "ideologia de construção da nacionalidade". Sua importância para o debate sobre os dilemas da sociedade brasileira foi reconhecida por intelectuais como Fernando de Azevedo, Monteiro Lobato, Roquette-Pinto e Gilberto Freyre,que recorreram a seus argumentos para a composição dos seus "retratos do Brasil".

Uma característica importante, comum à maioria das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz consiste na importância atribuída ao registro de imagens fotográficas. Ao lado dos relatórios e, em alguns casos, constituindo a única fonte de pesquisa, a fotografia representa uma contribuição inestimável para identificação das condições de vida e saúde, de hábitos e do olhar do cientista sobre as populações e a sua própria atividade (Albuquerque et alii, 1991; Alves, 1989; Thielen, 1992; Stepan, 1994). Análise quantitativa das fotos, classificando-as por registro temático, reitera observações feitas a partir dos relatórios de viagem. Com efeito, a expedição que reuniu mais imagens do cotidiano das populações rurais, relações de trabalho e outros aspectos ligados às suas condições de vida foi aquela dirigida por Arthur Neiva e Belisário Penna (Alves, 1989).

Outras viagens científicas importantes foram realizadas por cientistas de Manguinhos, entre as quais destacam-se a viagem científica no rio Paraná e a Assunção com volta por Buenos Aires, Montevidéu e Rio Grande e a excursão científica ao estado de Mato Grosso, na zona do Pantanal. Pouco discutidas nos estudos históricos sobre as viagens científicas de Manguinhos, elas foram apontadas por Olympio da Fonseca Filho (1974) como "A Marcha para Oeste" do Instituto Oswaldo Cruz.

A primeira expedição científica, organizada por Adolpho Lutz, Souza Araújo e Olympio da Fonseca Filho (1918), contou com o apoio do governo do estado do Paraná e foi apresentada como uma expedição de geografia médica, relacionando doenças às variações espaciais e de clima encontradas ao longo do percurso. Há no relatório informações detalhadas sobre as condições sanitárias das várias cidades e lugarejos visitados. A descrição apresenta um Brasil não muito diferente daquele revelado pelas viagens ao Nordeste, Norte e Centro-Oeste.

A segunda viagem, realizada em 1922, foi liderada por Lauro Travassos, César Pinto e Júlio Muniz (1927). Seu principal objetivo consistia em realizar pesquisas parasitológicas médicas e veterinárias, um campo de aplicação que encontrava expressivo desenvolvimento no Instituto Oswaldo Cruz. O relatório apresenta, além dos aspectos epidemiológicos, interesse como registro, ainda que limitado, de aspecto da vida e das condições de trabalho da população do pantanal mato-grossense.

Em seu conjunto, os relatórios de viagem e as demais fontes utilizadas revelam que, para os cientistas de Manguinhos, os sertões brasileiros encontravam-se na região amazônica, no Nordeste, em áreas centrais do Brasil e até mesmo no Sul, na nova frente de expansão do café. Essa localização geográfica poderia, no entanto, ser ampliada a partir da identificação do sertão com o quadro de patologias disseminado pelo país.

A importância dos relatórios de viagem de médicos não se resume à dos cientistas do Instituto Oswaldo Cruz e merecem maior atenção dos estudiosos. Entre vários exemplos, chamou-me a atenção o da viagem do médico do Serviço de Febre Amarela da Fundação Rockefeller, Julio Paternostro, que, de 1934 a 1938, percorreu o vale do Tocantins, região anteriormente descrita no relatório da célebre viagem de Arthur Neiva e Belisário Penna. Este documento fundamentou a análise do antagonismo entre litoral e interior elaborada pelo sociólogo Florestan Fernandes (1979).

Em ‘Um retrato do Brasil’, capítulo publicado originalmente num jornal, na década de 1940, Fernandes observa que da leitura do livro de Paternostro fica claro o fato de milhares de indivíduos, conformados pela tradição, viverem a vida dos séculos XVIII e XIX. E numa frase de forte apelo simbólico afirma: "A realidade cultural do Brasil é e será ainda durante alguns anos a descrita por Euclides da Cunha em Os sertões."

O quadro a seguir apresenta as principais viagens científicas realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz durante o primeiro período republicano e dá uma noção das regiões percorridas e dos interesses associados aos estudos científicos empreendidos pelos técnicos de Manguinhos.

 

Conclusão

Ao olharmos para as viagens de Euclides da Cunha a Canudos, a da Missão Rondon e as do Instituto Oswaldo Cruz, muitos pontos em comum podem ser constatados, tanto no que se refere à relação entre personagens, idéias e interesses associados nessa trama como à similaridade das representações sobre os sertões e o homem sertanejo. É evidentemente fora de propósito comparar, do ponto de vista do estilo e da profundidade de análise, um texto como o de Os sertões aos relatórios das viagens aqui mencionadas. Faz, no entanto, todo o sentido aproximá-los com a perspectiva de observar os retratos de Brasil e de sertão esboçados nesse conjunto de trabalhos.

Por mais diferentes que sejam, de um ponto de vista geográfico, sócio-econômico e cultural, os "sertões" retratados nos textos apresentam muitos elementos comuns, entre eles as descrições das cidades-fantasmas que se seguem aos surtos do progresso e a presença da natureza como verdadeiro protagonista. A caatinga na narrativa de Euclides, os charravascais do Mato Grosso nos relatórios de Rondon; o contraste entre a força da natureza e a fragilidade do homem nos textos dos relatórios do Instituto Oswaldo Cruz trazem à tona representações comuns sobre os diferentes ‘sertões’. O termo missão, o tema do "povoamento dos trópicos", a crença na eficácia da ciência, ainda que comportando ambigüidades, são recorrentes no conjunto de textos analisados, numa mescla, muitas vezes de difícil compreensão, de valores como o cientificismo, com a afirmação de um progresso linear, infenso às diferenças culturais, e o tema romântico da autenticidade da experiência nacional.

As proximidades entre o "sertão" de Euclides da Cunha e o de Cândido Rondon evidenciam-se na forte referência ao mameluco como base da nacionalidade. Trajetórias que apresentam também muitas afinidades: a do engenheiro militar-escritor e a do engenheiro-militar-sertanista. O positivismo de ambos convivia com a busca da identidade nacional e com a auto-identificação com o sertão-mameluco.

Mais afastados da matriz ortodoxa do positivismo, mas igualmente imbuídos da crença na ciência e na capacidade explicativa dos postulados evolucionistas, os cientistas do Instituto Oswaldo Cruz participaram também de forma ativa nessa composição de imagens do Brasil e de seus sertões. Um dado interessante consiste na diferença que se constata, no que diz respeito às condições da viagem, entre os relatórios das expedições de Rondon e os dos cientistas do Instituto Oswaldo Cruz.

Lévi-Strauss (1955) chega a comparar o relato de viagem dos antropólogos ao registro de fatos militares — as condições inóspitas, as dificuldades cotidianas no contato com as sociedades tribais lembrariam a descrição de expedições militares. Ao ler os relatórios da Comissão Rondon, esta proximidade chamou-me a atenção, em especial pela ênfase nas dificuldades e na engenhosidade das soluções encontradas. Em contraste, é interessante observar como os registros das viagens lideradas pelos médicos cientistas de Man-guinhos pouco falam sobre o cotidiano das expedições e características da viagem, deixando transparecer o cuidado em produzir um registro aparentemente mais distanciado das populações estudadas e do próprio protagonismo do autor-viajante; um dado significativo é o fato de os relatórios apresentarem-se normalmente divididos em duas partes: um diário — extremamente sumário — e o relatório científico.

Nos textos dos relatórios de viagens e nas conferências alusivas a essas experiências, sobressai como elemento comum a ênfase em seu caráter civilizatório. O povo era geralmente apresentado como um ator em "estado de latência" numa situação de pré-cidadania (Lima e Hochman, 1996). Como observa José Murilo de Carvalho (1992), os reformadores se viam como messias salvadores de um povo doente, analfabeto, incapaz de ação própria, bestializado, se não definitivamente incapacitado para o progresso. Segundo o autor, o cenário descrito por Arno Mayer da Europa do século XIX se aplicaria com muito mais razão para o Brasil, onde predominavam a tradição, o mundo agrário, pré-industrial e aristocrático.

Essa idealização e distância em relação ao "povo real" nos debates da intelectualidade do período podem ser vistas também em outros movimentos que focalizaram o interior do país numa crítica à imitação servil das elites intelectuais e políticas. Promove-se a ampliação do sentido atribuído à palavra sertão, superpondo-se a critérios geográficos e demográficos as idéias de abandono e de exclusão. Um sertão caracterizado pelo abandono e pela doença. Um sertão desconhecido mas que era quase do tamanho do Brasil.

 


Notas

1 Sobre o processo de consagração de Os sertões, ver a tese de doutoramento de Regina Abreu (1997).

2 Essa imagem aparece em texto do médico e romancista Afrânio Peixoto em que afirma (Hochman, 1996, p. 69): "...Vêem-se, muitas vezes... nas nossas escolas públicas crianças a bater os dentes com o calafrio das sezões... E isso não nos ‘confins do Brasil’, aqui no Distrito Federal, em Guaratiba, Jacarepaguá, na Tijuca... Porque não nos iludamos, o ‘nosso sertão’ começa para os lados da Avenida."

3 Essas referências compreendem as relacionadas por Janaína Amado (1996, p. 149) e outras que identifiquei ao longo da pesquisa.

4 Importante tema de pesquisa é essa seleção de tipos nacionais representativos da brasilidade/regionalidade. Note-se que no momento da concepção do painel do Palácio da Cultura, Capanema sugeriu a Portinari que se baseasse nos tipos e nas descrições de Euclides da Cunha (Schwartzman et alii, 1984).

5 Importante fonte sobre essa produção bibliográfica consiste no levantamento do acervo relativo a Euclides da Cunha na Biblioteca Nacional. Ver Garcia e Fürsteneau (1995).

6 No acervo do Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI), por exemplo, encontra-se cópia de telegrama de Heloísa Alberto Torres justificando a ausência de Rondon, por motivo de doença nas festividades organizadas pela Comissão Executiva do Centenário de Augusto Comte (ver Arquivos do Museu do Índio).

7 Na biografia, Esther Viveiros procura ressaltar o cunho autobiográfico do texto que, segundo a autora, não só era baseado nos diários do mal. Rondon, como passara por seu crivo e aprovação. Com efeito, o estilo é muito próximo ao que vemos nos relatórios e textos das conferências proferidas por ele.

8 O material consultado sobre a expedição de Rondon compreende os relatórios apresentados à Divisão de Engenharia do Departamento da Guerra e à Diretoria Geral dos Telégrafos, além do texto das conferências proferidas no Rio de Janeiro e em São Paulo na década de 1910.

9 Entre as fontes consultadas destacam-se os relatórios da Comissão, a biografia escrita por Esther Viveiros, artigos de jornais e textos das conferências proferidas na década de 1910.

10 Os trabalhos da chamada Missão Rondon contrastam, dessa forma, com os da Comissão Geológica de São Paulo que, de acordo com o estudo de Silvia Figueirôa (1997), adotaram após a República uma ênfase mais pragmática, sob a liderança dos engenheiros, afastando-se das preocupações científicas em sentido amplo, característica da fase dos geólogos de formação sólida em história natural.

11 É interessante observar que problemas de disciplina são também ressaltados por Luiz Carlos Prestes, em depoimento a Toni Venturini no filme O Velho, como dos mais importantes enfrentados pelo movimento militar conhecido como Coluna Prestes.

12 Algumas evidências nos relatórios de Rondon e na biografia escrita por Esther Viveiros indicam a dificuldade de mobilizar o Exército no combate aos revoltosos. Rondon preferiu utilizar forças policiais por considerar que no Exército havia muitas simpatias pelo movimento.

13 O autor propôs esse nome para designar a zona compreendida entre os rios Juruena e Madeira, cortada pela Estrada Rondon. Em sua exposição argumentou que os elementos geológicos, geográficos, botânicos, zoológicos, antropológicos e etnográficos justificavam a criação da "província antropogeográfica" (Roquette-Pinto, 1938, p. 19).

14 Por nation-building entende-se o processo de constituição de novas formas de solidariedade social que acompanhariam a expansão da dominação política de tipo burocrático (Bendix, 1977). A integração territorial diz respeito ao processo através do qual uma nação concebe a si própria como unidade geográfica, enquanto a integração dos estratos sociais é vista aqui como o processo em que uma sociedade nacional assimila seus diferentes grupos e setores sob uma ideologia de participação (Elias, 1972; Peirano, 1981).

15 Nome da localidade em que se instalou em 1900, inicialmente com o nome de Instituto Soroterápico Federal, o Instituto Oswaldo Cruz, Manguinhos tornou-se um nome ‘extra-oficial’ e de forte apelo simbólico ainda hoje utilizado para designar esse centro de pesquisas. Sobre a criação e história do Instituto Oswaldo Cruz, ver especialmente Stepan (1976), Luz (1982), Schwartzman (1979), Benchimol (1990) e Benchimol e Teixeira (1993).

16 Entre os postos, destacam-se os de Bambuí e Lassance, em Minas Gerais, criados para o estudo da doença de Chagas. A partir de 1910, verificou-se também a criação de centros regionais, inicialmente em São Luiz, no Maranhão, e em Belém do Pará. Atualmente a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) conta com centros regionais em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco e um escritório regional para a Amazônia, em Manaus.

17 Aspectos econômicos e simbólicos estiveram presentes no conjunto das viagens realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz. Deve-se considerar, no entanto, algumas diferenças. No que se refere às expedições patrocinadas pela Inspetoria de Obras Contra as Secas, as regiões percorridas eram desprovidas de interesse para a economia exportadora. De qualquer forma, é possível afirmar a coexistência da dimensão econômica e dos ideais civilizadores.

18 Essa observação não diz respeito apenas aos profissionais do Instituto Oswaldo Cruz, mas aos vários médicos brasileiros e estrangeiros que participaram de atividades dessa natureza e elaboraram textos importantes para o conhecimento das ações realizadas e, em alguns casos, da ecologia e das populações locais. Missões como a de Rondon e as diversas tentativas de construção da ferrovia Madeira—Mamoré foram acompanhadas de importantes relatórios elaborados pelos médicos. Algumas indicações nesse sentido podem ser vistas em livro de Foot Hardman (1991).

19 Sobre as controvérsias científicas em torno da doença de Chagas, ver Chagas Filho (1993) e Jaime Benchimol e Luiz Antônio Teixeira (1993).

20 Este tema é desenvolvido em artigo escrito em colaboração com Gilberto Hochman. Ver Lima e Hochman (1996).

 
   

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