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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5  suppl.0 Rio de Janeiro July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701998000400013 

 

A obra de Euclides
da Cunha e os
debates sobre
mestiçagem no
Brasil no início do
século xx: Os
sertões
e a
medicina-
antropologia do
Museu Nacional*

The work of Euclides
da Cunha and
debates on racial
admixture in Brazil
in the early 20th
century: Os sertões
and the field of
medicine-
anthropology at the
Museu Nacional

 

*Trabalho apresentado no seminário ‘Canudos 100
anos’, no Museu da República, em outubro de 1997.

 

Ricardo Ventura Santos

Ph.D. em antropologia pela Indiana University, professor do Museu Nacional/UFRJ e pesquisador na Escola Nacional de Saúde Pública, Rio de Janeiro. Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, Rua Leopoldo Bulhões 1480,
21041-210 Rio de Janeiro — RJ Brasil

E-mail: santos@ensp.fiocruz.br

 

 

 

 

SANTOS, R. V.: ‘A obra de Euclides da Cunha e os debates sobre mestiçagem no Brasil no início do século xx: Os sertões e a medicina-antropologia do Museu Nacional’.

História, Ciências, Saúde — Manguinhos,

vol. V (suplemento), 237-254 julho 1998.

Este trabalho aborda certas interfaces entre a obra de Euclides da Cunha, e Os sertões em particular, e a medicina-antropologia no Brasil no início do século XX. Aponta-se que à obra euclidiana podem ser vinculadas duas vertentes médico-antropológicas que construíram explicações divergentes acerca das conseqüências da composição racial brasileira, em especial quanto à viabilidade de uma nação mestiça. Uma primeira, cujo expoente foi Raimundo Nina Rodrigues, esteve alinhada com uma perspectiva mais próxima de um fatalismo racial. Uma outra, representada por Edgard Roquette-Pinto, ligado ao Museu Nacional, argumentava que os mestiços não seriam orgânica ou racialmente inviáveis. No texto é analisada sobretudo a interpretação que a medicina-antropologia do Museu Nacional realizou da obra euclidiana.

PALAVRAS-CHAVE: Euclides da Cunha, E. Roquette-Pinto, antropologia-medicina, raça, mestiçagem, nacionalismo, Brasil.

SANTOS, R. V.: ‘The work of Euclides da Cunha and debates on racial admixture in Brazil in the early 20th century: Os sertões and the field of medicine-anthropology at the Museu Nacional’.

História, Ciências, Saúde — Manguinhos,

vol. V (supplement), 237-254 July 1998

The article addresses certain interfaces between Euclides da Cunha’s work — particularly

Os sertões — and medicine-anthropology in Brazil in the early 20th century. Cunha’s work can be tied in with two lines of thought in the field of medicine-anthropology, each of which constructed its own view of the consequences of Brazil’s racial make-up, especially regarding the viability of a mestizo nation. One of these lines, supported by Raimundo Nina Rodrigues, among others, leaned more towards racial fatalism. The other, represented by Edgard Roquette-Pinto of the Museu Nacional, argued that mestizos were neither organically nor racially inviable. The text is concerned above all with the interpretation of Cunha’s work proposed by those in the field of medicine- anthropology at the Museu Nacional.

KEYWORDS: Euclides da Cunha, E. Roquette-Pinto, medicine-anthropology, race, racial admixture, nationalism, Brazil.

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Uma referência essencial sobre este tema é a tese de doutoramento de Marisa Corrêa (1982). Ver também o recente trabalho de Peard (1997).

 

 

 

 

 

 

 

2 Entre os muitos autores que já teceram comentários acerca da relação Euclides-Nina Rodrigues estão Bosi (1994, p. 3), Corrêa (1982, pp. 33-4), Freyre (1987, pp. 32-34 e 37), Levine (1995, pp. 292-94), Martins (1996, pp. 4-5), Ventura (1991, pp. 52-5), entre outros. Já a relação Euclides-Roquette-Pinto recebeu a atenção de uma quantidade menor de analistas, incluindo Abreu (1996, pp. 249-53), Lins (1958, pp. 57-63) e Skidmore (1974, p. 186).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 Ver Cunha (1995b, p. 561). Sobre Euclides e Rondon, consultar Sevcenko (1995, p. 141).

 

 

 

 

 

 

 

 

4 Por motivo de espaço, limitar-me-ei a recuperar aspectos abordados em ‘O homem’, em especial as questões ligadas à formação étnico-racial brasileira e às consequências da mestiçagem. Como veremos adiante, ambas foram retomadas por Roquette-Pinto em sua análise da obra de Euclides.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5 Em outro trecho, Euclides evidencia esta idéia: “As sociedades, que são fenômenos naturais, não dão saltos. As gentes sertanejas, com seus hábitos antigos ... não poderão, certo, ascender de chofre ao nosso meio. Esta intimidade indispensável far-se-á através de uma evolução que devemos provocar auxiliando, mas não dispensando um fator valiosíssimo — o tempo.” (1995b, p. 547.) Veremos que Roquette-Pinto também se apega ao evolucionismo social ao discutir a integração das sociedades indígenas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6 Abreu (1996, p. 249) refere-se ao antropólogo do Museu Nacional como “capítulo à parte no euclidianismo” e Skidmore (1976, p. 186) diz: “a carreira de Roquette-Pinto pode ser vista como um contínuo diálogo com Euclides da Cunha, cujo trabalho ele admirava mais do que o de qualquer outro escritor brasileiro”. Ver também Barbosa (1996), Lins (1956) e Ribas (1994).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7 Pense-se na máxima de Euclides “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” (1995a, p. 129). Em Rondonia, Roquette-Pinto usa imagens fortemente euclidianas, como “edificação titânica” ou “energia dos caboclos franzinos” (1917, p. 5). Cotejar sobretudo a descrição das condições do seringueiro (1917, pp. 98-9) com a de Euclides (1995b, pp. 258-61).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8 Ver juramento positivista de Roquette-Pinto (1935, pp. 196-7). “Creio que o homem e a natureza são exclusivamente governados por leis imutáveis, superiores a quaisquer vontades; Creio que a ciência, integrando o homem no universo, criou em sua mentalidade ao mesmo tempo uma infinita modéstia e uma sublime simpatia para com todos os seres; ... Creio que a ciência, a arte e a indústria hão de transformar a terra no Paraíso que os nossos avós colocavam ... no outro Mundo;... Creio nas leis da Sociologia positiva ...; Creio, por isso, que a nobre missão dos intelectuais ... é o ensino e a cultura dos Proletários ... Creio que sendo muito difícil conciliar os interesses da Ordem com os do Progresso, muitas vezes antagônicos, só existe um meio de evitar perturbação e desgraças: resolver tudo à luz do altruísmo e, principalmente, da fraternidade...”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9 O cérebro de Euclides da Cunha foi transferido para o Museu Nacional, vindo do Gabinete Médico-Legal da Polícia, em 3 de junho de 1918, como atesta documentação existente nos arquivos do Setor de Antropologia Biológica do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ. a peça anatômica recebeu o número 11414 no livro de tombo da então Seção de Etnografia. O cérebro do escritor fez parte do acervo do museu até 1983. Segundo Abreu (1996, p. 240), atualmente encontra-se exposto na Casa Euclidiana, em Cantagalo, no Estado do Rio de Janeiro, cidade natal do escritor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

10 Este trabalho apareceu publicado em pelos menos três ocasiões (Roquette-Pinto, 1928, 1929a e 1933, pp. 117-2).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11 Ver Barbosa (1996) e Ribas (1990) para mais dados sobre as atividades de Roquette-Pinto a partir dos anos 30.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agradeço a Carlos Coimbra Jr., Lilia Schwarcz e Roberto Ventura pelos comentários e sugestões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas [de Antônio Conselheiro], as linhas essenciais do crime e da loucura...

E. Cunha (1995a, p. 644)

O cérebro de Euclides da Cunha foi retirado pelo dr. Afrânio Peixoto e depositado no Instituto Médico-Legal para estudos ... Posteriormente, o cérebro foi enviado para o ... Museu Nacional por solicitação de Roquette-Pinto

R. M. Abreu (1996, pp. 239-240)

Na citação extraída de Os sertões, Euclides da Cunha refere-se ao destino da cabeça do Conselheiro que, no final da guerra de Canudos (1897), foi enviada para Salvador para ser estudada por Raimundo Nina Rodrigues, eminente médico-antropólogo da Faculdade de Medicina da Bahia. A outra epígrafe informa quanto ao destino do cérebro do próprio Euclides, que, retirado na necrópsia que se seguiu ao seu assassinato em 1909, foi posteriormente transferido para o Museu Nacional, onde ficou sob os cuidados do também médico-antropólogo Edgard Roquette-Pinto. Ambos os episódios corporificam vinculações entre a obra e a vida (e a morte) do escritor de Os sertões e o mundo dos médicos-antropólogos brasileiros do final do século XIX e início do XX.

Não é difícil localizar indícios da vinculação entre Euclides e Nina Rodrigues. Em mais de uma página de Os sertões podem ser encontradas idéias relativas à mestiçagem, degeneração e crime afins às opiniões do médico-antropólogo da Bahia. Menos evidentes são as relações que se estabeleceram entre Euclides e um outro grupo de médicos-antropólogos, no caso o do Museu Nacional do Rio de Janeiro, à frente do qual estava Roquette-Pinto. Tais relações são também mais difíceis de ser rastreadas, inclusive porque não estão explicitadas em Os sertões, e nem poderiam, uma vez que as vinculações entre a obra de Euclides e o grupo carioca, que se traduziram em afinidades (e também em diferenças) na forma de interpretar a realidade brasileira, foram seladas posteriormente à morte do escritor.

O objetivo deste trabalho é refletir sobre as relações entre Euclides da Cunha e a interface medicina-antropologia no Brasil na virada do século. À obra de Euclides, e a Os sertões em particular, podem ser vinculadas ao menos duas vertentes médico-antropológicas que geraram explicações distintas no que tange à questão racial no Brasil. A primeira, que teve em Nina Rodrigues uma importante referência, alinhou-se mais a uma visão negativa quanto à composição racial e quanto às conseqüências da mestiçagem.1 Já a segunda, notadamenteatravés de Roquette-Pinto, distanciou-se das noções de fatalismo racial, tendo chegado a se tornar uma eloqüente porta-voz de que a inferioridade dos mestiços brasileiros não seria estrutural (i.e., orgânica/racial), mas sim conjuntural, relacionada a fatores ambientais e sócio-culturais. Esta última vertente teve em Euclides tanto uma referência como uma contra-referência. Ao mesmo tempo que enaltecia as qualidades literárias e histórico-etnográficas de Os sertões e de outras obras do escritor, realizou uma crítica das noções de fatalismo racial que Euclides empregou em sua caracterização dos mestiços brasileiros. Por ser menos conhecida, é sobre esta segunda vertente que me aterei neste trabalho.2

Pretendo não me ater apenas a evidenciar afinidades e/ou discrepâncias no plano das idéias. Aquilatando o impacto de Os sertões, Leite (1992, p. 211) escreveu:

fora da literatura, não é fácil rastrear sua significação, embora seja certo que despertou atenção para vários problemas antropológicos e econômicos; aparentemente, o Brasil no início do século não tinha possibilidade de enfrentar os problemas por ele denunciados, nem especialistas capazes de estudá-lo. Do ponto de vista científico, o que se fez com o drama de Canudos foi realizar um exame do cérebro do cadáver de Antônio Conselheiro.

Um segundo objetivo deste trabalho é indicar que uma afirmação como esta de certa forma subestima a influência do livro de Euclides sobre a antropologia nas primeiras décadas deste século. Desenvolverei este argumento analisando os rumos do programa de pesquisas antropológicas do Museu Nacional nas décadas de 1910 e 1920 que, a meu ver, experimentou fortes influências dos escritos de Euclides da Cunha, e em especial de Os sertões.

Euclides da Cunha: sobre sua visão de mundo e da questão étnico-racial

Como já reiterado por várias gerações de críticos, a obra de Euclides da Cunha, apesar de não muito extensa, é de enorme abrangência intelectual. Do ponto de vista temático, por exemplo, contempla desde pormenorizadas descrições de características botânicas, geográficas e geológicas de várias regiões do Brasil até uma tentativa de construir uma teoria acerca de nossa "mestiçagem embaralhada", além de uma ferrenha crítica dos rumos tomados pelo então jovem regime republicano. A esta diversidade temática soma-se a utilização que faz o autor de conceitos e esquemas teó-ricos oriundos de uma multitude de correntes de pensamento. Sob tal complexidade, segundo alguns analistas (Galvão, 1984 e Sevcenko, 1995), podem ser identificados certos aspectos relativosà visão de mundo e à perspectiva social que consistentemente permeiam a reflexão euclidiana (ver também Martins, 1996, pp. 215-17).

1. Sobre a visão de mundo

O "realismo premeditadamente intoxicado de historicidade e presente" (Sevcenko, 1995, p. 131) de Euclides da Cunha deriva em parte de um contato in loco com paisagens, populações e realidades sociais. Ou seja, os olhos que vislumbraram eram do mesmo autor cujas mãos registraram textualmente a natureza e as mazelas sociais do Brasil. Tais contatos foram propiciados pelas atividades profissionais de Euclides (engenheiro e jornalista) que, em diferentes momentos, envolveu-se em expedições, fosse acompanhando uma de caráter militar como correspondente de guerra (que resultou em Os sertões) ou como participante de comissões de reconhecimento e de demarcação de fronteiras (impressões retratadas em Contrastes e confrontos, À margem da história etc.) (Cunha, 1995b).

É recorrente em Euclides a denúncia do estado de isolamento e de desagregação das regiões do Brasil, e do seu interior em particular. Além de enfatizar a distância (geográfica, cultural, econômica e social) que separava "os sertões" dos centros urbanos do litoral, posicionava-se criticamente quanto ao que chamava de "civilização de empréstimo". Era no interior que Euclides localizava as populações que conformariam os sedimentos básicos da nação.

Permeia também a obra euclidiana a proposição de desenvolver e acumular um conhecimento científico sistemático do Brasil, fosse em etnografia, em geografia, em botânica ou em geologia. À ênfase na superioridade e na competência atribuída à ciência somava-se o papel de ações técnicas, como as de engenharia de campo. Assim, Euclides vislumbrava a possibilidade de interligar o Brasil através de sistemas de malhas ferroviárias e de navegação. Daí advém a admiração que nutria por Rondon (seu colega na Escola Militar) e por seu trabalho de reconhecimento de bacias hidrográficas, de demarcação de fronteiras e de estabelecimento de linhas telegráficas no interior, que se fez acompanhar por atividades de exploração científica,3 das quais inclusive participou Roquette-Pinto.

Sevcenko (1995, p.152) vincula o "voluntarismo combatente, realismo animista e a ética missionária" que caracterizam a obra de Euclides à sua formação positivista. Segundo Galvão (1984, p.21), a principal fonte de tal influência foi a Escola Militar que, no último quartel do século XIX, quando lá estudou o escritor, privilegiava "a concepção do soldado enquanto cidadão armado e da carreira enquanto missão civilizadora, humanitária e moral". Certos posicionamentos, como os relativos às ações a serem desenvolvidas pelo Estado, à proeminência das posições a serem ocupadas pelaelite tecnocientífica, à ênfase na solidariedade social, inclusive no tocante à incorporação dos segmentos populares à vida econômica e social do país, e à função integradora da educação e do direito, teriam influências de sua formação positivista (Sevcenko, 1995, p. 149).

2. Sobre a economia étnico-racial

A perspectiva euclidiana quanto à questão étnico-racial brasileira resulta de um complexo (e por vezes ambivalente) tratamento teórico. Trabalhada sobretudo na segunda parte de Os sertões, intitulada ‘O homem’, interliga aspectos antropológicos, etnográficos, históricos, mesológicos, entre outros. Se num primeiro momento Euclides faz coro a noções de determinismo racial e climático em voga no final do século XIX, ao longo do texto finda por transcender a mera repetição de idéias desta ou daquela corrente teórica.4

Euclides (1995a, p. 79) coloca inicialmente que a "gênese das raças mestiças do Brasil" é um problema que "por muito tempo ainda desafiará o esforço dos melhores espíritos". Introduz os elementos básicos da constituição étnica (índio, negro e português), assim como os tipos mais característicos resultantes dos cruzamentos (o mulato, o mameluco ou curiboca, e o cafuzo). O escritor enfatiza a questão da desigualdade entre as raças, tanto em atributos intrínsecos como nos de origem. Neste caso, alinha-se com o poligenismo ao afirmar que o Homo americanus, isto é, o índio, seria autóctone do Novo Mundo.

Euclides enfatiza que haveria no meio físico brasileiro enorme variabilidade climática, heterogeneidade que, seguindo preceitos deterministas de autores como Henry Buckle, refletia-se em populações com fisiologias diferenciadas. O calor úmido amazônico, por exemplo, "deprime e exaure", resultando em indivíduos marcados por uma "evolução regressiva", portadores de "máxima energia orgânica, (e) a mínima fortaleza moral" (idem, p. 92). Já no sul do país prevaleceriam melhores condições climáticas. Tal contraste mesológico estaria intimamente associado à composição étnica. No norte o clima dificilmente permitia a aclimação de "tipos superiores", como os europeus, daí porque o elemento predominante ser o "selvagem bronco". Já o clima do sul, por vezes semelhante ao europeu, favoreceria a aclimação das "raças superiores". Teria sido justamente neste meio menos adverso onde teve origem o "paulista", que Euclides caracteriza com adjetivos como "autônomo, aventuroso, rebelde, libérrimo, com a feição perfeita de um dominador da terra" (idem, p. 95).

Esboçadas as dimensões antropológicas e climáticas do pro-cesso de gênese étnico-racial, Euclides volta-se para o com-ponente histórico, iniciando com a saga do vigoroso "paulista" — o"bandeirante". Teria sido este o elemento étnico que, ao longo dos séculos, adentrou e conquistou os sertões, servindo de ponte entre Norte e Sul, "duas sociedades em formação, alheadas por destinos rivais" (idem, p. 94). Para Euclides coube aos "bandeirantes" algo que a decadente civilização do litoral — "sob o emperramento de uma centralização estúpida, realizando a anomalia de deslocar para uma terra nova o ambiente moral de uma sociedade velha" (idem, p. 95) — não havia privilegiado. É a questão do abandono dos sertões tema recorrente na obra euclidiana.

A caracterização que Euclides faz dos "paulistas" é um prelúdio à entrada em cena da personagem humana central de Os sertões: o sertanejo. Ela é descrita como produto de condições étnicas, mesológicas e históricas particulares. Resultado de uma longa interação entre o europeu e o índio, entre os aspectos peculiares de sua formação Euclides menciona a vagarosidade do processo e a "predominância do elemento autóctone". Se nos primórdios a formação do sertanejo incluiu "degredados, aventureiros corrompidos, colonos contrafeitos, indivíduos pouco viris", em séculos posteriores teria havido o aporte dos "paulistas". Chama a atenção a preocupação de Euclides em enfatizar que o elemento negro pouco contribuiu para a gênese étnica sertaneja: a "grande tarja negra debruava a costa ..., mas pouco penetrava o interior" (idem, p. 105). Foi, portanto, da combinação entre europeus e indígenas, em um caldo étnico lentamente curtido ao longo de séculos e apurado pela interação humana sob condições adversas — flora agressiva, clima impiedoso, secas periódicas, solo estéril, enfim, uma região ingrata segundo Euclides — que emergiu o sertanejo, o "cerne vigoroso da nossa nacionalidade" (idem, p. 113). À longa gestação, Euclides acrescenta o isolamento geográfico, que teria propiciado o desenvolvimento de um tipo mais e mais homogêneo, como que "feito por um molde único, revelando quase os mesmos caracteres físicos ... e os mesmos caracteres morais" (idem, pp. 121-22).

É no âmbito da descrição do tipo sertanejo que estão as famosas páginas de Os sertões onde Euclides destila as máximas do fatalismo racial no que tange aos males da mestiçagem. Nelas faz afirmações do calibre de "a mestiçagem extremada é um retrocesso" ou "o mestiço ... é, quase sempre, um desequilibrado", "um decaído, sem a energia física dos ascendentes selvagens, sem altitude intelectual dos ancestrais superiores" (idem, pp. 122-23).

Mesmo que intrinsecamente associadas com degeneração, para Euclides as reais dimensões das conseqüências da mestiçagem precisavam ser aquilatadas à luz de determinantes históricos. Assim, os efeitos adversos da mestiçagem eram evidentes nas cidades do litoral, onde os mestiços tinham de enfrentar um "estágio social superior" com o auxílio de "órgãos mal constituídos". Os sertanejos, por seu turno, não apresentariam "o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral" (idem, p. 129). Na prática, Euclides absolve o sertanejo ao afirmar que "é um retrógrado; não é um degenerado" (idem, p. 125). Como esta aparente contradição é resolvida? Para o autor de Os sertões, o "antagonismo de tendências", uma das marcas da degeneração, nos mestiços do interior não se revelava tão problemático já que nestas paragens não haveria a "sobrecarga intelectual e moral de uma civilização" (idem, p. 124). Paradoxalmente, portanto, o estado de abandono a que ficaram relegados os sertanejos teria tido uma dimensão positiva. Ademais, a ascendência indígena garantiu-lhes um "tipo fisicamente constituído e forte" (idem, p. 126). Em outras palavras, Euclides sugere que, psiquicamente imaturos para a civilização, os sertanejos estariam adaptados para as condições "primitivas" nas quais viviam e, mais ainda, sua "sólida base física" seria uma garantia da possibilidade de alcançar um "desenvolvimento moral ulterior", facultando-lhes a possibilidade de "alcançar a vida civilizada".5

Se fisicamente ajustados ao meio, é nos produtos de "processos mentais superiores" que Euclides identifica os sinais negativos da mestiçagem nas populações sertanejas. A "decrepitude da raça" estaria traduzida nas formas arquitetônicas do arraial de Canudos, "o baralhamento caótico dos casebres feitos ao acaso ... como se tudo aquilo fosse construído, febrilmente, numa noite por uma multidão de loucos" (idem, p. 201), nos tipos de armas utilizados pelos sertanejos, "... a mesma revivescência de estádios remotos" (idem, p. 202), na dinâmica social cotidiana da comunidade, "estereotipava o facies dúbio dos primeiros agrupamentos bárbaros" (idem, p. 207), no plano político, "está na fase evolutiva em que só é conceptível o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro" (idem, p. 221). As conseqüências nefastas da mestiçagem revelavam-se sobretudo no aspecto religioso, onde se coadunam "todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja..." (idem, p. 166). Tal situação é potencializada pela presença do Conselheiro, considerado por Euclides como "documento raro de atavismo" (idem, p. 167), atestado vivo da "incompatibilidade com as exigências superiores da civilização" (idem, p. 167).

Fulgurância e falhas doutrinárias

É para o diálogo que a medicina/antropologia no Museu Nacional, principalmente através de Roquette-Pinto,6 estabeleceu com Euclides que me volto no restante deste trabalho. Inicialmente apontarei algumas afinidades temáticas e de visão de mundo entre Rondonia, o primeiro e mais conhecido livro de Roquette-Pinto, ea obra euclidiana. A seguir, recupero os pontos de vista de Roquette-Pinto, incluindo alinhamentos e divergências, quanto às proposições antropológicas de Euclides relativas à mestiçagem e à degeneração. Por fim, sugiro que o programa de investigações antropológicas do Museu Nacional nas décadas de 1910 e 1920 envolveu levantar dados para demonstrar que os mestiços brasileiros não conformavam "tipos antropológicos" degenerados.

1. Em direção aos sertões de Rondônia

O livro Rondonia (anthropologia-ethnographia) é fruto da viagem de cinco meses que Roquette-Pinto realizou em 1912 junto a uma das expedições da Comissão Rondon em Mato Grosso. Misto de diário de viagem e monografia científica, pretende ser "um instantâneo da situação social, antropológica e etnográfica, dos índios da Serra do Norte, antes que principiasse o trabalho de decomposição que nossa cultura vai neles processando" (Roquette-Pinto, 1917, p. xiv). É o registro do contato de um intelectual do litoral com populações do interior.

Múltiplos paralelos podem ser estabelecidos entre Rondonia e Os sertões. Eles se manifestam, por exemplo, nos contextos de gênese de cada um dos livros, nas temáticas abordadas e na visão de mundo de seus autores.

Tal como Os sertões, o livro de Roquette-Pinto resulta de participação numa expedição militar. Mais do que isso, ambas as obras registram a vivência de seus autores em contextos de interação entre agentes enviados pela ‘civilização’ com populações tradi-cionais, fossem sertanejos ou índios. Foram frutos, portanto, de expedições civilizatórias que visaram, de diferentes formas, aproximar distintas realidades sociais de um país percebido como cindido.

Geografia, botânica, história, antropologia e etnografia são temáticas que, tal como na obra euclidiana, também recebem um tratamento pormenorizado em Rondonia. O mesmo não se pode dizer da questão climática, que ocupa uma proeminência bem mais acentuada na reflexão de Euclides.

O livro de Roquette-Pinto tem em seu primeiro parágrafo a afirmação de que "a ciência vai transformando o mundo" (idem, p. xi). É uma manifestação quanto à relevância do conhecimento científico como meio de caracterização e de transformação de realidades sociais.

Rondonia valoriza os elementos humanos que adentraram pelo interior nos primórdios da história colonial (no caso os "bandeirantes", também referidos como "paulistas" ou "sertanistas"), bem como os então atuais habitantes daquelas paragens. Os "bandeirantes" são referidos como "um punhado de homens, perdido na terra hostil; ambição, firmeza, coragem, fé no coração de cada qual, douradas por muito heroísmo; e, às vezes, manchadas de sangue" (idem, p. 3).

Críticas acerca do estado de desconhecimento do Brasil pelo Brasil e à situação de abandono das populações sertanejas também se fazem presentes em Rondonia. Roquette-Pinto refere-se ao "grau de ignorância" da civilização do litoral quanto à "região vastíssima do território pátrio" (idem, p. xii) e ao estado de abandono das populações do interior, que chegam a ser "estrangeiros em sua própria terra" (idem, p. 31). Dificilmente o médico-antropólogo do Museu Nacional poderia chegar mais próximo de Euclides do que ao afirmar, referindo-se a um encontro com um seringueiro, que "aquele homem, encarnava uma raça forte, que anda por aí a sofrer suplícios na sua terra, onde os estranhos engordam" (idem, p. 99, grifos meus).7

Em Rondonia encontra-se a idéia das populações em diferentes estágios de evolução social, bem como reflexões sobre as conseqüências dessas defasagens na integração nacional. Referindo-se aos índios, Roquette-Pinto afirma que "nosso papel deve ser simplesmente proteger, sem procurar dirigir, nem aproveitar essa gente". Um pouco mais adiante afirma que "o programa será: proteger sem dirigir, para não perturbar sua evolução espontânea" (idem, pp. 200-01). Seria preciso, pois, exercitar "solidariedade humana" em relação aos "irmãos primitivos" (idem, pp. xxii-xiii).

Percebe-se, portanto, que em Rondonia estão presentes temá-ticas e ideários afins aos apontados anteriormente na obra de Euclides. A presença de tais elementos nas reflexões de Roquette-Pinto associa-se a sua interação com Rondon e com o projeto civilizatório da comissão por ele dirigida. Tal como o autor de Os sertões, Rondon formou-se na Escola Militar da Praia Vermelha numa época de forte influência positivista. Como indica Lima (1995), não somente a atuação da Comissão Rondon, como também desdobramentos posteriores da política indigenista executada pelo Estado brasileiro, estavam impregnados por preceitos do positivismo ortodoxo.8

2. Roquette-Pinto e as críticas a Euclides

Se em Rondonia Roquette-Pinto não trava um diálogo explícito com a obra de Euclides da Cunha, ele pode ser visto em dois ensaios do livro Seixos rolados, publicado em 1927, quais sejam, ‘O segredo das uiáras’ e ‘Euclides da Cunha naturalista’ (cf. também Roquette-Pinto 1929b e s.d.). Nesses textos afinidades intercalam-se com distanciamentos, revelando ora convergências ora divergências com o autor de Os sertões.

Ademais ao "estilo fulgurante", Roquette-Pinto sentia-se atraído pela proposta de Euclides de desenvolver um conhecimento sistemático sobre a natureza e as populações do Brasil. Além de

"um grande naturalista que não descreveu uma espécie nova" (Roquette-Pinto, 1927, p. 271), que é uma referência ao estilo euclidiano de privilegiar sobretudo a descrição de grandes processos naturais (fluviais, geológicos, botânicos etc.) aos elementos individuais, para o médico-antropólogo do Museu Nacional Os sertões foi "um tratado de etnografia sertaneja" (idem, p. 279).

Roquette-Pinto, numa aliança com Euclides, considera os sertanejos "os mais fiéis depositários" da alma brasileira (idem, p. 92), a eles cabendo um papel importante (de "mediador salutar") na constituição de um país ainda a ser conhecido e nacionalizado, onde havia "tantos grupos heterogêneos, encantoados, segregados e independentes, fortalecidos no seu antigo patrimônio psíquico" (idem, p. 88). Pondera também que o mestiço do interior é um tipo mais bem definido, inclusive porque estaria a salvo das influências negativas que predominavam no litoral, onde prevalecia uma situação de contínua ameaça à nacionalização. Considera, contudo, que Euclides se equivocou ao atribuir o tipo sertanejo somente ao cruzamento do índio com o branco. Para Roquette-Pinto, as próprias descrições dos canudenses nas páginas de Os sertões demonstram que o "poviléu de Canudos" tinha "fartas gotas de sangue negro" correndo em suas veias (idem, pp. 294-95).

Na opinião de Roquette-Pinto, "os traços realmente originais" do que chama de "contribuição naturalística" de Euclides da Cunha estariam na segunda parte de Os sertões, sobretudo nas páginas dedicadas à análise da etnografia sertaneja (idem, p. 299). Não foi pouca a importância atribuída pelo médico-antropólogo do Museu Nacional à faceta de etnólogo de Euclides, que se substanciou inclusive na organização de uma sala de exposição sobre etnografia sertaneja no Museu Nacional, batizada de "Sala Euclides da Cunha" (idem, pp. 101 e 299). Segundo Abreu (1996, pp. 248 e 262), a presença do autor de Os sertões em tal recinto foi asseverada não somente pelo nome atribuído à sala, como também por seu cérebro, que fazia parte da exposição.9

Se numa primeira parte de ‘Euclides da Cunha naturalista’ predomina a exaltação, numa segunda Roquette-Pinto exercita críticas ao que chama de "falhas doutrinárias" de Os sertões. Entre "algumas doutrinas pouco seguras que Euclides aceitou" (1927, p. 281) estariam a questão do autoctonismo do homem americano, o inevitável esmagamento fatal das raças fracas pelas fortes e os males do cruzamento. A teoria do autoctonismo recebe uns breves comentários de Roquette-Pinto, que procura refutá-la com a apresentação de informações técnicas do campo da paleontologia e da arqueologia. Maior atenção é dedicada para desaprovar as demais teses.

O antropólogo do Museu Nacional considerou injustificável a crença de Euclides na inevitabilidade do esmagamento das "raças fracas pelas fortes" e nos males da mestiçagem (idem, p. 286). Lançando mão de ironias, relaciona tais idéias às influências de intelectuais estrangeiros como Agassiz ("naturalista que saiu do Brasil deixando, atrás de si, a tradição de ... erros colossais"), e Gobineau ("de quem os diplomatas diziam que era grande antropologista, e os antropologistas afirmavam que era excelente diplomata"), que teriam escrito sobre "tipos que mal conheciam" (idem, pp. 292-97). Curiosamente, não é feita qualquer menção à influência de Nina Rodrigues sobre Euclides. Para Roquette-Pinto, sob as teses de hierarquia das raças estaria o imperialismo, que nelas encontrava uma justificativa para o processo de expansão colonial dos países europeus.

Roquette-Pinto coloca-se como praticante de uma forma de antropologia que, tendo enveredado em "atalhos mais felizes" (idem, p. 90), já "não se limita[va] mais a medir crânios e a calcular ‘índices’ discutíveis, na esperança de poder separar as ‘raças superiores’ das ‘raças inferiores’". Procura se distanciar, portanto, de vertentes do pensar antropológico afins às que influenciaram o autor de Os sertões. É a partir deste posi-cionamento teórico diferenciado que condena "a grande ilusão de Euclides", que teria sido considerar "inferior, gente que só era atrasada; incapazes, homens que só eram ignorantes" (idem, p. 294). Portanto, ainda que trabalhando sobretudo na interface medicina-antropologia, a proposta de Roquette-Pinto envolveu reduzir os vínculos entre o orgânico/racial e o mental/social. Concomitantemente, eleva a importância de aspectos sociais, culturais e políticos no que tange às explicações sobre a situação de atraso do sertanejo.

Sua posição é a de um intelectual que defende posições igualitárias, contrárias a noções de fatalismo racial. Mas isto não quer dizer, contudo, que advogasse uma completa igualdade de atributos entre as raças humanas. É o que se percebe no trecho a seguir do ensaio ‘Euclides da Cunha naturalista’:

Diversificam-se efetivamente as raças humanas, nos atributos do corpo todo e o tipo cerebral de cada qual não permite que as considerem no mesmo grau de semelhança. Até aí, todos estão de acordo. Onde, porém, a dissidência começa, e os erros se avolumam ... porque a verdade é que elas são desiguais no mesmo nivel. As raças são desiguais como as radiações do espectro. Do vermelho ao violeta, todos os raios ocupam o mesmo plano.

É inegável que há raças mais inteligentes; outras mais sentimentais e terceiras mais pertinazes. Também, no espectro, há raios caloríficos, raios luminosos e raios actínicos. Ide pedir calor dos raios ultra-violetas; e si o vos não derem chamá-lo-eis de inferiores? (1927, pp. 287-88).

Nesta passagem Roquette-Pinto aponta para a existência de desigualdades entre as raças humanas que lhes seriam inerentes. No raciocínio há a convivência de uma lógica que enfatiza as desigualdades com outra que nega a possibilidade de estabelecer hierarquizações, o que se expressa na ambiguidade da expressão "desigualdade no mesmo nível". Se, como indicam suas críticas a Euclides, distanciou-se de uma antropologia que operava dupla e concomitantemente no sentido de diferenciar e hierarquizar as raças humanas, Roquette-Pinto não chega, contudo, a propor uma completa desvinculação entre orgânico/racial e mental/social, que veio a se tornar a posição predominante na reflexão antropológica algumas décadas depois.

Influências e rumos de uma prática científica

Além de considerar Os sertões "um livro de ciência e de fé" (idem, p. 300), Roquette-Pinto nele via delineados "pela primeira vez, com programa assente e claro, estudos das populações realmente brasileiras do Brasil" (idem, p. 281). Ao cabo de algumas páginas nas quais recupera aspectos relacionados à etnografia e à antropologia "sertaneja" na obra de Euclides, escreve:

Só depois que os sertanejos tiverem merecido estudos e confrontos baseados em critérios menos literários, será possível sistematizá-los.

Os "sertanejos" não têm sido, mesmo para os melhores analistas, senão assuntos episódicos, regionais, embora bem cuidados, tal qual aconteceu na meiga novela de Taunay e no formidável livro de Euclides. A observação comparativa, estatística, desataviada, dos seus caracteres somáticos, ninguém a tentou ainda; ela seria interessante porque viria mostrar o ponto a que atingiu a formação das "raças brasileiras" que vemos esboçadas no sertão (1927, p. 93).

Estes comentários são complementados por uma nota de pé de página, na qual se lê: "Esse trabalho está hoje em via de conclusão no Museu Nacional. Desde já pode ser adiantado que existem no Brasil pelo menos seis tipos antropológicos distintos".

Roquette-Pinto refere-se aos resultados apresentados no trabalho ‘Notas sobre os typos anthropologicos do Brasil’ (Roquette-Pinto, 1929a).10 Nele, a propósito, uma análise estatística comparativa de caracteres somáticos, propõe-se a avaliar "se as ... características antropológicas [dos mestiços] mostram sinais de decadência anatômica ou psicológica" (idem, p. 124). Tendo como pano de fundo a discussão sobre a política de imigração do início do século, o texto discute se o povo (mestiço) brasileiro por si teria condiçõesde povoar e explorar as riquezas de seu país. Roquette-Pinto concluique "nenhum dos tipos da população brasiliana apresenta qualquer estigma de degeneração antropológica. Ao contrário. As características de todos eles são as melhores que se poderia desejar" (idem, p. 145). Isto se aplica inclusive aos estigmatizados "mulatos", dado que "nenhum dos caracteres estudados ... permite considerá-los como tipos involuídos" (idem, p. 129). ‘Notas sobre os typos anthropologicos’ finda por se constituir num libelo de defesa dos tipos nacionais ao argumentar que a "antropologia do Brasil desmente e desmoraliza os pessimistas" (idem, p. 147). No alvo almejado por Roquette-Pinto estavam, possivelmente, as posturas de teóricos como Agassiz, Gobineau e Nina Rodrigues e, indiretamente, algumas daquelas defendidas por Euclides em Os sertões.

No que se refere a vinculações mais amplas, o trabalho de Roquette-Pinto atrelou-se ao movimento nacionalista que se estabeleceu no Brasil após a Primeira Guerra Mundial (Oliveira, 1990, pp. 145-58; Skidmore, 1976, pp. 145-72; Stepan, 1991, pp. 105-06). Quais eram as potencialidades do Brasil de vir a se tornar uma nação importante no cenário mundial? Este debate acerca da identidade nacional brasileira era permeado pela questão racial. O nacionalismo das décadas de 1910 e 1920 foi uma busca de liberação ideológica das amarras impostas pelos ideários racistas (Skidmore, 1976, p. 146). Oliveira (1990, p. 145) fala-nos de uma vertente "militante" deste nacionalismo, que "envolveu a busca de uma nova identidade e [que] teve como parâmetro a recusa de modelos biológicos que embasavam o pensamento racista". Era um movimento de crítica capitaneado por intelectuais envolvidos em um projeto de salvação nacional que situou na ausência de saúde e educação a causa do atraso do povo brasileiro.

Roquette-Pinto esteve envolvido, tanto intelectual como politi-camente, com o projeto de redenção nacional em curso nas primeiras décadas do século XX. Em seus trabalhos há uma intensa preocupação com saúde e educação; estaria no plano ambiental/social e não no âmbito biológico/racial as razões para se compreender a inferioridade dos tipos nacionais propalada pelos ideários racistas (ver Roquette-Pinto, 1927, 1933, s.d.). Vários fatos podem ser mencionados para atestar o grau de envolvimento de Roquette-Pinto com o projeto nacionalista-cientificista de resgate do povo brasileiro. Ele esteve, por exemplo, envolvido com o movimento sanitarista. Entre 1916 e 1920, a chamada Liga Pró-Saneamento "proclamou a doença como principal problema do país e o maior obstáculo à civilização" (Lima & Hochman, 1996, p. 23). Os intelectuais que participaram desta liga opunham-se ao determinismo racial e climático, localizando em condições ambientais (e nas doenças em particular) os principais entraves no projeto de redenção. A proposta reformista da qual Roquette-Pinto fazia parte tambémenfatizava a questão da educação popular, o campo para o qual ele se voltou gradualmente a partir da década de 1920 e principalmente após seu desligamento do Museu Nacional em 1935.11

Considerações finais

Em novembro de 1897, logo após o final da guerra de Canudos, Nina Rodrigues escreveu na Revista Brazileira um texto no qual se referiu a Antônio Conselheiro não como um degenerado, mas como um "delirante crônico na fase megalomaníaca da psicose" (1897, p. 144). Ou seja, um louco, condição que resultaria do ambiente social que o circundava. Em um livro póstumo, fruto de uma compilação de trabalhos do médico-antropólogo da Bahia realizada por Arthur Ramos e publicado aproximadamente três décadas após a morte de Nina Rodrigues, apareceria o diagnóstico realizado a partir da análise da cabeça do líder de Canudos: "O crânio de Antônio Conselheiro não apresenta nenhuma anomalia que denunciasse traços de degenerescência: é um crânio de mestiço onde se associam caracteres antropológicos de raças diferentes". Após a apresentação de uma série de dados craniométricos, a conclusão: "É pois um crânio normal" (1939, pp. 131-33).

Roquette-Pinto também viria a registrar suas impressões acerca do cérebro de Euclides da Cunha. Escreveria ele (1949-1950, p. 3):

Até há pouco não tinham os cientistas encontrado meio seguro para distinguir o cérebro de um gênio do cérebro de um cretino. Sabia-se de há muito que o cérebro do homem inteligente em geral é maior, é mais pesado, tem o córtex cinzento mais rico e sobretudo possui circunvoluções mais compridas. O cérebro cretino em geral é pequeno, pesa pouco, tem pouca massa cinzenta e circunvoluções mais simples.

Ainda que reconhecendo que "essa regra falha muito", o médico-antropólogo do Museu Nacional proferiria o seguinte diagnóstico: "O cérebro de Euclides da Cunha que está no Museu Nacional é realmente notável pela riqueza e pela complexidade das circunvoluções, mormente na zona rolandica que governa as faculdades de expressão."

Deixo os leitores com esta ironia. Aquele cuja obra mais enfatizou a inter-relação entre orgânico/racial e mental/social não vislumbrou nas "circunvoluções expressivas" do crânio do Conselheiro as "linhas essenciais do crime e da loucura". Já o outro, cujos trabalhos buscaram minorar tais relações, enxergou evidências de genialidade na "com-plexidade das circunvoluções" cerebrais do autor de Os sertões.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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