SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.5 suppl.Land struggles and social identitiesFact and fiction in the works of Euclides da Cunha author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5  suppl.0 Rio de Janeiro July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701998000400015 

 

O country no Brasil contemporâneo

‘Country’ culture in contemporary Brazil

 

 

 

 

 

 

Silvana G. de Paula

Socióloga, professora de pós-graduação em
desenvolvimento, agricultura em sociedade da
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
(UFRRJ)
Rio de Janeiro — RJ Brasil

 
 

 

 

 

 

PAULA, S. G. de: ‘O country no Brasil contemporâneo’.
História, Ciências Saúde — Manguinhos, vol. V (suplemento), 273-286 julho 1998.

Neste artigo, pretendi levantar alguns pontos sobre o country no Brasil. Em especial, procurei situar o country como padrão de sociabilidade urbana que tem o rural como tema e através do qual é possível ser depreendida uma instância de distinção, sofisticação e requinte. As conexões do padrão country estudado com a experiência norte-americana são igualmente evocadas neste texto. Os argumentos apresentados têm o objetivo de contribuir para a discussão da matéria e não o de tentar esgotá-la. Como são elaborações regidas pelo trabalho de campo realizado no interior do estado de São Paulo e no Texas-EUA, sua generalização merece cautela.

PALAVRAS-CHAVE: country, campo e cidade, sociabilidade, fronteiras culturais contemporâneas.

 

PAULA, S. G. de: ‘‘Country’ culture in contemporary Brazil’.
História, Ciências Saúde — Manguinhos,
vol. V (supplement), 273-286 July 1998.

The article calls attention to the existence of a ‘country’ culture in Brazil, that is, a pattern of urban sociability where aspects of rural life are adopted as expressions of sophistication and refinement. Some comparisons are drawn between this country style and the US ‘country and Western’ culture. The arguments presented make no pretense of exhausting the topic but are intended as a contribution towards further discussion. Since the ideas developed here have been derived from field work conducted in rural São Paulo and in Texas, caution should be exercised before making any generalizations.

KEYWORDS: country culture, rural and urban, sociability, contemporary cultural boundaries.

   

 

1 Como objeto de reflexão acadêmica, o country no Brasil conforma um terreno relativamente novo. Neste sentido, os trabalhos de João Marcos Além e de Sidney Pimentel constituem iniciativas pioneiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Segundo um entrevistado, o cavalo quarto-de-milha é o mais adequado ao trabalho com o gado por sua admirável capacidade de explosão e por ser dotado de “cow sense”. O mesmo entrevistado conclui que “...no Brasil, a moda country veio a galope”. Cf. Entrevistas/ verão 1993. Registro de material de campo.

 

 

3 Entrevistas/verão 1993. Registro de material de campo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4 Cf. Dados de entrevista. Registro de pesquisa set.-nov.1996.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5 Cabe enfatizar que a associação do country com as idéias de requinte e distinção é uma singularidade brasileira vis-à-vis o lugar do country na sociedade norte-americana. Nesta sociedade, a referida aproximação não se sustenta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6 Muitas vezes, para obter tal efeito, injeções de álcool são aplicadas no rabo do cavalo. Tal procedimento, no entanto, é considerado irregular tanto nos eventos da Associação Americana de Quarto-de-Milha (AQHA) como na Associação Brasileira de Quarto-de-Milha (ABQM).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7 Originariamente esta expressão refere-se aos indivíduos que têm o pescoço mais avermelhado — mais bronzeado — do que as outras partes do corpo pelo fato de trabalharem sob o sol. Na linguagem corrente a expressão passou a incluir todos aqueles que desempenham atividades profissionais que não exigem qualificação escolar ou especialização técnica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8 Cf. Revista Veja, ano 30, no 15, 16 de abril de 1997, p. 44: “Alguns fazendeiros admitem que contrataram uma milícia armada para repelir eventuais invasores. No Pontal, eles se cotizaram para montar uma equipe de seguranças, com ex-PMs contratados por R$1.000,00 mensais. Eles patrulham as fazendas à noite, armados com espingarda calibre 12 e revólveres 38.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9 Dados de entrevista. Registro de campo/verão 1993; jul.1996; out.1996; dez.1996; jan.1997.

10 Idem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A imagem do campo disseminada na sociedade brasileira apre- senta o mundo rural como cenário apartado do urbano. O processo de modernização, mais nitidamente vivenciado a partir da década de 1930, e seus desdobramentos subseqüentes reforçam esta separação. Assim, tanto o senso comum como o pensamento social brasileiro focalizam campo e cidade divididos por uma fronteira principalmente cultural, de modo a ser configurada uma descontinuidade entre ambos. Nesta descontinuidade, via de regra, o meio urbano é privilegiado como sendo o pólo gerador dos estilos de vida sintonizados com a contemporaneidade. Em contrapartida, no tocante aos estilos de vida, o meio rural é costumeiramente evocado num outro registro, i.e., como sendo desprovido da aura de modernidade.

A força desta imagem dicotômica é tal que muitas vezes somos inclinados a aceitar — e até mesmo a naturalizar — a idéia de que ao falarmos sobre o campo e sobre a cidade, falamos de ‘assuntos’ e questões de naturezas diferentes. No limite, endossamos a existência de uma sociologia urbana e de uma sociologia rural divorciadas, pois que habituamo-nos à idéia de que os temas rurais possam — e devam — ser analiticamente separados dos estudos urbanos.

Os pontos selecionados para a discussão que pretendo encaminhar articulam-se ao trabalho de tese sobre o country no Brasil.1 Avalio que seja pertinente anunciar que um dos objetivos da dissertação que venho desenvolvendo é o de tomar a apresentação do campo compreendida pelo country como uma instância que permite repensar estas fronteiras, ou seja, que permite repensar as fronteiras entre o campo e a cidade, assim como as fronteiras disciplinares.

Ademais, considerando a estreita conexão do padrão country no Brasil com a experiência norte-americana, o propósito geral deste trabalho também evoca a questão das fronteiras nacionais no cenário do mundo contemporâneo. Enfim, a perspectiva que venho adotando fala francamente a favor da idéia de flexibilização de fronteiras.

O rural e o country

Inicialmente, é pertinente que se tenha uma idéia do que seja o country. O tema em si é bastante generoso, no sentido de oferecer-se a uma pluralidade de apropriações.

Nesta oportunidade, gostaria de explorar o country no Brasil como um padrão de sociabilidade (Simmel, 1971). Como tal, o country abarca domínios que são bastante evidentes como o rodeio, a moda e a música. Mas, para além destes cenários, o country comporta prescrição de gosto, etiqueta, temas de conversação, movimentos corporais e gestuais , de modo a configurar um determinado recorte de sociabilidade pautada pela temática rural. Com esta demarcação, penso que seria interessante atentar para alguns aspectos sobre a maneira pela qual o mundo rural é elaborado no padrão country.

O material utilizado para esta exposição provém de trabalho de campo desenvolvido no interior do estado de São Paulo e no Texas-EUA. A pesquisa nacional concentrou-se em Presidente Prudente, oeste paulista, um dos centros irradiadores do country brasileiro. Naquela região entrevistei três gerações de proprietários de terra e de gado.

A primeira geração constitui-se dos desbravadores do oeste paulista, pessoas que atualmente encontram-se na faixa acima dos 70 anos. São pessoas oriundas de diversas regiões do país que, no início do século, ‘conquistaram’ o oeste paulista através da aquisição de terras para a formação de fazendas. Ao longo dos anos, este processo adentrou parte do Mato Grosso do Sul, o norte do Paraná e uma porção do estado de Goiás.

A segunda geração, numa faixa etária mais ampla — dos 45 aos 60 anos — são os consolidadores dos empreendimentos familiares. São médicos, advogados, economistas e engenheiros que, a despeito de suas formações universitárias, sempre se dedicaram à pecuária, incrementando os negócios paternos e estabelecendo os primeiros contatos com o country norte-americano.

Estes contatos foram estimulados pela presença na região de uma empresa norte-americana, o King Ranch, introdutora no Brasil do cavalo quarto-de-milha que progressivamente substituiu o cavalo manga-larga na atividade pecuária. A adoção do quarto-de-milha foi a um só tempo significativa tanto do ponto de vista técnico como simbólico.2

Através do King Ranch foram estabelecidas conexões com alguns estados norte-americanos, em especial com o Texas, onde se localiza a sede da empresa. De início, estas relações eram essencialmente pautadas pelo interesse no intercâmbio técnico e na realização de negócios. Nestas primeiras conexões estiveram envolvidos os pecuaristas que empreenderam viagens às feiras agropecuárias texanas, visitas a ranchos e acompanhamento de eventos de hipismo country .

Os intervalos destes contatos diretos eram — e são — preenchidos com a leitura de publicações norte-americanas dedicadas à criação de gado e de cavalo das quais estes sujeitos tornaram-se assinantes.

Entre estes entrevistados é muito forte a idéia da existência de uma habilidade norte-americana na lida com o gado; habilidade esta fincada em "séculos de tradição e experiência"3 e que deveria ser aprendida e adaptada pelos criadores brasileiros com o objetivo de imprimir maior racionalidade aos negócios pecuários para, com isto, aumentar a rentabilidade dos mesmos. A equação é simples: incorporação de inovações, racionalidade, acompanhamento doandamento das atividades e das condições de mercado numa escala mais ampla... tudo orientado para o incremento dos negócios.

Interessante assinalar que nesta orientação pode-se perceber a migração de valores adquiridos nos assentos universitários — estar sempre informado, imprimir racionalidade ao negócio etc. — para o mundo da gerência das fazendas. Assim, o que na geração anterior era conduzido segundo o andamento da intuição e das circunstâncias locais passou, decisivamente, a ser revestido de uma mentalidade empresarial. Os pecuaristas da segunda geração são os que se sentem mais confortáveis quando identificados como empresários rurais.

De consumidores das publicações norte-americanas, alguns deles tornaram-se colaboradores das mesmas, contribuindo com artigos que se ocupam em difundir as qualidades do gado nacional — o nelore — bem como em relatar a experiência de ser pecuarista no Brasil. Ao mesmo tempo, associações e revistas voltadas para o tema foram criadas no Brasil — como a Associação Brasileira de Quarto-de-Milha (ABQM) e a revista Nelore.

A terceira geração, composta de jovens entre 19 e 32 anos — a ‘moçada’, segundo os pais e os avós —, pôde desfrutar tanto de uma situação financeira firmemente consolidada como também da existência deste canal de comunicação com os EUA.

Tais jovens, principalmente os mais velhos deles, não seguiram os passos da geração anterior no que diz respeito à dedicação ao patrimônio familiar ou à escolaridade. A maioria não chegou à universidade e aqueles que o fizeram estiveram atendendo às prescrições disciplinares de suas famílias apreensivas com o desdém de seus filhos para com as matérias de natureza ‘séria’ como estudar ou acompanhar o que acontecia nas fazendas. À ‘moçada’ sempre pareceu mais interessante desvencilhar-se da idéia de contar e economizar o dinheiro, preferindo gastá-lo.

Foi justamente neste setor de jovens que, há alguns anos atrás e um tanto por acaso — para fazer alguma coisa divertida — um grupo, sentado à mesa de um bar-restaurante, resolveu organizar o primeiro grande rodeio da cidade. Desta primeira bem-sucedida experiência resultou a formalização do grupo — que se auto-denomina ‘sociedade’ — que, há oito anos, vem regularmente promovendo rodeios, shows, festas/bailes, além de possuir uma loja de artigos de moda country.

No que diz respeito especificamente aos rodeios, com a experiência acumulada na organização e promoção dos eventos anuais no município, esta ‘sociedade’ tomou a iniciativa de agregar-se aos grupos afins em outras localidades para formar a Federação Nacional de Rodeio Completo que, instituída formalmente em 1996, coordena os rodeios de Jaguariúna/SP, Barretos/SP, Presidente Prudente/SP e Goiânia/GO.

Ao lado de promover eventos, este grupo local teve — e tem — papel significativo na difusão do padrão country. Adeptos de ‘primeira hora’ das calças Wrangler (cowboy cut), botas, chapéus de cowboy, camisa xadrez, da música country nacional e norte-americana, do fumo de mascar e do telefone celular, estes jovens foram prontamente seguidos por seus pares e mesmo por pecuaristas mais velhos que ainda mantinham alguma suspeita em relação às atividades a que o grupo se dedicava. O resultado ao longo destes anos é que o consumo destes itens — e tudo do que eles são emblemáticos — generalizou-se na região alcançando, inclusive, os que nenhuma ligação têm com a terra ou com a pecuária.

É importante enfatizar que, nesta região, a moda country não é seguida apenas em ocasiões especiais como os rodeios e as festas; ao contrário, é um estilo de vestuário usado cotidianamente.

Com a disseminação da moda e do ‘gosto’ country para muito além do círculo dos fazendeiros — proprietários de terras e de gado —, o ‘lugar’ desta elite agrária na cidade transformou-se de uma forma muito curiosa. Já aquinhoados de capital financeiro, os pecuaristas, sob a liderança pouco consciente da ‘moçada’, acabaram por instaurar um padrão estético para além da fronteira de seus pares, com o que passaram a ser reconhecidos de maneira mais positiva pelos demais habitantes da cidade. Acrescentaram capital simbólico ao capital financeiro (Bourdieu, 1987).

Evidentemente, o capital financeiro desta categoria social bene-ficiou-se amplamente com a difusão do country. Para se ter uma noção da magnitude deste negócio, cabe mencionar que um dos membros deste grupo — desta ‘sociedade’ — é o maior importador de artigos country na América Latina.

Como já é possível perceber, os personagens deste universo são habitantes da cidade. Os pecuaristas vivem na cidade onde guardam os títulos de propriedades de suas terras — as fazendas — para onde vão a trabalho, isto é, para supervisionar o trabalho dos peões. A grande maioria dos pecuaristas tem seus escritórios montados no centro da cidade e a freqüência das visitas às fazendas responde a circunstâncias especiais e, principalmente, à existência — ou não — de um bom administrador in loco.

O padrão country que venho estudando é produzido e consumido nas cidades. Vale repetir: tanto os pecuaristas como os ‘promotores culturais’ moram na cidade e não em uma de suas fazendas; como citadinos fazem parte da vida social urbana. Os eventos são dirigidos ao público urbano, assim como a moda e o consumo musical.

Os adeptos deste padrão, quando não pecuaristas, são executivos, profissionais liberais, funcionários do setor terciário, estudantes etc., enfim, categorias sociais urbanas.

Não se pode negar a existência de um certo traço de nostalgia neste country, principalmente entre executivos paulistanos quevão para o interior do estado para praticar esportes hípicos country nos fins de semana tanto como medida terapêutica contra o estresse da vida urbana, como para um retorno aos tempos de infância, tempos estes informados por filmes de cowboys.

Em relação a este traço nostálgico um ponto parece sugestivo. Se perseguirmos as raízes etimológicas do próprio termo nostalgia, chegaremos a algo próximo do sentimento de "dor do lar/ da casa/ da origem". No caso em questão, a ligação a este remoto ‘lar’, celebrada através dos encantos com a montaria e do apreço por uma certa dose de misantropia, é uma saudade que se nutre mais dos westerns hollywoodianos do que de experiências pessoais vividas no meio rural. Esta saudade de um mundo rural imaginário é satisfeita a cada fim de semana e atualizada através de viagens aos Estados Unidos para acompanhar os eventos, de modo a, como eles próprios afirmam, "estar up to date". Ser cowboy de fim de semana serve até mesmo para que estes indivíduos integrem uma ordem mais geral em que todos, por desdobramento de uma espécie de civismo cosmopolita, passam a ter quase a obrigação de equacionar a vida em termos de estresse e de um hobby compensatório.

Ao mesmo tempo, o apreço pela fuga da cidade e por um contato mais estreito com a natureza não é exclusivo ao country; ao contrário, está em diálogo com a vertente sentimental da questão ecológica contemporânea. Assim é que, durante a pesquisa, a recorrência dos mais disseminados jargões ecológicos no discurso destes cowboys sempre esteve explicitamente acompanhada da ênfase na sintonia do padrão country com o que está em pauta na sociedade abrangente.

Esta breve menção ao tema da nostalgia tem por objetivo tomar a questão do entrecuzamento de tempos como campo de indagação. Mais precisamente, sua menção tem como propósito indagar sobre a fabricação da nostalgia como recurso para a construção do presente. Em outras palavras, a idéia é pensar que tal evocação saudosista transporta a nostalgia no eixo do tempo — a nostalgia como recurso para ancoragem no presente e no futuro.

Para os meus entrevistados de terceira geração, por exemplo, a mira é definitivamente voltada para o presente e para o futuro. Assim, por exemplo, a já citada Confederação Nacional do Rodeio Completo tem como um de seus projetos fazer do rodeio um esporte ombreado com o futebol na condição de paixão nacional.

Sobretudo, vale enfatizar que a nuance nostálgica cultuada pelo segmento country em pauta é decisivamente distinta daquela que enleva as grandezas e as dificuldades do dia-a-dia de trabalho na agricultura ou na pecuária. A narrativa de cunho nostálgico veiculada por meus entrevistados volta as costas ao mundo da fazenda definido nestes termos.

A proposta interpretativa que venho elaborando é a de que no country brasileiro, ao menos na região por mim estudada, o ruralé um lugar de referência imaginária, um tema e não um locus de experiência. Isto no sentido de que: primeiro, como já foi adiantado, o padrão country que venho acompanhando é endereçado à cidade; é uma imagem do rural que vem ocupando espaço no mundo urbano. É o rural na cidade; o rural como experiência urbana. Segundo, porque, como tema de referência ou fonte de inspiração, o campo presentificado neste country não se refere à experiência do rural no que concerne à vida e, principalmente, ao trabalho braçal nas fazendas. Trata-se de um rural que exclui o trabalho.

A imagem do rural identificada neste padrão country é a da ‘terra de Marlboro’; uma imagem que a um só tempo transcende à fazenda, aos limites de fronteiras nacionais e às considerações de ordem histórica ou cultural. Dito de outra forma: a ‘terra de Marlboro’, como lugar imaginário, está para além da geografia e da história: não tem uma cartografia rígida e tampouco uma acepção seqüencial do tempo.

O cerne desta imagem do rural pode ser aproximado como sendo um espaço temático difuso e fragmentado para o qual são convocadas parte das tradições das elites agrárias brasileiras, uma peculiar interpretação da experiência country norte-americana e a aspiração da parte dos pecuaristas por uma identidade que os sintonize com o que é considerado moderno e atual.

Como o country brasileiro é explicitamente vinculado à experiência norte-americana, fica convidativo pensá-lo em termos de cópia. Investir nesta perspectiva, no entanto, seria ceder à tentação do que é mais fácil e, certamente, o resultado seria uma visão extremamente empobrecedora do assunto.

Uma possibilidade quase que oposta, e bastante afinada ao gosto dos nossos tempos de pós-modernismos, seria pensá-lo como um híbrido resultante da fusão de duas (ou mais) trajetórias ou tradições.

Minha inclinação, entretanto, recai sobre uma terceira via. A experiência de campo possibilitou-me pensar tanto os adeptos do padrão country no Brasil quanto os brasileiros que vivem nos EUA em função de atividades ligadas a este padrão como sujeitos que freqüentam alternadamente cada uma das arenas de tradição. O contexto é o de um fluxo de diálogo que não chega a um fecho, a um resultado final; em suma: não se chega a um produto híbrido.

Tanto o discurso verbal como o discurso das práticas transitam através de fronteiras nacionais e culturais. Deste modo, a idéia que me parece mais pertinente para pensar o country brasileiro é a de ambivalência. Valência dupla, assim como a do átomo de oxigênio na tabela periódica dos elementos químicos. Assim, os adeptos do country estão referidos ao mesmo tempo a (pelo menos) dois lugares, porque estão num trânsito incessante de cruzamento de fronteiras.

O intrigante é que é precisamente na atualização desta possi-bilidade de ir e vir, i.e., no trânsito entre (pelo menos) dois referenciais, que o country constrói suas raízes ("placement in displacement", Nacify, 1996).

O country como instância de distinção

O segundo ponto que gostaria de explorar nesta comunicação refere-se à questão de como esta imagem difusa do rural apresentada pelo country oferece os elementos para a construção da identidade dos pecuaristas como categoria social urbana. Mais particularmente, procurarei me deter em um dos aspectos desta questão, qual seja, a de como através da imagem do rural elaborado no contexto country instaura-se um espaço de cultivo do self que, ao mesmo tempo que fornece conteúdo a esta identidade, confere-lhe traços de distinção e de refinamento.

Antes de entrar propriamente na questão, e até mesmo para deixar mais claro o recorte que pretendo privilegiar, cabem alguns comentários sobre as facetas mais visíveis do padrão country entre nós: o rodeio, a música e a moda. São as mais visíveis porque constituem os cenários country mais divulgados pelos meios de comunicação, e também porque a eles têm acesso os adeptos com níveis diferenciados de renda.

A moda country, apesar de hierarquizada — e portanto hierarquizante — dados os preços de determinados artigos, de alguma forma é acessível a uma ampla gama de níveis de renda. Durante a pesquisa nacional, não foram poucas as vezes em que, por exemplo, testemunhei cenas de empregadas domésticas ou comerciários despenderem 60% do salário mensal em uma calça Wrangler. No entanto, sacrifícios orçamentários como este não possibilitam a aquisição de um par de botas que chega a custar até três mil dólares, ou a compra de camisas e chapéus cujos preços situam-se acima dos trezentos dólares.

Como alternativa, existem sempre produtos similares, de qualidade inferior — isto é, degriffés —, por preços mais modestos.

No mundo da música produzida no Brasil não são raros os artistas que encontraram neste filão o meio para mobilidade social ascendente. O mesmo se aplica ao mundo do rodeio, onde algumas provas — em especial a de montaria em touro — são performa-tizadas por peões de fazenda. A expressão máxima desta mobilidade ascendente é o caso de Adriano Moraes, filho de administrador de fazenda que se tornou o ‘Ayrton Senna’ dos rodeios, respeitado e celebrado irrestritamente no meio country. Como o próprio Adriano reconhece, a montaria em touro é um esporte de alto risco, o qual os jovens ricos, sob advertência de suas famílias, não vêm razão para praticar.4

Quanto ao consumo, tanto a música country quanto os espe-táculos de rodeio, na medida em que se definem respectivamente como produto e evento ‘de massa’, são acessíveis de forma a não discriminar nível de renda. Naturalmente, há CDs raros ou importados, assim como algumas vezes há camarotes nos rodeios... mas, de todo, este consumo não se caracteriza pela exclusão.

O recorte que viso a privilegiar nesta oportunidade destaca exatamente as facetas do padrão country que são menos visíveis para o grande público e que são indispensáveis de serem abordadas na medida em que revelam aspectos significativos para o que me proponho a tratar, i.e., a instituição do padrão country como seara autenticadora de requinte e distinção no cenário social brasileiro.5

Neste contexto, gostaria de me deter nas modalidades esportivas do padrão country que implicam não apenas menores riscos de acidentes como também impõem maiores exigências de nível de renda para serem praticadas. Tais modalidades constituem a parte do universo country que demanda ainda um razoável grau de iniciação. São elas as provas de apartação, western pleasure, conformação, tambor, laço, laço em dupla, bulldogging e rédeas.

O caso da prova de rédeas

Devo dizer que a primeira vez que presenciei uma destas provas meu desapontamento foi imenso. Durante a prova não consegui perceber nada do glamour que me havia sido antecipado por meus ‘informantes’. Ao contrário, avaliei a seqüência das demonstrações como sendo extremamente repetitiva e, por isto mesmo, muito cansativa.

Numa segunda tentativa, pude contar com a assistência de uma praticante do esporte que me iniciou nas regras do mesmo. Daí em diante pude ‘ver’ e até apreciar o que acontecia na arena.

Esta modalidade é praticada em pista retangular. Cada competidor é avaliado por árbitros que são recrutados através de cursos especiais de formação , nos quais devem ser aprovados para obterem o registro de juízes oficiais.

A cada prova, três juízes se posicionam no lado externo da pista, no ponto médio do lado maior do retângulo.

Existem seis circuitos possíveis para esta modalidade e, dentre eles, um circuito é determinado pelos juízes para pautar cada evento. Todos os circuitos compreendem exatamente os mesmos desafios, as mesmas etapas, o que varia é a ordem em que devem ser apresentados. A avaliação total da prova é dada pela soma das pontuações obtidas em cada uma das etapas.

O início da prova é dado quando o competidor, montado, dirige-se ao centro da arena para se apresentar aos juízes e cumprimentá-los. Neste percurso o cavalo deve demonstrar que está tranqüilo

para enfrentar a prova e que, portanto, o par cavaleiro/cavalo tem perfeito domínio da situação. O rabo do cavalo deve permanecer na posição de repouso — não deve balançar ou erguer-se — de modo a indicar calma e controle.6

Depois da apresentação e do cumprimento, os juízes dão o sinal para o início do circuito.

Numa das etapas da prova, o cavalo tem que percorrer três voltas em círculo em uma das metades da arena e depois três voltas idênticas na outra metade. Cada uma das três voltas tem velocidade diferente das demais. Assim, a primeira é muito rápida — de modo a possibilitar que a capacidade de explosão do animal seja avaliada —, a segunda volta é rápida e a terceira, mais lenta, para que o controle do cavaleiro sobre o cavalo seja apreciado.

Na saída para as voltas para o lado direito, o cavalo deve iniciar o movimento usando a pata dianteira direita; para as voltas à esquerda, o cavalo deve projetar primeiramente a pata dianteira esquerda. Esta chamada ‘troca de mão’ implica, naturalmente, um rearranjo no movimento das quatro patas do animal, o que deve ser efetuado sem nenhum movimento brusco na passada e sem nenhum sinal visível de comando do cavaleiro. Toda evolução deve parecer muito natural.

A mesma situação de ‘troca de mão’ é focalizada quando o cavalo tem que realizar três voltas completas pela arena. As voltas também têm velocidade decrescente, primeiro num sentido e depois no outro. Isto implica que na troca de sentido o cavalo perfaça o desenho do número oito ocupando a totalidade da área da arena.

Além das voltas e do oito, o cavalo tem que realizar spins para a direita e para a esquerda. No centro da pista, o cavalo mantém as patas traseiras fixas e roda com as patas dianteiras perfazendo três voltas para cada lado. Além da naturalidade, a precisão no início e no final de cada spin é critério para avaliação.

Por fim, o competidor deve realizar dois esbarros: um para cada extremidade da pista. O esbarro consiste numa corrida linear muito rápida interrompida pela freada brusca do animal. Nesta freada, o animal trava as patas traseiras, praticamente ‘sentando-se’ numa linha imaginária a uma certa altura do chão. Novamente tranqüilidade, precisão e controle dos movimentos sem a interferên-cia visível do cavaleiro são os quesitos a serem apreciados e avaliados.

Como mencionado anteriormente, com exceção da apresen-tação, os demais momentos da prova — voltas completas seguidas pela performance do oito, voltas para o lado direito e esquerdo, spins e esbarros — podem variar na ordem de realização de acordo com os seis circuitos possíveis.

Desta descrição, o que me parece interessante salientar são os seguintes pontos:

Primeiro, toda a atmosfera de naturalidade que deve imperar durante a prova. Neste contexto, naturalidade significa elegânciana performance, habilidade do treinador do animal e do cavaleiro. Sim, porque treinador e cavaleiro podem ser indivíduos diferentes. O treinador pode ser um profissional encarregado de preparar o animal para a prova. Neste caso, como profissional/especialista, o treinador pode ser contratado por um ou mais proprietários de cavalos com a incumbência de capacitar os animais para a demonstração, mas isto não significa que ele será necessariamente o cavaleiro. Há, inclusive, ranchos/haras especializados em treinamento de cavalos para provas específicas e estes ranchos/haras muitas vezes não possuem um só cavalo.

O cavaleiro pode ser o proprietário do animal ou um dos membros da família proprietária, como também qualquer outro indivíduo sobre o qual recaia esta eleição.

O importante é que, seja quem for o cavaleiro, ele tem que dominar as regras desta montaria e a principal delas é a de não dar qualquer sinal de que esteja controlando o cavalo. O propósito da montaria é mostrar que cavalo e cavaleiro estão em perfeita harmonia, i.e., perfeitamente entrosados de modo a comunicarem-se com movimentos corporais mínimos, sutis e, sobretudo, imperceptíveis ao público. Il fault cacher l’effort !!!

Segundo, a beleza do espetáculo como negação do trabalho. Para alcançar o nível ideal para a performance, o treinamento do cavalo é um processo longo — de dois a quatro anos — e trabalhoso. A linhagem do cavalo é um dado importante para a decisão de trei-nar ou não um determinado animal. O treino consiste primeiro na doma do animal (to break the horse) e depois em sessões diárias de prática. O momento culminante deste processo, ou seja, o momento em que o cavalo é considerado pronto, é justamente quando todo este trabalho desaparece, deixa de ser visível, e o animal, sintonizado com seu cavaleiro, perfaz todos os movimentos como se ambos tivessem nascido sabendo-os. De novo: il fault cacher l’effort !!!

Um terceiro aspecto é o da relação do par cavalo/cavaleiro com o espaço. O domínio do espaço implica realizar um desenho harmonioso quando da execução da prova, sendo que para tal desenho inexistem marcações na pista. Tais marcações são interio-rizadas pelo cavaleiro. O movimento na área da pista não pode ser caótico ou confuso. O desenho deve ser ‘limpo’ e proporcional.

Também deve existir uma noção do espaço a ser ocupado pelo cavaleiro na sela do animal. Aqui somam-se as noções de centralidade na sela e de postura corporal. O corpo do cavaleiro deve estar ereto, mas ao mesmo tempo deve guardar alguma relação com os movimentos do cavalo. De todo, o corpo não pode cambalear ou dar sinais de hesitação.

A prova de rédeas ocorre em total silêncio. À platéia cumpre manifestar-se apenas ao final da mesma, embora para um excelente esbarro ou spin algum entusiasmo do público seja tolerado.

Por fim, gostaria de considerar a relação entre as circunstâncias da realização da prova de rédeas para com a experiência cotidiana.

A bibliografia sobre as modalidades esportivas country (Lawrence, 1982) — que em geral concentra-se nas provas de rodeio — aponta para o vínculo destas modalidades com as práticas diárias da pecuária: montar um cavalo arisco, laçar, apartar um boi do restante da boiada, e assim por diante.

Como reprodução do dia-a-dia na lida com o gado, evidentemente sabemos que tais modalidades esportivas são reelaboracões que se desprendem da vida ordinária e adentram o mundo das regras do espetáculo. Numa tentativa de aproximação, isto equivale a dizer que as provas esportivas ritualizam as situações cotidianas e fazem-no seguindo regras próprias do espetáculo, distantes, portanto, das regras de eficiência prática.

Neste contexto, é interessante contrastar a prova de rédeas aqui descrita com provas realizadas por associações que se definem sob o signo da autenticidade e, conseqüentemente, da nostalgia dos ‘bons e velhos tempos’, da ‘vida como ela realmente é’.

Este é o caso, por exemplo, da Cowboy Heritage Association que nos seus eventos de Cowboy Celebration apresenta as mesmas provas, mas praticadas pelos que são considerados os ‘real cowboys’ — os cowboys de verdade —, definidos como sendo aqueles que praticam laço, montaria, apartação, rédeas etc., no dia-a-dia. São os rancheiros ou tropeiros que vivem nestas e destas atividades. Nestes eventos, toda e qualquer sutileza desaparece: os cavaleiros ‘falam’ aos gritos e assobios com o cavalo e o gado — quando a prova implica a presença de bois ou bezerros —, e usam ostensivamente as esporas e o chicote. Neste caso, a espetacularização da experiência pretende ser uma reprodução realista do cotidiano.

Decididamente não é com este tipo de modalidade esportiva ou de espetáculo que os adeptos do country brasileiro dialogam. E mais: estas expressões do country são por eles desdenhadas e até mesmo repudiadas.

Por se distanciar e mesmo desprezar o que genericamente é tido como red neck ,7 no esteio fiel à tradição de aversão ao trabalho manual e braçal (Holanda, 1983), o segmento da elite agrária brasileira aqui focalizado afina-se com uma versão do padrão country passível de ser transfigurada num estilo de vida que preconiza sofisticação, refinamento e, sobretudo, distinção.

Existe, entretanto, um outro campo, um outro mundo rural, para os meus entrevistados: o mundo da fazenda. A fazenda é o mundo que faz o dinheiro. O mundo que, segundo eles, encontra-se ameaçado pela existência do Movimento dos Sem-Terra. A fazenda é um mundo longínquo da sociabilidade country. Um mundo guardado por seguranças armados.8 Sem leveza, elegância ou suavidade, aquele é um mundo dito de "assuntos graves"9 para osquais preconizam "providências sérias e firmes".10 E para chegar até ‘lᒠé preciso pegar a caminhonete ou mesmo o avião particular. Uma outra história, ou melhor, um outro exercício de ambivalência.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Além, João Marcos 1996 ‘Caipira e country: a nova ruralidade brasileira’. Tese de doutoramento, São Paulo, Universidade de São Paulo.         [ Links ]

Bourdieu, Pierre 1987 ‘Espace social et pouvoir symbolique’. Em Choses dites, Paris, Minuit.         [ Links ]

Holanda, Sergio Buarque de 1983 Raízes do Brasil. Rio de Janeiro, José Olympio.         [ Links ]

Lawrence, Elizabeth A. 1982 Rodeo. An anthropologist looks at the wild and tame. Knoxville, The University of Tennessee Press.         [ Links ]

Naficy, Hamid. 1996 The making of exile cultures. Iranian television in Los Angeles. Minneapolis, University of Minnessota Press.         [ Links ]

Pimentel, Sidney V. 1997 O chão é o limite. A festa do peão de boiadeiro e a domesticação do sertão. Goiânia, Editora UFG.         [ Links ]

Simmel, Georg 1971 ‘Sociability’. Em D. Levine (org.), Georg Simmel.On individuality and social forms. Chicago, The University of Chicago Press.        [ Links ]

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License