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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos v.5 n.3 Rio de Janeiro nov. 1998/fev. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701999000100004 

 

 

 

Combatendo nazistas e mosquitos: militares norte-americanos no Nordeste brasileiro (1941-45)

Fighting nazis and mosquitoes: US military men in Northeastern Brazil (1941-1945)

 

 

 

 

 

 

 

 

André Luiz Vieira de Campos

Doutor em história, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Campus do Gragoatá, Bl. O, 5º andar
24210-350 Niterói — RJ Brasil
e-mail: camdrepo@cruiser.com.br

 

CAMPOS, A. L. V. de: ‘Combatendo nazistas e mosquitos: militares norte-americanos no Nordeste brasileiro (1941-45)’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, V(3): 603-20, nov. 1998-fev. 1999

Este artigo analisa as relações entre malária e guerra, através das políticas de controle da doença executadas nas bases militares norte-americanas estabelecidas no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. O estudo de caso das três mais importantes bases, em Belém, Recife e Natal, mostra como a malária pode transformar-se numa questão de segurança político-militar. O caso de Natal permite-nos avaliar os preconceitos, desconfianças políticas e tensões nacionalistas entre brasileiros e norte-americanos.

PALAVRAS-CHAVE: história, malária, Segunda Guerra Mundial, Brasil, Estados Unidos.

 

CAMPOS, A. L. V. de: ‘Fighting nazis and mosquitoes: US military men in Northeastern Brazil (1941-45)’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, V(3): 603-20, Nov. 1998-Feb. 1999

Malaria-control policies enforced at US military bases set up in Brazil during World War II serve as an example in this analysis of the associations between disease and war. Case studies of the three main US bases (located in Belém, Recife, and Natal) show how malaria can be transformed into a matter of political-military security. An examination of the Natal case allows the reader to perceive the prejudices, political mistrust, and nationalistic tensions marking relations between the Brazilians and Americans.

KEYWORDS: history, malaria, World War II, Brazil, United States.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Hudson ressalva que esta afirmativa só é válida, entretanto, para o exército japonês.

 

 

2 Este índice significa que, para cada mil soldados estacionados na área por um ano, todos eles tiveram malária pelo menos uma vez, conforme informação de Condon-Rall (1991). Os dados sobre as internações hospitalares gerais estão em Heaton (1963) e os dados sobre a campanha da Sicília estão em Russell (1963).

3 A atebrina é uma droga química que substitui o quinino na prevenção dos sintomas da malária. A droga já era produzida, desde a década de 1920, pela Bayer alemã. Quando, em 1942, os japoneses invadiram as colônias holandesas produtoras de quinino na atual Indonésia, os Aliados tiveram o fornecimento de quinino interrompido. Os norte-americanos, então, aperfeiçoaram e produziram maciçamente atebrina.

4 O sucesso do DDT no combate à malária levou a Organização Mundial de Saúde (OMS), na década de 1950, a acreditar que poderia erradicar a malária do mundo. A partir de 1962, com a publicação do livro Silent spring, cresceu a consciência ecológica sobre os efeitos nocivos do DDT.

5 As negociações para a instalação das bases estão descritas por Conn e Fairchild (1960).

 

 

6 O primeiro relatório foi executado exclusivamente por médicos americanos (Dunham, 1941), sendo o segundo produzido por uma equipe mista brasileira-norte-americana (Mixed Sanitary Commission, 1941).

 

 

 

7 Existem evidências biológicas e históricas que sugerem que a malária é originária da África e não existia no continente americano antes de 1492. Para uma discussão sucinta, ver Dunn (1993).

 

 

     Fatores político-militares freqüentemente desempenham um importante papel no desenvolvimento da medicina e da saúde pública. Interesses militares podem determinar, por exemplo, a prioridade dada por governos à pesquisa de determinada doença. A relação entre o desenvolvimento do conhecimento médico e os interesses militares dos Estados nacionais é objeto da historiografia sobre saúde pública e medicina, e foi recentemente mapeada por Harrison (1996), que identificou dois grandes temas emergentes neste campo: a "militarização da medicina" e a "medicalização da guerra".
     Vários historiadores já apontaram para a íntima relação entre interesses militares e avanços na área do conhecimento médico. McNeill (1989) chamou a atenção para as relações entre novas descobertas médico-sanitárias, a expansão imperialista e a construção de uma racionalidade administrativa nos exércitos, na saúde pública e em outras instituições dos Estados modernos. McNeill afirma, por exemplo, que o imperialismo europeu no século XIX só pôde penetrar no interior do continente africano depois que os holandeses organizaram comercialmente, em Java, a produção de quinino, a droga usada para prevenir os efeitos da malária. Ainda nesta perspectiva, argumenta que a pesquisa sobre a febre amarela, entre o final do século XIX e início do XX, mereceu mais investimentos norte-americanos do que a pesquisa sobre malária, em parte porque a primeira doença revelava-se mais ameaçadora para a expansão dos Estados Unidos no Caribe do que a segunda.
     Outros historiadores chamam a atenção para a importância das doenças infecto-contagiosas como agentes dizimadores de exércitos nos cenários de batalha. Até pelo menos o início do século XX, as baixas causadas por doenças nos exércitos em luta eram maiores do que as provocadas pelos combates. Hudson (1983) afirma que a guerra entre Rússia e Japão (1904-05) foi a primeira na qual o número de soldados mortos em combate superou o número de mortos em decorrência de epidemias.1 Crosby (1989) alega que, em todas as guerras nas quais os Estados Unidos lutaram antes da Primeira Guerra Mundial, o exército norte-americano perdeu mais soldados vitimados por doenças do que por baixas militares propriamente ditas. Stepan (1978) usa a guerra hispano-americana de 1898 como um exemplo extremo desta afirmativa: para cada soldado morto em batalha, 25 outros norte-americanos sucumbiram a doenças, principalmente disenterias, malária e febre amarela, sendo que apenas a malária foi responsável por cinco mil mortes nesta guerra.
     Durante a Segunda Guerra Mundial, a malária foi o principal problema sanitário que as tropas norte-americanas enfrentaram nos diversos continentes, sendo responsável por quinhentas mil internações hospitalares. Na invasão da Sicília pelos Aliados, entre julho e setembro de 1943, os norte-americanos registraram 21.482internações hospitalares devido a ataques de malária, em contraste com as 17.375 internações provocadas por ferimentos de batalha. Em dezembro de 1942, o índice de incidência de malária nas forças militares no sudoeste do Pacífico foi de seiscentos casos para cada mil soldados norte-americanos. Em algumas bases do Pacífico, este índice, em 1943, chegou a atingir mil casos por ano para cada mil soldados.2
     Foram as necessidades militares da Segunda Guerra Mundial que estimularam o governo e a indústria química norte-americanos a aplicar recursos nos estudos sobre a malária. O desafio de enfrentar esta doença levou o Conselho de Produção de Guerra dos Estados Unidos a investir em pesquisas, drogas para combater os sintomas e vetores da doença e técnicas ambientais de controle. Por exemplo, o desenvolvimento de uma droga eficiente para combater os sintomas de malária foi acelerado durante a guerra, principalmente depois que os japoneses invadiram as colônias holandesas asiáticas produtoras de quinino. Este esforço levou ao aperfeiçoamento da atebrina e à pesquisa de outras drogas de prevenção dos sintomas da doença.3 Um outro produto do esforço da indústria química norte-americana, desenvolvido durante a guerra, revolucionou as técnicas de combate à malária: o diclorodifeniltricloroetano, ou DDT. O DDT é um poderoso inseticida residual que, aspergido em superfícies interiores (paredes internas de residências), atua por vários meses e é extremamente eficaz na eliminação de mosquitos adultos. Estes e outros produtos foram testados tanto no teatro de guerra, os campos de batalha europeus e asiáticos, quanto no Brasil.4
     Assim como na Sicília e no Pacífico, a malária também foi a principal preocupação sanitária dos norte-americanos instalados em bases e aeroportos militares no Norte e Nordeste brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial. O episódio da instalação das bases norte-americanas em solo brasileiro é pouco conhecido. O Departamento de Estado temia que os alemães invadissem o Nordeste brasileiro a partir de Dakar ou do arquipélago dos Açores. Caso isto acontecesse, os nazistas poderiam ameaçar o canal do Panamá e o Caribe. O pânico que esta possibilidade causou entre os militares norte-americanos pode ser avaliado pelos diversos planos preventivos elaborados pelo exército daquele país; o mais mirabolante deles previa a ocupação do Nordeste brasileiro — com ou sem o consentimento de Vargas — por uma força de cem mil homens. Depois de muita pressão norte-americana, resistência das forças armadas brasileiras e longa negociação, o governo Vargas autorizou a instalação das bases militares, construídas no Amapá, em Belém, em São Luís, em Fortaleza, em Natal, no Recife e em Salvador.5 Os interesses militares norte-americanos também envolviam o saneamento de áreas produtoras de matérias-primas para a indústria bélica, como a Amazônia e o vale do Rio Doce. Para sanear estasregiões e as cidades onde se localizavam as bases militares norte-americanas, criou-se, em 1942, o Serviço Especial de Saúde Pública (Sesp).
     Antes mesmo da assinatura formal do acordo militar com os Estados Unidos autorizando a instalação das bases, duas equipes de médicos militares percorreram o Nordeste e o Norte do país, analisando as condições sanitárias daquelas regiões e sugerindo políticas de saúde que preservassem os soldados das endemias locais.6 Os relatórios produzidos por estas equipes retratam um quadro nosológico impressionante: malária, febre tifóide, disenterias, doenças venéreas, esquistossomose, peste bubônica, parasitas intestinais, tuberculose, varíola, tracoma, hanseníase, desnutrição e alto índice de mortalidade infantil estavam entre os problemas de saúde mais sérios identificados. Entretanto, estes estudos não foram feitos para orientar políticas de saúde para a população civil, mas para detectar quais doenças seriam ameaçadoras para as tropas norte-americanas no Brasil. O sanitarista norte-americano Dunham (1941) foi muito objetivo em seu relatório, ao afirmar que, de todas as doenças existentes no Brasil, malária, disenterias, febre tifóide e doenças venéreas, eram as únicas que efetivamente constituíam ameaças para os militares que viriam dos Estados Unidos, sendo que a malária foi apontada como a doença mais perigosa para as tropas. A malária era endêmica em praticamente todos os estados do Norte e Nordeste e foi considerada um "problema militar" nos relatórios mencionados.
     Malária é uma infecção causada por protozoários do gênero Plasmodium. O parasita necessita de um vetor para transferir-se de um ser humano infectado para uma pessoa não infectada: um mosquito fêmea do gênero Anopheles. Ao sugar o sangue de uma pessoa infectada, o mosquito torna-se hospedeiro do protozoário e transmite o parasita ao picar outra pessoa. A preocupação militar com a malária deve-se ao caráter extremamente debilitante da doença, que provoca ataques febris, anemia extrema, deixa a vítima mais suscetível a outras doenças, e pode causar a morte. Uma pessoa atacada de malária é constantemente forçada a suspender suas atividades e, se a doença ataca uma comunidade, produz um maciço declínio da capacidade produtiva.7 Se a malária era capaz de incapacitar trabalhadores para atividades produtivas, seria também capaz de imobilizar um exército; daí a necessidade de controlá-la, pelo menos ao redor dos núcleos militares norte-americanos instalados no Brasil. Em função dos limites deste artigo, vamos restringir nosso estudo às políticas de controle nas três mais importantes bases militares norte-americanas: aquelas localizadas em Belém, Recife e Natal.

O controle de malária em Belém

     A equipe mista de brasileiros e norte-americanos encarregada de preparar o Plano de Defesa do Nordeste recomendou as cidades de Belém, Recife e Natal como sede das mais importantes bases militares a serem instaladas no país pelos norte-americanos. A capital do Pará era estrategicamente importante por uma dupla razão: era a porta de entrada para a rica área de produção de borracha do vale amazônico e abrigava um dos aeroportos militares mais importantes na rota Estados Unidos — África — Ásia, por onde transitavam tropas e equipamentos militares. A importância militar de Belém pode ser avaliada pela presença da base militar de Val de Can, construída pelo exército norte-americano na periferia da cidade. Belém foi também a primeira cidade brasileira a receber militares norte-americanos na Segunda Guerra Mundial: o primeiro grupo de marines ali chegou em dezembro de 1941.
     Entre meados da década de 1930 e início da de 1940, malária e tuberculose eram as principais causas de morte entre a população adulta de Belém, sendo a mortalidade infantil, entretanto, a que registrava o maior índice no cômputo geral de óbitos. Como nem mortalidade infantil nem tuberculose ameaçavam a saúde das tropas norte-americanas na cidade, não é de se surpreender que a malária fosse a principal preocupação sanitária para os estrangeiros em Belém. As peculiaridades do meio ambiente faziam da capital do Pará uma cidade bastante suscetível às epidemias de malária. Belém está localizada no delta do rio Amazonas e seu clima é quente e úmido. Além disso, no início da década de 1940, existiam sete grandes vales pantanosos nos arredores da cidade, locais propícios para reprodução de anofelinos.
     Os índices de incidência de malária não eram cuidadosamente computados pelos serviços sanitários da cidade, mas um médico norte-americano que serviu em Val de Can contabilizou trinta casos na base, entre maio e junho de 1942, registrados em uma população militar de apenas seis oficiais e 105 recrutas. Os casos de malária entre soldados norte-americanos continuaram a ocorrer durante aquele ano, mesmo fora da estação das chuvas, entre agosto e novembro. No acampamento brasileiro, localizado a pouco mais de dois quilômetros da base norte-americana e onde as medidas de prevenção inexistiam, grassava uma epidemia. Entre abril e julho de 1942, o índice de malária na tropa brasileira em Belém era de 506 por mil; e o índice isolado de abril foi de 910 por mil (West, 1963).
     Um aspecto positivo provocado pela presença militar na Amazônia durante a guerra foi o avanço no estudo sobre os anofelinos da região. Em 1940, Evandro Chagas e seus auxiliares haviam, pela primeira vez, completado uma pesquisa sistemática sobre a malária em 49 municípios da Amazônia, mas os resultados desta pesquisa ainda não tinham sido publicados em 1942 (Deane, 1947). O governodo estado do Pará, então, transferiu para o Sesp, em 1942, a administração do Instituto Evandro Chagas em Belém, que iniciou um sistemático estudo dos anofelinos do vale. Os pesquisadores do Sesp identificaram, entre 1942 e 1946, diversas espécies de Anopheles na Amazônia, concluindo que apenas duas, o darlingi e o aquasalis, eram importantes vetores. Ambas eram encontradas em Belém, sendo o darlingi, o principal vetor, encontrado nas áreas mais altas da cidade, onde se reproduzia em "águas límpidas e banhadas pelo sol, principalmente na estação chuvosa, quando a umidade é maior" (U.S. Naval Observer at Belém, 1943, p. 1). O vetor secundário, Anopheles aquasalis, que se reproduzia em águas salobras ou influenciadas pela maré, era o principal transmissor nos distritos mais baixos da cidade, onde as águas da maré encontravam o rio Guamá.
     Os programas antimalária variavam de acordo com as características dos vetores e das condições ambientais locais. Localizada nos terrenos baixos da periferia de Belém, a base militar de Val de Can era banhada pelos rios Pará e Val de Can. A região era influenciada pelas marés de água salobra do rio Pará, o que favorecia a reprodução do Anopheles aquasalis, enquanto águas de chuva, estagnadas, facilitavam os focos de reprodução de Anopheles darlingi. Havia muitos pântanos nas terras baixas ao redor da base, enquanto a área mais alta era coberta por uma densa floresta. Estas condições, aliadas a muita chuva e umidade, propiciavam excelentes condições de reprodução de mosquitos. As primeiras medidas para eliminar mosquitos consistiram em aspersão de químicos em águas estagnadas, pequenas obras de drenagem e um programa de tratamento das populações vizinhas. Entretanto, tais medidas não foram bem-sucedidas. Uma densa vegetação impedia medidas de drenagem mais eficazes, e a região era tão inacessível que a aplicação de agentes larvicidas tornou-se muito dispendiosa e freqüentemente impossível de ser realizada. As políticas de combate à malária em Val de Can exigiriam outras estratégias.
     Para controlar a transmissão de malária em Belém, o Sesp conduziu um estudo para proteger a cidade contra as marés, possibilitando a drenagem dos terrenos baixos. Um extenso programa de engenharia foi empreendido, onde um complexo sistema de diques, canais e portões de controle de marés foi construído para prevenir o constante fluxo de água. Inaugurado em setembro de 1942, o dique de Belém foi a maior obra de engenharia realizada pelo Sesp na Amazônia. Em maio de 1943, já se registravam melhorias nos índices de incidência de malária na cidade. A construção do dique foi acompanhada pela distribuição diária de atebrina aos soldados. Como resultado deste esforço conjugado, os casos de malária entre as tropas norte-americanas caíram a partir de 1943, para atingir, entre julho de 1944 e agosto de 1945, a marca de cinco casos no período de um ano. Em 1945, pela primeira vez no Brasil, o Sesp utilizou o DDT através de uma experiência-piloto em Breves, um povoado na ilha de Marajó. Ainda em 1945, aviões militares foram utilizados para aspergir DDT sobre a cidade de Belém.

O controle de malária em Recife

     Recife, a terceira maior cidade brasileira em 1940, sediou um dos aeroportos militares norte-americanos por onde passaram milhares de soldados a caminho da África, da Ásia e da Europa. A presença norte-americana cresceu com a chegada dos primeiros marines em dezembro de 1941. Em abril do ano seguinte, o governo brasileiro autorizou a marinha norte-americana a patrulhar as águas do Nordeste com aviões anfíbios, baseados em Recife e Natal. Em novembro de 1942, a capital de Pernambuco tornou-se ainda mais importante, quando a sede do exército norte-americano para o Atlântico Sul foi transferida da Guiana para Recife, decisão seguida por uma grande concentração de tropas e equipamentos militares na cidade. Uma outra razão para a importância de Recife estava no fato daquela capital ser o centro do comando militar brasileiro no Nordeste e também o quartel-general das operações da marinha norte-americana no Brasil (Conn et al., 1960).
     No início da década de 1940, a malária não era tão ameaçadora em Recife como em Belém, mas estava presente em diversas partes da capital e do estado. Recife localiza-se num delta e existiam condições ambientais para a reprodução de mosquitos. Dunham (1941, p. 15), enfatizou que boa parte da cidade estava construída sobre terrenos baixos, com rios e riachos cortando sua área urbana e "muitos pântanos ao redor e mesmo dentro da cidade". A malária não era, entretanto, a principal causa de morte de adultos em Recife; a prioridade pertencia à tuberculose, um testemunho das más condições de vida da população. Mesmo o câncer — naquela época mais comum entre as populações idosas de países desenvolvidos — matava mais adultos em Recife do que a malária; o câncer estava em quarto lugar e a malária em quinto como causa de mortes entre 1938 e 1942 naquela cidade (U.S. Naval Observer at Recife, 1944).
     A região onde os norte-americanos construíram o aeroporto militar de Ibura era formada por terrenos baixos e pantanosos e, portanto, potencialmente maláricos. Ibura ficava a cinco quilômetros ao sul de Recife, a dois quilômetros para o interior da praia de Boa Viagem. O efeito das marés, combinando águas límpidas e salobras nos pântanos, e as altas temperaturas registradas criavam condições ideais para a reprodução de mosquitos, quer na estação das chuvas, entre março e agosto, quer na estação da seca, de setembro a fevereiro.
     As primeiras notícias alarmantes referentes a casos de malária entre soldados no campo de Ibura foram registradas em julho de1942, quatro meses antes de o exército norte-americano decidir transferir a sede do comando do Atlântico Sul para Recife. Até então, os casos da doença eram episódicos, porém os 12 casos registrados em julho entre os marines traduziam um alto índice, uma vez que menos de cem indivíduos haviam sido expostos. Entre a tropa brasileira aquartelada próximo a Ibura, os números de doentes aumentaram também. De junho a setembro de 1942, trinta casos de malária foram registrados entre os brasileiros, o que equivalia a uma taxa de infecção de dez por cento. Logo descobriu-se que o aumento dos índices da doença entre os militares correspondia a uma epidemia entre a população civil de seis vilarejos vizinhos: Boa Viagem, Prazeres, Piedade, Imbiribeira, Venda Grande e Candeias. Somente em dezembro de 1942, os médicos do Sesp diagnosticaram 1.276 casos de malária entre a população destes povoados, o que representava 27 por cento de todos os casos médicos tratados nesta população.
     A epidemia na área periférica ao aeroporto militar significava que "em praticamente todas as casas havia um ou dois casos de malária" (Silva et al., 1942, p. 3). A doença se havia tornado um sério perigo para as tropas e exigia um imediato programa de combate. O Sesp enviou a Recife o médico Oswaldo Silva, que avaliou a situação e propôs medidas de controle: providências eram urgentes numa conjuntura que combinava uma epidemia entre a população vizinha com o aumento do número de tropas estacionadas na área. Ibura preparava-se para receber mais seiscentos soldados norte-americanos e um número ainda maior de soldados brasileiros.
     Mesmo depois de terem sido acionados dispositivos de combate à doença, os casos de malária entre o pessoal militar continuaram a aumentar. Em março de 1943, irrompeu uma epidemia entre as tropas norte-americanas. A explicação encontrava-se, provavelmente, no ‘reservatório’ de indivíduos infectados que viviam nas aldeias próximas ao campo de Ibura. Esta população era composta, em geral, "por trabalhadores que vieram do interior, do litoral e mesmo de estados vizinhos, atraídos pelas oportunidades de trabalho geradas pela presença do aeroporto militar. Estes trabalhadores construíam barracos nas vizinhanças com incrível rapidez e, na medida em estas moradias eram usualmente localizadas em áreas insalubres, seus moradores estavam sujeitos a epidemias" (Report for the Brazilian Field Party for December, 1942, p. 4).

 

 

 

8 A suposição de que parte destes migrantes estivesse contaminada por malária deve-se ao fato de a doença ser endêmica em Pernambuco e estados vizinhos.

 

 

9 O Sesp estava formalmente subordinado ao Ministério da Educação e Saúde, mas gozava de completa autonomia administrativa e financeira.

 

10 A Panair do Brasil era uma subsidiária da Pan Am Airways, empresa encarregada pelo governo norte-americano de construir os aeroportos militares no Brasil.

     Este episódio mostra os aspectos sociológicos de uma epidemia de malária: a chegada de uma população migrante a uma área potencialmente malárica envolve sempre um risco de epidemia. Se os migrantes chegam em pequeno número, desempenham atividades profissionais privilegiadas e têm boa alimentação e moradia, os riscos de contraírem malária são menores. A possibilidade de acontecer uma epidemia é maior quando um grande número demigrantes estão engajados em trabalhos de baixa qualificação, têm péssimas condições de moradia e alimentação e contam entre eles com pessoas infectadas pelo Plasmodium de malária. Esta era a situação prevalecente entre os que habitavam as proximidades do campo de Ibura: muitos deles haviam migrado em busca de trabalho e, provavelmente, além de sofrerem de outras doenças, estavam contaminados pelo protozoário da malária. O encontro deste "reservatório de Plasmodium" com os anofelinos da região provocou uma epidemia; primeiramente entre a população civil e, em seguida, entre seus vizinhos militares.8
     Para efetivamente colocar em ação políticas antimalária, era necessário estudar que espécies de anofelinos eram transmissores na região, visto que nenhum estudo neste sentido havia, até então, sido realizado. O responsável por esta pesquisa foi o Serviço Nacional de Malária (SNM), que concluiu serem dois os vetores na região de Recife: o Anopheles oswaldoi e o Anopheles albitarsis. O primeiro, o transmissor predominante, tinha hábitos bastante domésticos, reproduzia-se tanto em águas límpidas quanto salobras e estava presente durante a estação seca; já o vetor secundário, o albitarsis, reproduzia-se apenas em águas límpidas e prevalecia durante a estação chuvosa.
     O primeiro diretor do Sesp, o médico norte-americano George Saunders, havia sugerido ao então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, que o serviço fosse encarregado de combater a malária nas bases militares do Nordeste, particularmente em Recife e Natal.9 Entretanto, pela gravidade que a situação assumiu em Recife, a tarefa foi executada por um conjunto de agências brasileiras e norte-americanas. O SNM e o Sesp encarregaram-se de debelar a epidemia nos vilarejos vizinhos ao campo militar de Ibura. As duas agências realizaram naquela ocasião o que foi descrito como a "maior operação antimalária jamais realizada no estado de Pernambuco", uma operação que envolvia desde drenagem de pântanos e aspersão de óleo em águas estagnadas ao tratamento clínico dos doentes.
     No aeroporto militar propriamente dito e em seu entorno, o programa antimalária foi empreendido pelo Corpo Sanitário do exército norte-americano e pela Panair do Brasil, encarregada de uma gigantesca operação de aterro das terras baixas e pantanosas em volta de Ibura.10 Completando as medidas de controle, o Corpo Sanitário foi responsável por fazer cumprir uma "disciplina antimalária" que envolvia procedimentos que abrangiam desde controle ambiental, como a colocação de telas nas janelas e portas, até procedimentos individuais, como educação sanitária, uso de mosquiteiros, uso de repelentes e toque de recolher ao cair da tarde.

O controle de malária em Natal e o Anopheles gambiae

     O extremo oriental do Nordeste brasileiro foi considerado pelos Aliados como de importância estratégica fundamental na defesa das Américas. Natal, por sua posição geográfica, foi a cidade escolhida para sediar o mais importante aeroporto militar construído pelos norte-americanos em território brasileiro. Josué de Castro (1969, p. 19) afirma que, durante um certo período de tempo, em Natal estava localizado "o maior aeroporto do mundo"; por lá transitavam soldados e equipamentos militares para a África, Ásia e Europa. O número de soldados norte-americanos estacionados em Natal era relativamente pequeno no início de 1942, mas cresceu bastante quando, em novembro daquele ano, o exército dos Estados Unidos estabeleceu na cidade uma agência subsidiária — separada de Recife — de seu quartel-general para o Atlântico Sul.
     Ao contrário do que foi avaliado para Belém, a malária não foi considerada um perigo sanitário sério para as tropas norte-americanas estacionadas em Natal. Dunham (1941, pp. 30, 39) diagnosticou que a disenteria amebiana seria muito mais ameaçadora para as tropas do que a malária. Em contraste com os estados ao sul do Rio Grande de Norte e ao norte do Ceará, ele concluiu que "a incidência de malária em Natal e seus arredores é baixa". Dunham avaliava que o trabalho da Fundação Rockefeller e do Serviço de Malária do Nordeste na erradicação do Anopheles gambiae era responsável pelo baixo índice de incidência de malária no Rio Grande do Norte. E as medidas utilizadas para eliminar o gambiae teriam contribuído para a diminuição da incidência de outros vetores. Além deste fator, Dunham também responsabilizava o clima pelos números modestos da malária. Natal "está localizada numa área de grandes dunas, a região é relativamente seca, e seu clima, em decorrência de ventos marinhos, é comparativamente frio".
     Apesar desta avaliação otimista, a importância militar da cidade não permitia descuidos, e o Sesp enviou um entomologista brasileiro e um engenheiro sanitário norte-americano a Natal. O objetivo dos técnicos era realizar pesquisas e produzir um relatório detalhado sobre as condições sanitárias da cidade e do campo de Parnamirim, onde se localizava o aeroporto militar. Os técnicos encontraram apenas uma área "potencialmente malárica" ao norte da cidade, mas também concluíram que a construção de um sistema de drenagem seria obra simples e eficiente. Nos limites oeste e sudoeste da cidade, eles detectaram ainda outra área potencialmente malárica. Lá, canais de irrigação transformavam-se em nichos potenciais para a reprodução de mosquitos e, num dos povoados da área, dez casos de malária foram registrados em 1941, para uma população de apenas 14 habitantes. Entretanto, o relatório dos técnicos confirmava a constatação do relatório Dunham de que não havia nenhuma ameaça grave na cidade, fato que foi comprovado pelos indicadoresde 1942. Neste ano, nenhum caso de malária foi registrado entre o destacamento de marines acampados em Natal (Silva et al., 1942).
     A pesquisa feita pelo Sesp em Parnamirim concluiu que não havia perigo de uma epidemia em torno do aeroporto, localizado numa região de dunas. Segundo os técnicos, com exceção de duas pequenas lagoas próximas ao campo, que poderiam ser facilmente saneadas com larvicida, a área potencialmente malárica mais próxima estava dois quilômetros a noroeste do campo. Um rio, a quatro quilômetros de Parnamirim, não foi considerado ameaçador para o aeroporto, mas foi avaliado como um perigo potencial para pequenos destacamentos brasileiros acampados entre o rio e o litoral. Curiosamente, apesar dos 24 casos de norte-americanos tratados de malária em Parnamirim entre agosto e outubro de 1942, nenhum caso foi registrado entre os soldados brasileiros. Os médicos norte-americanos concluíram, contudo, que a maior parte dos casos de malária ocorreu entre militares em trânsito por Natal, vindos de Belém. Em dezembro de 1942, não havia nenhum caso de malária entre as tropas estacionadas em Parnamirim, norte-americanas ou brasileiras.
     Uma outra ameaça de epidemia, porém, trouxe ansiedade ao Nordeste e quase transformou-se num incidente diplomático entre o Brasil e os Estados Unidos. O grande movimento de tropas, aviões e navios vindos da África criou uma possibilidade ameaçadora: a reintrodução, no Brasil, do mosquito africano Anopheles gambiae. O gambiae, "o mais eficiente vetor de malária do mundo", é autóctone da África tropical e é um excepcional transmissor da doença "em função de seus hábitos domésticos e de sua preferência por sangue humano" (Soper, 1977, p. 201).
     Em março de 1930, o entomologista norte-americano Raymond C. Shannon, que trabalhava no Brasil para a Fundação Rockefeller, surpreendeu-se ao encontrar alguns exemplares de Anopheles gambiae em Natal. Após exaustivo inquérito, concluiu que a invasão do Brasil por aquele mosquito se fizera através de navios de uma companhia francesa que operava, desde 1928, um serviço de correio entre a Europa e a América do Sul. Navios velozes eram capazes de cruzar o Atlântico sul, de Dakar, no Senegal, até Natal, no Brasil, em três dias.
     As decorrências da presença deste anofelino para a população do Nordeste foram trágicas. Em junho de 1930, uma epidemia de malária irrompeu em Natal; porém, naquela ocasião, apesar da presença do gambiae ter sido denunciada às autoridades, nada se fez para combatê-lo. A Revolução de 1930, conjugada à chegada de uma estação particularmente seca no Rio Grande do Norte, fizeram da presença do gambiae uma questão secundária. Como conseqüência deste desleixo, uma segunda epidemia de malária irrompeu no primeiro semestre de 1931, nas cercanias do porto de Natal. Agudelo (1990) considera que o nível de violência desta epidemia não teve precedentes no Brasil, dado o grande número de pessoas doentes emortas. Nesta ocasião, o governo brasileiro organizou um serviço de combate à epidemia, e o mosquito foi eliminado da cidade. Mas, em junho do mesmo ano, um insólito surto de malária foi registrado a 180 quilômetros a nordeste de Natal. Pesquisas subseqüentes detectaram a presença do Anopheles gambiae em várias partes do Rio Grande do Norte e, em 1937, o gambiae foi identificado no Ceará. A espécie havia-se espalhado pelo Rio Grande do Norte e pelo vale do rio Jaguaribe, no Ceará, uma região ecologicamente mais propícia à sua reprodução.
     Violentas epidemias irromperam no Ceará e no Rio Grande do Norte em 1938 e 1939, provocando mais de 140 mil casos de malária e um número de mortes estimado entre 14 mil a vinte mil. Como Soper apontou, a presença do Anopheles gambiae no Nordeste foi reconhecida pelas autoridades sanitárias como uma ameaça não apenas ao Brasil, mas ao continente americano, inclusive a porção sul dos Estados Unidos. O governo brasileiro contratou a Fundação Rockefeller para administrar um serviço especialmente criado para erradicar o gambiae do Brasil. Dirigido por Fred Soper, o Serviço de Malária do Nordeste (SMN) investiu dois milhões de dólares neste projeto e, no ápice do seu trabalho em abril de 1940, empregava quatro mil pessoas. O último gambiae foi identificado pelo serviço em setembro de 1940, porém a procura do mosquito continuou a ser feita no Ceará e no Rio Grande do Norte por mais 18 meses. A espécie foi erradicada através do esquadrinhamento de todos os seus focos de reprodução, nos quais se espargiu uma substância química chamada verde-paris.
     Em 1942, Natal transformou-se num ponto crucial da rota de ligação entre os continentes, e o gambiae voltou a ameaçar o Brasil. Quando o primeiro avião da Panamerica, decolado na África ocidental, aterrissou em Natal em outubro de 1941, uma fêmea morta da espécie gambiae foi encontrada a bordo pelos funcionários do SMN. Entre outubro de 1941 e junho de 1942, membros do SMN identificaram vários exemplares de gambiae adultos em sete aviões que pousaram em Natal, provenientes da África. O perigo de reinfestação do Brasil era evidente.
     As notícias da ameaça de reinfestação do Nordeste pelo gambiae chegaram ao conhecimento de autoridades militares norte-americanas. Em maio de 1943, o chefe do Serviço de Inteligência norte-americano na Flórida enviou um ofício ao escritório do Departamento de Guerra dos Estados Unidos, no Recife, solicitando informações sobre "rumores" da reintrodução do Anopheles gambiae em Natal. O coronel John Raymond (1943, p.1), comandante da base militar do Recife, consultou o médico-chefe da Força Aérea norte-americana em Natal sobre o assunto, mas este aparentemente não investigou a informação e limitou-se a responder: "não tenho conhecimento de que nenhum exemplar vivo ou morto deste mosquito tenha sido encontrado em Natal".
     A troca de ofícios entre o coronel Raymond, em Recife, e o médico-chefe da Força Aérea, em Natal, mostra que, nos meandros da política antimalárica, existiam preconceitos e desconfianças entre norte-americanos e brasileiros. O médico-chefe da Força Aérea norte-americana em Natal parecia mais preocupado com espionagem de supostos simpatizantes nazistas do que com uma possível epidemia de malária. Em sua resposta ao coronel Raymond, o médico-chefe preocupava-se em informar detalhadamente que uma nova lei brasileira, de fevereiro de 1943, determinava ser o Departamento Nacional de Saúde Pública responsável pela desinfecção de todos os aviões que entrassem no Brasil. Para cumprir esta lei, um "certo dr. Martin", um médico brasileiro daquele departamento, alegando que a desinfecção não estava sendo executada adequadamente, "assumiu a responsabilidade pela desinfecção dos aviões norte-americanos". Porque o dr. Martin mantinha em seu poder uma lista com informações sobre estes aviões, o coronel Raymond informou ao Serviço de Inteligência norte-americano na Flórida que "o dr. Martin é definitivamente pró-nazista" e que havia ordenado o confisco da referida lista. O coronel Raymond (idem, pp. 1-2) concluiu, então, que era bastante provável que o médico brasileiro fosse o responsável pela origem dos rumores sobre a reintrodução do gambiae em Natal, e informou ao Serviço de Inteligência na Flórida que o "simpatizante nazista" havia plantado estes boatos em represália por ter sido proibido de entrar nos aviões norte-americanos.

11 Com os conhecimentos técnicos atuais sobre este mosquito, os entomologistas avaliam que as condições ambientais da Amazônia na realidade não são favoráveis à reprodução do gambiae (Deane, 1994).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12 A sugestão de desinfecção dos navios foi cumprida pela marinha norte-americana, que determinou ainda que, nos portos brasileiros, os comandantes de navios deveriam agir de acordo com as autoridades sanitárias locais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13 A informação de que os brasileiros foram treinados para reconhecer exemplares de gambiae a olho nu é confirmada por Leônidas Deane (op. cit.) que conta, inclusive, que adolescentes locais foram contratados e treinados pelo SMN para identificar o mosquito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     Entretanto, em setembro de 1943, as notícias sobre a presença do Anopheles gambiae no Nordeste tornaram-se um problema político, ameaçando as relações entre o Brasil e os Estados Unidos. Naquele mês, o SNM encontrou cinco gambiae vivos em Natal: dois na base naval brasileira e três outros em casas vizinhas à base. O alarmante nesta notícia estava no fato de que, pela primeira vez, a inspeção sanitária encontrava o mosquito fora de um avião militar. A história de aviões norte-americanos vindos da África ocidental trazendo gambiae vivos para Natal chegou às manchetes de jornais do Rio de Janeiro. As notícias imediatamente repercutiram no Nordeste, onde as lembranças da epidemia de 1938-39 ainda estavam vivas. Em Recife, um longo editorial intitulado ‘O inimigo retornou’ discutia as possibilidades de outra epidemia de malária e alertava as autoridades para um perigo maior: como aviões militares retornando aos Estados Unidos faziam escala em Belém, caso o gambiae fosse levado para a Amazônia seria praticamente impossível destruí-lo.11 Declarações do ministro Capanema e de outras autoridades brasileiras à imprensa do Rio levaram o embaixador norte-americano a intervir. O embaixador Caffery, informando ao presidente Vargas de que averiguaria a questão, imediatamente enviou a Natal o diretor da Fundação Rockefeller no Brasil.
     O relatório preparado pelo médico R. M. Taylor, da Fundação Rockefeller, confirmou que, em 51 vôos realizados da África ocidental a Natal, entre setembro de 1941 e setembro de 1943, 130 exemplares de gambiae foram identificados pelas autoridades sanitárias brasileiras, dos quais 23 mosquitos encontrados vivos. Taylor enfatizou que "é muito difícil observar mosquitos em movimento e, portanto, é provável que o número dos mosquitos vivos chegados à Natal fosse maior do que o registrado". O médico enfatizava que o perigo imediato de reinfestação do país estava nos cinco mosquitos vivos encontrados nas proximidades da base naval, porque "uma única fêmea grávida do gambiae seria suficiente para a reinfestação desta espécie no Brasil". Como os gambiae vivos foram encontrados a 13 quilômetros do aeroporto de Parnamirim, o diretor da Fundação Rockefeller acreditava ser improvável que os mosquitos fossem trazidos de avião, inclusive porque "a desinfecção de aviões realizada pelas autoridades sanitárias brasileiras era meticulosa". Taylor (1943, pp. 1-3) concluiu, então, que os mosquitos vivos encontrados na base naval foram trazidos por navios da marinha norte-americana.
     O diretor da Fundação Rockefeller avaliou que "a gravidade da situação deveria ser levada ao conhecimento do médico-chefe do exército e da marinha norte-americanos". Taylor (idem, p. 3) enfatizou que a ameaça de reintrodução do gambiae no Brasil era um perigo para "toda a América tropical e subtropical, incluindo nossos estados do Sul", e que "todo esforço consistente com a condução da guerra deveria ser feito para evitar a reintrodução do gambiae neste continente". Finalmente, o médico concluiu que a melhor alternativa para evitar a repetição de novos casos seria uma ação sanitária enérgica no teatro de guerra africano, onde todos os navios deveriam ser meticulosamente desinfectados antes de zarparem para o Brasil. O preconceito norte-americano em relação aos brasileiros revelava-se ao final do seu relatório: Taylor afirmava que "pelo menos um militar norte-americano" havia confirmado serem gambiae os mosquitos identificados pelos brasileiros.12
     Quatorze entomologistas reuniram-se no Recife e no Rio de Janeiro, em novembro de 1943, para a Conferência Brasileiro-Americana sobre Anopheles gambiae. Enquanto a conferência acontecia, o governo brasileiro promulgou um novo decreto determinando que técnicos brasileiros seriam responsáveis pela desinfecção de aviões norte-americanos que voassem da África para o Brasil. Este decreto, tal como o de fevereiro, determinando a desinfecção em território nacional, acentuou o conflito entre brasileiros e norte-americanos. O ponto de vista destes era o de que "se os brasileiros tiverem permissão para inspecionar os aviões norte-americanos que decolam da África, irão acabar por pedir autorização para inspecionar aviões que decolam dos Estados Unidos, o quepoderia provocar requerimentos semelhantes de outros países". Um compromisso amainou os ânimos nacionalistas: resolveu-se que o exército norte-americano "convidaria" dois médicos brasileiros — Valério Konder e Mário Magalhães — para, em Dakar e Acra, "auxiliar os oficiais norte-americanos na desinfecção de aviões destinados a Natal e a Fortaleza" (Peterson, 1943, p. 2).
     A imediata ação em Natal do SNM impediu a reinfestação do Nordeste pelo Anopheles gambiae. Uma zona de proteção foi estabelecida em torno da base naval, onde os mosquitos vivos haviam sido encontrados. Esta operação incluiu a fumigação de todas as casas localizadas num raio de vários quilômetros da base e uma sistemática procura por qualquer indício deste anofelino. Apesar da busca não ter acusado nenhum sinal de reprodução do mosquito, o governo brasileiro convidou a Fundação Rockefeller para investigar o caso. De novembro de 1943 a março de 1944, um grupo de 250 técnicos visitou 267 localidades no Rio Grande de Norte, não encontrando nenhuma evidência da presença do anofelino.
     O episódio da ameaça de reinfestação pelo gambiae revela as tensões existentes entre brasileiros e norte-americanos instalados no Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial. Além do conflito que assinala com o médico Martin, em Natal, e da questão da fumigação dos aviões norte-americanos por brasileiros na África, o relatório do observador naval norte-americano em Natal é bastante revelador de tensões. Sua descrição dos fatos conflita com o parecer do diretor da Fundação Rockefeller. Enquanto o relatório Taylor concluía que a possibilidade de reinfestação do Nordeste era real e levantava a suspeita de que os gambiae encontrados vivos chegaram em navios norte-americanos, o observador naval norte-americano afirmou que "a descoberta destes espécimes aqui aparentemente não causou nenhuma preocupação" e sugeriu que "os mosquitos provavelmente haviam sido trazidos da África por avião". Além disso, o observador naval tentou desacreditar os relatórios dos técnicos brasileiros que haviam acusado a presença de vários exemplares do gambiae em aviões norte-americanos, argumentando que "a identificação errada deve-se ao fato de serem os mosquitos examinados a olho nu, o que impossibilitava a correta avaliação. Além disso, contribuía grandemente para o equívoco a inexperiência dos técnicos brasileiros nos métodos de classificação" (U.S. Observer at Natal, 1943, pp. 1-2).
     A opinião do observador naval conflitava também com a avaliação de Soper et al. (1945, p. 77), o médico da Fundação Rockefeller que dirigiu o SMN na campanha de erradicação do Anopheles gambiae entre 1939 e 1942. Soper admitia que, em 1939, ao iniciar seu trabalho no serviço, grande parte dos médicos e técnicos brasileiros não sabia distinguir o gambiae de outras espécies de anofelinos. Entretanto, o treinamento dos brasileiros nos métodos declassificação, "através do exame de milhares de exemplares, preparou os brasileiros para reconhecer este mosquito no campo, quer em larva ou já adultos, a olho nu".13
     A capacidade dos técnicos brasileiros para reconhecer o gambiae é confirmada também, em depoimento ao autor, pelo ex-chefe do laboratório de entomologia do Serviço Nacional de Malária em Natal, dr. Milton Moura Lima. Foi ele quem primeiro identificou os gambiae capturados vivos em Natal, em setembro de 1943. O fato foi em seguida confirmado por dois de seus companheiros, o dr. José de Oliveira Coutinho, professor de parasitologia da Universidade de São Paulo (USP), e o dr. Durval Tavares de Lucena, também professor de parasitologia, da Faculdade de Medicina de Recife. Segundo o dr. Milton Moura Lima, os médicos e técnicos brasileiros estavam plenamente capacitados para identificar não apenas o gambiae, como também os outros tipos de anofelinos presentes na região. Haviam sido bem treinados pelos entomologistas Leonidas Deane e Maria Deane para fazer observações entomológicas e bacteriológicas em laboratório.
     Portanto, comparando as diferentes versões a respeito deste episódio, podemos concluir que, ao expressar sua opinião, o observador naval norte-americano provavelmente estava seguindo a "prática aparentemente utilizada por Washington de considerar norte-americanos medíocres melhor qualificados para trabalharem aqui (no Brasil) do que medíocres ou bem qualificados brasileiros" (Walmsley Jr., 1944). Na medida em que o relatório do observador naval foi divulgado após a publicação do relatório Taylor, pode-se supor que o observador naval estava ciente da suspeita deste médico de que os anofelinos encontrados vivos na base naval foram trazidos por navios norte-americanos. Se isto é verdade, o observador naval provavelmente estava tentando ocultar a responsabilidade da marinha norte-americana com relação à ameaça de reintrodução do Anopheles gambiae no Brasil.

Conclusão

     O episódio da presença norte-americana no Norte e Nordeste do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial e as políticas de controle de malária executadas nas cidades que acolheram as bases militares dos Estados Unidos mostram que, em situações extremas como a guerra, uma doença como a malária deixa de ser ‘apenas’ uma doença de populações pobres para transformar-se em questão de segurança político-militar. O interesse político despertado pela necessidade de controle da malária pode também significar avanços no conhecimento médico-sanitário sobre a doença em questão. Este é o caso dos estudos dos anofelinos da Amazônia e do Nordeste realizados pelo Sesp e pelo SNM, como também da descoberta denovas drogas e técnicas de combate à doença e aos seus vetores, como a atebrina e o DDT. O episódio de Natal mostra também os conflitos entre brasileiros e norte-americanos, provocados por preconceitos, nacionalismos e desconfiança política.

 

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Recebido para publicação em julho de 1998

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