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História, Ciências, Saúde-Manguinhos
versión impresa ISSN 0104-5970
Hist. cienc. saude-Manguinhos v.7 n.1 Rio de Janeiro mar./jun. 2000
doi: 10.1590/S0104-59702000000200004
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A serviço da pátria: a mobilização das enfermeiras no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial Serving the fatherland: the mobilization of Brazilian nurses during World War II
Versão modificada de um capítulo da tese de doutoramento Guerra sem guerra: a mobilização e a constituição do front interno em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial 1939-45, defendida em 1998 no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).
Roney Cytrynowicz Doutor em história social
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| 1 Sobre a história da enfermagem propriamente dita, no Brasil, existe o Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras), fundado em 1993 e vinculado à Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro (conforme nota publicada em Escola Anna Nery Revista Brasileira de Enfermagem, ano I, no de lançamento, jul. 1997, pp. 99-102). 2 De agora em diante, a referência será sempre à FEB, por englobar 67 das 73 enfermeiras, mas ao se ler FEB entenda-se sempre FEB e FAB. O uso de enfermeiras, gênero feminino, e não do plural enfermeiros, como seria mais correto do ponto de vista gramatical, deve-se exclusivamente a um dado empírico: os 73 enfermeiros enviados à Itália eram mulheres e na década de 1930 e 1940 a enfermagem era uma profissão exercida em sua maioria por mulheres. Igualmente, as patentes militares preservam a grafia original no que se refere ao gênero masculino, mesmo quando se trata de enfermeiras. Evidentemente, o dado empírico é resultado de um processo social, ou seja, não existe qualquer associação pretensamente natural entre as habilidades e conhecimentos da enfermagem e a condição de mulher. 3 Referindo-se a Carlos Chagas, Parsons (1997, p. 12) escreveu que "desde o princípio, resolveu só aceitar para a Escola de Enfermeiras alunas com os mais elevados requisitos pessoais, que tivessem diploma de Escola Normal ou uma educação equivalente". No artigo de Parsons (op. cit., p. 23), das quatro diretrizes principais por ela definidas relativas à enfermagem, enquanto setor da Saúde Pública, duas dizem respeito diretamente ao status social, educacional (incluindo a instrução técnica) e profissional das mulheres enfermeiras. O quarto e último item diz textualmente: "os vencimentos dessas enfermeiras devem ser tão elevados quanto o das senhoras em outras profissões elevadas do país". Esta era, ao menos, a intenção e o perfil social desejados. | A constituição de um grupo de 73 enfermeiras brasileiras junto à Força Expedicionária Brasileira (FEB) e à Força Aérea Brasileira (FAB, que contou com seis das 73 enfermeiras), enviadas para a Itália em 1944 durante a Segunda Guerra Mundial, pode ser estudada no contexto das políticas, por parte do governo Getúlio Vargas e do Estado Novo, de mobilização da população civil e da montagem de um front interno, em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.1 |
| A enfermagem, nos anos de guerra, no Rio de Janeiro e em São Paulo, tornou-se importante fator de mobilização das mulheres. Em 1942, Maria Esolina Pinheiro, professora de Serviço Social da Escola da Cruz Vermelha, detalhou um plano para criar um Corpo de Enfermeiras Auxiliares composto de cem mil mulheres treinadas para auxiliar as enfermeiras profissionais, além de um Corpo de Enfermeiras Domésticas, com quinhentas mil mulheres, preparadas para resolver simples casos domésticos, além de um Corpo de Nutrição, um Corpo de Braile (para transcrever livros para cegos) e um Corpo de Motoristas, com 18 mil pessoas preparadas para o transporte de trabalhadores, refugiados e médicos. Mesmo fantasiosos em sua desmesurada pretensão, estes números permitem uma aproximação do lugar que a enfermagem asssumia no discurso mobilizatório da época. | |
| 4 A Cruz Vermelha Brasileira, reportagem de Adalberto Mário Ribeiro (Revista do Serviço Público [de agora em diante: RSP], vol. IV, no 1, out. 1944, pp. 72-4). 5 Existem muitas variações em torno da grafia nome de Ana Néri (Anna Néri, Anna Nery, Ana Néry e outras). Afora títulos e o nome da Escola de Enfermagem Anna Nery, em que foi preservada a grafia original, foi adotada neste artigo a grafia Ana Néri. 6 A Escola Ana Néri (RSP, vol. I, no 1, jan. 1943, p. 78).
7 O que é o Serviço de Assistência à Família do Convocado da LBA (Cultura Política Revista Mensal de Estudos Brasileiros, no 39, abr. 1944, pp. 153-62). | Cursos de enfermagem de guerra, para voluntárias e profissionais, intensificaram-se entre 1942 e 1943. Além do curso de enfermeiras profissionais (com duração de três anos), havia o de samaritanas (duração de um ano) e de voluntárias socorristas (duração de três meses),4 voltados para situações de guerra. O regulamento e o programa dos cursos tinham de ser aprovados pela Diretoria de Saúde do Exército do Ministério da Guerra (Escola da Cruz Vermelha regulamentos e programas, 1941). "Desde 1941, a escola iniciara o primeiro curso de voluntárias com a finalidade de convocar moças da sociedade carioca para aprender a lidar com doentes nos hospitais e, aproveitando o clima de tensão, com a possibilidade de o país enviar tropas para combater na Europa", registrou Cecília Pecego Coelho (1997, p. 193), diretora da escola entre 1975 e 1979. Em 1942 havia 222 alunas matriculadas na Escola Anna Nery,5 no Rio de Janeiro, sendo que 75 (que não eram internas) faziam o "curso de guerra".6 Em 1942, a Cruz Vermelha Brasileira (que se instalara no país desde 1908) ofereceu 44 cursos de enfermagem que formaram cerca de 2.500 voluntárias. O voluntariado destas enfermeiras não profissionais conotava sua disposição de servir à pátria. Provavelmente estas mulheres voluntárias não tinham relação com as tradicionais enfermeiras de caridade, ligadas a ordens religiosas, cujo discurso centrava-se na ajuda ao próximo, mas sem apelo patriótico. Em sua visita ao Rio de Janeiro, em 1942, para celebrar vinte anos da primeira turma de enfermeiras da Escola Anna Nery, a norte-americana Clara Louis Kieninger, primeira diretora da escola (entre 1922 e 1925), colaborou nos cursos de voluntários de guerra na Escola Anna Nery e na Cruz Vermelha, organizando também cursos de defesa passiva e treinando enfermeiras que partiram para a Itália. A primeira turma de voluntárias socorristas que fez o curso de enfermeiras de guerra formou-se em maio de 1943. O curso foi subsidiado pela Caixa Econômica Federal (CEF) do Rio de Janeiro, sob orientação da Escola Anna Nery (Revista da Semana, 22.5.1943, pp. 16-7). Eram moças "pioneiras da enfermagem de guerra em nosso país", conforme a publicação Nação Armada (no 53, abr. 1944, p. 112). Em 1943 havia 334 enfermeiras em serviço ativo diplomadas pela Escola Anna Nery (Dourado, 1950). A mobilização para a guerra não apelava às mulheres apenas como enfermeiras. Cabia à mulher transformar seu amor pelo homem-soldado, que partia para a guerra, em patriotismo, conforme o samba A pátria está chamando, de Grande Otelo, gravado em julho de 1943 por Linda Batista, quando foi aberto o voluntariado para integrar a FEB: "Adeus meu grande amor/Mas há de voltar se Deus quiser/Eu sentirei tua falta/Mas tenho meu valor de mulher/Sei que partirás sorrindo/E eu não ficarei chorando/Mateus meu grande amor/A pátria está te chamando./Na tua mochila já tem/Uma blusa de lã/e cigarros também /Lá em casa são Jorge Guerreiro/Será iluminado o dia inteiro/Todas as noites ao deitar/ Curti meu amor, vou rezar." A música, na combinação de Grande Otelo com Linda Batista, apresenta os elementos femininos mobilizados pelo Estado Novo para a guerra: enfatiza o amor de mulher, mas igualmente os cuidados de mãe (a blusa de lã na mochila), destaca uma certa condição de mulher ciosa dos próprios direitos e deveres cívicos ("tenho meu valor de mulher"), o engajamento patriótico ("eu não ficarei chorando", e o título: "A pátria está chamando"). Em São Paulo, a coragem da mulher no front interno, suportando a separação dos soldados que partiam, era também enaltecida nas descrições de despedidas de soldados que iam para a Itália. Ao noticiar-se a partida dos aviadores do 1º Grupo de Aviões de Caça da FAB, em janeiro de 1944, uma publicação ligada ao exército registrou que "o que, porém, mais edificou a quantos assistiram a partida dos bravos pilotos, foi a serenidade das mães, esposas, noivas e irmãs, que numa demonstração de elevada compreensão de sua missão, souberam conter a saudade que, tão indiscretamente, costuma nesses momentos mergulhar os olhos em densas neblinas para, apenas, mostrar aos que partiram o semblante radiante da alegria que dá o cumprimento do dever, dizendo-lhes, mudamente, com o olhar, que nada pode exceder ao amor da pátria. Foi uma nova página de serena coragem feminina ante as adversidades da guerra, que escreveram, tal qual suas avós de outros tempos, as mães, esposas e noivas dos que partiram para lutar pelo Brasil, em outras latitudes" (Nação Armada, no 51, fev. 1944, pp. 145-6). A mobilização incidia sobre as mulheres das classes médias, sobre trabalhadoras e também sobre as mulheres das elites paulistas e cariocas, que respondiam aos apelos do governo. Várias associações femininas organizaram campanhas e jantares beneficentes para arrecadar fundos e artigos para enviar aos soldados na Itália. Nestes casos, apesar das campanhas no país contra os efeitos danosos do vício do jogo, este era descrito de forma muito positiva, conforme a descrição de um "bridge da elegância" da Casa Anglo-Brasileira: "Todo o mundo elegante de São Paulo estava lá, contribuindo com o seu donativo para o soldado expedicionário ... . E havia doces gostosos, sanduíches, uma porção de balas enfeitadas que as senhoras amáveis da Cruz Vermelha serviam. Nas mesinhas o jogo continuou até as primeiras horas da madrugada, sob o ruído contínuo e característico das fichas, acariciadas por dezenas de mãos bem cuidadas. ... No salão aquecido, obtinha-se um valioso donativo para o Natal do Expedicionário" (Correio Paulistano, 3.12.1944, p. 6). Os jornais noticiavam também o trabalho em oficinas para confeccionar agasalhos e roupas para os soldados da FEB e enviar pijamas de lã e algodão (idem, 8.10.1944, p. 2). Em 14 de outubro de 1944, a Seção de Costuras da Cruz Vermelha, "com a participação de elevado número de damas de nossa melhor sociedade", fez reunião para traçar os planos da Campanha Pró-Soldado Expedicionário. A Legião Brasileira de Assistência (LBA) foi criada em 1944 pelo governo federal para prestar assistência às famílias de soldados convocados para a guerra, o que deu origem ao Serviço de Assistência à Família do Convocado7. Estas descrições mostram como se engendrava e mobilizava um ideal de comunhão social sob a imagem da mãe-pátria, por meio da qual se destacava que tanto mulheres ricas como pobres estavam unidas no trabalho e no cuidado dos filhos enviados à Itália, a mãe-pátria estendendo seu braço protetor ao campo de batalha. |
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As mulheres no serviço ativo nas Forças Armadas As 67 enfermeiras que seguiram com as tropas brasileiras da FEB para a Itália serviram em quatro diferentes hospitais do exército norte-americano. Todas elas se voluntariaram para esta missão e concluíram o curso de Enfermeiras da Reserva do Exército. Foram as primeiras mulheres a ingressar no serviço ativo das Forças Armadas no país. Uma abordagem de estudos de gênero relacionado à história da guerra, especialmente a Primeira Guerra Mundial, já se consolidou tanto na historiografia de guerra (Brown, 1993) como na historiografia de gênero (Higonnet, 1987; Thébaud, s. d.), constituindo atualmente um campo particular de estudos com extensa bibliografia e campo profissional específicos. Para a história das mulheres, a Primeira Guerra Mundial constituiu marco de afirmação dos seus direitos, conquistados ao preencher trabalho e espaços ocupados antes exclusivamente pelos homens, sem, claro, se esquecer a trajetória de luta política iniciada antes da guerra.
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| 8 Em 1898 começaria a funcionar a Escola Livre de Farmácia, que ensinava também os ofícios de dentista e parteira, até que se tornou Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia, em 1900. O curso de obstetrícia funcionou na Maternidade São Paulo até ser extinto em 1911. Em 1912 seria criada a Escola de Parteiras de São Paulo, também na Maternidade São Paulo, tornada em 1931 Escola de Obstetrícia e Enfermagem Especializada e anexada em 1939 à cadeira de clínica obstétrica da Faculdade de Medicina da USP com o nome de Curso de Enfermagem Obstétrica; em 1962 integrou a USP com o nome de Escola de Obstetrícia junto ao Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP; e em 1971 foi integrada à Escola de Enfermagem da USP (Carvalho, 1980, pp. 17-22).
9 A Escola Ana Néri (RSP, vol. I, no 1, jan. 1943, p. 91).
10 A Escola Ana Néri (op. cit., pp. 69, 71). O autor da reportagem, Adalberto Mario Ribeiro, escreve sobre a implantação da escola: "A luta contra os preconceitos foi grande: as moças brasileiras desconheciam a nobreza da nova profissão, que nada tem de servil, e proporciona, além da independência econômica, a satisfação de ser útil e a oportunidade de trabalhar pelo engrandecimento da nossa pátria!"
11 A Escola Ana Néri (op. cit., p. 69). | Estado, escolas e ensino de enfermagem O Estado Novo tornou a profissão de enfermeira uma importante meta nacional e, em conseqüência da guerra, houve intensificação do preparo de enfermeiras profissionais e voluntárias (Paixão, 1951). Em 1938 foi instituído pelo governo federal o Dia do Enfermeiro. Com o Estado Novo e a guerra, acirraram-se também certos conflitos entre as enfermeiras "profissionais" oficialmente reconhecidas pelo governo federal a partir da enfermagem "moderna" ensinada na Escola Anna Nery a Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas, primeira entidade sindical das enfermeiras, fundada em 1926, só aceitava formadas na Escola Anna Nery (Dornelles et alii, 1995) e as enfermeiras consideradas, na época e pela quase totalidade dos registros históricos posteriores, como "amadoras", "tradicionais" ou "práticas", entre as quais as formadas nas quatro escolas já existentes ou que trabalhavam sem um curso formal (como muitas irmãs de caridade). o modelo nightingaliano, implantado no Rio de Janeiro na década de 1920, criado na Inglaterra vitoriana e repassado ao Brasil pelos Estados Unidos, guardava as marcas das organizações militares e das instituições religiosas para mulheres. O modelo de escola de enfermagem trazido pelas enfermeiras americanas tinha como novidade, em relação ao modelo nightingaliano, eminentemente hospitalar, a inspiração do movimento de saúde pública, que após a Primeira Guerra ganhou grande impulso nos Estados Unidos. O deslocamento do centro de interesse nesse novo modelo de enfermeira alterou substancialmente o espaço e o cenário profissionais. Ao invés de circular nas enfermarias com vestidos brancos e o respaldo permanente dos médicos, as enfermeiras de saúde pública transitavam desacompanhadas por toda a cidade, penetrando nos domicílios, com seus uniformes de linho escuro, chapéu de abas largas e maleta de couro, simbolizando com sua presença a autoridade sanitária. |
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12 A Escola Ana Néri (op. cit., p. 75). | A "mãe dos brasileiros" A mobilização criada em torno da enfermagem durante a guerra no país fez com que muitas imagens diferentes fossem produzidas em torno da enfermagem e das enfermeiras. É evidente que a escolha da enfermagem e das enfermeiras como um dos emblemas em torno do qual o Estado Novo constituiu um ideal de mulher e de mobilização das mulheres, intensificada com a guerra, não foi casual (na Revolução de 32, em São Paulo, organizara-se um corpo de enfermeiras, o Batalhão Fernão Salles. A LBA e a Cruz Vermelha haviam sido muito ativas em 1932, ministrando cursos rápidos de enfermagem. Em 1932 um total de 72 mil mulheres trabalhou como voluntárias em oficinas de costura. A fonte da informação sobre o número de mulheres não é citada, mas, para além do tom de exaltação paulista do autor, importa o vetor de grandeza, a idéia de que muitas mulheres participaram) (Donato, 1982, pp. 194, 195). colaboradora do médico, mobilizada na disciplina dum dever mais alto e mais sagrado o dever de servir , a enfermeira forma esta admirável retaguarda de amparo e salvação, doçura única entrevista na dureza implacável da guerra. Anima-a, como deve animar a todos nós, este espírito de altruísmo desinteressado, exaltando até o supremo holocausto da própria vida, se for preciso, a capacidade de dar o máximo de seu esforço pessoal em prol da coletividade sofredora. Espírito de sacrifício, sem o qual nada de proveitoso se pode fazer; força de ânimo enfrentando serenamente dores, rudes tarefas e privações, neste despojamento voluntário do comodismo egoísta e da tibiez hesitante, o único que desperta o heroísmo e é capaz de levar à vitória. O papel da enfermeira resume-se todo na corajosa aceitação, aplicação inteligente deste espírito de sacrifício. Adquiriu, aliás, nos tempos modernos, capital magnitude, porquanto não é só à cabeceira de doentes e feridos que a sua presença é requerida. Em serviços de assistência, cantinal, evacuação de cidades, alertas de bombardeios, transportes, em tudo e por tudo a cooperação da enfermeira e da assistente é solicitada ... . O Brasil, dum minuto para outro, pode reclamar o auxílio de suas filhas. Urge prepará-las. As democracias ameaçadas cerram fileiras em torno dum mesmo ideal de liberdade a defender e a preservar. É pela enfermagem e pela assistência que a mulher melhor pode pagar à pátria em vigília o tributo dos seus serviços, do seu amor e da sua abnegação.12 "Divina missão", eis como era definida a missão da enfermeira/mulher integrada à FEB. A capitão-enfermeira Olímpia de Araújo Camerino (1983, p. 31), que foi chefe do grupo de enfermeiras brasileiras na Itália, escreveu que a participação na guerra é um "altar". Foram as enfermeiras da FEB que se encarregaram da cerimônia de batismo de um soldado da FEB que não era batizado, antes da partida para a Itália. Um anúncio de 1943 da Labofarma, indústria de medicamentos para cirurgia e medicamentos de guerra, acentuava precisamente esta imagem de divindade e beatitude da enfermeira, ao apresentar um soldado ferido sendo transportado em uma maca e, atrás, solta no céu, como um anjo, a imagem de uma enfermeira que acompanha o soldado ferido (Nação Armada, no 40, mar. 1943, p. 149). "Sabíamos que a batalha em França seguia o bom caminho quando nos encontramos em mãos de enfermeiras inglesas", comentou um soldado francês ferido na batalha da Normandia, ao desembarcar na Inglaterra, segundo reportagem do Correio Paulistano publicada em 8 de agosto de 1944, a exemplo de tantas outras reportagens semelhantes traduzidas pela imprensa na época. O soldado referia-se a "um medicamento verdadeiramente milagroso": as palavras amáveis e os sorrisos que as jovens enfermeiras inglesas dirigiam aos combalidos franceses. Neste caso, contava mais, conforme o correspondente de guerra, o "efeito psicológico" da amável e sorridente presença feminina. As "enfermeiras voadoras" estavam equipadas inclusive com pára-quedas, dado descrito para enfatizar seu preparo militar. |
| Em junho de 1944, Nação Armada (no 55, p. 86) noticiou uma homenagem às enfermeiras da FEB, "valorosas moças que deixaram tudo afetos, família, relações, prazeres e divertimentos , para irem realizar, sob o fogo e a metralha, a divina missão da mulher: a caridade"; "nunca terá sido a mulher mais feminina e, ao mesmo tempo, mais desassombrada e útil aos seus semelhantes, do que ao envergar o branco uniforme de heroína passiva de todos os combates deste conflito. Jamais se pediu tanto de estoicismo e de dedicação constantes a seres tão belos, de moral tão elevada!" (Nação Armada, no 68, jul. 1945, p. 122). Era, portanto, entre um ideal de servir à pátria, servir ao próximo, uma concepção da profissão como sacerdócio divino e, ainda, como extensão do papel de mãe e uma idéia sobre o lugar (subordinado ao homem, ao médico) de mulher, que se definiam valores e ideais da enfermagem, tanto no discurso oficial como na própria auto-imagem da profissão. É evidente que esta imagem, por fora e por dentro, tinha fissuras e a própria possibilidade de as mulheres conquistarem um lugar junto à FEB e ter uma profissão respeitada tornava este processo muito mais complexo e ambíguo, com conseqüências sobre o processo de conquista de direitos e espaços na sociedade por parte das mesmas. A questão não é definir uma linha resultante única, mas apontar os parâmetros em torno dos quais se pode analisar este processo. A imagem da mãe-pátria, peça-chave na criação do front interno, tinha em Ana Néri sua personagem mitológica fundadora. Na campanha para doar aviões para constituir uma Força Aérea Brasileira (FAB), um dos aviões foi batizado com o nome de Anna Nery (Coelho, 1997, p. 193). Ana Justina Ferreira Néri (1814-80) partiu em 1865 para a guerra do Paraguai, com autorização especial do imperador, para acompanhar os filhos e cuidar dos feridos no campo de batalha. Ela serviu por cinco anos e logo passou a ser chamada de Mãe dos Brasileiros. Outra enfermeira que teria se destacado na guerra do Paraguai, quase nunca referida, foi Felisbina Rosa da Anunciação Fernandes Silva, de São Paulo (Santos Filho, 1991, p. 429). A figura da enfermeira curando os feridos no campo de batalha e aplicando remédios milagrosos fixa, de certa forma, uma imagem de guerra anterior à Primeira Guerra Mundial, à matança industrializada de soldados e de civis. Nada mais significativo neste sentido o da imagem da mãe-pátria como também aliviadora dos sofrimentos do que a permanente exaltação, naqueles anos, da figura legendária de Ana Néri, considerada a fundadora da profissão de enfermeira no Brasil. A figura mitológica de Ana Néri é a mais invocada quando se celebra a partida das enfermeiras, como neste trecho do general-de-divisão Carlos de Meira Mattos, prefácio ao livro da capitão-enfermeira Olímpia de Araújo Camerino, para quem a "nossa enfermeira militar, 75 anos após a guerra do Paraguai, reviveu em todo o esplendor e beleza a figura heróica de Ana Néri" (Camerino, 1983, p. 27). A história de Ana Néri, invocada como heroína brasileira (ao lado de Joana Angélica, Maria Quitéria, Rosa da Fonseca, Anita Garibaldi, Bárbara Heliodora e Soror Angélica), também era contada para as crianças, durante a guerra, por uma escritora de livros infantis: "Ana Néri era uma senhora de alta linhagem e finíssima educação; muito moça ainda ficou viúva com dois filhinhos; eles cresceram. Em 1864 irrompeu a guerra do Paraguai e todos os moços do Brasil foram chamados para defender a pátria. Os filhos, irmãos e sobrinhos da ilustre dama apresentaram-se logo como voluntários; ela, não podendo suportar a separação e movida também pelo desejo de ser útil ao Brasil, dirigiu um ofício ao presidente da província pedindo-lhe licença para acompanhar os filhos, na qualidade de enfermeira." Este relato é de uma escritora de livros infantis, Margarida de Monfort Ivancko, em texto publicado em A voz da infância, jornal da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, de São Paulo, em maio de 1942. O texto foi escrito logo após a Semana da Enfermeira e por ocasião do dia 20 de maio, dia do aniversário da morte de Ana Néri. Contado como um conto de fada ou de princesa para crianças, este relato aproxima, em parte, Ana Néri de Florence Nightingale. Referindo-se à história de Florence Nightingale, a primeira enfermeira da história "oficial" da enfermagem, a Revista do Serviço Público publicou em 1943 (pp. 65-94) uma extensa reportagem: "como ficaríamos contentes se todas as moças do Brasil a conhecessem! Se a tivessem bem viva na lembrança como têm aquelas outras histórias ouvidas na infância de príncipes encantados e tímidas princesas sonhadoras, fechadas em castelos misteriosos ..." As características e imagens da enfermagem mobilizadas durante a guerra, portanto, integravam um imaginário que acompanhava as enfermeiras desde a década de 1920 e este imaginário estava ligado às aspirações de ascensão social e de status das classes médias urbanas, o que se acentuaria na década de 1930 e se tornaria uma política deliberada do governo a partir do Estado Novo, em 1937, atingindo seu máximo enquanto mobilização em 1943 e 1944. Enquanto após a Primeira Guerra Mundial na Europa e nos Estados Unidos dera-se um refluxo no que se refere aos novos papéis da mulher, após 1945 estes papéis vão se consolidar e em poucos anos, na década de 1960, novas e profundas transformações se dariam nas relações de gênero. No Brasil, em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, nas quais a mulher classe média estava ainda muito limitada em suas possibilidades profissionais e sociais, a guerra pode ser considerada um marco de afirmação de direitos, sendo que o refluxo conservador pós-guerra pode ter sido menos significativo no Brasil, pois, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, aqui não houve substituição efetiva e em larga escala no trabalho de homens por mulheres, ao menos não nos estratos médios. Dessa forma, as mudanças operadas na década de 1940 tiveram um impacto mais pontual, porém mais contínuo, pois tratava-se de uma fração das classes médias que se beneficiaria, também, com a intensa urbanização, industrialização e novas funções no Estado que se consolidaria na década de 1940. A mobilização da enfermagem e das enfermeiras pode ser considerada um marco institucional na trajetória de consolidação da enfermagem enquanto carreira profissional enquadrada pelo Estado e, igualmente, como parte de um processo mais amplo de emancipação das mulheres de classe média que se profissionalizaram no Rio de Janeiro e em São Paulo. As enfermeiras operavam rupturas no discurso tradicionalista e paternalista, que afirmava o lugar da mulher no lar e como procriadora, mas ao mesmo tempo serviam dentro da moldura da metáfora da mãe-pátria e envoltas em um discurso sobre a suposta vocação natural da mulher para a profissão. Com o sugestivo título de As enfermeiras cumpriram o seu dever, ao fazer um balanço da participação brasileira na guerra, Nação Armada, de julho 1945 (no 68, p. 121), escreveu que, embora | |
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Agradeço a leitura, os comentários e especialmente as críticas de Ana Maria Malik, Flávio A. M. de Saes, Jeffrey H. Lesser, Monica Musatti Cytrynowicz, Regina Igel, Sonia Nussensweig Hotimsky e Tullo Vigevani. A Marcos Chor Maio, pelo generoso incentivo a escrever. |
produto remanescente das conquistas e do espírito do século XIX ... com o drama internacional e as conseqüências que evidentemente apressou para uma sociedade demasiado saudosista dos esplendores da véspera, não mais se trata de discutir a participação crescente da mulher nas lides antes reservadas ao homem. Sua inteligência e seu trabalho já não constituem um caso à parte, que mereça uma classificação especial, o atributo de um slogan. O fato entra naturalmente no rol dos acontecimentos quotidianos, perdendo seu ar isolado de novidade. ... Seu heroísmo, sua capacidade de ação passam a ser tão habituais que não mais provocam espanto ou considerações. Durante o Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial, as enfermeiras foram mobilizadas e responderam ocupando um lugar importante na constituição da política na qual servir ao outro foi associado a servir à pátria em uma política que permitiu consolidar o front interno e impor um regime de mobilização e subordinação da sociedade ao Estado Novo, fazendo convergir políticas de saúde e saneamento com políticas de militarização e enquadramento forçado da população. A eclosão da Segunda Guerra Mundial e o envio de um grupo de enfermeiras junto à FEB e FAB foi um momento importante nesta ação. |
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Recebido para publicação em abril de 1999.
Aprovado para publicação em junho de 1999.












