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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.7 no.2 Rio de Janeiro July/Oct. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702000000300019 

 

 

 

 

 

A voz dos cientistas críticos

The critical scientists’ voice

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Flavio Lewgoy

Departamento de Genética Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS)
Rua Santa Cecília, 1427/202
Bairro Santa Cecília
90420-041 Porto Alegre — RS Brasil
axlewgoy@terra.com.br

 

LEWGOY, F.: ‘A voz dos cientistas críticos’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VII(2), 503-08, jul. out. 2000.

A polêmica sobre os organismos geneticamente modificados (OGMs) é complexa, envolvendo poderosos interesses econômicos, bem como aspectos éticos, legais, emocionais e científicos. Os últimos são abordados neste artigo.
Os cientistas do grupo ‘triunfalista’ afirmam que os OGMs e produtos derivados são seguros para o meio ambiente e não oferecem maiores riscos à saúde que os similares não modificados geneticamente. Isto é contestado pelos cientistas ‘críticos’, motivados pela escassez de estudos sobre impactos ambientais e toxicidade dos OGMs, e que apontam falhas em testes efetuados pelas empresas donas das patentes dos transgênicos. Questionam, ainda, o estado atual do processo de transgenia, pouco preciso, o que, aliado ao desconhecimento das funções de 97% do genoma, pode acarretar efeitos imprevistos, com riscos ainda não avaliados sobre o meio ambiente e a saúde pública, por exemplo, a transferência de genes alienígenas para outras espécies, o surgimento de toxinas, a criação de novos vírus, o impacto sobre insetos benéficos e a biodiversidade, em geral. Já há exemplos desses efeitos.

PALAVRAS-CHAVE: transgênicos, OGMs, engenharia genética, riscos de OGMs, biotecnologia, plantas transgênicas.

 

LEWGOY, F.: ‘The critical scientists’ voyce’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VII(2), 503-08, July-Oct. 2000.

The intricate debate over genetically modified organisms (GMOs) involves powerful economic interests, as well as ethical, legal, emotional and scientific aspects, some of which are dealt with in this paper.
(It is possible to identify two main groups of scientists across the GMOs divide: the triumphalist and the critical group.) Scientists in the triumphalist group state that GMOs and their derivatives are safe for the environment and do not offer health hazards any more than similar, non-genetically modified, products. This view is disputed by the critical scientists, who are prompted by the scarcity of studies on the environmental impacts and toxicity of GMOs, and who point out flaws in tests performed by the same companies which hold the patents. They are also critical of the current state of the process of gene transference, lacking accuracy, a fact which, coupled with the scant knowledge available about 97% of the genome functions, may produce unforeseeable effects with risks for the environment and public health yet to be assessed. Examples of such effects are: the transference of alien genes [??] to other species, the emergence of toxins, the creation of new viruses, the impacts on beneficial insects and on biodiversity in general.

KEYWORDS: transgenics, GMOs, genetic engineering, GMOs hazards, biotechnology, transgenic plants.

 

1 Tal artigo motivou entrevista cedida a Isabel Gerhardt, ‘O falso lixo da célula’, (Folha de S. Paulo, 30. 7. 2000, pp. 26-7, Caderno ‘Mais’). Nessa versão da grande imprensa, Carrel torna mais claros alguns pontos de difícil compreensão para o público leigo no artigo original.

     É complexa a polêmica sobre os transgênicos, ou organismos geneticamente modificados. Envolve uma intricada mistura de interesses econômicos poderosos, aspectos éticos, legais e emocionais e, por último — mas não menos importante —, uma acirrada controvérsia científica que será a tônica deste artigo.
     Há cientistas que defendem que a liberação para fins agrícolas e medicinais, em grande escala, de organismos geneticamente modificados e de seus produtos envolve riscos ambientais e de saúde. São o grupo ‘crítico’, ou preocupado, em oposição à maioria ‘triunfalista’.
     De acordo com representantes do segundo grupo, os organismos geneticamente modificados apresentam riscos equivalentes — ou menores — aos dos cultivos e produtos tradicionais, obtidos por técnicas clássicas de melhoramento, que vêm sendo usadas pela humanidade desde a invenção da agricultura, há cerca de dez mil anos. Tais técnicas tiveram seu ápice há cerca de cem anos, com o emprego da genética mendeliana e, depois, com técnicas de laboratório, como a produção de mutantes por radiação ionizante e por processos químicos, para se obterem variedades agrícolas de qualidade superior. Esses são os métodos convencionais. A chamada engenharia genética é vista como uma evolução deles, permitindo acrescentar genes de qualquer origem ao genoma do organismo-alvo, transmitindo-lhe assim as mesmas características que eles conferiam à espécie doadora (resistência a herbicidas, produção de toxina nociva a determinadas pragas, resistência ao congelamento, crescimento acelerado etc.).
     Quanto aos riscos que os procedimentos de alteração genética poderiam acarretar à saúde e ao ambiente, os representantes do grupo triunfalista alegam que as variedades transgênicas são avaliadas com muito mais rigor que as convencionais, exatamente por constituírem uma inovação tecnológica. Afirmam que milhões de pessoas consomem os produtos transgênicos já há vários anos sem, segundo eles, apresentarem problemas de saúde relacionados a esse consumo. Acreditam ainda que o plantio de organismos geneticamente modificados resistentes a herbicidas, como a soja RR, e a insetos pragas, como o milho Bt, melhora o rendimento da agricultura e reduz o uso de agrotóxicos.
     Muitas dessas afirmativas são inconsistentes ou, pelo menos, discutíveis.

O conhecimento do genoma ainda é muito limitado

     O genoma (o total dos genes de um organismo) é um conjunto complexo de códigos moleculares, que interagem consigo mesmos e com o ambiente externo, segundo uma harmonia desenvolvida ao longo de bilhões de anos. O genoma não é estático: tem grande capacidade adaptativa, o que lhe permite responder a alterações ambientais.
     Nosso conhecimento do genoma é muito limitado. Por exemplo, no genoma humano — cuja seqüência de bases, ou ‘letras’ do código genético, foi recentemente decifrada —, somente cerca de 3% do total codificam proteínas. Os outros 97% eram conhecidos, até há pouco tempo, como "junk DNA" ("DNA lixo"). Essa visão está mudando (Carrel et al. 2000).1 É provável que esse DNA tenha funções reguladoras importantes. O "junk DNA" está disperso, intercalado entre os genes. Ele tanto pode aumentar a freqüência com que um gene é ativado como reprimir sua atividade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Palestra em seminário sobre transgênicos, organizado pela Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, em 2. 6. 1999.

A inserção de exogenes é um processo ao acaso

     Uma das técnicas mais utilizadas para inserir, em vegetais, os exogenes (as construções de seqüências de DNA que contêm o gene a ser expresso pelo organismo receptor) é a biobalística, o disparo de microesferas metálicas revestidas com os exogenes contra os núcleos de fragmentos de tecido. É um processo aleatório e de pouca eficiência, em que não se consegue controlar o ponto (ou pontos) de inserção do exogene. Tal processo pode interferir em outras funções gênicas, de maior ou menor importância, ocasionando o aparecimento de toxinas ou tendo outros efeitos inesperados. Além disso, fragmentos de DNA que não pertencem ao exogene também já foram detectados na soja RR, o que é uma complicação adicional (Meikle, 2000).

Exogenes são colagens de DNAs de diferentes origens

     Para funcionar, o gene de interesse deve ser associado a um trecho de DNA, chamado promotor. Nesse processo, outros fragmentos de diferentes origens são colados na construção, formando seqüências artificiais que não são encontradas na natureza. Um dos promotores mais usados é extraído de um vírus da couve-flor, o CMV, instável no genoma da planta transgênica, que pode causar o fenômeno do "silenciamento gênico" — ou seja, o bloqueio da produção de proteínas — e originar substâncias tóxicas e alergênios inexistentes na espécie original. Tem, ainda, o potencial de criar novos vírus por recombinação (troca) de material genético (Kohli et al., 1999).

O processo de registro original de transgênicos sofreu fortes críticas

     Ao contrário do que se alega, não foram rigorosos os processos de avaliação dos dados apresentados, para fins de registro de diversos transgênicos. Por exemplo, a bioquímica Glaci Zancan, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), atual presidente da SBPC, mostrou graves falhas nos testes de toxicidade apresentados pela empresa Monsanto à CTNBio — aliás, os mesmos feitos nos Estados Unidos — para tentar obter a liberação da sua soja RR.2
     Outro depoimento mostra que os riscos de toxicidade e alergias não foram adequadamente avaliados. Ele foi dado por E. Ann Clark (2000), da Universidade de Guelf (Canadá), que analisou os testes de toxicidade e alergênios aceitos pela Health Canada, órgão governamental, para licenciar linhagens geneticamente modificadas de soja, milho e batata.

Dois exemplos de falha americana

     Em 1989, a Food and Drug Administration (FDA) aprovou, como suplemento alimentar, a venda do aminoácido triptofano, obtido de uma bactéria transgênica pela empresa Showa Denko. Ao que tudo indica, o produto continha impurezas altamente tóxicas, provenientes do processo de transgenia, que ocasionaram a morte de 37 pessoas e doença grave em outras 1.500 infectadas, com uma nova patologia chamada eosinophilia myalgia magna. O produto foi retirado do mercado e a epidemia cessou (Gleich).
     Outro exemplo de ‘deslize’ dado pelo FDA é o hormônio rBGH (hormônio bovino de crescimento recombinante), da Monsanto, que foi licenciado por essa agência de controle norte-americana em 1994, para aumentar o rendimento da produção de leite. Supostamente idêntico ao hormônio natural, a injeção de rBGH provocou graves infecções nos animais e aumentou, no leite, o teor de uma substância denominada IGF, que eleva o risco de câncer mamário. A Europa e o Canadá vedaram o uso do produto (Juskevitch et al., 1990).
     Então por que não foram constatados casos de efeitos adversos à saúde nos países onde se consomem há anos alimentos geneticamente modificados? Esta é uma pergunta — ou afirmativa — feita incessan-temente por defensores dos transgênicos. Para rebatê-la, devemos lembrar, em primeiro lugar, que o consumo em massa desses produtos tem apenas cinco anos, tempo insuficiente para os efeitos se manifestarem.
     A melhor resposta, porém, foi dada por Ben Miflin, um cientista britânico que acredita nas vantagens dos grãos geneticamente modificados, ex-diretor do Instituto de Cultivos Agrícolas de Rothamsted. Ele afirma que, nas presentes condições de monitoramento, quaisquer efeitos não antecipados, nocivos à saúde, só seriam detectáveis se produzissem "um desastre monumental". Ele menciona que um acréscimo geral em desordens gastrointestinais, por exemplo, dificilmente poderia ser atribuído a um alimento em particular, dadas as diversas origens possíveis de tais sintomas (Abbott et al., 1999).
     Vale lembrar que os alimentos geneticamente modificados não são rotulados nos Estados Unidos e na Argentina. As empresas temem que, com rótulos explícitos, os consumidores poderiam evitar tais alimentos, a exemplo do que ocorre na Europa, onde a rejeição a eles é muito grande.
     Destacamos uma declaração impactante de um eminente cientista crítico que acompanhou, desde a origem, o debate sobre transgênicos. Trata-se de Phil Regal (1999) da Universidade de Minnesota (EUA), autor de importantes artigos científicos sobre a regulamentação e os riscos dos organismos geneticamente modificados: "Se os invólucros de alimentos geneticamente modificados forem rotulados, as pessoas podem decidir por si mesmas se desejam se arriscar comendo, ou dando a outros para comer, uma fruta, um vegetal ou outro alimento contendo genes que podem penetrar nas suas células, provocar mutação no DNA, causar câncer ou danos em células do sistema reprodutor e deformidades em futuros filhos."

Riscos ambientais dos organismos geneticamente modificados

     Não é mais objeto de polêmica que, por meio do pólen, genes de plantas geneticamente modificadas passam para similares não modificadas. Pode haver transferência de genes por cruzamento normal em qualquer área que associe plantio de variedades modificadas com não modificadas, ou com espécies selvagens aparentadas ou ancestrais.
     O surgimento de efeitos não previstos pela inserção de exogenes foi demonstrado de forma cabal em um dos produtos de plantio mais extenso, o milho Bt da Monsanto, cujo licenciamento está sendo requerido no Brasil. Tal milho é produzido da seguinte forma: observou-se que a bactéria B. thuringiensis produz uma toxina nociva para pragas. Sabendo disso, há três décadas os agricultores borrifam plantações de milho com uma suspensão aquosa da bactéria. Para produzir a planta transgênica, inseriu-se no genoma do milho (também existe o algodão Bt) uma parte do gene da bactéria B. thuringiensis que produz a toxina, tornando o vegetal resistente a pragas.
     A diferença é que, pelos métodos tradicionais, as suspensões de bactéria são degradadas rapidamente pela natureza. No caso desse milho transgênico, a toxina Bt é secretada continuamente pelas raízes e liberada no solo. Ali, a proteína liga-se rapidamente à argila, ficando ativa e protegida da biodegradação por tempo ainda não determinado.
     Desconhecem-se os efeitos desse fenômeno sobre insetos benéficos e outros organismos que vivem nos solos (Saxena, 1999). Para não alongar o artigo, não trataremos de diversos outros efeitos já detectados, como o surgimento de resistência a pragas e a passagem de DNA de exogenes para vírus e bactérias do solo.

Os cientistas críticos são contra a biotecnologia?

     Muitos cientistas que expressam preocupação sobre os efeitos da difusão e do consumo em massa dos atuais produtos transgênicos são pesquisadores ativos em DNA recombinante (transgenia). Não são, obviamente, detratores da própria área profissional em que atuam, mas críticos do atual "estado da arte" da biotecnologia, que consideram ainda cru. Por isso, defendem maiores salvaguardas no licenciamento de organismos geneticamente modificados, até mesmo com a criação de novos testes que permitam detectar efeitos nocivos à saúde e ao meio ambiente.
     Tais cientistas acreditam que, no devido tempo, amparada por pesquisas básicas já em andamento, e quando e onde se fizerem necessárias, surgirá uma nova geração de organismos geneticamente modificados, que não trará servidão aos agricultores nem riscos desconhecidos à saúde e ao meio ambiente. Essa nova geração de organismos deve ser desenvolvida em instituições públicas, e não em empresas transnacionais.
     Quanto aos atuais transgênicos, qualquer registro deve ser submetido a requisitos que já existem na legislação brasileira, como relatório de impacto ambiental e/ou análise de risco para detectar efeitos indesejáveis, como a poluição genética, a erosão da biodiversidade e a exposição de espécies a novos patógenos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Abbott, A. et al. (1999) ‘Long-term effects of GM crops serves up food for thought’. Nature, 398, pp. 651-6.         [ Links ]

Carrel, L. et al. (2000) ‘Molecular evidence for a relationship between LINE-1 elements and X chromosome inactivation’. Proc. Natl. Acad. Sci.USA., 97: 12, pp. 6634-9.        [ Links ]

Clark, E. A. (2000) ‘Food safety of GM crops in Canada: toxicity and allergenicity’. Genetic Engineering Alert. www.canadians.org/ge.alert         [ Links ]

Gleich, G. J. ‘Current status of research on the eosinophilia – myalgia syndrome’, http://216.247.115.236/nemsn/gleich.html        [ Links ]

Kohli, E. et al. (1999) ‘Molecular characterization of a transforming plasmid rearrangement in transgenic rice reveals a recombination hotspot in the CaMV oromoter and confirms the predominance of microhomology mediated recombination’. The Plant. Journal, 17:6, pp. 591-601.         [ Links ]

Juskevitch, J. C. e Guyer, C. G. (1990) ‘Bovine growth hormone: human food safety evaluation’. Science, 249, pp. 875-84.         [ Links ]

Meikle, J. (31. 5. 2000) ‘Soya gene find fuels doubts on GM crops’. Guardian.        [ Links ]

Regal, P. J. (1999) ‘Are genetically engineered foods safe? A scientist’s quest for biosafety’. Citação autorizada pelo autor, em http//biosci.umn.edu/~pregal/phil.html        [ Links ]

Saxena, D. et al. (1999) ‘Toxin exudates from Bt corn roots’. Nature, 402, p. 480.        [ Links ]

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