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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos v.6 n.3 Rio de Janeiro nov. 1999/fev. 2000

https://doi.org/10.1590/S0104-59702000000400002 

Antropologia da doença e do doente: percepções e estratégias de vida dos tuberculosos*

 

The anthropology of disease and of the diseased: perceptions and life strategies adopted by tuberculosis patients

 

 

 

*Este artigo baseia-se em parte da pesquisa intitulada História social da tuberculose e do tuberculoso: 1900-50 (tese de doutoramento, São Paulo, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2 vols., 1993). Uma versão preliminar deste texto foi apresentada no V Congresso Latino-Americano de História das Ciências e da Tecnologia, realizado no Rio de Janeiro, no inverno de 1998.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Claudio Bertolli Filho

Professor de antropologia no Departamento de Ciências Humanas da FAAC da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru
Rua Cubatão, 1013/24
04013-043 São Paulo — SP Brasil
bertolli@uol.com.br

 

BERTOLLI FILHO, C.: ‘Antropologia da doença e do doente: percepções e estratégias de vida dos tuberculosos’.
História, Ciências, Saúde — Manguinhos, VI (3): 493-522, nov. 1999-fev. 2000.

Este artigo busca analisar a reação individual dos tuberculosos exilados nas cidades-sanatórios paulistas frente às representações sociais que lhes eram imputadas, inclusive pelo agrupamento médico. Como material de estudo utilizou-se escritos memorialísticos que, avaliados na perspectiva da antropologia da doença e do doente, permitem estabelecer a rede de significados elaborados pela comunidade dos enfermos.

PALAVRAS-CHAVE: tuberculose, cultura, literatura, subjetividade, representação social.

 

BERTOLLI FILHO, C.: ‘The anthropology of disease and of the diseased: perceptions and life strategies adopted by tuberculosis patients’.
História, Ciências, Saúde — Manguinhos, VI (3): 493-522, Nov. 1999-Feb. 2000.

The article examines how tuberculosis patients who were exiled to sanitarium-cities in the state of São Paulo reacted to the social representations assigned to them not only by the public at large but by medical workers as well. By evaluating memoirs and related documents from the perspective of the anthropology of disease and the diseased, it was possible to identify the network of signifieds created by the afflicted community.

KEYWORDS: tuberculosis, culture, literature, subjectivity, social representation.

 

"Fraco do pulmão! Tombar essa palavra numa casa era tombar o raio. Fraco do pulmão! Compreendi, num relance, o que significava os olhos vermelhos de minha mãe e a comiseração dolorida dos meus irmãos. Fraco do pulmão... ... Fraco do pulmão? Ah, quem poderia jamais escapar à desgraça?" (Setubal, 1949, p. 105).

    Foi com estas palavras de espanto e desalento que Paulo Setubal relatou o instante da descoberta familiar da tísica que o mataria um ano após registrar em diário o primeiro encontro com a tuberculose. Espanto e desalento que eram suscitados não apenas pela enfermidade que corrompia o corpo, mas também, e sobretudo, pela carga simbólica que a tuberculose impunha às suas vítimas e às pessoas que lhes eram próximas. Assim, a morte física prometida pela doença tinha como etapa anterior a exclusão social que, nas confidências pessoais, era declarada como muito mais sombria e dolorida que os padecimentos físicos produzidos pela infecção.
    Postando-se no campo da antropologia, este artigo tem como objetivo focar a experiência de vidas marcadas pelo que eufemisticamente os próprios doentes em coro denominavam por "mal-dos-peitos", no período anterior ao advento de um quimioterápico específico, obtido em meados da década de 1940. A literatura e seus desdobramentos apresentam-se como possibilidades de reflexão das existências contaminadas pelo bacilo de Koch e pela estigmatização social, permitindo, segundo a proposta de François Laplantine (1986), a abertura de uma nova fonte de estudo no campo da antropologia da doença e do doente. O empenho em romper o silêncio exigido pela clínica e cobrado pela sociedade abrangente instigava os tuberculosos a recorrerem à produção de diários, poesias, contos e romances como forma de expressão de suas angústias, do entendimento do processo patológico e do novo cotidiano imposto pela enfermidade, tecendo estratégias que, se não anulassem, pelo menos amenizassem os estigmas que lhes eram impingidos. Apesar da heterogeneidade dos textos, em conjunto configuram-se como peças autobiográficas (Gusdorf, 1991), sendo também avaliados como expressões nacionais de uma "literatura tuberculosa", termo que foi cunhado pelo estaticista Tulo Hostílio Montenegro, ele mesmo assíduo freqüentador das estações de cura, pois temeroso de ser uma das possíveis vítimas do bacilo de Koch, já que sua mãe e dois de seus irmãos tinham sido mortos pela tísica (Montenegro, 1971).
     Acrescente-se que houve a opção pela análise da produção escrita dos tísicos que viveram momentos cruciais de suas existências nas duas cidades-sanatórios paulistas, que escamoteavam esta condição sob o rótulo administrativo de "estâncias climáticas". A mais importante delas foi Campos do Jordão que, localizada na serra da Mantiqueira, desde o final do século XIX concentrava muitas das esperanças dos tuberculosos brasileiros. A outra opção era São José dos Campos, município vale-paraibano que era recomendado àqueles que não contassem com pecúlio suficiente para se sustentar na vizinha Campos do Jordão. Em conseqüência, excluiu-se deste texto as informações prestadas por doentes que se dirigiram para estações de cura situadas em outros estados, inclusive alguns "tuberculosos ilustres", como é o caso do poeta Manoel Bandeira, tema de uma importante pesquisa (Pôrto, 1997).

No anfiteatro das representações: a medicina e os tuberculosos

    A condição de o saber médico produzir e ao mesmo tempo refletir as representações sociais das doenças e dos doentes encontra na tuberculose um momento singular de reflexão. Desde a Antiguidade greco-romana, a tísica e os tísicos receberam atenção especial e discriminatória, sendo que, já na era romântica, a patologia foi consagrada pelos esculápios como "febre das almas sensíveis" que, contaminadas, viam ampliados seus dotes de sensibilidade e genialidade. A febre dos corpos confundia-se com o fogo das paixões, a exacerbação dos desejos e a intensidade da produção intelectual. Refletindo esta postura, o clínico Laennec incriminou as aventuras amorosas intensas como motivo e resultado da degeneração pulmonar (Hillemand et al., 1980).
     Com o período romântico adveio uma nova percepção do binômio doença-doente do peito. Concomitantemente à identificação do agente causal da tísica, procedeu-se à revisão das avaliações anteriores acerca dos infectados que, de sensíveis, passaram a ser percebidos como degenerados, vítimas da miséria e principalmente do desrespeito às regras morais. Enquanto a velha noção de tísica era obliterada pelo novo conceito de tuberculose, no plano epidemiológico definiu-se a peste branca como perturbadora da ordem social, ceifadora de capital humano e inibidora da produção. De vez, aos tísicos restava um só caminho: a exclusão social e o conseqüente isolamento em estações de cura, mais propriamente em instituições sanatoriais onde especialistas médicos tentariam a correção dos espíritos e a cura dos corpos (Herzlich et al., 1984).
    No contexto brasileiro, coube a Clemente Ferreira, clínico carioca radicado em São Paulo, uma das primeiras iniciativas de disseminar a nova representação social imposta aos tuberculosos através de propagandas sanitárias que inicialmente eram patrocinadas pelo próprio médico. Nos primeiros anos do século XX, seus folhetos, "catecismos" e cartazes ensinavam à população as características físicas e morais dos doentes do peito: emagrecidos e emaciados, displicentes no traje e no asseio corporal, avessos à ordem, incitadores de rebeliões, hostis a tudo e a todos, traiçoeiros, hiper-sexualizados e dispostos a infectar inocentes sadios. Em continuidade, o dr. Clemente advogava a imediata reclusão dos infectados e, enquanto isto não ocorresse, tudo aos "filhos da morte" deveria ser negado: a companhia dos não contaminados, a conversa prolongada, o beijo no rosto e especialmente na boca, o aperto de mão, a oportunidade de trabalho, enfim, a solidariedade (Ferreira, 1911; 1908).
     Dirigido ao proletariado urbano, sobre o qual a doença se abatia, em 1920 o dr. Ferreira alertava em seus panfletos que pelo menos 15% do meio milhão de paulistanos eram portadores de tuberculose, reiterando no decorrer dos anos sua postura em relação aos fimatosos, excluindo de verificação a miséria em que se encontrava boa parte da população, amontoada em cortiços que só eram alvo de atenção nos instantes de batida policial. A nascente tisiologia nacional deixou-se seduzir por esta versão moderna do tuberculoso, condenando a maior parte dos médicos a reproduzir fielmente as idéias de Clemente Ferreira. Em setembro de 1933, o dr. Almeida Prado convocou seus alunos do quarto ano da Faculdade de Medicina de São Paulo a visitarem o Hospital-Sanatório São Luiz Gonzaga, localizado na zona norte da capital dos paulistas. No preparo de sua aula, o docente selecionou, não por acaso, entre centenas de prontuários, o do paciente José Candiá, um daqueles tuberculosos que, apesar de fugir do comum biográfico dos tísicos, foi apresentado como um caso exemplar do que então se denominava "perfil psicológico" do tísico.

1 A ficha elaborada pelo dr. Almeida Prado, e que provavelmente serviu como peça orientadora de sua preleção, encontra-se anexada ao prontuário deste paciente.

 

 

 

     José Candiá era um sitiante sorocabano de 43 anos, que dera entrada sanatorial no mês anterior. Após informar que o paciente sofria de "tísica terminal", o catedrático definiu o doente como um homem de "vida promíscua, alcoólatra, fumante inveterado e sifilítico". Em seguida, provavelmente, o dr. Almeida Prado chamou atenção dos estudantes para os principais pontos da história clínica do consuntivo, copiada do prontuário do paciente:1

Em plena saúde começou a sentir-se fraco, fraqueza que aumentou rapidamente, a ponto de deixar completamente o serviço em dois dias, perdendo todas as plantações. Tinha pouca tosse com expectoração amarela. Foi carregado para S. José onde dr. Ivan o examinou. ... O médico receitou e melhorou muito. Foi a Guararema trabalhar em balcão, mas tornou a vida irregular, passando noitadas em jogo, bebidas e mulheres. Foi atacado então de tosse muita extensa, com abundante escarros escarrando sangue um dia laivos de sangue. Começou então a sentir febre à tarde um arrepio e dor de cabeça. Suores abundantes e emagrecimento rápido ( Hospital-Sanatório São Luiz Gonzaga, Prontuário no 92).

    A apresentação do infectado enquanto indivíduo tocado pela promiscuidade certamente chamou atenção dos aprendizes dos segredos da clínica. O termo em questão era a chave para o entendimento hipocrático dos tísicos, sendo palavra de uso corrente nos estudos tisiológicos até meados do século XX. À necessidade de conferir contornos inteligíveis à condição tuberculosa somavam-se conflitos de classe e posicionamentos político-ideológicos, ditando o grau de responsabilidade do aparato hospitalar oficial para com os doentes. Dentre uma infinidade de pronunciamentos médicos deste tipo, cita-se um de autoria do professor e administrador sanitário Aloysio de Paula, que mais do que qualquer outro clínico empenhou-se em ratificar a máxima classificadora dos tuberculosos como "os mais difíceis de todos os pacientes", avaliando os enfraquecidos do peito através de jargões e manobras acionados pelo Estado Novo para desqualificar os grupos contestadores da política social varguista. Em uma de suas preleções aos alunos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, ao dissertar sobre a "psicologia consuntiva", o dr. Aloysio de Paula (1944, p. 25) ofereceu o seguinte esclarecimento:

O fato é que o tuberculoso reclama assistência. É um doente que quer ser assistido e tratado. Nos indigentes e nos indivíduos de baixo nível social, as coisas se complicam porque a estas exigências se agregam situações de revolta e atitudes subversivas. É preciso nunca perder de vista estes fatos, porque freqüentemente criam embaraços à própria administração pública. As cartas anônimas, as reclamações pela imprensa, as campanhas contra os estabelecimentos médicos e seu pessoal técnico são frutos desta mentalidade. Um exemplo de todo o dia é que passo a citar e que ilustra esta mentalidade. Quando um doente deseja ir para um hospital e não há vaga, freqüentemente ele usa o seguinte recurso: deita-se à calçada do palácio do Governo e ali se converte numa vítima dos nossos estabelecimentos. Muito leito supranumerário já tivemos que colocar em nossos hospitais para doentes que, durante anos, desprezam todas as possibilidades de cura que nossos médicos lhes ofereciam com insistência e dedicação, mas que, quando no período final, tornaram-se já difíceis de se locomover, exigiam um leito de hospital para morrer, não se importando saber se tal leito não seria mais útil a um doente recuperável e conciente (sic) dos seus deveres sanitários.

    Frente a estas mensagens médicas que se mutiplicaram e ganharam conhecimento público especialmente a partir da década de 1930, definia-se a trajetória de exclusão social dos tuberculosos. A transferência para as cidades-sanatórios aflorava como momento consagrador de um rito de passagem que induzia a descaracterização individual dos tísicos através de uma intervenção ao mesmo tempo social e médica regida pela estigmatização dos doentes. A padronização exigida dos comportamentos e dos trajes, a cobrança policial de apresentação de atestado de saúde e do porte de escarradeiras de bolso encontravam-se na configuração de uma nova ética comportamental, colocando em questão a identidade pessoal dos fimatosos.
     Impregnados pela multiplicidade de códigos fomentados pela segregação higienista, os asilados corriam o risco de perder os parâmetros de reconhecimento da própria vida. Neste processo, a existência infectada tornava-se mais e mais marcada por íntima angústia. A sensação de que nada poderia ser feito para corrigir o rumo que a existência tomara coagia os tísicos a buscarem relacionar o tempo pretérito vivido com o presente infectado, traçando pistas esclarecedoras dos motivos que os haviam confinado no território desolador da peste. Era o momento em que cada um dos tuberculosos se defrontava, solitariamente, com a pergunta que sintetiza a luta individual pela identidade: "quem sou eu?" (De Levita, 1965, p. 157).
     "Quem sou eu?" Terrível equação a ser resolvida pelos tísicos. Nos depoimentos literários esta pergunta aflora como enigma sempre presente, impondo aos consuntivos a busca de respostas avaliadoras de suas tramas de vida e da própria condição de tuberculoso.
     Os estreitos limites ditados pela medicina sanatorial ofereciam escassas chances esclarecedoras do "eu", acumulando padecimentos que, se não fossem minimizados, resultariam na morte autoprovocada como desfecho da vida adoentada. As tensões geradas entre os enfermos e a sociedade dos sadios alimentavam estratégias de sobrevivência pautadas por sucessivas ambigüidades. Por uma via, a tuberculose incitava ao isolamento e ao repúdio dos "colegas de cadeira de lona". Por outra, a reclusão grupal por períodos mais ou menos prolongados em sanatórios e pensões fomentava a elaboração de um espírito comunitário. Regras para a vida cotidiana, códigos comportamentais não sancionados pelos médicos a serem acionados entre os enfermos e destes com os sadios, explicações peculiares sobre o mal-dos-peitos e gírias próprias são alguns dos indícios caracterizadores de uma subcultura do grupo que os próprios tuberculosos denominavam de "comunidade dos fracassados". Além disso, o medo, as fantasias e os desejos dos tuberculosos ganhavam intensidade, provada pela ronda da morte, minando as resistências em pronunciá-las com todas as letras.
     Tomando formas múltiplas, ganhou condição de existência uma linha literária pautada pela experiência íntima com a enfermidade. A condição estigmatizadora imposta aos tributários da peste branca fazia com que nem todos assumissem publicamente a condição de doente do peito. Decorre disso a existência de uma versão da literatura tuberculosa na primeira pessoa e outra, escamoteada.

A tuberculose na primeira pessoa

    A partir de meados da década de 1930, houve uma sensível alteração na autoria dos textos literários nacionais tematizados pela peste branca. A mão que acalentava a pena que discorria sobre a trama tuberculosa passou ela própria a ser tributária da tísica, competindo com as composições pretensamente ‘realistas’ que até aquele momento dominavam as incursões pelo tema. Assim, sucessivos indivíduos infectados empenharam-se em seguir o modelo ‘intimista’ inaugurado por Thomas Mann, esposo de uma tuberculosa e que a acompanhou em vários períodos de internamento em sanatórios suíços, e pelo escritor tuberculoso Paul Gadenne, narrando em prosa e verso os dilemas do estado enfermiço e, neste encaminhamento, aprofundando as explorações no terreno minado de experiências pessoais com a doença do peito (Mann, 1980; Gadenne, 1974).
     Neste contexto, a reconstituição histórica da vida na primeira pessoa do singular — cirurgia que a psicanálise denomina de "romance original" (Berry, 1991) — ganha o sentido esclarecedor da identidade postulada pelos contaminados, que se angustiavam pelo fato de se sentirem roubados de si próprios pelas malhas culturais e sanitárias. A necessidade individual de se distinguir da legião de pares fimatosos animava a confecção de textos que, no final, se revelam tentativas organizadoras dos fatos da existência que um dia fora saudável.
     A urgência do doente do peito em descobrir o que "tinha sido" e o que "era" fazia aflorar um "antes" e um "depois" na trajetória da vida, consagrando a infecção pulmonar como elemento mediador do "eu" com o universo social. Sob estas circunstâncias, a redação que confunde autor, narrador e personagem cumpria a dupla tarefa de proporcionar aos tísicos uma representação coerente de suas biografias, ao mesmo tempo que alimentava novos pólos de entendimento coletivo dos tuberculosos.
     Paulo Setubal, Paulo Sérgio e Jamil Almansur Haddad foram apenas alguns entre a gama de intelectuais consuntivos que confidenciaram literariamente suas lutas pessoais contra a peste branca. A autoridade reclamada por estes escritores supera os limites dos autores que compõem sobre fatos testemunhados na primeira pessoa. Para além disso, a ameaça sempre presente da morte repentina coagia estes intelectuais a fundirem seus rogos com a voz do Ceifeiro Implacável, advertindo e ensinando os vivos sobre o valor e a desventura da existência regulada pela moléstia e pela solidão. "Eu morri..." Foi com esta afirmação que o poeta Paulo Sérgio — filho e sobrinho dos também tuberculosos Sérgio Milliet e Ribeiro Couto — inaugurou seu único livro de versos, ironicamente publicado no ano seguinte ao falecimento do autor, ocorrido em julho de 1949 (Sérgio, 1950, p. 7).

 

Parque Emílio Ribas, local preparado para receber turistas e no qual era proibida a presença de tuberculosos durante o período de veraneio, para a proteção dos turistas que se declaravam sadios dos pulmões.

 

Pensionato Divina Providência, cuja propaganda informava ser “uma casa para moços e moças de família que estão com os pulmões fracos” (os sanatórios que acolhiam a elite evitavam utilizar o termo tuberculose).

 

Sanatório São Paulo, destinado exclusivamente aos ‘pensionistas’, isto é, aqueles que podiam pagar pelo internamento. Apresentava-se, nas propagandas, como “mansão da saúde” e utilizava os mesmos tratamentos praticados nos principais sanatórios suíços.

 

Imagem bucólica, amplamente explorada pela imprensa local e pela administração adhemarista para ‘vender’ a imagem de Campos do Jordão como estância turística, a “Suíça brasileira”.

 

Sanatórios Populares (Sanatorinhos) que acolhiam os tísicos pobres. Por sua arquitetura simples e de madeira, contrapondo-se aos sanatórios que abrigavam os mais ricos, levou seus idealizadores a serem taxados de comunistas pelos médicos dos sanatórios dos ricos e também por algumas autoridades varguistas.

 

Chalés da Vila Jaguaribe, alugados a preços exorbitantes e acessível apenas para os tísicos de posse que não queriam se deixar internar nos sanatórios, pois acreditavam que nestes seriam “mais contaminados” pelos doentes mais graves.

 

Sanatório Santa Cruz, conhecido como “Templo da Saúde”, era o oposto dos Sanatorinhos, acolhendo apenas os tuberculosos que faziam parte da elite econômica nacional. Para ser aceito nele, era preciso de carta de apresentação de médicos reputados e, na maior parte das vezes, ter sobrenome conhecido.

 

A relva coberta de granizo (ou será neve?): fotos como esta foram utilizadas para propagandear Campos do Jordão como a Suíça brasileira.

 

Estação Emílio Ribas, porta de entrada dos infectados que, por trem, chegavam a Campos do Jordão. Recebeu este nome porque tinha sido propriedade do médico Emílio Ribas que, depois de compor um longo relatório desaconselhando o governo a instalar um sanatório na região, ele mesmo comprou extensos lotes ali para montar um sanatório. Denunciado por Clemente Ferreira, em resposta ele doou a propriedade ao governo.

 

     Nesta operação que visita o pretérito, pequenos detalhes do cotidiano ganhavam um congraçamento peculiar, garantindo a localização das raízes individuais, marca fundamentadora do "romance original". Com isso, os tributários da tísica encontravam na literatura um vasto campo para as indagações sobre a vida infectada, discorrendo minuciosamente sobre os percursos pessoais que, imaginários ou verídicos, confluíam para a apologia da dignidade humana que nem mesmo a fatal patologia e seus estigmas poderiam anular.
     Paulo Setubal incorporou no seu diário íntimo a história de sua linhagem, rememorando os personagens, as delícias e os temores que marcaram sua meninice passada em Tatuí (SP), conferindo um tom idílico à sua origem interiorana. O poeta Almansur, por seu turno, coloriu seus poemas com as tintas fúnebres do roxo, do negro e do vermelho, situando suas raízes ora no distante Líbano, ora no ventre da morte. Colocando-se como filho apocalíptico do mundo, até mesmo os ipês da avenida Paulista, onde o tuberculoso consumiu seus anos de infância, ganharam a marca do extermínio iminente: "Velhinha encarquilhada, teus galhos secos são achas..." (Haddad, 1943, p. 126).
     Reconstituído detalhadamente, o tempo já vivido era analisado como o caminho que conduziu do sol radiante da saúde para a assustadora treva da enfermidade. A busca das causas determinadoras da tuberculose encontrava respostas divergentes. Paulo Sérgio acreditava que a peste impunha-se como punição às "ovelhas negras" que diferiam do rebanho humano por rirem desairosamente do Anjo Fúnebre, distanciando-se do dr. Haddad que, desprezando os conceitos que aprendera na escola médica, voltava-se para os ensinamentos românticos, fazendo do mal consuntivo a sina dos escritores sensíveis.
     A idéia de destino aflora nos versos de Almansur como produto inevitável da impotência individual para alterar a rota da vida e escapar dos braços do Grande Mal, princípio que o poeta utilizou reiteradamente em seus trabalhos acadêmicos (Haddad, 1953; 1945). A definição da tísica e da inspiração poética enquanto "marcas de nascença" levou o fimatoso a compor versos que retratam o pranto de três mães que sofriam antecipadamente pelas desgraças que um dia abateriam seus adorados rebentos. Enquanto as duas primeiras mulheres segredavam que a dor viria sob a forma da fome e da doença, a última delas ia além, esclarecendo a perspectiva do poeta (idem, 1943, p. 128):

E a terceira com a voz entrecortada
repleta
da maior das tristezas deste mundo,
baixinho segredou: Meu filho é poeta...
E não disse mais nada...

Fez-se o silêncio mais profundo...
E as outras duas soluçaram comovidas...

    A "confissão pública" assinada por Paulo Setubal (1949) buscou afastar-se do pendão romântico, para no seu lugar dar vez a uma versão sintonizada com os posicionamentos da moral e da medicina. O fato de verificar o passado como uma seqüência ininterrupta de "tontices" e seu comportamento como "excessivo em tudo", "assombrado", "mesquinho", "carnal", "chafurdado na torpez" e sobretudo "afastado de Cristo", permitiu que o intelectual concluísse que sua "vidazinha" não poderia ter outro desfecho a não ser o encontro com a mortal infecção.
     No desdobramento das avaliações realizadas pelos tísicos, o significado das etapas da vida ganhava um sentido sinistro. O pretérito saudável fizera-se éter, coagindo Paulo Sérgio a identificá-lo ao "nada", enquanto o futuro transformava-se em apenas uma "abstração". Suspenso entre o passado e o porvir, os doentes fantasiavam um lugar onde não existisse nem a dor nem o vômito sangüíneo, nem a solidão nem a morte, conferindo versões pessoais à Pasárgada bandeiriana.
     Enquanto o convertido Paulo Setubal localizava a pátria da redenção como sendo o próprio reino celestial dos católicos, o tísico Almansur (1943, p. 114) buscava a terra prometida na ‘Cidade branca’ cemiterial. Entre tantas variações elaboradas por este poeta sobre o tema, uma impressiona, pois ritmada pelo trote assustador da tuberculose galopante:

É um país sossegado
que não tem hemoptise;
é uma terra decente,
sem escarros no chão,
putupum, putupum.
País sem suores frios,
putupum, putupum,
sem cadeiras de lona,
putupum, putupum,
sem bacilos de Koch
putupum, putupum,
e onde o vil pneumotórax
por certo é ignorado,
putupum, putupum,
putupum."

    Mas, enquanto o passado se esvaía e a morte não apresentava sua terrível face, o cotidiano do isolado nas prefeituras sanitárias era, acima de tudo, o cenário do tédio. Em Campos do Jordão e em São José dos Campos, os autores tísicos viviam a vida estancada num limbo que beirava a eternidade, tendo como espelho maior o "ruço" que cobria a serra da Mantiqueira e se espalhava pelo vale do Paraíba. O sentimento de impotência e a solidão imposta faziam com que todos ansiassem pela novidade que nunca chegaria. A existência sem rumo certo roubava a vontade de traçar planos, fazendo com que Paulo Sérgio desabafasse:

Ah se eu tivesse um desejo
nesta tarde de verão...
Um desejo de mulheres
de carinho, de ilusão
de um beijo de compreensão
de amizade ou de dinheiro,
Ah se eu tivesse um desejo...

    A repetição diária do mesmo a nada levava, a não ser ao desalento. O desespero nutrido pela mesmice exigia a procura de estimulantes que, no final das contas, a malvada doença teimava em proibir. Ainda é Paulo Sérgio (1950, p. 22) quem fantasiava:

Penso em entrar num bar
fumar ópio, tomar coca
e beber cerveja muita.

Queimar uma ‘herva’ bem forte
– Maconha
Liamba-diamba
Cabelo de Negro baseado
a herva do sonho e da morte.

    O "desejo de alguma coisa" fazia brotar a urgente necessidade da presença do outro, alguém que pudesse oferecer amor e companhia, repartir o calor do corpo nas madrugadas frias das montanhas e se tornar cúmplice de um sofrimento que não tinha mais palavras para expressar intensidade. Nas noites de solidão, o pretenso "tesão de tuberculoso" ganhava o rumo do devaneio que flertava com a "vida que não fora".
    Excetuando-se Paulo Setubal — que desfrutou seus últimos anos de vida na companhia da esposa, numa chácara que lhe fora presenteada pela sogra Vicentina Aranha e localizada nas imediações do sanatório joseense da Santa Casa de São Paulo —, os autores tísicos convergiam para a ilusão da presença de um sem-número de tipos femininos que ofertavam, sem qualquer receio, o solidário carinho que, de regra, era negado aos doentes do peito. Do leito situado num hospital da jordanense Vila Abernéssia, Almansur (1943, p. 173) lutava contra o vazio de pessoas, versejando longamente sobre a acompanhante ideal:

Peregrino, vens cansado? Acaso te cobre a poeira do caminho longo e longo? Vem ao amor que é fogueira! Vem a ‘féerie’ do noivado! Que para tu descansares, sou amiga e sou amena como um berço ou como os lares!

Sou amena e sou amiga como a projeção piedosa que há nas sombras dos palmares!

Peregrino, estás cansado? Vem e repousa a meu lado! Para o embalo e para o sonho, a minha garganta agora há de ser a mais canora. Para o embalo e para o sonho vai dizer canções suaves, feitas de sombras e pazes, bem possíveis, bem capazes de servir de embalo às aves!

Peregrino, estás sedento? Para matar tuas sedes já se faz bem longo o pranto que eu choro enquanto te espero.

Peregrino, estás com frio? Vou cobrir-te com um manto!

    Apesar das súplicas, a amizade ansiada tardava em se apresentar. Em vez dela, apenas a mão da freira que acudia os desgraçados que varavam as noites e os dias a tossir, perdendo sangue e vida. A morfina da fantasia era pouco eficiente para amenizar a solidão que feria muito mais do que a dor física. A ordem de repouso torturava. Os "corpos excessivamente descansados" — eufemismo que o tisiologista Lourival Ribeiro empregou para designar os tuberculosos — revoltavam-se contra as mensagens paralisantes, enquanto a vida fluía "lá fora". A tosse irrefreada também era um grito de protesto ao isolamento e à não-vida. Logo após eliminar sucessivas golfadas de sangue, freira e médico reiteraram o compromisso de descanso para o fimatoso Paulo Sérgio (1950, p. 37). A sentença de alerta foi assim ampliada pelo paciente em delírio: "Repouso, repouso, repouso, só repouso... Faça repouso! Cuidado! O sr. tem toda sua vida pela frente. Cuidado! Hemoptise! Repouso! Repouso! REPOUSO!"
    Numa última tentativa de proclamar sua angústia, o tísico quis rebelar-se contra a crueldade do destino: "Desesperado ergueu-se com o que lhe restava de forças e berrou: — Quero viver, viver o meu sonho!"
    A vida perdia-se em "tristezas sem limites", pois o próprio direito ao devaneio "já se fazia cadáver". A condição de isolamento povoava de metáforas as falas poéticas, buscando dar significado pleno ao desolador sentimento de exclusão. "Pássaro engaiolado de asas quebradas", os tuberculosos eram insulados nas "ilhas da esperança". O pulmão tornava-se o mundo a ser fiscalizado diuturnamente, assim como o mundo transfigurava-se num pulmão misterioso que cultivava as sementes da morte em suas avenidas, em seus becos, em suas escuras choupanas. Após vislumbrar semelhanças de silhuetas entre as elevações da Mantiqueira e os pulmões humanos, Almansur (1943, pp. 104-5) vasculhou seu próprio órgão respiratório:

Estes pulmões estão cheios de homens,
que, quando é tarde, vão estendendo
o asfalto obscuro na obscura via!
Quanta agonia na nossa vida!
Já se estendeu dentro do peito
a ampla avenida! a ampla avenida!
...

No meu pulmão há jardineiros
que, com as suas artes atrozes,
vão cultivando, por minha face,
a grama verde destas cloroses..."

    E a incursão pelo pulmão-mundo desespera o poeta: "Muita agonia! Muita agonia!/O meu pulmão é podre!/podre!/Que pululante bicharia!/Santa Maria!/Santa Maria!
    Haveria chances para a vida crivada de martírios e mais martírios? A "bruxa horrenda" tinha como um dos raros lenitivos a promessa religiosa de redenção dos pecados e das dores do mundo. Paulo Setubal foi um dos escritores que entendeu a presença infecciosa não como tragédia, mas como dádiva celestial e redentora da existência individual. Para Setubal (1949, p. 20), o sofrimento imposto pela enfermidade o havia aproximado do Deus dos cristãos, fazendo dele um "verdadeiro católico" que, para provar sua subserviência ao Senhor, queimou trezentas páginas originais de um livro que, por dissertar sobre "paixões más e desgrenhadas", não poderia ser assinado por alguém que o Messias havia contagiado com a marca da pureza.
     A destruição da obra em "holocausto a Cristo" foi o momento supremo da conversão religiosa do tuberculoso. Nascia naquele instante um "novo homem" que diferia em tudo do antigo Paulo, dos ideais aos gostos, das leituras ao "modo de encarar a vida". Solidificada a imagem do converso pela tísica, o escritor reinventou o destino dos que privavam com a peste branca, anunciando o padecimento infeccioso como fonte segura de felicidade e elevação espiritual.
     O reenquadramento das dores proporcionadas pela moléstia poluidora em fator de purificação levou o memorialista consuntivo a se oferecer como modelo para seus "irmãos de cadeira de lona". A autocrítica que Paulo Setubal (idem, pp. 106-7) teceu, sobre os seus anos de saúde, constitui-se em momento pungente dos ensinamentos emanados pelo tísico que a enfermidade fez (re)descobrir o angelical sentido da vida:

Tivesse eu um pouco de base, possuísse eu uns princípios católicos mais sérios, andasse eu melhormente embebido da doutrina de Cristo, soubesse ao de leve o que é sofrimento, o que é a dor, como veículo de aprimoramento, então, ao invés de apostrofar, certamente eu abençoaria a mão de Deus na desgraça que me feriu. Então eu não bradaria que aquilo era uma vergasta. Bradaria, isso sim, que aquilo significava uma visita do Senhor. Que aquilo significava um chamado de Deus, chamado direto, claro, paternal, para que eu de novo me acercasse d’Ele. Por aquela doença, por aquela fraqueza pulmonar, eu poderia, arredando-me do mundo, mais facilmente encontrar-me comigo mesmo. ... Poderia com firmeza dar um passo, por pequenino que fôsse, no caminho duro, mais belo, do aperfeiçoamento moral.

    As palavras consoladoras com que o autor de Confiteor tentava amenizar o drama experimentado pelos seus iguais encontrava receptividade relativa entre a irmandade dos tuberculosos. O "nada mais quero ser que a felicidade de não ser", confessado por Paulo Sérgio, sugere o caminho sem saída que a fimatose traçara na vida de seus tributários. O Deus de todos os povos certamente era um lenitivo que, para muitos, representava a única companhia na espera da morte ou da recuperação parcial da saúde.
     "Quem sou eu?" A questão que teimava em pairar sobre a consciência dos tísicos talvez tenha encontrado melhor resposta através dos versos de Almansur (1943, p. 49), numa composição reveladoramente intitulada ‘Canção do desesperado’:

Amada Clara,
na espera, eu sou como cego, eu sou como surdo, eu sou como paralítico,
parado numa curva meiga de caminho meigo da Galiléia meiga,
esperando Cristo.

Eu sou como o leproso, esperando que o toque, para a transfiguração miraculosa
da cura, a mão do Senhor.

A experiência escamoteada

    A necessidade de estabelecer as dimensões do contato íntimo com a infecção coagiu vários intelectuais tísicos — ou que acreditavam ser a peste branca condição futura inevitável de suas vidas — a refletirem publicamente sobre a enfermidade, sem contudo deixar claras evidências de estarem compondo obras que beiravam o ensaio autobiográfico. O acomodamento na terceira pessoa do singular consistia assim em estratégia protetora contra o conhecimento coletivo da condição pessoal de contaminado ou "predisposto", inibindo com isto as possibilidades estigmatizadoras. Em decorrência, a literatura serviu de canal que foi utilizado pelos consuntivos para discorrer sobre o Grande Mal, falando do "eu" através da narrativa centrada nos "outros", tributários da peste branca.
    Neste contexto dissimulador das averiguações pessoais da trama tuberculosa, ninguém granjeou mais fama que Dinah Silveira de Queiroz. Filha, neta e bisneta de consuntivas que tiveram seus anos de vida abreviados pela enfermidade, a escritora nutria desde a infância forte obsessão pelo óbito fimatoso, acreditando que ela própria tornar-se-ia herdeira do destino contaminado de suas ancestrais (Jozef, 1974; Castro, 1989).
     Porém, a condição supostamente fimatosa que levara Dinah a permanecer, por sucessivos períodos, nas prefeituras sanitárias paulistas não chegou a público quando seu romance sobre os doentes asilados em Campos do Jordão apareceu nas livrarias, no primeiro dia de setembro de 1939. A edição inaugural de Floradas na serra esgotou-se em pouco mais de um mês, despertando as atenções dos críticos que, ao interpelarem a escritora quase estreante sobre os motivos que a entusiasmaram a compor a obra, recebiam em resposta sentenças furtivas e curtas, nada ficando de concreto sobre o assunto (Queiroz, 1939).
     Desfiando o novelo de suas dúvidas pessoais, Dinah Silveira de Queiroz percorreu seguidos sanatórios, pensões e consultórios médicos localizados na serra da Mantiqueira para traçar o perfil dos tuberculosos. Como resultado, floresceu a personagem Elza que, no final da adolescência, partiu da cidade de São Paulo em direção às montanhas, levando para Campos do Jordão os pulmões avariados e a esperança de cura.

2 Vale lembrar que, quando no ano de 1954 a Companhia Cinematográfica Vera Cruz transformou em filme o romance de Dinah, a autora impôs que a personagem central da encenação fosse Lucilia e não Elza, personificada pela atriz Cacilda Becker.     Apesar da intenção de situar Elza como personagem de destaque na trama posta na pensão dirigida por dona Sofia, a autora deixou-se apaixonar por um tipo secundário que, pouco a pouco, foi ganhando destaque na obra, sobrepondo-se em importância aos demais tísicos criados pela escritora. Esta personagem recebeu o nome de Lucilia, "a minha Lucilia — devoradora e complexa", segundo o depoimento que Dinah prestou, pouco depois do lançamento de Floradas na serra. Mais ainda, a autora confessou que entregou-se vorazmente à composição da vida de sua personagem favorita, sendo que, no final, "para o equilíbrio da narrativa", viu-se obrigada a destruir "várias páginas, todas escritas sobre Lucilia" e com isto sacrificou longos trechos do "depoimento sincero de uma infeliz pensionista de dona Sofia" (Peixoto, 1971, pp. 184-5).2
     A fascinação declarada de Dinah por Lucilia desdobrou-se na composição do romance. Enquanto possível alter ego da escritora, esta personagem ganhou autonomia no enredo, reunindo poder inclusive para dar nome a Bruno, um outro vulto que povoa o reduto dos desesperados. Assemelhada biográfica e fisicamente à sua criadora, Lucilia "saiu das sombras", elevando-se à condição de voz crítica da "colônia dos fracassados", alguém que falava o que cautelosamente era silenciado e que, por isso, chocava pela rudez de observar a verdade que desconsolava. Mesmo assim, a incômoda consuntiva transitava entre o universo dos sãos e dos enfermos como um fantasma onipotente que, "desprezando o seu pequeno público", sempre estava a salvo de qualquer admoestação, tanto de suas colegas quanto de dona Sofia e do tisiologista responsável pelo seu tratamento.

    "Menina impossível", "doente rebelde", "criatura detestável", "sem juízo" e "pequena indecente" são alguns dos atributos que marcavam Lucilia, segundo outros personagens concentrados em Campos do Jordão. Isto porque a tuberculosa teimava em remar contra as águas do destino. Apesar da declaração de ser uma "condenada" que não esperava obter cura, ela opunha-se à "força cega e inexorável" que rege o mundo. Lucilia mostrava-se poderosa, marcando presença nas horas mais tensas da vida do pensionato. Naqueles momentos, seu olhar desafiante fazia com que suas colegas não caíssem em desespero, como no instante em que Belinha agonizava, cabendo então a ela acudir silenciosamente a valetudinária e também amparar as demais testemunhas do óbito que se anunciava.
     A dimensão cínica e quase sobre-humana emprestada a Lucilia encontrou limites quando ela conheceu e se apaixonou por um "homem irreal", que a própria infectada incumbiu-se de batizar com o nome de Bruno. Sem história passada e sem projetos para o futuro, Bruno enquadra-se modelarmente nas companhias imaginárias criadas pelos doentes do peito. O súbito amor da enferma tinha um sentido claro: buscar um aliado contra o destino tuberculoso. Não é por acaso que Bruno foi apresentado como um escritor cujo objetivo de vida era descobrir a potencialidade humana de lutar contra o fatum, termo latino que remete ao conceito de destino.
     O desejo de se bater contra a rota que o Grande Mal teimava em impor à existência fez Lucilia compartilhar das apreensões de Bruno. Verdadeira co-autora do romance sobre os doentes do peito, a personagem também se tornou colaboradora do livro de Bruno, acrescentando novas páginas ao texto que estava sendo elaborado pelo amado: "— Acho que foi Voltaire... É sim, foi Voltaire que disse assim, mais ou menos, não é Bruno? ‘Se pudesses modificar o destino da mosca, nada poderia impedir que realizasses o destino de todas as outras moscas, de todos os animais, de todos os homens, de toda a natureza. Sereis, então, mais poderosos que Deus...’ É engraçado, Bruno, como foi que guardei isto?" (Queiroz, 1939, p. 123).
     A luta contra a sina tuberculosa confundia-se com a paixão por Bruno, combinação perigosa que roubava o resto de energia e a beleza de Lucilia. Apesar dos conselhos médicos para que a tuberculosa interrompesse as noites de vigília amorosa com Bruno, ela se entregou sofregamente ao homem emblemático que lhe oferecia companhia e esperanças de fugir ao destino dos contaminados.
     Parece que Dinah concluiu que nenhum tísico, nem mesmo sua querida personagem, reunia forças suficientes para alterar o rumo da vida que fora assenhoreada pela peste. A opção sentimental assumida por Lucilia condenou-a à decadência física e moral. O repentino desaparecimento de Bruno ditou o agravamento do estado de saúde de Lucilia, que tornou-se demasiadamente frágil para se manter avessa ao destino e para reagir contra a decisão médica que apontava a toracoplastia como recurso único para arrancá-la das garras da morte.
     A operação mutiladora fez surgir uma nova Lucilia, bem diferente daquela que lutava contra a fatalidade da vida. Redefinida em condições de igualdade às suas companheiras de enfermidade, a personagem ofereceu então oportunidade para que Dinah anunciasse os desarranjos dos sentidos que eram proclamados como exclusividade dos doentes do peito.
     Se desde o início do romance a autora recobriu os tipos construídos com delicados comportamentos que apenas sugeriam o funcionamento da deformação espiritual atribuída ao bacilo de Koch, o processo de derrota de Lucilia frente ao destino e à enfermidade fez com que o roteiro da obra se desviasse para o tenebroso terreno das pretensas anormalidades resumidas na "psicologia do tuberculoso". A ruína de Lucilia significou também a queda de todos os fimatosos. Em conseqüência, a parcela final do livro de Dinah assemelha-se a uma súmula das distorções "causadas" pelo micróbio da peste branca: Turquinha revelou-se mística exaltada, entregando-se à crença espírita; Elza, já em estágio avançado de recuperação da saúde, rejeitou seus companheiros de infecção; e a própria Lucilia mostrou-se hiper-sexualizada, sentindo voluptuosos arrepios até pelo roçar do corpo com as roupas de cama.
     Para além destas alterações morais imputadas à toxina bacilar, Dinah Silveira de Queiroz emprestou tensão às últimas páginas de sua obra mediante a exploração da idéia de que os tuberculosos nutriam amarga inveja dos colegas que recebiam alta em razão da cura pulmonar. Seguindo este viés, tanto Lucilia quanto Flávio — personagem apagado e namorado de Elza — mostraram-se declaradamente rancorosos ao saberem que Elza estava livre da infecção e do isolamento nas montanhas. Sentindo-se distanciado da ex-infectada, Flávio anunciou seu descontentamento com a recuperação da saúde da amada, queixando-se: "— Agora... vejo as coisas friamente. Você curada, pronta a retomar o fio interrompido das suas relações, das suas amizades e eu aqui... preso para sempre" (Queiroz, 1939, p. 252).
     O escritor Paulo Dantas (1950; 1946), por sua vez, não fazia segredo do seu estado consuntivo, apesar de se proteger através da composição literária na terceira pessoa do singular. Ganhador de um prêmio ofertado pela Academia Brasileira de Letras pelo seu livro de estréia, em que retratou a vida dos presidiários, o autor continuou na senda dos excluídos, escrevendo um conto e uma novela onde explorou o cotidiano dos infectados reunidos em Campos do Jordão.
     O romance As águas não dormem... contou com o patrocínio editorial de Monteiro Lobato, que reunia a autoridade de crítico literário com a dor do pai que havia tido, por duas vezes, filhos roubados pela peste branca. Apresentado pelo seu padrinho intelectual como escritor da "mais corajosa sinceridade", Paulo Dantas (1946, pp. 9-10) fincou a coluna mestra de seus livros referentes aos enfraquecidos do peito no pântano afirmador da patologia enquanto "tara hereditária", e que a toxina do micróbio de Koch somava-se à febre para perverter o comportamento dos tuberculosos, resultando na licenciosidade sexual dos contaminados. Em decorrência, desde as páginas de abertura do seu primeiro texto sobre os fimatosos, o autor expôs claramente sua proposta purificadora dos seus companheiros de sofrimento: "Sinto-me na obrigação moral de dar uma explicação, a fim de evitar possíveis mal-entendidos na compreensão do problema sexual do tísico. Sou da opinião que se deve criar uma educação sexual especial para os doentes do pulmão. ... Neste ponto tenho a consciência tranqüila, porque antes de tudo procurei ser honesto comigo mesmo e para com a linha erótica comum da doença."

3 Observa-se que, na segunda edição de As águas não dormem..., tutelada em 1986 pela paulista editora Atual, Paulo Dantas reclamou para si os papéis de "psiquiatra popular e antropólogo".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     Estava dado o mote definidor do posicionamento de Paulo Dantas sobre a "psicologia" dos infectados.3 Pela primeira vez no contexto nacional, um escritor tuberculoso discorreu exaustivamente sobre as pretensas perversidades morais dos filhos da ‘brasileirinha’, aceitando na íntegra a versão corruptora dos sentidos apregoada como marca dos tuberculosos.
     O personagem central do romance lançado em 1946 é Ciro, que, ao contar sua história de vida, identificou-se plenamente com a biografia do seu criador, fazendo da obra uma espécie de documento detalhador do prontuário do Hospital-Sanatório São Luiz Gonzaga iniciado com o nome do paciente Paulo Dantas. "O que tem que ser, será": o destino foi novamente invocado para selar a inevitabilidade da infecção pulmonar, fazendo do personagem/autor um membro degradado da burguesia, que freqüentava não os "sanatórios de luxo" ou as pensões particulares de Campos do Jordão, mas sim as úmidas e sujas enfermarias localizadas nos subterrâneos do Sanatorinho, destinado aos tísicos indigentes.
     Autoproclamando-se "gato castrado em porão escuro", Paulo/Ciro vasculhou as fantasias e os desejos que acreditava serem frutos do micróbio, revelando o lado sombrio que nenhum outro literato doente ousou desenhar com tanto requinte. Os personagens focados no ambiente de cura eram feridos por toda sorte de "aberrações": uns são exageradamente egocêntricos, outros perversos, outros ainda místicos, todos sexualmente pervertidos, computando entre tais desarranjos a comparação do esperma com o catarro expulso dos pulmões e a utilização da palavra "foda" como brado da indignação coletiva que pairava sobre os doentes do peito.
     As tentativas de seduzir o sexo oposto, se não o idêntico, tinham como complemento as fantasias sobre o pretérito repleto de carícias femininas. Na ausência de companhia real ou fictícia, Ciro seguia a conduta dos seus parceiros de enfermaria, entregando-se à prática onanista. Mas, nem mesmo nos momentos de gozo solitário, a doença e a moral se esvaneciam, ampliando os medos e os receios dos tuberculosos carentes de tudo. Após excitar-se com o resto da água que sobrou do banho de uma paciente da mansão da saúde, o fimatoso masturbou-se, sendo imediatamente atormentado pelos fantasmas apregoados com invulgar insistência pelos clínicos e religiosos que serviam no hospital:

"O que abatia não era a viscosidade do sabão, era o nojo, o medo da hemoptise, o peso na consciência e a vergonha de mim mesmo. A água ficou manchada e de corpo limpo destampei a torneira e vi a correnteza levar todas as impurezas do mundo, com restos do corpo de Margarida. Depois subi para o quarto, de olheiras, abatido e envergonhado comigo mesmo. Deitei-me e fiquei a manhã inteira a esperar pela hemoptise que não veio" (idem, ibidem, pp. 61-2).

    A sensação de ser um estrangeiro na nação dos consuntivos pobres fazia de Ciro um incansável crítico do ambiente de cura. A ostensiva repressão institucional das necessidades produzidas pelo "ardor da febre" exigiu que o memorialista disfarçado lançasse sucessivas farpas contra os empregados dos sanatórios que, ao cobrar castidade e devoção religiosa dos infectados, tornavam-se arquitetos de um cotidiano sufocante e intimidador.
    Na continuidade da trama, Ciro deteve-se na denúncia dos descalabros perpetrados pelos agentes nosocomiais. O tratamento diferenciador dispensado aos hóspedes pensionistas em relação aos pacientes indigentes trazia para dentro das casas de saúde as desigualdades sociais que colocavam em confronto os pobres e os ricos. Comida, assistência médica, velório, condescendência, respeito e tudo o mais estava alocado em benefício dos endinheirados e, por óbvio, em detrimento dos indigentes. Por isso Ciro declarou-se chocado pelo fato de seus companheiros de miséria e infecção nada fazerem contra as injustiças que proliferavam na teia higienista. Para explicar tal postura, novamente Paulo Dantas (idem, ibidem, p. 67) serviu-se dos estigmas ajustados aos doentes do peito, esclarecendo: "Já deduzi que na psicologia coletiva do tuberculoso pobre, uma das formas mais encontradas, é a do conformismo geral. O que o doente mais deseja no mundo é uma cama num hospital, onde ele possa comer, dormir e às vezes ter a ilusão de que está sendo tratado. Da adaptação desse desejo essencial é que nasce o seu conformismo fácil e sem revolta."
     Em Cidade enferma, texto esboçado no início da década de 1940 e fixado entre 1947 e 1948, o escritor desenvolveu ainda mais as perspectivas discriminadoras dos "fracassados". A reação negativa da população jordanense ao seu primeiro romance teve como resposta a ratificação dos predicados atribuídos aos tísicos, estendendo-os também para a urbe climatoterápica. Nesta obra, a condição exageradamente erotizada dos tísicos foi reafirmada através do diálogo entre os personagens Vítor e Leo Além, ambos aproximados biograficamente ao autor:

"— Vítor, você que é um escritor e um estudioso da natureza humana, não acha mesmo que a doença vem afetar a vida sexual da gente?

— Querer negar isto é besteira, é estupidez. As provas estão aí nos tipos que a gente conhece aqui em Campos do Jordão. Pode ser que a razão dessa exacerbação erógena ainda não tenha sido suficientemente explicada pela medicina. Mas que importa a medicina se temos a vida, os exemplos de cada dia a nos bater à porta."

    Depois de alinhar os elementos tidos como definidores da hiper-sensualidade tuberculosa, o literato recorreu a antigos pressupostos para situar os "pervertidos" doentes e toda a população de Campos do Jordão em uma mesma malha estigmatizadora: "E, mais decisiva ainda é a influência exercida pelo clima. Está provado que uma montanha como a nossa torna a mulher mais mulher e o homem mais homem" (idem, 1950, pp. 106-7).
     Mais do que isso, no livro publicado em 1950, Paulo Dantas retratou a face oculta e miserável da cidadela dos infectados, contrapondo-se às imagens fixadas em cartões-postais que anunciavam a beleza e a higiene da "Suíça latino-americana", assim como o espírito filantrópico e solidário dos agentes de cura. Em vez disso, os personagens deste romance são crianças esqueléticas pois minadas pela tísica, tuberculosos eternamente trajando pijamas e a solidão, a grande solidão vivenciada pelos tuberculosos.
    A pena ferina do autor dedicou-se também a avaliar a atuação dos médicos da estação de cura, cobrando maior dedicação e eficiência dos facultativos que trabalhavam em Campos do Jordão. Tentando canalizar as decepções causadas pela consulta a vários tisiólogos e a demora na obtenção da cura, Dantas (idem, p. 107) desabafou:

"(Os clínicos) são uns camaradas que não se dedicam às pesquisas. Eles aqui só vêem no indivíduo dos pés à cabeça um pulmão. E assim mesmo um pulmão como fonte de renda e não como fonte de pesquisas, de estudos científicos. Veja mesmo o caso do seu médico, o dr. Aranha, que bem merece o apelido de dr. Cifrão. O homem de tanto ganhar dinheiro e se meter em negócios já adquiriu até uma semelhança extraordinária com um judeu. Parece um cifrão em pé. Ele é médico, dono de pensão, sócio de padaria, alugador de casa, tudo enfim."

Conclusão

    A produção parcial ou integralmente memorialística expõe, segundo a terminologia geertziana, uma rede de significados que, arquitetada pelos tuberculosos, define percepções e estratégias de vida organizada pela comunidade dos excluídos. Enquanto produção cultural, a recepção e o tratamento emprestados aos textos analisados incentivaram avaliações que fundiam interesses de toda sorte, aproximando o processo de leitura da história do pensamento e, neste contexto, evidenciando ainda mais os vieses delineadores das imagens que o tecido coletivo associava aos tísicos (Darnton, 1990).
     Entre os livros de tendência memorialística mencionados, nenhum outro obteve tanta aceitação pública quanto Floradas na serra, tornando-se estória narrada em quadrinhos e através do rádio, do cinema e da televisão. O sucesso deste romance também fomentou a veiculação de críticas que, escudadas na medicina, na estética literária ou na experiência íntima com a enfermidade, nutriram um caloroso confronto entre os que admitiam a plausibilidade dos acontecimentos descritos por Dinah Silveira de Queiroz e aqueles que, ainda em menor número, buscavam novos entendimentos sobre a vida dos consuntivos. Além dos naturais elogios dirigidos à autora — alguns deles assinados por Waldomiro Silveira e Rachel de Queiroz, respectivamente tio e cunhada da escritora —, Floradas na serra ganhou destaque na imprensa diária, abrindo oportunidade para que os clínicos nacionais discorressem publicamente sobre o comportamento dos doentes pulmonares. Para a maior parte destes, as obras relacionadas serviram como peças que permitiam à medicina reiterar a crença nas representações denigritivas coladas aos doentes do peito e, em continuidade, preterir as condicionantes sócio-econômicas e a fragilidade dos sistemas hospitalar e sanitário como elementos determinantes do crescente número de casos de tuberculose. A partir disso, persistiu durante o período abordado a noção justificadora da peste branca como produto da inobservância individual das regras básicas da moral e da higiene (Paranhos, 1939; Soares, 1939).
     No curso das averiguações, a literatura de tendência autobiográfica permitiu, segundo a ótica da antropologia da doença e do doente, um maior conhecimento público das condições de vida dos tuberculosos e o reforço das representações sociais. Isto porque a divulgação das obras produzidas pelos tuberculosos mostrou-se pouco eficiente no propósito questionador da veracidade dos estigmas imputados aos tísicos que, em alguns casos não sem reticências, tendiam a confirmar as representações sociais acerca da tuberculose e do tuberculoso. As tentativas elucidadoras do "eu" mostravam-se convergentes e pautadas por sucessivas ambigüidades. Como estratégia de resistência, buscou explicar o padecimento de vidas ameaçadas pela morte iminente e as estratégias de sobrevivência social. Por outro lado, viabilizou os pronunciamentos públicos e os depoimentos privados dos tuberculosos como vozes disseminadoras das vertentes que fomentavam a diabolização e a discriminação coletiva das vítimas do Grande Mal.
     Apesar de algumas observações elaboradas pelos próprios infectados negarem parcialmente a "causação" toxínica das "atitudes desajustadas", nenhum autor infectado ousou desqualificar a multiplicidade de estigmas aglutinados sob a denominação de "psicologia do tuberculoso". Frente a este fenômeno, acredita-se que, mais do que produto dos empenhos institucionais em inculcar as idéias denegridoras da existência infectada, os próprios consuntivos enquadraram-se simbolicamente no modelo comportamental preconizado como exclusivo dos tributários da peste branca. Recorrendo ao sociólogo Erving Goffman (1975), supõe-se que os doentes do peito serviram-se da "idealização negativa" de força e expressão histórica como "fachada" para viabilizar o desempenho de papéis que, sincera ou cinicamente "encenados", tinham como resultado a integração dos doentes no contexto social subjacente.
     No final, mesmo após o controle epidemiológico da enfermidade pulmonar, que se mantém até hoje em estado precário, a tuberculose continua a inspirar temores (mesmo que hoje compartilhados pelo câncer e pela Aids) e também a incentivar expressões literárias — muitas delas preservadas pelo sigilo familiar —, tais como a de uma professora universitária que, ainda menina, presenciou a agonia e morte da mãe tuberculosa, evento ocorrido na primeira metade da década de 1930. Após três anos de insistentes pedidos, sob o pseudônimo de Florbela, "de algum lugar na Montanha (Campos do Jordão), no outono de 1991", a poetisa presenteou o autor deste texto com um punhado de versos autobiográficos:

"O que se herda?
O que se adquire?
Não corra. Não beba nada gelado.
Olhe o sol. Saia da chuva.
Sereno faz mal. Não pode, está ventando
Fecha a janela. Tem corrente de ar.
Leve o casaco. Ponha meia.
Descalça: Nunca.
Assim sem sol, sem chuva, sem sereno
sem vento consegui crescer.
Com óleo de fígado de bacalhau,
com Emulsão de Scott, com mel,
gemada, xarope e vitamina
Cheguei até menina.
Raquítica diziam uns
Miudinha os parentes mais
condescendentes. Mignon
os mais sofisticados
Pobrezinha, também, com mãe doente
em voz de sussurro e acusação:
Tuberculosa — sabe, bacilo de Koch!
Carreguei a culpa e tive um quarto só para mim,
água fervendo em toda louça.
Afinal, não dá para arriscar.
Depois de algumas leituras e tenra sapiência
Fiz versos de condenada.
Aos 18 anos me preparei.
Pensava: vai ser tão romântico!
Depois.

Por razões. Mais de mil. Saí de casa.
Atirei-me ao sol, à chuva, ao vento,
aos serenos da madrugada. Aos gelados.
Janelas abertas. Descalça. À garoa de São Paulo!
Provoquei. Candidatei-me a T. B.
e até fiz uma excursão para Campos do Jordão.
Floradas na serra. A montanha mágica.
e por razões misteriosas e inacreditáveis,
sempre fui uma pessoa saudável,
mais dada aos suspiros que aos espirros.
Mas mesmo assim, quando me casei
alguém aterrorizado da família,
aterrorizado ou terrorista?,
me chamou de lado e disse:
Você contou para ele?
Contou o quê?
Que sua mãe morreu tuberculosa!
Meu Deus, esqueci!
Contei, casei, tenho filhos e netos
e ainda não morri (até já fui à Suíça!)
Tuberculose, pode ainda ser,
nunca se sabe! É uma sina,
um estigma, para alguns
quase uma nódoa.
Há doenças imorais.
Enfim, vou vivendo e
pertenço a algumas minorias
quase resgatadas —
filha de tuberculosa
e canhota.

Uma historinha, senhor Claudio, esta verdadeira."

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em agosto de 1998.
Aprovado para publicação em março de 1999.

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