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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude v.8  supl.0 Rio de Janeiro  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702001000500004 

 

 

 

Viajantes-naturalistas no Brasil oitocentista: experiência, relato e imagem

Scientific travellers in eighteenth-century Brazil: their experience, reports and graphic
representations

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lorelai Kury

Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz
lkury@gbl.com.br

 

 

KURY, L.: 'Viajantes-naturalistas no Brasil oitocentista: experiência, relato e imagem'.História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VIII (suplemento), 863-80, 2001.

As concepções sobre o modo de fazer ciência que privilegiam o trabalho de campo ou o de gabinete coexistem no século XIX. Os naturalistas que vieram ao Brasil haviam feito a opção de "ver com os próprios olhos". Nas grandes expedições científicas, os viajantes buscam dar conta das sensações e impressões experimentadas durante sua estada no Brasil não só utilizando o desenho e a pintura, mas também fazendo ricas descrições textuais. Para grande parte dos naturalistas do século XIX, a multiplicidade de sensações que envolvem o naturalista em sua viagem poderia e deveria ser descrita pela ciência. Assim, o cientista que se faz viajante escolheu não apenas ver com os próprios olhos, mas ouvir e sentir com o próprio corpo os fenômenos lá onde acontecem. Porém, o viajante romântico, se por um lado produzia ciência in loco, por outro, acabou se especializando no registro preciso de sensações e fenômenos, em consonância com os métodos científicos estabelecidos na época.

PALAVRAS-CHAVE: viajantes, história natural, viagens, iconografia.

 

KURY, L.: 'Scientific travellers in eighteenth-century Brazil: their experience, reports and graphic representations'.História, Ciências, Saúde — Manguinhos,vol. VIII (suplemment), 863-80, 2001.

Two different approaches to science lived side by side in the nineteenth century: office and fieldwork. The naturalists who came to Brazil had chosen to "see it with their own eyes". In great scientific expeditions, travelers tried to cope with the sensations and impressions they had during their stay in Brazil not only through their drawings and paintings, but also through rich descriptive texts. For a large number of nineteenth-century naturalists, the multiple sensations experienced during their journeys could and should be described by science. Thus, a naturalist who made the choice of being a traveler chose not only to see it with his own eyes, but also to hear and feel on his own body the phenomena there, where they took place. However, if on one hand romantic travelers made science in loco, on the other hand they ended up specializing in precisely recording their sensations and observed phenomena according to the scientific methods of their times.

KEYWORDS: scientific travellers, Natural History, scientific journeys, Iconography.

   Os naturalistas que vieram ao Brasil haviam tomado a difícil decisão de viajar. Difícil não apenas por causa dos perigos físicos que corriam durante suas aventuras, mas também porque a comunidade científica não era unânime quanto à valorização do trabalho do viajante. Muitos dos mais célebres naturalistas europeus nunca viajaram. Essa tarefa era muitas vezes realizada por naturalistas mais jovens, oficiais da Marinha, nobres em busca de entretenimento filantrópico ou aventureiros em geral (Kury, 2001).
    Georges Cuvier (1769-1832), um dos mais poderosos homens de ciência de seu tempo, não foi um viajante. Convidado por Bonaparte para acompanhá-lo na expedição do Egito em 1798, decidiu ficar em Paris. Seu amigo e futuro adversário Geoffroy Saint-Hilaire decidiu, ao contrário, tomar o caminho da África. Cuvier justificou posteriormente sua escolha com razões científicas: encontrava-se em Paris, capital da ciência, tendo à sua disposição as mais completas coleções de história natural do mundo. Uma expedição desse gênero teria sido prejudicial à coerência e ao caráter sistemático de seus trabalhos. Tratava-se igualmente de uma escolha em função da gestão de sua carreira e de seu prestígio, tendo em vista seu posicionamento nas instituições científicas do consulado.
    Alguns anos mais tarde, ao analisar a tradução francesa dos Quadros da natureza, de Alexander von Humboldt, Cuvier aproveita a ocasião para defender seu ponto de vista, comparando o naturalista viajante ao sedentário. O primeiro, ao percorrer diferentes lugares, não pode se deter diante de tudo que o impressiona, tal é a quantidade de objetos que chamam atenção. Se, por um lado, ele pode observar as coisas e os seres "nos próprios lugares onde a natureza os colocou", por outro, não pode consultar lá mesmo seus livros ou comparar os exemplares que encontra com outros semelhantes. Já com o naturalista sedentário, acontece o contrário:

é verdade que conhece os seres dos países longínquos apenas através de relatos e amostras mais ou menos alteradas; as grandes cenas da natureza não podem ser sentidas por ele com a mesma vivacidade que por aqueles que as testemunharam; porém, esses inconvenientes são compensados por muitas vantagens. Se ele não vê a natureza em ação, ele pode fazer desfilarem diante de si todos os produtos; ele leva o tempo que quiser para examiná-los; ele pode acrescentar ao estudo fatos correlatos de diversas procedências. O viajante percorre apenas um caminho estreito. É unicamente no gabinete que se pode percorrer o universo em todos os sentidos; mas é necessário, para tanto, um outro tipo de coragem: aquela que provém de uma devoção sem limites pela verdade e que só permite o abandono de tema quando, por meio da reflexão, da observação e da erudição, ele foi iluminado por todos os raios que o estado momentâneo de nossos conhecimentos pode oferecer (apud Outram, 1984, p. 62).

 

1 A bibliografia sobre Alexander von Humboldt é bastante extensa. Ver, entre outros, Dettelbach (1996) e Nicolson (1990).

 

 

     Essas duas perspectivas de trabalho para um naturalista podem ser efetivamente encontradas em meio aos contemporâneos de Cuvier.
   
O exemplo mais conhecido do viajante para quem a experiência da viagem é insubstituível é certamente Alexander von Humboldt.1 Defende que impressões estéticas experimentadas pelo viajante em cada região fazem parte da própria atividade científica e não podem ser substituídas por descrições ou amostras destacadas dos lugares onde foram coletadas. Leitor de Bernardin de Saint-Pierre, ambos compartilham a opinião de que o gosto e a sensibilidade são parte integrante do ato de conhecimento. Além da questão estética, o que preside a busca de Humboldt pelas paisagens singulares é sua preocupação com a distribuição dos vegetais pelo planeta e o tipo de sociabilidade de cada planta. Há vegetais sociais, que só vivem em grupos, e vegetais não sociais, que vivem sozinhos. Cada região da terra, por razões climáticas, geográficas e topográficas, acolhe espécies vegetais distintas, que compõem diferentes fisionomias.
   
A abordagem humboldtiana da natureza não é, assim, unicamente intuitiva: o viajante mede de maneira sistemática e precisa os fatores físicos que intervêm em cada lugar estudado, tais como temperatura, altitude, pressão, umidade, além de estudar os hábitos das principais espécies vegetais que compõem a paisagem na qual o naturalista se encontra.
   
Como foi dito, o método de trabalho preferido por Cuvier pressupõe um outro lugar de produção de conhecimento: o gabinete. A imersão no trabalho de campo, cara a Humboldt, é substituída por bibliotecas, laboratórios, coleções, herbários, jardins botânicos... Essa opção não indica desprezo com relação aos resultados das viagens, e sim uma espécie de proposta de divisão de trabalho científico, em que o viajante é visto como um coletor, cujas coleções e informações são essenciais para a história natural.
   
Os viajantes-naturalistas que vieram ao Brasil e reivindicavam a influência de Humboldt, tais como von Martius ou Auguste de Saint-Hilaire, optaram pela viagem: queriam "ver com os próprios olhos". Porém, cabia a eles transformar sensações, experiências e seres vivos em novas espécies de animais e plantas que se encaixassem na ordem natural das famílias, em herbários, animais empalhados, bichinhos imersos em álcool, descrições detalhadas escritas de modo inteligível em cadernos de viagens etc.
   
A viagem é em geral considerada pela história natural como uma das etapas necessárias para a transformação da natureza em ciência. Muitas vezes, o coletor e o sistematizador não são a mesma pessoa. Ou seja, para a história natural realizada nas instituições européias, ver com os próprios olhos não é necessário. Daí a importância que adquirem as instruções para as viagens científicas e a formação de profissionais de diversos tipos, tais como jardineiros coletores, desenhistas e pintores especializados em história natural, preparadores de animais (que conheciam os procedimentos de conservação e empalhamento), que acompanhavam ou algumas vezes substituíam os próprios naturalistas.
   
A obra de Humboldt sobre o Novo Mundo e sua aura de grande sábio são referência constante para seus contemporâneos que vieram ao Brasil. A arte — expressão privilegiada para dar conta das sensações visuais experimentadas pelos viajantes — acompanha sempre que possível os relatos e descrições feitos por naturalistas. As grandes expedições podiam muitas vezes contar com a presença de artistas, como Louis de Choris, Thomas Ender ou Adrien Taunay (Belluzzo, 1999; Diener e Costa, 1999; Martins, 1999). O mais marcante da abordagem humboldtiana, independentemente da qualidade artística das representações, é o estudo das "fisionomias" das paisagens. Por exemplo: certas regiões da Europa se distinguem pelas florestas de pinheiros que acompanham as montanhas. O pinheiro é uma planta social, ou seja, sempre há grande número de indivíduos da mesma espécie juntos. Já a floresta tropical se caracteriza pela combinação de plantas não sociais, isto é, uma mesma paisagem compõe-se de enorme variedade de espécies diferentes. As florestas brasileiras, onde os vegetais se confundem e se misturam uns com os outros, são freqüentemente retratadas com imagens e com palavras, e se tornavam uma espécie de passagem obrigatória nas descrições de viagens a países de floresta tropical úmida. O botânico Auguste de Saint-Hilaire (1830, p. 11) sublinha esse aspecto, quando trata da Mata Atlântica: "nada aqui lembra a cansativa monotonia de nossas florestas de carvalhos e de pinheiros; cada árvore tem, por assim dizer, um porte que lhe é próprio; cada uma tem sua folhagem e oferece freqüentemente uma tonalidade de verde diferente das árvores vizinhas. Vegetais , que pertencem a famílias distantes, misturam seus galhos e confundem suas folhas."

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2 Sobre a concepção de história de Martius, ver Guimarães (2000). No que diz respeito a Martius como viajante, ver Lisboa (1997).

    O botânico Carl Philipp von Martius talvez seja o mais importante humboldtiano que visitou o Brasil. Além de produzir classificações precisas, numerosos herbários e trabalhos em antropologia e história, esse naturalista descreveu com sensibilidade diversas fisionomias vegetais presentes no Brasil.2 Em algumas regiões, são as palmeiras que fornecem o caráter dominante das paisagens; em outras, as bananeiras ou as árvores frondosas. O primeiro volume de sua Flora Brasiliensis, de 1840, contém mais de cinqüenta pranchas que buscam retratar a variedade da vegetação, do relevo e da fauna do Brasil. Uma das imagens do Icones Selectae Plantarum Cryptogamicarum (1828-34) retrata um conjunto vegetal em que, não fosse a legenda a distinguir indivíduos em meio a uma floresta, um olhar inadvertido jamais localizaria as espécies representadas (Imagem 1).

 

 

    No monumental Historia Naturalis Palmarum (1823-53), de Martius, as espécies estudadas aparecem em três registros diferentes: retratadas a partir de seus detalhes morfológicos (Imagem 2); inseridas em seu ambiente natural (Imagem 3) (paisagens, em alguns casos, com a presença de animais, de humanos e de edificações); dispostas em grandes mapas do mundo (Imagem 4), indicando as zonas climáticas onde ocorrem. Fisionomias e detalhes alternam-se a fim de dar conta do contexto em que as espécies vivem e da descrição minuciosa de suas partes componentes, o que é essencial para a classificação e para a compreensão do desenvolvimento do vegetal. O naturalista evidencia aí a importância que as imagens têm em seu trabalho científico. A legenda da prancha 60 (Astrocaryum gynacanthum, Bactris pectinata e Bactris hirta) (Imagem 5) avalia os diversos registros que podem ajudar o estudioso a compreender melhor a história natural das palmeiras no Brasil:

 

 

 

 

 

 

 

 

É mais difícil retratar o caráter das jovens florestas brasileiras com palavras do que com imagens; e desse modo parece-nos já ter satisfeito ao benévolo leitor com a arte do pintor. Contudo aquele que deseje saber mais sobre a natureza destas florestas, percorra a narração de nossa viagem e o nosso discurso acadêmico sobre a fisionomia das plantas no Brasil (Martius, 1823-53, vol. II, pp.73-4).

    Assim, imagem e texto articulam-se organicamente na produção científica de Martius. O discurso acadêmico ao qual ele fez referência — A fisionomia do reino vegetal, de 1824 — descreve as diversas fisionomias que compõem o país. O Brasil é definido como um todo geográfico, delimitado pelo mar e por dois grandes rios: o da Prata e o Amazonas. A unidade subjacente a essa região é dada pelas florestas, que dominam grande parte do território. A umidade, a altitude, a proximidade do equador, entre outros fatores, alteram a vegetação e, conseqüentemente, a fisionomia dos lugares.
   
Voltando à prancha 60 de Historia Naturalis Palmarum, vê-se aí não apenas um conjunto vegetal, mas também a presença de um índio e de uma onça. Esses elementos ajudam a compor a fisionomia dessa floresta amazônica, onde ocorrem as palmeiras descritas e onde a cena de caça poderia acontecer.
   
Homens e natureza são estreitamente relacionados nas concepções científicas de Martius, assim como o eram para Humboldt. Este último afirmava, por exemplo, que

mesmo que o começo desta civilização (do gênero humano) não seja unicamente determinado pelas relações físicas, ao menos sua direção, o caráter dos povos e as disposições alegres ou sérias dos homens dependem quase inteiramente da influência do clima. ... A influência do mundo físico sobre o moral, esta ação recíproca e misteriosa do material e do imaterial, dão ao estudo da natureza, quando a contemplamos de um ponto de vista elevado, um atrativo particular ainda muito pouco conhecido (Humboldt, 1828, pp. 23-6).

    Do mesmo modo, Martius relaciona o "caráter" das populações ao ambiente onde vivem. No discurso de 1824 (op. cit., p. 246), ele descreve a floresta amazônica da seguinte maneira:

Escuro como o inferno, emaranhado como o caos, aqui se estende uma floresta impenetrável de troncos gigantescos, desde a foz do Amazonas até muito além do território português em direção a Oeste. ... A natureza pudibunda do reino vegetal parece, de repente, sentir prazer em produzir formações grotescas, numa ânsia inquieta. Arbustos com espinhos irritantes e malignos, palmeiras com terríveis aguilhões, cipós laticíferos emaranhados perturbam os sentidos do peregrino ... Não admira que a alma do índio, errando em tal ambiente, torne-se sombria e de tal maneira, que, perseguido pelas sombras da solidão, possa ver em toda parte criações fantasmagóricas da sua rude imaginação.

    A percepção das fisionomias como conjuntos de dados climáticos, topográficos, culturais, de flora e de fauna permite delinear uma postura ecológica avant la lettre, que relaciona os seres vivos a uma determinada "economia natural" (Acot, 1998). A conhecida imagem da lagoa do rio São Francisco (Imagem 6) repleta de aves ilustra perfeitamente esse aspecto da percepção do naturalista. Os pássaros inserem-se aí no interior de uma paisagem, da qual são inseparáveis. A mão do homem, e do naturalista em particular, pode tirar as aves de seu contexto para expô-las em museus ou conservá-las em laboratórios. Cabe ao artista zelar para que o público apreciador das viagens científicas possa apreender a totalidade do lugar de onde foram retiradas. A descrição textual que o naturalista faz desta imagem em sua Reise in Brasilien impressiona pela visão da dinâmica "ecológica" que ele percebe no microcosmo em que transformou a lagoa do rio São Francisco:

 

 

Ressoam aqui, na mais alvoroçada celeuma grasnada, chiados e gorjeios sem fim dos mais diversos gêneros de aves, e, quanto mais observávamos o raro espetáculo, em que os animais, com a nata independência e vivacidade, sozinhos representavam os papéis no espetáculo da natureza, tanto menos vontade sentíamos de perturbar, com mortíferos tiros, aquele cenário pacífico da natureza. ... Parecia-nos ter-se renovado o quadro da criação do mundo diante dos nossos olhos, e esse maravilhoso espetáculo nos teria ainda mais agradavelmente impressionado, se não ocorresse o pensamento de que a guerra, a eterna guerra, era a lei e misteriosa condição de toda existência animal. As inúmeras espécies de aves aquáticas e paludícolas aqui se agitavam, umas no meio das outras, descuidadas, perseguindo cada qual seu gênero de presa, de insetos, rãs e peixes e cada qual sendo procurada por seu próprio inimigo (Martius e Spix, 1981, vol. II, pp. 88-9).

    A variedade de registros que se originam da observação e da pesquisa de um determinado fenômeno inclui, no caso da viagem de Spix e Martius ao Brasil, o tratamento da natureza como conjunto de indivíduos animais e vegetais, tratados pelos métodos científicos que se atêm aos detalhes. O rio São Francisco e suas margens foram uma das fontes dos espécimens coletados por esses viajantes. Além de imagens fisionômicas e textos em estilo cuidado, o material resultante da viagem inclui herbários, animais empalhados, pranchas que retratam as partes componentes de animais e plantas e textos descritivos dessas mesmas partes.
   
A iconografia resultante das viagens científicas do século XIX costuma representar cenas consideradas típicas da vida nos trópicos, onde a natureza e os indígenas têm papel preponderante. O pintor Louis de Choris, que passou pelo Sul do Brasil em 1815, procurou retratar traços naturais e humanos no interior de um mesmo conjunto. Em uma das poucas ilustrações que fez sobre o Brasil, insere em uma paisagem de Santa Catarina pássaros, répteis, plantas, relevo local e o que seria um "brasileiro típico".
   
Diversos naturalistas incluem em suas obras cenas que retratam a relação dos homens com a natureza, como é o caso do Selecta Genera et Species Piscium, de Spix (1829-31), que retrata os índios e suas técnicas de pesca. A utilização de produtos naturais pelas populações locais está presente igualmente nas imagens "pitorescas" de diversos artistas. Jean Baptiste Debret, por exemplo, evidencia a presença de plantas e animais exóticos em obras que mostram escravos vendendo frutos tropicais, negros caçadores e coletores de borboletas. A obra de Wied-Neuwied também enfatiza esse aspecto da interação entre homem e mundo natural, como pode ser visto nas ilustrações de seu relato de viagens, onde índios aparecem ocupados com seus afazeres cotidianos e grupos típicos são retratados em suas relações com paisagens, animais e plantas locais.
   
A tentativa de registrar a totalidade dos fenômenos naturais e a consideração dos fatos da cultura como parte integrante das paisagens naturais levou diversos naturalistas a buscarem auxílio na vivacidade das descrições literárias para delinear fisionomias. O botânico von Martius recorre inúmeras vezes a citações literárias e poéticas que o auxiliem na tarefa de descrever com precisão as sensações vividas. No primeiro volume de sua Flora Brasiliensis (1996, p. 88), por exemplo, lança mão de um trecho de poema de Goethe para descrever a sensação de estar perdido em meio aos arbustos de um planalto da província de Minas Gerais (Imagem 7):

 

 

Ai do cansado viajante, que, a pé e sozinho, é levado a erro nesta imensidão de arbustos, onde não há nenhum vestígio de cultura humana; tudo é indício de uma natureza primitiva. A esta singular e quase hórrida espécie de natureza enquadra-se o que disse o nosso maior poeta, Goethe: "Mas porém quem é ele?/ entre os arbustos perde-se o seu rastro,/ Atrás dele fecham-se/Os arbustos/ As hastes da grama erguem-se novamente/ O vazio o engole!"

    Assim, o modelo humboldtiano orientou uma determinada maneira de retratar os lugares percorridos pelos viajantes. A descrição das fisionomias particulares permitia, em aparente paradoxo, integrar os fenômenos particulares ao cosmos. Diversos tipos de representação — iconográficas, textuais e material museológico — compõem o quadro de um lugar específico. Esse quadro retrata sua essência. A ciência dos viajantes busca atingir o que está por trás da variedade e da profusão dos fenômenos. Martius escolhe com precisão as fisionomias retratadas em seus inúmeros livros, muitas vezes desenhadas ou pelo menos esboçadas por ele mesmo ou por artistas conceituados que vieram ao Brasil, como Rugendas e Thomas Ender. Os momentos retratados são especiais, únicos e típicos ao mesmo tempo. Únicos, porque foram vividos e observados pelo próprio viajante ao longo de suas andanças. Típicos, porque os fenômenos descritos ocorrem ali sempre sob as mesmas circunstâncias. A fisionomia de um lugar depende da quantidade, da variedade e da sociabilidade das plantas e dos animais, assim como do tipo de relação que os habitantes locais estabeleceram com a natureza ao longo do tempo. É como se cada fisionomia contivesse uma parte da alma do Brasil.
   
A iconografia e os relatos de viagem buscam, assim, descrever de modo exaustivo e profundo os diversos elementos que compõem cada lugar. Esse aspecto do trabalho científico dos naturalistas do século XIX pode parecer, aos leitores do século XX, meramente 'pitoresco' ou 'romântico', no sentido pejorativo que a palavra adquiriu. No século XXI, para rejeitar os possíveis anacronismos interpretativos, é preciso compreender que, para os naturalistas do século XIX, a ciência devia buscar descrever a totalidade de elementos que atuavam em um fenômeno local. É como se cada parte contivesse o todo. Uma fisionomia particular seguiria a mesma lógica de relações harmônicas e de simpatias que, supunha-se, regiam a vida cósmica.
   
Apesar de se especializar na descrição de sensações, a ciência romântica de matriz humboldtiana não deve ser confundida com descrições de cunho inteiramente pessoal e, por isso, totalmente subjetivas. Humboldt, Martius, Saint-Hilaire, ou Wied-Neuwied acreditavam utilizar os recursos das artes e da retórica para retratarem fielmente a realidade que observavam. A sensibilidade individual seria importante na medida em que dota alguns indivíduos da capacidade de perceber as forças que atuam na natureza e de transmitir as sensações vividas.

    Para grande parte dos naturalistas do século XIX, a multiplicidade de sensações que envolvem o naturalista em sua viagem poderia e deveria ser descrita pela ciência. Daí o uso de representações pictóricas e a preocupação com os recursos literários das narrativas de viagem. Assim, o cientista que se fez viajante escolheu não apenas ver com os próprios olhos, mas ouvir e sentir com o próprio corpo os fenômenos lá onde acontecem. Talvez resida aí uma das hesitações da ciência romântica, já que, se por um lado o viajante romântico produzia ciência in loco, por outro, acabou se especializando no registro preciso de sensações e fenômenos, em consonância com os métodos científicos estabelecidos na época. A experiência da viagem pode, então, ser reproduzida, deixando, assim, de ser insubstituível.
   
As instruções de viagem do século XIX insinuam que, para a ciência, pouco deveria importar quem era o viajante. Suas anotações e registros deveriam ser publicados e passíveis de serem compreendidos por outros naturalistas. O viajante-naturalista do século XIX parece não ter hesitado entre considerar a irreprodutibilidade de sua experiência e entre fornecer registros fiéis do que viu, ouviu e sentiu. Nesse sentido, o estilo pitoresco das representações iconográficas das paisagens e costumes dos lugares visitados poderia ser considerado um estilo científico. A ciência das viagens foi uma forma de apreensão das relações entre ambiente e seres vivos; a profusão de registros produzida pelos diversos tipos de viajante, uma maneira de tornar a experiência da viagem reprodutível.
   
Em Martius (1943, pp. 244-5), a profusão de registros parece necessária para decodificar as sensações vividas nessa Atlântida, como diz, nesse mundo perdido, redescoberto por Colombo e pela botânica:

Agradeço o auxílio de Aline Cardoso Cerqueira.

O peregrino sente-se aqui ao mesmo tempo elevado e inquieto. Os horrores da solidão destas sombrias trevas da floresta unem-se ao gozo duma contemplação tão estranha, e com a admiração e a veneração do Onipotente que criou aqui, diante dos nossos olhos, um novo mundo, que nos fala em linguagem antes nunca sentida e nos revela com magia, mesmo na vida modesta do silencioso reino das plantas, o vigor e a majestade de sua criação.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Acot, Pascal (org.) 1998 The European origins of scientific ecology. Amsterdã, Ed. des Archives  Contemporaines/Gordon and Breach Publishers, 2 vols.         [ Links ]

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Recebido para publicação em maio de 2001.

Aprovado para publicação em julho 2001.

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