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História, Ciências, Saúde-Manguinhos
Print version ISSN 0104-5970
Hist. cienc. saude vol.8 suppl.0 Rio de Janeiro 2001
doi: 10.1590/S0104-59702001000500012
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Os viajantes e a biogeografia Travellers and Biogeography
Nelson Papavero Professor visitante do Museu Paraense Emílio Goeldi e
Dante Martins Teixeira Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Quinta da Boa Vista
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| Criacionismo e traducianismo Preliminarmente, necessitamos introduzir dois termos, 'criacionismo' e 'traducianismo', adaptados à biogeografia por Papavero e Balsa (1986, p. 152; ver também Papavero et alii, 1995; Papavero et alii, 2000). A biogeografia traducianista e o livro do Gênesis Que o patriarca Noé levara em sua arca, por ordem divina, sete casais de cada espécie de animais puros e um casal de cada espécie de animais impuros, a fim de salvá-los do dilúvio (que, diga-se preliminarmente, foi quase sempre aceito como um fenômeno universal, e não local) foi questão mais ou menos pacífica entre os pensadores e filósofos naturais da Europa cristã, até pelo menos o século XVIII. Cessado o cataclismo e escancarada a porta da arca, esses animais, obedecendo a ordem de Deus ("crescei e multiplicai-vos"), voltaram a povoar o mundo (Browne, 1983). O traducianismo biogeográfico de santo Agostinho e o problema das barreiras à livre dispersão Uma vez isso resolvido, tem-se que enfrentar um problema decorrente: como podem animais que não conseguem atravessar grandes extensões de mares, por não serem capazes de voar ou nadar, povoar as ilhas oceânicas e talvez outros continentes distantes do Velho Mundo? Este problema, o das "barreiras à livre dispersão", preocupou sempre os biogeógrafos dispersionistas ou traducianistas, e santo Agostinho foi o primeiro a tentar solucioná-lo. Ainda em A cidade de Deus no capítulo intitulado 'Questão acerca das ilhas remotas, se elas receberam sua fauna a partir dos animais que foram preservados na arca durante o dilúvio' , concluiu que os animais que sabiam nadar ou voar passaram às ilhas por seus próprios meios. Os que tinham alguma utilidade para os homens (na caça, na agricultura etc.) foram por estes transportados em canoas. A grande maioria das espécies, contudo, não se enquadra em nenhuma dessas duas categorias; para elas, o grande doutor da Igreja só teria visto uma solução: "Não se pode negar que, pela intervenção dos anjos, esses seres (os animais) tenham sido transferidos (para as ilhas oceânicas remotas) pela ordem ou permissão de Deus." Santo Agostinho postulava assim, pela primeira vez, agentes externos que promoviam a dispersão a longas distâncias dos animais, 'saltando' barreiras naturais. Essa solução é recorrente na literatura traducianista; vamos encontrá-la, só para citar alguns autores, em Lineu (1744), De Candolle (1821) e Charles Darwin (1859). A questão dos antípodas Aristóteles havia explicado, em Meteorologica, que a Terra era dividida em cinco zonas climáticas latitudinais duas glaciais, próximas aos pólos, duas temperadas, e uma zona média tórrida, situada no equador, tão quente e sáfara que não possuía nem águas nem pastagens. Assim, as duas zonas temperadas (norte e sul), aptas para serem habitadas, não podiam ter comunicação alguma entre si, inexoravelmente separadas pela zona tórrida. Endossando a opinião de outros sábios gregos, Aristóteles acreditava que havia também terras no hemisfério sul do globo terrestre, o que garantia certa simetria e o próprio equilíbrio de nosso planeta. Seriam essas terras do hemisfério sul habitadas por homens e animais? É coisa com que os antigos não chegaram a se preocupar, pelo que consta. O impacto da descoberta da fauna americana pelos europeus A descoberta, pelos europeus, de animais e populações humanas no Novo Mundo, notadamente na América do Sul, foi o mais severo teste que a biogeografia traducianista de origem bíblica teve que arrostar. Esse fato obrigou os pensadores a formular novas hipóteses ad hoc para imunizar a teoria. A imunização do traducianismo bíblico Para salvar o traducianismo biogeográfico vigente, várias hipóteses ad hoc foram propostas. O criacionismo no século XVII Entrementes, crescia assustadoramente o número das espécies novas assinaladas no Novo Mundo. As antigas idéias sobre hibridação de espécies animais iam sendo cada vez mais restritas a raros casos; híbridos interespecíficos, quando existiam, eram estéreis, o que chegou a invalidar as conjeturas de Raleigh e Kircher. Como explicar, pois, a imensa diversidade de formas animais encontrada nas Américas? E por que eram tão diferentes das do Velho Mundo? Ulteriores progressos da biogeografia Nos séculos XVIII e XX, sucederam-se várias teorias, criacionistas e traducianistas, que não podemos examinar neste curto espaço. Entre as traducianistas, situam-se as de Lineu (De telluris habitabilis incremento, 1744; Papavero e Pujol-Luz, 1999) e a de Buffon (1778; Papavero, Teixeira e Llorente-Bousquets, 1997), incluindo a de Darwin (proposta em A origem das espécies, 1859). O mito da natureza intocada A paciente e continuada tarefa de inventariar as espécies vivas não só gradualmente contribuiu para testar e/ou reformular as diversas teorias biogeográficas e evolutivas, mas mostrou igualmente os padrões geográficos (regiões e sub-regiões) formados pelas espécies. Neste último domínio, uma importantíssima contribuição dada pelos viajantes naturalistas, em geral pouco apreciada e utilizada, mas de suma importância para o estudo da biogeografia de certos grupos de vertebrados, é mostrar o quão alterada, por ação antrópica, se encontra a distribuição de certas espécies. Este fato foi amplamente demonstrado por Teixeira (2000). Diz ele que, embora sujeita a diversas premissas, a documentação produzida durante o período da dominação holandesa (idem, 1992, 1993, 1995, 1997, 1998a-d) sem dúvida alguma fornece um quadro privilegiado da avifauna brasileira durante o século XVII. As 156 espécies silvestres nativas assinaladas equivalem a nada menos de 32,50% das 480 aves registradas para Pernambuco e a 46,15% das 338 aves mencionadas para a Paraíba (Farias, Brito e Pacheco, 1999; Schulz Neto, 1995). No caso do nordeste extremo do país, tal circunstância se reveste de particular interesse em face da destruição em grande escala das paisagens naturais observada na região, processo sem paralelo até mesmo na derrocada das matas atlânticas meridionais (Dean, 1996). Em nenhuma outra parte do Brasil a dura promessa de uma ocupação desregrada do espaço natural foi cumprida de forma tão absoluta, estando o Nordeste refém de uma monocultura de exportação que se mostrou capaz de erradicar as formações florestais e de alterar profundamente as paisagens mais secas do interior. A julgar pelos comentários de Schubart (1938), os 148.054km2 de 'matas' antes encontrados no nordeste extremo do Brasil estavam reduzidos, no ano de 1934, a meros 50.527km2 (34,12% da área original), dos quais 27.234km2 pertenciam ao Ceará (42,78% da área original), 6.361km2 ao Rio Grande do Norte (47,18% da área original), 462km2 à Paraíba (2,24% da área original), 13.759km2 a Pernambuco (41% da área original), 2.689km2 a Alagoas (34,69% da área original), e 22km2 a Sergipe (0,24% da área original). Com a mecanização da lavoura introduzida por volta da década de 1960, a agroindústria açucareira terminaria por ocupar todos os terrenos planos disponíveis, inclusive os "tabuleiros" que haviam logrado subsistir. O derradeiro golpe seria desferido por volta de 1979, graças à implantação de um programa governamental para a produção de álcool combustível em larga escala, iniciativa que desdobrou as plantações de cana-de-açúcar rumo às áreas montanhosas e ao sertão. Entre 1981 e 1983, a destruição da zona da mata nordestina assumiria proporções catastróficas com a erradicação quase completa das florestas regionais e a perda de grande parte das áreas de transição observadas entre os ambientes florestais e as outras formações (Projeto Radam-Brasil, 1981a, 1981b, 1983). Nesse período, os 48.611km2 de matas antes existentes do Ceará a Sergipe estavam reduzidos a inacreditáveis 98km2 (0,20% da área original), enquanto que os 77.907km2 de ecótonos mal chegavam a 36.981km2 (47,46% da área original). Nos dias de hoje, a paisagem regional oscila entre um ininterrupto cinturão de canaviais costeiros e os degradados carrascos que substituíram boa parte da caatinga primitiva (Coimbra-Filho e Câmara, 1996). |
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Recebido para publicação em setembro de 2000.
Aprovado para publicação em março de 2001.











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