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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.7 no.3 Rio de Janeiro Nov. 2000/Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702001000600003 

 

 

 

 

Saúde pública e as empresas químico-farmacêuticas

Public health and chemical-pharmaceutical companies

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maria Alice Rosa Ribeiro

Professora do Departamento de Economia da Faculdade
de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista
(Unesp), Campus de Araraquara
Rodovia Araraquara—Jaú, km 1.
14800-901 Araraquara — SP Brasil
marr@zaz.com.br

 

RIBEIRO, M. A. R.: 'Saúde pública e as empresas químico-farmacêuticas'. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VII(3): 607-626, nov. 2000-fev. 2001

O artigo trata da formação da indústria farmacêutica brasileira. Aborda algumas questões de história econômica e social, tais como o surgimento do sistema de saúde pública, as práticas de combate às doenças infecciosas, desde as desinfecções e produção de substâncias químicas pela indústria, à soroterapia e produção de soros e vacinas nas instituições de pesquisa científica públicas e nas empresas farmacêuticas privadas. Toma para análise da indústria farmacêutica privada nacional, a empresa Instituto Pinheiros Produtos Terapêuticos S.A., enfatizando as relações entre seus cientistas, no desenvolvimento de produtos, de tecnologia e da própria discussão científica com as instituições públicas de pesquisa criadas no âmbito da política de saúde pública pelo estado de São Paulo.

PALAVRAS-CHAVE: história da saúde pública, história das ciências e da tecnologia, indústria química no Brasil, Instituto Pinheiros, empresa farmacêutica brasileira, Instituto Butantã, a produção de medicamentos, imunológicos, soros e vacinas.

 

RIBEIRO, M. A. R.: 'Public health and chemical-pharmaceutical companies'. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VII(3): 607-626, Nov. 2000-Feb. 2001.

This article is concerned with the establishment of the Brazilian pharmaceutical industry. It addresses some issues of relevance to social-economic history, such as the emergence of the public health system, procedures for combating infectious diseases, the relations between disinfection campaigns and the chemical industry, serotherapy and the production of serums and vaccines by public research institutions and private pharmaceutical companies. Focusing on the private pharmaceutical industry in Brazil, with special reference to the Instituto Pinheiros — Produtos Terapêuticos S.A., this article highlights the relations between scientists technology and product development. It also considers the debate which involved the scientific community and some governmental research institutions for public health policy development in the state of São Paulo.

KEYWORDS: public health history, science and technology history, the chemical industry in Brazil, Instituto Pinheiros, Instituto Butantã, serum and vaccine production.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1Na referência, não consta o nome da fábrica. Suzigan (1986) utilizou como fontes os relatórios produzidos pelos representantes dos governos britânico e norte-americano no Brasil. As referências citadas foram as seguintes: Department of Overseas Trade, Economic Conditions in Brazil. September 1936, Report by E. Murray Harvey, Commercial Secretary, H. M. Embassy, Rio de Janeiro and W. G. Bruzand, Commercial Secretary to H. M. Embassy at Rio de Janeiro. London: H. M. S. O, 1937, p. 83; Concannon e Swift, World chemical developments in 1936, United States, Department of Commerce, Bureau of Foreign and Domestic Commerce, Trade Promotion Series no 169. Washington , GPO, 1937, p. 146; Brazil, Ministry of Foreign Affairs 1939-1940, p. 285 and United States. Trade Information Bulletin. The Chemical Industry and Trade of Brazil. United States, no 807, 1932.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Há inúmeros trabalhos escritos pelos próprios pesquisadores do Butantã sobre a sua história, dentre eles ressaltamos aqueles que foram usados como fonte nesse artigo: Amaral (1933); Vital Brazil (1941); Fonseca (1954, pp. 269-319); Vaz (1949). Há ainda os trabalhos de historiadores da ciência, dentre eles, ressalto o de Camargo (1984); Benchimol e Teixeira (1993); Gualtieri (1994).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 Gambeta (1982-83). A pesquisa histórica feita pelo autor se baseou em documentos consultados nos arquivos do Instituto Pasteur e em artigos de revista Arquivos de Biologia no período 1916-65.

 

 

 

 

 

 

 

 

  

4 Em 1928, a taxa de câmbio em relação ao dólar era de 8$360 mil-réis/dólar, ver Villela e Suzigan (1975, p. 308).
O padrão monetário brasileiro era o mil-réis, expresso como sendo Rs 1$000, e equivalia a 15 a 33 centavos de dólar até a Primeira Guerra Mundial. A moeda divisionária era o real, 1.000 dos quais constituíam o mil-réis, sendo duzentos réis escrito $200. Um conto de réis era expresso Rs 1:000$000 e equivalia a 1.000 mil-réis. Em 1926, conforme reforma monetária, o mil-réis foi fixado em 200 miligramas de ouro, mas isso não chegou a termo e a desvalorização continuou. Em 1942, o mil-réis mudou para cruzeiro.

 

 

 

 

 

  

 

5 No artigo publicado em O Pinhão, órgão da Associação dos Funcionários do Instituto Pinheiros (São Paulo, ano V, no 27, maio-jun., 1953, p. 1), o capital era de Cr$ 600.000,00 em 1936. A taxa oficial de câmbio de 1939 era de 18$500 mil-réis por dólar, o capital investido equivalia portanto a US$135.135,13. A taxa de câmbio oficial manteve-se estável até 1946.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A autora agradece aos pareceristas pelas valiosas sugestões e a Jaime Larry Benchimol pelos pertinentes comentários.

Introdução

   A história da indústria farmacêutica brasileira guarda uma forte relação com a instituição da saúde pública, das práticas sanitárias de prevenção e de combate às doenças infecciosas e, em especial, com as instituições de pesquisa básica e aplicada criadas com a organização do Serviço Sanitário de São Paulo, tais como Instituto Bacteriológico (Instituto Adolfo Lutz, atualmente), Instituto Butantã e com o Instituto Biológico, responsável pela defesa sanitária da agropecuária ligado à Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo.
     Este artigo faz parte do trabalho de pesquisa que vem sendo realizado, logo ele não tem a pretensão de ser conclusivo, apenas busca trazer algumas das idéias e interpretações suscitadas pelo manuseio da documentação, até o momento, sistematizada. A preo-cupação que perpassa todo texto é mostrar a construção da rede de relações entre as instituições públicas criadas no âmbito da saúde pública e a formação da indústria farmacêutica nacional, focalizando a empresa Instituto Pinheiros — Produtos Terapêuticos S.A. O Instituto Pinheiros foi uma empresa privada de capital nacional criada por médicos treinados por cientistas ligados ao Instituto Butantã em 1928. No decorrer do seu funcionamento, a empresa estabeleceu intercâmbios e contatos com cientistas ligados às instituições públicas de pesquisa científica, tais como o Instituto Biológico e o próprio Instituto Butantã. Dedicando-se à produção de medicamentos biológicos, o Pinheiros adquiriu projeção nacional, transformando-se na maior empresa produtora de antitoxinas e vacinas, responsável por 80% do abastecimento do mercado nacional, competindo com Manguinhos e com o próprio Instituto Butantã.
     Os cruzamentos entre a história social saúde pública, práticas terapêuticas e a formação da elite científica nacional pelas instituições públicas de pesquisa científica e de produção de imunológicos e a história econômica a formação da indústria farmacêutica privada, origem dos empresários e dos técnicos e do desenvolvimento científico e tecnológico são questões destacadas no artigo. Em conseqüência, adota-se como perspectiva interpretativa que a política de saúde pública, num sentido amplo, envolvendo a constituição de diversas instituições, acabou por provocar o surgimento, no âmbito econômico, de empresas privadas de produção de medicamentos e imunológicos para atender as novas demandas exigidas pelas práticas terapêuticas de preservação das condições de saúde da população.
     O artigo está dividido em duas partes: a primeira discute a definição de uma política de saúde pública no estado de São Paulo, enfatizando as duas formas de combate das moléstias infecciosas — desinfecções e vacinação , para explicitar as relações entre as desinfecções e a indústria química e a organização da produção pública de vacinas e soros no Instituto Butantã; a segunda analisa a produção privada de soros e vacinas e outros imunológicos pelo Instituto Pinheiros — Produtos Terapêuticos S.A.  

O surgimento da política de saúde pública no centro dinâmico da economia cafeeira

     A política de saúde pública no estado de São Paulo teve seu nascimen-to no âmbito da expansão cafeeira para a região do Oeste Paulista. Antes de 1892, quando começou a ser estruturado o Serviço Sanitário de São Paulo, as iniciativas no campo da saúde pública restringiram_se à cidade do Rio de Janeiro e a algumas poucas cidades portuárias (Recife, Salvador, Santos). O caráter das medidas sanitárias era esporádico, coincidindo as intervenções com as eclosões de epidemias, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império, e, mais tarde, da República. Ao contrário, a experiência paulista já revelava, ao promover a articulação de uma rede de instituições de pesquisa científica em apoio às práticas sanitárias, a definição de uma política de saúde pública de longo prazo e não mais episódica. Com o objetivo de controlar e debelar doenças infecto-contagiosas ou transmissíveis, as práticas sani-tárias de combate às doenças infecciosas comportavam fundametalmente três formas de ação: isolamento, desinfecções e vacinação.

Saúde pública: desinfecções e a indústria química

     Durante as eclosões epidêmicas e no controle das doenças transmissíveis, as desinfecções constituíam as principais práticas de saúde pública. Elas eram práticas derivadas da concepção de que as doenças eram produzidas por germes e miasmas, substâncias produzidas por matérias orgânicas em decomposição e transmitidas pelo ar. A mistura de concepções revelava o momento de transição, da teoria miasmática para a bacteriológica, por que passavam as ciências biológicas. O combate às doenças infecto-contagiosas dava-se por meio da ação de substâncias químicas desinfetantes, o que levou o Serviço Geral de Desinfecções a ocupar o lugar central entre as instituições de saúde pública criadas pelo Serviço Sanitário. Juntou-se à concepção miasmática o desconhecimento acerca das condições epidemiológicas de algumas moléstias infecciosas, como da febre tifóide e da febre amarela, reforçando o papel das desinfecções como a estratégia dominante entre as práticas de saúde pública.
     As práticas das desinfecções envolviam o emprego de grandes quantidades de diferentes produtos fabricados pela indústria química. Observava-se, pela primeira vez, a articulação entre a saúde pública e a indústria numa dimensão ampliada. Não se tratava de substâncias químicas aviadas, em doses reduzidas, em fórmulas especiais para tratamentos individuais, mas do emprego de grandes volumes de compostos e substâncias químicas para a desinfecção das cidades, dos portos, dos cortiços, das hospedarias de imigrantes etc. Os imigrantes e os trabalhadores pobres eram os principais alvos das desinfecções: suas casas e seus pertences (roupas, malas) eram submetidos à ação de desinfetantes químicos, câmaras de enxofre e incineradores. De modo geral, o Serviço de Desinfecções dirigia-se para os espaços urbanos mais deteriorados, onde se concentravam habitações mais baratas e, conseqüentemente, a população mais pobre.
     A saúde pública, por meio do órgão responsável pelas desinfecções, o Serviço Geral de Desinfecções, passou a demandar quantidades crescentes de produtos químicos, tais como sulfato de cobre (o material mais utilizado pelo serviço), cloreto de cal, ácido sulfúrico, enxofre, ácido fênico, sulfato de ferro, bicloreto de mercúrio, carbonato de soda e ácido clorídrico, cresol, cal, álcool, vaselina, permanganato de potássio e, mais ainda, os compostos, lisol e creolina. A desinfecção era feita nos aposentos e prédios, onde se registrara a doença, espargindo-se os compostos químicos nas paredes, no teto e no assoalho. O gás sulfuroso, obtido da queima do enxofre, também era usado para impregnar todos cantos e recantos da casa (Simões, 1897, pp. 28-30). A composição das substâncias químicas variava de acordo com o local a ser desinfetado, casas, ruas, praças, prédios públicos, terras removidas para a instalação da rede de água e de esgotos.
     A maioria das substâncias químicas era importada de grandes empresas da Alemanha, da Inglaterra e dos Estados Unidos pelo Serviço Sanitário ou por firmas importadoras nacionais, farmácias e drogarias, como a Baruel e a Botica do Veado d'Ouro. A indústria química brasileira não possuía capacidade para atender a demanda derivada do gasto em saúde pública. A história da indústria química nacional liga-se à existência de determinados recursos naturais, vegetais, minerais e animais, disponíveis no país. Não bastava a presença de recursos naturais, era preciso desenvolver o conhecimento científico e tecnológico para tornar os recursos brutos em produtos passíveis de entrarem novamente no processo produtivo, como matérias-primas ou insumos a serem transfor-mados em novos produtos. Um segmento da indústria química baseado nos recursos vegetais formou-se muito cedo, sendo constituído por pequenas unidades que produziam artigos, como anilinas vegetais, óleos e ceras vegetais, óleos essenciais e medicamentos nativos. O baixo conteúdo tecnológico incorporado ao processo produtivo e ao produto explica por que esse foi o primeiro segmento da indústria química a se estabelecer nos países da periferia.
     Nas duas últimas décadas do século XIX, a indústria química dos países industrializados sofreu uma transformação radical no processo de produzir substâncias químicas de uso terapêutico, com a descoberta da síntese orgânica nos laboratórios das grandes empresas. Aos poucos, as substâncias químicas e terapêuticas produzidas nesses grandes laboratórios estrangeiros acabaram por substituir a produção nacional de anilinas e de outros produtos orgânicos, reduzindo a produção de artigos químicos e terapêuticos com base em vegetais.
     Ao contrário dos produtos químicos e terapêuticos de origem vegetal, a produção derivada de minerais começou muito mais tarde, possivelmente por exigir maior complexidade científica e tecnológica no processo de transformação da matéria-prima em produto terapêutico. Outra razão do relativo atraso no estabelecimento do segmento deve-se ao fato de ele não dispor da produção de matérias-primas no mercado nacional e, portanto, depender da importação de substâncias, tais como enxofre, nitratos, álcalis, barrilha, cloro etc. Os insumos minerais básicos, sob a forma mais elaborada e já preparada para uso no processo de produção de terapêuticos, não eram disponíveis no país (Suzigan, 1986, p. 307).
     A produção de químicos pesados restringia-se à soda cáustica, aos ácidos comerciais, e mais anilinas, corantes e tintas. Até a Primeira Guerra Mundial, a soda cáustica era o principal produto químico da pauta de importações brasileiras. Com as dificuldades de importação surgidas durante a guerra, a produção interna passou a ser estimulada e se tornou economicamente viável. O processo eletrolítico adotado na fabricação da soda cáustica trouxe duas vantagens: o emprego da matéria-prima abundante no país, sal, e a geração de dois subprodutos, justamente as mais importantes substâncias químicas usadas nas desinfecções: o cloro e o ácido clorídrico (Suzigan, idem, p. 309; Ribeiro, 1993, pp. 28, 30-3). Em 1921, a empresa química denominada Companhia Brasileira de Produtos Químicos, localizada no Rio de Janeiro, era a única firma a produzir soda cáustica, sendo instalada com equipamentos modernos e com capacidade de produzir cerca de cinco toneladas de soda cáustica e mais dez toneladas de cloreto de cálcio em 24 horas. Pouco tempo depois, a fábrica faliu, segundo consta, por falta de proteção em decorrência do restabelecimento do comércio com o término da guerra, passando o mercado nacional a ser abastecido novamente por exportadores norte-americanos e britânicos. Em 1936, uma nova fábrica de soda cáustica foi instalada1 com equipamento alemão, sendo dirigida por técnicos vindos da Alemanha. Uma parte do investimento feito na fábrica fora financiado pela Caixa Econômica do Rio de Janeiro. Ao final da década, esta fábrica localizada em Alcântara, no Rio de Janeiro, era a única em funcionamento no país, produzindo 1.584 toneladas em 1938. Nas décadas seguintes, a produção de soda cáustica foi incrementada por investimentos diretos do governo federal na construção da Companhia Nacional de Álcalis em 1943 (Suzigan, 1986, p. 310).
     A produção de ácidos comerciais começou com a firma de Luiz de Queiroz & Cia. instalada em São Paulo em 1895. Sua produção atendia especialidades químicas e farmacêuticas. Produzia ácido sulfúrico (25t) e ácidos clorídrico e nítrico (6t). Na década de 1930, a empresa, cujo nome passou a ser Elekeiroz S.A., tornou-se a maior empresa nacional de produtos químicos e farmacêuticos (Estatísticas Industriais, 1928- 1934). Os principais ácidos produzidos no país eram o sulfúrico, acético, nítrico e clorídrico, sendo importados os ácidos cítrico, tartárico e tânico. Entretanto, a produção interna de ácidos sempre dependeu da importação de matérias-primas, como enxofre e nitrato.
     Do que se constatou na bibliografia e nas fontes estatísticas, pode-se concluir que o impacto da política de saúde pública foi muito pequeno sobre a indústria química nacional, e quem de fato lucrou foram os grandes produtores e exportadores estrangeiros e o comércio importador de substâncias químicas empregadas nas desinfecções.
     No final da década de 1920, a concepção miasmática da transmissão da doença já superada pelos avanços nos conhecimentos epidemio-lógicos, os quais mostravam que os canais de transmissão das doenças infecciosas eram mais complexos do que se presumia, concluíam que as desinfecções eram ineficientes para evitar os surtos epidêmicos e a própria doença. O Serviço Geral de Desinfecções foi extinto e os desinfec-tórios existentes em várias localidades espalhadas pelas cidades do interior e em Santos, além do Desinfectório Central da Capital, foram fechados e seus prédios destinados a outros fins. Nas palavras de um estudioso da história da saúde pública em São Paulo: "Após trinta anos de expurgos, chegar-se-ia à conclusão de que, apesar de aparatosas, as desinfecções domiciliares poderiam ser perfeitamente suspensas sem nenhum prejuízo à saúde pública" (Gambeta, 1988, p. 135).
     Benchimol (1990, p. 221) aponta que os novos conhecimentos sobre o comportamento dos micróbios patogênicos reduziram a importância das antigas noções da bacteriologia pasteuriana sobre perigo do ar no contágio das doenças e terminaram por influenciar a elaboração de uma nova concepção arquitetônica que substituiu a lógica da organização hospitalar baseada na ocupação do espaço, por meio da construção de hospitais pavilhonares. Essa concepção arquitetônica estava presente no Hospital de Isolamento de São Paulo (atual Emílio Ribas), cuja construção era formada por um conjunto de diversos pavilhões espalhados num imenso terreno próximo ao Cemitério da Consolação. Cada pavilhão era designado pela doença a que se destinava curar — Pavilhão da Febre Amarela, da Febre Tifóide, da Escarlatina, da Difteria e da Varíola —, sendo cada um deles dividido entre as enfermarias dos homens e das mulheres. É possível estender a mesma explicação à extinção dos serviços de desinfecções: uma vez retirada a importância do ar na transmissão das doenças infecciosas não fazia mais sentido manter as desinfecções, cujo objetivo era purificar o ar, exterminando os causadores invisíveis da doença. Carlos Chagas, quando diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública e do Instituto Oswaldo Cruz, apresentou um trabalho ao Office Internacional d'Hygiene Publyque em 1926, no qual faz uma retrospectiva dos avanços alcançados pela medicina experimental nos últimos dez anos. Nele apontava a inutilidade das medidas de desinfecção em função dos conhecimentos adquiridos sobre a transmissão das doenças infecciosas. No trabalho, citado por Benchimol, Chagas afirmava que os micróbios não encontravam condições favoráveis à sobrevivência e à reprodução fora do organismo infectado. Para as experiências realizadas nos laboratórios era preciso criar ambiente apropriado, os chamados "caldos de cultura", meios nutritivos especialmente preparados, para manter os microrganismo vivos e em condições propícias para se reproduzir. Isso levou Benchimol (op. cit., pp. 221-2, 234) a concluir que:

A verificação de que o ar, as paredes, pisos, móveis, cortinas e outros objetos inanimados tinham nula ou restrita importância como veículos de transmissão dos germes patogênicos, além de redirecionar a prática da saúde pública — tornando obsoletos, por exemplo os desinfectórios pelos quais Oswaldo Cruz tanto se batera — suprimia a legitimidade científica das regras de espacialização inerentes à arquitetura pavilhonar, destinadas a prevenir o contágio, abrindo caminho a um novo paradigma para as construções hospitalares.

Saúde pública: vacinas, soros e outros imunológicos — O Instituto Butantã e a produção de vacinas e soros

     A vacinação ocupou importante posição no combate a algumas doenças infecciosas, tais como varíola, raiva, peste, cujos meios de transmissão já eram conhecidos há algum tempo. No âmbito do Serviço Sanitário, duas instituições foram criadas para produzir vacinas e soros — o Instituto Vacinogênico (1890-03) e o Instituto Butantã (1899). Elas foram as primeiras instituições encarregadas de fabricar produtos biológicos no estado de São Paulo. A primeira destinava-se à produção de vacina contra a varíola, e a última à produção de soro contra a peste e, mais tarde, à produção de vacinas e soros contra picada de cobras, aranhas e escorpiões. O Instituto Butantã orientou sua pesquisa para um vasto espectro de problemas da saúde pública, mas o seu reconhecimento, nacional e internacional, veio dos estudos para o desenvolvimento de vacinas e de soros contra picadas de animais peçonhentos, ao passo que o Vacinogênico restringiu-se à produção da vacina contra a varíola, não se preocupando em ampliar seu campo de pesquisa biológica.
     A efetivação da política de saúde pública em São Paulo, por meio de suas instituições executoras da política sanitária, tais como os serviços de desinfecções e de vacinação e institutos de pesquisa científica, transformou o estado em difusor dos conhecimentos de bacteriologia e imunologia, em grande produtor de vacinas e soros e no maior consumidor de produtos químicos.
     No final da segunda década do século XX, enquanto as desinfecções eram, pouco a pouco, abandonadas, a produção de imunológicos — vacinas e soros — ganhava terreno no campo da saúde pública. O avanço dos conhecimentos em bacteriologia e imunologia propiciava a elaboração de novos agentes imunológicos capazes de combater as doenças transmissíveis, tais como difteria, tétano, febre tifóide etc., permitindo que vacinas e soros se tornassem os principais recursos no controle de algumas das mais importantes doenças infecciosas.
     Os estudos de microbiologia no país foram, pela primeira vez, desenvolvidos nos institutos públicos de pesquisa criados juntamente com a política de saúde pública. Essas instituições não se restringiam a cumprir os objetivos práticos de defesa sanitária pública, mas realizaram pesquisa básica e promoveram o desenvolvimento científico no campo da biologia. Uma peculiaridade do desenvolvimento do conhecimento científico biomédico foi que os institutos públicos de pesquisa pertencentes ao Serviço Sanitário foram criados como instituições indepen-dentes e antes mesmo da instalação do ensino médico. No caso de São Paulo, a institucionalização da saúde pública e a criação dos institutos públicos de pesquisa, como o Butantã e o Bacteriológico e, mais tarde, o Biológico (1927), ligado à defesa sanitária da agricultura e da pecuária, atuaram como responsáveis pela difusão dos conhecimentos da microbiologia e pela revolução no campo da medicina. Nos institutos foram instalados laboratórios experimentais que se tornaram os novos locais de estudos da biologia. Pode-se afirmar que, em São Paulo, os institutos públicos de pesquisa ligados ao Serviço Sanitário foram as primeiras instituições organizadas para desenvolver a ciência e a tecnologia em saúde pública. Dentre os institutos de ciências biológicas em São Paulo destacaram-se: Instituto Bacteriológico (1892), responsável pela execução de atividades de pesquisa básica e aplicada, serviços técnicos e científicos, assessoria, formação de recursos humanos e difusão de conhecimentos, além dos já mencionados Institutos Vacinogênico (1892), Butantã (1899) e Biológico (1927). Todos eram instituições de medicina experimental, dedicados ao estudo das causas, modos de transmissão e cura de moléstias infecciosas, baseando-se no experimento realizado no laboratório e na aplicação da soroterapia.
     A criação do Instituto Butantã está associada à eclosão de uma epidemia de peste na cidade de Santos em 1899. A cidade portuária era uma das mais importantes do estado de São Paulo, porta de entrada de imigrantes e mercadorias, e único porto de exportação do café produzido no chamado Oeste Paulista. A epidemia de peste transformou-se na grande ameaça à paralisação das atividades comerciais, ligadas ao principal produto de exportação do país, e da corrente imigratória, variável de ajuste do mercado de trabalho às necessidades de mão-de-obra e de salários baixos na lavoura cafeeira. Além disso, a epidemia poderia atingir as regiões produtoras de café e a própria cidade de São Paulo, regiões de alta densidade demográfica, pondo em risco as atividades econômicas em geral. O combate à epidemia envolvia o saneamento do porto, o extermínio de ratos e mais a aplicação de soro curativo nos indi-víduos infectados e de vacinas preventivas. No final do século XIX, o Instituto Pasteur de Paris era o único produtor de soro antipestoso. A falta de soro e as dificuldades para sua rápida importação foram os motivos que levaram o diretor do Serviço Sanitário de São Paulo, Emílio Ribas, a propor ao governo do estado a criação de uma instituição voltada à produção de soro contra a peste bubônica. O Instituto Butantã foi oficialmente estabelecido em uma fazenda adquirida pelo estado, na qual foram instalados os laboratórios e as cocheiras (Vital Brazil, 1941, p. 16).
     Em poucos anos, o Instituto Butantã tornou-se um dos maiores centros de pesquisa científica e produção de vacinas e soros do estado de São Paulo. Sobre o Instituto Butantã há uma coleção de trabalhos significativos.2 Cabe mencionar o trabalho de Benchimol e Teixeira (1993), como o mais expressivo sobre o Butantã. A originalidade do livro, cujo título já encerra a natureza da abordagem imprimida pelos autores ao tema, Cobras, lagartos & outros bichos, está em trazer à tona disputas entre as instituições e entre os cientistas. Uma verdadeira "fogueira de vaidades" permeia as atividades das instituições e de seus cientistas: em meio às disputas, o conhecimento científico é experi-mentado, forjado e produzido. O livro traz a preocupação em descrever as trajetórias seguidas por duas instituições — Manguinhos e Butantã — nascidas quase na mesma época e em decorrência do mesmo episódio: a falta de soro antipestoso para impedir o avanço da peste em Santos. As origens comuns, entretanto, não foram suficientes para que se forjassem instituições-gêmeas. A história comparada empreendida por Benchimol e Teixeira mostra que cada uma seguiu seu próprio caminho, o qual foi construído com base em escolhas e disputas entre seus cientistas. A liderança sobre um coletivo de cientistas definiu as escolhas das trajetórias científicas a serem seguidas. Manguinhos (Oswaldo Cruz e Carlos Chagas) voltou-se para a protozoologia, ao passo que o Butantã (Vital Brazil) escolhia o ofidismo. Essas escolhas não se processaram aleatoriamente, mas por empenho, inclinações, preferências e, também, muitas disputas entre os cientistas.
     Depois da epidemia de peste bubônica, o Butantã passou a realizar estudos sobre venenos de animais, em especial de cobras. Em 1901, Vital Brazil, seu diretor, produziu as primeiras doses de soro antiofídio, que foram distribuídas para a população rural, por meio dos inspetores sanitários do Serviço Sanitário do estado e das Comissões Sanitárias.
     Os estudos sobre animais peçonhentos foram orientados e estimulados por Vital Brazil, que, na prática, definiu sozinho o campo de estudos científicos, e irão conferir à instituição o reconhecimento internacional. O ofidismo não era novidade no país. Anos antes, João Batista de Lacerda, naturalista e autodidata, desenvolveu estudos sobre farmacologia e ofidismo no Laboratório de Fisiologia Experimental (1880), criado junto ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro. A inovação introduzida por Vital Brazil foi a determinação das propriedades dos soros, fornecendo evidências de que para cada gênero de cobra havia um soro específico para neutralizar o respectivo veneno. Essa nova proposição se contrapunha à teoria de Albert Calmette, assistente de Émile Roux, no Instituto Pasteur de Paris (1890), de que um único soro poderia ser aplicado contra qualquer veneno de cobra, independentemente do gênero. Vital Brazil provou que o soro de Calmette preparado com veneno da cobra do gênero Naja naja era inativo contra os venenos de Bothrops (jararaca) e Crotalus terrificus (cascavel), os dois principais gêneros encontrados no Brasil e em outros países da América do Sul.
     Como resultado da aplicação do soro antiofídico, a mortalidade rural decorrente de mordida de cobra declinou em mais de 60% entre 1906 e 1926. A difusão do soro deveu-se a um engenhoso sistema de troca entre o Instituto Butantã e os fazendeiros. O instituto enviava doses de soro, seringas, agulhas e material de captura de cobras (caixa, corda etc.) para os fazendeiros em troca de cobras, ampliando o serpen-tário, a coleção e o número de animais para a extração do veneno.
     Com o criativo sistema de troca, o Instituto Butantã estimulou o uso de produtos biológicos no tratamento de acidentes causados por animais peçonhentos, difundiu novos conhecimentos da ciência biológica e ensinou a população rural as vantagens de abandonar as práticas e os remédios prescritos por feiticeiros e charlatães, em favor de remédios resultantes da experimentação laboratorial e do conhecimento científico.
     Entre 1906 e 1907, o instituto começou a produzir soro antidiftérico e a tuberculina, substância empregada no diagnóstico da tuberculose humana. Com as novas instalações, terminadas em 1914, o instituto pôde ampliar a linha de produtos, passando a constar de sua produção, soros antiestafilocócico, antidisentérico e antiescorpiônico.
     Entre 1914 e 1918, o instituto viveu um período próspero no desenvolvimento da pesquisa científica e na produção de soros e vacinas. Realizava serviços em difteria e peste, exames histopatológicos e estudos sobre tétano e tuberculose, produzindo soro antitetânico, soro antidiftérico, soro antipestoso, tuberculina e maleína para diagnóstico. Dentre as vacinas, produzia a antiestreptocócica (e também o soro) e a antiestafilocócica, além de soluções medicamentosas com peptona e neurotônica. Realizava exames e fiscalização nos produtos biológicos fabricados por laboratórios privados, os quais somente com sua aprovação poderiam ser comercializados no estado de São Paulo.
     Além do preparo de soros e vacinas requisitados pela saúde pública, o Butantã estudava a sistemática e a biologia das serpentes do Brasil, os diferentes venenos, sob o ponto de vista químico e toxicológico, e a biologia dos insetos sugadores responsáveis pela transmissão de moléstias infecciosas. Os estudos realizados no Butantã distribuíam-se por diversos campos do conhecimento: higiene, bacteriologia, imunologia, fisiologia, escorpionismo e aracnismo. Em 1928, as Memórias do Instituto Butantã começaram a ser publicadas, e cursos de higiene pública foram organizados para serem oferecidos a diretores e professores das escolas normais e dos grupos escolares.
     Em 1919, Vital Brazil pediu sua aposentadoria, deixando o Butantã. A nova orientação do Serviço Sanitário, sob a direção de Arthur Neiva, foi a razão do seu afastamento e da crise que se instalou na instituição. A nova orientação passou a priorizar o estreitamento dos laços entre pesquisa científica e tecnológica e a produção de medicamentos. Sob essa orientação, foi construído o Pavilhão da Quinina, cujo objetivo era a produção da droga usada no tratamento da malária; entretanto, a falta de matéria-prima impediu sua produção. Uma vez desativadas, as instalações do Pavilhão da Quinina foram utilizadas para a fabricação de medicamentos em geral, recebendo a denominação de Instituto de Medicamentos Oficiais (IMO). O objetivo do IMO era o estudo de plan-tas medicinais e a preparação de medicamentos com base em plantas nativas contra as mais freqüentes moléstias infecciosas, em especial, verminoses intestinais. Um jardim botânico, Horto Oswaldo Cruz, dirigido pelo botânico F. C. Hoehne, foi destinado ao cultivo de plantas tóxicas e medicinais e de várias espécies de quina e de chenopódio. O químico Alfredo de Araújo Lima ficou encarregado de preparar óleos essenciais de chenopódio para a preparação de vermífugos, enquanto Hoehne estudava vegetais anti-helmínticos, publicando seu famoso trabalho sobre plantas empregadas na terapêutica popular paulista, intitulado O que vendem os herbanários de São Paulo (Ribeiro, 1997, p. 33). Em 1924, o IMO foi fechado, as instalações abandonadas e o horto acabou indo para o Museu Paulista e, em 1927, para o Instituto Biológico. O fracasso do IMO talvez possa ser atribuído à falta de recursos para atender a objetivos tão ambiciosos que excediam as condições financeiras, comerciais e de pessoal do Instituto Butantã.
     Em 1920, uma nova vacina para a prevenção da tuberculose começou a ser preparada, a BCG (Bacilo Calmette-Guérin), enquanto o Butantã passava a produzir em larga escala a vacina contra a febre tifóide.
     Em 1931, com a reforma do Instituto Butantã, a instituição reafirmou sua atuação na medicina experimental, não mais subordinada ao Serviço Sanitário, mas à Secretaria de Educação e Saúde Pública. Pelo novo regimento, o instituto poderia se dedicar a realizar trabalhos científicos sobre animais venenosos; estudar questões referentes à patologia humana ou a ela aplicáveis — investigar especialmente imunologia ou fenômenos de imunidade; preparar produtos biológicos necessários à defesa sanitária; realizar investigações sobre plantas medicinais brasileiras; vender produtos biológicos não utilizados pelas secretarias estaduais, criando recursos a serem utilizados nas atividades de pesquisa.
     Na década de 1930, ao lado da organização mais racional da produção de vacinas antivariólicas, o Butantã atravessou uma fase de crise institucional que se estendeu de 1938 até metade da década de 1950. Em 1948, o governo limitou as atividades produtivas à preparação de produtos de defesa sanitária e à pesquisa de animais peçonhentos.  

O Instituto Pinheiros: um exemplo de empresa privada nacional dentro da indústria farmacêutica brasileira

     O estabelecimento de uma política de saúde pública no estado de São Paulo representou a própria institucionalização das ciências microbiológicas. Apoiando-se nos institutos públicos de pesquisa científica e de produção de vacinas e soros, a institucionalização das ciências pelo Estado influenciou a formação de um segmento da indústria farmacêutica voltado para a fabricação de produtos biológicos. Pode-se dizer que o estabelecimento de uma moderna indústria farma-cêutica nacional baseada na pesquisa, no controle de qualidade do produto, no desenvolvimento de novos produtos e no planejamento e na racionalização de uma rede de distribuição e comercialização de produtos foi o resultado não intencional da política de saúde pública e de institucionalização das ciências biomédicas.
     Um dos primeiros estudos a chamar atenção para as relações entre uma instituição de pesquisa científica e a indústria farmacêutica foi realizado por Gambeta (1982).3 A ligação exposta pelo autor em seu trabalho é entre o Instituto Pasteur, entidade privada de caráter beneficente organizada por médicos e membros da elite paulista, comer-ciantes, banqueiros e industriais, para atender os casos de mordidos por cães raivosos, e o Laboratório Paulista de Biologia (LPB), empresa farmacêutica fundada por antigos proprietários do Instituto Pasteur. Segundo Gambeta, a atuação do Instituto Pasteur contribuiu para o desenvolvimento da tecnologia necessária para o fabrico de medicamentos com base científica; introduziu a farmacologia pasteuriana complementando à galênica e estimulou a divulgação de produtos biológicos entre farmacêuticos e médicos e junto ao público em geral, abrindo caminho para a industrialização de medicamentos, atualmente, denominados `éticos' (op. cit., p. 91). A organização da empresa Laboratório Paulista de Biologia, em 1912, significou a aliança entre a pesquisa científica e a produção em larga escala de medicamentos. Gambeta, portanto, chama atenção para os laços entre uma entidade privada de pesquisa e produção de imunológicos e o estabelecimento da produção de medicamentos nos moldes capitalistas. Segundo este autor, o Estado teve atuação restrita no estabelecimento do Instituto Pasteur, ajudando com recursos financeiros, mas sem participar da gestão ou da definição de suas prioridades. Para o autor, o Estado reservou para sua atuação a área de saúde pública, sem forjar vínculos com a organização de empresas privadas produtoras de medicamentos em base capitalista. A explicação do autor para o limitado incentivo dado pelo Estado à iniciativa privada encontra-se no que ele designou de "agrarismo da oligarquia paulista". Em outras palavras, o predomínio econômico e político do setor agrário e mercantil tolheu as possibilidades de interação entre os institutos públicos de pesquisa e as empresas privadas (op. cit., pp. 95-97).
     O estudo sobre a trajetória do Instituto Pasteur realizado por Teixeira (1995) traz, em seus últimos capítulos, a narrativa e a análise das possíveis causas do esfacelamento do Instituto Pasteur. Da leitura dos capítulos pode-se concluir que o destino dado ao patrimônio físico e intelectual do Instituto Pasteur reflete a contradição que esteve sempre presente na instituição: uma entidade privada, mas que para sobreviver dependia das subvenções públicas. O patrimônio físico, prédio, insta-lações e equipamentos foram doados ao Serviço Sanitário, que finalmente assumiu o combate à raiva, como um programa de saúde pública. Enquanto o patrimônio físico era doado ao Estado, o patrimônio intelectual, diretores científicos e demais técnicos, se transferia para a iniciativa privada, metamorfoseando-se em empresa capitalista. Segundo Teixeira, a rápida ascensão do Laboratório Paulista de Biologia (LPB) no mercado farmacêutico deu-se graças à qualificação profissional e à experiência adquirida por seus técnicos e funcionários durante os anos de atividades no Instituto Pasteur.
     Em ambos os trabalhos, no de Gambeta e no de Teixeira, são ressaltadas as ligações entre as instituições de pesquisa e a indústria farmacêutica, no âmbito da iniciativa privada. Em trabalho anterior, Benchimol e Teixeira (1990, pp. 175, 142) haviam extrapolado o que ocorrera com o Instituto Pasteur para instituições de pesquisa organizadas no âmbito do próprio Estado. Nos anos da Primeira Guerra Mundial, a produção nacional de medicamentos expandira-se com a transferência de pesquisadores de instituições biomédicas públicas para a iniciativa privada. A "mercantilização da ciência", como os autores intitulam o capítulo, trata das ligações entre os laboratórios privados e os institutos públicos de pesquisa e produção de medicamentos: Manguinhos e Butantã. Os autores consideram que a difusão do consumo de produtos elaborados nos laboratórios dos institutos públicos tornou a atividade produtiva lucrativa, e os cientistas das instituições públicas, que detinham o saber-fazer, passaram a ter interesse no estabelecimento de empresas ou no trabalho realizado na iniciativa privada. O know-how adquirido pelos profissionais em instituições estatais, segundo Teixeira, "seria posto a serviço de interesses mercantis".
     Procura-se, no presente artigo, seguir a evidência já exposta por Benchimol e Teixeira, sustentando a tese que a elite paulista era capitalista antes de "agrarista" e que possuía pretensões e ambições a exercer não somente a liderança econômica e política, mas também, intelectual e científica no país (Szmrecsányi e Velho, 1997, pp. 195-7; Szmrecsányi, 1996, pp. 9-19). O pioneirismo paulista na definição de uma política de saúde pública abrangente e integrada é uma das provas dessa posição, que redundou na elevação da ciência pasteuriana à ciência oficial. Decorre daí, também, o fato de que a ciência biomédica foi a primeira das ciências básicas a ser institucionalizada, tornando-se objeto de estudos e pesquisas em instituições criadas especialmente para este fim. Sustenta-se, portanto, que, sem objetivar a criação de empresas privadas farmacêuticas, a política de saúde pública, por seu caráter abrangente, acabou, de forma indireta, influenciando a formação da moderna indústria farmacêutica.
     Os cientistas formados nos institutos públicos de pesquisa fundaram empresas farmacêuticas privadas ou trabalharam nelas, como diretores científicos, assistentes científicos ou pesquisadores. Na verdade, os institutos de pesquisa em medicina experimental e saúde pública foram os núcleos formadores de cientistas para uma indústria que agregava alto valor científico aos seus produtos. A indústria farmacêutica constitui um dos exemplos mais significativos de indústria que incorpora ciência ao processo produtivo e ao produto.
     Há inúmeros exemplos citados por Benchimol e Teixeira (1993, p. 177) de cientistas do Butantã e de Manguinhos que fundaram laboratórios privados. Alguns deixaram as instituições de origem e se dedicaram integralmente à iniciativa privada, outros mantiveram suas atividades nas instituições públicas, e ainda há aqueles que saíram da iniciativa privada e ingressaram nas instituições de pesquisa pública. Esses deslocamentos não parecem ser motivados pela perseguição ao lucro. Benchimol e Teixeira sugerem que a motivação dos cientistas que foram para a iniciativa privada teria sido "a simples resolução de ganhar dinheiro na iniciativa privada". Na verdade, as instituições públicas de pesquisa, no caso de São Paulo, principalmente, o Butantã e o Biológico, e os laboratórios farmacêuticos privados formavam o único segmento do mercado de trabalho para cientistas e técnicos do campo da microbiologia. Em momentos de muita pressão e de tensão acirrada, Arthur Neiva foi tentado a abandonar os institutos, Manguinhos e Biológico, onde exerceu sua atividade de pesquisador, diretor e cientista, para ganhar a vida na iniciativa privada, como aconselhava Monteiro Lobato em correspondência com Neiva (Ribeiro, 1996-97, p. 481).
     Vital Brazil deixou o Instituto Butantã, em virtude da discordância surgida em torno da orientação imprimida por Arthur Neiva na direção do Serviço Sanitário, em 1919. Foi para Niterói, onde instalou sua empresa, denominada Instituto Vital Brazil, especializada na produção dos mesmos tipos de produtos desenvolvidos, sob sua direção, no Instituto Butantã. Junto com Vital Brazil, vários cientistas abandonaram o Instituto Butantã para trabalhar na nova firma. Em pouco tempo, a firma logrou preparar produtos biológicos de alta qualidade, competindo com os produzidos pelas instituições públicas ou complementando a produção dos institutos públicos (Butantã e Manguinhos) incapazes de atender plenamente as necessidades da saúde pública. Como o Instituto Vital Brazil, outras firmas foram fundadas por ex-cientistas e pesquisadores cuja formação, treinamento e capacitação científicos foram desenvolvidos nas atividades exercidas em laboratórios de instituições públicas de pesquisa científica.
     Um dos exemplos mais significativos foi o do Instituto Pinheiros. Ele foi fundado, em 1928, por dois médicos formados na Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro. Dois deles haviam começado a carreira de pesquisador sob a influência de Vital Brazil. Mário Augusto Pereira trabalhou na empresa fundada por Vital Brazil em Niterói. Eduardo Vaz trabalhara como pesquisador, no Instituto Butantã, de 1925 a 1928, sendo pioneiro na preparação da vacina BCG contra a tuberculose. Mais dois homens de negócios, Pedro Romero e José Vaz, juntaram-se aos médicos, e se encarregaram da parte financeira, comercial e administrativa da nova firma, então denominada Vaz, Pereira & Cia. Ltda. A firma foi estabelecida na cidade de São Paulo, um dos mercados mais dinâmicos do país, sendo constituída com o capital de 150:000$000 (cento e cinqüenta contos de réis),4 cerca de US$17.943,50, e empregando cerca de 36 trabalhadores. Nesse mesmo ano, o LPB tinha um capital de 1.500:000$000 (um mil e quinhentos contos de réis), aproximadamente, US$179.435,80, e empregava 85 funcionários (Estatística Industrial de 1928, p. 73). Em 1928, a estatística industrial elaborada pela Diretoria de Estatística, Indústria e Comércio da Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do estado de São Paulo registrou 71 estabelecimentos na indústria de produtos químicos e farmacêuticos, que detinham o equivalente a Rs 28.630:000$000 de capital invertido, ou seja, o capital por estabelecimento era de Rs 403:239$000. O número de operários era de 1.617, o número médio de operários era de 22,7 por estabelecimento. No ano de sua instalação, o Instituto Pinheiros em termos de número de operários estava acima da média dos estabelecimentos do setor químico-farmacêutico, embora em termos de capital estivesse bem abaixo (Estatística Industrial de 1928, p. 6).
     A fundação da empresa coincidiu com uma conjuntura extremamente favorável à modernização e à diversificação da indústria no país. Até a década de 1920, os produtos farmacêuticos eram fabricados em pequenos laboratórios anexos às farmácias. A instalação de grandes laboratórios nacionais ocorreu ao final da década de 1920 e início da de 1930 (Suzigan, 1986, p. 308). Depois de 1923, com a recuperação dos preços do café no mercado internacional, as condições tornaram-se extrema-mente favoráveis à modernização e à diversificação industrial. Durante o período bélico, as empresas não puderam expandir a capacidade produtiva, em virtude das dificuldades para importar bens de produção, matérias-primas e da insuficiente capacidade para importar da economia. A demanda reprimida das empresas somente pôde ser atendida ao término do conflito, dada a folga cambial decorrente da elevação do preço do café e do barateamento dos equipamentos, em virtude da valorização da taxa cambial. Promoveu-se a diversificação da estrutura industrial, com implantação da pequena indústria de aço (Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira), da indústria de cimento (Cia. Brasileira de Cimento Portland). O desenvolvimento industrial, no período, foi caracterizado pela modernização da indústria de bens de consumo, têxtil, alimentos e, inclusive, farmacêutica, e pela diversificação da indústria de bens de produção.
     Em 1936, o Instituto Pinheiros mudou de denominação, passando a ser chamado de Instituto Pinheiros Ltda., com 154 operários e capital de Rs 2.500:000$000,5 enquanto o LPB mantinha o mesmo montante de capital de oito anos anteriores, ou seja, Rs 1.500:000$000 e 147 operários (Estatística Industrial, 1936, pp. 168-9). Naquele mesmo ano, a indústria de produtos químicos e farmacêuticos era composta por 162 fábricas, empregava 2.286 operários, e totalizava um capital de Rs 67.132:723$000. A média de operários por estabelecimento dentro da indústria sofreu uma queda brutal, entre 1928 e 1936, de quase 23 operários por estabelecimento caiu para 14 operários por estabelecimento. Embora a indústria, como um todo, tenha reduzido as dimensões médias de suas plantas, como se pode evidenciar pelo número de operários empregados e pelo capital, o Instituto Pinheiros elevou o emprego de operários de 34 para 154. O mesmo movimento ascendente também é percebido no capital investido, enquanto, em 1928, o Instituto Pinheiros dispunha de Rs 150:000$000, situando-se abaixo da média da indústria, em 1936, elevou seu capital para Rs 2.500:000$000, a média do setor era de Rs 414:399$000 (Estatística Industrial de 1936, p. 4).
     Em 1937, o Instituto Pinheiros empregava 240 operários, enquanto o Instituto Butantã, com o dobro de capital investido, empregava duzentos (Estatística Industrial, 1937, p. 184). Em 1941, novos sócios, Paulo Ayres e Paulo Ayres Filho, entraram na empresa e o capital registrado foi elevado um ano depois para Cr$ 3.000.000,00 (US$162.162,162). Em 6 de julho de 1945, a firma foi transformada em sociedade anônima, passando a ser denominada Instituto Pinheiros Produtos Terapêuticos S.A.. Ao completar 25 anos, no dia 25 de abril de 1953, a empresa dispu-nha de um capital de Cr$ 44.000.000,00 e contava com 12 filiais espalhadas pelo país e diversos representantes no estrangeiro e com 1.200 funcionários e trabalhadores de diversas categorias (Ayres, 1953, p. 1).
     Em 1957, o Instituto Pinheiros figurava entre as vinte maiores empresas da indústria farmacêutica junto com mais três companhias de capital nacional: Laboratório Moura Brasil, Laboratório Torres e Lafi (Giovanni e Salles Filho, 1986, p. 28; Frenkel, 1978, p. 74).
     Uma das razões do sucesso foi seu engajamento na preparação de produtos biológicos, um segmento do mercado da indústria farmacêutica, no qual os maiores fabricantes eram as instituições governamentais de saúde pública e onde as grandes empresas estrangeiras não concorriam ou tinham presença insignificante.
     O Instituto Pinheiros adquiriu, graças à reunião de uma equipe de cientistas e técnicos preparados nas melhores instituições públicas de pesquisa, o pleno domínio do padrão tecnológico correspondente à produção de biológicos, no qual o controle de qualidade é extremamente rigoroso, conseqüentemente, obteve produtos de alta qualidade, que conquistaram a confiança do mercado consumidor. Inovou em produtos com a introdução de vacinas orais, denominadas buco-vacinas, contra difteria, tétano, gangrena, bem como na produção de antitoxinas. Seus principais produtos eram os soros antitetânicos, antidiftéricos e os soros contra venenos de cobras do gênero Bothrops e Crotalus, antibotrópico, anticrotálico e antiofídico (Anais do Instituto Pinheiros, 1938-51).
     Seu corpo técnico e seus cientistas implementaram uma nova técnica de preparar vacina contra a raiva. A empresa organizou um amplo programa de vacinação que atingiu mais de 275 cidades do interior do estado de São Paulo em 1938. Entre maio de 1930, quando o programa de vacinação anti-rábica começou, e dezembro de 1950, o Serviço Anti-Rábico Descentralizado vacinou e tratou de cerca de 29 mil pessoas. A empresa tornava-se conhecida da população, de clínicos e farmacêu-ticos, e, ao mesmo tempo, colaborava no atendimento a um problema de saúde pública, pois o serviço evitava que o indivíduo afetado pela moléstia tivesse que se deslocar da cidade do interior paulista para a capital, onde funcionava a única instituição responsável pelo tratamento da raiva, o Instituto Pasteur. Dessa forma, o Instituto Pinheiros construiu uma ampla rede de distribuição de produtos junto a médicos, farmacêuticos, farmácias e drogarias que formavam o mercado farma-cêutico do interior do estado (Anais do Instituto Pinheiros, 1938-50).
     A pesquisa básica e o desenvolvimento de novos produtos e processos foram influenciados fundamentalmente pelo Instituto Butantã e pela equipe de Vital Brazil reunida na sua empresa de Niterói, onde seus diretores adquiriram experiência em atividades de pesquisa de laboratório. A influência pode ser percebida por meio das duas linhas de investigação desenvolvidas no Instituto Pinheiros. A primeira linha de investigação revela a influência do Instituto Butantã e de Vital Brazil nos estudos sobre venenos de cobras e produção de soros e vacinas. Nesse terreno, a inovação promovida pelo Instituto Pinheiros foi o lançamento de um novo produto, um coagulante sangüíneo usado contra hemorragias, Botropase, cujo princípio ativo fora isolado do veneno da Bothrops (jararaca). Os estudos sobre venenos de cobras estavam associados à hematologia, abrindo um novo campo no desenvolvimento da pesquisa de produtos terapêuticos.
     A segunda linha de pesquisa e produção foi a de bens destinados a prevenir e a tratar de moléstias infecciosas. Nesse campo, a empresa realizou estudos de biologia, de imunologia e de controle de qualidade aplicados à preparação de soros, antitoxinas e outros produtos. Disso resultou que, na década de 1950, a empresa tornou-se uma das maiores produtoras de soros terapêuticos. Funcionava em um grande prédio na capital, onde foram instalados laboratórios de preparação, concentração e purificação de soros, controle de produtos biológicos, ampolagem e empacotamento de produtos. Dispunha de uma chácara em Itapecerica da Serra, nas proximidades da capital, utilizada para a criação de animais empregados na preparação e no teste de soros, onde existiam cerca de quinhentos cavalos, sete mil animais de laboratório, coelhos, pombas, hamsters e camundongos. Possuía um serpentário localizado na capital. Em 1958, adquiriu uma fazenda (de 923ha), Fazenda Roseira, em Passo Fundo (Rio Grande do Sul) para onde transferiu o Departamento de Imunologia e passou a criar cavalos para imunização e produção de soros, chegando a possuir cerca de dois mil cavalos imunizados.
     Três divisões constituíam a estrutura da empresa: produção, científica e comercial, demonstrando a interdependência da organização produtiva e da ciência. Dentro da divisão científica funcionavam departamentos responsáveis por pesquisa em imunologia e biologia, purificação e concentração de soros e dosagem e controle de qualidade.
     Outra razão para o Instituto Pinheiros alçar à posição de fornecedor quase exclusivo de soros no mercado nacional foi o seu êxito em reunir um grupo de cientistas de diferentes campos da ciência pura e aplicada, veterinários, biólogos, médicos, químicos, farmacêuticos etc., que souberam combinar conhecimentos e desenvolver um trabalho em equipe. Esses pesquisadores mantiveram contato estreito com as insti-tuições públicas de pesquisa, como o Instituto Butantã, o Instituto Biológico e a Universidade de São Paulo (USP). Muitos estudos e pesquisas foram feitos em colaboração com essas instituições. Em 1948, o diretor aposentado do Instituto Biológico, Henrique da Rocha Lima, assumiu o cargo de diretor científico do Instituto Pinheiros, nele permanecendo até sua morte, em 1956 (Ribeiro, 1997, pp. 87-99).

Conclusão

     Em primeiro lugar, a formação da moderna indústria farmacêutica no Brasil foi estimulada pelo investimento estatal em instituições públicas de pesquisa e da produção de imunológicos. Essas instituições, além de atenderem as necessidades da saúde pública, contribuíram para a formação de cientistas e pesquisadores, muitos dos quais deixaram ou compatibilizaram suas atividades nas instituições de pesquisa pública e junto com homens de negócios vindos de diferentes atividades econômicas estabeleceram empresas farmacêuticas.
     Em segundo lugar, as empresas farmacêuticas brasileiras seguiram o padrão tecnológico dos produtos biológicos, e nesse padrão atingiram excelência, combinando ciência e produção.
     Finalmente, quando o padrão tecnológico baseado nos antibióticos e na quimioterapia tornou-se dominante e o mercado da indústria farmacêutica passou por uma transformação radical, elevando a sua dependência em relação à indústria química e petroquímica, as empresas brasileiras, sem acesso à tecnologia de produtos e de processos, encon-traram-se impedidas de fazer a mudança no padrão tecnológico. As empresas ressentiram-se da falta de uma sólida indústria química no país e sofreram as conseqüências de uma política econômica centrada no congelamento de preços e no regime de licenças prévias para a importação que desmotivaram o investimento na indústria. As empresas nacionais, mesmo aquelas bem-sucedidas, resistiram por algum tempo, mas não por todo tempo. O Instituto Pinheiros foi uma das que resistiu, sendo uma das últimas empresas nacionais a ser vendida para o capital estrangeiro, para a empresa norte-americana Sintex. Assim, um dos processos mais radicais de desnacionalização da indústria de que se tem conhecimento na história econômica brasileira chegava ao fim.

 

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FONTES

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Recebido para publicação em outubro de 1999.
Aprovado para publicação em outubro de 2000.

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