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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.10 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702003000100005 

ANÁLISE

 

Salvador, cidade do mundo: da Alemanha para a Bahia

 

Salvador, world city: from Germany to Bahia

 

 

Maria Renilda Nery BarretoI; Lina Maria Brandão de ArasII

IMestra em história social pela Universidade Federal da Bahia Estrada Leoplodo Fróes, 395/303 24360-005 Niterói — RJ Brasil renildabarreto@uol.com.br
IIDoutora em história pela Universidade de São Paulo laras@ufba.br

 

 


RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo discutir a presença alemã na Bahia do século XIX. Registrava-se no período intensa movimentação de estrangeiros na cidade de Salvador e em outros pontos da então província, envolvidos em atividades comerciais, agrícolas, industriais e de prestação de serviços. Dentre todos os alemães que atravessaram o Atlântico para se estabelecer na Bahia, interessa especificamente analisar os médicos, investigando o que motivou o deslocamento desses profissionais para a América e como estiveram inseridos no campo do saber científico na época. Destacam-se aqui os estudos realizados por Otto Wucherer em seu percurso como clínico, pesquisador e agente de interseção entre a comunidade científica alemã e a baiana.

Palavras-chave: história da medicina, Bahia, século XIX, colonização alemã, médicos.


ABSTRACT

This paper discusses the German presence in 19th century Bahia. There was an intense flow of foreigners to the city of Salvador and other parts of what was then a province; these people were involved in trade, farming, industry and services. Among the Germans who crossed the Atlantic to establish themselves in Bahia, medical doctors are a particularly interesting object of study, along with their motives for going to America and how they worked in the field of scientific knowledge at the time. The paper highlights studies by Otto Wucherer and his activities as a clinician, researcher and agent of the intersection between the German scientific and the Bahian communities.

Keywords: history of medicine, Bahia, 19th century, German colonization, physicians.


 

O homem, desde o primeiro momento de sua existência é sujeito a moléstias, e ainda que uma ou outra vez esta ou aquela se evite, nenhuma delas de todo desaparece pelos esforços humanos; fugir a todas é impossível, pois até as causas nos são, pela maior parte, desconhecidas.

Otto Wucherer (1866)

 

 

Introdução

Desde os primórdios da colonização, a cidade de Salvador era um núcleo urbano receptivo à presença de estrangeiros. Sede do governo geral do Brasil até 1763 e maior centro produtor de açúcar da colônia, possuía um mercado importador e exportador de grande interesse internacional, apesar das restrições do pacto colonial. A baía de Todos os Santos e o porto de Salvador desempenhavam importante função no abastecimento, redistribuição e embarque de mercadorias para os continentes americano, europeu e africano (Chaves, 2000). Acompanhando ou adiantando-se às mercadorias, vinham para a Bahia os responsáveis pelas transações e os representantes das casas comerciais que punham em movimento aquele vasto circuito econômico e financeiro.

A sociedade baiana, em especial a que residia na capital da província, foi construindo a sua história em torno da baía de Todos os Santos. Por ela entravam e saíam homens, mercadorias, navios e doenças vindos de diversas partes do mundo. Com as sucessivas crises do açúcar e as crescentes dificuldades impostas ao tráfico de escravos, Salvador redefiniu o seu papel, deixando de ser o centro exportador de açúcar, fumo, couros e outros produtos para se fixar como praça de comércio. Cresceu, assim, a presença de estrangeiros na cidade, sobretudo em lojas, bancos e casas comerciais controlados por ingleses, franceses e alemães.

A intensa circulação de mercadorias e de capitais em Salvador tinha como contrapartida, portanto, a chegada de estrangeiros que vinham para se fixar tanto na sede da província e no Recôncavo como pelos sertões da Bahia,1 buscando construir fortunas ou exercer as mais diversas profissões. Os produtos e/ou serviços eram oferecidos em anúncios de periódicos e almanaques, em que eram apresentadas as especialidades, os endereços de atendimentos e as condições de pagamento.

Logo após a independência do Brasil, em 1822, o mercado brasileiro abriu-se, especialmente para o império alemão. As relações do emergente Estado brasileiro com os reinos do império estreitaram-se a partir do casamento de d. Pedro, em 1818, com a imperatriz Leopoldina, que, por sua vez, apoiou a vinda de cientistas e artistas germânicos para a América portuguesa.

Na Bahia, essa presença ficou mais evidente em 1820, com a abertura do Consulado de Hamburgo. Sete anos mais tarde, o Brasil regulamentou as relações comerciais com a Alemanha através do Tratado Comercial e de Navegação, assinado com as cidades hanseáticas de Lübeck, Bremen e Hamburgo, aumentando assim o fluxo de germânicos que aportavam em Salvador. Aí estava localizado, então, o principal porto brasileiro, enquanto Hamburgo era o mais importante porto alemão do ainda incipiente comércio (Menezes, 1990, p. 34).

Os germânicos primeiramente ocupavam-se do comércio do açúcar. Posteriormente, atuaram nos negócios fumageiros. A partir de 1840, a exportação do fumo brasileiro foi quase exclusivamente destinada à Alemanha, e, por aquela época, o produto já usufruía bom conceito nos mercados de Hamburgo e Bremen. Essa posição, conquistada no decorrer do século XIX, iria se estender até os dias de hoje (Silva, 2001).

No encalço das atividades econômicas, vinha para o Brasil uma gama de representantes de diferentes profissões, com a finalidade de dar suporte e tecer uma rede de instituições que garantisse a adaptação e a sobrevivência dos estrangeiros nos trópicos. Os registros dos Livros de Alfândega de Salvador apontam, em ordem decrescente, a entrada, entre 1856 e 1864, dos seguintes contingentes de imigrantes: portugueses, 1.622; italianos, 1.267; ingleses, 661; alemães, 299; franceses, 281 (Lyra, 1982, p. 141).

A presença de uma comunidade germânica justificou a fundação de escolas alemãs em Salvador, de modo a assegurar a educação das crianças e, conseqüentementes, a preservação da cultura original. Foram assim abertos os seguinte estabelecimentos: Escola de Franz Joseph Bokel (1869), Escola de Heinrich Burkhard (1860) e o Colégio Alemão Coração de Maria (1868). Para promover a vida social, foi fundado o Clube Germânia, em 1873, onde era praticado o tiro ao alvo e o kegeln, uma espécie de jogo de arremesso de bola (Menezes, op. cit., pp. 36-7).

A saúde, a doença e a morte também se inscreveram na ordem das preocupações dos migrantes alemães na Bahia. Em 1851, fundou-se em Salvador um cemitério conhecido como Associação Cemitério dos Estrangeiros, que existe até hoje sob o nome de Sociedade Cemitério Federação (idem, ibidem, p. 36). Ainda outro foi criado em 1853, por Lucas Yezler, em São Félix, área ligada à atividade fumageira e, portanto, local de grande interesse econômico dos germânicos (Milton, 1903, p. 331). No mesmo ano, Otto Wucherer, filho de comerciante alemão e médico da comunidade sua conterrânea em Salvador, atendia aos súditos hamburgueses e aos marinheiros em hospital, aberto em sua própria residência, com o intuito de assistir aos seus patrícios (APEB, Consulado da Alemanha 1828-65, maço 1165). No movimento de imigração alemã oitocentista também encontravam-se os colonos trazidos por iniciativa do Estado ou de particulares. Para promover a assistência à saúde desses colonos, foram para a Bahia médicos, boticários e enfermeiros germânicos (João José d'Almeida Couto, presidente da província, 1.3.1873), a exemplo de Carl August Tölsner, Wagemann, Friedrich Asschenfeld e João Conrado Zang,2 que clinicaram nas colônias fundadas no sertão da Bahia.

Que contexto teria deslocado esses médicos para a Bahia? Como se aclimataram conhecimentos adquiridos nas universidades germânicas e realidade das epidemias e doenças locais? Qual o amálgama clínico que esses profissionais teceram com os colegas da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, e, conseqüentemente, com a medicina da época? Essas são algumas perguntas que iremos abordar neste artigo, salientando contudo que, longe de esgotar o assunto, iremos apenas refletir sobre algumas questões que continuam presentes em nossa agenda de investigação historiográfica.

 

Os alemães na Bahia

O porto de Salvador, além de centro dinâmico, foi também o espaço privilegiado da construção de uma idéia de cidade à beira-mar, com todas as mazelas inerentes a uma urbe portuária típica do período, forjando entre os viajantes estrangeiros uma imagem de sujeira espalhada pelos cantos e becos da cidade, cujos 'miasmas' faziam com que o medo se espalhasse entre os transeuntes (Augel, 1975).

Ser acometido por alguma doença desconhecida e resistente aos remédios ministrados por médicos e mezinheiros, ter a vida ceifada por um surto epidêmico, essas eram preocupações corriqueiras para aqueles que viviam na Bahia oitocentista. Salvador, 'cidade ardente' — quer pelo sol dos trópicos, pelas rebeliões escravas, pela movimentação do porto, quer pela presença da febre amarela e do cholera-morbo — era, em meados do século XIX, um pólo aglutinador de homens e negócios, recrudescendo uma tendência que, em verdade, remonta à fundação da cidade, em 1549.

A despeito dos 'ares putrefatos', a capital baiana atraíra inúmeros estrangeiros alemães desde o período colonial. Os primeiros registros da presença germânica na cidade datam da invasão holandesa na Bahia, em 1624, quando o soldado alemão Johann Gregor Aldenburgk, integrante da Companhia das Índias Ocidentais, registrou o cotidiano da invasão na capital do Brasil, em obra intitulada Viagem às Índias Ocidentais, publicada na Alemanha em 1627 (Edelweiss, 1970, pp. 224-5). Em seguida, três jesuítas alemães se estabeleceram no Colégio do Terreiro de Jesus: Felipe Bourel, João Ginzl e Uranophilus Caelestis Peregrinus de Valentim Stansel. Este último tornou-se ministro do colégio e autor de diversas obras sobre astronomia e náutica.

Todavia, foi durante o século XIX que um número significativo de alemães passou pela Bahia ou ali fixou-se. Moema Augel (op. cit., 30) recuperou a trajetória de 23 desses germânicos que trilharam as plagas baianas no período e salientou que havia notícias de "um sem-número de outros ..., mas não foram ainda localizados". Dos germânicos arrolados por Augel, cabe mencionar Wilhelm Christian Gotthelf von Feldner, mineralogista, que esteve na Bahia em 1816, foi recebido pelo governador e entrou em contato com outros alemães residentes em Salvador, entre eles Kalkmann, Stolze e Weyll. Exercendo seu ofício, Feldner percorreu o interior da Bahia, passou por São Félix, Muritiba, Maragojipe e Cachoeira,3 e, próximo a essa localidade, previu a possibilidade de se construir ali uma fundição de ferro. Em suas notas de viagem escreveu que "em todo o Brasil, não há situação melhor para se estabelecer uma fundição de ferro, pois tem a grande vantagem da facilidade de se conduzirem as obras feitas do mesmo metal pelo rio, até entrarem em uma das cidades mais centrais da costa do Brasil (Salvador)" (Feldner apud Augel, op. cit., p. 46).

Também merece menção a presença do botânico Ludwig Riedel, convidado a integrar a expedição científica de Heinrich Ernst von Langsdorff. Ele chegou à Bahia em 7 de janeiro de 1821 e aí viveu por dois anos. Em seguida, radicou-se por quarenta anos no Rio de Janeiro, onde dirigiu a seção de botânica do Museu Nacional (Angel, op. cit., pp. 144, 122-3, 61-3). O geólogo e engenheiro Wilhelm Friedrich Halfeld esteve na Bahia entre 1852 e 1854, período em que elaborou mapas e relatórios sobre o Rio São Francisco. Por fim, o engenheiro de águas e estradas Julius Naeher foi para a Bahia em 1878, visitar a irmã casada com um fazendeiro de Santo Amaro, zona do Recôncavo produtora de fumo. Em sua obra Land und Leute in der brasilianischen Provinz Bahia, ele registrou a grande presença de alemães na praça do comércio baiano, onde, anos antes, predominavam os ingleses. Para Augel, esse livro tem grande valor documental por ser "uma crônica bastante viva de uma época e de um meio, instantâneos preciosos do baronato açucareiro do Recôncavo e do Nordeste".

A quantidade significativa de alemães no Brasil da época pode ser explicada pela vinda da Corte para o Rio de Janeiro, pela Abertura dos Portos e a ampliação do comércio, além da tentativa de se implantar a colonização estrangeira como política capaz de resolver o problema da mão-de-obra escrava, suprir a falta de braços para a lavoura, incrementar a economia e, de acordo com a crença das autoridades políticas e intelectuais oitocentistas, elevar os padrões civilizatórios do brasileiro. Ao apresentar aos membros do legislativo local a política de colonização que desejava implementar, João Lins V. C. Sinimbú (1.9.1857), presidente da província da Bahia, explicava que ela podia ser feita tanto por colonos como por nacionais:

Esses dois elementos, com o fim de povoar terras desabitadas e aumentar a massa da produção, e, por conseguinte, o movimento geral da indústria e do comércio, longe de se repelirem, auxiliam-se, mutuamente, no interesse geral do estado. ...

A introdução de colonos europeus no país é útil, porque além de ser o meio de aumentar, fora das regras ordinárias, a população, é também a importação da indústria viva, se assim posso me exprimir.

...

De todos os países da Europa, aquele que, pela superabundância de sua população e propensão à emigração, maior contingente nos pode fornecer é, sem dúvida, a Alemanha, e, felizmente, de todas as nacionalidades, é ela a que mais se aclimata entre nós.

Já nas primeiras décadas do século XIX, em 1818, foram fundadas na Bahia duas colônias alemãs: Rio Salsa, criada por iniciativa oficial, localizada às margens do rio de mesmo nome, afluente do Pardo, e a Colônia Leopoldina, situada às margens do rio Peruípe, na comarca de Caravelas, sul da Bahia. Esta última, composta de suíços e alemães, produziu café, chegando a contribuir com cerca de 60% na produção cafeeira da província da Bahia em 1842, e em mais de 90%, em 1853. Os colonos dedicavam-se também à agricultura de subsistência, plantando abacaxi, jaca, laranja, manga, banana, fruta-pão, mamona, cana-de-açúcar, algodão, fumo, milho, mandioca e leguminosas (Journal du Jura, 1820).

Ainda na primeira metade de século XIX, em 1822, foi fundada a Colônia de São Jorge de Itabuna, também conhecida como São Jorge dos Ilhéus, no sul da Bahia, com 28 casais de alemães, num total de 161 pessoas expostas à falta de recursos e principalmente às enfermidades (Lyra, op. cit., p. 29). A situação precária foi agravada pelo clima de instabilidade gerado pelo processo de independência, especialmente na Bahia, onde ocorreu durante um período longo o confronto bélico entre tropas portuguesas e coloniais.

Na segunda metade do século XIX, a partir de 1857, outro núcleo de colonização alemã foi organizado pela Associação Baiana de Colonização. Foram trazidos 150 alemães para trabalhar na Companhia Metalúrgica de Assuruá, fundada por negociantes de Lençóis e pelo alemão Kramer (Edelweiss, op. cit., p. 230). A experiência foi registrada pelo doutor Wucherer — de quem nos ocuparemos adiante — no seu relato de casos clínicos sobre "a moléstia vulgarmente denominada opilação ou cansaço", fazendo alusão a um paciente alemão chamado Meyer, de 26 anos, que viera para o Brasil "na malograda expedição que se dirigiu ao Assuruá, no interior desta província, em procura do ouro" (Gazeta Médica da Bahia, 1866, p. 52).

Os colonos, qualificados nos discursos oficiais como "espíritos elevados das nações européias" passavam facilmente à condição de "arruaceiros e desordeiros", sobretudo quando protestavam contra as condições insalubres de vida e o descumprimento dos acordos estabelecidos antes do embarque. As forças repressoras da província eram então acionadas para conter os 'rebeldes', a exemplo do motim ocorrido na região aurífera do rio São Francisco.

Esses indivíduos, a princípio, procederam regularmente, e satisfizeram as vistas da associação.

Ultimamente, porém, chegou ao meu conhecimento, que alguns dos trabalhadores alemães tinham-se rebelado contra o engenheiro, também alemão, que os dirigia, fazendo-lhe diversos ferimentos.

Ao juiz de Direito da comarca de Xiquexique, e ao respectivo delegado, ordenei que se dirigissem às minas, e depois de verificado o fato, procedessem contra os culpados, e tomassem enérgicas e adequadas providências, para que não se reproduzissem acontecimentos daquela natureza (Francisco Xavier Paes Barreto, fala do presidente da província da Bahia, 15.3.1859).

Em 1873 foram criadas ainda as colônias Carolina, Muniz, Teodoro e Rio Branco, todas elas com a presença de famílias alemãs trazidas pelas empresas Moniz, sendo a primeira instalada nas proximidades do rio Pardo e as três últimas, na região de Comandatuba, sul da Bahia, localidade que se encontrava em processo de ocupação, com a abertura de mais uma fronteira agrícola. Segundo Edelweiss (op. cit., p. 235), o comendador Egas Moniz Barreto de Aragão e o conselheiro Policarpo Lopes de Leão estabeleceram em Hamburgo a agência central de emigração, sendo Aragão conhecedor da gente e da língua alemãs, fato que certamente facilitou o empreendimento migratório.

Além das colônias de imigrantes, a presença germânica também se fez presente desde muito cedo no comércio de Salvador e na indústria tabageira no Recôncavo sul da Bahia.4 A região ficou conhecida pela produção do açúcar que abastecia a Bahia e a Europa. Mas, nem só de açúcar viveu o "fundo da Baía".5 Ela produziu gêneros alimentícios tais como legumes, frutas e hortaliças, desenvolveu a atividade pesqueira e também uma importante cultura agrícola, o fumo (Moreira, 2002). Este produto foi cultivado nas terras que a cana rejeitara, em quintais e em solos menos férteis. A lavoura do fumo passou a ser conhecida pela historiografia como 'cultura dos pobres'. De produto de intercâmbio com o comércio escravo na África, o fumo, por volta do século XIX, começou também a ser utilizado na fabricação de charutos, abastecendo o mercado interno e alimentando a exportação.

Segundo Elizabete Rodrigues da Silva (op. cit., p. 21), nos últimos anos do século XIX e no início do XX, a lavoura de fumo produziu o principal artigo de exportação do Recôncavo sul, com a instalação de fábricas de charutos, fortalecendo, dessa forma, as relações comerciais com o exterior, principalmente com as cidades de Bremen e Hamburgo, na Alemanha. No período examinado por Silva, Bremen foi a maior importadora do fumo em folha produzido na Bahia, na época em que chegavam os alemães para instalarem na região as empresas de beneficiamento, exportação e fabrico de charutos. Dentre as mais conhecidas indústrias alemãs de charutos fixadas na Bahia estavam a Dannemann & Cia., fundada no ano de 1873, em São Félix, pelo alemão Gerhard Dannemann, natural de Bremen, e a Suerdieck, iniciada em 1888, com a chegada de August Wilhelm em Cruz das Almas.6

Assim, as comunidades germânicas que se instalaram em todo Brasil, e em particular na Bahia, sobretudo nas atividades produtivas dos setores primário e terciário, buscavam criar nichos sociais e culturais que possibilitassem melhor adaptação dos imigrantes à nova realidade. Nesse contexto, os médicos alemães desempenharam um papel importante na assistência aos seus patrícios, atuando junto às comunidades urbanas ou nas colônias agrícolas.

 

A saúde nas mãos dos doutores

A historiografia que se debruça sobre a presença de médicos estrangeiros na Bahia tende a privilegiar o papel que tiveram na formação da Escola Tropicalista Baiana.7 Todavia, alguns desses médicos exerceram a clínica em diversas regiões da província. Em algumas publicações, eles registraram e refletiram sobre o quadro da saúde e da doença no período estudado.

Dos homens da ciência que escreveram relatos e tratados ligados à experiência na Bahia, podem-se citar os naturalistas Maximiliano von Wied-Neuwied,8 Johann Baptist von Spix,9 Karl Friedrich Phlillip von Martius e George Wilhelm Freyreiss;10 o botânico Ludwig Riedel e os médicos Carl August Tölsner, Friedrich Asschenfeld e Otto Wucherer.11 Muitos deles possuíam formação médica, mas apenas os três últimos se dedicaram à clínica, atendendo às comunidades germânicas que se fixaram em diversos pontos geográficos da Bahia.

Mesmo com a criação das faculdades de Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro, em 1832, e a conseqüente formação de esculápios em território nacional, continuaram os médicos estrangeiros a atravessar o Atlântico para exercer sua profissão no Brasil. Essa tendência, que remonta aos tempos da Colônia, intensificou-se durante o Império, dada a escassez de médicos que pudessem assistir a todas as províncias e às necessidades dos grupos estrangeiros, que deviam ser tratados de acordo com suas crenças sobre a cura. Nesse contexto, deve-se ainda mencionar um fator externo: a mobilidade populacional provocada pelas revoluções que eclodiram na Europa na primeira metade do século XIX, que obrigaram muitos profissionais a emigrar para a América (Nicoulin, 1996). A esse fator soma-se a especificidade dos contratos de imigração, que estabeleciam a vinda de profissionais considerados essenciais para o atendimento das necessidades dos colonos, tais como ferreiros, carpinteiros, professores, enfermeiros, boticários, cirurgiões e médicos (Sanglard, 2000, p. 283). Nesses contratos, o Estado exigia a presença dos profissionais de saúde, afirmando que "a colônia deverá estar provida, desde a Europa, de um bom cirurgião médico, de um bom farmacêutico, e mesmo de um experiente veterinário". Cláusulas como esta poupavam o Estado de fornecer à região de colonização profissionais legalmente habilitados para exercer as artes da cura segundo as leis em vigor.

A Gazeta Médica da Bahia registrou a presença de vários médicos que exerceram sua profissão na província. Em artigo publicado nesse periódico, por exemplo, Wucherer referiu-se ao já "falecido amigo", doutor Carl August Tölsner, que vivera muitos anos na Colônia Leopoldina, e "asseverava ter tirado excelentes resultados do emprego do amoníaco, mas ele viu duas vezes conseqüências funestas do seu uso excessivo" (Gazeta Médica da Bahia, 10.5.1867, p. 243).

Na dissertação que publicou em 1858 para obter o título de doutor em filosofia, na Universidade de Goetting, Tölsner discorreu sobre diversos aspectos da vida na Colônia Leopoldina, tais como preparação do solo, plantio e colheita de produtos agrícolas, principalmente do café, descreveu a fauna local, os indígenas que moravam na vizinhança, fez ponderações sobre o clima e o estado de salubridade da colônia (Tölsner apud Nesser, 1951).

Tölsner foi um crítico das 'crendices populares' no tocante à cura das enfermidades, traçando paralelo entre a 'ignorância' daqui e a da Alemanha, dentro do espírito científico da época e de acordo com o ideal de civilização.

Acreditam, ali, que a mordedura da cascavel cura a lepra e que, neste caso, não ocasiona a morte ao mordido. Existem, mesmo, casos e exemplos desta ignorância e leviana superstição, em que, pessoas afetadas de morféia se sujeitaram a tão horrendo tratamento, nutrindo a cega e tola ilusão de que um mal só poderia ser vencido por outro mal ainda pior como também é costume, na Alemanha que o homem do povo deixe-se persuadir de que coisa ruim deve ser expulsa por coisa pior (Tölsner apud Nesser, 1951, p. 6).

Tölsner continuava a discorrer sobre a impropriedade do veneno das cascavéis na cura da lepra, relatando minuciosamente o drama de Mariano José Machado, leproso que após quatro anos de tratamento no Hospital dos Lázaros, no Rio de Janeiro, sem conseguir a cura para sua enfermidade, decidiu submeter-se à mordedura de uma cobra cascavel. O mesmo episódio foi alvo, em 1838, da atenção da imprensa carioca e suscitou um acalorado debate envolvendo a Academia Imperial de Medicina, o cirurgião que conduziu a experiência e a sociedade que acompanhava o episódio pelas páginas dos jornais (Ferreira, 1996). O fato é interessante, pois evidencia a circulação dos estudos entre os diversos grupos médicos espalhados pelo território brasileiro e em conexão com os centros europeus.

O médico alemão analisou os chamados 'bichos nocivos' que provocavam a morte ou causavam doenças, entre eles a cobra, o bicho-de-pé, o carrapato e a filária. Nota-se aí uma preocupação com o registro dos helmintos, pouco antes de Wucherer e outros membros da chamada Escola Tropicalista Baiana institucionalizarem, nas páginas da Gazeta Médica da Bahia, as investigações sobre parasitologia helmíntica.

O dracúnculo é um verme intestinal de formato bem redondo, parecendo uma corda branca de tripa de violão, sua grossura varia entre a de um fio de algodão e a de um barbante regular, seu comprimento é de um a seis pés. É importado da África por negros recém-chegados. Existe quem afirme que o Dracúnculo já se aclimatara no Brasil e já fora encontrado entre brasileiros, mas eu pessoalmente não me pude convencer disto.

Como o dracúnculo consegue penetrar no corpo humano ainda não é conhecido. Alguns atribuem como causa de sua formação o comer peixe de águas putrefatas e estagnadas, outros, o beber destas águas, ou querem, mesmo, culpar a simples lavagem do corpo ou banhar-se em semelhantes águas (Tölsner apud Nesser, 1951, p. 8).

Segundo Edler (1999), o período da metade do século XIX foi marcado pelo surgimento dos primeiros trabalhos em parasitologia experimental, exemplificados nas pesquisas laboratoriais em embriologia, desenvolvimento, ecologia e patogenia dos helmintos em plantas, animais e no homem. Entretanto, para o período em que Tölsner teceu observações sobre o dracúnculo, ainda não estava estabelecida a relação de causa imediata entre os vermes e as doenças. O parasita poderia estar relacionado a tantos outros fatores de predisposição ligados ao clima, ao lugar, às características individuais, tais como temperamento, sexo, hábito e raça.

Outro médico germânico, Friedrich Asschenfeld, também prestou serviços aos colonos. Ele chegou a Salvador no ano de 1843, percorreu o Recôncavo Baiano em direção ao sul e se estabeleceu, por quatro anos, na Colônia Leopoldina, para regressar em seguida à Alemanha. Em seus escritos, Memoirem aus meinen tagebucha, geführt während meiner Reisen und meines Aufenthaltes in Brasilien im den Jahren — 1841 bis 1847, descreveu os tipos humanos e étnicos da colônia, a fauna e a flora, o estilo de vida dos colonos, a culinária da região, o tipo de produção existente, as relações comerciais estabelecidas e a escravidão (Asschenfeld apud Augel, op. cit., pp. 84-5).

O apoio financeiro que esses profissionais recebiam determinava sua permanência e seus percursos no Brasil. A itinerância dos médicos leva-nos a inferir que uma estada na zona tropical conferia-lhes algum tipo de prestígio e reconhecimento científico em instituições européias, principalmente se eles se dedicassem ao estudo das enfermidades dos países quentes. No caso dos naturalistas, eles traçavam suas trajetórias a partir do interesse em conhecer uma ou outra região e do apoio institucional.

A lacuna profissional deixada por Friedrich Asschenfeld na Colônia Leopoldina foi preenchida por João Conrado Zang, médico responsável pelos relatórios encaminhados ao presidente da província, em 1847 (Lyra, op. cit., p. 27). Através de Otto Wucherer, temos notícias do doutor Wagemann atuando na Vila da Barra do Rio Grande, na província da Bahia (Gazeta Médica da Bahia, 10.5.1867, p. 242).

A participação desses médicos na assistência à saúde dos colonos germânicos, os acordos firmados com as autoridades provinciais e outras questões que gravitam no entorno da medicina que exerciam são um flanco aberto na historiografia, a exigir maiores investigações. Com exceção de Wucherer, parcialmente estudado, os demais doutores ainda são ilustres desconhecidos.

Naquela época, os médicos, os padres e demais autoridades tinham também como tarefa produzir relatórios sobre o estado de salubridade das regiões onde estavam domiciliados, e esses documentos deveriam ser encaminhados ao presidente da província. Neles é possível perceber o estado de salubridade dos lugares onde as autoridades atuavam, o que favorece a reconstituição do quadro nosológico local.

O obituário da Colônia Muniz, no ano de sua fundação (1873), revela que a sorte dos colonos não diferiu da dos demais habitantes da província quanto a doenças como febres, tuberculose, diarréia, caquexia palustre e anemia (Apeb, Série Colônias e Colonos, maço 4608). O presidente da província da Bahia afirmava, em 1873, que a Colônia Comandatuba12 contava com cerca de quinhentos colonos, os quais, em geral, se ocupavam da lavoura (Fala da Presidência, 1.3.1873). No mesmo ano faleceram 103 colonos, ou seja, aproximadamente 20,6% dos europeus que ali chegaram. Parafraseando Crosby (1993), e invertendo sua afirmação de que os germes do Velho Mundo dizimaram mais os ameríndios do que o golpe das espadas, aqui os patógenos tropicais abriram grandes brechas no empreendimento colonizador, ao provocar a morte de muitos dos colonos europeus.

O gráfico a seguir aponta para um alto índice de mortalidade infantil e, logo em seguida, de mulheres, no grupo das doenças identificadas, estando a diarréia e a tuberculose na categoria das enfermidades que mais óbitos produziram. Esses dados devem ser relacionados às condições de sobrevivência material encontradas pelos alemães que se estabeleceram na Colônia Muniz, não diferindo do panorama geral de salubridade pública apresentado na província, a julgar pelos relatórios dos presidentes ao longo do século XIX.

A preocupação com os óbitos levou os alemães a providenciarem a criação de cemitérios para o enterramento dos seus mortos, pois eles não poderiam ser sepultados como a maioria da população baiana, que, temendo a morte, principalmente por ocasião das epidemias, seguia a cartilha católico-sincrética. Através das irmandades religiosas, preparavam o último ritual de passagem, o da "boa morte" (Reis, 1991).

Antes da fundação dos cemitérios alemães em Salvador (1851) e São Félix (1853), os mortos germânicos poderiam ser enterrados no Cemitério dos Ingleses, fundado em 1814, e que tinha como objetivo inicial o enterramento dos súditos britânicos. Entretanto, pesquisas realizadas nos registros do cemitério bem como a identificação e a análise das lápides indicam o enterramento de indivíduos das mais diversas nacionalidades (Apeb, Seção Colonial, maço 226, Cartas ao Governo, 1814; Apeb, maço 5266, livro de tombo dos bens de todas as Ordens Terceiras, Confrarias e Irmandades de Salvador, 1851-53; Arquivo do Conselho de Cultura do Estado da Bahia, processo 003/87).

 

 

Exigia-se que os médicos estrangeiros obtivessem autorização para exercer o ofício da clínica junto à Fisicatura-Mor,13 até os anos de 1828. A partir daí, o trâmite burocrático pulverizou-se, cabendo às Câmaras Municipais e às justiças ordinárias as atribuições que antes eram da alçada da fisicatura. Mas muitas vezes as Câmaras, sem fôlego para cumprir todas as suas funções, delegavam esta prerrogativa à Intendência Geral de Polícia. De certa forma, a dispersão das funções administrativas e fiscalizadoras no século XIX explica parte da dificuldade de se localizarem os registros dos médicos, boticários e cirurgiões alemães que aqui exerceram sua arte. Segundo Coni (1952), Wucherer fez seu registro em sessão da Câmara de Nazaré, em 8 de janeiro de 1844; em Cachoeira, no dia 8 de março de 1845; finalmente em Salvador, na Câmara da Bahia, em 14 de novembro de 1849. Esse percurso evidencia a atuação do esculápio alemão nas diversas localidades do Recôncavo Baiano e, por fim, na capital.

Assim, a presença de alemães exercendo as mais diversas artes de cura na Bahia do século XIX estava associada à necessidade de prestar assistência médica para os seus compatriotas, fosse nas colônias, fosse nas áreas de significativa concentração germânica, como é o caso de Cachoeira e São Félix, no Recôncavo fumageiro. Os alemães dos centros urbanos certamente estranhavam não apenas o calor e as moléstias dos trópicos, como também os hábitos e costumes locais, preferindo, sempre que possível, serem cuidados por um patrício, como o doutor Otto Wucherer.

 

Wucherer: da Alemanha para a Bahia

Filho de um comerciante alemão fixado na praça de Salvador e de mãe holandesa, Wucherer viveu na Bahia entre os seis e sete anos, para retornar, em 1843, já formado em medicina pela Universidade de Tübingen (Wurtemberg) e exercer a clínica inicialmente no Recôncavo Baiano, nas cidades de Nazaré e Cachoeira (Gazeta Médica da Bahia, 31.5.1873, pp. 306-7).14 Em 1847 instalou-se em Salvador, aí permanecendo até 28 de outubro de 1871, período em que retornou à Alemanha (idem, 31.10.1871, p. 87), onde veio a falecer, ainda exercendo a medicina.

Sintonizado com as experiências médicas das mais diversas regiões do globo, como Antilhas, Jamaica, América do Norte, Guianas, Benguela, Guiné, Egito, Itália, França, Rússia, Hungria, Holanda, Inglaterra, Alemanha e colônias inglesas na Ásia, Otto Wucherer aliou a observação clínica ao uso do microscópio e dialogou com os seus pares, inserindo-se nas contendas médicas do período.

Guiado por uma postura científica em consonância com o tempo, os artigos que escreveu revelam elementos da topografia médica, prática generalizada na Europa a partir da segunda metade do século XVIII, e da geografia médica. Segundo Edler (2002), diante das questões consagradas pela geografia médica na primeira metade do século XIX, os médicos que atuavam no Brasil apresentaram respostas originais no tocante às doenças, algumas das quais se opunham a velhos estigmas amparados em determinismos raciais e climáticos.

A topografia ampliava a faixa de fatores a serem observados, deixando aflorar aspectos sociais e higiênicos do ambiente, incluindo na investigação médica as características físicas e geográficas da região, elementos da fauna e flora, fontes de água, estilo de vida e ocupação dos habitantes, as instituições da cidade, condições sanitárias, número de habitantes, padrão de natalidade e mortalidade e, finalmente, as doenças prevalentes (Hannaway, 1993).

Wucherer também foi adepto do uso da estatística no campo do conhecimento médico, sem contudo abandonar a clínica ou perder de vista a discussão de casos clínicos. Tais procedimentos foram utilizados para avaliar a freqüência da tísica15 no Brasil, embora Wucherer lamentasse o fato de não se fazer maior uso desse instrumento, pois "todos os ramos da estatística numérica neste país estão por ora no seu berço" (Gazeta Médica da Bahia, 15.6.1868, p. 266). Embora ciente das limitações encontradas, utilizou os dados numéricos da Santa Casa da Misericórdia da Bahia para compor seu trabalho sobre 'As causas da crescida freqüência da tísica no Brazil, e especialmente na Bahia'. A tuberculose pulmonar foi uma doença muito comum no Brasil, desde o período colonial, sendo responsável por um elevado índice de mortalidade. Durante o século XIX, ela continuou fazendo parte do quadro nosológico brasileiro como uma espécie de "doença doméstica" (Athayde, 1975).

Na sua investigação sobre a tuberculose na Bahia, Wucherer deixou entrever um pouco mais de sua posição científica.16 Partidário do contagionismo limitado e de uma medicina social, utilizava-se de princípios da ciência médica alemã, sob a influência, em particular, dos postulados do patologista e antropólogo Rudolf Virchow (1821-1902), contemporâneo de Wucherer e freqüentemente citado em seus artigos publicados na Gazeta Médica da Bahia (15.8.1886, p. 3, 16.9.1868, pp. 28-9).

 

 

Para Otto Wucherer, a doença da população era um assunto de interesse da sociedade, e as condições sociais e econômicas exerciam efeitos decisivos sobre saúde e doença. Partindo dessa premissa, ele realizou uma análise quantitativa e qualitativa das condições de vida na Bahia dos anos 1860, concluindo que o principal motivo da tísica no Brasil era a alteração dos costumes, que gerava a debilidade física, tornando o indivíduo fortemente propenso a contrair tuberculose.

No esboço socioeconômico que traçou, Wucherer correlacionava a tísica a vários aspectos causais específicos, como a diferença de remuneração entre os trabalhadores, o aumento do tabagismo, a maior utilização de víveres em conserva, a diminuição do consumo de carnes frescas e o maior uso do café, em detrimento de uma alimentação mais substancial, argumentando, neste caso, que o café "retarda o gosto do material nutritivo sem torná-lo desnecessário; satisfaz improficuamente" (Gazeta Médica da Bahia, 15.6.1868, pp. 265-8). Tais considerações tornam-se mais contundentes quando contextualizadas na sociedade baiana do século XIX, cuja base era a escravidão, quando se lembra que a condição de sobrevivência da população de cor — escrava e livre — relacionava-se a um estado de miséria acentuada, que esses grupos sociais eram submetidos a uma alimentação pobre em nutrientes e tinham péssimas condições de moradia. Tudo isso tornava homens, mulheres e crianças propensos a ter os problemas de saúde identificados por Wucherer.

O olhar atento desse médico captou assim o grau de pobreza em que vivia grande parte da população baiana, considerando esse fator como desencadeador de doenças. Ele assinalou também a insalubridade das então emergentes fábricas e oficinas, principalmente as de charutos, que, "no Brasil, são as que fornecem um grande contingente de tísicos, mas parece também que a mera ocupação com o tabaco é suficiente para desenvolver a moléstia em indivíduos predispostos" (Gazeta Médica da Bahia, 15.6.1868, p. 267).

Tais afirmativas estavam em consonância com a experiência de Wucherer no período em que clinicou em Cachoeira, região de significativa concentração de alemães e das fábricas de charuto. Quanto à predisposição dos(as) charuteiros(as) para contrair a tuberculose, ela era compreensível, a julgar pelas condições de trabalho, reveladas por Elizabete Silva (2001, passim) em seu estudo sobre a atividade feminina de fazer charutos no Recôncavo Baiano, durante a primeira metade do século XX.

As mulheres que moravam fora do circuito fabril e que se destinavam às fábricas de charutos, viajavam a pé, trilhando os mesmos caminhos que os cavaleiros e as tropas de burros de cargas, cerca de 12 a 24 quilômetros, conforme a localização da fábrica — Muritiba, Cachoeira ou São Félix. No inverno, chegavam ao local de trabalho enlameadas e molhadas, na maioria das vezes sem ter feito nenhuma refeição. As chuvas, a lama, as estradas desertas, a presença do desconhecido, o medo do imprevisto, as trovoadas e a noite, que podiam chegar mais cedo, eram alguns, dentre tantos, os perigos da viagem cotidiana.

Wucherer, entretanto, não desprezou a transmissibilidade da tísica por 'vírus'.17 Nos casos clínicos observados em Nazaré e Cachoeira, as condições ambientais como, o labor e a influência nociva do ambiente, não eram capazes de explicar, por si só, o óbito.

Vi, por exemplo uma rapariga sã e robusta, e de uma família igualmente sã, chegar de fora da cidade para ser enfermeira de uma senhora tísica no último período da moléstia. A rapariga serviu por poucas semanas a esta senhora, mas quase nunca se afastava dela, ajudando-a em tudo, e servindo-lhe muitas vezes de encosto, quando ela por dificuldade de respirar levava horas assentada na cama. Pouco tempo depois da morte desta doente fui chamado para ver aquela mesma rapariga, que eu não teria conhecido, tão mudada ela estava pelos estragos de uma tísica, à qual pouco tempo depois ela sucumbiu. Incômodos inerentes ao seu serviço de enfermeira, perda de sono, irregularidade na alimentação, falta de ar, enfim, todas essas influências nocivas a que se pode supor que ela esteve sujeita não bastariam para em tão pouco tempo causar em uma rapariga sã e forte tamanha destruição e por moléstia igual à do primeiro caso (Gazeta Médica da Bahia, 15.6.1868, p. 267).

A enfermidade campeou também na Colônia Muniz, outro núcleo de povoamento alemão. Segundo o obituário do ano de 1873, a tísica provocou 33% das mortes no local. Foram dados como esses que levaram alguns médicos a afirmar que esta era a "primeira das doenças agudas" a se manifestar no litoral e no interior da província (Athayde, op. cit., pp. 413-4), constituindo, portanto, elemento de preocupação para alguns clínicos oitocentistas, algumas décadas antes de a tuberculose entrar na agenda de discussão da saúde pública.

Registra-se, ainda, uma interlocução direta entre Wucherer e outros médicos alemães que desempenharam sua arte na Bahia. É revelador o fato de ele citar experiências clínicas de Tölsner com o emprego do amoníaco para o trato das mordeduras de cobra venenosa. Tanto Tölsner quanto Friedrich Asschenfeld, ambos médicos da Colônia Leopoldina, escreveram sobre diversas espécies de cobras peçonhentas, como cascavel, jararacuçu, caisaca e surucucu-de-patioba (Nesser, op. cit., pp. 6-8; Augel, op. cit., p. 85). E Wucherer, alguns anos depois, fez uma catalogação e classificação das espécies de cobras existentes no Brasil, descrevendo o sintoma das mordeduras e do tratamento para elas.

 

 

Até hoje a identidade de Wucherer, como médico da Escola Tropicalista está ligada à ancilostomíase. Peard (1997), utilizando a Gazeta Médica da Bahia como fonte primária, afirmou que, entre dezembro de 1865 e meados do ano seguinte, Otto Wucherer realizou várias autopsias em indivíduos que haviam sofrido de uma doença até então conhecida como "opilação" ou "cansaço". Ele constatou que os autopsiados apresentavam grande quantidade de vermes no intestino delgado, identificando-os como "ancilostoma duodenal". A partir daí, a hipoemia não mais era explicada apenas pela má alimentação, pela ingestão de bebidas alcoólicas e péssimas condições de higiene, mas também pela presença do verme no organismo humano.

As observações de Wucherer — baseadas no acompanhamento de pacientes, na comparação de casos clínicos, na prática do microscópio in vita e do escalpelo postmortem, no emprego da química para análise dos fluidos corporais — deslocou a causa mortis da hipoemia intertropical do domínio climático em que se achava para o da complexa relação entre um verme, seu hospedeiro humano e as condições em que ambos viviam.

Quando Julyan Peard (1990) contextualizou a atuação de Wucherer, como membro fundador da Escola Tropicalista Baiana, afirmou que ele, assim como os demais integrantes, contribuíram para promover uma idéia de nação brasileira progressista, quando elaboravam recomendações para melhorar a saúde de todas as classes de brasileiros. Porém, salienta a autora que a mais importante contribuição foi ter proporcionado as ferramentas conceituais com as quais a intelectualidade nacional combateu a etiqueta da inferioridade produzida pelo discurso médico e científico europeu.

Os membros da Academia Imperial de Medicina, por sua vez, foram interlocutores de Wucherer nas discussões a propósito da doença que Cruz Jobim qualificara cientificamente de hipoemia intertropical, e que o vulgo denominava "opilação" ou "cansaço". Esse diálogo em torno de como era vulgarmente conhecida a doença não se deu sem divergências.

Para Edler (1999), o debate em torno da cientificidade da questão da casualidade da ancilostomíase fez-se acompanhar de uma redefinição de espaços de poder no interior da profissão médica e do aparecimento de uma nova linguagem observacional, complementar mas estranha à da clínica, inaugurando a era do gabinete e da bancada, na qual o microscópio desempenhou um papel central.18

Há um consenso historiográfico que aponta a ancilostomíase como uma das doenças centrais na investigação dos tropicalistas, ao lado do beribéri, do ainhum e da filariose.19 Mas, a Escola Tropicalista também contribuiu para as discussões sobre a lepra e a tuberculose. Interessa-nos contudo, aqui, a ação de Wucherer como médico da tuberculose, postulando suas observações em áreas geográficas que concentravam grupos de alemães: Cachoeira e São Félix.

Na Bahia, a Santa Casa da Misericórdia foi o local privilegiado para os procedimentos de observação dessa medicina experimental. Embora Wucherer não figurasse entre os médicos oficiais da instituição, ele conhecia bem as enfermarias da Santa Casa. Assistiu, por exemplo, aos marinheiros hamburgueses que lá faleceram (Apeb, Consulado da Alemanha, 1828-65, maço 1165). Como já foi mencionado, no mesmo período, Wucherer abriu uma enfermaria em sua própria residência, onde tratou casos de febre amarela.

Podemos considerar que a circulação de Wucherer no hospital da Santa Cada da Misericórdia demonstrava o prestígio que ele granjeara entre seus pares, a ponto de estabelecer um diálogo permanente com eles, que resultaria na fundação da Gazeta Médica da Bahia (1866-1915). Em diversos trechos de trabalhos publicados por ele nesse período, pode-se observar nas entrelinhas como foi intenso o seu trânsito pela Santa Casa. No artigo 'Sobre a moléstia vulgarmente denominada opilação ou cansaço', Wucherer agradecia aos doutores Faria, Silva Lima e Caldas, daquele hospital, "pelos meios de observação que sempre nos têm facultado" (Gazeta Médica da Bahia, 25.8.1866, p. 40).

Desse modo, pode-se dizer que a trajetória profissional de Wucherer está em parte retratada na Gazeta Médica da Bahia. Nas páginas do periódico ele externou com freqüência sua visão crítica da medicina que considerava empírica, das práticas que acusava de "charlatãs" e da autoridade que provinha do status quo do médico, e não da experimentação que "assentava em bases mais científicas as regras da terapêutica" (Peard, 1990). Essa não era uma atitude isolada de Wucherer, mas parecia ser a de todos aqueles que integraram a chamada Escola Tropicalista Baiana. Os embates, que muitas vezes migraram dos periódicos especializados para os jornais de circulação diária, contribuíram para consolidar as posições conflitantes assumidas pelos médicos engajados no esforço de tornar mais científica a profissão.

A presença de uma comunidade de alemães com forte representatividade na vida econômica e social do Brasil certamente reforçou a inserção daquele médico no seio de uma sociedade essencialmente conservadora. Wucherer pertencia a um grupo de prestígio, tanto por seus laços com uma família de comerciantes como pela sua condição de doutor em medicina, categoria profissional que ia assumindo postos importantes de poder na sociedade baiana.

A Bahia escravista foi o espaço de observação de Wucherer e, enquanto tal, um contexto propício à formulação de teorias sobre as doenças que ele pôde estudar. Cabe ressaltar que Wucherer não foi apenas o médico tropicalista que se integrou à comunidade científica de Salvador na segunda metade do século XIX, mas foi também o alemão que, através da sua arte, a medicina, forneceu suporte para os outros germânicos, abriu as portas de sua casa para compatriotas que precisavam de cuidados especiais, manteve acesa a comunicação entre a capital e o sertão, através do diálogo com os outros colegas fixados na Bahia. Portanto, Wucherer, ao se estabelecer na capital, centro do poder político e econômico, e ao fazer parte de uma elite intelectual, acabou por constituir um forte elo de ligação entre a Alemanha e o Brasil da Bahia.

 

Conclusão

A chegada de comunidades estrangeiras, em particular de alemães, à praça de Salvador e a outros rincões do sertão baiano, por força das atividades comerciais ou da colonização no interior da província, teve importantes implicações para reforçar a presença dos médicos no campo da saúde e para fortalecer a medicina experimental, baseada na microscopia e na anatomofisiologia, em detrimento de uma medicina clínica e higienista de cunho neo-hipocrático.

Os médicos, farmacêuticos e boticários germânicos desempenharam papel de destaque na assistência à saúde, quer dos colonos, quer dos habitantes das localidades onde eles desempenharam seu ofício. Médicos como Tölsner, Wucherer e Asschenfeld, além do exercício da clínica, produziram trabalhos científicos que chegaram a ter repercussão internacional, interagiram com médicos da Santa Casa da Misericórdia, participaram de combate a epidemias e envolveram-se em contendas científicas, contribuindo para a construção de singular experiência em uma Bahia plural.

 

Arquivos pesquisados

Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb), Consulado da Alemanha, 1828-65, maço 1165.

Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb), Série Colônias e Colonos, maço 4608, 1873.

Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb), Consulado da Alemanha.

Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb), Seção Colonial, maço 226, Cartas ao Governo, 1814.

Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb), maço 5266, livro do tombo dos bens de todas as Ordens Terceiras, Confrarias e Irmandades de Salvador, 1851-53.

Arquivo do Conselho de Cultura do Estado da Bahia, processo 003/87.

Fala dirigida à Assembléia Provincial da Bahia pelo primeiro vice-presidente, des. José d'Almeida Couto em 1.3.1873. Bahia, Typ. do Correio da Bahia, 1873 (documento capturado em www.crl.uchicago.edu/info/brazil).

Fala recitada na abertura da Assembléia Legislativa da Bahia pelo presidente da província, o des. João Lins Vieira Cansansão de Sinimbú, em 1.9.1857. Bahia, Typ. de Antonio Olavo da França Guerra, 1857 (www.crl.uchicago.edu/info/brazil).

Fala recitada na abertura da Assembléia Legislativa da Bahia pelo presidente da província, o dr. Francisco Xavier Paes Barreto, em 15.3.1859. Bahia, Typ. de Antonio Olavo da França Guerra, 1859. (www.crl.uchicago.edu/info/brazil)

Academia Nacional de Medicina.
Gazeta Médica da Bahia, 1866-73.

 

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Recebido para publicação em junho de 2002
Aprovado para publicação em novembro de 2002

 

 

1 'Sertão' refere-se a toda extensão territo-rial além das fronteiras do Recôncavo Baiano. Assim, mesmo as regiões que não são geograficamente caracterizadas como sertão, assim foram denominadas ao longo da história do Brasil (Andrade, 1992).
2 Chamamos atenção para a mudança da grafia do nome desses médicos que, em muitos documentos, aparecem aportuguesados.
3 Região localizada no mapa do Recôncavo Baiano, apresentado mais adiante.
4 Estamos chamando de Recôncavo sul a região que vai de Maragojipe a Santo Antônio de Jesus.
5 Termo utilizado por Mattoso (1978, p. 10) para designar o Recôncavo.
6 As duas fábricas ainda estão em funcionamento.
7 A denominação Escola Tropicalista Baiana foi cunhada nos anos 1950 para designar um grupo de médicos brasileiros e estrangeiros que difundiram suas idéias e práticas médicas na Gazeta Médica da Bahia, na segunda metade do século XIX.
8 Botânico e naturalista, percorreu o Brasil durante os anos de 1815 a 1817. Seus trabalhos foram aqui publicados e tornaram-se clássicos da etnologia brasileira.
9 Médico que se juntou ao grupo de cientistas de Munique, passando pela Bahia entre 1817 e 1820. Ele e von Martius tornaram-se tão nossos conhecidos que dispensam maiores comentários.
10 Ornitólogo que se engajou na expedição do cônsul russo Langsdorff. Percorreu o interior da Bahia entre 1815 e 1817, junto com outro naturalista alemão, Sellow. Em 1818, em parceria com o cônsul hamburguês Peter Peyke e outro alemão, Morhard, recebeu algumas sesmarias às margens do rio Peruípe, onde estabeleceu a Colônia Leopoldina.
11 Os trabalhos desses naturalistas e médicos já foram parcialmente explorados pela historiografia.
12 Acreditamos que ele se referia à Colônia Muniz, localizada meia légua ao sul do porto de Comandatuba. Para esse mesmo ano Lyra (op. cit., p. 167) informa que a Colônia Muniz tinha assentado quatrocentos colonos.
13 Essa junta foi estabelecida em 1810 e substituiu a Junta do Protomedicato de 1782. A lei de 30 de agosto de 1828 extinguiu os cargos de físico-mor, cirurgião-mor e provedor-mor, atribuindo suas funções às Câmaras Municipais.
14 Esse número da Gazeta Médica da Bahia traz um esboço biográfico de Wucherer.
15 Tuberculose nos órgãos respiratórios.
16 O trabalho de Edler (op. cit.) estabelece uma discussão acurada sobre o processo de institucionalização da medicina tropical no Brasil oitocentista. O autor situa a produção de Wucherer na inauguração da parasitologia helmíntica e no contexto da medicina nacional.
17 No período, vírus era um agente misterioso assimilado a venenos mórbidos (Pelling, 1993). Só a partir da década de 1930, com o uso do microscópio eletrônico, o vírus pôde ser identificado.
18 Edler contesta Peard quando ela apresenta a Escola Tropicalista como única "força dinâmica" no cenário da medicina brasileira do século XIX. Edler (2002, p. 380) afirma que "o espectro da Escola Tropicalista impediu que boa parte dos intérpretes da nossa medicina oitocentista percebesse a extensão com que as novas idéias sobre as etiologias parasitárias se amalgamaram com as etiologias climatológicas e raciológicas, fecundando o solo médico brasileiro a partir da segunda metade da década de 1860".
19 Ver Coni (op. cit.), Peard (1990), Falcão (1976), Edler (1999) e Barros (op. cit.).