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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.10 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702003000100006 

ANÁLISE

 

De Nova Friburgo a Fribourg através das letras: a colonização suíça vista pelos próprios imigrantes

 

From Nova Friburgo to Fribourg in writing: Swiss colonization seen by the immigrants

 

 

Gisele Sanglard

Doutoranda em história da ciência da ciência da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz Rua Barão da Torre, 481/302 B 22411-003 Rio de Janeiro — RJ Brasil sanglard@coc.fiocruz.br

 

 


RESUMO

A história da imigração suíça no Brasil tem como marco inicial a fundação da colônia de Nova Friburgo, em 1819. A singularidade de Nova Friburgo se encontra no fato de ter sido a primeira empresa colonial contratada pelo governo português. Este trabalho é um convite a um retorno no tempo, para o período de constituição da colônia de Nova Friburgo através das cartas que os próprios imigrantes escreveram e que foram publicadas em um jornal suíço da época.
Através destas cartas pode-se perceber o encontro de dois mundos diferentes: o Velho e o Novo Mundo, além de encontrar com outros suíços que já estavam estabelecidos no Rio de Janeiro ou que aqui estavam se estabelecendo, mostrando toda a dinâmica do ir-e-vir de imigrantes, partícipes ou não de empresas migratórias. Percepção, informação e expectativa são a tônica destas mensagens.

Palavras-chave: história, imigração suíça, Nova Friburgo, correspondência, expectativa, representação.


ABSTRACT

The history of Swiss immigration to Brazil began with the foundation of the colony of Nova Friburgo in 1819. Nova Friburgo was the first colonial company contracted by the Portuguese government. This paper is an invitation to go back in time to the period in which Nova Friburgo was founded, through the letters the immigrants wrote for publication in Swiss newspapers of the period. The meeting of the Old and the New Worlds is seen in these letters, as well as the encounter with other Swiss people already established in Rio de Janeiro or who were in the process of becoming so. They show the dynamics of the coming and going of immigrants, whether or not they participated in the companies. The migrants' perceptions, information and expectations set the tone for these messages.

Keywords: history, Swiss immigration, Nova Friburgo, correspondence, expectations, representation.


 

"...Mas quem cantava chorou/ ao ver seu amigo partir/ Mas quem ficou no pensamento voou/ Com seu canto que o outro lembrou/ e quem voou no pensamento ficou/ Com a lembrança que o outro cantou/ Amigo é coisa para se guardar/ .../ mesmo que o tempo e a distância, digam não/ mesmo esquecendo a canção...

Canção da América, Milton Nascimento e Fernando Brant

 

 

A história da imigração européia organizada para o Brasil está diretamente relacionada à instalação da Corte portuguesa no país e à questão dos escravos, no que tange tanto ao grande contingente de negros no Rio de Janeiro, o que gerava insegurança na Corte, quanto às medidas restritivas ao tráfico negreiro. A primeira experiência levada a cabo pela Coroa portuguesa no Brasil foi a criação da colônia de Nova Friburgo, em 1819, nas cercanias da capital, e que recebeu cerca de um milhar de colonos suíços católicos. A ela sucedeu-se a colônia de Petrópolis, formada por alemães.

No presente artigo serão analisadas as primeiras percepções acerca da nova vida no Brasil, a partir do estudo de cartas enviadas pelos colonos suíços recém-chegados a seus familiares na Suíça, buscando perceber a diferença entre esse discurso e aquele formulado pelos descendentes dos primeiros colonos.

Nova Friburgo pode ser considerada a primeira vaga migratória suíça para o Brasil. Apesar de seu pioneirismo, essa migração não foi uma das mais significativas no Brasil. Cabe mencionar dois outros núcleos: a colônia Leopoldina, instalada na Bahia desde 1816, mas que só recebeu colonos suíços a partir da segunda leva de imigrantes (por volta de 1823); e os arregimentados para as colônias do senador Vergueiro em São Paulo, na segunda metade do século XIX, nas chamadas colônias de substituição de mão-de-obra (Hollanda, 1980). Além desses três momentos datados, restam os movimentos voluntários, cujos destinos são dificilmente seguidos. Vale lembrar que, quando o governo suíço designou o conde J. J. de Tschudi, na década de 1860, para vistoriar suas colônias no Brasil, seu destino foi o Rio de Janeiro (Nova Friburgo) e São Paulo (região de Campinas). Contudo, a experiência migratória suíça fica marcada pelo pioneirismo de Nova Friburgo e pela revolta dos colonos em São Paulo.

 

Nova Friburgo

O trecho da música Canção da América, de Milton Nascimento e Fernando Brant, que serve de epígrafe ao artigo fala de 'partida', 'lembrança' e 'esquecimento', três substantivos que resumem a trajetória de um migrante. Ele parte, leva e deixa lembranças, vivendo a dialética do recordar e do esquecer. Para a primeira geração de imigrantes, a troca de correspondência aquece as lembranças por algum período, até que ela se perca nas brumas do tempo e da distância. Pela leitura das cartas que trocam os que vão e os que ficam, é possível perceber toda a mobilização em torno de uma empresa migratória cuja peculiaridade foi ter sido a primeira contratada pelo governo português. Essa mobilização não se restringia aos organizadores, mas generalizava-se a todos os suíços — tanto os de lá quanto os de cá — que ajudaram os que iam partir assim como os que foram recepcionar os recém-chegados.

A análise, contudo, será feita somente sobre parte do acervo epistolar, mais exatamente as cartas de quem partiu. Elas deixam entrever, em respostas, afirmações e informações sobre o movimento global de ida e vinda das missivas de um lado a outro do oceano, a busca de acalmar angústias, desejos e saudades. Lida-se aqui com dois blocos diferentes de cartas: as publicadas no Journal du Jura (notas, fragmentos, extratos e algumas na íntegra) e as que constam do livro de Martin Nicoulin (1988).

As notícias que cruzavam o oceano a separar os dois mundos — o Novo e o Velho — podiam ter a forma de simples informações sobre o país de origem trazidas por um navegante ou viajante, ou de troca de cartas entre os que partiam e os que ficavam. Aquelas que foram publicadas em jornais possibilitam pensar sobre os sentimentos preponderantes entre aquelas pessoas, passado o primeiro impacto: saudade e esperança. A esperança é traduzida pela expectativa de realização do enriquecimento. A saudade pode aparecer de várias maneiras: na recordação de vivências anteriores, na manutenção de um culto à pátria longínqua, no estabelecimento de formas de apoio baseadas em valores comuns.

A 'descoberta' do Novo Mundo significou para os europeus conquistadores a necessidade de colonizar para garantir o domínio das áreas recém-delimitadas, com deslocamento de pessoas. No primeiro momento da colonização, foram enviados degredados, que poucas chances tiveram de sobreviver ou de reatar a comunicação com além-mar. O estabelecimento da empresa colonizadora portuguesa exigiu a formação de núcleos familiares, e aos poucos o contato com o velho continente foi se tornando mais corriqueiro.

O século XIX trouxe brusca mudança nos rumos da colônia no Brasil:1 a vinda da Coroa portuguesa e seu subseqüente enraizamento em terras brasileiras, ou, de uma outra forma, sua 'interiorização' — para usarmos o conceito de Maria Odila da Silva Dias (1986, p. 173). Entre as mudanças promovidas pela Corte no Brasil, Nova Friburgo pode ser percebida como uma das primeiras tentativas de transformação da ex-colônia, agora elevada à categoria de Reino-Unido.

A história da colonização suíça no Brasil, mais especificamente da fundação de Nova Friburgo, surgiu do que os jornais suíços chamavam de uma "atitude generosa" de um compatriota que havia se estabelecido no Rio de Janeiro (Journal du Jura, 3.10.1818). Sébastien-Nicolas Gachet propusera a d. João VI formar, não muito longe da capital, uma colônia de suíços que ajudaria a socorrer os 'pobres' habitantes do cantão de Fribourg, que haviam atravessado um rigoroso inverno seguido de acentuada carestia alimentar. A oferta vinha de encontro ao pensamento ilustrado português, cujo maior representante foi d. Rodrigo de Souza Coutinho, o conde de Linhares, que percebia o Brasil como "tábua de salvação" de Portugal, a partir do desenvolvimento de uma política baseada no comércio, com sua correspondência luso-brasileira representada por José Bonifácio, para quem, "como o Brasil começa a civilizar-se no século XIX deve chamar e acolher a todos os estrangeiros, que podem servir de mestres nos ramos de instrução, e economia pública", e que para tal dever-se-iam criar "colônias de europeus para as capitanias do sul e do interior (Silva, 1998, p. 173; a esse respeito, ver também Munteal Filho, 1999; Novais, 1984).

A congruência da proposta de Gachet com os interesses da Coroa se fez sentir no contrato de imigração firmado entre as partes, em 11 de maio de 1818, estipulando a vinda de cem famílias católicas e de língua francesa. As cláusulas do contrato foram desconsideradas por parte dos responsáveis pela empresa migratória — pelo lado dos suíços, o próprio Gachet, e pelo lado da Coroa, o marquês de Marialva,2 embaixador português em Paris.

A colônia de Nova Friburgo teve papel bem definido na política joanina: ao mesmo tempo que promovia o povoamento, minimizava a insegurança, pois aumentava a presença quantitativa do elemento branco nas imediações da Corte. Essa foi uma colônia pautada na pequena propriedade, podendo assim aumentar a produção de variedades de gêneros alimentícios para a capital. O papel do imigrante europeu seria, assim, o de "promover e dilatar a civilização do vasto reino e o crescimento de habitantes afeitos ao que a agricultura e a indústria costumam remunerar os Estados que os agasalham diversos gêneros de trabalhos" (Mattos, 1981, p. 21).

É nessa perspectiva que deve ser entendida a escolha do local de fixação da colônia — nas cercanias da Corte e em uma região não destinada à agroindústria cafeeira. As cláusulas do contrato previam a criação de uma cidade que contaria, desde a partida da Suíça, com a maior diversidade de profissionais considerados essenciais (carpinteiros, ferreiros etc.), e que, além de exercerem suas profissões, deveriam ensiná-las aos portugueses, buscando assim uma integração da colônia com a vida no Brasil. Nova Friburgo também teria entre seus filhos um médico, um farmacêutico, um cirurgião e um veterinário, além do serviço eclesiástico. Essa cláusula do contrato de imigração permite que se observe claramente a tentativa de se criar uma cidade em que as necessidades básicas fossem plenamente atendidas, criando-se uma estrutura que tenderia a aglutinar, e não a expulsar seus habitantes. Dessa forma, Nova Friburgo responderia ao projeto político da Corte: fixação do homem europeu nos arredores da capital, aumento da quantidade e da diversidade de víveres destinados ao Rio de Janeiro e incentivo à civilização dos trópicos.

A contrapartida da Coroa foi custear a passagem dos imigrantes, do porto à colônia, garantir-lhes subsídios para os primeiros anos na nova terra e preparar o local para recebê-los. A cidade encontrada pelos suíços era formada por um conjunto de cem casas, divididas em três quarteirões, uma praça e um hospital. A casa-grande da antiga fazenda do Morro-Queimado — local escolhido para a instalação da colônia — tornou-se a moradia dos dignitários do governo junto à colônia. Ali funcionavam também a escola e a igreja. Havia ainda dois fornos comunitários, um armazém, um açougue, dois moinhos e um silo (Nicoulin, op. cit., p. 117). As casas construídas no melhor estilo colonial, tal qual aquelas destinadas aos agregados e empregados das grandes fazendas, eram constituídas por uma única peça — quatro paredes, teto, portas e janelas —, sendo o chão de terra batida.

O contrato previa que os imigrantes tornar-se-iam "súditos do rei de Portugal" (idem, ibidem, p. 237),3 rompendo com a antiga cidadania. Porém, os laços afetivos com pessoas ou lugares não se destroem com um simples decreto real, e a correspondência trocada entre os dois continentes veio reforçar esses laços fragilizados pela distância transoceânica.

A necessidade de informação era grande de ambos os lados: os que partiam queriam contar que estavam bem, que seus sonhos estavam prestes a se realizar, e ansiavam por saber novidades da antiga vida deixada para trás. Os que ficavam desejavam saber que aqueles que haviam partido estavam passando bem.

No caso da imigração de Nova Friburgo, uma grande publicidade tomou conta da Suíça à época da arregimentação e da partida dos colonos, tendo nos jornais o seu principal veículo. Outras formas de divulgação foram empregadas, como canções populares compostas para atrair partícipes para a empresa migratória. O Brasil era apresentado pela imprensa ou através dessas canções como a Terra Prometida, "onde haveria ouro como areia, as batatas seriam do tamanho de uma cabeça, o café cresceria em todas as árvores e o verde seria eterno" (Süssekind, 1990, p. 221).4

Os jornais da época divulgavam com freqüência notícias sobre os suíços que partiam, pois o assunto 'imigração' era de grande interesse para a população: as informações podiam vir acompanhadas de uma censura, de um aviso e, na maior parte das vezes, de uma advertência, procurando ou tentando evitar que novas pessoas se lançassem em uma empreitada cujo sucesso era percebido como quimera.

Muitas das cartas e artigos publicados tinham a intenção de tentar diminuir o ímpeto migratório dos candidatos a colono na América. Os fracassos amplamente divulgados pelos periódicos procuravam tirar um pouco do brilho da fortuna fácil que era, em suma, a essência da retórica dos propagandistas das diversas empresas migratórias que a toda hora se formavam não apenas na Suíça, mas em toda Europa. As matérias tinham a função de buscar demover as futuras tentativas de partir para os Estados Unidos (destino preferido), ressaltando as dificuldades pelas quais haviam passado aqueles que tinham partido. Por outro lado, até onde se pode perceber, as imigrações anteriores à empreitada de Nova Friburgo eram iniciativas particulares individuais ou de empresas que recrutavam migrantes.

Quando vieram a lume as primeiras notícias sobre a colônia de Nova Friburgo, o tom das matérias envolvendo a questão migratória mudou: não se tratava mais de empresas particulares, mas de um empreendimento gerido e organizado pelo cantão de Fribourg e pela Coroa portuguesa enraizada em terras brasileiras. Essa 'oficialidade' tornou a proposta de Nova Friburgo mais passível de êxito aos olhos dos veículos de comunicação e com relação ao quotidiano de cada um dos cidadãos dos cantões envolvidos. Até mesmo a Igreja passou a clamar para que os fiéis ajudassem os que iam partir. A sociedade organizava-se para auxiliar os migrantes. Um ex-marinheiro colocou-se à disposição para dar conselhos e instruir na fabricação de redes.5 A partir desse momento, tornaram-se importantes as notícias acerca daquela 'Nova Fribourg', ao passo que outras emigrações deixaram de ser importantes. Todas as atenções voltaram-se para o novo país que se descortinava diante dos suíços, diferente porque desconhecido.

Os jornais transformavam-se, assim, no meio de publicidade por excelência das riquezas do Brasil, publicando impressões acerca da terra escolhida, transformando-a em uma terra de múltiplas possibilidades, bem nos moldes dos relatos escritos pelos viajantes-naturalistas ao se depararem com as plagas brasileiras, e que exaltavam sobretudo a fertilidade do solo — "podem-se fazer duas colheitas por ano" (Journal du Jura, 14.6.1819, p. 237) — e a presença de animais, fatores relacionados ao 'clima ameno' da região. Não só Nova Friburgo era o centro das atenções, de uma maneira geral. Todo o país estava em foco. Podia-se imprimir a carta da cidade do Rio de Janeiro, ou mesmo da Bahia, onde outra empresa colonizadora germano-helvética implantava a colônia de Leopoldina, narrando-se as vantagens daquelas paragens. Qualquer motivo era suficientemente forte para que se falasse desse lugar para onde se dirigia grande número de conterrâneos.

Os mesmos jornais que se engajaram na empresa migratória da nouvelle Fribourg, divulgando notícias, informações, dicas etc., preocupavam-se em saber como estavam se saindo aqueles que tinham resolvido buscar riquezas no Brasil. São publicados, na maior parte das vezes, fragmentos de cartas enviadas de Nova Friburgo para a Suíça, transmitindo-se a idéia de que a certeza do sucesso era companheira de quase todos, fossem quais fossem as ressalvas e as dificuldades.

No caso específico da colônia aqui em estudo, os periódicos Journal du Jura, Journal Suisse et Gazette de Lausanne e La Feiulle d'Avis de la Ville et Canton de Fribourg assumiam um duplo papel: além de divulgar a colonização, buscavam provar que os que partiram haviam conseguido vencer, apesar de tudo. Ao publicarem essas cartas particulares, acabavam socializando as informações, ao mesmo tempo que dividiam com a coletividade a angústia por uma eventual ausência de informações, compartilhando com todos os breves momentos de tranqüilidade trazidos por uma carta vinda do Brasil, ou, como as próprias publicações declaravam ao iniciar ou lançar a coluna 'Notícias da Colônia Suíça' que partiu para o Brasil: "Conhecendo a extrema e bem justa impaciência com a qual o público espera as notícias sobre a sorte dos colonos suíços que partiram para o Brasil, nos sentimos na obrigação de levar ao conhecimento de todos as informações que se seguem, cuja autenticidade é comprovada" (Journal du Jura, 25.3.1820, p. 90).

Outro possível objetivo da presença das cartas nas páginas dos jornais da época era a obrigação que a imprensa sentia de provar que os que partiram tinham feito uma boa escolha, mesmo que houvessem sido em parte induzidos pelo que leram sobre fortunas alcançadas além-mar nas páginas dos próprios jornais, porta-vozes dos governos cantonais e envolvidos direta e indiretamente no processo migratório.

As cartas permitem perceber quão grande foi a mobilização em torno da imigração não só na Suíça como também no Brasil (muitos suíços já instalados no país foram recepcionar os patrícios recém-chegados). De outro lado, chama a atenção o número de imigrantes que veio se instalar no Brasil na mesma época e que não estavam diretamente ligados ao projeto de colonização, embora acabassem se vinculando a ele de alguma forma.

O olhar do editor, a quem compete atestar a veracidade do relato, era de importância capital6 na hora de decidir o que publicar e como editar: quando se trata de correspondência oficial, de algum dirigente e/ou responsável pela colônia, a matéria é editada na íntegra; quando se trata de uma carta de colono, dela é divulgada somente a parte em que se narra o que é Nova Friburgo e nas quais se externam as expectativas e as informações que são vistas como de maior valor para os que ficaram. Nesse caso, o editor iniciava a coluna resumindo rapidamente a carta, contextualizava o autor, transcrevia a parte que mais lhe interessava e concluía: "Para extrato conforme o original, que se encontra em poder do sr...., em ... , atesta-o, em ... no dia ... . O diretor da polícia central ... " (Journal du Jura, 26. 5.1820, pp. 148-9).

As cartas que aparecem no Journal du Jura foram publicadas entre fevereiro e agosto de 1820, quando o periódico teve a circulação suspensa. Foram escritas entre novembro de 1819 e março de 1820. Mais ênfase é dada às redigidas nos últimos meses de 1819, quando chegou a primeira leva de colonos a Nova Friburgo. Os testemunhos são tanto de colonos como de diretores da colônia e de cidadãos suíços já radicados aqui ou que tinham acabado de se instalar na região ou mesmo em outras partes do Brasil.

O segundo grupo de cartas trabalhadas no presente artigo foi retirado de uma publicação contemporânea, o livro La genèse de Nova Friburgo, de Martin Nicoulin (op. cit.), considerado por alguns como a bíblia de Nova Friburgo. A peculiaridade desse grupo é que ele foi usado em um trabalho acadêmico, como resposta a determinadas questões discutidas pelo autor, ou para ilustrá-las. São apenas quatro cartas, publicadas no Apêndice C, sob o título de 'Les hommes et leur histoire'.

O nome dado ao apêndice é sugestivo, por deixar perceber uma tentativa de resumir em quatro cartas, retiradas de arquivos particulares,7 a história ou trajetória dos primeiros anos da nouvelle Fribourg. As missivas foram escritas nos anos de 1820, 1821 e 1825. Não se sabe a quem foram endereçadas, mas cada uma delas recebeu subtítulos ainda mais sugestivos: 'Les premières illusions', 'La confrontation avec la realité', 'Vers la réussite' e 'L'exemple d'un échec'. Descrevem a trajetória em uma curva ascendente — ilusão-realidade-sucesso (mesmo que a realidade possa levar tanto ao sucesso quanto ao fracasso) —, terminando em um fracasso exemplar, para não dizer em uma tragédia. Por que encerrar a história desses homens com a narrativa de um fracasso, feita cinco ou seis anos depois?

A visão bastante peculiar de Martin Nicoulin a respeito dessa história culmina com sua prática atual em relação a Nova Friburgo, seu papel de detentor da história passada da antiga colônia e de benfeitor dela no presente, através de ações desencadeadas na Suíça, como a Queijaria-Escola (Frialp) e sua ampliação, a Maison Suisse — que, além da Queijaria-Escola, abriga um museu, uma biblioteca e a Chocolateria-Escola. O fracasso no passado poderia, então, ser 'consertado' com a ajuda vinda de fora. Novamente é formada uma Caixa de Socorro para Nova Friburgo, tal como a Sociedade Filantrópica criada nos primeiros anos da colônia.

Muito antes de significarem 'primeiras ilusões', 'confrontação com a realidade', 'em direção à realização', ou mesmo de serem 'o exemplo de um fracasso', as cartas utilizadas por Nicoulin, junto com as publicadas nos jornais, possibilitam recriar as visões de mundo dos homens e mulheres que decidiram tentar a sorte em outro lugar, em busca de uma realização quase idílica. Elas são talvez a única forma de se perceber a expectativa que tocava a cada um deles particularmente e como grupo.

 

O papel do europeu: a civilização

A partir do momento em que os migrantes começaram a chegar ao porto do Rio de Janeiro, os jornais suíços passaram a publicar as primeiras informações a respeito deles: duração da viagem de navio, saúde dos imigrantes etc. As notícias eram transmitidas pelo marquês de Marialva, que buscava manter informados seus pares suíços. A primeira notícia era um relato oficial que aparecia brevemente nas páginas do Journal du Jura de 25 de março de 1820, trazia o aviso do dia da chegada dos navios, nomeando-os um a um, e só.

A mesma edição publicou uma pequena nota, baseada numa carta particular não reproduzida, sobre a chegada de alguns suíços que haviam resolvido se estabelecer no Rio de Janeiro ou nas proximidades da colônia de Nova Friburgo. Aquela era a primeira carta particular que levava notícias sobre a chegada dos migrantes ao Brasil. A nota frisava a satisfação que eles sentiram com a acolhida recebida por parte das autoridades locais, um bom indício, no entender desses homens, da recepção que os imigrantes da colônia suíça iriam receber.

 

O papel do europeu: trazer a civilização ao Brasil

O fragmento da carta que se encontra publicada na mesma edição do Journal du Jura foi escrito no dia 19 de novembro de 1819, por uma senhora, radicada no Rio de Janeiro, e era endereçada a seu cunhado na Suíça.8 Seria a primeira carta que ela enviava a seu país? Há quanto tempo sua família chegara aqui? Essas são perguntas que não se podem responder a partir do pequeno texto. Mas ele permite perceber que a senhora migrara com a família já há algum tempo, tendo recebido da Coroa algum gado (bovino e caprino), com o qual iniciou uma criação, provavelmente nas cercanias da Corte, senão na própria cidade.

A família chegou a fornecer manteiga fresca à mesa real — o que leva a pensar que aquela não era uma família de migrantes comuns. A maior preocupação da autora da carta era narrar o tratamento dispensado aos imigrantes pelos portugueses, ressaltando a vontade que eles tinham de agradar aos novos súditos adotivos do rei. Exemplificando o tratamento, testemunhado e vivenciado, na qualidade de observadora, por ocasião da chegada dos imigrantes e o que sua própria família recebera ao chegar, madame Wasserfall — era esse o seu nome — chamava a atenção para dois movimentos: de um lado, a importância dada ao imigrante europeu na mobilização social em torno daquela leva de suíços que chegava aqui em 1819 e a conseqüente facilidade de relacionamento com os habitantes locais.9

Esta senhora era uma observadora, estava de fora do evento, não procurava se envolver e sentia-se feliz em saber que seus conterrâneos estavam sendo bem tratados. Ao falar de sua experiência em terras brasileiras, deixava transparecer um entendimento sobre a importância da potencialidade do trabalho a ser realizado na nova colônia e sobre o papel do imigrante naquele contexto sociopolítico específico, fosse ele um imigrante voluntário ou partícipe de uma empresa migratória: "O rei se interessa pelas pessoas vindas por conta própria e lhes oferece os mesmos privilégios dirigidos aos colonos que trouxe; a saber, propriedade da terra, isenção de impostos etc." (Journal du Jura, 25.3.1820, pp. 91-2).

Nas breves linhas, o 'outro' ora era representado como o 'anjo' protetor dos imigrantes, ora como pouco civilizado, por desconhecer o fabrico da manteiga ou o modo de cuidar adequadamente do gado. A partir das categorias propostas por Todorov (1989, p. 377), pode-se entender o posicionamento dessa senhora como o do assimilateur, aquele que "interpreta habitualmente a diferença existente no outro como uma ausência relacionada a seu próprio ideal". A atitude patriarcal do português com relação ao imigrante não é forte o suficiente para suplantar sua atitude pouco civilizada no que tange aos hábitos domésticos e industriais considerados como apropriados pela observadora. Seu ideal de civilização é bem claro, assim como a conclusão sempre negativa que tira das comparações que faz entre Brasil e Suíça: seu país natal é superior ao de adoção, para onde traz a idéia de que eles, suíços, têm muito a contribuir para o desenvolvimento da nova terra.

 

A civilização encontra a barbárie

A segunda carta, escrita já de Nova Friburgo, é datada de 26 de novembro de 1819. Seu autor é o cavalheiro de Porcelet, que aos 43 anos engajara-se sozinho na imigração e cuja função era, a princípio, o de médico da colônia. Nele percebem-se duas grandes diferenças com relação aos outros imigrantes: tem um distintivo de nobreza — é um cavalheiro — que o torna diferente dos outros colonos e é médico de formação.10 Talvez tenha-se tornado diretor-geral da colônia de Nova Friburgo por essas duas razões e por demonstrar extrema racionalidade, observada em suas considerações acerca da ausência de caminhos de acesso e do atraso do plantio.

A carta, escrita ao diretor da Polícia Central, em Berna, foi publicada em 3 de junho de 1820 no Journal du Jura. É uma das mais ricas no que tange à idéia de colônia, porque Porcelet era um dos poucos que pensava na coletividade, e não apenas no sucesso pessoal. Em seu papel de diretor, idealizava aquilo que Nova Friburgo deveria se tornar: uma 'nouvelle Fribourg', a recriação do que a lembrança dizia que fora a 'velha Fribourg', um local quase paradisíaco. Memória e expectativa acabam por se fundir — a velha Fribourg era entendida como 'espaço de experiência', enquanto a nouvelle Fribourg era o 'horizonte de expectativas'.

Os dois conceitos foram cunhados por Koselleck (s. d.), sendo que o último é considerado suficientemente vasto por Paul Ricouer para abrigar tanto a esperança quanto a dúvida, o desejo e o querer, a preocupação, o cálculo racional, a curiosidade e outras manifestações, de cunho privado ou não, direcionadas para o futuro (Ricoeur, 1985, p. 376). Pode-se acrescentar, nas palavras de Koselleck (op. cit., p. 311): "Ela (a expectativa) pode estar também ligada às vezes ao indivíduo ou ser interindividual, ela pode também realizar-se no presente e em um futuro atualizado...", um futuro que se deseja tornar presente na 'nova' Fribourg.

Em sua narrativa simples e objetiva, Porcelet descreve a espera para o embarque na Holanda, a viagem de lá até o Brasil, o tempo passado até o início da subida a Nova Friburgo, a atenção dada aos migrantes pelo governo português, o caminho para a colônia, a vila de Nova Friburgo, as hortaliças e frutas, buscando sempre estabelecer uma comparação entre a Suíça e o Brasil, Nova Friburgo e Fribourg, o rio Bengala e o Sarine.11 Ele divide sua narrativa em dois momentos: primeiro descreve o lugar onde se localiza a vila, depois analisa os obstáculos a superar. Não poupa elogios nem críticas. Faz comentários sobre os animais selvagens encontrados nos arredores da colônia e sobre as más condições dos caminhos, constante fonte de preocupação, pois elas determinam diretamente as possibilidades de comércio da cidade.

A leitura da carta dá pistas sobre a visão do estrangeiro não só como diferente de si próprio, mas, sobretudo, como pernicioso ao desenvolvimento do 'eu' nascente, que, nesse caso, equivale à própria colônia que está sendo formada. Porcelet coloca-se também como o próprio assimilateur, à medida que acentua a comparação entre o universalismo europeu e o novo lugar, simples e pequeno, longe e particular. O 'outro' com quem se depara não é necessariamente o português, mas o índio, que ele encontra nos arredores de Nova Friburgo:

Pretendíamos que este local se encontrasse à grande distância dos selvagens; no entanto, há mais de seis semanas que apareceram cerca de 150 deles armados de arcos e mesmo de fuzis. Não fizeram, a bem da verdade, nenhum mal, mas serão sempre tão cordatos e pacíficos? Eles nos trouxeram macacos, papagaios e peles em troca de machados, facas, tesouras, espelhos e aguardente. Estes indivíduos, inteiramente nus, se jogam como furiosos sobre a carne crua para devorá-la, se deixam levar pela paixão, sem diferença da besta bruta, o que oferece os maiores inconvenientes para o exemplo dos jovens, se suas visitas forem constantes (Journal du Jura, 3.6.1820, p. 164).

O selvagem de Porcelet é exótico. Sua descrição pouco difere daquelas feitas pelos europeus que aqui chegaram no início do século XVI e povoaram o imaginário dos europeus acerca dos homens e animais do Novo Mundo. Nas palavras de André Thévet (1980, p. 98), "esta região era e ainda é habitada por estranhíssimos povos selvagens, sem fé, lei, religião e nem civilização alguma".

Segundo Todorov (op. cit., p. 289), as teorias sobre o exotismo, em que a cultura e o país são definidos por sua relação com o observador, foram impulsionadas pela 'descoberta' da América, que se misturam e fundem-se com o primitivismo. Era justamente esse primitivismo que Porcelet temia, o encontro e o convívio de culturas tão distintas, que poderia ser prejudicial aos civilizados suíços, sobretudo aos jovens que seriam educados bem próximos a tal 'selvageria'.12

O maior temor de Porcelet, naquele momento, era a aculturação, se pensarmos o conceito de cultura tal qual nos é proposto por Todorov (op. cit., p. 281), como possibilidade de melhor orientação no mundo, memória do passado próprio de uma comunidade, o que implica um código de comportamento no presente e a percepção de um conjunto de estratégias para o futuro.

A estratégia de nosso missivista era tentar manter os colonos no papel de assimilateurs, sem risco de torná-los assimilés — categorias propostas por Todorov (op. cit., p. 380) para designar aquele que faz apenas a viagem de ida e que "quer conhecer o outro, pois vai viver entre eles; quer se parecer com eles, pois quer ser aceito por eles". O problema reside precisamente aí: quando o processo de conhecimento e identificação avança o suficiente, o imigrante torna-se assimilado, passa a ser 'como' os outros. Contudo, era preciso fazer com que o 'outro' se parecesse com o 'nós', fazer desaparecer a selvageria do globo, e não correr o risco de ver os civilizados suíços se parecerem com os índios. O medo da aculturação também surge em outras cartas de suíços envolvidos na empresa migratória.

Decerto o projeto colonizador que fora combinado com d. João VI previa a integração dos migrantes à Coroa portuguesa, na qualidade de súditos. A imigração tinha como um dos principais objetivos civilizar os arredores da Corte, atuando os imigrantes como agentes da nova cultura que iria se formar, em moldes europeus. Contudo, a aculturação desejada era entre o português e o europeu, que deveria servir de mestre àquele, ou, como estipulava o texto das Conditions:

Art. VI — Entre esta quantidade de colonos que Sua Majestade está intencionada em trazer em um número considerável, deverá haver suficientemente artesãos dos mais essenciais, tal qual carpinteiro, ferreiro, serralheiro, marceneiro, pedreiro assim como moleiro, sapateiro, curtidor, alfaiate, tecelão, oleiro, telheiro etc., os quais deverão ensinar os portugueses que quererão aprender (Nicoulin, op. cit., p. 238, grifos da autora).

O rol de preocupações de Porcelet com relação à sorte da colônia incluía também questões práticas concernentes ao modo de organização do homem no espaço e seus resultados, tais como a ausência de caminhos e a demora na chegada de outros navios, o que atrasava o início do plantio, acarretando uma safra menor ou a perda total da safra. Uma nota de rodapé do jornal dizia que seus temores tinham fundamento, mas que o governo ampliara os subsídios concedidos aos colonos. Esses subsídios tinham sido objeto de acordo com os imigrantes nas Conditions (artigo V, que previa dois anos de subsídios), como um incentivo a mais para a vinda das famílias.

As reflexões de Porcelet deixavam transparecer, de uma forma que não se vê nos outros relatos, um certo universalismo, isto é, "o horizonte de entendimento entre dois particulares; talvez não seja atingido jamais, mas, apesar disso, é preciso postulá-lo para tornar inteligíveis os particulares existentes" (Todorov, 1993, p. 31): o europeu e o americano, preocupados com os índios e também com a unidade da 'colônia'.

 

Em busca dos sonhos

A carta ora analisada foi enviada a seus parentes por um jovem suíço de 29 anos, Jacques Page, que decidira abandonar a terra natal e partir em busca de grandes sonhos. Só tivemos acesso a uma parte da carta. Segundo a lista de famílias publicada no livro de Martin Nicoulin, havia mais um grupo familiar com esse mesmo sobrenome, além de uma moça solteira, sendo que essas pessoas residiam em outro local. Se há alguma ligação entre eles, não se pode afirmá-lo.

O jovem foi um dos poucos a externar seu sentimento com relação aos agentes da imigração, com ênfase na atuação dos suíços — o que seria o fio condutor de um romance, Terra! Terra!, escrito pouco mais de um século depois: "Como nós fomos enganados por nossos condutores suíços até o desembarque, fomos bem melhor recompensados pelos portugueses em nossa chegada, pois fomos todos bem tratados e bem recebidos" (Journal du Jura, 26.3.1820, p. 148).

A carta de Page fala da expectativa de realização de um desejo partilhado por outros imigrantes — a riqueza —, localizado agora não em um futuro remoto, mas em um tempo bem próximo, o tempo realizável pelo esforço individual coroado de sucesso. Naquele momento, Nova Friburgo não era um sonho comum, mas a riqueza advinda do movimento de mudança era compartilhada igualmente por todos. "Em alguns anos os que não forem preguiçosos serão felizes. Quanto a mim, não temo não ser capaz de me sustentar. Aguardando que a terra seja dividida, ganho sempre dinheiro trabalhando para os portugueses" (Journal du Jura, 26.3.1820, p. 148).

A segunda frase indica que nem todos os colonos ficaram parados enquanto aguardavam a chegada dos outros navios, numa espera que durou quase cinco meses (desde a chegada dos primeiros navios até a divisão das terras). Não se pode dizer se esse foi um caso excepcional, mas certamente ele rompe com a crença reinante na inatividade dos colonos — que Martin Nicoulin cristalizou na expressão "Nova Friburgo vegeta" —, pois permite que se perceba um movimento desses homens na descoberta do novo país e de uma nova cultura, que pode ser entendida como a possibilidade de melhor orientação no mundo e a memória do passado inerente a uma comunidade, que implica também um código de comportamento no presente e um conjunto de estratégias para o futuro (Todorov, op. cit., p. 281).

O 'conjunto de estratégias' adotado por nosso jovem imigrante pode ser entendido como o início de uma troca de experiências entre portugueses e suíços que será fundamental para a realização dos sonhos que motivaram toda aquela mudança.

 

Muito a ensinar

Publicada no Journal du Jura em duas partes — a primeira em 1o de julho e a segunda em 8 de julho de 1820 —, a missiva que passamos a analisar era uma longa descrição tanto da viagem da Holanda para o Rio de Janeiro e Nova Friburgo quanto da vila, seus arredores e outros temas ligados ao novo mundo que se descortinava para aquelas pessoas, como hortaliças, o gado bovino, suíno, frutas etc. Era uma carta anônima, e o jornal dizia apenas que era dos "Amigos de Berna", que escreviam de Nova Friburgo no dia 13 de janeiro de 1820.

A forma pela qual a missiva era escrita, com um narrador ausente da cena descrita, não permite a princípio incluir esse remetente em qualquer das categorias anteriormente propostas. Mas em dois momentos ele (ou eles) deixa(m) perceber alguma expectativa e uma crítica, através da qual se constata uma recorrência da universalidade: o 'eu' aparece como superior ao 'outro'.

As casas, construídas quase sempre em conjunto de seis, são cobertas de telhas fundas, o assoalho dos cômodos em terra batida, as janelas guarnecidas de postigo, sem vidro, à moda do país, bem leves, mas melhor do que tínhamos pensado; há somente a chuva contra a qual estamos protegidos; cada casa deve alojar 16 pessoas.

...

A raça de animais de chifre é bela e boa, de grande altura, porém quase selvagem, pois não se tira nenhum partido dela. As vacas, os bois, os asnos correm abandonados nas montanhas, algumas vezes tão longe que é preciso procurá-los durante meio dia, quando não durante todo o dia. Se se quer o leite de uma vaca, prende-se o bezerro e encarcera-se-o, deixa-se a vaca chegar junto a ele; mas então ele a esgota tanto que não se retira mais que meio pote de leite, quando muito. ... Atrelam-se normalmente seis a oito bois a um carro, pois estes são tão malfeitos que o menor peso exige essa parelha. ... As cabras não são de boa raça e são caras. ... As ovelhas também têm necessidade de serem melhor cuidadas; ... Os cavalos e os asnos correm na floresta abandonados à própria sorte; ... . Os porcos são de boa raça, fáceis de engordar e se multiplicam bastante. Há muitas galinhas que são maiores que as nossas. Quanto à caça, estamos malparados: os papagaios e os macacos são quase as únicas caças, e é perigoso atirar nestes últimos por que eles vêm se defender em bando (Journal du Jura, 8.7.1820, pp. 95-6).

A citação deixa vislumbrar quais eram os anseios desses homens. Ao descrever a casa, eles diziam que elas eram melhores do que o esperado. Alimentaram a expectativa baseada em quê? Em relatos anteriores? Anteriores a quê? À partida? À chegada a Nova Friburgo? A bem da verdade, essas questões perdem sentido, pois expectativa há, mesmo que negativa. Nesse caso pode-se dizer que a idéia do 'outro' já estava presente entre esses "Amigos de Berna", e que o 'eu' estava aqui sendo valorizado. E nessa valorização do 'eu', eles se colocavam como agentes civilizadores porque julgavam ter muito a ensinar aos luso-brasileiros: a melhor forma de criar gado, de construir carros de boi e, desse modo, de transformar aquele local tão diferente em algo mais próximo, mesmo que alguns hábitos civilizados tivessem de ser deixados de lado, como a caça.

A carta ainda apontava um outro detalhe: que a imigração para Nova Friburgo envolveu mais pessoas do que as listadas inicialmente. Esses "Amigos de Berna" estavam em contato com outros conterrâneos que haviam partido na mesma época para se instalarem, por conta própria, nas proximidades da colônia. Duas questões se impõem, a primeira ligada à seleção dos imigrantes — a procura parece ter sido bem maior do que a empresa colonizadora podia suportar — e a segunda ligada às condições socioeconômicas dos imigrantes.

 

A busca solitária da riqueza

Escrita em 20 de março e publicada a 12 de agosto de 1820, com continuação na edição de 19 de agosto, a missiva que examino agora mostrava que a busca de riqueza não motivava somente as camadas pobres da sociedade européia. Várias figuras anônimas atravessaram isoladamente o oceano em busca de seu pote de ouro. Nova Friburgo não foi exceção. Muitas pessoas aproveitaram a vaga migratória e acompanharam a empreitada na busca de concretizar os sonhos de quem migrava. A carta ilustrava a situação de um desses solitários que haviam abandonado tudo, inclusive a família, para buscar riqueza no Brasil, e que fora parar bem próximo à 'colônia' que então se formava.

Pierre Gendre viera aparentemente sozinho, pois escrevia a carta a seus filhos. Acredita-se que ele não era jovem, pois em um dado momento dizia que a subida para Nova Friburgo era um pouco pesada para sua idade (Journal du Jura, 12.8.1820, p. 224). Terá sido por isso que ele não fez parte de Nova Friburgo? Fora excluído pela idade? Essa não era a primeira correspondência enviada aos filhos na Suíça, pois ele reclamava da falta de resposta. A singularidade de sua carta encontra-se no fato de ela ter sido escrita por alguém que não fazia parte da imigração de Nova Friburgo, mas que resolvera vir para cá por conta própria, na mesma época, e que se instalara nas proximidades da colônia, buscando mitigar assim a solidão. Gendre concentrava seus comentários ao meio em que ele circulava, entre Nova Friburgo e o Rio de Janeiro. Não se sabe há quanto tempo encontrava-se por aqui, e esse é dado que pode ter influído na percepção que ele tinha acerca de alguns detalhes.

É certo que em sua bagagem ele trouxera boa dose de esperança e sonho, como qualquer outro imigrante. Ao contrário de seus conterrâneos, não achara casa pronta e tivera de procurar moradia. Concluímos que tinha algumas posses e que pôde escolher onde morar: "É próximo à vila de Macacu, ao pé da montanha e perto do rio que quero me estabelecer, pois aqui a produção é extremamente cara, todos os produtos, sobretudo aqueles mais raros" (Journal du Jura, 19.8.1820, p. 230).

Pierre Gendre chamava a atenção para a importância do escoamento da safra para o cálculo do preço dos alimentos. É claro que outros imigrantes tinham consciência d o alto custo da produção, mas só Gendre refletiu sobre o problema em carta. Se Porcelet aparentemente foi o único a se preocupar com a proximidade dos índios, somente Gendre discorreu sobre o trabalho e o comércio de escravos. Para ele, o 'outro' era o sistema comercial implantado. Encontrando-se no limiar entre assimilateur e assimilé, ao mesmo tempo que criticava, assustava-se com a fácil adoção de hábitos escravagistas por seus conterrâneos, hábitos que não combinavam com o que Flora Süssekind (op. cit., p. 28) chama de "imagem-só-natureza" que se tinha do Brasil.

Em relação ao comércio de escravos ou de negros, vos direi que os encontramos em lojas em número de cinqüenta ou mais. Chegando da África, eles estão todos nus, à exceção de uma pequena toalha ao redor dos rins, o que lembra um cinto; eles não conhecem outra língua que não seus dialetos. Os compradores os examinam, como cavalos que queremos comprar. Os infelizes são obrigados a correr, a saltar, a dançar, e a peça desta mercadoria humana custa de seiscentos a 1.200 francos franceses!!!

Apesar desse preço, os negros são mais baratos que os outros empregados; eles aprendem tudo o que queremos, se nos damos ao trabalho de os instruir, pois são inteligentes, dóceis, obedientes, polidos, fortes e robustos, comem somente legumes, mandioca, carne seca e peixes. Eles não estragam roupas, dormem no chão ou sobre esteiras de junco e, como são propriedades de seus senhores, não vão correr de um a outro para os trair. Os senhores Mandrot de Morges, Graffenried, Schmid, Morell etc., de Berna, se encontram aqui e se propõem a adotar a cultura; eles compraram para este efeito negros que lhes custaram mais ou menos 1.200 fr. a peça (Journal du Jura, 19.8.1820, p. 230).

O trecho revela o choque entre a cultura européia, distanciada dos hábitos do antigo sistema colonial, e a do novo continente, onde as práticas de comércio de escravos reinavam soberanas. Havia também uma percepção, por parte de alguns imigrantes, de que a única forma de enriquecimento possível naquele momento era adotar a agroindústria escravista.

Essa percepção colidia com a própria concepção de Nova Friburgo, pensada como uma colônia voltada para a agricultura familiar e como fulcro de criação de núcleos urbanos e centros irradiadores de cultura. No caso da colônia de imigrantes, o projeto de riqueza acalentado individualmente por todos os imigrantes jamais se realizaria, por mais promissoras que fossem as primeiras avaliações acerca da fertilidade do solo e das possibilidades de enriquecimento antevistas pelos que chegavam. Como dizia Pierre Gendre:

Segundo penso, uma família de colonos, com o produto da horta, da capoeira, de uma vaca e de alguns porcos, não somente deve poder viver, mas ganhar ainda muito dinheiro, somente desbravando o terreno que lhe será concedido transformando-o em uma bela propriedade. Os que amam o trabalho não estarão a lastimar-se (Journal du Jura, 12.8.1820, p. 224).

Contudo, era vedado aos colonos esse enriquecimento. Somente a ruptura com a nouvelle Fribourg possibilitaria o sucesso desejado e acalentado. A não realização do projeto supervisionado por Porcelet — a unidade de Nova Friburgo — foi a realização do projeto individual de cada um dos imigrantes. A realização individual da expectativa dos suíços era marcada pela busca de terras apropriadas para o café e pela utilização da mão-de-obra escrava, e pode ser exemplificada por uma passagem de J. J. Tschudi (1980, p. 36), viajante suíço que percorreu Nova Friburgo com a missão de fazer um relatório a seu governo sobre o estado das colônias de conterrâneos no Brasil: "Tratava-se de gente muito simples, arraigada ainda aos costumes da pátria longínqua, e que levava ali, entre seus setenta escravos negros, vida patriarcal." A família que Tschudi descrevia já era da segunda geração de colonos de Nova Friburgo, ainda mantinha costumes que lhe foram transmitidos pelos pais, mas se apresentava também adaptada às práticas culturais brasileiras.

A carta de Pierre Gendre denota assim a estreita ligação entre os suíços no Brasil. Ele citava quatro outros conterrâneos que também vieram buscar fortuna aqui. Duas referências já haviam sido feitas a esse grupo: a primeira, na edição de 19 de fevereiro de 1819, em que aparece uma pequena nota anunciando a chegada deles ao Brasil, e a segunda, na carta dos "Amigos de Berna", onde se diz que eles já haviam se encontrado aqui.

Os quatro cidadãos de Berna tampouco fizeram parte da empresa migratória de Nova Friburgo, incluindo-se entre aqueles que tinham dinheiro suficiente para iniciar uma boa empresa agrícola por conta própria. Certamente não foram impelidos pela pobreza, mas pelo desejo genuíno de enriquecimento rápido, o que para eles devia parecer remoto na terra natal. Isso permite entrever uma teia de contatos e conhecimentos que foi recriada em terras brasileiras.

Em sua carta, Pierre Gendre, também oferecia apreciações sobre a cidade do Rio de Janeiro e sobre as relações familiares na Corte. Aliás, ele foi um dos poucos que estiveram na Corte. Entre os colonos, somente alguns tiveram a oportunidade de estar no Rio de Janeiro: "Eu já lhes falei do Rio de Janeiro, esta cidade que cresce todos os dias. Ela se tornará uma das mais belas e maiores do novo mundo. ... Aqui eu ainda não vi uma horta que mereça este nome; tudo, como no interior, prova a preguiça e a negligência" (Journal du Jura, 19.8.1820, pp. 230-1).

Talvez o trecho seja mais elucidativo do pensamento do europeu a respeito do 'outro' do que a passagem relacionada aos escravos. Pierre Gendre era bastante claro ao dizer o que pensava do homem luso-brasileiro. Naquele momento, ele reforçava seu papel de homem civilizado que viera trazer ou ensinar algo de importante àquela pobre gente. Fica bastante evidente na passagem citada que ele julgava que tinha mais a dar do que a receber no processo de aculturação.

É possível, por essa carta, deduzir também a diferença do relacionamento familiar na Corte, sobretudo no que tange ao papel da mulher, quando Gendre descreve em poucas linhas o cortejo que seguia para a missa: "Não se pode dizer nada a respeito do 'belo sexo' no Rio de Janeiro, pois as senhoras saem raramente, são vistas somente quando vão à igreja, acompanhadas de negros e negras, encobertas, dos pés a cabeça, de tafetá preto" (Journal du Jura, 19.8.1820, p. 231).

Todos esses elementos tornam Pierre Gendre um imigrante único no universo com o qual estamos trabalhando. Embora não faça parte do contingente migratório de Nova Friburgo, ele faz questão de conhecer a colônia, preocupa-se em descrevê-la e em imaginar sua sorte (bastante positiva, segundo sua análise) e acredita que tem muito a ajudar em seu desenvolvimento. Sua percepção advém, em larga medida, do fato de ele ser um imigrante autônomo, o que lhe propiciava realizar ações não consentidas aos colonos, que passavam por um período de 'confinamento' em Nova Friburgo. A mobilidade de Gendre possibilitava-lhe conhecer melhor o país e avaliar melhor as reais chances de enriquecimento.

 

Das primeiras ilusões à chegada ao paraíso

O texto que ora analisamos faz parte de um grupo de quatro cartas publicadas como um dos apêndices do livro La genèse de Nova Friburgo, de Martin Nicoulin, sob o título 'Les premières illusions'. Mas seriam realmente as primeiras ilusões?

 

 

 

 

Entre os correspondentes até agora examinados, um dos mais loquazes era Jacques-Martin Péclat. Escrevendo aos que ficaram na Suíça (irmãos, cunhados e amigos), contava como transcorrera a viagem (com maior ênfase na chegada), como se dera a instalação dos colonos em Nova Friburgo e como fora o início da nova vida.

Péclat viajara acompanhado da esposa e dos filhos. Porém, ao longo da narrativa, descobre-se que o grupo era mais amplo, incluía também o primo Jean Page, que resolvera imigrar acompanhado da família, mas ela não resistira às doenças do percurso. A esposa falecera enquanto ainda esperava o embarque na Holanda, onde surtos de varíola, tifo e febres diversas fizeram diversas vítimas entre os emigrantes (Nicoulin, op. cit., pp. 146-7); os dois filhos morreram ao longo da travessia marítima. Os laços familiares acabaram então falando mais alto, e fora preciso que Péclat estendesse a mão ao parente necessitado. Naquele projeto em que a individualização das expectativas era tão acentuada, as relações familiares parecem ter ocupado lugar de destaque.

Em sua carta, Jacques Péclat narrava rapidamente a travessia marítima e descrevia a vida em Nova Friburgo. Sua maior preocupação era com o cotidiano, sobretudo com o custo de vida e com a casa. O aspecto religioso aparece em diversas partes da narrativa: no caráter providencial da viagem, no Deus interventor e julgador.

Nós nos encontramos tão bem que nem podemos agradecer a Deus a graça de nos ter conduzido a este país; mas como Deus não permite a felicidade plena, alguns de nós têm que vencer esta febre intermitente; sem isso seria impossível estar melhor. ... eu tenho que agradecer à Divina Providência de ter me posto neste destino (Nicoulin, op. cit., p. 290).

Este homem via a imigração como resultado da graça divina, embora ele não desconhecesse as provações. Fora preciso sofrer as dificuldades da viagem, as perdas e se adaptar ao novo. Somente vencendo esses óbices poderia alcançar o paraíso que viera buscar.

Esses imigrantes viviam um 'novo tempo' que fora fundado pela Revolução Francesa e que rompia com o passado. Ao fazê-lo, transformavam a espera escatológica cristã em progresso. Esse progresso não se realizava mais fora do tempo, como a espera do Juízo Final, mas no próprio 'tempo'. O presente passava a ter força, porque acreditava-se que ele trazia um novo começo, Nova Friburgo.

A religiosidade de nosso missivista manifestava-se não só na interpretação da viagem como provação, mas também na importância que ele atribuía à conversão ao catolicismo de alguns dos protestantes que para cá haviam vindo, quem sabe como resultado da atração pela realização da obra divina, o paraíso na Terra?

O encantamento de Péclat com a obra divina na América caminhava lado a lado com o espanto causado pelo contato com os portugueses. "Os portugueses são para nós as melhores pessoas do mundo que poderíamos ter encontrado; ao passarmos por suas fazendas, eles vos oferecem comida e bebida, sem que isso nunca nos custe nada" (Nicoulin, op. cit., p. 290).

Segundo as categorias propostas por Todorov, Jacques Péclat coloca-se mais como um 'alegorista' do que como 'assimilador' ou 'assimilado', categorias reconhecíveis nas narrativas dos outros imigrantes: "A imagem do outro do alegorista não vem da observação, mas da inversão de traços que ele encontra em seu país" (Todorov, op. cit., p. 384). Péclat não estava vendo o português, mas analisando seus próprios valores a partir do encontro.

Quando analisava a fauna local, Péclat também procedia sempre por comparação. É claro que todos faziam o mesmo, mas, nesse caso, o Brasil saía ganhando: se os animais espantavam ou decepcionavam os outros imigrantes, para Péclat, eles eram menos perigosos do que os de seu país de origem, e por pouco ele não retratava o próprio paraíso em terras tropicais: "não vimos nenhum animal feroz, como se dizia tanto na Suíça. .... As serpentes, têm algumas, mas são mais raras do que na Suíça" (Nicoulin, op. cit., p. 289).

Para que esse paraíso se tornasse completo, era preciso viver com conforto. Por isso, Péclat aproveitou o 'tempo de inatividade' entre a chegada e a distribuição de terra confeccionando móveis para sua casa. Na carta, ele diz que mudara bastante, estava mais ambicioso, queria sempre mais dinheiro, pois achava que tinha menos do que o necessário. Esses eram os ares da terra, afinal, o paraíso já se corrompera. Tanto o paraíso quanto o homem, que deixava aflorar a razão de sua mudança, a busca do enriquecimento.

 

O exílio forçado

Intitulada por Martin Nicoulin 'A confrontação com a realidade', a carta aqui examinada, assinada pelo abade Joye, tinha uma particularidade: fora escrita pelo eclesiástico responsável pelo conforto espiritual, pelas almas e pelo bom desenvolvimento dos colonos. Certamente ele era uma das pessoas de maior senso crítico entre as que vieram para cá. Sua adesão ao projeto da nouvelle Fribourg não fora voluntária, como a da maioria de colonos. Ele fora escolhido pela diocese de Fribourg para acompanhar os colonos tanto na viagem quanto na nova colônia. Não havia em seu relato o deslumbramento inicial, mas um tom ácido, ferino. Ele falava de saudade e do medo de ser esquecido pelos que haviam ficado em Fribourg. Talvez a 'desilusão' revelada por ele tivesse origem no fato de que a decisão de partir não fora uma escolha sua.

O abade Joye lamuriava-se, não acreditava no sucesso, não porque criticasse a atitude dos empresários da imigração, mas porque não confiava plenamente na força de vontade dos colonos, de seu rebanho:

a localidade não é das mais agradáveis, é surpreendente que o sr. Gachet, tendo tido a oportunidade de escolher em todo o Brasil ... dê preferência a um local no qual uma grande parte é inacessível e incultivável, em lugar das imensas planícies dos arredores de São Paulo. No entanto, os que quiserem trabalhar e se dedicar realizarão seu intento, enquanto os preguiçosos serão, ao final dos subsídios oferecidos por S. M., mergulhados na mais horrível indigência; este número será bastante grande. Sobretudo a parte alemã da Suíça pode se gabar de ter purgado seu país de mendigos, vagabundos e inúteis que viviam à custa da sociedade (Nicoulin, op. cit., p. 291).

Nessa passagem, ele misturava ressentimento, preconceito e outros sentimentos que o distanciavam de uma 'confrontação' com a 'realidade' de Nova Friburgo. Até porque, quando escreveu a carta, em 10 junho de 1820, as glebas haviam acabado de ser distribuídas, e a esperança em Nova Friburgo achava-se bem viva.

Ao contrário de Porcelet, o abade, um jovem de apenas 29 anos, não demonstrava preocupação com a unidade da colônia. Ressentia-se dos trabalhos que tinha de realizar, das dificuldades que encontrava, enfim, do novo. Ele não se apresentava nem como 'assimilado' nem como 'assimilador', e sim como o 'exilado', "aquele que interpreta sua vida no exterior como uma experiência de não-pertencimento ao seu meio" (Todorov, op. cit., p. 282), o que termina por impedir uma relação mais estreita com o 'outro'.

Certo está que, como eclesiástico, ele não podia se furtar a aplicar os sacramentos a todos. E realizava bem esse trabalho, convertendo, por exemplo, alguns dos imigrantes de origem protestante. Mas, por outro lado, reclamava das longas distâncias que tinha de percorrer e sentia saudade da vida pacata que levava em sua terra natal: "Que sois felizes, senhores, de ter somente pequenas paróquias para conduzir" (Nicoulin, op. cit., p. 292).

Nada escapava de sua avaliação negativa, nem mesmo a atuação de seus colegas luso-brasileiros, o que o levava a questionar seu próprio futuro. Para ele, tudo era incerteza, e o futuro, bem diferente do paraíso previsto e desejado por seus fiéis. Com uma visão dessas, jamais poderia ter-se tornado o grande questionador de Nova Friburgo.

 

A expectativa próxima de se realizar

Escrita em dezembro de 1821, quando Nova Friburgo já tinha mais de um ano de existência, e a imigração, dois, e quando muitos percalços já haviam sido vencidos pelos imigrantes, transformados agora em brasileiros, a carta de Joseph Crelier falava de um outro tempo, diferente daquele narrado anteriormente. A passagem do tempo permitiu que esse colono analisasse melhor as circunstâncias e o destino de Nova Friburgo:

a colônia não prosperou a contento, ... o objetivo inicial ao se criar essa colônia no Brasil foi esquecido, porque ela foi mal dirigida, de forma que nesse momento a maior parte dos colonos abandonou as terras que o rei lhes havia oferecido, uns para procurarem outras melhores, como nós, e a maior parte para ir ao Rio Janeiro, para trabalhar por conta própria ou para se ligar a alguma coisa (Nicoulin, op. cit., p. 293).

Apesar de tudo, o sonho não acabara para os migrantes. Nova Friburgo podia não mais significar a mesma coisa, mas o desejo de uma vida melhor continuava impulsionando esses homens rumo à riqueza e a terras melhores, sobretudo em direção à cafeicultura. A experiência não foi negativa, tanto que o missivista estimulava a vinda dos parentes, fornecia instruções sobre como proceder; oferecia ajuda financeira e julgava improvável o recebimento de subsídios governamentais, tendo em vista os resultados do projeto original.

A saudade era atenuada pela troca de cartas. Na que estamos analisando, o imigrante dizia que, para que a felicidade fosse completa, seus familiares deveriam vir também. Mas em momento algum ele pensava em retornar: seu lugar agora era aqui.

Nesse caso, trata-se claramente de um 'assimilado' já inserido na lógica econômica vigente e certo de que a prosperidade era uma realidade ao alcance das mãos. Pode-se dizer que, para Joseph Crelier, a 'espera escatológica' se realizara: ele encontrara a prosperidade que buscava, uma realização material na busca terrena, secular.

 

Um longo silêncio é rompido

Escrita por uma mulher, Marie Ruffieux, em setembro de 1825, a última carta aqui analisada constituía o primeiro contato dela com o país natal, embora já se tivessem passado quase seis anos desde sua partida da Suíça. A missiva recebeu de Nicoulin o título de 'O exemplo de um fracasso'.

Na verdade, Marie narrava em poucas linhas sua trajetória e a de sua família, a morte dos pais e dos irmãos. Ela e as irmãs, portanto, ficaram sozinhas. O texto não deixa entrever qualquer sentimento, fosse de revolta pela perda dos entes queridos, fosse de saudade da pátria ou mesmo de angústia diante do futuro. Era apenas a resignação de uma alma ante os desígnios divinos. Essa é a mais informativa das cartas que fazem parte do conjunto e a que menos permite perceber a visão da imigrante a respeito da colonização de Nova Friburgo.

 

A título de conclusão

Este artigo inicia-se com uma epígrafe que fala de três conceitos capitais para o presente trabalho: partida, lembrança e esquecimento. A eles juntam-se outros três, diretamente relacionados às cartas referentes à colonização de Nova Friburgo: o binômio civilização/barbárie, a saudade e a expectativa.

Como já foi dito, Nova Friburgo tinha uma singularidade que iria se refletir diretamente na posição de seus fundadores. Eles não se consideravam como imigrantes quaisquer. Tinham consciência de que lhes cabia um papel, o de trazer 'civilização' para o Brasil. Nesse ponto, todos estavam de acordo com um dos propósitos da Coroa portuguesa ao permitir e patrocinar a vinda das famílias suíças.

O choque com o 'outro' se processou de diversas formas, com maior ou menor força, como se percebe na correspondência. Em contato com esse 'outro', o imigrante reage com aceitação, medo, resignação, revolta e outros sentimentos que os missivistas deixam transparecer ao longo de sua correspondência.

Mesmo acreditando que tinham sido enganados, eles sabiam que o 'pote de ouro' os estava aguardando ali perto. Pelas suas palavras, tem-se a oportunidade de observar que, para eles, o Brasil encontrado não diferia muito das paisagens retratadas pelos primeiros cronistas: um lugar de múltiplas possibilidades, o paraíso na Terra, e eles se percebiam como os bem-aventurados, os escolhidos para alcançar essa graça entendida como o ouro negro, o café que lhes traria prosperidade.

A saudade, por sua vez, estava relacionada com a lembrança de um tempo distante que se escolheu deixar para trás. Mas, sobretudo, recordação de pessoas que eram importantes e de lugares que lhes deram identidade.

É justamente essa identidade que está sendo reconstruída por pessoas que se vêem em um espaço que lhes é desconhecido. Nesse caso, é um novo 'eu' que está surgindo. Aqueles não eram mais os imigrantes suíços, mas os moradores da região de Nova Friburgo, brasileiros13 que aos poucos iam descobrindo o caminho, através do café, para a tão sonhada riqueza.

A dificuldade em aceitar a passagem, como fica mostrado pelas palavras do abade, pode ser entendida como uma não aceitação da nova realidade. Por isso, o olhar deles, "olhar dirigido para o passado, parece fazer-se um tanto mais insistente, tanto mais carregado também de emoção ou de paixão quanto mais se volta para os modos de vida desaparecidos ou em via de desaparecimento" (Girardet, 1987, p. 133).

De um modo geral, pode-se dizer que, para esses colonos, Nova Friburgo era somente a forma encontrada para atingir a riqueza. Em nenhum momento a colônia era um fim, e por isso eles não tiveram dificuldades de abandoná-la. Muitos partiram novamente em busca do objetivo da viagem, do caminho para a nova vida. Nesse momento, podia-se observar um desejo comum, o de uma espera escatológica absolutamente laicizada, mundana, mas uma espera que transcende o trabalho individual. Onde ela iria se realizar? No Brasil, mas não necessariamente em Nova Friburgo.

Se, por um lado, a percepção de Nova Friburgo por parte dos colonos como o início de um 'novo tempo', uma vinculação bíblica, foi reforçada, por outro, sua transformação em uma nouvelle Fribourg, tanto dentro do espaço inicial quanto fora dele, perdeu seu sentido. Por outro lado, passamos a notar o movimento de (re)conhecimento que circula na cidade como uma tradição que está sendo 'inventada', construída, lapidada aos poucos, pois, como diz Eric Hobsbawm (1984), toda tradição inventada necessita da história para lhe dar sustentação.

O processo da descoberta ou mesmo de reconstrução da memória em Nova Friburgo passa pela criação de símbolos que terão como função lembrar esse evento primordial. São as diversas associações que foram criadas com o objetivo maior de reforçar os laços de amizade internos — reagrupando os descendentes de algumas famílias ou mesmo ligando Fribourg a Nova Friburgo.

Sejam quais forem as motivações por trás de cada ação dessas associações, o certo é que elas contribuíram para a preservação da memória da colonização, ao reinterpretarem seu passado. Nesse processo, evidenciaram um aspecto em detrimento de outros, transformando a história dessa colonização em um fracasso, mesmo que os próprios imigrantes não o tenham percebido, pois, individualmente, eles alcançaram a riqueza — nos moldes vigentes à época —,14 inaugurando um novo tempo, não a partir da chegada à Nova Friburgo, mas sim depois de deixá-la.

Nova Friburgo não se tornou um ponto axial para a fundação de um novo tempo, e esse projeto em particular não foi de todo bem-sucedido, mesmo quando permitiu que, para além dele, seus 'filhos' encontrassem o que buscavam. Assim, a cidade não representou o encontro imediato com o paraíso, ela foi mais um degrau, um desafio ou uma provação para atingi-lo. O reino dos bem-aventurados não está franqueado a todos, mas somente para aqueles que praticaram boas ações durante a vida.

A cidade de Nova Friburgo hoje representa o ponto de encontro da memória desse evento, é local para onde convergem as esperanças e expectativas presentes. É também o local onde um número considerável de pessoas espalhadas pelo território brasileiro encontra sua identidade, o início de sua história familiar.

Reduzidos ao estado de coleção de exemplos, as histórias do passado são esvaziadas da temporalidade original que as diferencia, são somente a apropriação educativa que as atualiza no presente. Nesse preço, os exemplos se tornam ensinamentos, monumentos. Por sua perenidade, eles são ao mesmo tempo o sintoma e a garantia da continuidade entre o passado e o presente (Ricoeur, 1985, pp. 380-1, nota 2).

Nova Friburgo representa hoje, sobretudo para os descendentes desses imigrantes que lá permaneceram, a continuidade entre dois tempos: o de antes e o de amanhã, a realização da expectativa e sua renovação. Em sua 'atualização no presente', a memória deles é recriada, desenvolvendo um certo aspecto de sua história que a transforma em uma tragédia humana, fruto da ação de homens que não pensaram nos 'pobres' imigrantes. Terão sido eles tão infelizes?

Toda essa movimentação tem como ponto inicial a tese de Martin Nicoulin e, sobretudo, a publicidade que se seguiu ao seu lançamento, quando foram realizadas conferências tanto na Suíça quanto no Brasil, e cujo resultado foi a 'descoberta' dessa imigração. Na seleção realizada pelo autor, forjou-se a construção de uma determinada memória a partir de critérios "conscientes ou não, (que) servirão também, segundo toda verossimilhança, para orientar o uso que faremos do passado" (Todorov, 1995, p. 16).

Nessa utilização do passado pelo presente não só a memória tem papel crucial. Sobretudo a 'invenção' de uma tradição interpretativa em Nova Friburgo acerca de sua história — onde a tragédia e o fracasso imperam — é aceita e reiterada por seus habitantes e pelos descendentes dos primeiros colonos, até para aqueles que já se encontram afastados do núcleo original. Mesmo que essa tradição, ora 'inventada', esteja bem distante da percepção que seus ancestrais tiveram do evento.

 

Notas

1 A vinda da Coroa portuguesa marcou o fim do chamado período colonial brasileiro. A primeira atitude política desse marco foi a Abertura dos Portos, em 1808, logo seguida pela elevação a Reino Unido a Portugal e Algarves, em 1815. O ano de 1822 vinha somente reforçar um processo sem volta, iniciado em 1808.

2 O marquês de Marialva gozava de grande prestígio em Paris já bem antes desse evento. Os momentos subseqüentes ao Congresso de Viena e ao rearranjo interno de forças na França impeliu diversos artistas a deixarem o país. Ao mesmo tempo, o conde da Barca propunha a criação de uma academia de artes aqui no Rio de Janeiro, pois, no seu entender, "as indústrias estavam atrasadíssimas" (apud Taunay, 1983, p. 149). Marialva foi então incumbido de contratar os docentes da nova Academia Francesa para integrar uma colônia artística francesa no Rio de Janeiro. Resultado disso foi a vinda da Missão Artística francesa, que trouxe, entre outros, Grandjean de Montigny, Debret e os irmãos Taunay.

3 O artigo XIII das 'Conditions pour l'établissement d'une colonie de Suisse dans les états du Brésil', diz claramente: "Todos os suíços que quiserem ali se estabelecer, em virtude desta presente convenção, serão pelo feito, desde sua chegada, naturalizados portugueses; serão submetidos as leis e usos dos estados de Sua Majestade e terão, sem exceção, todas as vantagens e privilégios acordados e a ser acordado a seus súditos dos dois hemisférios" (Nicoulin, 1988, pp. 237-43).

4 Nesta passagem, Flora Süssekind se refere a canções feitas para colonos alemães, mas o mesmo servia para os colonos suíços, que também ganharam músicas que falavam da promessa de um futuro de prosperidade, das colheitas em todas as estações, e advertindo que eles deveriam fazer ouvidos moucos a tudo o que desdissesse as promessas feitas. Uma dessas canções se encontra publicada em Nicoulin (op. cit., p. 132), e tem como título Chant de départ des fribourgeois pour le Brésil.

5 Feuille d'avis de la ville et canton de Fribourg, 14 de maio de 1819. "Anúncios: 3. O sr. Jean Chretin, habitante de Fribourg, Grand Rue 2, tendo sido marinheiro por dez anos, desejoso de ser útil aos colonos em vias de partir para o Brasil, decidiu-se de fabricar redes..."

6 A comprovação da veracidade do relato transcrito aparece como uma tentativa de dar credibilidade ao jornal, bem como evitar a contestação da informação por parte do leitor. O editor exime-se da responsabilidade sobre o relato, enquanto, aos olhos do público, a informação torna-se duplamente valiosa, pela felicidade que a notícia representava e por ela ser verdadeira.

7 Arquivos pertencentes ao acervo da Bibliothèque Cantonale et Universitaire de Fribourg, Suíça.

8 Cada carta levava em média três meses para chegar a seu destino.

9 Como diz Ilmar Mattos (1990, p. 21), "o estabelecimento da Corte no Rio de Janeiro incentivou o crescimento da cidade, ela possibilitou também ... a ocupação das áreas até então ralamente povoadas". É nesse contexto que surge Nova Friburgo, como resposta a uma necessidade de povoamento de áreas pouco habitadas e também de promoção da civilização na região circunvizinha à Corte.

10 Há outras características a anotar sobre o cavalheiro, segundo uma sucinta biografia que aparece nas páginas de Martin Nicoulin (1988, p. 77): sua família era de origem francesa (da Lorraine), tendo se estabelecido em Fribourg na segunda metade do século XVIII. Quando eclodiu a Revolução Francesa, ele tomou o partido do rei e, por uma sucessão de eventos, viu-se obrigado retornar à sua cidade natal, na Suíça. Na sua biografia, escrita por Robert Loup e publicada no jornal La Liberté, de Fribourg, em 20 de outubro de 1951, consta que Louis de Porcelet retornara ao cantão de Fribourg às vésperas da imigração para o Brasil, fugindo de um envolvimento em um duelo no local em que morava. Em nenhum momento Porcelet parece ter exercido a medicina, tendo sempre vivido na França como rico proprietário agrícola.

11 Rio que atravessa a cidade de Fribourg.

12 Quanto a esse tema, J. J. Tschudi (1980, p. 36), viajante suíço que percorreu as províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo em 1860, escreve algumas linhas que nos permitem supor que o medo de uma aculturação prejudicial aos suíços (relacionada aos índios), levantado por Porcelet em sua carta, era infundado, pois o viajante deparou-se com uma família de descendentes dos primeiros colonos que vivia afastada de Nova Friburgo, mas "arraigada ainda aos costumes da pátria longínqua".

13 Com a independência, todos os estrangeiros que moravam no Brasil foram automaticamente transformados em brasileiros. Logo, podemos falar juridicamente em 'brasileiros', mesmo que esse conceito tenha de ser relativizado.

14 Se verificarmos os inventários da região até por volta de 1870, iremos observar entre os imigrantes e seus descendentes a presença de escravos e terras entre os bens a serem divididos.

 

Fontes

Foram realizadas pesquisas entre julho de 1995 e julho de 1996 nas seguintes instituições suíças: Biblioteca Nacional (Berna), Biblioteca Cantonal e Universitária (Fribourg) e Arquivos do Antigo Arcebispado de Bâle (Porrentruy, Jura). Aí foram levantados os seguintes periódicos:

Feiulle d'Avis de la Ville et du Canton de Fribourg, janeiro de 1819 a julho de 1819.

Gazette de Lausanne et Journal Suisse, setembro de 1816 a novembro de 1819.

Journal du Jura (período de circulação, de 1818 a 1820), maio de 1818 a agosto de 1820.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em outubro de 2002
Aprovado para publicação em novembro de 2002

Este artigo é a versão condensada de um capítulo da dissertação de mestrado Nova Friburgo — entre o iluminismo português e a gênese bíblica, defendida no Programa de História Social da Cultura, da PUC-RJ, em fevereiro de 2000, sob orientação do prof. Antônio Edmilson Rodrigues.