SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.10 issue1From Nova Friburgo to Fribourg in writing: Swiss colonization seen by the immigrantsOverseas disease: comparative studies of oncocercosis in Latin America and Africa author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.10 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702003000100007 

ANÁLISE

 

Bertha Lutz e a construção da memória de Adolpho Lutz

 

Bertha Lutz and the memory of Adolpho Lutz

 

 

Jaime L. BenchimolI; Magali Romero SáII; Márcio Magalhães de AndradeIII; Victor Leandro Chaves GomesIV

IDepartamento de Pesquisa Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz jben@coc.fiocruz.br
IIDepartamento de Pesquisa Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz magali@coc.fiocruz.br
IIIhistoriador e mestrando do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
IVmestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política do Instituto de Pesquisa do Rio de Janeiro (IUPERJ)

 

 


RESUMO

Com a documentação de Bertha e Adolpho Lutz, depositada no Arquivo do Museu Nacional, os autores reconstroem o esforço realizado pela filha para preservar a memória do pai depois de sua morte em 6 de outubro de 1940. Seus projetos incluíam a construção de um museu para abrigar as coleções de Adolpho Lutz, assim como a publicação de toda sua obra e de uma biografia. Pioneira do movimento feminista no Brasil e pesquisadora do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Bertha foi sempre fiel auxiliar do pai, tomando como diretriz de sua própria vida profissional uma das linhas de pesquisa iniciada por ele. Por mais de trinta anos, dedicou-se à missão de imortalizar o nome do pai, acionando com este fim políticos e cientistas brasileiros e estrangeiros. Os resultados ficaram bem aquém do esperado, tendo Bertha Lutz registrado em testamento o desejo de que a obra e biografia de Adolpho Lutz fossem concretizados pelos pósteros.

Palavras-chave: memória, Adolpho Lutz, Bertha Lutz, coleções científicas, museu em memória a Adolpho Lutz.


ABSTRACT

The authors reconstruct Bertha Lutz's efforts to preserve the memory of her father, Adolpho, after his death on 6 October 1940, by studying the papers of both father and daughter that are held in the Archives of the National Museum. Bertha Lutz's plans included the construction of a museum for Adolpho Lutz's collections, the publication of his complete works and a biograpy. A pioneer in the feminist movement and researcher at the National Museum of Rio de Janeiro, Bertha was always a faithful assistant to her father and her own professional life followed a line of research opened by him. For more then 30 years, she dedicated herself to the consecration of her father's name, lobbying politicians and scientists in Brazil and abroad. She was not as successful as she had hoped and Bertha Lutz recorded in her will her wish that the works and biography of Adolpho Lutz be published by future generations.

Keywords: memory; Adolpho Lutz; Bertha Lutz; scientific collections; museum in memory of Adolpho Lutz.


 

 

No decorrer dos trabalhos de organização do Acervo Adolpho Lutz deparamos com grande número de objetos de pesquisa possíveis e interessantes. O esforço de decifrar o complexo "quebra-cabeça" formado por tantas cartas, relatórios, manuscritos, protocolos, anotações etc. levou-nos a perceber que entre os "quadros" sugeridos pela documentação havia um que extrapolava os domínios da medicina, biologia e saúde pública, assim como os marcos cronológicos que balizam a trajetória do personagem que entrecruza e dá sentido aos fios do novelo documental. Esse quadro inclui com igual, se não com maior relevo, sua filha, Bertha Lutz, e emoldura outros atores arregimentados por ela no afã de concretizar um projeto que perseguiu a vida toda: edificar, dilatar e imortalizar a memória de Adolpho Lutz como personagem soberano no panteão dos homens de ciência do Brasil.

Lançando mão de informações contidas no Acervo de Bertha Lutz, procuramos rastrear a história desses esforços. Ao iniciarmos nossa jornada, tendo como herança o que restou deles, não tínhamos consciência de que nosso projeto, ainda que formulado em bases epistemológicas diferentes, é, em larga medida, a retomada do que foi tentado outrora, com êxito apenas parcial, por Bertha.

Ela é conhecida, sobretudo, como pioneira do feminismo.1 Lutou pelo voto feminino no Brasil, e ajudou a fundar entidades como a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher (1919), a Federação Brasileira para o Progresso Feminino (1922) e a União Universitária Feminina (1929).

Para participar mais eficientemente da vida política e da conquista de direitos para as mulheres, graduou-se como advogada em 1933, na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Candidatou-se, então, à Câmara dos Deputados pela legenda do Partido Autonomista do Distrito Federal, representando a Liga Eleitoral Independente. Obteve a primeira suplência e ocupou a vaga do titular, deputado Cândido Pessoa, quando este faleceu, em julho de 1936. No Parlamento, onde permaneceu até a implantação do Estado Novo, em novembro de 1937, Bertha Lutz lutou pela mudança da legislação concernente ao trabalho da mulher e do menor, propondo, entre outras coisas, a igualdade salarial, a licença de três meses à gestante, sem prejuízo de vencimentos, e a redução da jornada de trabalho.2

Em 1944, representou o Brasil na Conferência Internacional do Trabalho, realizada na Filadélfia, nos Estados Unidos. Foi premiada com o título de Mulher das Américas em 1951, e, no ano seguinte, representou o Brasil numa Comissão das Nações Unidas criada por sua iniciativa, a de Estatutos da Mulher. Seu último ato como militante feminista foi em 1975 — Ano Internacional da Mulher — quando integrou a delegação brasileira à Conferência Mundial da Mulher, realizada no México por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Bertha era, então, delegada brasileira na Comissão Interamericana de Mulheres.3

Cremos que não é exagero dizer que a memória de Adolpho Lutz foi para ela uma causa a que se dedicou com obstinação comparável àquela dedicada à militância feminista.

 

Ascende a dedicada colaboradora no ocaso de Adolpho Lutz

Bertha Maria Júlia Lutz nasceu em São Paulo, a 2 de agosto de 1894, pouco tempo depois de seus pais terem se instalado naquela cidade, à rua General Jardim, 22.4 Adolpho Lutz exercia, havia pouco mais de um ano, a função de diretor interino do Instituto Bacteriológico. Amy Fowler5 daria à luz o segundo filho, Gualter Adolpho, nove anos mais tarde, em 3 de maio de 1903. Em 1908, a família transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde Lutz iniciou a terceira fase de sua trajetória profissional, no Instituto que passou a chamar-se Oswaldo Cruz naquele mesmo ano.

Bertha fez os estudos superiores em Paris, onde viveu com Amy e Gualter, num apartamento alugado, na avenue de Suffren, 137, durante a Primeira Guerra Mundial. Separado da família, Adolpho Lutz enclausurou-se no castelo de Manguinhos, entregando-se, dia e noite, à leitura, aos trabalhos de laboratório e a ocasionais excursões para coletar material para suas coleções.

A impressão que nos dão as cartas escritas por Bertha nesse período é que ela se preparava para ser a auxiliar do pai, e assim que as circunstâncias o permitiram, dedicou-se de corpo e alma a esta missão, vivenciando intensamente tanto os aspectos gratificantes do trabalho com Adolpho Lutz, como as agruras enfrentadas por ele, num período difícil de sua vida, por razões ligadas à idade e à vida profissional.

Numa das cartas escritas de Paris, sempre na língua da mãe, o inglês, a seu "darling Dock" (30.1.1916), Bertha dava notícias de como iam os estudos de música na Schola Cantorum, e de biologia, na Sorbonne. Preocupada com os sinais de cansaço que percebia nas cartas do pai, escreveu:

Estou certa de que suas coleções são muito interessantes, e eu adoraria estar aí para ajudar. Você não gostaria que eu voltasse agora? Poderia, então, ajudá-lo, e seria muito gostoso ter o pequeno sítio ou casa. Não gosto que você esteja tão sozinho, e, além disso, tenho certeza de que aprenderia muito mais com você, na prática, do que na Sorbonne. Se você cogita em se aposentar dentro de alguns anos, parece-me conveniente que eu o auxilie agora e faça com você a parte prática de minha aprendizagem, sabendo que sempre terei a chance de estudar pelos livros. Um diploma não é absolutamente necessário. Depois de termos trabalhado por algum tempo, eu poderia coletar suficiente material para preparar uma tese. ... É uma pena você trabalhar sozinho quando poderia ajudá-lo. Veja, se eu continuar (os estudos), teria de trabalhar sozinha, também, quando você se aposentasse. Portanto, pense no assunto e decida. E não caia na ilusão de supor que não poderia regressar sozinha, porque posso...

Seis meses depois (31.7.1916), Bertha insistia na reaproximação imediata deles dois. Lutz deve ter tentado convencê-la da importância do diploma, indagando o que pensava em fazer quando o obtivesse.

Bem, não sei direito. Não sinto nenhum grande entusiasmo por uma carreira científica. Não ligo para os trabalhos muito delicados e difíceis, e a única coisa que me atrai é a botânica, e, ainda assim, mais a parte sistemática do que o resto. Temo que seja a lógica da ciência que exerça maior fascínio sobre mim.

Coletar e classificar plantas eram os grandes prazeres de Bertha, e ela já conhecia bem as que floriam em Paris. Mas o que mais a seduzia, naquele momento, era a perspectiva de tornar-se escritora: "poderia escrever por meses com as coisas que tenho em mente no presente momento. Afinal, não vejo por que seria impossível levar adiante este projeto, considerando a quantidade de livros e revistas que são lidos na Inglaterra."

Apesar das dificuldades criadas pela guerra, ela pensava em tentar um ofício literário em Londres, ou mesmo em Paris, onde poderia ganhar algum dinheiro ensinando também música. Prometeu enviar ao pai um conto humorístico que acabara de escrever e uma narrativa fantástica que tentava vender. Mas a alternativa que mais a seduzia era interromper imediatamente os estudos e voltar para o Brasil, para "fazer algum trabalho com você ou algo que servisse como tese; isso sim seria encantador e estou certa de que sempre conseguiria reservar algum tempo para minhas outras ocupações; e se você não me quisesse, eu talvez pudesse ir para os jardins botânicos".6

Quando pôde, enfim, assumir a condição de assistente de Adolpho Lutz, logo após a guerra, este já era um homem de mais de sessenta anos, tratado com reverência por seus pares, como uma espécie de ícone da ciência. Ele próprio fazia questão de ostentar uma autoridade superior, apoiada em sua bagagem de publicações, experiências e realizações que nenhum outro médico brasileiro poderia exibir.

As 'Reminiscências dermatológicas', publicadas em 1922 no Segundo Congresso Sul-Americano de Dermatologia e Sifilografia em Montevidéu; as 'Reminiscências sobre a febre amarela', submetidas à 4ª Conferência Sul-Americana de Higiene, Patologia e Microbiologia, em 1929; e as 'Reminiscências da febre tifóide', publicadas em 1936, baseavam-se em documentação que Bertha já compilava e arquivava, e refletiam a preocupação de ambos em zelar pelo vultoso patrimônio científico de Adolpho Lutz.

Pelo menos em um caso, a rememoração dos feitos lutzianos teve a finalidade de alterar, em favor do cientista, a correlação de forças com adversários: foi na polêmica travada a propósito da transmissão da lepra. Apesar de médicos e leigos não pouparem louvores retóricos ao seu saber e à sua autoridade, a transmissão da doença por algumas espécies de culicídeos vinha sendo veementemente contestada desde meados dos anos 1910, apesar de Lutz empenhar todo o seu prestígio na defesa desta teoria, que não conseguiria comprovar experimentalmente.

Formada em ciências naturais pela Faculdade de Ciências da Universidade de Paris (Sorbonne), em 1918, Bertha ingressou, nesse mesmo ano, na Seção de Zoologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), mas como tradutora, e de forma apenas oficiosa, a única que encontrou para se colocar ao lado do pai como sua auxiliar de pesquisa. Participou, em seguida, de um polêmico concurso para o cargo de "secretário" do Museu Nacional, em que foi classificada em primeiro lugar. Outros dez candidatos inscreveram-se no concurso aberto em 26 de abril de 1919. Em 14 de agosto, a banca examinadora divulgou o resultado: Austriquiniano do Amaral Mourão dos Santos ficara em primeiro lugar, com 16 10/14 pontos, e Bertha Lutz, em segundo, com 16 2/14 pontos.7

Nos dias 14 e 15 de agosto, A Noite e O Imparcial divulgaram a classificação dos candidatos, dando por encerrada a seleção para secretário do Museu Nacional. A notícia baseava-se em informações precipitadas fornecidas por Theophilo Leal, membro da banca examinadora, que, segundo A Rua, manifestara de "forma acintosa" sua preferência pelo candidato Mourão dos Santos. O Jornal do Brazil, Jornal do Commercio, Correio da Manhã, O Paiz e a Gazeta de Notícias foram mais cautelosos: o resultado final seria conhecido somente depois que a Congregação do Museu estudasse o relatório da comissão examinadora. Bertha Lutz recebeu os votos de seis membros da Congregação, em 18 de agosto, contra quatro dados a Mourão dos Santos e dois a Annibal Pinto de Souza. Nos dias 20 e 21, diversos jornais — Rio Jornal, Tribuna, Jornal do Commercio e A Rua — criticaram a Congregação por se ter investido de poder de julgamento superior à comissão examinadora. As críticas visavam, principalmente, o diretor do Museu, o médico Bruno Lobo, e, às vezes, Bertha Lutz, que foi alvo de comentários machistas como este: "Desde que as mulheres começaram a concorrer aos cargos públicos, notou-se um fato, que caracteriza bem a nossa índole: o primeiro lugar passaram (sic) a ser seu, a todo custo. Os cavalheiros amáveis acharam assim um meio de se recomendarem por conta do Tesouro."8

Em meio aos vestígios desta controvérsia, encontramos a carta à banca escrita em 28 de julho de 1919 por Ruy de Gouvêa Nobre, que desistia do concurso, salientando "o desusado brilho com que dra. Bertha Maria Lutz afirma-se futura servidora de um cargo inacessível para mim".9

No final dos anos 1930, quando Adolpho Lutz já apresentava dificuldades de locomoção e visão, ela assumiu a correspondência com seus interlocutores, a condução de algumas de suas pesquisas e parte das cansativas atividades de preparação e publicação de seus derradeiros trabalhos científicos, que versavam sobre a lepra e os anfíbios. "Os olhos de papai deterioraram-se a ponto de não ser mais capaz de ler, escreveria depois, e todo o meu tempo livre foi destinado a preencher as lacunas deixadas pelos outros leitores, quando não podiam estar com ele. Não lamento este tempo precioso que compartilhamos."10

Como exemplo podemos citar as cartas trocadas entre Bertha e Z. Bercovitz, secretário da Pan American Medical Association (Section of Tropical Medicine), no decorrer de 1938 e 1939. A primeira epístola enviada pela naturalista em maio de 1938 foi a continuação de uma série de cartas permutadas entre Lutz e o secretário desde novembro de 1937. Em carta datada de 18 de dezembro deste ano, Bercovitz informou ter incluído o trabalho de Lutz (The transmission of leprosy by mosquitoes and its prophiyaxis) no programa do sétimo congresso-cruzeiro marítimo da Section of Tropical Medicine da Pan American Medical Association. Na ocasião, o secretário da entidade manifestou interesse pelas observações do pesquisador brasileiro, incentivando este a participar do congresso e comunicando que o seu trabalho poderia ser publicado e amplamente divulgado. Estando Lutz impossibilitado de comparecer, Bercovitz providenciou a leitura de sua comunicação no certame e, apesar de haver prometido publicar o trabalho, endereçou, em abril de 1939, uma carta a Bertha pedindo desculpas por não ter podido fazê-lo.

'A transmissão da lepra pelos mosquitos e a sua profilaxia' foi o penúltimo trabalho de Adolpho Lutz que, já inteiramente cego, teve de ditá-lo à sobrinha. Foi publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, em novembro de 1939 (vol. 34, fas. 4, pp. 475-93).11 Seu último trabalho, de março daquele ano, versava sobre a mesma doença, e permaneceu inédito: 'Combate à lepra. Regras indispensáveis de prophylaxia anticulicidiana sugeridas ao Serviço Sanitário do estado de S. Paulo por Adolpho Lutz' (3p.).12

Durante os 17 meses em que exerceu o mandato de deputada, Bertha ajudou-o a sustentar essa bandeira da tribuna da Câmara, onde advogou a profilaxia contra o mosquito como parte das medidas de combate à doença. Apresentou, inclusive, à Mesa, requerimento solicitando informações sobre as medidas anticulicidianas tomadas nos leprosários e hospitais de isolamento, e sobre o número e localização desses estabelecimentos no Brasil.13

Adolpho Lutz faleceu em 6 de outubro de 1940 em conseqüência de uma pneumonia. Numerosos necrológios publicados no Brasil e no exterior exaltaram os feitos do "mais completo homem de ciência que, no domínio da biologia, já possuiu o Brasil".14 Três semanas depois, o Instituto Bacteriológico de São Paulo, que chegou a fechar as portas entre 1925 e 1931,15 foi reinaugurado, solenemente, em nova sede, com o nome de Instituto Adolfo Lutz, por força de um decreto do interventor federal Adhemar de Barros, que o unificou ao Instituto de Análises Químicas.16 Em carta, Bertha confessou:17

A morte de papai foi um golpe terrível para mim. Fiquei tão atordoada que até hoje há brancos e lacunas em minha memória e pensamento consciente. A coisa toda ainda está impregnada de um sentimento de irrealidade. Por um longo tempo, e ainda agora, sinto-me, a intervalos, como um fantasma entre os seres humanos que me rodeiam. Somente a natureza e os interesses que tínhamos em comum faziam-me viver. Com freqüência, desejava que esta lúgubre guerra terminasse e que pudéssemos partir numa longa viagem para coletar nas regiões mais selvagens do Brasil.

Bertha começou a escrever esta carta em 15 de dezembro de 1940, em Petrópolis, onde tencionava passar as férias, e concluiu-a no Rio de Janeiro, para onde teve de regressar, logo em seguida, em virtude de outra tragédia familiar: uma prima que costumava ler para Lutz inesperadamente foi acometida por doença grave e dolorosa, e faleceu depois de agonizar por vários dias, deixando apenas a irmã mais velha, quase inválida, para tomar conta da mãe, de noventa anos, a única irmã ainda viva de Adolpho Lutz (provavelmente Maria Elizabeth Lutz).18

Em 6 de janeiro de 1941,19 Bertha escreveu a outra amiga, do movimento feminista norte-americano:

minha mente ainda está aturdida com o que aconteceu imediatamente depois de 6 de outubro. Somente agora começo a tomar pé e a retomar o controle de minha vida. Nos últimos três meses estive à deriva; primeiro fiquei com meu irmão, depois na sede da Federação, no andar de cima, enquanto começava a desmontar nosso apartamento; afastei-me por um dia ou dois, mas tive de retornar ... . Durante alguns dias procurei um lugar para viver, mas desanimei com o calor que faz e com os longos contratos oferecidos. Então decidi ocupar a sede da Federação Brasileira para o Progresso Feminino durante as férias de verão. Estou morando no quarto onde você discursou, pus os arquivos no quarto menor e tenho um banheiro e uma cozinha com laboratório. ... Este me pareceu o melhor arranjo enquanto organizo a grande confusão de papéis deixados pela Federação e por Doc (papai).

Em carta ao (ou à) "Dear President Blunt",20 escrita na mesma data, Bertha explicava que o pai havia deixado

grandes coleções de material zoológico, e mesmo botânico, e muitos livros, valiosas notas e velhos artigos que bem poderiam ser reimpressos depois de todos estes anos, já que são de interesse para a história da medicina no Brasil e também para a medicina tropical. Quanto ao movimento feminista ... eles também têm arquivos interessantes. Com o objetivo de organizar isso tudo e simplificar as coisas ... mudei para o pequeno apartamento em que funcionava a sede da Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Mantive aí os seus arquivos, e transferi os nossos para este andar de cima. Creio que vou precisar de algum tempo para dar um jeito nessa massa toda de documentos, coleções etc.21

Tem-se a impressão de que, após a morte do pai, Bertha passou a dedicar o tempo que desfrutava com ele a cultivar sua memória, conservando neste plano a relação simbiôntica que mantinham, e que se converteria, doravante, num apego muito forte aos resíduos materiais e à rememoração histórica e afetiva da vida de Adolpho Lutz. De 1941 a meados da década de 1960, aproveitaria todas as homenagens a ele para criar e renovar relações com instituições, políticos e intelectuais que pudessem viabilizar a exposição e a publicação de sua vasta obra.

Ao longo de 1941 e 1942, manteve intensa correspondência com o objetivo de recolher ao arquivo que organizava cartas e trabalhos de Adolpho Lutz que se achavam em poder de outros pesquisadores e de instituições nacionais e estrangeiras. Bertha havia percorrido os arquivos e bibliotecas do Rio de Janeiro, e constatara que era preciso fazer buscas em outros lugares.22 Escreveu, por exemplo, para Arthur Loveridge, do Museum of Comparative Zoology, no Harvard College; para Perry Burgess, do Leonard Wood Memorial (American Leprosy Foundation); Fred L. Soper, da Fundação Rockefeller; e Flávio da Fonseca, diretor do Instituto Soroterápico de Butantan.23 A Octavio Magalhães, diretor do Instituto Ezequiel Dias, em Belo Horizonte (MG), solicitou o empréstimo de trabalhos e correspondência de Adolpho Lutz, e consultou-o sobre a pertinência de se republicar sua investigação sobre os hematozoários endoglobulares de pássaros. Em carta a Carl Rudolf Fischer, coletor e amigo de Adolpho Lutz, no segundo semestre de 1942, explicava: "Estou me dedicando à grande tarefa de organizar o arquivo de meu pai, tão completo quanto possível ... . Tenho em vista a conservação, catálogo das coleções e a publicação de uma biografia e, se possível for, de uma edição completa dos trabalhos do professor Lutz e sua correspondência científica."24

Enquanto coletava documentos para o arquivo do pai, Bertha providenciava a publicação de alguns trabalhos sobre aspectos de sua obra como cientista e sanitarista, com o apoio do diretor de Manguinhos, Henrique Aragão, e a ajuda do irmão, o discreto Gualter Adolpho Lutz. Nove anos mais moço que Bertha, Gualter cursou medicina como o pai, mas acabou especializando-se em um ramo completamente diferente daquele seguido por Adolpho Lutz: a medicina legal. Como médico-legista Gualter25 obteve projeção na área, tornando-se catedrático da Escola Nacional de Medicina. Introspectivo, era amante da música, tendo inclusive recebido prêmios como violinista, e da fotografia. Casou-se no início da década de 1930 com a engenheira e feminista Carmem Portinho,26 tendo se separado poucos anos depois. Chegou a publicar trabalho com o pai sobre esquistossomose em 1928,27 mas sua participação maior foi no suporte dado a Bertha Lutz no esforço que a mesma estava empreendendo de manter viva a memória do pai.

Nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (t. 39, fas. 2, 1943), saiu o primeiro artigo da série que intitularam Contribuição à História da Medicina no Brasil. Baseando-se nos relatórios escritos por Adolpho Lutz como diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo, Bertha e Gualter historiaram sua campanha contra a epidemia de cólera ocorrida naquele estado, nos anos 1890, e suas pesquisas sobre a disenteria, iniciadas na década anterior. Em março de 1944, Bertha pediu a Hildebrando Portugal dados e indicações bibliográficas para outro artigo da série sobre as nodosidades juxta-articulares, enfermidade descrita pioneiramente por Lutz quando de sua estada no Havaí. O artigo, escrito pelo próprio Portugal, foi publicado no mesmo periódico, em dezembro daquele ano.28

 

Um museu para Adolpho Lutz

Nesses anos, a memória de Adolpho Lutz esteve perto de se corporificar em um ambicioso empreendimento cultural na cidade do Rio de Janeiro, que evoluiu das sondagens preliminares até um projeto sofisticado, antes de retroceder para o limbo das idéias abortadas.

Isso aconteceu no governo de Henrique de Toledo Dodsworth Filho (1937-45), que retomou a tradição haussmaniana das grandes reformas urbanísticas no Rio de Janeiro, então capital da República. Interventor desde julho de 1937, Dodsworth tornou-se prefeito com a decretação do Estado Novo, em 10 de novembro, e permaneceu no cargo até o final do regime (29 de outubro de 1945). A Prefeitura do Distrito Federal foi reorganizada, e o sistema de arrecadação de impostos, aperfeiçoado, para viabilizar as extensas demolições e construções a cargo da Secretaria Geral de Viação e Obras, chefiada pelo engenheiro Edson Passos.

Dodsworth reativou a Comissão do Plano da Cidade, extinta pelo ex-interventor e prefeito Pedro Ernesto Batista (1931-36), e retomou os planos que o urbanista francês Alfred Agache produzira em 1927, adaptando-os às novas condições da cidade. Com base nesses planos, a municipalidade concluiu o desmonte do morro do Castelo e construiu as avenidas Brasil e Presidente Vargas: a primeira sobre mangues e trechos do litoral aterrados nas imediações de Manguinhos; a segunda sobre os escombros do que restara da Cidade Velha , desde a avenida Rio Branco até quase à Praça da Bandeira.29 Durante a gestão de Dodsworth, novas linhas de bonde foram conectadas à estação terminal edificada no Largo da Carioca, conhecida como Tabuleiro da Baiana. O corte do Cantagalo ligou Copacabana à lagoa Rodrigo de Freitas. O estádio do Maracanã e a estrada Grajaú—Jacarepaguá começaram a ser construídos. Ao mesmo tempo, eram criadas importantes áreas de lazer: a floresta da Tijuca (remodelada); o Jardim de Alá, o Jardim Zoológico Municipal e o Parque da Cidade, na Gávea, uma terreno que o milionário Guilherme Guinle vendeu à municipalidade para pagar dívidas de jogo.

Em outubro de 1940, logo em seguida à morte de Adolpho Lutz, o dr. Oswino Penna pesquisador do IOC que acabara de assumir a Secretaria Geral de Saúde e Assistência,30 comunicou a Bertha que o prefeito estava interessado em criar um museu de história natural em homenagem a seu pai no Parque da Cidade. Bertha não deixou passar aquela oportunidade. Visitou o local com Dodsworth, entregou-lhe o esboço do projeto do museu, que foi oficiosamente aprovado pelo prefeito e, a seu pedido, encaminhou a Penna um documento em que indicava as providências mais urgentes a serem tomadas para que o Instituto Municipal de História Natural Dr. Adolpho Lutz pudesse ser inaugurado, simbolicamente, em 18 de dezembro, aniversário natalício do homenageado.31

Bertha Lutz estava muito bem preparada para tirar proveito daquela oportunidade. As relações e vivências profissionais que já havia acumulado no campo da museologia permitiram-lhe dar rapidamente contornos avançados ao projeto.

Em 1922, ano da celebração do centenário da Independência do Brasil, viajara para os Estados Unidos para desempenhar comissão do Ministério de Agricultura relacionada ao ensino agrícola, e para representar o Museu Nacional no Congresso de Museus Americanos, que se realizou em Buffalo. Bertha foi encarregada, inclusive, de permutar o material em duplicata das expedições de Rondon com material equivalente de tribos norte-americanas pouco estudadas.32 Era o início de uma colaboração mais ampla entre os museus de ambos os países, tornando-se Bertha uma mediadora importante dessa colaboração. Em março de 1932, o embaixador norte-americano convidou-a a visitar novamente os Estados Unidos, em nome da American Association of Museums.33

Os museus norte-americanos vinham adotando uma orientação que diferia do molde europeu tradicional em que tinham sido vazadas a maioria das instituições daquele gênero, no Brasil inclusive. A orientação denominada "democrática" almejava torná-las um instrumento de cultura do grande público, dando ênfase ao papel didático dos museus, e à sua colaboração com os estabelecimentos de ensino.

No trabalho que escreveu após a viagem aos Estados Unidos,34 Bertha registrou as técnicas e métodos desenvolvidos pelos museus norte-americanos para seduzir e instruir a população escolar, principalmente do curso primário, por meio de conferências diárias; ambientes preparados especialmente para as crianças; bibliotecas infantis de história natural; jogos destinados ao ensino desta matéria; passeios guiados por museus e jardins públicos. Bertha impressionou-se com as novas técnicas de organização do material a ser exposto, técnicas inovadoras de visualização que permitiam uma compreensão, por leigos, muito mais rica da história natural, graças à mobilização de informações biológicas mais abrangentes que o árido foco nos estudos de morfologia.35

Num documento em que sintetizou o desenrolar do projeto submetido ao prefeito Dodsworth, Bertha escreveu:

Os museus modernos não são meros depósitos de espécimes, mas sim estabelecimentos dinâmicos onde se procede a estudos científicos sobre problemas práticos relacionados com a vida humana e onde se proporciona conhecimentos úteis ao leigo por métodos visuais amenos.

O Rio é dotado de uma formosura e riquezas naturais extraordinárias. Melhor do que qualquer outra cidade do mundo se presta à organização e manutenção de um museu da natureza. Este não seria apenas ornamental, mas útil, tanto do ponto de vista da proteção dessa natureza, necessária ao regime das chuvas, clima etc.; do ponto de vista sanitário, pelo estudo da biologia das numerosas espécies hematófagas e parasitárias que transmitem doenças e que só podem ser exterminadas depois de bem conhecidos os seus modos de vida normal; assim no aproveitamento da beleza natural para estímulo ao turismo. ... Dar ao museu o nome do saudoso cientista Adolpho Lutz seria justo, pois além de ter ele conquistado renome universal, é o único carioca dos grandes nomes da medicina e zoologia nacionais, e foi quem começou o estudo sistemático da natureza carioca do ponto de vista médico e zoológico, e, portanto, de suas relações com a vida humana.36

O primeiro esboço do Museu Adolpho Lutz apresentado por Bertha a Dodsworth, na visita ao Parque da Cidade, em outubro de 1940, tinha em mira a exibição da obra do cientista como uma espécie de coroamento dos ciclos de descobertas biológicas ocorridas no Brasil, desde a ocupação holandesa, no século XVII. Haveria dois ambientes. Ao ar livre, o visitante teria a oportunidade de observar grupos botânicos e faunísticos devidamente classificados e explicados, inclusive orquidário, bromeliário, viveiros e animais que viveriam em liberdade no parque. No interior do museu, haveria exposições permanentes e temporárias; coleções biológicas; "reservatórios de espécimes"; laboratórios; biblioteca e um arquivo com narrações, mapas, roteiros, fotografias e outros materiais concernentes às viagens científicas realizadas por Adolpho Lutz e outros naturalistas.37

Bertha tinha em mente um museu voltado para o ensino e a pesquisa, conforme as tendências que se disseminavam nos Estados Unidos.38 Por isso, julgava importante o preparo do corpo docente e dos guias, que seriam recrutados entre estudantes de biologia e professores da rede pública, em benefício não apenas do museu como das escolas do Distrito Federal.

O corpo de funcionários da instituição seria formado por um "representante" do prefeito e ex-colaboradores de Adolpho Lutz, inclusive jardineiros colecionadores, desenhistas, fotógrafos e datilógrafos. Encarregar-se-iam não apenas da organização das coleções e dos dados biográficos do cientista, como de continuar suas pesquisas. As monografias e publicações periódicas que produzissem utilizariam linguagem acessível a leigos, prevendo-se o uso de programas de rádio e cinema para divulgação de mostras, palestras e pesquisas biológicas.

Em documento escrito após a visita ao Parque da Cidade, Bertha detalhou as providências a serem tomadas para que o embrião do museu fosse inaugurado em 18 de dezembro.39 Dodsworth teria de oficiar à diretora do Museu Nacional, Heloísa Alberto Torres, solicitando que fosse colocada à disposição do gabinete do prefeito, sem prejuízo de seus vencimentos, para organizar e dirigir os trabalhos de instalação do Museu Municipal de História Natural Dr. Adolpho Lutz. Ao secretário do IOC, Leocádio Chaves, pediria o empréstimo do biologista Gustavo de Oliveira Castro, do auxiliar de laboratório Joaquim Venâncio40 e de materiais para a exposição inaugural, tais como "quadros de doenças" estudadas por Lutz e "quadros sinópticos" de suas atividades, fotografias de seu laboratório e de Manguinhos, mostruários, espécimes, inclusive "duplicatas para manusear". À Prefeitura caberia fornecer transporte e alimentação para os organizadores do museu, ajuda de custo a Joaquim Venâncio, verba para aquisição de material e para impressão de convites e de folhetos sobre o museu e sobre a vida de Adolpho Lutz.

 

 

 

 

 

 

A Oswino Penna, Bertha solicitou verba para aquisição de tintas, celofane, vidros, mostruários, vitrinas, suportes, aquários, terrários e outros acessórios para a montagem da exposição, inclusive "bandeirinhas para indicar nos mapas os roteiros percorridos pelo dr. Lutz em companhia de outros cientistas". Bertha pediu, também, cartógrafos, desenhistas, cinegrafistas, fotógrafos, operários, duas funcionárias para os serviços de datilografia, correspondência e redação, e um arquiteto do Serviço de Obras e Instalações, para fazer o levantamento das salas destinadas ao museu e, em curto prazo, das áreas disponíveis para a localização dos mostruários.

Parte destas providências foi tomada, mas não temos notícia de que tenha acontecido a exposição de 18 de dezembro, e, na recapitulação dos acontecimentos, lê-se: "Infelizmente as providências tardaram muito, continuando a dra. Bertha impossibilitada de trabalhar senão nas suas horas vagas e tendo os funcionários gentilmente postos à sua disposição pelo dr. Oswino Penna outras funções cumulativas, o que torna impossível que desempenhem atividade contínua e profícua."41

Mas Bertha não desistiu de seu projeto, que experimentou um salto de qualidade quando ela recrutou um dos expoentes da museologia norte-americana para desenvolver o projeto do Museu da Natureza em memória a Adolpho Lutz.

Nascido em Quincy, Massachusetts, Philip Newell Youtz (1895-1972) ensinara arquitetura em universidades chinesas e na Universidade de Columbia, nos anos 1920, e dirigira, à mesma época, os programas de educação em artes de adultos no People's Institute. Em 1930, fora nomeado curador de um programa experimental do Pennsylvania Museum of Art (69th Street Branch), financiado pela Carnegie Corporation, tornando-se, em seguida, curador de exposições daquele museu. Transferira-se em 1933 para o Brooklyn Museum of Art, ocupando os cargos de diretor assistente, em seguida, interino e, por fim, permanente, até abril de 1938, quando assumiu a chefia do Pacific Area and Pacific House na Golden Gate International Exposition (1938-39). De 1939 a 1941, Youtz viajou pela América do Sul, e foi nesse intervalo que projetou a instituição imaginada por Bertha.42

Youtz já tinha editado ou escrito vários trabalhos relacionados à arquitetura, museologia, educação e estética, como, por exemplo, An Outline of Aesthetics (Nova York, Norton, 1928); Sounding Stones of Architecture (Nova York, Norton, 1929) e diversos artigos no Museum News e The Brooklyn Museum Quarterly. Mais tarde, adquiriria notoriedade como inventor da técnica de construção conhecida como lift slab (elevação de laje ou placa), pela qual lajes de concreto eram armadas no solo e então elevadas por meio de macacos hidráulicos, o que lhe valeria a medalha Frank P. Brown conferida pelo Franklin Institute da Filadélfia, em 1968.

Sua gestão à frente do The Brooklyn Museum tinha se caracterizado por importantes inovações inspiradas em "um novo ideal democrático", segundo o qual a arte devia deixar de ser um "luxo para a minoria privilegiada" para se tornar "parte da vida diária dos cidadãos honrados" (Annual Report, 1937). A maciça escadaria dianteira do museu fora substituída por entradas ao rés-do-chão pelas quais a "multidão" ingressava num moderno vestíbulo que servia como introdução às coleções. As galerias foram reorganizadas e passaram a obedecer a uma seqüência cronológica e cultural: arte indígena americana; arte oriental; arte antiga, medieval e renascentista; arte contemporânea. Youtz aumentara o staff de curadores com profissionais jovens, e mudara o perfil do museu ao enfatizar as implicações sociais e industriais das artes (Annual Report, 1933), criando novas subdivisões como a de arte têxtil e arte industrial (1937).43 Os programas educacionais adquiriram grande importância, inclusive com emissões radiofônicas de palestras e concertos.

Quando Bertha Lutz convidou o arquiteto norte-americano a desenvolver o museu em memória a seu pai, ele trazia no currículo outras credenciais que testemunhavam seu interesse por educação e museologia. Presidira a American Federation of Arts (1936-38), participara da Conferência sobre Radiodifusão Educativa, à mesma época, e provavelmente ainda integrava os conselhos do New York Adult Education Council, People's Institute, Pratt Institute e School Art League.

Philip Newell Youtz já era amigo de Bertha Lutz há algum tempo, e quando esteve no Rio de Janeiro com a esposa, Frances, em janeiro de 1941, recebeu calorosa acolhida da naturalista e de seu irmão, Gualter, como o demonstram as cartas enviadas pelo casal de Salvador e, em seguida, de Recife.

Como foi bom vê-la de novo. E que prazer foi conversar sobre os velhos tempos e as tendências atuais, como se os anos não tivessem passado desde que nos vimos pela última vez! ... Posso imaginar como devem ter sido difíceis e solitários os últimos meses para você. Deve parecer que boa parte do trabalho de sua vida foi frustrada pelos acontecimentos. Mas estou seguro de que você é uma daquelas poucas pessoas que têm a força moral e a imaginação para prosseguir sozinha, e que nos anos à frente vai recuperar toda a sua potência e liderar algum empreendimento grande, de importância mundial. Não tenho dúvida que está bem equipada para isso, com sua visão internacional e sua douta formação. 44

Philip agradeceu a hospitalidade de Bertha, inclusive as viagens que fizeram, provavelmente às cidades serranas. Em sua carta, Frances declarou: "Haveremos de nos lembrar por muito tempo de nossa estada no Rio. E foi tão bom poder conversar com alguém — não apenas falar inglês, mas poder conversar sobre coisas que nos interessam. A gente recebe tantas idéias enlatadas que uma abertura, de vez em quando, faz bem."45

Youtz visitou, com Bertha, o Parque da Cidade e, apesar de elogiar sua beleza, considerou-o inadequado para o museu, em virtude do afastamento do centro urbano. Segundo o arquiteto norte-americano, a distância do centro o impediria de receber visitantes em número que compensasse as despesas com sua construção e manutenção. O projeto elaborado por ele previa a localização do museu numa artéria urbana importante, de preferência a nova avenida Presidente Vargas, que começava a ser aberta.

Da interação de ambos resultou um projeto muito mais ambicioso do que aquele apresentado originalmente a Dodsworth. Os sucessivos nomes dados ao museu nos documentos que condensam as idéias trocadas entre a naturalista e o arquiteto denotam os rumos que tomou entre outubro de 1940 e fevereiro de 1941. O Museu Adolpho Lutz proposto por Bertha ao prefeito, na primeiro conversa que tiveram, logo se transformou no Instituto ou Museu Municipal de História Natural Dr. Adolpho Lutz. Ao entrar em cena o arquiteto, passou a chamar-se Museum of Life — Proposed Memorial to Adolpho Lutz, que Bertha traduziu para Museu da Natureza In Memorian a Adolpho Lutz. Enquanto debatiam o perfil da instituição, ela refletiu acerca de outras denominações: Museum of Life and Disease e Museum of Life and Health as a Museum of Tropical Medicine.46

"Gosto da idéia de um Museu da Vida", escreveu Youtz: "O inglês tem conotações que vão muito além dos limites do museu de biologia usual com seus espécimes mortos. O nome dirige a atenção para um dos mais férteis e promissores campos de aplicação da bioquímica, biofísica e genética. Quer seja considerado como dependência de uma escola médica ou como uma instituição independente, um museu desse tipo atrairia atenção mundial."47

Em 25 de janeiro de 1941, ele pôs no papel as especificações daquele Museum of Life.48 O prédio de cinco andares seria localizado numa avenida importante, por onde transitasse grande número de pessoas. Tal localização facilitaria a obtenção de apoio para o projeto e, quando se concretizasse, manteria a instituição "sob os olhos do público". O porão abrigaria um salão de conferências, os depósitos das divisões e a portaria. O pavimento térreo destinar-se-ia à exibição de espécimes vivos e outras "demonstrações". Uma segunda sala de conferências localizada aí seria, depois, removida para o porão. As cabines de telefone, em posição simetricamente oposta aos elevadores de passageiros, seriam também substituídas por um elevador de serviço de grandes dimensões, "digamos 3x5 metros, para acomodar mostruários e espécimes do museu".49

O segundo, o terceiro e o quarto pavimentos destinavam-se às coleções sistemáticas, e o quinto, aos laboratórios de pesquisa, escritórios e biblioteca.

O museu teria sete divisões, que exporiam seus materiais nos pavimentos térreos das sete alas que se desprendiam do pavilhão central, em forma de octógono. A divisão de microbiologia apresentaria "microprojeções de espécimes vivos, microscópio elétrico, modelos, mapas e quadros". A divisão de "insetos e vermes" exibiria "viveiro, controle de pragas, ciclos evolutivos, papel patológico" desses animais, e abordaria dois temas, "flebotomia" e "parasitismo". Os itens de exposição relacionados à terceira divisão, de "peixes, moluscos e crustáceos", incluíam aquário, piscicultura, peixes ornamentais, hóspedes intermediários e formas larvais. "Répteis e anfíbios" constituíam a quarta divisão, cujas mostras teriam como temas "cobras venenosas e não venenosas, soroterapia, tartarugas, cágados, jacarés, lagartos, batráquios adultos e larvas". Com relação às "aves", a quinta divisão, interessava mostrar as formas aquáticas e terrestres, coloração e migrações. A divisão de "mamíferos" manteria um "jardim zoológico infantil" e "viveiros", fornecendo material visual e explicações sobre "especialização, distribuição geográfica e alimentação". A última divisão, de "plantas", abordaria genética vegetal e agricultura química, e daria ênfase às plantas brasileiras, com subdivisões para as medicinais, alimentares e de jardim, e ainda para "plantas introduzidas segundo os continentes de origem".

O documento intitulado 'Museum of Life — Proposed Memorial to Adolpho Lutz' cristalizava respostas a indagações que Bertha submetera ao arquiteto em 'Questões formuladas com respeito à sugestão de que o memorial seja um museu da vida' e em 'Questões concernentes ao prédio' (ver nota 43). Pensando em reforçar a abordagem médica, sugerira o nome alternativo de Museu da Vida e da Saúde. Esse documento apresentava duas propostas de estruturação do museu. A primeira era muito próxima daquela formalizada por Youtz.50 A segunda, de orientação médica mais acentuada, mantinha os germes na primeira divisão, dando destaque à exibição de "bactérias, fungos e protozoários patogênicos"; dedicava a segunda divisão a "portadores e transmissores"; a terceira, a endo e ectoparasitas; a quarta, a hospedeiros e, a quinta divisão, a animais venenosos (cobras, escorpiões e outras formas). Na parte concernente aos mamíferos, o foco era direcionado aos que serviam de reservatórios a germes e vírus, e às doenças de animais que afetavam o homem.

O documento com questões relativas ao prédio indagava, entre outras coisas, se o estilo seria clássico ou moderno, que dimensões e ocupação teria, quais seriam os sistemas de iluminação, ventilação e controle de umidade, as cores e materiais de paredes e pisos.51

Youtz desenhou a planta baixa do pavimento térreo ainda no Rio de Janeiro. A elevação da fachada, feita com caneta-tinteiro, por falta de material de desenho adequado, foi enviada de Recife, em 8 de fevereiro de 1941. Na carta escrita então o arquiteto explicava o que havia projetado, e o que antevia.52

A entrada principal estava situada sob um grande painel de vidro na torre central, em forma de octógono. À direita, no desenho, projetava-se diagonalmente a ala destinada à microbiologia com outro painel de vidro vertical na sua extremidade. À esquerda, ficava a ala das plantas. Atrás delas, viam-se partes das alas para insetos e mamíferos."Apresentei o desenho mais simples possível porque neste estágio o que importa é mostrar as principais proporções. O estilo moderno está bem adaptado a suas necessidades, caso você goste dele. Quando forem feitos desenhos cuidadosos, creio que conseguirá ver quão bonito e imponente será o futuro prédio."

Ele seria de concreto armado, com alas suficientemente estreitas para prescindirem de colunas, sendo, no entanto, sustentadas por vigas com cerca de 1 1/3 metros de profundidade. Nos pontos em que as alas se uniam ao octógono, nas paredes externas deste, seriam levantadas colunas, deixando espaço livre entre as alas para grandes janelas verticais que iluminariam abundantemente o corpo central. Em seu interior, elevar-se-ia uma escadaria aberta passando por dentro das oito colunas cilíndricas situadas nos oito cantos.

As janelas das alas foram dispostas horizontalmente e em posição elevada, de maneira que houvesse, debaixo delas, boa superfície de parede para encostar mostruários ou pendurar objetos.

Com relação ao acabamento, Youtz recomendava pisos de ardósia escura, pois eram duráveis e fáceis de conservar. A cor escura evitaria que a luz refletida ofuscasse os visitantes. Já os tetos deviam ser brancos para refletir o máximo de luz. As paredes, por sua vez, seriam emboçadas e pintadas em cores pastéis, embutindo-se nelas armações metálicas para que objetos e espécimes pudessem ser pendurados com facilidade, sem o uso de pregos: "Com fenestragem tão ampla não creio que precise gastar com um sistema de ventilação especial. O prédio terá ótimas correntes de ar cruzadas ... e eu acredito que, em seu clima, ficará livre de condensação de umidade."

Em carta enviada de Salvador, em 4 de fevereiro, Youtz deu instruções detalhadas a Bertha sobre como proceder para completar o projeto e conquistar adesões que o viabilizassem. Quando estivesse satisfeita com os esboços do pavimento térreo e elevação — ele se dispunha a fazer quantas modificações ela quisesse — devia pedir a um desenhista para confeccionar planta e elevação atraentes, com sombras, nuvens e árvores, e a um "jovem arquiteto com habilidades artísticas", para desenhar uma perspectiva da fachada colorida com aquarela.

Estes três desenhos ... são tudo o que você necessita para apresentar sua idéia às autoridades. Eu não tentaria apresentá-la sem eles porque as pessoas, em geral, têm dificuldade de visualizar ou avaliar um projeto novo sem uma imagem concreta atraente.

Quando os três desenhos estiverem prontos, eu os mandaria fotografar em negativos do tamanho no mínimo equivalente ao dessa folha de papel datilográfico. Então poderá imprimir, a baixo custo, quantos contatos quiser em papel lustroso para fins de publicidade e promoção. Eu ainda enquadraria em moldura com vidro os desenhos originais, e os exibiria em algum lugar público onde se reunissem pessoas influentes. Mais fotografias de tamanho grande, em papel fosco, podem ser feitas e emolduradas, a baixo custo, para as principais autoridades envolvidas no projeto. ... Se você conseguir um bom desenhista grátis, e tiver que pagar somente as plantas do arquiteto e as fotos, o custo não será muito elevado.

Youtz terminava a carta recomendando a Bertha que "cristalizasse" todas as suas idéias na fase dos esboços, pois uma vez desenhadas as plantas definitivas, as mudanças tornar-se-iam difíceis e dispendiosas: "Não deixe de escrever sobre qualquer aspecto do projeto em que eu possa ajudar. Ficarei feliz de atuar gratuitamente como seu arquiteto consultor, se você julgar que um nome estrangeiro é de alguma ajuda para ele."53

Bertha agradeceu os conselhos e a ajuda oferecidos em carta datada de 12 de fevereiro de 1941: "Os esboços do museu estão maravilhosos, simplesmente aquela arquitetura desprendida, digna e moderna que eu adoro. Estão sendo copiados em ritmo lento, ou melhor piú que lento pelo misto de arquiteto e desenhista, o que talvez seja desculpável, considerando-se o calor escaldante que faz."54

O profissional a que Bertha aludia trabalhava num órgão da Prefeitura, possivelmente o Serviço de Obras e Instalações da Secretaria Geral de Saúde e Assistência. Ele gostara dos esboços, mas julgava que seria necessária a refrigeração artificial, e considerava dez pés — a distância deixada entre pisos e janelas nas alas —55 uma superfície excessiva para ser usada como espaço de exibição. "Está preocupado com as vias de aproximação e espaços de estacionamento para automóveis e tem dificuldade de visualizar a aparência que devem ter as portas de entrada no museu. O outro jovem artista (que tenta fazer um esboço particularmente) está preocupado com o custo. Será que poderia nos fornecer uma estimativa aproximada?" (ver nota 49).

Bertha não tinha alterações a propor ao projeto arquitetônico, limitando-se a comentar aspectos relacionados ao conteúdo. "Eu penso em sons, não em imagens, exceto quando obrigo-me deliberadamente a fazê-lo, no que concerne, por exemplo, a sapos, plantas e paisagens." Ela enfatizava certos grupos de animais "que, de forma muito subjetiva, considero os mais interessantes", e considerava inviável colocar espécimes vivos em salas. "Tentei isso aqui sem nenhum sucesso."

Nessa carta, percebe-se já certa descrença de Bertha quanto às chances de viabilizar aquele projeto museológico ambicioso, que não se resumia ao prédio monumental projetado por Youtz. Em documento escrito um pouco depois, ela se refere aos outros componentes do museu: além da sede principal, na avenida Presidente Vargas, "dois postos de observação biológica, um de montanha, no maciço da Tijuca, outro de baixada, por exemplo na restinga de Itapeba; um pequeno jardim zoológico no Parque da Cidade, com os animais em liberdade, separados do público por fossas e com o plantio de espécies cariocas floríferas". Os técnicos do museu percorreriam toda a zona rural do Distrito Federal dedicando-se a rotinas que aliavam preocupações sanitárias com o interesse científico, turístico e conservacionista: estudariam os insetos hematófagos e parasitas prejudiciais à saúde humana, para auxiliar seu controle; mapeariam matas e formações florísticas e faunísticas para que o governo municipal cuidasse de sua conservação; organizariam "trilhas da natureza", com "rótulos e explicações nos pontos de grande interesse para os turistas"; e fariam ainda publicações acadêmicas sobre suas investigações, e publicações de divulgação científica para o público leigo.56

Na carta de 12 de fevereiro, Bertha escreveu ao arquiteto norte-americano que faria o possível para conseguir que o prédio projetado fosse levado a cabo,

mas se eu fracassar, seria possível, você acha, fazer algo bem simples, digamos um museu a céu aberto que eu pudesse montar com meus próprios recursos e presentear ao Rio? ... Mesmo que não consiga ajuda externa, gostaria de organizar uma expressão visual de sua vida e obra (refere-se ao pai). Os tempos em que vivemos são tão sordidamente materialistas que os esforços de idealistas generosos podem servir de estímulo à juventude desencantada. É claro que terá de veicular uma mensagem maior, mas creio que é fácil consegui-la — seguindo as diretrizes sugeridas pela própria Natureza e suas criaturas.

Um museu bem pequeno com depósitos grandes e bem organizados não atenderia a este propósito? ... Se o outro concretizar-se eu poderia usar o pequeno para uma exposição sobre o desenvolvimento da mulher.

A documentação em nosso poder não fornece elementos que esclareçam as circunstâncias em que se deu o sepultamento do projeto, e as razões disso. Talvez a magnitude e o custo tenham contribuído. É provável que o projeto representasse uma ameaça tanto ao Museu Nacional como a Manguinhos, já que absorveria atribuições de ambos, sob a autoridade de Bertha Lutz, numa localização mais central, portanto mais "visível" da capital brasileira. E nos perguntamos, também, se a pouca popularidade de Adolpho Lutz entre os cariocas não foi um fator relevante, já que ainda hoje ele tem prestígio e reconhecimento muito maiores em São Paulo, que foi palco de suas ações mais ousadas e de maior visibilidade pública no domínio da saúde coletiva.

Em folhas datilografadas do Gabinete do Prefeito do Distrito Federal, sem data, em que consta o nome manuscrito do dr. Senna, foram várias alternativas para a inserção do museu no organograma da municipalidade. A primeira alternativa consistia em atrelar o Museu Adolpho Lutz de História Natural à Secretaria Geral de Educação e Cultura, mais especificamente ao Serviço de Museus da Cidade, como dependência do Departamento de História e Documentos ou, um degrau acima, como Departamento (autônomo) de Biologia e Ciências. Outra possibilidade no organograma daquela secretaria era encaixar o Museu da Natureza Adolpho Lutz no Serviço de Divulgação do Departamento de Difusão Cultural, tendo como finalidades a "divulgação dos conhecimentos e conseqüente apreço da fauna e flora riquíssimas do Distrito Federal e do Brasil com a) exposição aberta ao público; b) trilhas de natureza ... c) laboratório e postos de observação bioecológica e d) seção de proteção à fauna e flora cariocas".

Cogitou-se, também, em atrelá-lo à Secretaria Geral de Viação e Obras, no Departamento de Parques, como Serviço de Bioecologia, ou na Secretaria do Prefeito, no Departamento de Geografia e Estatística, como Serviço de Biogeografia e Ecologia, encarregado do estudo da flora e fauna do Distrito Federal. Foi examinada ainda a subordinação do museu ao Serviço de Turismo do Departamento de Turismo e Certamens.

Esta indefinição institucional reflete em alguma medida a ausência de legitimidade política e social capaz de viabilizar o projeto de exibição em escala monumental da obra científica de Adolpho Lutz, e a intenção, que se discerne claramente na documentação de Bertha, de criar um espaço sob medida para que fosse a guardiã das coleções biológicas do pai, e que lhe proporcionasse os recursos de laboratório e pessoal para dar continuidade a linhas de pesquisa inauguradas por ele.

Dodsworth encerrou seu mandato de prefeito em 1945 sem que o museu deixasse de ser uma quimera da perseverante e abnegada Bertha Lutz, já então nacional e internacionalmente conhecida como líder feminista e, em menor medida, como zoóloga com importantes trabalhos de interesse puramente biológico num domínio específico da história natural, o dos anfíbios anuros.

 

Os anos 1950 e o centenário de nascimento de Adolpho Lutz

Na década seguinte, foram mais bem-sucedidas as iniciativas de Bertha relacionadas à memória de Adolpho Lutz. Na celebração do cinqüentenário do IOC, em 1950, ela preparou uma exposição de seus trabalhos, ressaltando mais uma vez sua primazia entre os pioneiros da medicina tropical e da zoologia médica no Brasil. Colocou em relevo, sobretudo, seus estudos sobre o Schistosoma mansoni, a diferenciação entre a forma amebiana e bacilar da disenteria, a pelagra, as nodosidades juxta-articulares e as modalidades silvestres da malária e da febre amarela.57

Mas o grande acontecimento daquele período foram as celebrações do centenário de nascimento de Adolpho Lutz, em 1955.

Os preparativos começaram quatro anos antes, às vésperas da viagem que Bertha fez à Europa para participar da Comissão do Estatuto da Mulher na ONU, e para pesquisar anfíbios no British Museum e em outras instituições britânicas.58

No relatório das atividades de 1951 (p. 4), apresentado à diretora do Museu Nacional, Bertha declarava que "o centenário de Lutz" era o item mais importante entre seus "planos futuros", e que o primeiro passo seria a obtenção de auxiliares e a organização de uma "comissão preparatória".

É importante nos determos um pouco na gestão de Heloísa Alberto Torres (1895-1977), que foi diretora do Museu por 17 anos, pois ela desempenhou papel muito importante na concretização dos planos de Bertha Lutz — foram o epílogo de sua produtiva gestão —, assim como já desempenhara na consolidação da carreira dela como naturalista daquela instituição.59

Heloísa também era filha de um personagem importante, o político fluminense e respeitado intelectual Alberto Torres, e iniciou sua vida acadêmica em 1918, à mesma época que Bertha, mas enquanto esta permanecia enleada em cargos relativamente subalternos no IOC e no Museu Nacional, que não condiziam com o trabalho que efetivamente realizava, Heloísa ascendia ininterruptamente na hierarquia desta última instituição. Ingressou como auxiliar de Roquette-Pinto, foi efetivada mediante concurso público em 1925, chefiou a seção de Antropologia e Etnografia de 1926 a 1931, tornou-se vice-diretora da casa entre 1935 e 1937, e sua diretora de 1938 até 1955. Um dos aspectos preponderantes de sua gestão foi o fortalecimento da antropologia, inclusive com o treinamento de pesquisadores brasileiros no trabalho de campo, por meio de convênios celebrados com a Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Heloísa Alberto Torres investiu na criação de outros departamentos e na implantação de cursos, e expandiu consideravelmente o quadro de pessoal, através de concursos e da aprovação de planos de carreira para professores e técnicos. Na eleição para o cargo de diretor do Museu Nacional em 1945, no contexto da redemocratização, enfrentou um grupo de naturalistas liderados por Newton Dias dos Santos. "A crise eleitoral, amplamente divulgada na imprensa por meio da publicidade a uma série de acusações dos adversários de Heloísa sobre possíveis irregularidades na direção da instituição, tem sido interpretada por alguns estudiosos da história da antropologia no Brasil como ligada também à redefinição do papel dos museus no cenário educacional brasileiro e à diferenciação da antropologia em relação às áreas de geologia, botânica e zoologia no Museu Nacional" (Ribeiro, 2000).

O fortalecimento daquela disciplina e do museu como instituição de ensino e pesquisa gerou tensões, também, com a Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), criada no Rio de Janeiro em 1939, no âmbito da reforma educacional deslanchada em 1931 por Francisco Campos. A reforma "dotava as faculdades de filosofia de um papel-chave na difusão do saber, esvaziando os museus de ciências naturais de parte das atribuições que lhes coubera até então".60

Heloísa teve papel igualmente importante em outros foros do campo cultural e científico brasileiro ao longo do governo Vargas, principalmente nas instituições tutelares das populações indígenas, em outros museus de história natural e na formulação da política científica e de defesa do patrimônio histórico e artístico nacional.61

No Arquivo Bertha Lutz encontram-se numerosas cartas e ofícios expedidos por Heloísa Alberto Torres com o objetivo de viabilizar o centenário de nascimento de Adolpho Lutz. Em outubro de 1952, convidou o presidente do recém-criado Conselho Nacional de Pesquisas, almirante e engenheiro Álvaro Alberto da Motta e Silva, a presidir a comissão que organizaria as comemorações, conforme entendimentos que já vinha mantendo com os diretores dos institutos Adolfo Lutz e Oswaldo Cruz — Ariosto Büller de Souto e Olímpio da Fonseca Filho, respectivamente.62

A comissão foi criada por aquela autarquia anexa à Presidência da República, em 1953, tendo à frente o almirante Motta e Silva, que presidia, também, a Academia Brasileira de Ciências.63 Para ser o presidente de honra, foi convidado o ministro da Saúde, o malariologista Mario Pinotti. Entre os vice-presidentes figuravam o diretor do Instituto Adolfo Lutz e diversos quadros do IOC: seu diretor, Olimpio da Fonseca, que logo seria substituído pelo cardiologista Francisco da Silva Laranja Filho (ambos participariam da comissão),64 o entomologista Ângelo Moreira da Costa Lima e o médico Arthur Moses, que fora de Manguinhos e era, agora, tesoureiro do Conselho Nacional de Pesquisas.65 Como secretária-geral, Heloísa Alberto Torres foi, sem dúvida, a integrante mais ativa daquela comissão de notáveis. Para secretário-adjunto, convidou Carlos Alberto Seabra, herdeiro de grande fortuna originária da indústria têxtil e de patrimônio imobiliário, apaixonado pelos estudos entomológicos e generoso patrocinador de incontáveis pesquisadores.

"O dr. Bruno Rangel Pestana, antigo assistente de Lutz em São Paulo (há cinqüenta anos) e eu somos auxiliares sem designação", escreveu Bertha Lutz.66

Em carta enviada a Heloísa Alberto Torres (1.2.1953), quando ela estava na Bahia, Bertha comentou: "A comissão está em boas mãos mas não sei se não vamos precisar de um pequeno grupo de trabalhadores de fato, como sejam o Carlos Alberto Seabra, talvez José Cândido e esta sua criada. Creio que o dr. Souza Araújo que está treinadíssimo em lidar com a imprensa também poderia ser muito útil."

Parece ter havido uma comissão à parte para cuidar das celebrações na capital paulista, pois em outra carta de Bertha à diretora do Museu Nacional, de 20 de novembro de 1954, lê-se: "O dr. Bruno Rangel Pestana telefonou de São Paulo e avisou que ali instalarão brevemente uma grande comissão do centenário do dr. Adolpho Lutz, tendo todos aceito e o governo prometido apoio. Brevemente, a sra. receberá comunicação. Perguntou pela verba e pela possibilidade da emenda orçamentária ou projeto."67

Em 17 de junho de 1953, em seu terceiro encontro, a comissão criada no Rio de Janeiro pelo Conselho Nacional de Pesquisas fixou as seguintes metas:

a) preparo de um volume contendo a bibliografia completa do homenageado, na qual o título de cada obra será acompanhado de um resumo e comentários;
b) reimpressão dos trabalhos mais importantes, cuja obtenção seja hoje muito difícil;
c) publicação de uma biografia elaborada por moderna técnica com utilização dos trabalhos, dos apontamentos de viagem, da correspondência de Adolpho Lutz e de entrevista com pessoas, que conheceram de perto o homenageado;
d) cunhagem de medalhas em vermeil para distribuição a instituições científicas;
e) ereção defronte ao Instituto Adolfo Lutz (São Paulo) do busto do cientista que lhe deu o nome;
f) colocação, em cinco grandes institutos científicos brasileiros, de suas obras completas (microfilmadas);
g) impressão de um selo postal com sua efígie;
h) publicação do álbum sobre fauna anura brasileira, iniciado pelo homenageado e continuado por sua filha, a doutora Bertha Lutz;
i) realização de duas grandes sessões — uma na Academia Brasileira de Ciências (Rio de Janeiro) e outra em S. Paulo — com a participação de todas as entidades científicas dessas cidades.68

Os primeiros itens desse ambicioso plano seriam impensáveis sem os esforços envidados por Bertha, desde os últimos anos de vida do pai, para localizar os textos dispersos publicados por ele, e obter cópias ou originais, por meio de trabalhosa correspondência com instituições e personalidades com os quais Adolpho Lutz mantivera contato.

A atualização de sua bibliografia foi uma empreitada de que participaram outros personagens, e que consumiria bom tempo ainda. Seu ponto de partida foi a listagem bibliográfica organizada por Herman Lent, em 1935, corrigida por Arthur Neiva e Assuerus Hippolytus Owermeer, o bibliotecário holandês de Manguinhos, e publicada nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (t. 36, fas. 1, pp. i-xxiii), em 1941, como apêndice do necrológio escrito por Neiva.69

Em meados de 1953, Heloísa Alberto Torres solicitava à Biblioteca Nacional artigos de Lutz publicados em jornais, e no começo de 1954, enviava ao professor B. Spielhoff, de Leipzig, uma lista de títulos publicados no Dermatologische Wochenschrift, desde 1885, pedindo-lhe que providenciasse cópias e, se possível, também, informações sobre a herança de Paul Gerson Unna, que poderia conter correspondência do cientista brasileiro.70

Em carta à diretora do Museu Nacional, de 28 de novembro de 1953, Bruno Rangel Pestana aludia a títulos não incluídos na bibliografia de 1941, e estimava os custos do trabalho de completá-la e de microfilmar ou copiar o que já estivesse disponível. Ao que parece, esse trabalho foi delegado a Roberto de Almeida Moura, que, em dezembro de 1954, deu por concluída a bibliografia de Adolpho Lutz.71

Cartas e rascunhos fragmentários de Bertha dão-nos outras indicações sobre como transcorreram os preparativos do centenário de nascimento de seu pai.

Na viagem à Inglaterra, em 1952, antes, portanto, da criação da Comissão do Centenário, ela fora autorizada por Heloísa Alberto Torres a pagar adiantadamente bibliofilmes, para ser indenizada quando voltasse.72 Em carta escrita em 18 de agosto de 1954 ao dr. E. G. Vogelsang, decano da Facultad de Medicina Veterinaria em Maracy (Aragua, Venezuela), Bertha comentou: "O Conselho deu os meios pecuniários necessários para a organização do arquivo do dr. Lutz e das coleções e catalogação destas para eventual publicação. Ambos os trabalhos estão muito adiantados."

Já vimos que a organização do arquivo era uma tarefa a que Bertha vinha se dedicando desde a morte do pai. O mesmo aconteceu com as coleções científicas e, nesse caso, por razões que não se restringiam à rememoração. Além de constituírem lugar ou suporte importante de memória, as coleções serviram de lastro ao início da carreira independente de Bertha como zoóloga oficialmente ligada ao Museu Nacional, e oficiosamente, ao laboratório de Adolpho Lutz, no IOC.

Entre os derradeiros trabalhos do cientista sobressaem três sobre novas espécies de uma família de anfíbios denominada hilídeos, e sobre mosquitos que picam anuros, publicados em 1938-39, em co-autoria com Bertha Lutz, nos Annais da Academia Brasileira Scientífica.73

Em 10 de maio de 1939, em carta a Thomas Barbour, diretor do Museum of Comparative Zoology do Harvard College (Cambridge, Mass.), Bertha falou sobre o estado precário de saúde do pai e comunicou que os estudos dele sobre anfíbios anuros estavam agora sob sua responsabilidade (pasta 70, maço 2).

A organização e a curadoria das coleções que Adolpho Lutz havia formado no IOC já eram suas preocupações, como revelam as cartas trocadas, em fevereiro de 1939, com I. B. Crawford, do British Museum of Natural History, e em 19 de março, com Doris M. Cochran, de National Museum, em Washington (pasta 70, maço 2).

As coleções foram objeto de copiosa correspondência nos anos 1940 e 1950, e também nesse terreno, Bertha teve em Heloísa Alberto Torres uma grande aliada. Em 1941, a diretora do Museu Nacional autorizou-a a "estudar ou promover o estudo" do material coligido por Adolpho Lutz, e a zelar por ele. Entregou-lhe uma sala mais espaçosa, onde coubessem os espécimes, e autorizou Bertha a realizar excursões para o melhor desempenho daqueles estudos. Todo o material coletado daquela data em diante deveria, entretanto, ser incorporado ao patrimônio do Museu Nacional.74 Guardiã oficial das coleções do pai, Bertha obteve também o apoio de Lauro Travassos, chefe da Divisão de Zoologia Médica do IOC, que "receoso de que as coleções Lutz ficassem perdidas, obteve do Museu Nacional e da Universidade do Brasil a colaboração da filha do dr. Lutz, a 'título gracioso' para cuidar das coleções".75

Em carta a Mario Pinotti, então diretor do Serviço Nacional de Malária (30.9.1943), solicitou sua participação nas pesquisas que aquele serviço fazia no sul do Brasil, alegando que Bertha Lutz procedia a estudos sobre a fauna anura e as bromélias, dando prosseguimento às pesquisas de seu pai, "de grande interesse para o combate à malária silvestre".76

Bertha passava a maior parte do tempo em Manguinhos pois era lá que estavam depositadas as coleções do pai. Com a incorporação do Museu Nacional à Universidade do Brasil, Heloísa escreveu ao reitor em 8 de julho de 1846 justificando a ausência de Bertha no Museu Nacional. Na carta Heloísa diz que Bertha tinha sido designada por ela para proceder à revisão das coleções de Adolpho Lutz, "a fim de assegurar sua integridade, bem como poder promover-se uma edição completa dos seus escritos". Explica ainda que os serviços prestados por Bertha Lutz vinham sendo desenvolvidos em conjunto com as pesquisas pessoais de Bertha e que isso exigia a permanência dela por longo tempo na instituição em que seu pai trabalhara (BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Carta de 8 de julho de 1946 de Heloísa A. Torres para o reitor da Universidade do Brasil).

A situação funcional de Bertha no museu melhorou consideravelmente naquela conjuntura totalitária do Estado Novo. Vimos que ela ingressara como 'secretário' do museu em 1919. Um ano após a revolução de 1930, por determinação do ministro da Educação e Saúde Pública, passara a exercer a função de secretária de redação, tendo como atribuição principal a tradução de textos para o Museu Nacional. Somente em 1937, Bertha assumiu o cargo de naturalista do Quadro I, e no ano seguinte, Vargas promoveu-a, por merecimento, de naturalista classe K para classe L.77

Em dezembro de 1939, substituiu Heloísa Alberto Torres como representante do Museu Nacional no Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil, vinculada ao Ministério da Agricultura, o que lhe deu o poder de interferir nas relações com museus de história natural estrangeiros.78

Ao relatar a sua superiora atividades que desempenhava como naturalista, Bertha sempre as associava, de uma forma ou de outra, ao nome de Adolpho Lutz. Lê-se no relatório de 1951, por exemplo, que continuara a publicar a série referente aos anfíbios anuros da Coleção Adolpho Lutz.79 No item Coleção Herpetológica, registrou que prosseguira os trabalhos de revisão, fichamento e estudo daquela parte da Coleção Adolpho Lutz, acrescendo-a de numerosos espécimes, a maioria coletados nas excursões que fazia.80 Naquele mesmo ano, a naturalista britânica Gloria Sidwell estivera no museu e executara "aquarelas para a coleção destinada a ser aproveitada algum dia no Atlas colorido (de anfíbios) ideado pelo professor Adolpho Lutz". Consta, inclusive, que a diretoria do museu estava levantando orçamento para a execução do Atlas, mas os resultados eram "de tal modo morosos que levam quase ao desânimo" (p. 5).

Bertha Lutz terminava o relatório agradecendo a Heloísa Alberto Torres e também à direção do IOC as facilidades dadas "para a execução do meu trabalho sobre anfíbios, baseados em grande parte no acervo científico e coleções iniciais do professor Adolpho Lutz".

O consórcio com ele era ainda mais importante para a legitimação do trabalho que realizava no IOC, onde se encontrava o espólio científico do pai, inclusive aquele que Bertha elegeu como sua área de interesse, e que transferiu para o Museu Nacional somente após a morte dele.

No artigo sobre 'Anfíbios anuros da coleção Adolpho Lutz do Instituto Oswaldo Cruz', entregue à publicação nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz em março de 1948, Bertha explicou a gênese desses estudos de zoologia não aplicada, e sua inserção neles.

Ao correr dos seus estudos clássicos sobre a biologia dos trematódeos, Lutz encontrou bom número de hospedeiros anuros que não se enquadravam nas descrições publicadas na literatura ao seu alcance. Publicou diagnósticos diferenciais dessas espécies. Despertado o seu interesse por essa ordem, tão pouco estudada entre nós, fê-los seguir de várias monografias sobre gêneros e subfamílias, nas Memórias do IOC e, finalmente, por alguns trabalhos suplementares, estes com a minha modesta colaboração. ... Tendo durante muitos anos acompanhado as pesquisas do meu pai sobre anuros, mormente no trabalho de campo, procedi à ampliação e estudo da Coleção Adolpho Lutz, aproveitando nessa tarefa os estudos comparativos que tive a oportunidade de fazer das coleções de anuros neotropicais dos grandes museus norte-americanos. Após a revisão preliminar, resolvi dar início, agora, à publicação de descrições mais detalhadas das espécies de Lutz e de outras espécies novas, recebidas posteriormente. Discutirei ao mesmo tempo as suas relações com outras espécies afins ou semelhantes, coincidentes na sua distribuição geográfica ou ecológica. Incluirei também as observações biológicas do professor Lutz junto com as minhas e algumas do nosso talentoso auxiliar de laboratório, o sr. Joaquim Venâncio.81

Nos anos que precederam as comemorações do centenário de nascimento de Adolpho Lutz, Bertha esteve à frente de uma pequena e laboriosa equipe, inteiramente dedicada à catalogação das coleções do pai, em Manguinhos, à transferência de parte delas para o Museu Nacional e à tarefa de completar o arquivo com publicações, manuscritos, correspondência e outros documentos do cientista.82

Em 1942, Bertha já fazia a revisão das coleções não entomológicas de Adolpho Lutz. No já citado relatório de 1951, Bertha reivindicou um auxiliar "para as coleções herpetológicas; um para o herbário e diversas outras coleções; um para moluscos; um ou mais para entomologia e helmintologia, respectivamente, parecendo que estes dois últimos grupos deveriam ser fornecidos pelo Instituto Oswaldo Cruz; uma arquivista e mais auxílio datilográfico".

Manguinhos passou a custear os serviços de Marcelle Haupt, que vinha trabalhando por conta de Bertha na datilografia de documentos, ultimamente "a correspondência de infância e mocidade de Adolpho Lutz com sua família, como subsídio muito importante à sua biografia futura ... e que oferece um aspecto humano que talvez lhe seja mais simpático que o trabalho científico".83

Bertha havia recrutado, também, uma prima casada com o general português Ruy da Cunha e Menezes; em fevereiro de 1953, ela deu por arrumada a correspondência botânica e parte da zoológica. "Só faz dificuldades quanto às cartas manuscritas em alemão e representa uma tendência muito forte de eliminar tudo que não é de primeira importância."84

A assistente de Bertha no Museu Nacional — naturalista auxiliar Maria de Lourdes Mercier, licenciada pela Faculdade de Ciências e Filosofia — dedicava-se à numeração e registro da Coleção Herpetológica Adolpho Lutz (transferida na década de 1960 para o Museu Nacional). O IOC forneceu-lhe mais dois auxiliares a partir de 1951. Sisino Pereira passou a ajudar Maria de Lourdes "na parte material de numeração e registro da Coleção Adolpho Lutz", ao passo que Adelerme Souza cuidava da limpeza do laboratório que pertencera ao cientista em Manguinhos.

Em novembro de 1954,85 Bertha informou a Heloísa Alberto Torres que a numeração dos anfíbios brasileiros de Lutz terminara, dando 4.439 espécimes: "Faltam os exóticos que terminarei ainda este mês. Depois terão de ser refeitos os rótulos e feitas novas fichas. Temos ainda lagartixas, cobras e alguns crânios ou peles de vertebrados." (Em janeiro de 1955, contabilizaria 5.211 espécimes na coleção herpetológica de Lutz, que incluía anfíbios e répteis.)86

O Herbário Adolpho Lutz continha plantas coletadas pelo cientista em suas viagens ao rios São Francisco e Paraná, ao Nordeste, a Petropólis, à serra da Bocaina, Venezuela, e mesmo em Manguinhos, em terrenos sepultados pela avenida Brasil ou pelos aterros onde já vinham sendo cravados os alicerces dos prédios novos que rodeiam o conjunto arquitetônico histórico edificado por Oswaldo Cruz.87 Àquele herbário foram depois anexadas as coleções particulares de Heráclides César de Souza Araújo, Henrique Aragão, Arthur Neiva e Olympio da Fonseca Filho. Pouco antes do Centenário, a coleção de orquidáceas do herbário foi doada à Sociedade Botânica do Brasil, e ficou sob os cuidados de Guido F. J. Pabst, que a descreveu na Revista Brasileira de Biologia, em julho de 1955.

Em documento não datado, posterior à morte do pai, Bertha escreveu: "Tornando-me, à mercê das circunstâncias, guardiã hereditária desse acervo precioso, cuidei de examiná-lo e mantê-lo, desde o dia em que, ainda em vida do dr. Lutz, o seu sucessor no laboratório solicitou-me que o retirasse, porque ocupava espaço demais. Muitas plantas tinham sido prejudicadas pela ação do tempo e do gorgulho, desde que um acidente de caçada privou o dr. Lutz, alheio ao fato, de seu auxiliar, José Vasconcellos, que também gostava de botânica." 88

Quem auxiliava Bertha, agora, nos cuidados com esta coleção era um funcionário do Museu Nacional chamado Esmeraldino Augusto de Souza. A Divisão de Botânica Sistemática do Jardim Botânico também ajudou na determinação das espécies. "O fichário está muito adiantado e estaria pronto não fossem uns pequenos equívocos nas fichas, mas breve terminará", escreveu a naturalista em fevereiro de 1953. "O dr. Brade acha (como eu) que não se deve tirar os invólucros antigos, que dão autenticidade ao herbário, mormente já que o dr. Lutz escrevia suas notas na própria saia do herbário, que era como os amigos de Eva Perón 'descamisados'. Quando estiverem terminadas as fichas e etiquetas novas poderemos organizar tudo. ... Esmeraldino ainda tem que preparar as capas de famílias também. Trabalha bem e se interessa pelo que faz. Mais outro auxiliar assim, mas com gosto pelo trabalho de campo, seria utilíssimo."89

Segundo balanço redigido por Bertha em janeiro de 1955,90 os longos meses de trabalho dedicados à coleção herpetológica de Adolpho Lutz deixaram-na em estado mais adiantado para ser divulgada em catálogo durante as comemorações do centenário, como desejava Heloísa Alberto Torres. O herbário ainda tinha problemas de numeração e determinação, mas a naturalista julgava possível concluí-las até lá, pois era relativamente pequeno o número de famílias que compunham a coleção ("mais de dois mil números").

Bertha reivindicava mais colaboradores para tratar das coleções de "vermes, moluscos, lâminas microscópicas e de vertebrados", julgando pouco provável que estivessem prontas até o centenário.

A coleção que Lutz formara durante os estudos sobre a esquistossomose totalizava 3.214 exemplares de Planorbis, gênero de caramujos que compreende algumas espécies transmissoras da doença. Segundo carta enviada em 14 de setembro de 1955 a Wladimir Lobato Paraense, o continuador de Adolpho Lutz neste área de investigação, a coleção de caramujos encontrava-se em completo estado de desorganização. Nela Bertha explicava:

É provável que o sr. saiba o que ocorreu com esse material ... . No tempo do dr. Fontes este resolveu um dia, e de um momento para outro, ocupar os mostruários do museu. Com horror e espanto recebi cestas de papéis usados nas quais o encarregado do museu tinha empilhado do melhor modo que soube fazer as placas de vidro que continham espécies de Planorbis em exposição. ... Uma parte do material, não foi vítima dessa ocorrência. Estou fazendo tudo para entregar as coleções do dr. Lutz ao Instituto em estado de serem passíveis de conservação definitiva (BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz).

Ao que parece, essa coleção seria retirada do limbo somente em 1959, quando Amilcar Viana Martins, então diretor do IOC (1958-60), levou para Belo Horizonte aqueles caramujos para serem estudados por Wladimir Lobato Paranense.91

Graças à boa vontade de Francisco Laranja, que tomou posse como diretor de Manguinhos em janeiro de 1954, teve início a organização da coleção entomológica. Em novembro, Bertha declarou que a numeração e o fichamento da coleção de dípteros não estudados por Lutz ficariam prontos aquele mês. Logo começaria o tratamento dos que ele havia estudado, a começar pelos tabanídeos. O entomologista Gustavo de Oliveira Castro, um dos mais próximos colaboradores de Lutz, parece ter sido o herdeiro de seu laboratório e o principal guardião das coleções de insetos, de maior relevância médica e científica para o IOC. No começo de 1955, parte dos dípteros já tinha sido organizada e fichada pelo dr. Hugo Souza Lopes; outra parte caminhava muito lentamente, porque os auxiliares não podiam dedicar seu tempo somente àquele trabalho. Era preciso estudar e catalogar outros grupos de insetos. Newton Dias dos Santos, pesquisador do Museu Nacional, já se dispusera a cuidar dos odonatas, e Alexander Graham Bell Fairchild, do Gorgas Memorial Laboratory (Panamá), ficaria responsável pela organização e revisão da coleção de tabanídeos.

Heloísa Alberto Torres, a grande aliada de Bertha, deixou a direção do Museu Nacional em 1955, tendo-a sucedido o zoólogo José Candido de Melo Carvalho. Em 23 de janeiro de 1956, o novo diretor comunicou a Bertha que "atendendo a elevada capacidade de trabalho de Vossa Senhoria, bem como a necessidade de sua colaboração ao Museu Nacional de modo mais direto, solicito a Vossa Senhoria cancelar a comissão que vem exercendo no Instituto Oswaldo Cruz, a fim de apresentar-se à Divisão de Zoologia deste Museu, na qual Vossa Senhoria acha-se lotada" (BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz). Apesar de pressionada a se dedicar integralmente ao Museu Nacional, e sem o apoio outrora conseguido de sua ex-diretora, Bertha Lutz não abriu mão do seu projeto de publicação e conservação das coleções do pai. Para tal, conseguiu auxílio do Conselho Nacional de Pesquisa em 1956 (Processo CNPq 5575/56), renovado em 1958 e 1960. Somente em 1962, na gestão de Herman Lent como chefe da Divisão de Zoologia do IOC, Bertha Lutz seria obrigada a desocupar a sala de seu pai em Manguinhos tendo, na ocasião, sido nomeada uma comissão técnica para arrolar o material existente no laboratório e proceder à divisão dos espécimes pertencentes ao Museu Nacional e a Manguinhos. Após alguns meses algo tensos, ficou finalmente acordado que a coleção de vertebrados ficaria sob a guarda do Museu Nacional, sendo a sua transferência oficializada em 17 de junho de 1963.92

 

Publicação e exibição dos trabalhos de Adolpho Lutz

Como vimos, entre as metas estabelecidas pela Comissão do Centenário, em junho de 1953, figuravam o preparo de um volume com a bibliografia completa do homenageado, a elaboração de uma biografia e a reimpressão de seus trabalhos mais importantes.

Em novembro de 1954, Bertha informou a Heloísa Alberto Torres que Francisco Laranja decidira editar um volume de quinhentas páginas com parte dos trabalhos de Lutz não publicados nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. "Perguntou se a sra. não se interessaria em publicar um pelo Museu (seja o Atlas ou os trabalhos de zoologia, botânica, viagens etc.)." Bertha entregou ao diretor de Manguinhos uma lista de títulos que perfaziam 598 páginas, 15 pranchas e cerca de 78 desenhos, sugerindo a publicação, também, de parte da correspondência de Adolpho Lutz.93 No relatório de 10 de janeiro de 1955 a Laranja, Bertha referiu-se à tentativa de obter publicação similar em São Paulo, com ênfase no período em que Lutz estivera à frente do Instituto Bacteriológico. Com o Museu Nacional, negociava a reedição dos trabalhos de biologia e a publicação dos catálogos das coleções, à medida que ficassem prontos.

Esse projeto editorial recebeu a adesão do ministro da Educação e Cultura, que prometeu apoiar o IOC na publicação de dois livros com os trabalhos pouco conhecidos de Lutz, de difícil acesso para os médicos brasileiros.94

Nada disso aconteceu. As únicas publicações que vieram a lume foram aquelas com artigos de terceiros sobre a vida e obra de Adolpho Lutz.

Em 1954, Bertha recebeu a notícia de que seria publicado um número especial da Revista do Instituto Adolfo Lutz com diversos artigos sobre o pai.95 Entusiasmada, pôs à disposição dos autores o "vasto arquivo do dr. Lutz, arrumado, ao menos grosso modo", com recursos do Conselho Nacional de Pesquisas. Chamava atenção para o ineditismo de informações existentes na correspondências dele com Eberth, Theobald, Bancroft, Oswaldo Cruz, entre outros. E propôs temas que expressassem os diversos campos em que o pai atuara, especialmente suas atividades como leprologista e os feitos que qualificava de 'heróicos' contra epidemias que tinham grassado no estado de São Paulo. Sugeriu, ainda, a publicação bilingüe de relatórios, documentos e trabalhos produzidos por Adolpho Lutz durante o tempo em que estivera à frente do Instituto Bacteriológico (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1). Somente uma "concatenação planejada", afirmava, poderia revelar sua personalidade científica, "dentro das linhas austeras que o caracterizavam".

A poetisa Maria Sabina de Albuquerque, companheira de Bertha no movimento feminista, já tinha escrito um artigo na Revista do Instituto Adolfo Lutz (1950, pp. 9-30), baseando-se quase integralmente não apenas em documentos mas em texto de Bertha. Também fez parte das comemorações do centenário o trabalho de Fernando Cerqueira Lemos, no mesmo periódico (1954, pp. 5-161), sobre as atividades do Instituto Bacteriológico, desde a sua fundação em 1892 até 1940.

John Lane, professor adjunto da Faculdade de Higiene de São Paulo, foi incumbido de preparar o artigo sobre Lutz entomologista para o número comemorativo da Revista do Instituto Adolfo Lutz, lançado em 1955. Pediu a Bertha informações sobre os tipos descritos por ele, e sobre as instituições estrangeiras e nacionais onde se encontravam espécimes dos vários grupos com que trabalhara (carta de 17.2.1955). Afrânio Amaral, diretor do Instituto Butantan, aceitou escrever sobre o desempenho de Lutz como zoólogo. Em carta de 28 de abril, Bertha reiterou a oferta do arquivo e enfatizou as pesquisas desbravadoras da soroterapia antiofídica que o pai havia realizado em fins do século XIX, no Instituto Bacteriológico de São Paulo,

antes de se cogitar da fundação do Butantan. Como amostra, envio a V. S. o trecho anexo do seu relatório de 1897. Existem também cópias de cartas a colegas brasileiros e instituições estrangeiras, inclusive nas Antilhas, solicitando a remessa de cobras venenosas como sejam o fer-de-lance etc. Eu mesma, que também sou do século passado, lembro-me muito bem de ver em uso o laço que o dr. Lutz elaborou e usava, assim como os vidros de relógio em que colhia o veneno de cobra. Assisti muitas vezes a essa operação fascinadora.96

No arquivo de Bertha Lutz, encontram-se diversos rascunhos concernentes a exposições para o grande público que foram realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, no âmbito do centenário.

Em carta a Luiza da Fonseca, diretora de Documentação da Secretaria de Saúde de São Paulo, responsável pela montagem da exposição nas vitrinas externas do Palácio da Saúde, a naturalista opinava sobre a disposição dos mostruários e sugeria a exibição do currículo de Adolpho Lutz, de um retrato seu do tempo em que residira em São Paulo, um mapa da América do Sul com indicações dos locais que havia explorado, premiações, publicações etc.97

Textos rascunhados para as exposições paulista e carioca — esta, de maior porte, realizada no Museu Nacional — destacavam como traço mais característico da personalidade do cientista a combinação da cultura médica com a vocação de naturalista, e o papel pioneiro que ele desempenhou ao aplicar os saberes destas diferentes províncias à medicina tropical. Ao abordar a primeira fase de sua trajetória profissional, Bertha enfatizava os trabalhos sobre ancilostomíase, lepra e pelagra realizados a duras penas durante o escasso tempo que a prática clínica lhe deixava.98

O tema entomologia, em particular os culicídeos, mereceu grande destaque no planejamento das exposições. Com Billings, presidente da Light & Power,99 Bertha conseguiu fotos e plantas da serra de Cubatão e do rancho usado pelos operários e engenheiros que trabalhavam no prolongamento da estrada de ferro entre São Paulo e Santos, em 1897. Desenhos e fotos das bromélias da região ilustraram os comentários sobre as investigações que Adolpho Lutz fez lá, que o levaram à descoberta do transmissor da malária silvestre (denominado Anopheles Lutzii por Theobald, atual Kerteszia Cruzii). Isso aconteceu quase ao mesmo tempo em que Ronald Ross demonstrava a transmissão da malária tradicional, dos pântanos e planícies, por outros membros das família dos anofelinos.

À época das comemorações do centenário de nascimento de Adolpho Lutz, aproximava-se do fim a campanha de erradicação do Aedes aegypti, o transmissor da febre amarela urbana, combinada ao uso maciço da vacina contra a febre amarela silvestre, identificada em 1932 no interior do Espírito Santo pela equipe liderada por Fred Soper, da Fundação Rockefeller. Bertha Lutz procurou reunir evidências para convencer a comunidade científica nacional e estrangeira de que fora, na realidade, seu pai o primeiro a reconhecer a existência de uma modalidade de febre amarela nas matas, cujo transmissor não era o Aedes aegpty. Ao primo William R. Marinho, pediu informações sobre a data de construção da linha férrea que interligara os municípios paulistas de Funil e Campinas. Em fins do século XIX, Lutz estivera nesta última cidade combatendo gravíssima epidemia de febre amarela. Em matas próximas, que circundavam o canteiro de obras da ferrovia, observara casos de febre amarela, mas ausência do mosquito doméstico que o atazanara naquela cidade do interior paulista. Não estabeleceu, explicitamente, nenhuma relação de causa e efeito entre o mosquito e a doença, e nada publicou a esse respeito então. Registraria o fato como sugestivo da ocorrência de febre amarela sem Stegomyia fasciata (hoje é chamado Aedes aegypti) muito tempo depois da demonstração da teoria de Finlay, nas 'Reminiscências' (1930, pp. 127-42) escritas durante a epidemia que grassou no Rio de Janeiro em 1928, quando já eram debatidas as anomalias epidemiológicas que levariam, quatro anos depois, à descoberta da febre amarela silvestre. Em carta escrita em 1955 a F. Bernoulli, diplomata da legação suíça no Rio de Janeiro, Bertha pediu também informações sobre antigas colônias suíças no Espírito Santo que, segundo fatos narrados pelo pai, teriam sido vitimadas por epidemias de febre amarela muito antes da publicação do trabalho em que Soper e colaboradores reivindicavam a descoberta da modalidade silvestre da doença (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 181, maço 1). 100

Nos planos esboçados por Bertha para as exposições montadas durante o centenário, observa-se a preocupação em demonstrar que, não obstante as publicações em entomologia médica fossem posteriores às de helmintologia, Adolpho Lutz iniciara observações precursoras sobre dípteros hematófagos já nos anos 1880, após regressar ao Brasil com o diploma de médico. Em 1887, entre outras hipóteses, o cientista aventava a possibilidade de que a lepra fosse inoculada por meio da picada de insetos.101

Nas exposições de São Paulo e do Rio de Janeiro, planejou a mostra de culicídeos — com destaque para os transmissores da malária silvestre e febre amarela urbana, o Stegomyia fasciata — e de plantas que abrigam mosquitos (bromélias, nepentes e freycinetia). Reuniu, também, materiais a respeito de hematófagos pertencentes a outros grupos que Lutz estudou: os estrídeos, simuliídeos e tabanídeos.

Projetou painéis com "miscelânea" de diplomas, medalhas e publicações, segmentando a trajetória de Lutz em estudos secundários, universitários e posteriores ao doutoramento; atividades clínicas; estada em Honolulu e trabalhos no Instituto Bacteriológico. Apesar de os rascunhos de Bertha contemplarem os trabalhos realizadas no IOC em entomologia médica, helmintologia e zoologia, de cunho médico ou de interesse puramente biológico, sem que nenhum fosse destacado, percebe-se que davam maior ênfase às fases anteriores, em que as investigações do cientista tiveram maior repercussão política e social. Na etapa correspondente a Manguinhos, eram destacadas as numerosas viagens pela América do Sul, ressaltando Bertha a importância que tiveram para a formação de coleções de plantas e animais com numerosas espécies novas.

Inauguradas oficialmente em 15 de dezembro de 1955, as comemorações do centenário102 de nascimento de Adolpho Lutz ficaram aquém do que havia sido planejado pela comissão organizadora em junho de 1953. Foi publicado o opúsculo com a bibliografia do cientista, mais completa que a de 1941, mas sem resumos e comentários. O texto introdutório, bem sintético, sobre sua vida e obra, estava longe de constituir "biografia elaborada por moderna técnica", com utilização, inclusive, de entrevistas "com pessoas que conheceram de perto o homenageado".103 Foi impresso o selo postal com sua efígie, mas o busto defronte ao Instituto Adolpho Lutz seria inaugurado somente nos anos 1960, por ocasião das comemorações do Jubileu de Prata da instituição. Não chegaram a ser cunhadas as medalhas que seriam distribuídas a instituições científicas. As obras de Adolpho Lutz foram microfilmadas, depositando-se conjuntos impressos em papel fotográfico nos institutos Adolpho Lutz e Oswaldo Cruz. Resta apenas o do instituto paulista, encadernado em couro, em vários volumes, sendo que lá se encontram, também, rolos de microfilme que serviram de matrizes para as cópias em papel. O arquivo de Adolpho Lutz, organizado por Bertha, contém outro conjunto de fotocópias, desagregadas. Não foram publicados os trabalhos mais importantes ou inacessíveis do cientista, nem o álbum sobre fauna anura brasileira, iniciado por ele e continuado por Bertha.

Na verdade, os episódios culminantes do centenário foram as sessões solenes promovidas por diversas instituições e sociedades científicas do Rio de Janeiro, de São Paulo e Belo Horizonte. Foi em 15 de dezembro de 1955 a da Sociedade Brasileira de Biologia, na Biblioteca de Manguinhos, onde há anos ocorriam as sessões regulares da entidade, com a participação assídua de Adolfo Lutz. Carlos Alberto Seabra, Arêa Leão, Genésio Pacheco, Magarino Torres e Souza Araújo, que presidiu a sessão, abordaram sua atuação na entomologia, micologia, bacteriologia, anatomia patológica e dermatologia.104 No dia 17, foi a vez da Academia de Medicina de Minas Gerais realizar, em Belo Horizonte, sessão magna presidida por Octavio de Magalhães. Na Academia Brasileira de Ciências,105 em 20 de dezembro, Carlos Chagas, Lauro Travassos, Lobato Paraense e Olympio da Fonseca Filho discorreram sobre as contribuições de Lutz para o conhecimento do berne, da ancilostomíase e outras verminoses, e de micoses como a esporotricose e a hifoblastomicose.106 Costa Lima qualificou o homenageado de pai da entomologia médica brasileira.

Na missa celebrada na catedral da cidade de São Paulo, no dia 19, o padre e deputado Benedito Mário Calazans falou sobre as três estradas que conduziam o homem ao serviço de Deus e do próximo, e que Lutz havia percorrido: a estrada da virtude, a da sabedoria e a do heroísmo, e entre os gestos heróicos do cientista citou as experiências que fizera em si próprio para verificar a transmissão da febre amarela por mosquitos.. No mesmo dia, foi inaugurada a exposição no Palácio da Saúde, e realizou-se sessão solene no Instituto Adolfo Lutz, com a presença de representantes das faculdades de Medicina e de Saúde Pública de São Paulo, dos secretários de Saúde e de Educação e do próprio governador do estado. No dia 20, em sessão conjunta da Academia Paulista de Medicina e da Associação Médica de São Paulo, Almeida Prado e Humberto Pascal rememoraram as grandes campanhas de saúde pública lideradas por Lutz, suas monografias clássicas sobre medicina e parasitologia, as entidades mórbidas que descobriu e descreveu entre os trinta e cinqüenta anos de idade.

Fechando o ciclo de homenagens, o Museu Nacional promoveu sessão solene em 4 de janeiro de 1956, presidida pelo ministro da Saúde, durante a qual foi inaugurada a exposição comemorativa que ficou aberta ao público por várias semanas.107 José Cândido de Melo Carvalho, do Museu, abordou os aspectos biológicos, e Oswino Penna, do IOC, os aspectos médicos da obra de Adolpho Lutz.

 

As comemorações da década de 1960

Passada aquela rodada essencialmente retórica de homenagens a Adolpho Lutz, Bertha seguiu empenhada na 'missão' de publicar seus trabalhos científicos. Já havia pleiteado auxílio financeiro a outras instituições, além daquelas representadas na Comissão do Centenário, para custear o empreendimento. Recorreu até a Fred L. Soper, diretor da Oficina Sanitária Pan-Americana, que, em carta de 12 de janeiro de 1955, reconheceu a importância de se reunir a extensa obra de Lutz, declarando, porém, que a oficina não poderia cooperar, já que eram limitados os fundos para publicações.108

A celebração do Jubileu de Prata do Instituto Adolfo Lutz, de 25 a 27 de outubro de 1965, por iniciativa de uma Comissão Executiva de Homenagens ao patrono da instituição,109 representou mais uma oportunidade para viabilizar aquele projeto editorial. No começo de 1966, Bertha propôs a "reedição total ou parcial da obra de Lutz" ao governador de São Paulo, Adhemar Pereira de Barros.110 Ele doutorara-se em medicina na Universidade do Rio de Janeiro, em 1923, e em seguida cursara durante quatro anos a Universidade Popular de Berlim, na Alemanha. Trabalhara depois no IOC, até a eclosão da Revolução Constitucionalista de São Paulo, em julho de 1932, quando se engajou como médico nas fileiras revolucionárias. Recebera a patente de capitão e fora designado para servir na região de Lorena e Aparecida, em São Paulo, onde permaneceu até a derrota do movimento, no início de outubro. Bertha tentou conquistá-lo invocando as antigas relações profissionais com Adolpho Lutz em Manguinhos: "era um apelo pessoal de filha de Lutz ao seu discípulo, o sr. governador. ... o momento talvez seja inoportuno, mas nada na vida ocorre na oportunidade melhor, nem o nascimento nem a morte, nem as vicissitudes a que todos estamos expostos, nem os esforços e os eventuais triunfos" (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1. Carta de 11.4.1966).

O governador limitou-se a encaminhar o pedido de Bertha à Editora da Universidade de São Paulo, alegando que a obra tinha caráter científico e não literário, o que a deixou bastante decepcionada. Naquele mesmo ano, correspondeu-se com Carlos da Silva Lacaz, diretor do Instituto de Medicina Tropical existente na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Lacaz era membro do conselho da Editora da USP. Bertha então procurou explicar-lhe a dimensão do material que pretendia utilizar na publicação proposta:

Trata-se de trabalhos que foram feitos no decorrer de 61 anos de pesquisas, aproximando-se de um total de duzentos trabalhos, embora em geral não muito longos. Foram versados em várias línguas, além de português: uns em alemão, outros em inglês, francês ou castelhano. Abrangem vários ramos da medicina como sejam, a lepra, micologia, doenças tropicais, clínica etc. Também abrangem a parasitologia e a zoologia médica, por exemplo a helmintologia, vários ramos de entomologia médica e, ultimamente, a zoologia não aplicada (serpentes e anfíbios).

Bertha sugeriu que insistissem na verba especial com o governador, que

foi aluno de Lutz em Manguinhos, e sempre mostrou grande carinho pela sua memória, haja visto o nome do atual Instituto Adolfo Lutz e a inauguração do busto de Lutz, em outubro do ano passado, ocasião esta em que lhe fiz o primeiro pedido de auxílio para a reedição. Não sei se o Conselho de Amparo à Ciência poderá ajudar. É muito difícil conseguir a publicação ou republicação de trabalhos póstumos com verbas comuns destinadas a publicações periódicas, havendo sempre muitos autores vivos ansiosos pela publicação dos seus trabalhos novos (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1. Carta de 17.5.1966).

Lacaz respondeu sem demora, comprometendo-se a ajudar Bertha a concretizar "tão bela, nobre e patriótica idéia" (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1. Carta de 20.5.1966). Explicou que a Editora da USP não tinha recursos para empreitada daquele vulto. Sugeriu que a proposta fosse encaminhada ao Instituto Adolfo Lutz, que poderia destacar verba de seu orçamento para este fim. Em carta ao professor Mário Guimarães Ferri, presidente da Comissão Editorial da USP, Lacaz comentou que o Instituto poderia cooperar para o sucesso da reedição, apesar de "não possuir dotação suficiente para publicar toda a Opera ommia do consagrado pesquisador brasileiro". Julgava necessário detalhar a extensão e o custo da obra, sugerindo que a editora, de posse destes dados, negociasse auxílios também junto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ao Conselho Nacional de Pesquisas (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1. Carta de 11.6.1966).

Bertha recebeu uma injeção de ânimo com a carta em que Ferri demonstrava interesse pela proposta, pedindo, conforme sugestão de Lacaz, dados mais precisos sobre os trabalhos de Adolpho Lutz. Ela enviou-lhe a biobibliografia publicada na ocasião do centenário, e observou:

Quando for a S. Paulo, gostaria de mostrar a V. S. a coletânea completa de positivos feitos na base de bibliofilme, que se acham na Biblioteca do Instituto Adolfo Lutz, encadernados em forma de livros. Têm a vantagem de estarem todos em tamanho igual e de permitirem compulsar rapidamente a totalidade da obra por páginas, linhas e palavras. Os meus exemplares estão dispersos por assuntos.

Peço a V. S. a gentileza de opinar sobre se os trabalhos deveriam ser publicados em reprodução exata dos originais ou em versão, portuguesa ou inglesa. A maioria dos trabalhos clássicos de Lutz foi publicada na Alemanha antes de haver revistas especializadas entre nós. São estes precisamente os ... mais originais e significativos, e também os menos conhecidos no Brasil e nos países de língua inglesa. Uma tradução seria talvez de interesse maior.

Meu irmão acha que devemos publicar primeiramente os trabalhos mais importantes. Não sei o que acha V. S. (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1. Carta de 1.9.1966).

A sisuda e concisa resposta do presidente da Comissão Editorial da USP foi uma ducha de água fria:

neste ano nada mais há que se possa fazer no sentido de ultimar a publicação da obra de Adolpho Lutz, uma vez que se acham esgotados os recursos orçamentários destinados a esse fim. Porém, poderia V. Sa., desde já, procurar uma editora particular que se interesse pela publicação do mencionado trabalho, recebendo a colaboração habitual da Editora da Universidade de São Paulo. ... Quanto à tradução ou não dos trabalhos, creio que V. Sa. melhor poderá dizer que nós (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1. Carta de 12.10.1966).

A Edusp não fechava as portas ao projeto, mas delegava a Bertha Lutz o ônus de buscar parcerias com editoras privadas que dificilmente apoiariam empreendimento editorial daquele vulto e de tão pouco valor de mercado.

O arquivo por ela organizado não contém mais nenhum registro que indique se fez novas incursões nesse terreno. E quando Bertha Maria Júlia Lutz faleceu, no Rio de Janeiro, em 16 de setembro de 1976, o próprio arquivo sucumbiu àquela fatídica engrenagem que com tanta freqüência opera nas instituições culturais e científicas do Brasil, relegando ao esquecimento, e às poeiras e traças do descaso os trabalhos de toda uma vida e, por acumulação, as realizações de gerações inteiras de seus melhores cérebros.

Talvez esgotada pelos anos de incessante luta para tentar organizar a grande obra de seu pai, Bertha Lutz acaba por delegar à posteridade, em seu testamento, a missão de materializar seu projeto de preservação da memória de Adolpho Lutz. Em documento lavrado no cartório do 24º Ofício de Notas, em 21 de setembro de 1972, Bertha deixou verba específica "na Carteira Copeg" para custear os trabalhos preliminares de organização das notas e originais de Adolpho e Gualter Lutz. Segundo seu desejo, os trabalhos inéditos deveriam ser publicados completos ou suficientemente adiantados para esse fim, e os demais republicados. Além das obras, Bertha demandava que fosse publicada uma biografia de Adolpho Lutz, assim como uma história de sua família no Brasil com base nas notas, gravações e documentos outros existentes. A publicação da história do movimento feminino no Brasil e um atlas ilustrado a cores com os slides de seu irmão sobre os 'Anfíbios anuros do Brasil' também foram previstos em seu testamento.

Com o recente resgate da documentação de Adolpho Lutz e a publicação de sua obra e correspondência, o projeto Adolpho Lutz e a história da medicina tropical no Brasil pretende materializar, ao menos em parte, o desejo de Bertha Lutz, divulgando para a posteridade o legado daquele cientista.

 

NOTAS

1 A esse respeito, ver Abreu e Beloch (1984); Soihet (2000); Brazil e Schumaher (2000); Arquivo do Museu Nacional.

2 Apresentou também projetos relacionados ao combate à lepra e à malária no Rio de Janeiro. Informações sobre suas atividades como parlamentar constam no verbete 'Lutz, Bertha', no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (2001).

3 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Correspondência. Carta de 13 de dezembro de 1939.

4 Supomos que este tenha sido o endereço de Adolpho Lutz desde seu retorno a São Paulo em 1894. No arquivo de Lutz, o registro mais antigo fazendo referência a este endereço data de 12 de junho de 1899. Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 172, maço 2. Na edição comemorativa do centenário do Instituto Adolfo Lutz menciona-se outro endereço (rua São José, 53, São Paulo), no qual o cientista teria residido em meados de 1889, antes de viajar para o Havaí. Ver Corrêa (1992, p. 145).

5 Amy Marie Gertrude Fowler casou-se com Adolpho Lutz no Havaí em 11 de abril de 1891, com 27 anos. De nacionalidade inglesa, com treinamento em enfermagem, Amy tinha submetido ao Conselho de Saúde do arquipélago, em 1889, proposta para trabalhar no leprosário que estava organizando. Ao chegar a Honolulu, em 1890, foi encaminhada à Estação de Recepção de Kalihi para dar assistência ao médico recém-chegado, Adolpho Lutz. Após um ano de convivência, Lutz e Amy casaram-se em cerimônia reservada celebrada pelo pastor da Igreja da União Central de Honolulu. Deixaram o Havaí em julho de 1892, residiram na Califórnia (EUA) e só em fins de 1892 regressaram ao Brasil, fixando residência em São Paulo. Ver Corrêa (1992, pp. 143-56).

6 "To go and stay with you and do some work with you or something that could serve as a these; that would be delightful and I am sure I could always have some time for my other occupations, and if you did not want me, I might perhaps go to the Bot. Gardens." Escreveu ainda: "I don't think it would be worthwhile to try to make a these here. Subjects are rather poor and the work uninteresting and then it seems a pity to spend a lot of money and time if I am not sure I would like to go on afterwards. On the other hand perhaps I ought to try to see if I could do anything in the writing line while I am in Europe; in case I had to leave later on. And yet perhaps it would be better to go to Brazil now, as I might write better bye and bye having more experience. Then it would cheer you up perhaps and I should love to be with you, and we might come to Europe again later on. There I have put it as impersonally and impartially as I could. Would you like to think about it and I will do the same. By the end of October I would like to have come to a decision as I hope to get my license then..." BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Luz. Memória.

7 Em março de 1919, antes de ser anunciado o concurso, discutiu-se se a seleção seria abrangente ou restrita aos adidos do Ministério da Agricultura, a que era vinculado o Museu Nacional. Aprovadas as instruções elaboradas pela Congregação pelo então ministro da Agricultura, Padua Salles, o edital foi publicado no Diário Oficial, mas diversos jornais criticaram seu conteúdo (A Noite, 24.3.1919, por ex.), alegando que beneficiaria o secretário interino, parente do ex-presidente da República Wenceslau Brás (1914-18). A alternativa sugerida foi o aproveitamento dos adidos do ministério. Com a posse do novo ministro, Simões Lopes, o concurso foi provisoriamente suspenso. A banca examinadora reuniu-se para aplicar a prova escrita de português em 10 de julho. O resultado final do concurso foi, conforme documento de 14.9.1919 assinado pelo diretor do Museu Nacional, dr. Bruno Lobo: 1) Austriquiniano do Amaral Mourão dos Santos (16 10/14 pontos); 2) Bertha Maria Júlia Lutz (16 2/14 pontos); 3) Annibal Pinto de Souza (16 pontos); 4) Dr. José Eutropio (13 7/14 pontos); 5) Alfredo Reis Júnior (11 8/14 pontos); 6) Plínio Augusto Cavalcanti de Albuquerque (10 1/14 pontos); 7) João Felicio dos Santos (9 9/14 pontos); 8) Archiminio Martins de Mattos (8 8/14 pontos); 9) Dr. João Baptista Lusardo (6 5/14 pontos); 10) Dr. Licinio Ribeiro Dias (5 1/14 pontos) (BR. MN. Arquivo. Diretoria. Livro de inscrições de candidatos para os concursos do Museu Nacional).

8 BR. MN. Arquivo. Diretoria, pasta 82, documento 157 B, Tribuna de 20.8.1919.

9 BR. MN. Arquivo. Diretoria, pasta 82, documento 82.

10 "Father's eyes had given out to the point of not being able to read and all my spare time had to go to filling the gaps when his other readers were not with him. I am glad of this precious time we had together and want now to carry on the work." Carta ao dr. Thomas Barbour. Director. Museum of Comparative Zoology of Harvard College, Cambridge, Mass, em 6.1.1941. BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Luz. Memória.

11 O Fundo Adolpho Lutz, caixa 20, pasta 252, maço 11 contém os originais manuscritos (4p.) e versões datilografadas e corrigidas. Numa consta a observação manuscrita por Bertha: "Parece ser um primeiro rascunho; a publicação nas MEM.IOC é muito diferente. Podia ter sido em Pan American Journal conforme carta de Z. Berkovitz de 14 de março de 1938."

12 BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 254, maço 4, junto com correspondência entre Bertha Lutz e Paula Souza a respeito desta contribuição de Lutz.

13 BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, caixa 19, pasta 74, maço 4.

14 Necrológio de Guillermo B. Schouten (13.4.1941) publicado na Revista de la Sociedad Científica del Paraguay de 15.8.1941, pp. 132-3. Vinculado ao Consulado holandês naquele país, Schouten correspondera-se com Lutz a respeito, principalmente, de batráquios e lepra. Ver, também, discurso de Melo Leitão na Academia Brasileira de Ciências, em 10.12.1940, publicado em Medicina Social. Sanatórios e Hospitais — Assistência Social no Brasil, mar. 1941, pp. 3-8 (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 179, maço 1; pasta 255, maço 2; e pasta 198, maço 2).

15 A extinção do Bacteriológico, que juntamente com os institutos Soroterápico e Vacinogênico ficou alocado em Butantã, funcionando como um posto bacteriológico, deu-se em função do decreto 3.876, assinado pelo presidente do estado, Carlos de Campos, que reformou o Serviço Sanitário. O Instituto foi vivificado no governo de Júlio Prestes pelo decreto 4.891 de 13 de fevereiro de 1931.

16 Decreto 11.526, de 27.10.1940.

17 Carta a Mr. Alston, "Rio. Begun at Petropolis Dec. 15th Finished here, Jan. 3d. 1941. Father's going was a terrible blow to me. I was so stunned by it that even now there are blanks and pockets in my memory and conscious thought. The whole thing is still permeated with a feeling of unreality. For a long while, and sitill now, at intervals — I feel like a ghost among living human beings. Only nature and the interests we had in common kept me going. Often I wished that this dreary war were over and that we might be going on a long trek collecting in the wilder parts of Brazil." BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Luz. Memória.

18 "By the 15th of December I had managed to get away for my vacation, but unfortunately had to return and stay in Rio soon after. My cousin who used to read to father and was invariably kind to him suddenly developed a very serious and painful illness and died. She lay dying for several days and finally passed away leaving only an invalidish elder sister to look after her 90 years old mother, the only surviving sister of my father." Carta a "My dear Mary", Rio, 6.1.1941, escrita do Edifício Santa Branca, 81, av. Aparício Borges, 130A (1 f. dat. frente e verso). BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Luz. Memória.

19 Esta carta a "Dear Friends" (Rio, 6.1.1941, do Edifício Santa Branca, 81, 1p. dat.) parece ser endereçada à mulher do prof. Sharp, que lhe tinha enviado exemplar de seu livro sobre política internacional. "My mind is still rather blank as to what happened immediately after Oct. 6th. I am only now beginning to find my feet and to take the strands of my life. For the last three months I had been drifting around; first I stayed with my brother, then at the Federation headquarters upstair while I started dismantling our own flat; I went away for a day or two, but found that I had to return to sign papers etc. Also my cousin, who used to read to father got ill and died quite unexpectdely after great suffering... For a few days I looked for a place to live in but got discouraged by the very hot weather and the long contracts proposed, so I have taken over the headquarets of the Federation for the Advancement of Women during the summer hollidays. I am living in the room where you spoke, have put the files in the smaller room and have a bathroom plus a kitchen cum laboratory. At the Museum I am also being moved to a much better room I used to have on the cool side of the building. This seemed the best while I sort the great welter of papers left by the Federation and Doc (Father)." BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Luz. Memória.

20 Rio, 6.1.1941, 1p. dat. Mesmas indicações de local.

21 "Father left large collections of zoological and even botanical material behind and many books, valuable notes and old articles that might well be reprinted after all the years, since they are of interest to the medical history of Brazil and to Tropical Medicine also. ... Of the woman's movement ... They also have interesting files. With a view of organizing all this and to simplify matters ... I took over the small apartment in which were the headquarters of the Brazilian Federation for the Advancement of Women, and kept their files and moved ours upstairs. ... I expect that it will take some time for me to straighten all this mass of papers, collections etc. out. But when it is done, I would dearly like to go to America, work on the book, house the stuff and perhaps lecture not too far from Washington in working time ... Would you make any suggestions? Father himself, who seems to have things very clear, though I was singularly blind to them myself, more than once told me that later I should go to America to finish the work". BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Luz. Memória.

22 BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1. Carta de 28.4.1941. Em resposta a uma solicitação de Bertha, a Livraria Tupy, de São Paulo, informou as publicações de Lutz que possuía (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1. Carta de 16.9.1946).

23 Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 184, maço 1; pasta 209, maço 4; pasta 255, maço 1 e, principalmente, pasta 238, maço 1.

24 Rascunho de carta escrita, provavelmente, em julho de 1942, como se infere de outro rascunho, com conteúdo muito parecido, de carta endereçada a Rudolf Gliesch (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1). Fischer disse que enviaria um pouco mais de vinte cartas de Adolpho Lutz e advertiu que a censura poderia atrasar a chegada delas pois eram, em sua maioria, escritas em língua estrangeira. Os documentos foram enviados, como comprova carta de Bertha de 7.10.1942 (BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1).

25 Além de médico, era cirurgião dentista formado pela Faculdade Nacional de Odontologia. Ao terminar o curso médico e apresentar sua tese sobre a etiopatogenia da elefantíase vulvar, recebeu o prêmio Visconde de Sabóia e o prêmio Berchon des Essaerts, além de viagem ao exterior. Trabalhou como tradutor no Instituto Oswaldo Cruz de março de 1922 a início de 1927, vertendo para diversos idiomas os trabalhos dos pesquisadores da instituição. Escreveu vários artigos no campo da psiquiatria forense e concorreu em colaboração com o pai para o maior tratado de microbiologia existente na ocasião, o de Kolle, Kraus e Uhlenhuth, em 19 volumes. Gualter faleceu aos 66 anos, em 5 de junho de 1969. Ver Gualter Adolpho, Lutz (1939); Hygino de Carvalho Hercules, Extrato do discurso de posse do prof. Hygino de Carvalho Hercules na cadeira de medicina legal da Faculdade de Medicina da UFRJ em 9.12.1987. Coleção Charlotte Emerich.

26 Terceira mulher a obter um diploma de engenheira civil no Brasil, Carmem Portinho trilhou brilhante carreira como engenheira e urbanista. Nascida em 26 de janeiro de 1903 em Corumbá, Mato Grosso, mudou-se para o Rio de Janeiro ainda jovem. Formada em 1926 pela Escola Politécnica da Universidade do Brasil, teve atuação pioneira na engenharia e nas artes plásticas, além de ter atuado ativamente no movimento feminino nas décadas de 1920 e 1930. Carmem introduziu no Brasil o conceito de habitação popular e junto com seu segundo marido, Afonso Eduardo Reidy, responsável pelos projetos arquitetônicos, construiu o conjunto residencial Pedregulho em São Cristóvão, o Museu de Arte Moderna, e iniciou a construção do conjunto habitacional da Gávea. Foi diretora do MAM por mais de 15 anos e fundadora da Escola Superior de Desenho Industrial. Ver verbetes biográficos em Brazil e Schumaher (2000, pp. 135-7); e Cientistas do Brasil, Depoimentos, São Paulo, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), 1998, pp. 653-60.

27 Bilharziazis oder Schistosomum infektionen. Jena, Gustav Fischer und Berlin und Wien, Urban & Schwarzenberg, 1928, pp. 873-906. Originalmente cap. XXIII de W. Kolle (Frankfurt a. M.), R. Kraus (Wien), P. Uhlenhuth (Freiburg i. Br.), Handbuch der pathogenen Mikroorganismen. Begründet von W. Kolle und A. V. Wassermann. Iena, Gustav Fischer/Berlim e Viena, Urban & Schwarzenberg, dritte Auflage, 3a ed., vol. 6, no (Lfg.) 27, pp. 873-906.

28 BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 79, maço 1. Carta de 27.3.1944. Ver Portugal (1944).

29 Inaugurada em 7.9.1944, a avenida implicou a derrubada de cerca de mil prédios residenciais e comerciais, e a destruição de igrejas setecentistas (São Domingos, Igreja do Bom Jesus do Calvário, de Nossa Senhora da Conceição, de São Pedro dos Clérigos), do Paço Municipal (projetado em 1875), da Escola Benjamin Constant (marco educacional do Império) e da Praça Onze de Julho (reduto da boêmia e do carnaval cariocas). Ver Memória da destruição (2002, pp. 39-43). Nas áreas de educação e saúde, Dodsworth inaugurou 18 escolas e a Universidade do Distrito Federal, criou o Banco de Sangue, o Laboratório de Produtos Terapêuticos e o Instituto de Cardiologia, construiu o Hospital Rocha Faria e participou das obras do Serviço de Saneamento da Baixada Fluminense (Abreu e Beloch, 2001).

30 Formado pela Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, Oswino Alvares Penna foi nomeado pesquisador adjunto do Instituto Oswaldo Cruz em março de 1919. Em 1940, iniciou estudos sobre anatomia patológica, em cooperação com o Departamento de Saúde e Criminologia do Estado do Rio de Janeiro. No mesmo ano, foi autorizado pelo presidente da República a servir na Secretaria Geral de Saúde e Assistência da Prefeitura do Distrito Federal (http://www.ioc.fiocruz.br/pages/personalidades/OswinoAlvaresPenna.htm).

31 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Resumo encontrado entre outros documentos referentes à criação da mencionada instituição, provavelmente escrito pela própria naturalista.

32 BR. MN. Biblioteca. Relatório de Atividades do ano de 1922, p. 47.

33 BR. MN. Dir. Ofício no 74 de 3.3.1932.

34 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Luz.

35 Idem, p. 46.

36 Resumo das providências e do projeto para viabilizar o Museu Lutz, destinado provavelmente ao prefeito, em texto datilografado em papel do Museu Nacional, sem título e sem data, 3p. BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

37 'Museu Adolpho Lutz', texto datilografado, sem dada, 1 f. frente e verso. Temos também versão manuscrita a lápis desse documento. BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, caixa 39.

38 Ver Ribeiro (2000, p. 66), e Lopes (1977).

39 Documento datilografado, 3p. com dois subtítulos: 'Providências a serem dadas pelo sr. prefeito' e 'Providências a serem tomadas pelo dr. Oswino Pena', com correções e acréscimos a lápis, e a sigla A.B.V. no pé de cada página.

40 Joaquim Venâncio Fernandes havia trabalhado como auxiliar de Adolpho Lutz por mais de vinte anos. Nascido em 23 de maio de 1895 na Fazenda de Bela vista, Rio Novo, Minas Gerais, de propriedade da família de Carlos Chagas, Venâncio chegou ao Instituto Oswaldo Cruz em setembro de 1916. Algum tempo depois, passou a trabalhar no laboratório de Lutz, acompanhando-o em suas excursões científicas e mesmo nas viagens à Venezuela a aos Estados Unidos em 1925. Lutz tinha plena confiança no dedicado auxiliar. Após a morte do cientista, em 1940, Venâncio continuou a dar assistência a Bertha Lutz, auxiliando-a nos trabalhos laboratoriais e em excursões científicas. Faleceu em 27 de agosto de 1955. Ver necrológio em Lent (1955) e seção Depoimentos neste número da revista.

41 Resumo das providências e do projeto para viabilizar o Museu Lutz, destinado provavelmente ao prefeito, em texto datilografado em papel do Museu Nacional, sem título e sem data, 3p. O fato de referir-se a Getúlio Vargas como avenida que o prefeito ia construir indica que foi escrito em 1941, pouco tempo depois da elaboração do projeto Youtz. Em uma folha manuscrita constam os nomes dos "Funcionários à disposição da dra. Bertha Lutz": cartógrafo Aurelio D. Fonseca (com a observação a lápis "não serve"); arquiteto Guabiraba Monteiro ("serve"); oficial administrativo: dra. Elsa Arêas ("serve"); e dra. Noemia Espozel ("não serve"). Em outra folha manuscrita, Bertha anotou providências que tomaria: fotografar os diplomas de Adolpho Lutz, num só tamanho, para reuni-los num álbum; reproduzir as medalhas em cobre dourado por eletrólise; procurar planta da casa dos empregados do Parque da Cidade, estudar a possibilidade de encaixar o Museu Biológico no organograma da Difusão Cultural e dar à imprensa notas sobre sua criação. Em folha com timbre da Secretaria Geral de Saúde e Assistência, constam as dimensões dos salões que seriam ocupados no Parque da Cidade pelo "Museu Lutz prometido p. Dodsworth". Num prédio de seis andares, com torreão central, a área total por andar perfazia 2.330m2, no valor de 1.165:000$000 (por andar), considerando-se o preço por m2 de 500 réis (em outro documento, consta que o governo municipal tomava como preço mínimo ou médio 400 a 500 mil-réis o m2). BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

42 Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu em diversas agências governamentais envolvidas no esforço bélico, sem desfazer o escritório de arquitetura em Nova York. De 1957 até sua aposentadoria, em 1965, foi decano do College of Architecture and Design da Universidade de Michigan (EUA).

43 O novo foco traduzira-se em exposições como 'Materiais contemporâneos e técnicas das belas-artes', 'Indústrias americanas do vidro', 'Rayon e fibras sintéticas na indústria têxtil' (1936), 'Arte e técnicas de cerâmica' (1937) etc.

44 Carta de Philip N. Youtz, de Salvador, Bahia, do Palace Hotel, de 4.2.1941. BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

45 Carta escrita por Frances Youtz de Salvador, do Palace Hotel, em 4.2.1941. Era o último dia do casal na capital baiana, que adoraram. Foram ciceroneados por amigos de Bertha, Miss Aguiar e madame Cunha. Seguiriam para Recife, depois Belém do Pará, onde tinham feito reservas no Grande Hotel, de 10 a 16 de fevereiro. Outro documento indica que foram a Manaus também.

46 "Questions submitted in regard to the suggestion that the Memorial be a Museum of Life" em folha datilografada, com emendas a lápis, e em folha manuscrita a lápis: "Questions as to the Building". Em outra pasta, há rascunho a lápis dessas questões, especificando-se aí que eram "submitted by Bertha Lutz to Mr. Philip N. Youtz in regard to his suggestion of a Museum of Life". Neste documento, sugeria como nome alternativo Museum of Life and Disease; o 'disease' foi riscado, e sobre ele Bertha escreveu: Health "(as a Museum of Tropical Medicine...)".

47 Carta de Philip N. Youtz, de Salvador, Bahia, do Palace Hotel, de 4.2.1941.

48 'Museum of Life — Proposed Memorial to Adolpho Lutz', 25.1.1941. Texto datilografado em papel com timbre de "Philip N. Youtz, A. I. A. Architect — New York", 2p. Há diversas cópias datilografadas de tradução feita por Bertha, substituindo o título original por Museu da Natureza In Memorian Adolpho Lutz. Como não se vêem emendas ou correções, trata-se provavelmente de tradução do documento elaborado por Youtz a partir de conversas com Bertha. BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

49 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Carta Philip N. Youtz, de Recife (Grand Hotel), em 8.2.1941, para Bertha Lutz, endereçada ao Edifício Santa Branca, av. Aparício Borges, 130A, ap. 81, RJ.

50 Previa seis divisões: seres microscópicos, insetos, vermes, peixes, répteis e vertebrados de ordem superior — portanto, sem as divisões de pássaros e plantas, mas já com a sugestão de que moluscos e crustáceos fossem acrescentados à dos peixes, e que os anfíbios se juntassem aos répteis ("Questions submitted in regard to the suggestion that the Memorial be a Museum of Life"). Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

51 Com relação à ocupação, Bertha perguntava, entre outras coisas, se as exposições seriam permanentes ou temporárias e se ficariam encostadas às paredes. Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

52 Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Carta Philip N. Youtz, de Recife (Grand Hotel), em 8.2.1941, para Bertha Lutz.

53 Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Carta de Philip N. Youtz, de Salvador, Bahia, Palace Hotel, de 4.2.1941.

54 Em pós-escrito, Bertha registrou: "P.S. Acabei de ir ver os desenhos da elevação que estão sendo feitos. Parecem maravilhosos e muito encorajadores. Vamos sugerir colocá-lo numa grande avenida nova" (cópia de carta a Philip N. Youtz e sua mulher, Frances, do Rio de Janeiro, em 12.2.1941, 5p. dat.). Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

55 Em carta para Bertha, Phillip Youtz sugeria que os tetos abaixo das vigas fossem projetados como os sofitos das janelas. Isto significava que a parte de baixo do topo das aberturas das janelas ficasse no mesmo plano que o teto pendente. "A distância entre pisos é de sete metros, ou 21 pés. Se a profundidade da laje do piso, vigas e teto pendente for de quatro pés, tem-se uma altura de 17 pés. As janelas que devem começar no teto podem projetar-se para baixo sete pés, deixando dez pés para espaço de mostra." BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Carta de Philip N. Youtz para Bertha Lutz, de Recife, em 8.2.1941).

56 Resumo das providências e do projeto para viabilizar o Museu Lutz, destinado provavelmente ao prefeito, em texto datilografado em papel do Museu Nacional, sem título e sem data, 3p. BR. MN. Arquivo. Fundo de Bertha Lutz.

57 Esboço redigido para o evento. Os tópicos listados voltariam a figurar nos eventos comemorativos do centenário de nascimento de Lutz, em 1955. Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 181, maço 1. Cartas de 7 e 8.7.1950.

58 Em março de 1952, o governo brasileiro indicou Bertha como delegada à Comissão do Estatuto da Mulher na ONU. Simultaneamente, recebeu uma bolsa de pesquisa do Conselho Britânico para realizar estudos sobre batráquios no British Museum e em outras instituições. A naturalista foi autorizada a permanecer noventa dias no exterior, tendo visitado, ao que parece, outros museus europeus BR. MN. Arquivo. Diretoria. Ofícios Expedidos. Of. 212. Em carta a Bertha, de 14.6.1952, Heloísa declarou que aguardava seu retorno para assentarem, de vez, as comemorações do centenário de Lutz. BR. MN. Arquivo. Diretoria. Carta 47.

59 As considerações sobre Torres baseiam-se em ótimo texto escrito por Maria Barroso Hoffmann para 'inventário analítico da Coleção Heloísa Alberto Torres elaborado por Flávio Leal da Silva e Maria Angélica Pinto de Paiva' (Museu Nacional, mimeo.). A coleção acha-se no Departamento de Antropologia do Museu Nacional. Encontram-se outros conjuntos documentais na Casa de Cultura Heloísa Alberto Torres, em Itaboraí (RJ), nos arquivos da administração central da UFRJ e no próprio Arquivo Histórico do Museu Nacional. Sobre Heloísa Alberto Torres ver, também, Correa (1997) e Faria (1978).

60 Heloísa concorreu à vaga de Arthur Ramos na cátedra de antropologia e etnografia, mas não chegou a apresentar o trabalho sobre 'Alguns aspectos da indumentária crioula baiana' porque não conseguiu reunir a documentação exigida pelo estatuto da universidade, vencendo a assistente e candidata de Ramos, Marina São Paulo de Vasconcellos (Hoffmann, op. cit.).

61 Fez parte do Conselho Nacional de Proteção ao Índio (CNPI) desde sua fundação, em 1939, e foi sua diretora de 1955 a 1967, em substituição ao marechal Rondon. Participou da criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em 1937, e de órgão patrocinado pela Unesco, o Instituto Internacional da Hiléia Amazônica (IIHA). A esse respeito, ver Maio e Sá (2000').

62 BR. MN. Arquivo. Diretoria, caixa 69.

63 Após a Segunda Guerra Mundial, Álvaro Alberto da Motta e Silva foi nomeado representante brasileiro na Comissão de Energia Atômica do Conselho de Segurança da recém-criada Organização da Nações Unidas (ONU). Em maio de 1946, propôs ao governo, a criação de um conselho nacional de pesquisa, com a finalidade de amparar e coordenar a pesquisa científica no país. Dois anos depois, o projeto foi apresentado à Câmara dos Deputados. Em 1949, o presidente Eurico Gaspar Dutra nomeou uma comissão para apresentar anteprojeto de lei a esse respeito. Ele foi debatido em diversas comissões e, finalmente, em 15 de janeiro de 1951, dias antes da posse de Getúlio Vargas, foi criado o Conselho Nacional de Pesquisas pela lei 1.310, que Álvaro Alberto qualificou de "Lei Áurea da pesquisa no Brasil" (http://www.cnpq.br/sobrecnpq/historia/).

64 Nomeado por decreto de 25.1.1954 para o cargo de diretor do IOC (Diário Oficial de 27.1.1954), tomou posse e entrou em exercício na mesma data. Foi exonerado por decreto de 15.2.1955 (Diário Oficial da mesma data).

65 Artur Moses (1886-1967) fora assistente no Instituto Oswaldo Cruz entre 1908 e 1917. Nesse ano, tornara-se biologista do Ministério da Agricultura, e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, cuja presidência exerceu por vários mandatos (http://www.ioc.fiocruz.br/pages/personalidades/ArthurMoses.htm).

66 Minuta de carta a E. G. Vogelsang, decano da Facultad de Medicina Veterinaria em Maracy (Aragua, Venezuela). BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. 18.8.1954. Em abril de 1953, Heloísa enviou os ofícios designando os vice-presidentes. Em maio, convidou Seabra e Pestana. BR. MN. Arquivo. Diretoria. Ofícios Expedidos.

67 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Daquela comissão participaram um representante da congregação da Faculdade Nacional de Medicina, o secretário da Saúde Pública e da Assistência Social do Estado de São Paulo, os presidentes da Academia e da Associação Paulista de Medicina.

68 BR. MN. Arquivo. Diretoria. Carta no 285.

69 No próprio título, constava a observação: "Algumas lacunas existem, muito poucas porém de vulto; não foram preenchidas por falta de elementos."

70 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Ofícios 341 e 377, de julho de 1953 e carta de 27.2.1954.

71 Em carta à diretora do Museu Nacional, de 23.12.1954, listava as etapas do trabalho e as obras que não tinham sido obtidas para exame. Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

72 Carta de Heloísa Alberto Torres a Bertha Lutz aos cuidados de H. W. Parker, do British Museum (Natural History), em 14.6.1952. BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

73 'Hylideos novos do Brasil' (1937 [1939], vol. 11, no 1, pp. 67-89); 'On Hyla aurantiaca Daudinand Sphoenochynchus Tschudi and on two allid Hylae from South-Eastern Brazil' (1938, t. 10, no 2, June 1938, pp. 175-94); 'I — Notes on the genus Phyllomedusa Wagler ... II — Mosquitos biting batrachians and phragmosis in casque-headed frogs' (vol. 11, no 3, pp. 219-63).

74 BR. MN. Arquivo. Diretoria. Carta no 2, de 2.1.1941.

75 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Carta de 2.4.1963 enviada por Bertha Lutz ao diretor do Conselho Nacional de Pesquisa.

76 BR. MN. Arquivo. Diretoria. Carta no 836, de 30.9.1943.

77 Tomou posse em 4.2.1938, e logo Heloísa Alberto Torres nomeou-a representante do Museu Nacional na Primeira Reunião Sul-Americana de Botânica, no Jardim Botânico. Em carta de 6.1.1941, escreveu: "No Museu também estou sendo transferida para uma sala muito melhor do que a que tinha, no lado mais fresco do prédio" (carta à mulher do prof. Sharp, 1p. dat.). Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz.

78 Heloísa Alberto Torres teve assento neste Conselho de 1934 a 1939. A presença dela e, em seguida, de Bertha neste fórum lhes permitiu negociar peças para o Museu Nacional, o que redundou em incremento significativo de suas coleções antropológicas e biológicas. Em 1951, Bertha deu sugestões para a reforma do código de caça e pesca, "muito prolixo e eivado de matéria estranha ao assunto", e parecer contrário a "uma tentativa ousada de obter fundos e apoio moral e material do governo para uma pretensa busca da Atlântida por cinegrafistas e curiosos italianos". Bertha supervisionou a expedição do casal Kaethe e Oswald Schmidt. Em companhia deles, fez as primeiras gravações de vozes de anfíbios anuros na América do Sul com um aparelho do exército suíço cedido aos Schmidt. No relatório de 1951 (p. 3), Bertha mencionou a correspondência com os professores Allan e Kellog da Universidade de Cornell (EUA), que tinham realizado "as gravações mais perfeitas até agora conhecidas de vozes de aves (são ornitólogos) e de anfíbios". A naturalista pedia o apoio do Museu Nacional ao projeto daqueles especialistas, que estavam dispostos a vir ao Brasil para fazer gravações. Entre as necessidades apontadas, figurava "um aparelho de gravação de vozes anuras".

79 Já tinha publicado até o no 6. 'Relatório de 1951 da naturalista Bertha M. J. Lutz', 6p. Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

80 Bertha costumava fazer excursões ao maciço de Itatiaia, na serra da Mantiqueira, e à serra da Bocaina, onde o irmão de Lutz tinha uma propriedade.

81 Em documento posterior, refere-se a Joaquim Venâncio, então "nos últimos dias", como "nosso bondoso, sábio e fidalgo auxiliar ..., cuja capacidade de observação, especialmente em relação a batráquios, era realmente incomparável". Bertha Lutz, 'A botânica no Instituto Oswaldo Cruz', p. 1. Texto datilografado de 5p., publicado, ao que parece, num volume comemorativo de Henrique de Beaurepaire Aragão, cientista e ex-diretor de Manguinhos.

82 Em relatório a Francisco Laranja, diretor de Manguinhos, em 10.1.1955, Bertha diz que o Arquivo de Adolpho Lutz requeria mais alguns meses de trabalho, "mormente quanto à correspondência". Em apontamentos não datados, do período, lê-se que tencionava pedir a Costa Lima e ao diretor do IOC para definir que instituição incorporaria o arquivo do pai, e quem a ajudaria a fazer a triagem de sua biblioteca. BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

83 Ver nota 79, p. 4.

84 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Carta de Bertha a Heloísa Alberto Torres em 1.2.1953.

85 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Carta a Heloísa Alberto Torres, em 20.11.1954.

86 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Relatório a Francisco Laranja, diretor do IOC, jan. 1955.

87 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Bertha Lutz, 'A botânica no Instituto Oswaldo Cruz'.

88 Documento sem data, citado anteriormente, pp. 3-4. Diz ainda: "Espero, em breve, o dia em que esta, como outras coleções científicas deixadas por Lutz, em Manguinhos, possam ser catalogadas definitivamente e publicadas."

89 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Carta de Bertha a Heloísa Alberto Torres, em 1.2.1953. Dizia ainda: "Tenho pago os auxiliares do meu bolso e mais tarde poderemos encaixar o que gastei na verba de excursões. ... Acho que os coletores auxiliares devem ser pagos por aqui ou pelo museu e não pelo centenário, concordando portanto com o dr. Moses."

90 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Relatório a Francisco Laranja.

91 Manuscrito intitulado 'Coleção Adolpho Lutz' (2p.), com anotação a lápis: "recebido em 18.9.1959". BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória.

92 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Cópia do ofício 301 do diretor do Instituto Oswaldo Cruz, Joaquim Travassos da Rosa.

93 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha Lutz. Memória. Cartas de Bertha Lutz a Heloísa Alberto Torres, em 20.11.1954; de Bertha Lutz a Francisco Laranja, em 9.12.1954.

94 Bertha menciona isso em rascunho de carta de 7.5.1957, mas alusiva a acontecimentos de 1955. O objetivo da carta rascunhada era pedir autorização para que fossem publicadas traduções de trabalhos já editados numa revista científica alemã. Ver BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1.

95 BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1. Rascunho de carta dirigida a Heloísa Alberto Torres, provavelmente no começo de 1954.

96 BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 235, maço 3. O nome fer-de-lance, mencionado no texto, refere-se a uma cobra extremamente venenosa da família dos viperídeos encontrada em toda a América tropical. Na Espanha a fer-de-lance é conhecida como barba amarilla. Ver www.britannica.com.

97 Carta de Bertha Lutz a Luiza da Fonseca em 29.11.1955. O diretor do Instituto Bacteriológico, dr. Buller Souto, e Bruno Rangel Pestana, que deram apoio à iniciativa em cartas de 28.10 e 16.11.1955. Fonseca pediu a Bertha diário, caneta, bloco de notas, crachá e outros objetos de seu pai para a exposição. BR. MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1.

98 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha. Memória.

99 BR. MN. Arquivo. Fundo Bertha. Memória.

100 Nas cartas, Bertha externava sua indignação com o trabalho de Soper e colaboradores. No artigo publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, em português e alemão, Lutz refere-se a outra epidemia semelhante em Índios do Rio Verde, de que tivera ciência, mas não observara. "Costumava se referir a uma mortífera epidemia de febre amarela que, em meados do século XIX grassara numa colônia suíça domiciliada no Espírito Santo, onde mais tarde, após a publicação do trabalho de Lutz, foi descrita a febre amarela silvestre por Soper e outras higienistas. O chefe da Igreja Luterana brasileira confirma a existência em uma colônia muito antiga de um velho quadro representando o padre da aldeia morto, de febre amarela, no caixão e rodeado pelos seus paroquianos" (Albuquerque, 1950, p. 26).

101 MN. Arquivo. Fundo Bertha. Memória. Documento sem data.

102 Ver, entre outros jornais, A Folha da Manhã (18.12.1955), O Globo (19.12.1955) e Jornal do Commercio (18-25.12.1955, e 5.2.1956).

103 Brasil. CNPq. Comissão do Centenário de Adolpho Lutz. 'Adolpho Lutz (1855-1955): vida e obra do grande cientista brasileiro' (1956). Contém introdução; dados biográficos; apresentação da obra; lista bibliográfica de Lutz; resumo biográfico (em inglês); artigos sobre Lutz (com apontamentos biográficos); lista de publicações a respeito do centenário; cobertura dos fatos noticiados pelos principais jornais em 1955-56.

104 Seria publicado folheto com os comentários dos oradores para completar as breves alocuções proferidas então, mas isso não aconteceu.

105 A sessão na Academia Brasileira de Ciências foi presidida por Arthur Moses; e a da Academia Nacional de Medicina, presidida por Deolindo do Couto, foi proposta pelo diretor do IOC, que era agora Antonio Augusto Xavier (17.2.1955 a 14.11.1958).

106 MN. Arquivo. Fundo Bertha. Memória. Documento de 21.12.1955.

107 A exposição compreendeu painel com fotografia, dados biográficos, títulos honoríficos e outras honrarias do pesquisador. Mostruários exibiram elementos concernentes a seus estudos de entomologia, helmintologia, ofídios, batráquios, fauna das águas torrenciais e encachoeiradas, escorpiões etc. Foram expostos instrumentos de trabalho e as obras de Lutz sobre lepra, disenteria, nodosidades juxta-articulares, uma doença nova descoberta em crianças em 1885 e duas doenças causadas por cogumelos patogênicos. Em todos os eventos, Bertha e seu irmão Gualter estiveram presentes, abordando em seus pronunciamentos aspectos pessoais e profissionais do pai.

108 Em outra carta, de junho, Soper referiu-se a encaminhamento dado a missiva anterior de Bertha, e disse que seria contatada pelo secretário geral da oficina para tratar da celebração do centenário. Ver MN. Arquivo. Fundo Adolpho Lutz, pasta 238, maço 1.

109 Entre os eventos planejados figuravam a inauguração de uma herma, a outorga de uma medalha de mérito Adolfo Lutz, e de um prêmio com seu nome também para o melhor trabalho realizado no campo das ciências biológicas, bioquímica e saúde pública.

110 Ver verbete 'Barros, Adhemar de', em Abreu e Beloch (1984).

 

Referências bibliográficas

Abreu, Alzira Alves de e Beloch, Israel (orgs.) 2001 Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, Cpdoc/Fundação Getúlio Vargas, 2a ed.         [ Links ]

Albuquerque, Maria Sabina de 1950 'Dr. Adolpho Lutz'. Revista do Instituto Adolfo Lutz, vol. 10, número único, pp. 9-30.         [ Links ]

Antunes, José Leopoldo Ferreira et al. (orgs.). 1992 Instituto Adolfo Lutz —100 anos do Laboratório de Saúde Pública. São Paulo, Secretaria de Estado de Saúde, Instituto Adolfo Lutz, Ed. Letras & Letras.         [ Links ]

Brazil, Érico Vital e Schumaher, Schuma (orgs.). 2000 Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.         [ Links ]

1998 Cientistas do Brasil, Depoimentos. São Paulo, SBPC.        [ Links ]

Conselho Nacional de Pesquisas. Comissão do Centenário de Adolpho Lutz 1956 Adolpho Lutz (1855-1955): vida e obra do grande cientista brasileiro. Rio de Janeiro, Jornal do Commercio, Rodrigues & Cia., 55p.         [ Links ]

Correa, M. 1997 'Dona Heloísa e a pesquisa de campo'. Revista de Antropologia, São Paulo, 40 (1):11-54.        [ Links ]

Corrêa, Marcelo Oswaldo Álvares 1992 'A saga de Adolpho Lutz no arquipélago do Havaí'. Em José Leopoldo Antunes; Cláudia Barleta do Nascimento; Lúcia Castilho Nassi e Pregnolatto, Neus Pascuet. Instituto Adolfo Lutz — 100 anos de laboratório de saúde pública. São Paulo, Secretaria de Estado de Saúde/Instituto Adolfo Lutz/ Editora Letras & Letras, pp. 143-56.        [ Links ]

Faria, L. C. 1978 'Heloísa Alberto Torres (1895-1977)'. Em Anuário Antropológico/1977. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro.        [ Links ]

Lemos, Fernando Cerqueira 1954 'Contribuição à história do Instituto Bacteriológico — 1892-1940'. Revista do Instituto Adolfo Lutz, vol. 14, número especial, pp. 5-161.         [ Links ]

Lent, Herman 1955 'Notícias e comentários. Joaquim Venâncio (1895-1955)'. Revista Brasileira de Biologia, 15 (4): 427-8.        [ Links ]

Lopes, Maria Margaret 1977 O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as ciências naturais no século XIX. São Paulo, Hucitec.        [ Links ]

Lutz, Adolpho out. 1930 'Reminiscencias sobre a febre amarella no estado de São Paulo'. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, t. XXIV, fas. 3, pp. 127-42. Trabalho originalmente publicado nos anais da 4a Conferência Sul-Americana de Hygiene, Pathologia e Microbiologia, vol. 1, 2a parte, pp. 803-18.        [ Links ]

Lutz, Bertha 'Anfíbios anuros da coleção Adolpho Lutz do Instituto Oswaldo Cruz' 1949 Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, t. 46, fas. I, 1948, pp. 295-313. Rio de Janeiro, Dep. de Imprensa Nacional.        [ Links ]

Lutz, Gualter Adolpho 1939 Relação sistematizada de documentos para a inscrição no concurso para professor catedrático de higiene e odontologia legal da Faculdade Nacional de Odontologia da Universidade do Brasil. Rio de Janeiro, Gráfica C. Mendes Junior.        [ Links ]

Maio, M. C. e Sá, M. R. set 2000 'Ciência na periferia: a Unesco, a proposta de criação do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica e as origens do Inpa', História, Ciências, Saúde — Manguinhos, Rio de Janeiro, vol. VI (suplemento).        [ Links ]

2002 Memória da destruição: Rio — uma história que se perdeu (1889-1965). Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria das Culturas, Arquivo da Cidade, pp. 39-43.        [ Links ]

Pabst, Guido F. J. jul. 1955 'Orchidaceae Lutzianae'. Revista Brasileira de Biologia, Rio de Janeiro, 15(2): 191-8.        [ Links ]

Portugal, Hildebrando dez. 1944 'Contribuição à historia da medicina brasileira segundo os trabalhos antigos do professor Adolpho Lutz: a história definitiva das nodosidades de Lutz-Jeanselme'. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 41 (3):525-8.        [ Links ]

Ribeiro, A. M. M. 2000 'Heloísa Alberto Torres e Marina São Paulo de Vasconcelos: entrelaçamento de círculos e formação das ciências sociais no Rio de Janeiro'. Tese de doutoramento, Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro.        [ Links ]

Soihet, Rachel 2000 'A pedagogia da conquista do espaço público pelas mulheres e a militância feminista de Bertha Lutz'. Revista Brasileira de Educação ANPED, nº 15, número especial, Rio de Janeiro, Ed. Autores Associados.        [ Links ]

Vários autores 1955 Revista do Instituto Adolfo Lutz, São Paulo, vol. 15, pp. 57-62, número especial.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em agosto de 2002
Aprovado para publicação em novembro 2002