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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos v.10 n.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702003000100017 

DEPOIMENTOS & IMAGENS

 

Bertha Lutz na visão de um técnico aprendiz

 

 

Depoimento de Esmeraldino de Souza

Nasci no dia 16 de outubro de 1922, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Ingressei no Museu Nacional em 1943 e só sai 39 anos depois. Eu morava perto da Quinta, cursava o ginásio no Colégio Sileno, na rua São Januário, e vinha passear aqui. Entrava no Museu e pensava: "Gostaria de trabalhar aqui, mas deve ser tão difícil... Deve ter muita coisa para fazer aí dentro, nesse silêncio. Deve ser bom." Ia sozinho, ficava olhando as exposições. Então, um belo dia perguntaram se eu queria trabalhar no Museu. "Quero!", eu disse. Tinha perdido meu pai. Morava aí em cima, numa casa de cômodos tão grande que tinha dois andares. Era um banheiro para cem pessoas. Mas era o que a minha mãe podia me oferecer naquela época. Vim trabalhar no Museu com 19 anos. Já não era mais criança, tinha trabalhado em outros lugares.

Estava fazendo o ginásio ainda porque entrei tarde para o colégio. Com o dinheirinho que eu ganhava, e que dava à minha mãe e às minhas irmãs, conseguimos alugar uma casinha para nós. Uma vez recebi um dinheiro atrasado. O serviço público às vezes atrasava três meses. Fui receber o dinheiro lá no Ministério da Fazenda, às dez horas da noite. Todo mundo saía com o dinheiro na mão, nos bolsos, qualquer lugar. Aquilo era o Brasil. As pessoas não escondiam dinheiro. Então, dez e tanto da noite, recebi e ainda fui passear com os colegas, com aquele dinheirão no bolso, fazer lanche e tal. Cheguei em casa às duas ou três horas da manhã. No dia seguinte, quando acordei, tomei banho, lavei o rosto e apanhei o dinheiro (tinha posto em cima de um armariozinho): "Ô véia, recebi um dinheiro ontem e eu quero dar à senhora." "Mas, meu filho, você recebeu!" "Recebi esses atrasados todos, setecentos e tantos cruzeiros." Apanhei quinhentos cruzeiros e dei a minha mãe. "Meu filho, para que tanto dinheiro, não faça isso." Eu olhei que os olhos da minha mãe estavam cheios de água, e fiquei também... Disse: "Isso não é nada. Vou ficar com duzentos cruzeiros, jogo futebol e ainda vou ganhar dinheiro. Vamos tomar café, deixa para lá." Disfarçamos, tomei café e vim para o trabalho. E assim fiquei no Museu esse tempão todo, não tive uma falta. Teve época que saía à meia-noite, nesse negócio de exposição.

Logo no primeiro dia, fui designado para trabalhar na antropologia. A diretora do Museu era Heloísa Alberto Torres. Estive lá fazendo um aprendizado com um excelente profissional, o sr. Ernani, um funcionário de uma habilidade espetacular, que recuperava as peças de exposição com muita precisão. Às vezes, numa exposição, uma criança qualquer mexia, a peça caía, quebrava, aí o vigilante da exposição apanhava a peça imediatamente e levava para o setor do sr. Ernani. Ele recuperava essas peças todas, e eu fui aprendendo com ele a fazer aquilo. Era interessante, porque ele tinha métodos próprios.

Corri depois vários departamentos: geologia, especificamente paleontologia, onde organizei, fiz livro de registro de mineralogia, de paleontologia, fiz as fichas. Dali fui para a botânica, ajudei o dr. Luiz Emydgio na secagem de plantas; depois ainda fui trabalhar com o falecido dr. Alípio de Miranda Ribeiro, pai do Paulo de Miranda Ribeiro. Trabalhei algum tempo com peixes. Isso foi em 1950 e tantos. Foi uma passagem rápida, até eu ir para a diretoria. Fui trabalhar na secretaria, com d. Heloísa, fazendo aqueles serviços burocráticos. Lá tinha muito material da Unesco, e ela me pediu que organizasse uma pequena biblioteca, colocasse aquilo em ordem, e eu fui fazendo. Fiquei na diretoria muito tempo, até a chegada de uma senhora que veio ser secretaria da d. Heloísa. Era esposa do dr. Curvelo, trabalhava lá na geologia. Dona Heloísa, conversando com a dra. Bertha Lutz, que precisava de um auxiliar — um assistente, como ela chamava —, sugeriu meu nome. Então fui trabalhar com a dra. Bertha Lutz, em Manguinhos, isso em 1952. A dra. Bertha era naturalista do Museu Nacional, mas como as atividades do pai eram todas em Manguinhos, o material dele se achava numa sala lá. Ela trabalhava na coleção de Adolpho Lutz, que estava em péssimo estado.

A coleção estava num porão do prédio principal de Manguinhos. Aquele prédio foi feito à base de óleo de baleia, como o Museu, então é salitre. Com o decorrer do tempo, esse óleo de baleia, devido à grande quantidade de arenito, vai virando areia. Aquela areia foi caindo em cima da coleção e quase a cobriu toda. Então, eu e dois serventes do Instituto iniciamos o trabalho de recuperação das coleções biológicas. A retirada do porão, a lavagem do material. Quando estava todo lavado, subia e lá na sala era logo colocado o rótulo, manualmente, a lápis, com muito cuidado, com lente. Fomos recuperando aquilo tudo, até se tornar a coleção.1

Ficou pronto o material, todo recuperado, rotulado, fichado e registrado. Nisso passaram-se vários anos. Eu fiquei em Manguinhos até que, por volta de 1958, houve uma política meio contrária, mudou o diretor... O diretor antes era o dr. Laranja, um mineiro que morava no Instituto com seis ou oito filhos. A senhora dele era muito bacana, ele também era um sujeito muito bacana, o dr. Laranja. Entrou esse novo diretor, cujo nome esqueci, então não quis mais as coleções, disse que não interessavam a Manguinhos. A doutora brigou com ele: retorna, não retorna para o Museu ... passou um ano e tanto naquela rivalidade. Em 1964, a política mudou quase que totalmente, e então o diretor, juntamente com a doutora, chamaram-me para que eu executasse o inventário das coleções. Aprontei o inventário, tudo direitinho, deve estar na diretoria. O diretor do Museu naquela época era o falecido dr. José Cândido. Então, foi entregue a ele. Foi quase que por ordem do falecido dr. José Cândido que permaneci em Manguinhos. A nossa vinda aqui para o Museu teve dois motivos: um foi a mudança de política; a outra foi que o falecido dr. José Cândido estava muito interessado em inaugurar todas as exposições. Ele necessitava de todos os funcionários aqui, então me convocou. A doutora retornou ao Museu, eu idem, e as coleções vieram junto.

Isso foi em meados de 1964. As coleções vieram todas porque em Manguinhos não tinha burocracia, era tudo muito rápido. Falava hoje, hoje mesmo resolvia. Eles tinham tudo à disposição, dezenas de caminhões, jipes e tal. As coleções foram colocadas nesta sala, onde permanecem até agora, juntamente com o seu Antenor. Ele trabalhava com répteis, e deixou a doutora com a parte de anuros. Eu várias vezes dei assistência a esse setor de herpetologia, que não estava ali, estava onde hoje é a parte de paleontologia e aquela entrada da geologia, no prédio central do Museu. Depois, com a inauguração do anexo, as coleções passaram para lá.

Na época, já era uma coleção muita rica, porque contou com a colaboração do próprio falecido seu Antenor, e do Alípio de Miranda Ribeiro. Os dois eram bem entendidos no assunto, e a coleção também não era tão pequena assim. Foi enriquecida com a vinda de material de Manguinhos.

A coleção do Museu já existia em 1950, já era grande, só não tinha aquela organização de fichário, de rótulo bem-feito, etiquetas, livro de registro e tal. Então, com a vinda das coleções, ficou na normalidade o serviço: a doutora no setor de anuros, que era o que ela mais gostava. Não se interessava por ofídio nem lacertílio, nem jacaré, nem tartaruga, falando assim vulgarmente. Mas essa parte o Antenor adorava, então, o negócio foi bem dividido. Os dois sempre entravam em acordo, porque uma coisa sempre depende da outra. Não se admite a pessoa entender de certo material, assim, de aves, cobras, anuros, sem entender um pouco de botânica. Então foi assim. O negócio continuando, na normalidade, o material entrando muito. Vinha até em latas de 20kg. Havia um bom intercâmbio e bons coletores. Era muito fácil porque o correio trazia quase que gratuitamente. Vinham de muitos lugares, de quase todo Brasil. E chegava material do estrangeiro; eles aproveitavam alguns navios e traziam aquelas latas bem armazenadas. Chegava muito material de peixe nesse tipo de conserva.

Então, com o decorrer do tempo, morreu o irmão da doutora, o dr. Gualter Lutz. Era médico do Instituto Médico-Legal aqui no Rio de Janeiro. Tive várias conversas com ele. Era o braço direito da doutora, apesar de haver muitos atritos entre os dois, mas eles se gostavam muito. Indiretamente trabalhava com ela aqui, pois era um ótimo fotógrafo. Todos esses microfilmes coloridos tiveram a mão do dr. Gualter. Devem estar com o dr. Ulisses. Eu trouxe tudo da casa da doutora, tudo que pude trazer. Porque minha intenção era trazer tudo, mas eu não mandava no caminhão. Ela sentiu a morte do irmão, era o braço direito dela. Isso já foi lá para 1972, 1974. Logo depois a doutora foi internada numa casa de geriatria, na Muda. Tinha uma prima, ou sobrinha, não sei bem. A doutora passou todos os direitos para ela e logo depois faleceu. Com o decorrer do tempo, esta senhora, a sobrinha ou prima, comunicou ao Museu que o prédio tinha sido vendido a uma senhora de um diretor de uma faculdade, se não me engano ali na rua do Riachuelo. No prédio havia material da doutora e do falecido irmão, que ela botava à disposição do Museu, mas com prazo determinado. Porque quem comprou deu prazo. Não sei por que motivo a biblioteca foi lá e trouxe pouca coisa. O diretor era o falecido Dalcy de Albuquerque. Não sei se era verídico isso que vou dizer, mas foi o que escutei na época: o Museu não tinha espaço para o material. Certo dia, a biblioteca me convidou para ir lá de caminhão. Fui e nesse dia consegui trazer esses armários, esses arquivos. Minha intenção era trazer aquele armário bonito, com o material todinho do irmão, que não interessava a eles. Quem comandou o caminhão não permitiu, e eu não costumo discutir com quem está mandando, entendeu, cada macaco em seu galho. Então eu disse, esse material posso levar? E esse? Tinha um senhor lá que estava supervisionando o negócio, era um advogado, acho que era esposo ou colega da prima ou sobrinha da doutora. Então, ele deixou o material todo à vontade. Se quisesse trazer tudo, podia, mas só trouxe esse material. Foi minha última ida lá.

Trouxe o material lá da casa da dra. Bertha Lutz, no último dia que se podia tirar, de acordo com o prazo que o novo proprietário deu. O resto ficou e, segundo eu soube, foi vendido em sebo. Livros importantíssimos foram vendidos num sebo.

Forçamos para colocar muito material num baú, aqueles microfilmes sobre hilídeo, anuro de um modo geral. O material chegou direitinho ao Museu, e eu cheguei a vê-lo várias vezes aí, mas foi só isso que eu fiz, não pude fazer mais nada, não me competia fazer mais nada.

Calculo que houvesse muito manuscrito de época, fichas, acho que tinha também material botânico. Esse material, que ela chamava Coleção Zikán, ela doou para a botânica antes de falecer. Ia constantemente ao Jardim Botânico falar com uma botânica cujo nome esqueci.

A doutora morava com o pai, segundo eu soube, ali na rua do Matoso. Pegavam a linha do trem, em Barão de Mauá, para chegar a Manguinhos. O acesso era muito difícil. Às vezes iam os três, eles e o Manuel Joaquim Venâncio, que era o auxiliar do pai, um preto distinto, bacana. Tudo que tinha de bom, aquele senhor tinha. Cientista nato, sabia de tudo mesmo, sobre herpetologia, helmintologia. Ele tinha muito carinho pelos dois. Chegava a ponto de sair de noite de Manguinhos e ir lá, para depois subir com eles. Aproveitavam e vinham coletando pela linha do trem. A doutora era muito jovem naquele tempo. Já tinha vários cursos, segundo eu soube, na Sorbonne. Fez concurso para o Museu e passou como secretária. Não sei se foi trabalhar na botânica ou se tinha uma sala só dela. Depois disso, não sei se o acesso dela a naturalista foi por concurso, acho que não. Muito poucos naquela época eram formados. Ela já era formada, mas não era especialista, não era naturalista. Entendia especificamente desse assunto com que o pai lidava.

A doutora era muito temperamental, era difícil lidar com ela. Estou dizendo a verdade. Eu falava isso para ela, tanto que a doutora trabalhou esse tempo todo e não fez um discípulo, quando deveria ter feito vários, porque grandes estagiários ela teve, mas a pessoa não agüentava trabalhar com a dra. Bertha Lutz, por causa do seu humor temperamental. A pessoa nunca sabia como ela vinha. Para fazer uma desfeita a uma pessoa, fazia em qualquer lugar. Não sei como consegui trabalhar com a doutora por 16 anos. Acho que eu também não suportava ela, e eu lhe dizia a verdade, porque eu achava que tudo tem um limite de pedir. Às vezes, chegava na portaria e ela achava que eu tinha de segurar seu cachorro. Eu dizia: "Isso não é serviço de Museu, a senhora não pode entrar com um cachorro no Museu, isso não é serviço meu.""Então você não serve para trabalhar comigo", esbravejava ela. E eu: "Então, me manda embora." Aí ela me mandava embora. No dia seguinte, me chamava: "Me desculpa, fiz aquilo sem pensar." O bom dela era que, ao mesmo tempo que era assim, reconhecia, pedia desculpas... e nisso trabalhei 16 anos com a dra. Bertha Lutz.

Você me pergunta se eu gostava dela? Não. Os méritos podem ser o maior inimigo que a pessoa tem. Mas se a pessoa tem mérito, não pode tirar. Aí, já vem a parte da ética, do egoísmo, que não deve funcionar num ser humano. Fui trabalhar com ela menino, rapazola. A mamãe me dizia: "Cuidado no Museu, não maltrata ninguém." E eu seguia o que ela me dizia. Mas digo com toda a sinceridade, não tenho mágoa do tempo que passou, não tenho saudades, o que passou, passou. Daqui a um minuto já é ontem. Então digo com toda a sinceridade: com o pensamento que tenho hoje, se fosse convidado para trabalhar com a dra. Bertha Lutz, eu não trabalharia um minuto. É verdade. Não trabalharia com ela não, apesar de todos os méritos, de toda a inteligência. É uma mulher conhecida mundialmente, os méritos não podem ser tirados dela. Simplesmente, a parte de tratamento... Nem empregada ela mantinha. O irmão às vezes entrava em brigas feias com ela, e eu tinha que me meter no meio para apartar.

As pessoas a respeitavam pelo que ela era dentro e fora do Museu. Uma vez por mês, a dra. Bertha Lutz tinha audiência com o sr. presidente da República, o falecido dr. Getúlio Vargas. Todas as quintas-feiras, a partir de 15 horas, o dr. Getúlio Vargas a recebia. Por quê? Porque tinha grande contato com os Estados Unidos. A sede da presidência da Internacional das Mulheres — não sei bem tudo —, a Comissão Internacional das Mulheres, a sede era dentro da Casa Branca. Também não dou certeza, mas uma das integrantes era a esposa do falecido presidente Roosevelt, então era fácil... Muitas vezes, fui levar a dra. Bertha de automóvel a uma audiência com o falecido dr. Getúlio Vargas. O chefe da Casa Civil era o sr. Lourival Fontes. Lembro-me bem dele, porque toda vez que eu chegava lá, ele dizia: "Vamos para o café." Era um homem grande, com o cabelo grande, o cabelo voava... Muitas coisas que a dra. Heloísa Alberto Torres queria ou adquiria, era por intermédio da dra. Bertha Lutz.

A vida política dela lá fora consistiu nisso. Era a representante do Brasil, e como vocês sabem, isso influiu dentro do Museu, influiu no Instituto. Ninguém mexia com a dra. Bertha Lutz. O ministro a obedecia.

Em 1964, os militares entraram e a política sofreu uma transformação de 360º. Mudou tudo no Brasil. A política também mudou lá em Manguinhos. O diretor que foi nomeado pediu à doutora a sala que pertencera ao pai dela. Foi um modo educado de dizer: "Vai embora." E ela entendeu. A doutora era inteligentíssima. Vinha muita gente rejeitada de outras instituições para o Museu, não sei se era porque o Museu estava isolado. Veio muita gente boa de fora para cá, muita gente distinta. Conheci vários. O dr. Hugo de Sousa Lopes, por exemplo. Teve mais um ou dois. Eu conversava muito com eles, mas não lembro os nomes. O Museu sempre foi regido pelo estatuto interno. Em 1954, a diretora que era nomeada, ou o diretor que era nomeado pelo presidente da República, passou a ser eleito pelos funcionários do Museu. O primeiro diretor que entrou nessas condições foi o dr. José Cândido, logo após a dra. Heloísa Alberto Torres. Veio do Museu Goeldi. A dra. Heloísa Alberto Torres era nomeada pelo presidente, tanto que permaneceu 15 anos no cargo. O José Cândido cumpriu quatro anos, depois mais quatro, e foi substituído pelo falecido dr. Newton Santos. Não sei se foi com ele que ocorreu esse tipo de eleição em que o presidente ou ministro escolhia um entre seis candidatos, como até hoje é feito aqui.

Depois de trabalhar com a dra. Bertha (e após a sua morte), continuei tratando das coleções de herpetologia com auxílio do Conselho Nacional de Pesquisa. Depois recebi auxílio da Fundação José Bonifácio para executar o mesmo serviço, como preparador. Participei da remontagem das exposições que nós temos até hoje. A d. Heloísa, que era da antropologia, lutou muito e organizou a exposição de antropologia. Participei de toda ela, fazendo rótulos. O Museu sempre teve exposição, simplesmente fechou devido ao estado precário dos materiais. Deve ter sido de 1936 para 1940 que fechou, porque o prédio estava em péssima situação, então fecharam. Aquela parte onde se acha hoje a exposição foi a primeira a ficar pronta, aquela parte toda. Reabriu com a exposição de antropologia. Foi feita inclusive aquela sala dos aposentos do imperador, a outra sala onde o imperador despachava. Depois, o José Cândido providenciou a instalação daquela coleção toda de zoologia, que ocupava aquele espaço onde hoje estão os gabinetes, a mineralogia, até aquela sala do Bendengó. Os escritos que estão lá, não sei se vocês já repararam, os nomes daqueles bichos, modéstia à parte, foram todos feitos por mim. Eu e o Cordero. Depois pegamos a parte de vermes, aquela salinha de vermes, aquilo tudo teve a minha mão. O José Cândido ficou como diretor durante duas gestões, de 1955 até 1961. Então foi feita aquela parte de vermes, depois entraram os aracnídeos, os crustáceos, os moluscos, peixes, a baleia, e aquela outra parte de mamíferos, aves etc. Quando o José Cândido saiu, aquela parte de aves, apesar da ampla visitação pública, não estava totalmente pronta, estava simplesmente armada. E aquela outra sala destinada à herpetologia ficou a mesma coisa, só armada. A exposição de peixes estava mais organizadinha.

Foi assim a vida, trabalhando nesse Museu esse tempo todo. Não tenho nenhum filho, infelizmente. Sou casado com uma senhora muito distinta há quarenta e tantos anos. Também nunca fui homem de exigir muito da vida, nem de ninguém. Sempre procurei viver minha vida. É a tal da felicidade. Ela é a coisa mais incrível que temos. Está dentro de nós. A felicidade está num fachozinho de luz que a gente recebe, que nos serve de diretriz, de sintonia na nossa vida, como se fosse um receptor. É sobre esse facho de luz que a pessoa sabe a sintonia que tem, aonde ela sintoniza bem a sua vida. Se por algum motivo, algum acidente, alguém quiser lhe tirar dessa sintonia, lhe tira, mas acontece o seguinte: essa sintonia a pessoa conhece e sabe por onde vai voltar.

Desde pequeno, por motivo de minha mãe e minha irmã, eu freqüentava as igrejas católicas, porque elas iam a quase todas as igrejas de São Cristóvão. Os padres antigamente usavam os garotos para ajudar nas missas. Com isso, consegui ter um aprendizadozinho razoável que me serve para muita coisa. Pelo aprendizado meu, a vida se resume nisso. Como acabei de citar, a felicidade é muito restrita, e está dentro da gente, mas para muita gente é difícil conceber o que eu estou dizendo. Esse fachozinho de luz é muito difícil a pessoa perceber, porque é tão pequenininho... A pessoa sente a diferença de quando não tinha e quando tem, e de quando conseguiu. Isso nos serve muito bem para levar a vida muito bacana.

 

 

1 As coleções só foram cedidas ao Museu Nacional na década de 1960.

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