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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos v.10 n.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702003000100019 

DEPOIMENTOS & IMAGENS

 

Adolpho Lutz em Manguinhos: casos sérios e divertidos

 

 

Quando o Lutz veio para cá ele já tinha feito tanta coisa! Era maior do que qualquer um aqui. Tinha sido convidado para dirigir, no Havaí, aquele célebre leprosário de Molokai, onde frei Damião apanhou lepra. Lutz tinha trabalhado com o Unna, que era um dos grandes microbiologistas da época. Lutz fez lá uma descrição do bacilo da lepra mostrando o que nunca ninguém tinha visto. Ele disse: "Esse bacilo tem uma estrutura." O pessoal descrevia o bacilo como uma linha; ele viu que dentro daquela linha tinha carocinhos e viu isso corando, mas principalmente a olho, no microscópio, sem coloração. Lutz descreveu o bacilo de Hansen e dizia: "Isso não é micobactéria porque para ser 'mico' tem que ser semelhante ao cogumelo, e isso aí é uma seqüência de granulações." Deu o nome de Coccothrix a esse micróbio, porque eram cocos, carocinhos; thrix é um rosário de cocos. Lutz ficava uma fera quando alguém falava em micobactéria perto dele: "Precisamente, isso não é nem mico nem bactéria, é outra coisa." Uma vez saiu uma discussão aí no Centro de Estudo. O Perissé apresentou um trabalho sobre lepra e vieram leprólogos, inclusive um sujeito que diziam que era o maior conhecedor de micobactérias lá do Fundão. Então o Luís Fernando perguntou para a dra. Lígia Madeira, que é lepróloga: "Por que é que o negócio do Coccothrix do Lutz não pegou?" Ela disse: "Não sei." O dr. fulano, lá do Fundão, também não sabia. "Será que alguém sabe?" E eu, sem jeito, explico: o Coccothrix do Lutz não é aceito — nomen nudum, como dizem os zoólogos — porque não vem revestido da pompa necessária. Antigamente, no mundo vegetal, a primeira descrição tinha de ser em latim e, depois, se quisesse, em outra língua. Isso também valia para parasitos animais. Hoje, para planta, ainda precisa ser assim; para parasitos, para animais, em geral, não precisa mais. Hoje é facultativo, mas tem que ser em francês, inglês ou alemão. Lutz perdeu por uma questão formal. Não descreveu em latim e o pessoal ficou usando sempre micobactéria, e não tem mais graça mudar um negócio que está consagrado.

(Entrevista de Wladimir Lobato Paraense, maço 17, pastas VII-XX)

 

Uma das pessoas mais importantes de Manguinhos foi o dr. Adolpho Lutz. Ele fez tese na Suíça, falava todas as línguas, falava ou entendia até aquele dialeto havaiano, pois esteve no Havaí. Era incrível o Lutz. No dizer do Costa Lima, foi o único sábio que conheceu. Ele sabia as coisas bem sabidas, de patologia, medicina, entomologia médica, microbiologia, todas as coisas. Nunca esqueço do dia em que estávamos numa sessão da Sociedade Brasileira de Biologia,1 então o dr. Lacorte apresentou um trabalho sobre a micobactéria da tuberculose. Para surpresa nossa, o dr. Lutz levantou-se e foi no quarto dele — era o único que tinha um quarto só dele no quarto andar —, foi lá, pegou uma separata, entrou pela porta e disse: "Precisamente, dr. Lacorte, isso eu já fiz há trinta anos!" E jogou em cima da mesa aquele trabalho.

Ele tinha caixas, coleções enormes de muitos bichos interessantes que ainda estão na Coleção de Manguinhos, e lá estavam os pantoftalmídeos, que parecem uma mutuca, uns bichos enormes que são broca de madeira. Um dia eu disse: "Dr. Lutz, estou interessado em estudar os pantoftalmídeos." Ele viu meu interesse, viu que eu estava estudando mesmo os bichos e me tratava com uma deferência muito especial. O Joaquim Venâncio, auxiliar do Lutz, foi um dos maiores amigos que já tive. Um dia, quando eu ia para Goiás, fui perguntar ao dr. Lutz se queria alguma coisa. E ele me pediu para trazer aquilo. Sempre tinha interesse em tudo, não é? Então, na hora da saída disse-me o Joaquim Venâncio: "Está vendo o interesse do velho? Chegou até a lhe oferecer cigarro!" Achei graça, porque o dr. Lutz era considerado unha-de-fome, mas não era não. Era uma pessoa muito boa, um distraído, que nunca oferecia cigarro a ninguém.

(Hugo de Souza Lopes, p.14, fita 1, lado B, 1a entrevista)

 

O Lutz não formava ninguém. Era um solitário e eu entendia muito bem. Também sou um bocado assim. Não tenho paciência. O sujeito chega, não sabe nada, eu tenho que parar tudo para ensinar o bê-á-bá. Agora, quando vem um sujeito que tem talento e disposição... Formei uns quatro que estão aí, mandando brasa. Então o Lutz era mais solitário, e trabalhava com o Neiva, que era do nível dele; quer dizer, não por causa da idade, o outro tinha mais experiência, mas era um sujeito que podia discutir se Chrysops era masculino ou feminino, e o Lutz o levava a sério.

(Entrevista de Wladimir Lobato Paraense, maço 20, pastas VII-XX)

 

Eles tiveram uma discussão brava aqui. Quando estavam trabalhando juntos, escrevia um ou senão o outro. O Lutz escrevia em alemão e o Neiva passava para o português. Botava 'a Chrysops'. O Lutz via na prova e deixava passar, mas um dia chegou e disse: "Não, Chrysops é masculino." E o Neiva: "Não, é feminino." E saiu um pega, o Neiva com muito respeito, porque respeitava o Lutz. Outros diziam: "Não doutor, olha aqui...", e mostravam, "mas, precisamente, é masculino", redargüia ele. Aí, no fim, para calar a boca do Lutz, como quem diz: "puxa, um homem desses cometer um erro?", Neiva foi lá dentro, pegou um dicionário de grego e mostrou-lhe: "Olha aqui, está vendo? Feminino!" O Lutz olhou, olhou e não disse mais nada. Ficou fazendo assim, como quem está rezando. No outro dia de manhã, foi à biblioteca e disse: "Mande chamar o dr. Neiva." Chegou o Neiva. "Veja aqui." Trouxera Homero em grego: "Veja aqui se Chrysops é masculino ou feminino." O Neiva não sabia grego. Olhou, olhou... "Como? Mas o dicionário escreve..." "Precisamente, aquele dicionário está errado." Os dois tinham razão, pois a regência depende do contexto, mas Lutz sabia porque achou em Homero. Ficou fazendo assim, recitando algum trecho que conhecia. Fazia isso muito. Às vezes quando fazia captura, ou quando estava cansado, começava a recitar Homero.

(Entrevista de Wladimir Lobato Paraense, maço 17, pastas VII-XX)

 

Nas excursões a pé, quando cansado, costumava sentar-se embaixo de uma árvore e declamava Homero no original. Era repousante. Para ele.

(Luiz Fernando Ferreira da Silva, 1992, pp. 157-71)

 

A entomologia aqui foi realizada primeiro pelo Lutz, que tinha montões de trabalhos, mas ele era um compartimento à parte, ninguém o incomodava. Trabalhava muito, não tinha outra atividade que não fosse pesquisa. Havia no Instituto verdadeiros tabus: "Ah, isso vai incomodar o Lutz." O negócio era assim. O que dr. Lutz quisesse fazer, podia. Se quisesse ficar de cabeça para baixo, e de perna para o ar o dia todo, ninguém ia perguntar por que estava assim. Era sagrado isso.

Então, o Lutz e a entomologia dele eram coisa à parte. É verdade que ele tinha trabalhos com o Costa Lima. Admiravam-se muito. E com o Neiva, também. Tinha o laboratório do Costa Lima, que também era um mistério. Vivia determinando pragas, estudando bichos de interesse médico. O César Pinto também teve muita importância. Trabalhava no laboratório do canto, naquele primeiro andar. Lembram-se onde era o laboratório do dr. Lutz, onde hoje fica o museu? Depois tinha aquele outro laboratório, que era a sala das coleções, e logo vinha o do César Pinto, depois os dois do Costa Lima. A entomologia do Travassos já era diferente. Ele tinha um laboratório de helmintologia. Um dia resolveu estudar borboletas. Coincidiu com a fase em que veio para cá. Esse assunto tinha sido escolhido por ele, em São Paulo, para o Severino Vaz, que entrou na helmintologia. O Travassos veio para o Rio com aquela preocupação de estudar os sarcofagídeos, um bicho que ia dar muito trabalho, porque nunca fora estudado. O Herman Lent estudava helmintologia, fez uma porção de trabalhos com o Teixeira de Freitas. De repente, começou a estudar barbeiros, e hoje é o melhor especialista que já apareceu sobre o assunto.

(Hugo de Souza Lopes, p. 34, fita 3, lado A, 2a entrevista)

 

Lutz era, realmente, uma figura singular. Sua miopia fazia com que estivesse sempre com o queixo levantado, o que habitualmente dá às pessoas uma impressão de altivez. Mas Lutz era um homem tão simples, tão chão, que ninguém ia pensar que aquilo fosse ato de soberba.

(Carlos Chagas Filho, 18.2.1987 a 2.9.1987, p. 16, fita 5, lado B; p. 1; fita 6, lado A, 3a entrevista)

 

Um fato curioso que se contava dele é que se vestia de acordo com o termômetro. Tendo quebrado o termômetro, apareceu várias vezes no Instituto com roupas muito quentes, no verão.

(Carlos Chagas Filho, 18.2.1987 a 2.9.1987, p. 16, fita 5, lado B)

 

Tinha um termômetro na entrada (do Castelo mourisco), quando se desce a escada. O dr. Lutz, todos os dias, na hora do almoço, olhava a temperatura. Então, pegaram uma pedrinha de gelo, encostaram na cúpula do termômetro e ficaram esperando ele aparecer lá em cima da escada. Aí, todos se esconderam depressa. O Lutz olhou assim, virou-se para o pessoal, deu um muxoxo e foi sentar.

(Hugo de Souza Lopes, p. 34, fita 3, lado A, 2a entrevista)

 

Durante anos, meu pai trouxe almoço para o Lutz. Porque ele se queixava muito do almoço de Manguinhos. Então meu pai convenceu minha mãe a fazer uma marmita para o Lutz. Na verdade, nunca vi o Lutz no caramanchão. Comia sempre em seu laboratório, que se caracterizava por uma grande ordem. Se era dada pelo próprio Lutz ou pelo Joaquim Venâncio, não sei. Acho que não queria perder tempo. A única vez que o vi perto do caramanchão foi naquela famosa fotografia em que estão os médicos alemães Duerck e Prowazek, Hartmann, meu pai e os outros membros do Instituto, ao lado do Lutz. Todos, aliás, com chapéus muito elegantes, chapéus-do-chile. É verdade que comecei a almoçar no caramanchão muito mais tarde, depois de 1930.

(Carlos Chagas Filho, 18.2.1987 a 2.9.1987, p. 16, fita 5, lado B)

 

Eram pesquisadores do maior gabarito, sabe? Chegavam a fazer refeição na mesa deles de trabalho. Naquele tempo, a dedicação era fora do comum. Assisti muitas vezes o dr. Lutz comendo sanduíche e a mão no microscópio; dava mordida no sanduíche, ficava mastigando e olhando no microscópio. Eram homens que se dedicavam de corpo e alma, passavam às vezes uma semana fora de casa, dormindo aqui para continuar uma pesquisa que não pudesse ser interrompida. A gente se sentia também entusiasmado para ver o resultado final. A gente sentia aquele entusiasmo e procurava auxiliar em tudo.

(Francisco Gomes, 9.1.1986, fita 4, lado A, 2a entrevista)

 

Com a dificuldade de trânsito, naquela época, meu pai costumava buscá-lo freqüentemente, creio mesmo que diariamente, na rua do Matoso. Morava numa casa muito simpática, defronte a qual, mais tarde, fez-se um dos grandes palacetes do Rio de Janeiro, do dono da refinaria de Manguinhos. Era uma casa muito simpática, muito simples. Nunca entrei porque ficava no automóvel, esperando.

(Carlos Chagas Filho, 18.2.1987 a 2.9.1987, p. 16, fita 5, lado B; p. 1, fita 6, lado A, 3a entrevista)

 

Certa vez, o diretor do Instituto, acompanhando ilustre figura da política nacional, um senador, entra no laboratório do dr. Lutz, que está ao microscópio. Com certa timidez, pede que mostre o laboratório ao visitante. Lutz, sem levantar o olho do microscópio responde: "Precisamente, o Venâncio vai mostrar, porque estou muito ocupado."

Certa vez, em viagem pelo interior, a pé, fazem pausa para descansar. Lutz abre um pacote com bananas e começar a comer. Famintos, os outros olham com avidez. "Ah! Os senhores gostam de bananas?" "Sim, dr. Lutz, gostamos muito." "Da próxima vez, façam como eu, tragam bananas."

Contra os especialistas, afirmava: "São uns seres felizes, presumem saber ilimitadamente todo o setor científico em que trabalham e se arrogam o direito de poder ignorar tudo o mais."

Certa vez, em viagem de estudos pelo interior, chegam a uma pequena vila. São recebidos com entusiasmo. Médicos de Manguinhos. Ainda bem. Um caso de parto complicado. A parteira não consegue resolver. Os jovens cientistas que o acompanham se entreolham, literalmente apavorados. Tranqüilo, Lutz entra na casa. Examina a mulher e faz o diagnóstico: apresentação podal. Executa as manobras necessárias. A criança nasce. Do lado de fora sentencia: "Precisamente, todo médico tem que ser capaz de resolver situações como essa."

Foi quando o rei Alberto veio ao Brasil, em 1922. Criou-se a Universidade do Rio de Janeiro, para dar um título honorífico ao ilustre visitante. E como ele tivesse que transitar pela rua do Catete, criou-se a zona do Mangue, tirando os prostíbulos do ilustre trajeto. A rainha era naturalista amadora. Fez-se então uma comitiva para acompanhá-la em passeio a cavalo, pelas florestas dos arredores. Lutz, muito contrafeito, foi incluído no grupo. E como não podia deixar de ser, o Venâncio foi junto. Nesse tempo, as mulheres montavam de lado na sela. ... uma das damas da rainha, querendo mostrar-se gentil, aproxima seu cavalo ao do sábio caturra e procura puxar conversa. Sem ouvir o que lhe foi perguntado, Lutz pontifica, dirigindo-se à jovem: "Precisamente, os homens é que deviam montar de lado, porque as mulheres não têm certos órgãos que ficam amassados contra a sela."

(Luiz Fernando Ferreira da Silva, 1992, pp. 157-71)

 

O dr. Lutz viu que estava ficando sem vista com a idade. Ficou praticamente cego, e então passou dos mosquitos, dos insetos, para os anfíbios. Porque — isso eu assisti — ele segurava um anfíbio já fixado, segurava as patas e via se tinha ampolas nas unhas, ou se tinha crista ou glândulas parótidas, e perguntava para o Joaquim Venâncio: "De que cor é esse bicho, Joaquim?" E determinava os bichos assim, por palpação.

(Hugo de Souza Lopes, p. 14, fita 1, lado B, 1a entrevista)

 

Uma recordação que eu tenho é chegar no Instituto e encontrar o Lutz já cego, sentado no penúltimo degrau da escada, a Bertha Lutz ao lado, sentada também na escada, lendo para ele. Todo dia faziam isso.

(Sebastião José de Oliveira, 1.9.1986 e 25.2.1986, p. 9, fita 6, lado A).

 

Evandro Chagas, moço ainda, foi um expoente da ciência. Era de uma versatilidade muito grande, como Adolpho Lutz, que era superversátil. Esse, então, sabia de tudo: era clínico, microbiologista, bioquímico, tudo. Lutz era o campeão. Uma coisa muito engraçada aconteceu numa reunião em que propuseram: "Vamos acabar com a esquistossomose no Nordeste. Como o pato come o caramujo, o negócio é, nos lugares endêmicos, dar um casal de patos a cada nordestino." Então ele levantou e disse: "Mas é preciso primeiro alimentar os nordestinos, porque senão a primeira coisa que vão fazer é comer o casal de patos." Era formidável, o Adolpho Lutz. Foi quem avisou o governo sobre a entrada da malária aqui. Aqueles hidroaviões vinham do continente africano para Natal, e ele preveniu que deveriam ficar mais ou menos a 1km de distância do continente e serem expurgados antes de pousar no território brasileiro. Que no bojo deles poderia vir o mosquito transmissor da malária.2 Mas não tomaram essa providência, e quando a malária apareceu aqui, e veio pelo Nordeste afora, foi uma calamidade muito grande.

(Francisco Gomes, 9.1.1986, fita 4, lado A, 2a entrevista)

 

Já lhe contei a história do dr. Lutz com o professor Ernest Marcus? Era um alemão muito importante que veio ensinar zoologia em São Paulo. E, como todo alemão que se prezava, a primeira coisa que fez foi visitar o dr. Lutz, que era famoso. Ele, então, brincava com esses camaradas por causa da ignorância que tinham das coisas do Brasil. Quando chegou o Marcus, pegou um pedaço de pita e perguntou: "Você já viu essa madeira?" O Marcus segurou aquilo, era leve. Depois pegou um pedaço de pau-ferro, um troço pesado, deu para o camarada. Ele ficou com medo. Depois pegou uma lombriga que estava dentro de um vidro grande, e perguntou: "Você já viu isso?" O Marcus disse: "Deve ser um animal marinho, não é, dr. Lutz?" E o dr. Lutz falou: "Precisamente, pois se está no rim de tudo quanto é cachorro." O que ele queria dizer é que o sujeito que vem de fora, muito sabido, vem ensinar o que num ambiente que não conhece? Então, o professor Marcus disse para ele: "Mas o senhor está me passando uma sabatina, hein, dr. Lutz?" E este respondeu: "Precisamente, e você está perigando, está perigando."

(Hugo de Souza Lopes, p. 30, fita 4, lado A)

 

Sobre Joaquim Venâncio

Filho de José Venâncio Fernandes e Maria de Jesus, Venâncio Bonfim nasceu no município de Juiz de Fora (MG), em 8.11.1916, na Fazenda Bela Vista, que pertencia à mãe de Carlos Chagas. Em 1935, mudou-se para o Rio de Janeiro e logo conseguiu dinheiro para trazer a família toda. Quando chegou à capital, hospedou-se na casa do tio, Joaquim Venâncio, na fazenda de Manguinhos.

"Joaquim Venâncio foi criado sem pai nem mãe, junto com o dr. Carlos Chagas, o diretor do Instituto Oswaldo Cruz, e meu pai também. Foi o primeiro a abandonar a fazenda e vir para a cidade. O dr. Chagas arrumou serviço para ele aqui. Morava nas circunvizinhanças da Fundação. Se os senhores forem ali pela rua onde é hoje o laboratório de vírus, nos fundos, o Venâncio morava ali. Não havia nada daquilo. Era mato. Aquela casa foi o Instituto que fez para ele.

Trabalhava com o dr. Adolpho Lutz, que em quase todas as viagens quis levar o Venâncio. Inclusive aos Estados Unidos. O dr. Lutz fez questão que o Venâncio seguisse com ele. Pressionaram o diretor tendo em vista aquele problema do racismo nos Estados Unidos. Ele foi ao dr. Lutz, disse: "Não poderia levar outra pessoa?" O Lutz ficou quieto, que era de pouca palavra. Ficou quieto, foi ao diretor — ele tinha um sistema de falar assim: dizia sempre "precisamente" — : "Senhor diretor, precisamente, meu auxiliar chama-se Joaquim Venâncio Fernandes. Ou ele ou ninguém." Aí o Venâncio foi. Acompanhou o Lutz até a morte.

Bom, eu cheguei sem aviso. Vim, assim, no "sputnik", analfabeto de pai e mãe, meio envergonhado. Gostaria que não fosse preciso eu voltar. O Venâncio supervisionava as áreas do Instituto à noite também. Porque isso aqui era um aberto. Lá para o lado da patologia, tinha uma estrada que cortava tudo isso. E havia invasão aqui. Quando eu cheguei à casa do Venâncio, à noite, ele estava supervisionando. No outro dia, falei para ele: "Olha, meu tio, vou fazer para o senhor um galinheiro." Construí o galinheiro e comecei a tomar conta dos bois dele. Ali, como quem vai para a refinaria de petróleo, tem lá uma pilastra meio caída, ali dava passagem. O gado ia lá para um lugar de nome Benfica. Pelos fundos, nessa estrada de rodagem, não podia deixar. Tinha um problema que chamava curral de conselho, que era uma seção da prefeitura que capturava todo animal abandonado. Eu tinha que estar sempre vendo, sempre ativo. Tinha aproximadamente umas 15 cabeças, vaca leiteira e tudo. Era dele. Porque isso aqui era uma fazenda.

O Venâncio supervisionava à noite. Também se botava um vigia, com um rifle nas costas. Havia as pessoas de cocheira, que tomavam conta dos animais, então faziam mais uma companhia. Eram duas cocheiras, ou três. Como a produção de soro aqui era muito intensa, tínhamos muitos cavalos.

Fiquei com Joaquim Venâncio talvez um ano, ano e pouco. Foi passando, passando, quando o Capanema me contratou como trabalhador de 4ª classe. E quando se deu uma vaga de uma senhora que trabalhava na lavanderia, d. Cipriana, daí eu fui servente 5a classe.

(Entrevista de Venâncio Bonfim, 11.11.1986, fita 1, lado A, 1a entrevista).

 

Joaquim Venâncio era meu guru. Muita coisa que aprendi, agradeço a Joaquim Venâncio. Era de uma inteligência fora do comum. Essa reação para o diagnóstico da gravidez que se fazia em bufo marinho, foi o Joaquim que descobriu. Ele trabalhava com o dr. Lutz e o Joaquim, muito sagaz, fazia exames de urina. Um dia, pegou urina de uma senhora aí do morro que estava em período de gravidez. Enquanto o Joaquim estava no microscópio examinando o sedimento da urina dela, ela, como tinha aversão a sapo, pegou um daqueles vidros e jogou em cima do bufo marinho, sabe? E o Joaquim estava colhendo uns protozoariozinhos. O dr. Lutz tinha mandado ele fazer sondagem na cloaca para identificar se o bufo marinho tinha esse tipo de protozoário. Quando chegou no dia seguinte, fez a punção na cloaca do sapo, colheu a urina e foi para o microscópio, viu aquele montão de espermatozóide. "Uai!" Ficou intrigado com a coisa. Aí notou que embaixo (porque o sapo não ficava no chão do vidro, ficava sobre uma placazinha), embaixo tinha urina. Deu um estalo na cabeça dele. Mandou que a moça trouxesse nova urina. A moça trouxe, e ele, mais do que depressa, injetou 10cm daquilo no sapo. Primeiro, sondou a cloaca, viu que não tinha nada; fez a injeção de urina, uma hora depois, colheu o material, com duas horas, colheu, já estava lá a espermatorréia no sapo. Aí contou ao dr. Lutz o que tinha descoberto, e disse que tinha explicado aquilo ao dr. Manini. Foi quando o dr. Lutz ficou desesperado: "Não conta nada à gente de fora. Você contou, agora ele vai publicar isso." Então, o dr. Lutz desenvolveu a coisa toda, deu a noção científica do que era aquilo: era a gonadotrofina coriônica que liberava o espermatozóide no sapo.

Houve uma coisa muito curiosa com o Joaquim. Ele era demais inteligente. Um embaixador alemão mandou uma carta para o diretor: se o Instituto poderia enviar para a Alemanha 12 exemplares de um tipo de uma perereca estranha que tinha no Brasil, muito rara. Então o diretor chamou o Joaquim, se ele podia satisfazer esse pedido: "Ah, pois não", e saiu em campo. Vestiu as botas e aquele traje de pântano, e conseguiu exatamente o tipo. Mandou tudo determinado: espécie, tipo, hábitat, escreveu tudo, e eu é que fui levar lá na Embaixada da Alemanha, nas Laranjeiras. O embaixador ficou maravilhado. O Joaquim conseguiu aquilo de um dia para o outro.

Pelo coaxado do bicho, sabia onde estava e que tipo de bicho era. Ia lá direitinho. O dr. Lutz tinha uma certa afeição ao Joaquim, que era realmente inteligente, ajudava mesmo o dr. Lutz, em tudo. O dr. Lutz era versátil, clínico, cientista, era tudo. Eu estive também algum tempo trabalhando com ele. Era formidável. Um pouco difícil de a gente entender, porque o português dele ainda era assim meio arranhado, né? Então era preciso a gente botar bem atenção, porque senão a gente não sabia bem o que ele estava querendo. Mas com o hábito, acostumava.

Um dia, eu estava com Thales Martins — quando Miguel Osório viajava, eu ficava com o Thales Martins — super, ultra-exigente. Queria uma coisa já, não queria saber de que forma a gente ia conseguir. Fui eu que mais agüentei o Thales Martins, porque ninguém agüentava. Sofri o diabo com ele! Era bom porque ensinava tudo. Tinha dia de castrar cem camundongos, tirar supra-renal de cinqüenta, sessenta camundongos com aquele instrumental fino que trouxe da Europa, ferro cirúrgico finíssimo. Mas ele cismou que eu tinha que arranjar camaleão grande, precisava começar a experiência e precisava de camaleão. "Mas como é que eu vou fazer para pegar camaleão, doutor? Vou andar subindo em cima das pedras..." "Você dá um jeito, que eu quero os camaleões." Digo: "Vou no meu guru, é o jeito." "Ô Joaquim, tô com um problema..." "É fácil, é fácil. Amanhã nós vamos naquela pedreira (tinha uma pedreira aqui no porto de Marta-angu), nós vamos na pedreira e vamos pegar muito camaleão." Então, vê a argúcia do Joaquim. Naquele tempo não existia fio de náilon. Mas o rabo de cavalo é como fio de náilon, tem resistência, né, arma. Então fomos lá no rabo do cavalo, cortamos uns fios compridos, ele armou uma laçada. E pegamos umas baratas vivas. Ele amarrou a barata pela cabeça, e botava dentro da laçada, amarrada com linha preta. Fomos lá para a pedreira, e aquilo na ponta de uma vara de bambu bem comprida. Aí o camaleão aparecia lá na pedra, ia arriando, assim, aquela barata — a barata está aqui dentro da laçada — ia encostando perto do camaleão, ele ficava ouriçado, pulava e quando pulava, prendia, ficava preso, o camaleão dançando no laço, né, porque aí ele apertava a laçada. Olha, só no primeiro dia pegamos quarenta e tantos camaleões. "Agora tu não diz a ele como pegou não. Você só diz a ele que os camaleões estão aí." Quando cheguei com aquele caixote, o Thales Martins quase caiu pra trás. "Como é que você conseguiu fazer isso?" Eu disse: "Não sei. O senhor não queria camaleão? Taí o camaleão." Era formidável o Joaquim. Qualquer dificuldade que eu tinha, meu guru me tirava do sufoco.

(Francisco Gomes, 9.12.1985, fitas 1 e 2, lado A, 1a entrevista)

 

O Venâncio era o mais famoso (auxiliar de Manguinhos). ... Tinha mesmo uma coisa diferente dos outros, ... uma personalidade especial. Era muito senhor de si. Você devia sempre pedir a opinião dele, porque ... era importante, compreende? Ele trabalhava com o dr. Lutz, que era um homem de espírito forte. Venâncio morreu por uma descompensação cardíaca, e durante alguns anos ficou praticamente de cama. Morreu numa casinha que tem aqui atrás. Umas duas ou três vezes por semana, depois do almoço, passava lá para bater um papo com ele, e o que contava, as coisas do Instituto que aprendi com ele, eram um negócio tremendo. E o modo de ele encarar a vida, como compreendia cada pessoa! Dizia: "O senhor está enganado, não é assim, não." Tesourava um pouco, compreende? As histórias do Joaquim são muito engraçadas.

(Hugo de Souza Lopes, p. 43, fita 3, lado B, 2a entrevista)

 

O Joaquim tinha um ouvido muito bom. Além disso, era mateiro mesmo. Nasceu no interior de Minas. Foi o Chagas quem o trouxe para cá. Um dia estava o Mário Ventel lá em Angra dos Reis, na fazenda do Travassos, Fazenda da Japuíba. Íamos muito lá para colecionar. Então, o Mário Ventel ouviu alguém bater na porta. Chovia muito, com trovoadas. Era o Joaquim Venâncio, com o dr. Lobo, aqui do hospital, nas costas. O dr. Lobo era um homem forte, meio gordo. O Joaquim pegou-o no meio do caminho, botou-o nas costas e veio andando. Era um homem muito robusto. Também carregava o dr. Lutz nas costas, mas o Lutz era magrinho, era muito fácil.

(Hugo de Souza Lopes, p. 14, fita 4, lado A, 2a entrevista)

 

O Joaquim Venâncio era um negão forte, bastante corpulento e, como sapo, perereca, rã se criam nos brejos, carregava não só o Lutz como a Bertha no colo para atravessar esses pântanos. Era um homem que, apesar de ser analfabeto, era muito inteligente, tinha um conhecimento muito grande das coisas. Conhecia rã e perereca pelo canto. Se Lutz dissesse: "Olha, traz aquela perereca", ele ia para o mato e encontrava a espécie no meio de todas as outras. Falo do Joaquim com muito carinho porque era realmente uma pessoa extraordinária. Fui provavelmente o primeiro negro a trabalhar aqui no Instituto, como doutor. Vim para cá como estudante e, num dado momento, percebi a aproximação do Joaquim Venâncio. Vi até que me protegia, eu o sentia assim como uma espécie de anjo da guarda. Ele tinha sempre um respeito, aliás, a família toda do Joaquim respeitava muito a hierarquia. Aqui havia uma disciplina muito rígida. Tinha aquele negócio: o doutor e os outros. Para ele, era a maior coisa o fato de eu ser doutor. Eu freqüentava a casa do Joaquim. A senhora dele, dona Sebastiana, fazia uns biscoitinhos de tapioca que eram um negócio. Um dia, estava conversando com ele e disse: "Ô Joaquim, estou vendo aqui na literatura que um mosquito, um Culex, suga a perereca, e eu nunca encontrei esse bicho, provavelmente nunca vou encontrar." Ele disse: "Ah, já vi, foi até um mosquito descrito pelo Adolpho Lutz." O assunto morreu ali. Não se passaram 15 dias e ele me procurou trazendo o mosquito. Sabia onde existia e foi pegá-lo.

O Lutz começou a estudar também perereca, sapo, essas coisas. E a Bertha continuou o trabalho dessa última fase do Lutz. Ele publicou diversos trabalhos junto com a Bertha. Depois que morreu, Joaquim continuou com a Bertha. Nos trabalhos do Lutz, está lá: "o Joaquim Venâncio apanhou em tal lugar, o Joaquim Venâncio...". E depois que o Lutz morreu, o Instituto recebia muita correspondência endereçada ao "dr. Joaquim Venâncio".

(Sebastião José de Oliveira, 1.9.1986 e 25.2.1986, pp. 24, 26 e 27, fita 5, lado A).

 

A primeira personagem a me influenciar, e a quem eu me liguei no Instituto, foi o Joaquim Venâncio. Creio que era filho de uma escrava da fazenda de minha avó. Era um caboclo, desse tom um pouco esverdeado que muitos mulatos têm, que não se sabe se vem do índio ou da raça negra, e que um dos meus tios dizia que era uma das características da boa mestiçagem. Joaquim Venâncio era um homem extremamente atraente. Relativamente baixo, era, como se dizia, parrudo, forte e de uma afabilidade extraordinária. Tinha pelo meu pai como por Lutz uma grande adoração. Conta-se até que era utilizado pelo Lutz para pegar mosquitos, de calças abaixadas com as nádegas iluminadas. O conhecimento de Lutz sobre animais brasileiros era uma coisa extraordinária. Principalmente sapos e vermes. Dizia-se que era capaz de identificar não só o gênero, mas a espécie de um sapo pelo seu coaxar. Joaquim Venâncio mostrava-me todos os bichos estranhos que existiam nos armários do laboratório do Lutz. Era um laboratório muito agradável porque não sofria das dificuldades de insolação que os outros experimentavam. Lutz era uma pessoa muito querida por todo mundo, embora fosse um secarrão. Mas sempre tinha uma palavra curiosa, pronunciada com uma prosódia estrangeira... A princípio, eu tinha pavor de encontrá-lo naquelas investidas em seu laboratório. Até que um dia ele apareceu na minha frente. Fiquei sem voz. Mesmo porque não estava sob a tutela de meu anjo protetor, Joaquim Venâncio. Lutz, para meu espanto, começou a falar em alemão comigo, porque sabia que eu falava esse idioma, e no final disse assim: "Espero que um dia você siga os passos de seu pai." E virou as costas, abruptamente, não disse um adeus.

(Carlos Chagas Filho, 18.2.1987 a 2.9.1987, p. 16, fita 5, lado B; p. 1, fita 6, lado A, 3a entrevista)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 As sessões regulares da Sociedade Brasileira de Biologia eram realizadas na biblioteca de Manguinhos.
2 O entrevistado refere-se ao Anopheles gambiae, transmissor de uma forma grave de malária importado da África ocidental, localizado no Brasil em 1930 e erradicado em 1940 pelo Serviço de Malária do Nordeste.

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