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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.10 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702003000200001 

Carta do Editor

 

 

Jaime Benchimol

Editor

 

 

Caro leitor,

Abrimos este número de História, Ciências, Saúde — Manguinhos com 'Mangue, homens e caranguejos em Josué de Castro: significados e ressonâncias', de Djalma Agripino, autor que já publicou em nossas páginas dois ensaios igualmente criativos, 'O riso em tempos trágicos nas charges sobre a 'Epidemia de Caruaru', Pernambuco – 1996' (vol. 6, no 1) e 'Necessidade histórica em morte e vida severina' (vol 3, no 3). No presente artigo, Agripino analisa a criação da idéia do 'homem-caranguejo' em três livros do médico e geógrafo recifense Josué de Castro, relacionando seus usos simbólicos com atualizações recentes da metáfora original, sobretudo aquelas observadas na linguagem do Movimento Mangue Beat e do músico pernambucano Chico Science. Ao mostrar como tais criações se incorporam ao imaginário social, e o modelam, o autor valoriza o alcance não apenas da obra de Josué de Castro como do labor intelectual em seu sentido mais amplo.

O artigo de Carlos Henrique Duarte e Dina Czeresnia analisa 'A institucionalização da epidemiologia como disciplina na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro', contextualizando este processo com bem alinhavadas informações sobre o desenvolvimento da saúde coletiva no Brasil. Os autores ressaltam a importância que tiveram os cursos de pós-graduação nos anos 1970 e 1980, período em que foram hegemônicas as influências da medicina tropical, do movimento preventivista e, em seguida, da reforma sanitária brasileira. Ao se deterem nos cinco congressos nacionais de epidemiologia ocorridos nas duas décadas subseqüentes, Duarte e Czeresnia contrapõem a ênfase recente que a disciplina confere às pesquisas clínicas às tendências em curso no âmbito da saúde coletiva.

André Luis Masiero, por sua vez, aborda tema pouco explorado pela história da medicina no Brasil: as lobotomias e leucotomias executadas em mais de mil pacientes em instituições asilares brasileiras, de 1936 até 1956, quando foram suspensas essas "psicocirurgias" por efeito — tardio, como costuma acontecer no Brasil — do Código de Nuremberg, instituído em 1947 para conter os abusos da experimentação médica com seres humanos levados a extremos durante a Segunda Guerra Mundial. No texto cuidadoso e bem documentado, o autor apresenta breve história do desenvolvimento daquela técnica que consistia em desligar os lobos frontais direito e esquerdo do encéfalo, visando modificar comportamentos ou curar doenças mentais. Idealizada pelo neurologista português Egas Moniz, em 1935, e aperfeiçoada pelo americano Walter Freeman, chegou ao Brasil por intermédio de Aloysio Mattos Pimenta, neurocirurgião do Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, sendo logo adotada por outros médicos.

Na leitura crítica que faz de Raça e assimilação, Jair de Souza Ramos mostra que Oliveira Vianna, no livro publicado em 1932, assumiu a defesa da cientificidade do conceito de raça e de seu valor como chave interpretativa da sociedade brasileira num momento em que as abordagens racistas perdiam terreno na antropologia em favor de interpretações culturalistas. Demonstrando sólido domínio da literatura concernente ao tema, o autor analisa o diálogo de Vianna com dois contemporâneos, Arthur Ramos e Roquette-Pinto, a respeito não apenas dos estudos raciais como do papel da ciência na vida política do Brasil.

O artigo de Eronides da Silva Lima, Celina Szuchmacher Oliveira e Maria do Carmo Rebello Gomes trata da educação nutricional nas universidades públicas do Rio de Janeiro na década de 1990. Traz informações relevantes sobre uma disciplina que vem investindo na reflexão histórico-social de sua gênese. O trabalho analisa as bases do conhecimento produzido em educação nutricional nos cursos de pós-graduação no período de 1980 a 1998. Mostram as autoras que, até então, a idéia de "ignorância alimentar" era a matriz da disciplina, justificando abordagens técnicas e intervencionistas destinadas a corrigir o ´defeito´ observado na população brasileira. Após 1990, as dissertações defendidas nos cursos de pós-graduação do Rio de Janeiro passaram a criticar o currículo formador do nutricionista à luz do conceito de representação social, mas sem se afastarem muito da forma como era abordada a relação entre representações e práticas.

Gabriel Eduardo Schütz e Carlos Machado de Freitas analisam, à luz da chamada ´ciência pós-normal´, a epizootia de febre aftosa que teve início na Grã Bretanha, no começo de 2001. Revelam os posicionamentos de diferentes atores sociais no decurso da crise que pôs em questão variados interesses: de um governo em campanha eleitoral; de um Estado enredado no jogo político de consolidação da União Européia; da população sujeita a outras ameaças relacionadas à sua saúde e ao meio ambiente. Segundo Schütz e Freitas, as medidas tomadas com o objetivo de deter a epizootia transformaram-se num experimento em grande escala, um fenômeno típico da modernidade que requer novas formas de encaminhar os processos decisórios nas conjunturas em que a ciência é invocada como solução ou como parte da crise.

Ivan da Costa Marques remata a seção "Análise" explorando outra dimensão de nossa modernidade: a política de reserva de mercado que se tentou impor em defesa dos minicomputadores brasileiros nos anos 1970, no auge do autoritarismo tecnocrático da ditadura militar. O autor discerne duas fases na implementação dessa política, considerando bem-sucedida a primeira devido à afinidade entre as práticas democráticas liberais e as políticas que tinham em mira o desenvolvimento das ciências e tecnologias locais no Brasil.

O leitor encontrará materiais igualmente interessantes nas demais seções da revista. Chamo atenção para a primorosa apresentação de dados biográficos sobre a pedagoga e médica Marie Rennotte (1852-1942), elaborada por Leonora e João Bosco Assis De Luca. Stela N. Meneghel, Claídes Abbeg e Ronaldo Bastos analisam sugestivas imagens concernentes às "desigualdades no morrer" capturadas no Cemitério da Santa Casa da Misericórdia da cidade de Porto Alegre. A nota de pesquisa da arquiteta Luisa Regina Pessoa apresenta uma proposta para as Escolas Técnicas de Saúde do SUS. Não é um texto de história da saúde, mas o jeito criativo com que brinca com estes espaços guarda afinidades com a sensibilidade de historiador.

 


 

Editor's note

 

 

Jaime Benchimol

Editor

 

 

Dear reader,

We start the present issue of História, Ciências, Saúde — Manguinhos with 'Swamps, men and crabs in Josué de Castro: meanings and their unfolding' by Djalma Agripino, an author who has already had two of his essays, 'Marks of tragic times: cartoons on the 1996 epidemic in Caruaru, Pernambuco' (vol 6, no 1) and 'Historical necessity and human action in Morte e Vida Severina' (vol 3, no 3) published in our brochure. In the present article, Agripino analizes the creation of the concept 'crab man' in three of the books written by the Recife doctor and geographer Josué de Castro, and relates its symbolic use to recent updated forms of the original metaphor, mainly those observed in the Movimento Mangue Beat language and in the songs by Chico Science, the Pernambuco musician. By showing how these creations are absorbed by and interfere in society's psyche, the author emphasizes the unfolding of not only Josué de Castro's works but also of intellectual production in its broader sense.

Carlos Henrique Duarte and Dina Czeresnia's article analizes 'The institutionalization of Epidemiology as a subject at Rio de Janeiro Federal University Medical School", relating it to a set of information on the development of collective health in Brazil. The authors stress the importance of post-graduation programs in the 1970s and 1980s, the period influenced first by tropical medicine, then by prevention trends and later by the Brazilian sanitary reform. When discussing the five national epidemiology congresses that took place the following decades, Duarte and Czeresnia compare epidemiologists' recent emphasis on clinical research to present collective health trends.

André Luis Masiero analyzes a topic that has been seldom explored by the History of Medicine in Brazil: lobotomy and leucotomy operations on more than a thousand patients in Brazilian mental institutions from 1936 until 1956, the year these psycho-surgeries were prohibited, due to a late effect – as it seems to always happen in the country - of the Nuremberg Code, written in 1947 to detain the abusive medical experimentation with human beings that occurred during the Second World War. This well-documented text presents a brief history of that technique, which disconnected both frontal lobes of the brains in order to change behavior or cure mental illnesses. Created by the Portuguese neurologist Egas Moniz in 1935 and developed by the American Walter Freeman, these types of surgery started in Brazil through the action of Aloysio Mattos Pimenta, a neurosurgeon from Hospital Psiquiátrico do Juquery in São Paulo. Soon after their introduction in São Paulo, this kind of operation was adopted by other doctors all over the country.

In his critical approach to Raça e assimilação, Jair de Souza Ramos shows that, in his book published in 1932, Oliveira Vianna defends race as a scientific category and emphasizes it as key to the understanding of Brazilian society when racist approaches to anthropological issues were beginning to give way to cultural interpretations. Showing great acquaintance with the topic, the author analyzes Vianna's correspondence with Arthur Ramos and Roquette-Pinto about not only racial issues but also the role of science in Brazilian political scenario.

The article written by Eronides da Silva Lima, Celina Szuchmacher Oliveira and Maria do Carmo Rebello Gomes analizes the teaching of Nutrition in public universities in Rio de Janeiro in the 1980s and 1990s. It displays relevant information on an academic subject that has been thinking over its historic and social origins. This paper analyzes the bases on which the understanding of Nutrition was built up in the 1980s and 1990s post graduation programs. The authors show that, until then, the academic subject was based on and oriented by the idea of "nutritional ignorance", which justifies the technical and interventionist approaches meant to 'correct the defect' observed in Brazilian society. After 1990, the post-graduation dissertations in Rio de Janeiro began to criticize Nutrition curriculum in the light of social representation, although they did not go too far as for the relation between representation and practice is concerned.

In the light of what is called 'post-normal science', Gabriel Eduardo Schütz and Carlos Machado de Freitas analyze the epizootic manifestation of aphthous fever that started in Great Britain at the beginning of 2001. They reveal the different positions of different social agents during the crisis in which several interests played their parts: those of the government in election year; those of the State, entangled in the political games of the European Union consolidation process, and those of the population concerned with other threats related to health and environment. According to Schütz and Freitas, the measures taken in order to stop the epizooty ended up as a great-scale experiment, which is a typical phenomenon of current times, when new ways of decision-making processes are needed and science is used as the solution to the crisis or as part of it.

We close our section "Analysis" with Ivan da Costa Marques' article, which discusses another current times' aspect: the market-reserve policy, which tried to defend Brazilian minicomputers in the 1970s, the climax of the authoritarian military dictatorship. The author points out to the existence of two phases in the implementation of such policy, considering just the first one successful, due to the affinity between liberal democratic practice and the policies that aimed at the development of science and technology in Brazil.

The reader will find equally interesting material in the other sections of our brochure. I would like to call your attention to the remarkable job done by Leonora and João Bosco Assis De Luca: a thorough collection of Marie Rennotte's biographic data (1852-1942), covering her activities as an educator and a physician. Stela N. Meneghel, Claídes Abbeg and Ronaldo Bastos analyze "death divide" in meaningful images of Santa Casa da Misericórdia cemetery in the city of Porto Alegre. The architect Luisa Regina Pessoa's research note presents a proposal to SUS technical health schools. It is not a text on the History of Health, but when she writes about these schools, her creativity reminds us of the sensitivity of historians.

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