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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.10 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702003000200017 

LIVROS & REDES

 

O estudo das produções minerais pelo cientista José Vieira Couto no início do século XIX na capitania de Minas Gerais

 

A study on mineral production by scientist José Vieira Couto at Capitania de Minas Gerais at the beginning of the 19th century

 

 

Alex Gonçalves Varela

Historiador, mestre em educação aplicada às geociências na Unicamp, Rua Ferreira Viana, 36/502, 22210-040 Rio de Janeiro — RJ Brasil, alex@ige.unicamp.br

 

 

 

Clarete Paranhos da Silva
O desvendar do grande livro da natureza: um estudo da obra do mineralogista José Vieira Couto, 1798-1805.
São Paulo, Anna Blume/FAPESP/Editora da Unicamp, 2002, 168p.

O livro de Clarete Paranhos dá uma importante contribuição à história das ciências no Brasil. Ele é resultado das investigações realizadas durante o curso de mestrado da autora no Programa de Geociências Aplicadas ao Ensino, no âmbito do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O trabalho apresenta-se estruturado da seguinte forma: uma introdução; três capítulos, cada um deles subdividido, o que torna a leitura mais fácil e agradável; e a parte conclusiva. Logo na introdução, a autora apresenta a sua tese essencial, em consonância com a postura renovada da historiografia das ciências na América Latina, que vê a ciência como uma prática inserida em um tempo e espaço concretos, segundo a qual o mineralogista José Vieira Couto em suas Memórias, resultado das pesquisas na capitania de Minas Gerais, contribuiu para o processo de institucionalização das práticas geocientíficas no contexto colonial, em contraposição à historiografia corrente que afirmava que o Brasil nesse período era um imenso vazio científico.

No primeiro capítulo, a autora apresenta o cenário das relações Brasil-Portugal em fins do século XVIII. As transformações provocadas pela revolução industrial e pela Revolução Francesa e a conseqüente crise do antigo sistema colonial levaram à promoção de reformas profundas. Essas reformas, em Portugal e na Espanha, visavam superar a defasagem econômica e científico-cultural frente a países como Inglaterra, França, entre outros. Para os homens que estavam à frente do Estado português, era imperioso superar essa defasagem frente às potências européias, se Portugal quisesse manter sob o seu domínio todo o império ultramarino, sobretudo o Brasil. As reformas tiveram início no governo de d. José I, com o todo-poderoso ministro marquês de Pombal, e foram reforçadas no governo de dona Maria I, mais especificamente por meio do principal homem da viradeira, o ministro d. Rodrigo de Sousa Coutinho. Ao seu lado foram cooptados vários estudiosos das mais diversas partes do império ultramarino, com destaque para os naturalistas da Academia Real das Ciências de Lisboa, instituição científica portuguesa que orientou as pesquisas com o intuito de reconhecer e explorar as produções naturais do reino e de todo o império português. Essa articulação entre o Estado e as instituições científicas também ocorreu por meio da Universidade de Coimbra, que ajudou a difundir os princípios da ilustração pela nação lusa.

No segundo capítulo, a autora apresenta José Vieira Couto ao leitor. Nascido no Arraial do Tijuco, atual Dimantina, em 1752, Couto pertencia a uma família cuja história estava intimamente ligada à real extração. Ele estudou filosofia e matemática na Universidade de Coimbra, como todo membro da elite colonial que queria obter um diploma de nível superior. Tinha condição socioeconômica bastante favorável, uma vez que possuía terras, imóveis e fazendas, assim como uma valiosa biblioteca com cerca de 228 obras em 661 volumes. Mesmo sem evidências empíricas mais precisas, a autora levantou a hipótese de que Couto e sua família participavam do contrabando de diamantes das minas e descartou a possibilidade de o cientista estudado participar de movimentos revolucionários, pois as suas Memórias tinham um tom extremamente reformista, lastreado pela máxima "reformar para conservar". Couto e seus irmãos ocuparam importantes cargos públicos na real extração e participaram ativamente dos acontecimentos envolvendo a elite dominante do Arraial do Tijuco, comprovado pela autora a partir de fontes documentais, como o caso do envolvimento de toda a família do estudioso na disputa acirrada entre o governador da capitania de Minas Gerais, Bernardo José de Lorena, e o intendente João Inácio do Amaral Silveira. Este último chegou a proibir Couto de realizar as suas pesquisas na demarcação das minas. O intendente logo seria afastado do cargo, e, para isso, muito contribuiu Couto e a sua família. Na parte final do capítulo, a autora faz uma apresentação das quatro Memórias do autor, que constituíram seu objeto de análise no campo específico da história da mineralogia e da geologia no Brasil, todas produzidas nos anos de 1798 e 1805, quando ele então realizou as suas pesquisas na capitania de Minas Gerais.

No terceiro capítulo, a autora analisa as Memórias de José Vieira Couto uma a uma e relaciona-as com o contexto histórico-científico do período para assim compreender como se davam as práticas geocientíficas no período colonial. Ela opta por apresentar e analisar cada texto de forma separada, sendo tal organização justificada pelo desejo de seguir a fluência de Couto. As questões relativas às práticas geocientíficas do autor ganharam relevância em relação aos outros temas que apareceram ao longo dos textos. Ao seguir essa postura metodológica, Clarete pôde observar que a prática científica de Couto ligava-se a uma tradição de pesquisa em voga no campo da mineralogia no final do século XVIII e início do século XIX, ou seja, o estudo das chamadas regularidades permanentes presentes nos trabalhos de autores como conde de Buffon, Louis Bourguet, Nicolas Desmarest, entre outros. Couto, como esses autores, observou e descreveu tais regularidades fornecendo dados sobre a localização, a orientação e a espessura das montanhas, a localização e profundidade dos rios, a direção das águas dos rios e dos mares, a disposição das camadas estratigráficas, a relação entre as camadas estratigráficas e os minerais nelas contidos. Essa comprovação serve para mostrar que os ilustrados luso-brasileiros de então conheciam os debates existentes nas suas respectivas áreas científicas, e não estavam atrasados ou desatualizados como se afirmou.

Na conclusão a autora apresenta os diversos aspectos das práticas científicas de José Vieira Couto a partir do estudo contextualizado de suas Memórias. O primeiro aspecto destacado foi a visão de ciência do autor, ou seja, uma ciência que tinha como meta a resolução de problemas práticos e a instrução seria o caminho privilegiado por onde a ciência atingiria tal meta. O segundo aspecto está relacionado a sua prática científica, sendo observado que Couto seguia o senso comum da mineralogia do final do século XVIII e início do XIX, pelos termos científicos empregados e pela sua metodologia de pesquisa, ele se preocupava acima de tudo em descrever, identificar e classificar os minerais em seu local de ocorrência, dando ao seu trabalho um caráter nitidamente geográfico, onde a ida ao campo adquiria papel de relevo. Um terceiro aspecto considerado foi à conclusão a que a autora chegou acerca do tipo de cientista que Couto era. Como um típico naturalista da ilustração luso-brasileira, ele era uma expressão radical do ecletismo e do pragmatismo, bebendo em diversas fontes e tirando delas o melhor, para assim ajudar a resolver os problemas existentes na sociedade do império português. Um quarto aspecto observado foi o estilo do filósofo natural em suas Memórias. Ele utilizou uma retórica, por vezes poética, sempre densa e vibrante, para mostrar aos dirigentes da Coroa portuguesa todas as possibilidades que o mundo natural do território colonial podia oferecer, transparecendo assim o otimismo típico dos homens da ilustração do século XVIII.

Duas considerações finais sobre o livro de Clarete Paranhos merecem ser feitas. A primeira diz respeito à ausência de informações sobre o período em que José Vieira Couto estudou em Portugal; e a segunda, à utilização pela autora do termo cientista. Para o leitor desavisado, pode parecer um erro anacrônico, pois tal palavra não existia na época. Contudo, ela a emprega de forma retrospectiva, analisando o papel do estudioso na época em que atuou, e inserindo sua atividade profissional num determinado contexto econômico, político e social.

A leitura do livro de Clarete flui de forma bastante agradável, tanto para iniciados quanto para leigos. Ela conhece o tema e a língua em que escreve, e apresenta seus pontos de vista sem rodeios. A obra representa contribuição importante para o estudo das práticas científicas no Brasil do final do século XVIII e início do XIX, insurgindo-se assim contra uma visão historiográfica corrente que ignora a produção científica no Brasil, antes do século XX, e seu maior mérito consiste em mostrar como se produzia ciência no período colonial e como se dava a inserção do cientista em sua sociedade.

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