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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.10 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702003000200019 

TESES

 

Do papel ao digital: a trajetória de duas revistas científicas brasileiras

 

 

Ruth B. Martins

Dissertação de mestrado, fevereiro de 2003. Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) / Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ). Pós-Graduação em Ciência da Informação. rmartins@coc.fiocruz.br

 

 

O desenvolvimento das tecnologias eletrônicas de informação e comunicação foi o motor central da transfiguração sofrida pelo capitalismo na passagem do século XX para o XXI. Proliferam interpretações sobre o período, que dependem da ênfase a uma ou outra dimensão da complexa trama deste fim-começo de milênio. As análises vão da crítica ácida ao sistema econômico a visões mais otimistas quanto às perspectivas da "sociedade em rede", segundo expressão cunhada por Manoel Castells. Civilização "planetária" é como Otávio Ianni qualifica o momento modelado, segundo Laymert Garcia dos Santos, pela tríplice aliança capital-ciência-tecnologia.

As conclusões a que chegam esses e outros autores são muitas vezes antagônicas, mas parece existir entre eles o consenso de que, a partir da década de 1990, as tecnologias de informação estiveram na base das mudanças por que vem passando o capitalismo. Daí o uso da expressão "sociedade da informação", que define a sociedade capitalista contemporânea por uma ótica específica: a informação flui a velocidades e com alcance até há pouco tempo inimagináveis, por intermédio de redes de computadores que interligam países e continentes inteiros. Informação transformou-se em mercadoria paradoxal: mais disponível e, no entanto, valorizada como nunca foi, vulgarizada e ao mesmo tempo sofisticada, de âmbito cada vez mais universal e ainda assim fomentando a concentração de poder e dos monopólios.

As transformações causam perplexidade e atingem a sociedade em suas dimensões econômica, política, social e cultural. Como afetam as comunidades científicas e influenciam suas formas de comunicação?, é a pergunta que me fiz. As instituições de pesquisa foram as primeiras a experimentar as novas tecnologias, e aos cientistas coube inaugurar as redes de computadores para acelerar e ampliar a troca de informações e conhecimentos.

O tema que escolhi para dar início a meu percurso foi a transição do papel para o meio eletrônico nas revistas científicas, fixando-me em dois prestigiados periódicos brasileiros, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e Cadernos de Saúde Pública. Procurei verificar como vêm atravessando a transição desde 1997, quando suas versões impressas passaram a conviver com as réplicas veiculadas na Internet. Com isso, espero ajudar a explicar como são enfrentadas, no dia-a-dia, questões muitas vezes polêmicas que envolvem a publicação de artigos originais em determinadas comunidades de cientistas.

Memórias do Instituto Oswaldo Cruz começou a circular em 1909; Cadernos de Saúde Pública, em 1985. Ambas surgiram em momentos marcantes da Fundação Oswaldo Cruz.

A mais antiga do país entre as revistas biológicas e biomédicas em circulação, Memórias do Instituto Oswaldo Cruz foi concebida pelo patrono da instituição que a abriga. Atualmente, é reconhecida internacionalmente por veicular artigos originais resultantes de pesquisas relacionadas com medicina tropical, parasitologia médica e veterinária, microbiologia médica, bioquímica, imunologia, biologia molecular e celular, fisiologia, farmacologia, genética etc. Cadernos de Saúde Pública, por sua vez, veicula artigos científicos resultantes de projetos e pesquisas em saúde pública, com destaque para a epidemiologia médica.

A revisão pelos pares, a propriedade intelectual e as revistas eletrônicas são questões polêmicas examinadas no primeiro capítulo. No segundo, sobre a difusão da literatura por indexadores de periódicos, mostro que os índices bibliográficos surgiram no final do século XIX. Traço um panorama histórico dos serviços de disseminação da literatura científica, suas peculiaridades e contradições, tomando o projeto SciELO como base para uma discussão. Para facilitar a busca por referências, atualmente os indexadores constituem bases de dados eletrônicas, acessíveis na Internet. Se, por um lado, alavancaram a universalização de dados, por outro, impõem critérios cada vez mais rígidos para a inclusão de títulos nesses serviços. Tais critérios disseminam tensão entre os envolvidos no processo de produção e divulgação de conhecimentos. Em geral, os títulos beneficiados acabam sendo aqueles publicados em inglês, em países de maior tradição científica. Inaugurado em 1997, o SciELO representa uma alternativa para a América Latina aos serviços prestados pelo Institute for Scientific Information (ISI), o indexador de maior prestígio no mundo, e o que desperta mais polêmicas.

No terceiro capítulo, faço uma radiografia de Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e dos Cadernos de Saúde Pública, destacando os mesmos tópicos em cada periódico de maneira a permitir comparações. Percebe-se como foram se modificando ao longo do tempo as relações de trabalho no cotidiano das redações das duas revistas. Mostro o trajeto percorrido pelos originais submetidos à publicação, faço uma exposição sobre como evoluíram os conteúdos e a apresentação gráfica das revistas, sobre a crescente tendência a impor a autoria múltipla, e ainda apresento tabelas e gráficos que espelham a procedência dos artigos nos últimos anos. A distribuição por assinaturas e permutas dos exemplares em papel é a forma tradicional de divulgar as revistas. Nos anos 1990, começaram a ser referenciadas em bases de dados bibliográficos e indexadores digitais de literatura científica. Em 1997, ganharam edições eletrônicas, de acesso gratuito.

As mudanças apenas começaram e as possibilidades abertas pelas tecnologias de informação, ainda que contraditórias, são vistas.

 


 

A guerra da imagem: iconografia da guerra do Paraguai na imprensa ilustrada fluminense

 

 

Pedro Paulo Soares

Dissertação de mestrado, 2003. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Programa de Pós-Graduação em História Social Instituto de Filosofia e Ciências Sociais.Museu da Vida da Casa de Oswaldo Cruz. E-mail: pedros@coc.fiocruz.br

 

 

A guerra do Paraguai pode ser considerada um marco do surgimento do sentimento de nacionalidade. Pela primeira vez na história do Brasil, a quase totalidade da população viu-se envolvida num conflito de longa duração contra um inimigo comum, estrangeiro, o que mobilizou material e emocionalmente os brasileiros. No mundo da cultura, uma intensa produção artística e intelectual foi resultado direto da guerra, e a imprensa desempenhou, nesse contexto, papel fundamental de produção e disseminação de imagens que retratavam aspectos diversos do conflito.

A imprensa fluminense realizou a cobertura da guerra servindo-se da colaboração semi-profissional de correspondentes — militares ou homens de negócio que se encontravam na frente de batalha ou na sua retaguarda imediata. As notícias chegavam às redações por meio dos correios, do telégrafo e do tráfego de navios entre o rio da Prata e a Corte. A divulgação das notícias pelo país contava com recursos de incipientes redes de comunicação, formadas por jornais das províncias.

Neste trabalho, destacamos a imprensa ilustrada do Rio de Janeiro, especialmente como produtora de imagens relativas à guerra e ao cenário político do país, das quais distinguiram-se tanto alegorias como figuras reais. A análise da trajetória de dois artistas estrangeiros radicados no Brasil — Henrique Fleiuss e Angelo Agostini — e de sua atuação em periódicos na época da guerra do Paraguai permitiram a identificação de núcleos distintos de produção de imagens e representações. Do mesmo modo, o estudo do caso da voluntária Jovita Alves Feitosa, veiculado através dos periódicos do Norte e da Corte, possibilitou avaliar a importância da imprensa na construção dos símbolos nacionais que a guerra ensejou.

 


 

A preservação da memória científica da Fiocruz: a visão de quem faz ciência

 

 

Verônica Martins de Brito

Dissertação de mestrado em ciência da informação, 2002. UFRJ/ECO; CNPq/IBICT. Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz. E-mail: verbrito@coc.fiocruz.br

 

 

Estudo exploratório qualitativo que, através de entrevistas informais e observação direta, aborda o tema da memória científica e sua preservação a partir das concepções, práticas e intenções de um grupo de pesquisadores de uma instituição específica: a Fundação Oswaldo Cruz. Em linhas gerais, esta dissertação aborda as seguintes questões: como o valor conferido pelos pesquisadores à memória científica e a suas práticas interferem na gestão dos documentos da instituição; qual o nível de autonomia do pesquisador na organização e destino da documentação; qual a importância que o pesquisador atribui à documentação produzida e acumulada por ele ao longo de sua prática de pesquisa; e como esta documentação é organizada e conservada em seus vários suportes. O olhar sobre as visões, representações, entendimentos e práticas destes pesquisadores nos possibilitou vislumbrar possíveis ações estratégicas visando sensibilizá-los para que participem de ações voltadas para a preservação e construção da memória institucional.

A dissertação aborda, também, as seguintes questões: "memória, identidade e história", "memória científica" e "arquivo, memória e informação".

 


 

A ilustração: sua importância na botânica e na arte

 

 

Paulo Ormindo

Dissertação de mestrado, 2002. Universidade Federal Fluminense Instituto de Arte e Comunicação Social. Programa de Pós–Graduação em Ciência da Arte. E-mail: pormindo@uol.com.br

 

 

Este trabalho analisa a ilustração botânica como forma de expressão artística e científica. Pode uma ilustração botânica ser considerada uma obra de arte? A arte e ciência coabitam o mesmo espaço?

Para elucidar tais questões dentro de uma visão naturalista e romântica na história e crítica da arte, buscam-se os primeiros relatos ilustrados de plantas, seu surgimento desde a Antiguidade, passando pela Europa e Brasil com os viajantes naturalistas. Examino processos e técnicas de reprodução usadas em ilustração para entender o fazer artístico/científico e científico/artístico; examino também alguns dos mais importantes vultos nas artes e ciências dos séculos passados, artistas/cientistas e cientistas/artistas, como Da Vinci, Dürer, Lineu, Brunfels e Martius. Em seguida, evidencio a trajetória de dois grandes expoentes no Brasil dos séculos XIX e XX.

Um é João Barbosa Rodrigues (1842-1909), cientista ilustrador que dedicou sua vida à pesquisa científica das espécies botânicas nativas do Brasil, em especial as orquídeas e as palmeiras. Preocupado com a representação científica, transitou pela arte ilustrando pessoalmente as plantas usadas em suas pesquisas.

A ilustradora científica inglesa Margaret Mee (1909-88) morou no Brasil e desbravou a selva em 15 expedições à Amazônia, no período de 1956 a 1988. Através da arte contemplou a ciência registrando a beleza das flores. Suas ações foram, também, pela preocupação com as agressões humanas indiscriminadas ao meio ambiente.

As orquídeas, principal objeto de estudo científico de Barbosa Rodrigues e artístico de Margaret Mee, e outras famílias botânicas pintadas e desenhadas por ambos, são aqui amplamente representadas como elemento de estudo para a ciência e objeto estético para a arte.

Discuto a importância do desenho botânico nos dias atuais, a formação e qualificação de ilustradores botânicos e o surgimento de uma corrente artística que aborda temas da natureza, produzindo registros de valor para a ciência de espécies quiçá extintas. Mais do que entender a importância da ilustração na botânica e na arte, minha intenção é demonstrar que ciência é arte e arte é ciência.

 


 

Entre o laboratório, o campo e outros lugares: gênese documental e tratamento técnico em arquivos de cientistas

 

 

Paulo Roberto Elian dos Santos

Dissertação de mestrado, fevereiro de 2003. Programa de Pós-Graduação em História Social. Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas Universidade de São Paulo. E-mail: elian@coc.fiocruz.br

 

 

Este estudo tem como objetivo discutir os padrões de constituição e os proce-dimentos de organização de arquivos de cientistas e propor uma abordagem inovadora que possa contribuir, através do estabelecimento de conexões entre a teoria e a prática, para a proposição de novos métodos de tratamento arquivístico. Com base na premissa de que tais arquivos guardam especificidade frente a outros conjuntos documentais, especificidade esta referente à natureza da prática científica, considera-se que os critérios metodológicos de organização desse tipo de acervo devam ser renovados. Para tanto, buscamos uma revisão da literatura arquivística no campo da classificação, e procuramos nos apoiar nos estudos sociais da ciência em sua vertente construtivista, representada principalmente pelos trabalhos de Bruno Latour.

Como objeto de análise, tomamos o arquivo de Rostan Soares (1914-96), médico sanitarista e pesquisador com larga experiência na área dos estudos voltados para o combate de doenças endêmicas, em especial a malária.

A partir do problema que envolve a organização dos arquivos de cientistas, pretendemos demonstrar a hipótese de que os procedimentos de classificação, formulados a partir das funções e atividades e da inserção institucional que demarcam a trajetória dos cientistas, proporcionam a contextualização documental e a expressão plena da atividade científica ali presente.

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