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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.12 no.3 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702005000300020 

IMAGENS

 

Símbolo do coração

 

The heart as symbol

 

 

Paulo R. Prates

Cirurgião cardiovascular Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul Fundação Universitária de Cardiologia (FUC) Av. Princesa Isabel, 370 90620-001 Porto Alegre – RS – Brasil editoracao-pc@cardiologia.org.br, pesquisa@cardiologia.org.br

 

 


RESUMO

A simbologia foi criada pelo homem pela necessidade de expressar através de objetos ou formas sua religião ou sua arte visual. Muito antes da descoberta da função de bomba impulsionadora do sangue, o coração foi tido como centro da vida, da coragem e da razão. Seu símbolo é o mais universal. De onde, e, quando, surgiu essa representação, sempre despertou a curiosidade dos historiadores, vez que pouco tem a ver com o coração anatômico. Para alguns, sua origem deve-se à semelhança com a folha da hera, que na Antiguidade representava o símbolo da imortalidade e do poder. Abordamos a curiosa origem do símbolo e a finalidade para a qual foi criado.

Palavras-chave: história da medicina; simbolismo; coração.


ABSTRACT

Man created symbols because he needed to express his religion or visual art through objects or shapes. Much before the heart's role in pumping blood was discovered, the organ was seen as the center of life, of courage, and of reason. It is the most universal of symbols. Historians have always been curious as to how and whence this representation appeared, since it has little to do with the anatomical organ. For some, the origin lies in the heart's resemblance to an ivy leaf, which in ancient times was a symbol of immortality and power. The article explores the curious origin of this symbol and the reason it came into being.

Keywords: history of medicine; symbolism; heart.


 

 

O homem sempre teve a necessidade de criar símbolos, transformando, inconscientemente, objetos ou formas que passam a fazer parte de sua religião ou de sua arte visual. Eles foram, e, quem sabe ainda são, fatores complementares para o entendimento do mundo que nos cerca.

Erich Fromm (1900-1980) distingue os símbolos em convencionais ou acidentais e universais (Nager, 1993). Os símbolos convencionais teriam a simples função informativa, enquanto os universais, um sentido mais amplo e profundo. Os símbolos universais certamente são os mais curiosos.

Muito antes da descoberta da função de bomba impulsionadora do sangue, o coração foi tido como centro da vida, da coragem e da razão. Seu símbolo é o mais universal dos símbolos. De onde, e, quando, surgiu essa representação, sempre despertou a curiosidade dos historiadores, vez que pouco tem a ver com o coração anatômico. Para alguns, sua origem deve-se à semelhança com a folha da hera, que na Antiguidade representava o símbolo da imortalidade e do poder. A seu turno, Plutarco (46-120 d.C.), na obra sobre o mito de Isis e Osiris no Egito, assevera que o pessegueiro era dedicado a esses deuses, por ter seu fruto, a forma do coração (Vinken, 2000). Em conseqüência, a representação anatômica desse órgão conservou durante muitos anos a forma ovalada da fruta.

A palavra coração deriva do grego e do latim cor. Ambas têm origem na palavra kurd do sânscrito, que significa saltar (Nager, 1993; Boyadjian, 1980; Acierno, 1994).

A mais antiga representação do coração, de que se tem conhecimento, data de 1200 a.C. Trata-se de um vaso da cultura Olmeca do México, provavelmente usado nos sacrifícios humanos desse povo. O vaso tem a forma grosseira do coração com os três vasos originando-se em sua base (Vinken, 2000) (Fig. 1).

 

 

No tempo dos babilônios houve um esforço por aqueles que praticavam a medicina, em separar os conhecimentos médicos, da magia e da religião, como comprovam os documentos em escrita cuneiforme encontrados nas ruínas do palácio de Assurbanipal (669-633 a.C.). O coração foi estudado e descrito, não se distinguindo as artérias das veias, contudo, faziam-se referências ao sangue arterial como sangue 'do dia', e ao sangue venoso como sangue 'da noite' (Acierno, 1994).

Os egípcios tinham particular respeito pelo coração. Acreditavam que ele seria necessário na vida além da morte, quando seria pesado e comparado ao peso de uma pena, como demonstra o papiro do Livro da Morte (Lyons & Petrucelli, 1978) (Fig. 2). Apesar disto, nunca foi representado por aquela civilização. O que existiam eram recipientes com sua forma, onde seria preservado. Muitos desses recipientes lembravam a forma do coração real, fato que levou a escrita hieroglífica a usar a aludida forma significando coração (Vinken, 2000; Scott & Scott, 1968) (Fig. 3).

 

 

 

 

Um papiro descoberto em Tebas no ano de 1862 e que leva o nome de seu descobridor, Edwin Smith, é atribuído a Imhotep, considerado o primeiro médico conhecido na história, e data de 3000-2500 a.C. Nele o coração é descrito como o centro de um sistema de vasos que se estendiam para a periferia do corpo, sem fazer referência ao que estes distribuíam. Nele também encontramos uma correlação direta entre o pulso e a função do coração (Acierno, 1994).

Embora com base na cultura dos babilônios e dos egípcios, os gregos logo estabeleceram sua independência de pensamento, particularmente na abordagem das doenças, separando-as dos aspectos mágicos e religiosos presentes em seu tratamento pelos sacerdotes. A escola hipocrática, quatrocentos anos antes de Cristo, descreve o coração como uma massa muscular firme, ricamente suprida por fluidos. Sua forma é descrita como a de uma pirâmide e ele é envolto por uma membrana, onde se encontra uma pequena quantidade de líquido semelhante à urina. Identificam-se quatro cavidades. A válvula aórtica é mostrada abrindo em uma só direção, e pelo seu formato é denominada de válvula sigmóide. A válvula pulmonar, por seu formato, também é chamada de sigmóide 4. Aristóteles (384-322 a.C.) em sua obra História dos animais o descreve assim: "o coração tem três cavidades ... sua forma não é alongada mas arredondada, tendo a forma de ponta no seu fim ... tem três cavidades, a maior no lado direito, a menor à esquerda e a de tamanho médio no meio..." (Nager, 1993; Vinken, 2000).

Com o surgimento do Cristianismo, o coração e seu símbolo tomam uma nova dimensão. O apogeu coincide com o culto ao Sagrado Coração de Jesus, ligado ao calvário quando a lança do centurião romano atravessa o tórax de Cristo na cruz. São João descreve essa ferida como o coração trespassado de Jesus, o Salvador, que derramou seu sangue pela salvação dos homens. Para os primeiros cristãos o Coração de Jesus se tornou o símbolo da bondade e da caridade cristãs (Boyadjian, 1980) (Fig. 4).

 

 

Em 1911, o abade francês Henri Breuil encontrou em uma caverna na Espanha uma pintura da era paleolítica representando um elefante. O pesquisador se refere a "uma larga mancha, mais ou menos com a forma de um coração, situada na porção mediana do corpo, representando a orelha do animal" (Lyons & Petrucelli, 1978) (Fig. 5). Alguns historiadores, entretanto, baseados em outra pintura pré-histórica encontrada na França, afirmam que o objetivo de quem pintou o elefante seria mostrar o seu ponto mais vulnerável: o coração. Nessa pintura existe a mesma mancha, com a mesma forma sendo atingida por três flechas, não restando dúvidas de que este seria o ponto a ser atingido quando da caça ao elefante. Caso fosse considerada verossímil tal assertiva, ter-se-ia na era paleolítica a origem do símbolo.

 

 

O coração, inicialmente representado na forma arredondada de um pêssego, aparece pela primeira vez na forma atual, com uma ranhadura ou indentação na parte superior, num trabalho de anatomia escrito por Vigevano em 1347 (Vinken, 2000).

O grande progresso no conhecimento anatômico após o ano 1500 levou à aceitação da indentação e da forma convexa do símbolo.

A presença do símbolo nas cartas do baralho também é um fato curioso. Ela é atribuída aos franceses. Coeur em francês deu heart em inglês e hertz em alemão. No entanto, esse naipe é conhecido por copa em espanhol, coppa em italiano e copas em português, do latim vulgar cuppa, 'taça'. O que parece é que inicialmente os naipes franceses simbolizavam as classes sociais: as espadas e as lanças, a nobreza; o trevo de paus o campesinato; o ladrilho, carreau (quadrado em francês), diamond (losango em inglês) e 'ouros' em português, a classe dos comerciantes, e as 'copas' (taças) representavam o clero, gens de choeur. Choeur tornou-se coeur, vindo daí o símbolo do coração nas cartas (Boyadjian, 1980; Enciclopedia Mirador Internacional, 1982) (Fig. 6).

 

 

Nos dias de hoje, isolado ou atravessado pela flecha de Cupido, representa mais do que o órgão coração. Simboliza, universalmente, o amor (Boyadjian, 1980) (Fig. 7).

 

 

Não deixa de ser curiosa a origem do símbolo e a finalidade para a qual foi criado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Acierno, Louis J. 1994 The History of Cardiology. New York: The Parthenon Publishing Group.        [ Links ]

Boyadjian, Noubar 1980 El Corazón. Brepols, Antwerpen: Ed. Esco.        [ Links ]

Enciclopedia Mirador Internacional 1982 São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil.         [ Links ]

Scott, Joseph; Scott, Lenore 1968 Egyptian Hieroglyphs. New York: Barnes and Noble.         [ Links ]

Lyons, Albert S.; Petrucelli, R. Joseph 1978 Medicine An illustrated History. New York: Abrams Inc.         [ Links ]

Nager, Frank 1993 The Mythology of the Heart. Basel: Ed. Roche.        [ Links ]

Vinken, Pierre 2000 The shape of the heart. Amsterdam: Elsevier.        [ Links ]