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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos v.14 n.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702007000100019 

LIVROS & REDES

 

Sobre a história das culturas científicas

 

On the culture of science history

 

 

Mauro Lúcio Leitão CondéI; Regina Horta DuarteII

IProfessor Adjunto do Departamento de História, FFCH/UFMG Av. Professor Antônio Carlos, 6627, campus Universitário, Pampulha 31270-901 Belo Horizonte – MG – Brasil mauro@fafich.ufmg.br
IIProfessora Adjunta do Departamento de História, FFCH/UFMG Av. Professor Antônio Carlos, 6627, campus Universitário, Pampulha 31270-901 Belo Horizonte – MG – Brasil reginahd@uai.com.br

 

 

Os estudos de história da ciência têm ocupado um espaço cada vez maior nos círculos acadêmicos brasileiros, com destaque para a crítica de uma visão tradicionalista, na qual prevaleciam as biografias elogiosas de grandes gênios e/ou narrativas de descobertas e invenções progressivas a desaguar em pretensas certezas do presente. Novas perspectivas têm sido exploradas na construção da história das ciências no Brasil, não só pela produção expressiva de livros, revistas (como é o caso de História, Ciências, Saúde – Manguinhos), dissertações e teses em programas de pós-graduação, mas também pela troca profícua de experiências e debates por ocasião de eventos, tais como os seminários organizados pela Sociedade Brasileira de História da Ciência.

Nesse contexto, é compreensível o interesse crescente dos estudiosos brasileiros acerca de publicações internacionais diretamente dedicadas ao tema da história da ciência. A busca de um diálogo pluralista e multicultural – do qual possa emergir uma análise densa e dinâmica da ciência como uma prática social e historicamente constituída – possibilita-nos um conhecimento mais amplo das especificidades do fazer científico em diferentes espaços e temporalidades.

Essas considerações justificam a presente resenha acerca de uma nova revista européia dedicada ao estudo da história da ciência, Jahrbuch für Europäische Wissenschaftskultur (Yearbook for European Culture of Science), editada pela Steiner, em Stuttgart, Alemanha. O periódico tem freqüência anual (consultar www.steiner-verlag.de) e seus artigos são publicados em alemão, italiano, francês e inglês. Os editores pertencem a renomadas instituições européias: Olaf Breidbach, do Institut für Geschichte der Medizin, Naturwissenschaft und Technik Friedrich-Schiller-Universität Jena (Olaf.Breidbach@uni-jena.de), e Stefano Poggi, do Dipartimento di Filosofia della Università degli Studi di Firenze (poggi_s@philos.unifi.it).

Mesmo considerando a sociedade ocidental contemporânea como baseada no conhecimento e na informação, além de auto-identificada com um perfil intercultural e transnacional, Jahrbuch für Europäische Wissenschaftskultur aponta como as bases da cultura científica atual permanecem, muitas vezes, emolduradas pelas mesmas tradições iluministas de um contínuo progresso em direção a um estágio superior de caráter a-histórico, em um mero desenrolar linear de verdades. Entretanto, argumenta-se como o fazer científico constituiu-se crescentemente amalgamado à política e à economia à medida que a sociedade ocidental lançou mão da ciência e da tecnologia como a pedra fundamental de sua existência. Em tais circunstâncias, "os lugares de comunicação científica são também locais de comunicação política".

É no seio dessa dinâmica entre ciência e sociedade que Jahrbuch für Europäische Wissenschaftskultur pretende situar seus debates. Privilegiando abordagens comparativas, a revista deseja traçar "os caminhos ao longo dos quais se delinearam as estruturas básicas da cultura da ciência européia". Seus conteúdos dedicam-se à análise das interdisciplinaridades e das conexões entre lugares de conhecimento, à compreensão das inter-relações entre locais de comunicação e lugares de produção, à indagação sobre os efeitos das interpretações nacionais e das integrações transnacionais na identidade de uma cultura científica. Destacam-se, especialmente, as redes históricas, estruturais e culturais nas quais a cultura da ciência evolveu e nas quais se delinearam interações entre variadas disciplinas.

O primeiro volume, publicado em 2005, traz dez artigos. Os quatro primeiros versam sobre temas diversos. Marco Piazza, filósofo da Università degli Studi di Firenze, aborda alguns desdobramentos das discussões sobre a frenologia no início do século XIX, na França, através da análise dos trabalhos de Maine de Biran (1766-1824), que defendia a existência de relações estreitas entre a fisiologia e a psicologia, assim como entre a medicina e a metafísica. Lennart Olsson, da Friedrich-Schiller Universität, assina artigo sobre as tendências antidarwinistas na Suécia até meados do século XX, com a ascensão de explicações lamarckistas e de uma morfologia idealista, ambas resultantes da rejeição à seleção natural. Outro texto, de Pauli Ojala, da Finlândia, discute a difusão de Haeckel entre os geneticistas finlandeses e suas repercussões na legislação eugênica daquele país, nas primeiras décadas do século XX. Tomás Hermann, de Praga, analisa a trajetória do zoologista russo Mikhail Novikov (1876-1965) e como o contexto turbulento em que este viveu foi decisivo para os pressupostos básicos de suas investigações biológicas.

Cada volume traz ainda um dossiê temático. O primeiro elegeu o tema das recepções/identidades na história da cultura e da ciência no século XIX. Nesse primeiro dossiê, todos os autores pertencem à Friedrich-Schiller-Universität Jena, o que evidencia como tal debate tem mobilizado as pesquisas sobre história da ciência na Alemanha e como tal conceito tem balizado suas análises. O artigo de Thomas Bach parte de um exemplo concreto, a recepção da obra De l'Allemagne, de Madame de Staël. Jan Frercks analisa a emergência da física como disciplina autônoma na Alemanha em 1800 através das instâncias de recepção de pessoas, temas, leituras, conteúdos, livros didáticos, dicionários e revistas. Katja Regenspurger discute a publicação e o alcance do livro de anatomia do alemão Justus Loders (1753-1832), cujas ilustrações situavam-se entre percepções então tradicionais e padrões científicos inovadores. Gerhard Wiesenfeldt analisa a atuação de Johann Ritter (1776-1810) argumentando que a recepção de seus experimentos foi redimensionada pela Naturphilosophie, com significativas conseqüências para os discursos científicos e para a historiografia da ciência. Finalmente, Olaf Breidbach utiliza-se de conceitos foucaultianos para descrever e analisar as transformações de identidades e percepções científicas ao longo do tempo.

O segundo volume mantém o espaço para um dossiê temático concentrado na Teoria Evolucionista, em suas recepções, releituras, apropriações e rejeições. Há contribuições da Itália, França, Alemanha e Brasil. A presença de um artigo (de um dos autores desta resenha, Regina Horta Duarte) sobre antidarwinismo no Brasil nas primeiras décadas do século XX e suas relações com o contexto político – assim como sobre as curiosas recepções e desdobramentos das leituras de Lamarck, Haeckel e Mendel entre os cientistas do Museu Nacional – demonstra a franca disposição do periódico ítalo-alemão em travar diálogos e estabelecer espaços para a análise de práticas científicas fora do circuito da Europa, certamente em intenso contato com os debates ali delineados. Assim, Jahrbuch für Europäische Wissenschaftskultur é um veículo possível para as publicações de outros pesquisadores brasileiros e para a divulgação de suas reflexões sobre a ciência feita no Brasil. Completam esse número outros interessantes artigos, um dos quais sobre os aspectos psicológicos da obra do cientista russo Lev Vygotsky, e outro sobre a geografia árabe.

Um periódico como Jahrbuch für Europäische Wissenschaftskultur – cuja proposta é a análise das inter-relações culturais entre o conhecimento e as sociedades, das suas produções, da circulação de idéias e conceitos, da recepção das ciências produzidas na Europa — emerge como foco de interesse para todos os que se dedicam à história da ciência. Certamente a compreensão da dinâmica de constituição de uma cultura da ciência ocidental apresenta-se decisiva para nossos debates sobre a construção de uma cultura científica no Brasil.

Jahrbuch für Europäische Wissenschaftskultur é mais uma das inúmeras iniciativas para o estudo da história das ciências na Alemanha. Indubitavelmente, a contribuição da Alemanha para as ciências tem sido muito grande, sobretudo a partir do século XIX. Muitos cientistas alemães de vários campos da ciência se destacaram, entre os quais Justus Lieblig (1803-1873), Hermann von Helmholtz (1821-1894), Ernst Haeckel (1834-1919), Max Planck (1858-1947), Albert Einstein (1879-1955) e Werner Heisenberg (1901-1976), apenas para citar alguns. Um país que tem tanta ciência não poderia ficar indiferente aos espaços editoriais e ao locus institucional para o desenvolvimento dos trabalhos acadêmicos em história, sociologia e filosofia das ciências. Com efeito, sobretudo nas universidades alemãs contemporâneas – mas também em algumas fundações e institutos isolados –, podemos encontrar diversos centros, institutos ou cátedras com esse propósito.

Alguns desses institutos e centros dedicados à história das ciências constituíram-se em torno do acervo de importantes cientistas nascidos nas localidades onde se situam as instituições universitárias que os abrigam. O próprio Institut für Geschichte der Medizin, Naturwissenschaft und Technik Friedrich-Schiller-Universität Jena (Instituto para a história da medicina, ciência natural e técnica da Universidade Friedrich-Schiller de Jena), ao qual pertence Olaf Breidbach, um dos editores do Jahrbuch für Europäische Wissenschaftskultur, está diretamente vinculado à Casa de Ernst Haeckel (www2.uni-jena.de/biologie/ehh/haeckel.htm), um dos institutos de história da ciência mais antigos da Alemanha.

A Casa de Ernst Haeckel

Essa casa, que preserva a memória do ilustre cientista, tem uma dupla função: como museu e como instituto de pesquisa em história da ciência. Sua sede é a casa onde morou Haeckel, na rua Berggasse n0 7, em Jena. Haeckel construiu essa casa em estilo campestre italiano (1882-1883) e nela viveu até a sua morte, em 9 de agosto de 1919. Sua carreira estendeu-se por quase sessenta anos e fez de Jena o principal centro do darwinismo na Alemanha. Mais que isso, fez de Haeckel parte da história do próprio darwinismo. Da mesma forma, outros institutos e centros de história da ciência na Alemanha originaram-se de homenagens a importantes cientistas. Com efeito, esses institutos nem sempre estão ligados diretamente a departamentos de história, mas às áreas de conhecimento que são objeto de suas pesquisas históricas, embora procurem trabalhar não apenas com historiadores profissionais, mas com o profundo rigor das ciências da história.

Seguindo essa tendência, em 1994 a Sociedade Max-Planck1 Para o Progresso da Ciência, uma importante agência promotora de pesquisas na Alemanha, criou o Max-Planck-Institut für Wissenschaftsgeschichte (Instituto Max Planck para a História da Ciência) (www.mpiwg-berlin.mpg.de/en/index.html) – com sede em Berlim –, separadamente de seu Max-Planck-Institut für Geschchite (Instituto Max Planck Para a História) (www.geschichte.mpg.de) – com sede em Göttigen –, existente desde 1956. O Instituto Max Planck para a História da Ciência recebe pesquisadores do mundo inteiro para estadias variadas: desde poucos meses até alguns anos em estágio pré e pós-doutoramento (não há a modalidade doutoramento). As pesquisas desenvolvidas em Berlim contemplam os estudos históricos de diversas áreas científicas.

Na área das ciências da vida muitos projetos estão sendo desenvolvidos, entre eles o projeto Uma História Cultural da Hereditariedade, que aborda a hereditariedade para além das concepções históricas tradicionais que se centram na história das idéias. O propósito desse projeto é a elaboração de um estudo da hereditariedade em seu contexto social, procurando focar os diversos domínios nos quais o conhecimento da hereditariedade apareceu, para além de uma dimensão meramente teórica, isto é, através de procedimentos técnicos, práticos e institucionais. Essa dimensão pragmática do fazer transcenderia, assim, a história da disciplina genética, procurando entender a hereditariedade como, mais que uma disciplina, uma prática cultural.

Ainda no que diz respeito ao estudo da história das ciências da vida, vale destacar o grande número de institutos e centros voltados para a história da medicina (cerca de vinte) na Alemanha. Como exemplo, o Instituto de História da Medicina da Universidade Justus Liebig, em Giessen (www.med.uni-giessen.de/histor/), cujos pontos fortes de pesquisa são a história da psiquiatria nos séculos XIX e XX; genética humana e eugenia no século XX; cooperação intercultural na esfera da saúde (América Latina e Alemanha: medicina de imigrantes) e história da medicina na América Latina.

Podemos citar ainda o Instituto de História e Ética da Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Colônia (www.uni-koeln.de/med-fak/igem), o Instituto de História e Ética da Medicina da Universidade Friedrich-Alexander de Erlangen-Nürnberg (www.gesch.med. uni-erlangen.de), o Instituto de História da Medicina do Charité Centrum em Berlim (www.charite.de/medizingeschichte/index.htm), o Instituto de História da Medicina da Universidade Albert-Ludwig de Freiburg (www.igm.uni-freiburg.de/) e o Instituto de História da Medicina da Universidade Ruprecht-Karl em Heidelberg (www.medgesch.uni-hd.de/), entre outros.

A Alemanha é hoje um país importante no desenvolvimento dos estudos em história das ciências com alta qualidade acadêmica, o que Jahrbuch für Europäische Wissenschaftskultur vem atestar. Esperamos que a comunidade de pesquisadores brasileiros possa, apesar da dificuldade relacionada ao idioma, encontrar cada vez mais o diálogo com os pesquisadores alemães.

 

 

1 A sociedade Max Planck, que homenageia o ilustre físico falecido em 1947, foi fundada em 1948 como sucessora da Sociedade Kaiser Wilhelm.

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