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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970
On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.15 no.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702008000400011 

ANÁLISE

 

Juliano Moreira e a Gazeta Medica da Bahia*

 

 

Ronaldo Ribeiro JacobinaI; Ester Aida GelmanII

IProfessor da Faculdade de Medicina/ Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Medicina da Bahia. Mestrado Saúde Ambiente e Trabalho. Largo do Terreiro de Jesus. 40025-010 Salvador - BA - Brasil. jacobina@ufba.br
IIMestre em Ensino, Filosofia e História das Ciências. Universidade Federal da Bahia. Av. Alm. Marques de Leão, 318/311. 40140-230 Salvador - BA - Brasil. gelmanester@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Estudos recentes sobre Juliano Moreira enfatizam sua obra no Rio de Janeiro (1903-1933), mas o objetivo central deste artigo é descrever sua contribuição na Gazeta Medica da Bahia, em período anterior (1893-1903). Descreve a trajetória dessa revista que serviu de veículo para as pesquisas originais da Escola Tropicalista Bahiana. Apresenta a produção de Moreira na Gazeta, em que ele surge como estudioso nas áreas de dermatologia, sifilografia e parasitologia, tendo identificado, pela primeira vez no Brasil, a leishmaniose cutâneo-mucosa. Nessa época ele também se afirma como professor em neuropsiquiatria, passando a realizar estudos clínicos na área, analisar modelos assistenciais e propor mudanças na assistência médica. Destaca a importância de Moreira não só como colaborador da Gazeta durante uma década, mas também como redator, bem como sua atuação como redator principal (1901-1902).

Palavras-chave: história da psiquiatria; imprensa médica; Gazeta Medica da Bahia; leishmaniose; Brasil.


 

 

A contribuição do psiquiatra Juliano Moreira, nascido em Salvador, em 1873, e falecido na capital federal (Rio de Janeiro) em 1933, vem sendo recentemente resgatada em estudos, como os de Venâncio (jul.-dez. 2004), Oda (dez. 2001), Oda e Dalgalarrondo (dez. 2000), Vasconcelos (1998), Rocha, Pinto e Vieira (1998), Carvalhal (1997), Dalgalarrondo (1996) e a edição em livro da dissertação de 1980 de Vera Portocarrero (2002). Em geral esses estudos dão ênfase à obra e prática desse psiquiatra baiano afrodescendente no seu período no Rio de Janeiro, desde 1903, quando assumiu a direção do Hospital Nacional de Alienados, até o início da década de 1930.

Este artigo é parte de um estudo mais abrangente, com o qual se pretende sistematizar os conhecimentos acerca de sua vida, obra e práticas (médica e acadêmica), desde a elaboração da tese inaugural para a Faculdade de Medicina da Bahia, em 1891, até sua transferência para a capital federal, em 1903. O objetivo central é descrever a contribuição do médico e professor Juliano Moreira para a Gazeta Medica da Bahia, revista considerada um dos patrimônios culturais da história da medicina brasileira, pois serviu de veículo para as pesquisas originais de uma 'associação de facultativos' que ficou consagrada com a denominação de Escola Tropicalista Bahiana (Coni, 1952).

A ênfase dada neste trabalho à produção de Juliano Moreira nesse período baiano se deve não só ao desconhecimento acerca de sua produção nessa época (1891-1903), mas também ao fato de ter sido nela que o estudioso nas áreas de dermatologia (inclusive a sifilografia) e parasitologia fez descobertas originais e firmou-se como especialista e professor em doenças mentais e nervosas, passando a realizar de modo sistemático os estudos clínicos e terapêuticos, analisar modelos assistenciais e propor mudanças na assistência médica e psiquiátrica, além de formular propostas para a legislação referente aos alienados no país.

Seu papel na Gazeta Medica, embora citado, é pouco destacado por seus biógrafos (Peixoto, 1933; Passos, 1975) e menos ainda pelos estudiosos atuais de sua obra que, como já destacamos, costumam referir-se basicamente à produção intelectual de Juliano Moreira depois de sua transferência para o Rio de Janeiro.

Este artigo estrutura-se em duas partes: na primeira, descrevemos de modo sucinto a trajetória da Gazeta Medica da Bahia, revista médica de vida longa, cuja história sempre que possível deve ser relembrada para as novas gerações, em particular nela própria, nesse seu atual renascimento; na segunda parte, descrevemos o papel de Juliano Moreira na revista, não só como colaborador, mas também como redator e até mesmo como redator principal, o que julgamos ser uma descoberta histórica original.

 

Uma associação de facultativos e a Gazeta Medica da Bahia

Em 1865, um grupo de médicos resolveu formar uma associação em Salvador, Bahia, para "praticar assuntos científicos". Eles assumiram o compromisso de reunir-se duas vezes por mês à noite. Um dos fundadores dessa "associação de facultativos", o doutor José Francisco da Silva Lima, escreveu sobre esse período inicial duas décadas depois, lembrando que as palestras aconteciam ora na casa de John Ligertwood Paterson, autor da idéia de criação dessa sociedade médica, ora na casa dos outros sócios, que eram inicialmente sete, embora apenas seis tenham chegado a participar das sessões. John Paterson e Silva Lima, já referidos, formavam juntamente com Otto Edward Henry Wucherer a tríade mais famosa da medicina tropical na Bahia. Eram os três estrangeiros: Paterson, escocês, e os outros dois portugueses. Wucherer, natural do Porto, tinha ascendência paterna alemã, influência determinante na sua formação como médico. Os outros quatros eram os professores Antônio José Alves (cirurgia) e Antônio Januário de Faria (clínica médica), além dos médicos Manuel Maria Pires Caldas (cirurgião) e Ludgero Rodrigues Ferreira (clínico), que nunca participou das sessões por ter adoecido e logo depois falecido.

Os assuntos eram diversos e, muitas vezes, fortuitos, segundo o testemunho de Silva Lima, em "Escritos médicos do dr. J.L. Paterson", de 1886. Nesse registro, diz Silva Lima: "não havia estatutos, nem programmas, nem formulas de discussão, nem relatorios, nem actas; ninguem alli tinha por obrigação fazer ou dizer coisa alguma em tempo, modo e materia determinados; mas quando, como e o que queria ou podia" (citado em Fonseca, 1898, p.251; Pacífico Pereira, 1916, p.4).

O coordenador do grupo, John Paterson, era muito respeitado por ter sido aquele que, enfrentando contestações dos próprios médicos, estabeleceu, juntamente com Wucherer, o diagnóstico e o caráter contagioso das epidemias de febre amarela, em 1849, e de cólera-morbo, em 1855.

Foi no seio dessa sociedade - a qual aderiram outros médicos, inclusive estrangeiros como Thomas W. Hall - que nasceu o 'pensamento progressista' de criar-se na Bahia um periódico médico, sendo o autor da proposta o professor Januário de Faria (Pacífico Pereira, 1916, p.253). Os sócios ativos se cotizaram para fazer face às despesas e no dia 10 de julho de 1866 publicaram o primeiro número da Gazeta Medica da Bahia. Quando este saiu já tinha falecido o médico Ludgero Ferreira e, antes dele, o professor Antônio José Alves (1818-1866).

A criação da revista foi uma conseqüência lógica das reuniões científicas, pois embora fortuitas foram gerando a necessidade do registro das experiências e trocas de idéias. Nas primeiras páginas do número de lançamento da Gazeta Medica da Bahia, seus objetivos são explicitados na Introdução - que não é assinada, sendo a autoria atribuída por alguns ao 'diretor' Virgílio Damásio, mas que, pelo estilo, claramente nos parece ser de Silva Lima, seu verdadeiro diretor e principal redator (Figura 1)1:

Concentrar, quando for possível, os elementos activos da classe medica, afim de que, mais unidos e fortificando-se mutuamente, concorram para augmentar-lhe os créditos, e a consideração publica; diffundir todos os conhecimentos que a observação própria ou alheia nos possa revelar; acompanhar o progresso da sciencia nos paizes mais cultos; estudar questões que mais particularmente interessam ao nosso paiz; e pugnar pela união, dignidade e independência da nossa profissão (Introdução, 1866, p.3).

 

 

Uma questão que nenhum documento registra com clareza foi o critério de escolha do diretor da revista. O nome escolhido não foi nenhum dos cinco sócios fundadores, e sim o do professor Virgílio Clímaco Damásio, da cadeira de medicina legal. O professor Luiz Anselmo da Fonseca (1898, p.253) comentou deste modo tal indicação: "Foi encarregado da direcção do periodico o Sr. Dr. Virgilio Damazio, hoje senador federal e que, por longos annos, illustrou o magisterio publico n'esta Faculdade" .

Teixeira (2002), de acordo com o que insinua Fonseca, formula uma hipótese para essa escolha por um nome que não estava entre os fundadores, além de ter dado pouca colaboração à Gazeta: "Talvez o seu prestígio de professor de Medicina e político atuante dos mais proeminentes da época" (p.17).

Verificamos que o professor Virgílio Damásio, em 1866, era opositor por concurso de ciências acessórias, tendo chegado a lente (catedrático) apenas em 1876, e seu prestígio como docente ocorreu nos anos 80, sobretudo depois de sua viagem de estudos ao exterior. Moreira (1913), numa conferência sobre as ciências no Brasil, não vincula Damásio à Gazeta, revista que também é objeto de comentários e destaque nessa conferência. Refere que ele foi um dos professores escolhidos pela Faculdade, conforme legislação da época, para viajar à Europa com objetivo de atualização em diversos campos da medicina. Depois de sua viagem, no período de 1883 a 1885, o professor Virgílio Damásio retornou com 'boas idéias', destacando-se as sugestões contidas no seu relatório sobre o ensino de medicina legal (p.46). Num outro artigo, sobre a edição jubilar da Gazeta, Moreira (1918) diz claramente que a direção de Damásio era nominal, "porque o verdadeiro director da Revista era Silva Lima" (p.1). Em relação à trajetória política, seu prestígio foi posterior àquele momento de criação da Gazeta, mas, tendo sido o presidente do Partido Republicano, assumir uma proposta inovadora nos parece orgânico com seu perfil e sua prática, além de ser ele uma pessoa de confiança dos fundadores.

Um registro importante é a incorporação, ao grupo, do estudante Antônio Pacífico Pereira, que em 1867, tendo acabado de deixar 'os bancos escolares', foi o escolhido para suceder Virgílio Damásio na direção da Gazeta (Fonseca, 1898, p.253). Pacífico Pereira ficou no cargo de julho de 1867 até meados de 1870, quando a revista foi suspensa, aparentando seguir o destino de tantas outras 'tentativas malogradas', como está registrado na própria Gazeta (Introdução, 1866, p.1) em sua primeira página, referindo inclusive que "por duas ou trez vezes, n'esta província, se ensaiou a publicação de um periódico, exclusivamente consagrado ás sciencias médicas". Naquele momento, Silva Lima, principal responsável pela revista, não pôde contar com a tenacidade do jovem colaborador, que teve de preparar-se para seu concurso de opositor na Seção de Cirurgia, em 1871, e logo depois obteve o direito de viagem de estudos à Europa. A Gazeta voltou a circular em agosto de 1871, sob direção do professor Demétrio Tourinho, e foi novamente interrompida em julho de 1874, quando o professor assumiu a direção do Asilo São João de Deus (Jacobina, 2001). Parecia que o desaparecimento era o destino inexorável da Gazeta:

Em um meio como o nosso, dotado de fortes qualidades negativas para emprezas do gênero da Gazeta Medica da Bahia, esta teria muito provavelmente continuado a oscillar entre o apparecimento e o desapparecimento, parando, emfim ao menos por longos annos, no ultimo extremo, tendo, assim, a sorte de tentativas análogas que a precederam ou que a succederam (Fonseca, 1898, p.254).

No início de 1876, Pacífico Pereira assumiu novamente a direção, mantendo a revista sem interrupções até 1920, quando adoeceu, vindo a falecer em 1922 (Teixeira, 2002). Foram cinqüenta anos de dedicação, com muitos sacrifícios pessoais e até mesmo financeiros. Depois daquele momento inicial, quando os sócios se cotizaram para editar os primeiros números, a responsabilidade da "associação de facultativos", proclamada até 1883 na própria capa da Gazeta, foi puramente nominal (Fonseca, 1898, p.254). Os déficits anuais eram bancados pelo seu diretor mais perene. Diretor e assíduo colaborador por meio século, Pacífico Pereira foi um dos dois pilares que sustentaram esse monumento raro das publicações científicas brasileiras.

O outro pilar da permanência de uma revista de qualidade, publicada de modo quase ininterrupto na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, foi Silva Lima, primus inter pares, conforme testemunho de Pacífico Pereira (1916, p.27, 29). Ele foi o mais versátil colaborador e o principal redator da Gazeta Medica da Bahia, de 1866 até 1910 (Quadro 1). Essa constatação veio tanto da observação feita no livro com o índice cumulativo (Sant'Anna, Teixeira, 1984), quanto da leitura sistemática dos seus diversos volumes, recentemente digitalizados por Luciana Bastianelli e disponíveis em dois CDs e em um livro com artigos selecionados (Bastianelli, 2002). Quase todos os 38 primeiros volumes (de 1866 até 1906) contêm um artigo do médico tropicalista brasileiro - brasileiro não de origem, como já referido, mas por escolha desde 1862 (Varela, Veloso, s.d.).

 

 

Na ocasião da publicação do número jubilar da Gazeta, Juliano Moreira (1918) diz que sendo nominal a direção de Damásio, jovem Pacífico Pereira o auxiliava no trabalho de redação, daí ter assumido tão jovem o papel de diretor. Moreira enfatiza que a Gazeta foi-se impondo desde o seu início, chamando a atenção das publicações médicas do Velho Mundo, de tal modo que, no seu primeiro ano de vida, recebeu o apoio do British Medical Journal, importante semanário médico da associação médica da Grã-Bretanha.

Em 1922, o professor Aristides Novis, redator principal de 1915 a 1919, assumiu a direção do periódico, conseguindo manter a publicação regular até 1934, quando a revista praticamente desapareceu. Os descendentes do professor Novis transferiram os direitos do periódico à Faculdade de Medicina. Qual fênix, a Gazeta reapareceu em 1966, com a iniciativa do professor Aluisio Prata que, com a colaboração dos colegas Zilton Andrade e Heonir Rocha, entre outros, manteve a publicação anual da revista até 1972, com um número avulso em 1976 (Sant'Anna, Teixeira, 1984). Recentemente, em junho de 2004, o professor José Tavares-Neto (2004, p.1), diretor da Faculdade de Medicina da Bahia (Fameb-UFBA), tomou a iniciativa pela retomada da revista com periodicidade semestral.

O período de maior prestígio e significado histórico da Gazeta estendeu-se de sua criação, em 1866, até o início do século XX. Destacaram-se os trabalhos originais de Wucherer sobre a ancilostomíase (1866), a filariose (1868, 1869) e a classificação das cobras venenosas (1867). Outro destaque de pesquisas clínicas originais foram os estudos de Silva Lima sobre o beribéri (1866) e o ainhum (1867). A contribuição de Paterson, de 1866 até 1879, constituiu-se nas precisas descrições dos casos clínicos. De Pacífico Pereira, além das observações clínicas e terapêuticas e dos estudos sobre o beribéri, e dando seguimento aos trabalhos do seu mestre Silva Lima, foram valorosas também as reflexões sobre o ensino médico, tendo-se tornado uma referência nacional sobre o tema. São sempre lembrados também os escritos sobre saúde pública e medicina legal de Nina Rodrigues. Teixeira (2002), sem pretender fazer um quadro completo, mas apenas registrar os nomes que marcam as diversas fases da Gazeta, cita, além dos referidos, os seguintes colaboradores: Manoel Vitorino, Almeida Couto, Silva Araújo, Gonçalo Moniz, Pirajá da Silva, Clementino Fraga, Oscar Freire, Martagão Gesteira, Aristides Novis, Prado Valadares e Armando Sampaio Tavares.

Outros nomes podem estar sendo esquecidos, mas indubitavelmente há nos estudos sobre o tema uma grave omissão, sobretudo no que diz respeito ao seu papel numa das fases da revista, aquela situada na passagem do século XIX para o XX: Juliano Moreira. Demonstrar sua contribuição intelectual nas páginas da Gazeta Medica da Bahia, bem como o seu papel na redação da revista por quase uma década, será o principal objetivo da próxima seção deste artigo.

 

Juliano Moreira na Gazeta: colaborador e redator

Todo acadêmico devia fazer uma tese inaugural para receber o título de doutor em medicina e cirurgia. A de Juliano Moreira, em 1891, teve como tema a "Etiologia da sífilis maligna precoce". No prólogo, o formando já apresentava uma característica de muitos dos seus escritos, a de exercer a crítica com fina ironia: "Chegado a 6ª serie medica - para obter o grau de doutor em medicina fazia-se preciso escrever uma these. Tratei de analysar as minhas condições e achei-as precárias ... somente sobrava-se a obrigação, em virtude da qual, lá fui ver, como cidadão obediente que esmero-me em ser, as listas dos pontos de these" (Moreira, 1891, f.V). Ele esperara que a reforma do ensino, realizada pelo regime republicano, retirasse a obrigação da tese. Isso não aconteceu, mas Moreira considerou que, pelo menos, uma pequena mudança na exigência acadêmica tinha garantido mais liberdade ao formando quanto à escolha do tema.

Nesse estudo verdadeiramente inaugural, com o qual obteve a nota máxima, Juliano apresenta seu vínculo com a clínica dermatológica e sifilográfica. Embora seu objeto seja a sífilis maligna, ele apresenta poucas referências sobre a paralisia geral progressiva, freqüente na sífilis terciária. Preocupou-se mais em refutar a tese da influência climática e, ao negar esse determinante, questionar também a influência racial na gênese e na malignidade da sífilis. Segundo Afrânio Peixoto (1933, p.82), discípulo e amigo, esse trabalho tornou-se citação quase obrigatória nos estudos do assunto e mereceu destaque de especialistas estrangeiros, como Buret, estudioso da sífilis, no Journal des Maladies Cutanées et Syphilitiques, e do professor Raymond, nos Annales de Dermatologie et Syphiligraphie.

Após sua formatura, Juliano Moreira aceitou a designação da comissão médica pela Inspetoria de Higiene, para prestar assistência aos indigentes acometidos de febres e disenteria na cidade do Bonfim e em áreas circunvizinhas, como a vila de Campo Formoso. Designado em 6 de abril de 1892, no dia seguinte ele saiu de Salvador, chegando à cidade recém-emancipada um dia depois. O relatório dessa experiência em saúde pública foi uma das primeiras publicações e a primeira assinada com o nome por extenso 'Juliano Moreira' na Gazeta Medica da Bahia. Ele a intitulou "Endemo-epidemia da Jacobina (1891-1892)" (Moreira, 1894) e justificou referir-se assim porque a área onde grassava a epidemia de malária tinha pertencido à comarca de Jacobina, sendo usual a população referir-se à região atingida, já pertencente ao município de Bonfim, com o antigo nome.

Desde o início de sua vida profissional, o jovem médico não descuidou de sua vocação acadêmica. Em 1893 ocupou o cargo de assistente na cadeira de psiquiatria e moléstias nervosas, cujo catedrático era o professor Tillemont Fontes (Moreira, 1894, p.208). Logo depois foi aprovado por concurso e nomeado, em 15 de setembro de 1894, para o cargo com remuneração de preparador da cadeira de anatomia cirúrgica da Faculdade de Medicina da Bahia (Noticiário, 1894, p.142).

O preparo para o concurso do cargo de auxiliar de ensino na cadeira de Anatomia o estimulou a escrever, ainda em 1893, seu primeiro artigo publicado fora da Bahia, intitulado "Músculo acrômio-clavicular", publicado na revista Brazil-Medico. Nesse mesmo ano, encontramos as resenhas de seis artigos, uma de cinco revistas alemãs e uma inglesa (Moreira, 1893), assinadas pelas iniciais 'JM', maneira pela qual, alguns anos mais tarde, ele assinaria um editorial (1901) e uma resenha (1902a), ao tornar-se redator e colaborador contumaz. Pelo estilo, pela temática e pelo domínio de línguas estrangeiras, concluímos que foi assim, com resenhas de revistas médicas, que se iniciou sua contribuição na Gazeta, contribuição que teve a duração de uma década (1893-1903).

O jovem Juliano tinha menos de quatro anos de formado quando participou da criação da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia (SMCB), em 18 de novembro de 1894. Essa associação teve Pacheco Mendes como presidente e Alfredo Brito como vice. Não encon-tramos sustentação para a tese de Passos (1975, p.11), segundo quem Juliano teria sido o idealizador dessa sociedade médica. Seu cargo, na verdade, foi discreto, como diretor dos anais e membro da Comissão Seccional de Dermatologia-sifiligrafia (SMCB, 1894). Seis meses depois de criada, precisamente em 6 de abril de 1895, a SMCB assinou com a Gazeta Medica um contrato para publicar nessa revista os Anais da entidade (SMCB, 1895).

A convivência com os criadores da Gazeta, Silva Lima e Pacífico Pereira, e os intelectuais da Faculdade de Medicina da Bahia, como Nina Rodrigues, Alfredo Brito e Pacheco Mendes, possibilitou a regularidade da colaboração de Juliano Moreira com artigos e discussão de casos clínicos registrados nas sessões da associação médica que ajudara a fundar. Essa experiência associativa, em especial por ser articulada com uma publicação especializada, parece-nos que serviu de inspiração para Juliano Moreira, pois no Rio de Janeiro, com seu espírito gregário, ele liderou a criação de algumas sociedades científicas, participou de muitas outras, algumas das quais não médicas, e ainda criou várias publicações científicas que tiveram sempre um sentido aglutinador, mesmo quando não eram órgão oficial de alguma entidade.

Analisando a participação do autor na Gazeta Medica, em seu conjunto (Anexo 1 e Quadro 2), nota-se que em 1895 Juliano Moreira tornou-se seu colaborador assíduo, com publicação de uma dezena de artigos, tendo a sífilis como tema principal. Entretanto as pesquisas de Juliano Moreira que tiveram maior destaque no período não foram sobre sua temática principal, a sífilis, mas sobre uma outra doença 'de países de clima quente', com manifestações cutâneas, o botão de Biskra, botão endêmico ou, numa linguagem mais atual, a leishmaniose tegumentar americana ou cutâneo-mucosa. Esses estudos se inscrevem numa fecunda e original tradição da Gazeta Medica, a dos estudos científicos com preocupação nacional sobre as doenças ditas tropicais, principalmente infecciosas e parasitárias, como fez Wucherer com seus trabalhos sobre a ancilostomíase e a filariose, e Silva Lima sobre o beribéri e o ainhum, já mencionados.

 

 

A descoberta da leishmaniose no Brasil

Na sessão de 30 de dezembro de 1894 da SCMB, o jovem dermatologista apresentou o trabalho "Existe na Bahia o botão de Biskra?: estudo clínico", publicado na Gazeta Medica da Bahia em fevereiro de 1895 (Moreira, 1895a, p.254-258), em que Moreira fazia uma minuciosa descrição das formas clínicas, com base em numerosos casos clínicos, e afirmava, pela primeira vez, a existência na Bahia e no Brasil do botão de Biskra, também chamado botão ou úlcera do Oriente ou botão endêmico dos países quentes (Moreira, 1895b). Suas observações refutavam qualquer especificidade etária, de gênero ou racial da doença: "Tenho observado o botão em todas as idades, tanto em homens como na mulher. Nenhuma constituição como nenhuma raça (das que habitam este estado) está ao abrigo do Botão do Oriente" (Moreira, 1895a, p.255).

Moreira distinguia o botão endêmico de lesões cutâneas da sífilis, pois a maioria dos casos que recebera tinha obtido dos médicos o diagnóstico de bobas (bouba brasiliana). Para ele, contudo, "uma boa porção dos casos" entrava no quadro do botão de Biskra (Moreira, 1895a, p.257-258). Era, muito provavelmente, a primeira descrição de casos clínicos de leishmaniose tegumentar americana (LTA) ou cutâneo-mucosa, numa publicação científica brasileira.2

Sobre as causas da enfermidade, o autor dizia que a patologia aparece tanto primitiva como secundariamente (escoriações, outras afecções cutâneas tipo sarna etc.). Outro destaque é que ele não ignorou, nas falas dos pacientes sobre sua doença, a possível presença de um inseto no complexo causal: "A picada de um inseto, o muruim, tem sido muitas vezes attribuido por alguns doentes como o inicio da affecção" (Moreira, 1895a, p.255). Por fim, informava ter empreendido uma série de ensaios de inoculação e estudos anatomo-patológicos, mas que estes estavam ainda muito incompletos, e comprometia-se a apresentá-los quando fossem finalizados (p.257).

Vale ressaltar que o agente etiológico dessa doença, um protozoário, foi identificado em 1893 pelo cirurgião militar russo P.F. Borovsky, mas o achado teve uma circulação restrita, provavelmente por ter sido publicado apenas em russo. Somente em 1903 o agente etiológico foi considerado descoberto, quando James Homer Wright, de Baltimore (EUA), observou formas de protozoários em úlcera cutânea de uma criança da Armênia com o botão do Oriente e lhe deu o nome de Welcozona tropicum, depois alterado para Leishmania tropica (Cox, 2002, p.605). Quanto ao agente da forma visceral, só em maio do mesmo ano o inglês William Leishman fez uma biópsia de fígado de um soldado com Kala-azar na Índia e, em julho, Donovan encontrou o agente etiológico do calazar. Ross deu o nome Leishmania ao gênero, e depois foi dado o nome de L. donovani ao agente da leishmaniose visceral (Altamirano-Enciso et al., set.-dez. 2003). Em 1911 Gaspar Vianna denominou o agente da úlcera de Bauru, a leishmaniose tegumentar americana, de Leishmania brasiliensis. Só em 1921 foi estabelecido o papel do flebótomo como o inseto vetor na transmissão (Cox, 2002, p.606).

 

De colaborador a redator principal da Gazeta

Em 1896 Juliano Moreira fez o concurso para lente substituto da 12ª seção - cadeira de moléstias nervosas e mentais -, com a tese sobre as 'discinesias arsenicais' e foi aprovado em primeiro lugar, com nota máxima. Não por acaso, nesse momento ele passou a figurar entre os redatores da Gazeta Medica, tendo Braz Amaral como redator-gerente3 e Silva Lima como redator principal (Quadro 1). Este último, como já referido, foi um dos modelos intelectuais para Juliano Moreira.

Vale notar que, como colaborador, houve duas interrupções de sua participação na Gazeta, antes de sua transferência definitiva para o Rio de Janeiro: a primeira, de fevereiro de 1896 a novembro de 1898; a segunda, de outubro de 1899 até dezembro de 1900, quando ele novamente viajou à Europa, participando de vários congressos médicos dos dois campos que ainda dividiam sua atenção, a dermatologia (e sifiligrafia) e a neuropsiquiatria.

Em meados de 1901 Juliano Moreira assumiu a função de redator principal, como atestam o fato de seu nome figurar no topo da lista dos redatores, ocupando o lugar que já fora de seu mestre, Silva Lima, o desaparecimento da figura do redator-gerente (Figuras 2, 3, 4) e, sobretudo, o texto que assinou abrindo o volume 33 (Moreira, 1901, p.1-3), no qual apresentava as modificações que pretendia introduzir na revista, o que efetivamente realizou nesse volume, de julho de 1901 até junho de 1902. A seção de artigos originais passava a primeiro plano, em especial as contribuições para a "verdadeira nosologia brasileira" (p.2), como fizeram os fundadores. Seguia-lhe a seção de "revistas gerais", com estudos de "nosologias extratropicais"; resenhas nacionais e estrangeiras. Por fim, uma seção para "questões de ensino, higiene e medicina pública".

 

 

 

 

 

 

A expressão de sua liderança pode ser constatada também na multiplicidade de sua colaboração nesse volume (ver Anexo 1, do item 25 ao 32). Ele escreveu muitas vezes o artigo inicial, as resenhas e os necrológios, assumindo um papel semelhante ao de Silva Lima quando figurava no topo da lista dos colaboradores, nos volumes precedentes da revista.

O nome de Juliano Moreira esteve no topo da lista de redatores da Gazeta Medica até junho de 1906, quando Gonçalo Muniz assumiu o papel de redator principal, que já exercia de fato desde a transferência do médico para o Rio de Janeiro, em 1903. Muito provavelmente como uma homenagem de contemporâneos e ex-alunos, seu nome foi mantido entre os colaboradores da revista até o volume de 1914-1915 (Quadro 2), embora sua última contribuição para a Gazeta tenha sido um relato de congresso, publicado em julho de 1903.

 

Da necessidade de fundação de laboratórios nos hospitais do país

Um trabalho desse período final de colaboração de Juliano Moreira na Gazeta Medica da Bahia merece destaque por sua importância na história da medicina baiana e brasileira. Em abril de 1902 ele publicou um artigo em que defendia a necessidade da criação de laboratórios nos hospitais do país (Moreira, 1902c, p.439-450). Hoje tão óbvio, naquele momento foi uma manifestação lúcida de quem, conhecendo a prática médica e sanitária nos grandes centros da Europa, em especial a Alemanha, trazia uma proposta inovadora e inadiável para os serviços de saúde no Brasil, sobretudo àqueles vinculados ao ensino.

Diante dos avanços da medicina científica no último quartil do século XIX, em particular na última década, era inadiável a criação de um serviço de anatomia patológica, articulado a um laboratório bacteriológico, e outro de bioquímica ("clínica bioquímica") nos hospitais brasileiros, prioritariamente naqueles que eram campo de prática do ensino médico, destacando-se os da Santa Casa de Misericórdia na Bahia e no Rio de Janeiro. Moreira (1902c, p.447-449) descrevia como seria cada um desses serviços: localização, pessoal, equipamentos etc. Enumerava resultados de estudos que utilizaram dados de necropsias e pesquisas no campo das patologias do metabolismo e da bacteriologia clínica com o uso do microscópio, guia seguro da diferenciação etiológica da doença (p.443), fundamental para orientar a terapêutica. Lamentava que muitos desses estudos não tivessem sido realizados no país, e indagava sobre a aplicação "ao nosso meio" dos resultados obtidos fora: "Quem sabe? A priori é temerário concluir" (p.443).

Juliano Moreira (1902c) afirmava que percorrera o país de norte a sul e só encontrara um único hospital com laboratório, em São Paulo (p.444). Afirmava que todos os hospitais, mesmo os não vinculados às faculdades de medicina, deveriam estar equipados para cooperar no desenvolvimento da ciência médica, e que os médicos deviam ser treinados e dispor de material necessário para efetuar investigações científicas (p.444). Já o ensino sem a pesquisa clínica, com os velhos métodos, seria um crime de lesa-ciência. Destaque-se uma frase pela lucidez e pelo estilo: "Realmente digno do nome de mestre só é aquelle que se torna authoridade por ter sabido arremetter contra o desconhecido e ter quebrado lanças na conquista da verdade" ( p.445). Para os avanços em sua terra - "do alto das páginas da velha Gazeta Medica" -, cobrava da Santa Casa e da direção da Faculdade de Medicina medidas concretas. Lamentava, entretanto, que os estudantes, "que tanto alardeiam a solidariedade de seus membros", não se tenham unido para exigir um ensino em bases científicas (p.446).

Sua proposta tinha por base suas visitas aos hospitais dos vários países onde esteve. Em tom irônico, observava que não fora ver apenas as externalidades, mas sim os elementos úteis de que dispunham médicos e doentes (Moreira, 1902c, p.446). Concluía que uma instituição hospitalar só cumpriria sua função social se nela fossem instaladas as "maquinas do trabalho científico", os médicos fossem aptos e responsáveis no trabalho cotidiano e a administração, idônea e competente. Por fim, nessa conferência para a SMCB, depois publicada na revista, voltou a falar como seu porta-voz: "A Gazeta Medica espera das Faculdades de Medicina do Paiz e das Casas de Misericórdia do Rio e da Bahia a reforma dos estudos clínicos, nos centros officiaes de ensino" (p.449). Isso resultaria em processo de instalação de laboratórios nos hospitais de todo o território nacional (p.449-450).

Uma década depois, Juliano Moreira (1913, p.46-47) relembraria esse artigo ao comentar que os laboratórios haviam surgido em todo o país, até mesmo em centros de pesquisas autônomos como o Instituto de Patologia Experimental, em Manguinhos. Após a morte de seu mestre, Peixoto (1933) comentou que essa conferência, publicada na Gazeta Medica da Bahia e transcrita em várias outras publicações científicas, resultou na criação de vários serviços em hospitais do país. A Faculdade de Medicina da Bahia, por exemplo, chegou a criar seu Instituto de Clínicas, um conjunto de laboratórios que dava apoio diagnóstico aos diversos serviços (p.83). Outro exemplo da influência de Juliano Moreira e desse artigo em particular: o professor Aristides Novis, diretor do Hospício São João de Deus, depois renomeado Hospital Juliano Moreira, utilizou como referência essa conferência e o respectivo artigo para reivindicar e obter, junto ao governo estadual, a criação do laboratório de análises clínicas do referido manicômio (Jacobina, 2001).

A referência ao hospital psiquiátrico que recebeu seu nome como uma homenagem dos baianos leva-nos a uma constatação. Nas páginas da Gazeta Medica, foi pequena a sua colaboração no campo específico da psiquiatria, área que o consagrou. Ela foi pequena, mas existiu. Destaque-se seu relato sobre os avanços obtidos por Franco da Rocha no Asilo-colônia em Juqueri, São Paulo (Moreira, 1902b). Nesse artigo, apesar de elogiar a idéia de um asilo-colônia, Juliano formulou um pensamento muito atual na área da saúde mental: "Mau grado minha pouca synpathia pelos systemas de construcção de asylos em pavilhões tão grandes e para muitos doentes, assim como por aquelles em que os pavilhões são iguaes, por isso dahi resulta uma certa monotonia" (p.406).

 

Considerações finais

Uma visão panorâmica da obra de Juliano Moreira, com base nos diversos trabalhos que publicou na Gazeta Medica da Bahia (Anexo 1 e Quadro 3), permite-nos constatar que ele não teve um 'destino lógico' como psiquiatra, especialidade que o tornou nacional e até internacionalmente conhecido. Era um intelectual versátil, criativo e múltiplo. Para além de sua atuação na imprensa médica, vejamos as múltiplas faces de Juliano Moreira, reveladas em sua obra publicada na Gazeta:

- A do médico tropicalista que descreve sua luta contra a malária no interior da Bahia e, mais tarde, faz uma revisão crítica do papel dos mosquitos na transmissão dessa patologia; suas revisões críticas também sobre o beribéri e a doença do sono; e, principalmente, seus trabalhos sobre o botão endêmico, tanto de geografia médica quanto os estudos clínicos originais, quando descreveu pela primeira vez a leishmaniose cutâneo-mucosa no Brasil, tema este que faz uma ponte para outra face do autor;

- A do dermatologista e sifilógrafo que estudou uma urticária de origem medicamentosa, depois a farcionose, uma zoonose com manifestações cutâneas, e, sobretudo, a sífilis sob os mais diversos aspectos, como faringismo tabético, tifose, pneumonias sifilíticas, a relação com o saturnismo e com a senilidade;

- A do neurologista e psiquiatra estudioso da epilepsia, das mioclonias em pessoas histéricas e não histéricas; o psiquiatra aparece também num outro campo de estudo, o da assistência aos alienados;

- A do sanitarista, não só como higienista, ao combater e registrar sua luta contra a epidemia da malária, mas também como estudioso e formulador em planejamento e administração de saúde, atestado por sua participação na proposta de reforma para o Asilo São João de Deus, sua análise sobre o asilo-colônia em Juqueri (São Paulo) e, em especial, sua defesa pela criação de serviços de anatomopatologia e de laboratórios nos hospitais do país;

- A face do historiador da medicina e das ciências em geral, analisando as contribuições de cientistas brasileiros como Francisco de Castro, Oscar Bulhões e Alfredo Kanthack e estrangeiros como Pasteur, Virchow, Von Ziemssem, Kaposi, Ludwig, Thiersch, Vogt e Bento de Souza, bem como sintetizando e divulgando os trabalhos mais relevantes apresentados nos congressos nacionais e internacionais da época.

Seu conhecimento e criatividade abrangentes mereceram um comentário de seu discípulo mais próximo e fiel, Afrânio Peixoto (1933, p.82): "Haverá nelle assumpto para se louvar ao medico, ao tropicalista, ao dermatologo, ao syphilographo, ao alienista, ao psychologo, ao naturalista, ao historiador da medicina". O naturalista e o psicólogo iriam desenvolver-se depois da sua transferência para o Rio de Janeiro, em 1903, mas eram interesses já despertados em sua atuação na terra natal. As outras faces identificadas por Peixoto já estavam atestadas nas páginas da Gazeta, inclusive uma que lhe passou despercebida, a do sanitarista (ou higienista, para usar o termo da época).

 

NOTAS

* Este artigo integra pesquisa realizada com o apoio do Programa Primeiros Projetos (PPP) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb).
1 Em seu artigo sobre Silva Lima, Juliano Moreira (1918, p.1), antes de citar os objetivos da Gazeta Medica, diz claramente: "Silva Lima, no seu artigo introductorio da revista...". Era o testemunho de um discípulo e amigo.
2 Altamirano-Enciso et al. (set.-dez. 2003, p.863) afirmaram, equivocadamente, que "os professores Juliano Moreira e Antônio Austregésilo, da Escola Tropicalista Baiana, fizeram uma minuciosa descrição clínica da LTA, embora seguindo erroneamente a proposta de Breda e Sommer como bouba brasiliana (Moreira, 1895)" (grifo nosso). O erro era dos médicos baianos da época e não de Moreira, que fez corretamente o diagnóstico diferencial, o que possibilitou a sua importante descoberta. Ainda sobre esse artigo de Juliano Moreira (1895a), é preciso esclarecer que não há co-autoria com Antônio Austregésilo. Ambos têm um estudo sobre o ainhum, publicado em 1908 no Brazil-Medico (Moreira, Austregésilo, 1908).
3 O cargo de redator-gerente desapareceu em 1901, reaparecendo somente em 1915, com Aristides Novis. Em 1922, com a morte de Antônio Pacífico Pereira, o professor Novis assumiu o cargo de diretor da Gazeta.

 

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Recebido para publicação em dezembro de 2005.
Aprovado para publicação em maio de 2006.

 

 

Anexo 1: Obra de Juliano Moreira na Gazeta Medica da Bahia

1893

1 Revista da imprensa médica, v.24, n.4, out. 1893, p.174-178.

JM faz a resenha de seis artigos publicados em revistas médicas alemãs (cinco) e inglesa (um), tais como: "O sangue na syphilis", "Cholera morbus", "Neurastenia por coito incompleto" e "Oclusão dos ureteres".

1894

2 Endemo-epidemia da Jacobina (1891-1892), v.25, n.11, maio 1894, p.508-512; v.26, n.1, jul.1894, p.25- 30; n.2, ago.1894, p.61-63; n.6, dez. 1894, p.159-168.

3 Pharyngismo tabetico (nevro-pathologia), v.26, n.5, p.203-212, nov.1894.

1895

4 Saturnismo e syphilis (Anais da Sociedade de Medicina da Bahia, sessão de 18/12/1894), v.26, n.8, fev.1895, p.249-254.

5 Existe na Bahia o Botão de Biskra? Estudo clínico (Anais da Sociedade de Medicina da Bahia, sessão de 30/12/1894), v.26, n.8, fev.1895, p.254-258.

6 Um caso de pneumonia syphilitica pelo dr. Gonçalves de Figueiredo: discussão (Anais da Sociedade de Medicina da Bahia, sessão de 30/12/ 1894), v.26, n.8, fev.1895, p.264-265.

7 Distribuição geographica do botão endêmico dos paizes quentes (Anais da Sociedade de Medicina da Bahia. Artigo, abr. 1895), v.26, n.10, abr. 1895, p.369-74.

8 Caso de urticária consecutiva ao emprego de santonina pelo dr. Gonçalves de Figueiredo: discussão (Anais da Sociedade de Medicina da Bahia, Sessão de 05/05/1895), v.26, n.11, maio.1895, p.403-407.

9 Karl Ludwig, Karl Thiersch e Karl Vogt (Anais da Sociedade de Medicina e Cirurgia, n.5, jun. 1895), v.26, n.12, jun.1895, p.435-442.

10 Assistência dos alienados na Bahia: relatório (Viana, Aurélio, Tillemont Fontes, João e Moreira, Juliano) (Anais da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia, sessão de 19/05/ 1895), v.27, n.1, jul.1895, p.14-40.

11 A syphilis no periodo de involução senil (Anais da Sociedade de Medicina e Cirurgia da Bahia, sessão de 16/06/1895), v.27, n.2, ago. 1895, p.82-94; v.27, n.3, set. 1895, p.123-127.

12 Pasteur (Anais da Sociedade de Medicina da Bahia, sessão de 6/10/1895), v.27, n.4, out. 1895 p.159-174.

13 Farcionose chronica, terminada por mormo agudo (Anais da Sociedade de Medicina da Bahia, sessão de 04/08/1895), v.27, n.6, dez. 1895, p.286-289.

1896

14 Caso de tyfose siphilitica: cura por injeções de calomelanos, cephaleia tardia (Anais da Sociedade de Medicina da Bahia, sessão de 22/07/1895), v.27, n.7, jan.1896, p.323-325.

1898

15 A alimentação pelo arroz e o beriberi perante a observação dos medicos hollandezes, v.30, n.6, dez.1898, p.241-250.

16 Alfredo Antunes Kanthack (professor de patologia na Universidade de Cambridge): traços biographicos, v.30, n.6, dez. 1898, p.277-280.

17 Dr. Oscar Bulhões (prof. da Faculdade do Rio de Janeiro), v.30, n.6, dez. 1898, p.280-281.

1899

18 Os mosquitos e a malária (revista crítica), v.30, n.7, jan.1899, p.291-300.

19 O methodo de Flechsig e a hyperexcitabilidade cortical nos epilepticos, v.30, n.8, fev.1899, p.339-345.

20 O professor Manoel Bento de Souza (de Lisboa): traços biographicos, v.30, n.12, jun.1899, p.574-577.

21 A syphilis como factor de degeneração (syphilographia), v.31, n.3, set. 1899, p.112-125.

1901

22 O XIII Congresso Internacional de Medicina e Cirurgia reunido em Paris, v.32, n.7, jan.1901, p.320-329.

23 O IV Congresso Internacional de Dermatologia e Siphiligraphia (noticia succinta), v.32, n.8, jan.1901, p.343-350.

24 As secções de psychiatria e neurologia do XIII Congresso de Medicina de Paris, v.32, n.10, abr. 1901, p.475-486.

25 O trigésimo quinto aniversario da Gazeta, v.33, n.1, jul.1901, p.1-3.

26 O lugar das mioklonias em neuropathologia, v.33, n.1, jul.1901, p.22-34; v.33, n.3, set.1901, p.101-112; v.33, n.7, jan. 1902, p.309-316.

27 Rudolf Virchow (traços geraes de sua vida), v.33, n.4, out. 1901, p.149-167.

28 O professor Francisco de Castro, v.33, n.5, nov.1901, p.201-205.

29 Revista da imprensa médica, v.33, n.6, dez.1901, p.286-288.

Resenha dos trabalhos de Möller ("Embolias pul- monares nas injeções de preparado mercuriaes insolúveis") e de Scanman ("Há qualquer relação genética entre a appendicite e as neuroses geraes").

1902

30 Os recentes trabalhos portuguezes sobre a molestia do somno, v.33, n.7, jan. 1902, p.317-325.

31 Bibliographia: 'Traité des affections véneriennes' - Edmund Lesser, v.33, n.7, jan. 1902, p.331-332.

32 A imprensa médica nacional, v.33, n.7, jan. 1902, p.340-342.

33 Prof. Von Ziemssem: necrologia, v.33, n.8, fev.1902, p.377-379.

34 O asylo-colônia de alienados em Juquery (S. Paulo), v.33, n.9, mar. 1902, p.399-407.

35 A reforma dos estudos médicos na Allemanha, v.33, n.9, mar. 1902, p.434-438; n.10, abr.1902, p.485-486; n.11, maio 1902, p.526-528; n.12, jun.1902.

36 Da necessidade da fundação de laboratorios nos hospitaes, v.33, n.10, abr. 1902, p.439-450.

37 Professor Moriz Kaposi: necrologia, v.33, n.10, abr. 1902, p.481- 484.

1903

38 5° Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, v.35, n.1, jul. 1903, p.9-12.

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