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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.16 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2009

https://doi.org/10.1590/S0104-59702009000200001 

CARTA DO EDITOR

 

 

Caro leitor,

Escrevo essa carta sem saber bem como ela vai encontrá-lo. Já há algum tempo vivemos sob a expectativa, melhor, sob a inevitabilidade de sermos atingidos pela gripe chamada a princípio suína, até tirarem os animais de cena por pressão, parece, dos suinocultores. O noticiário é alarmante, e há constantes referências à gripe espanhola. As autoridades sanitárias afinam os discursos que, a custo, vão se sobrepondo à cacofonia de suposições disparatadas, de recomendações colidentes. Acabo de ler no jornal que amanhece todo dia em minha porta o esperneio de um infectologista contra a decisão do governo de tirar de circulação o único medicamento que tem, supõe-se, alguma eficácia, enquanto não chega a esperada vacina. Compreendo, por dever de ofício, e respeito, como cidadão, a decisão do Estado, em nome do bem coletivo: evitar que o uso indiscriminado do remédio, num país onde a automedicação é a regra, precipite mutações no vírus, que, de resto, são inevitáveis, fazem parte da natureza desses seres quase no limiar da vida, tão hábeis em mudar para adaptar-se a novos hospedeiros. Mas na iminência do sufoco, sou governado (também) por outra lógica, tão legítima quanto esta: a sobrevivência dos que me são caros. Levanto da mesa, numa instituição pública diretamente engajada no esforço de preparação para a 'guerra' que se avizinha, uma instituição que admiro do fundo do coração, levanto da mesa onde leio, com a maior objetividade possível, análises históricas sobre aquele outro evento cuja repetição os especialistas há tanto tempo vaticinam, pego no telefone e ligo para a médica de minha filha: "Doutora, o que devo fazer para estar preparado, o que devo ter em casa?" E ela, que trabalha em hospital público, me diz: "Não sei, não sabemos ainda; vai haver uma reunião assim, e outra assado, e quando souber te aviso...".

De tanto ver imagens de gente mascarada nos países onde a gripe já é realidade, onde as escolas e cinemas fecharam, a caminho de casa paro numa loja que vende produtos hospitalares e descubro que acabaram as máscaras. Uma multidão de aflitos, na calada, esgotou os estoques. O chão de minha 'normalidade' treme, e imagino, numa cidade onde a assistência hospitalar é um caos, uma estrutura notoriamente falida, o que precisarei fazer quando a crise nos transformar num enxame de partículas desesperadas, num salve-se quem puder.

A exortação do presidente do México a que as pessoas permaneçam reclusas em suas casas, num feriado religioso de abril, me traz à lembrança a história que ouvi da neta de um sobrevivente da gripe de 1918: como ele salvou a família sujeitando-a a completo isolamento enquanto a dançarina semeava a morte por nossa cidade. Terei de fazer o mesmo?

Esse meu pânico diante da anunciada 'pandemia global' foi diminuindo com a percep-ção de que o alarde inicial foi exagerado. De qualquer forma, falo sobre essas impressões porque vivemos uma conjuntura que nos obriga a passar de espectadores a atores. As ações coletivas e individuais, em tempos passados de crise, ganham sentido em 'molduras' que os historiadores decifram retrospectivamente. Pois na iminência de nos vermos agora den-tro do quadro, engolfados por acontecimentos que pouco controlamos - e eu me dirijo a você, leitor, átomo como eu -, é essencial conhecer as experiências de quem nos precedeu para agir com razão e discernimento.

Ao coletivo a que pertenço, aos historiadores que leem habitualmente estas páginas, chamo atenção para seu escasso engajamento na orquestração de atores sociais em preparação da crise, não obstante as referências onipresentes à de 1918.

Considero útil relembrar e recomendo a leitura do que História, Ciências, Saúde - Manguinhos já publicou a respeito, a exemplo do dossiê sobre a gripe espanhola publicado no número 1 do volume 12 (jan.-abr. 2005). Nele, Christiane Maria Cruz de Souza escreveu sobre o impacto da epidemia em Salvador e outras áreas da Bahia, e revela a fragilidade das políticas de saúde e assistência numa sociedade cujas desigualdades foram postas mais em evidência pela epidemia. No artigo "Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro", Adriana da Costa Goulart analisa o uso da epidemia como mecanismo de engenharia política, e seus impactos sobre a representação de alguns atores políticos e sociais que se viam como protagonistas privilegiados da modernização da sociedade brasileira. Liane Maria Bertucci-Martins, em artigo intitulado "Entre doutores e para os leigos: fragmentos do discurso médico na influenza de 1918", detém-se nas discussões sobre a natureza da doença e as várias propostas terapêuticas feitas no contexto da crise. Da maior atualidade é a entrevista que nos concedeu Marilda Mendonça Siqueira, pesquisadora do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo da Fundação Oswaldo Cruz. Verá o leitor há quanto tempo se engatilham as providências a tomar na hora de um deus-nos-acuda!

Cristiane Maria Cruz de Souza também escreveu "A epidemia de gripe espanhola: um desafio à medicina baiana", no volume 15, número 4 (out.-dez. 2008). Na edição de maio-agosto de 2003 (v.10, n.2), Luiz Antonio Teixeira comenta outro livro cuja leitura é indispensável: Gripe, a história da pandemia de 1918, de Gina Kolata (Campus, 2002). Já no número 2 do volume 12 (maio-ago. 2005), Christiane Maria C. de Souza assina resenha sobre o livro de Cláudio Bertolli Filho, um dos primeiros, entre nós, a se dedicar à história dessa questão sanitária, autor de A gripe espanhola em São Paulo, 1918: epidemia e sociedade (Paz e Terra, 2003).

Como diziam os antigos, não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe.

 

Jaime Benchimol
Editor

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