SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 número2Antislavery and epidemic Mathieu François Maxime Audouard's "O tráfico dos negros considerado como a causa da febre amarela" and the city of Rio de Janeiro in 1850The trajectory of scientific periodicals at the Fundação Oswaldo Cruz: perspectives of the Biomedical Sciences Library índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versión impresa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.16 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702009000200014 

FONTES

 

O tráfico dos negros considerado como a causa da febre amarela

 

 

Tradução do extrato de uma memória do Mr. Audouard

O Philantropo, 27.9.1850

A febre amarella não é originaria de nem um paiz. Os climas quentes favorecem a causa que a produz, e está ao alcance do homem fazer cessar esta causa, porque ella reside em uma infecção propria dos navios negreiros. Para dar idéia desta infecção basta lembrar que em muitas ocasiões se tem apreendido navios negreiros, nos quais os escravos viviam no meio de suas porcarias. Dahi vem a podridão da madeira do alcatrão e de tudo que está no interior do navio, e producção de um fôco de infecção que não se extingue senão depois de ter percorrido todos os graos de decomposição putrida. Ajuntaremos que para esta extincção não bastam nem dias nem meses: tambem as duas ultimas epidemias de febre amarella que tem afflingido a Hespanha, e de que o autor deste escripto foi testemunha, a de Barcelona em 1821, e a do Porto da Passagem em 1823, tiveram origem de navios que serviram ao trafico de negros antes de serem carregados de mercadorias coloniaes na Havana.

Em sua partida deste porto a febre amarella não reinava ahi; portanto elles não exportavam uma produção morbifica deste paiz. Entretanto attribuiam a febre amarella à Barcelona e à Passagem; e o que demonstra bem claramente que elles tinham a causa em seus costados, é que os carpinteiros, que empregaram-se em calafetal-os, pereceram quasi todos da febre amarella em muito poucos dias, e foram as primeiras victimas destas duas epidemias. Elles sentiram grande fedor quando tinham entre mãos a operação da crena, porque então o esterco que estava contido entre os forros, foi posto a descoberto, e o calor dos mezes de agosto e setembro contribuiu poderosamente para desprender emanações as mais mortiferas.

Este unico facto - de navios partidos de um ponto do novo continente, em que a febre amarella não reinava, fazerem apparecer esta molestia em dous portos da Europa, lança por terra todas as ideias que se tinham sobre a origem e a natureza da febre amarella; porque esta molestia não é devida aos climas da America, pois que tem sido levada à Europa por navios partidos de Havana, quando ela não reinava neste lugar.

Ella não é originaria da Europa, pois que a Hespanha não soffria antes do descobrimento da America, e a America mesmo não soffreu senão ha 200 annos depois, visto que a molestia chamada hoje febre amarella foi apelidada a princípio mal de Siam, visto ter sua aparição na Martinica em 1694, coincidido com a presença de navios, vindos do golfo de Siam, nos portos desta ilha: denominação esta que o correr dos annos tem mostrado ser erronea. O mais provavel é que se começou nesta época a ressentir os effeitos do trafico dos negros, porque então se activou muito esta negociação, e os governos a fomentaram, autorizando mesmo por titulos ou cartas regias certas companhias a fazel-a em grande escalla. Entretanto estas companhias, entregando-se a um commercio que as leis protegiam, e dispondo de grandes capitais, esclarecidas pela experiencia, poderam fazer logo as despezas necessarias para o estabelecimento dos escravos a bordo, de modo que perdessem o menor numero possivel na viagem: seu interesse levou-os a fazer observar certas medidas hygienicas. Tendo a revolução trazido a guerra entre a França e a Inglaterra estas companhias cessaram seus trabalhos, e o trafico foi feito por navios do commercio que não eram construídos para este fim.

Os mesmos que depois desta epoca foram construidos de proposito eram talvez ainda peiores, porque para escaparem aos corsarios deviam ser muito bons veleiros, dispostos, por consequencia, de um modo muito differente do dos navios de transporte. Em um outro caso os piratas, querendo ganhar muito dinheiro, entulharam de escravos o porão, não lhes permittindo mesmo subir sobre a cuberta para satisfazer as suas necessidades, e os prenderam ou encadeiraram de modo que, se um homem morria, os que sobreviviam tinham muitas vezes de ficar um dia ou mais, juntos ao cadaver. Tal foi o trafico durante a guerra maritima; tambem partindo de 1793, os fócos de infecção que a guerra trouxe mais num rosos e mais mortiferos tornaram a febre amarella mais frequente na America, e principalmente em Hespanha, onde ella tinha sido apenas conhecida até então. Partindo de 1800, data da grande epidemia que roubou 61.362 habitantes à Andalusia, a febre amarella reinou quasi todos os annos em Hespanha até 1823, data da febre amarella da Passagem, e foi em 1824 que o autor desta memoria veio sustentar perante a academia das sciencias que a febre amarella da Barcelona e da Passagem tinha provindo de navios que acabavam de servir ao trafico dos negros, navios que elle designava como os focos de uma infecção especial, produzindo uma molestia especial, que é a febre amarella. Donde concluia que os climas de um e outro continente tinham apenas uma acção secundaria que se limitava a dar mais actividade aos fócos de infecção creados pelo trafico. O acaso tem justificado estas asserções; porque desde 1824 a Hespanha não soffreu mais da febre amarella; enquanto que nos vinte e quatro annos anteriores da molestia roubara 140.000 de seus habitantes. Mas cumpre saber que se está de sobre-aviso contra os navios que tem servido ao trafico.