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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versión impresa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.16 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702009000200015 

FONTES

 

A trajetória do periódico científico na Fundação Oswaldo Cruz: perspectivas da Biblioteca de Ciências Biomédicas

 

The trajectory of scientific periodicals at the Fundação Oswaldo Cruz: perspectives of the Biomedical Sciences Library

 

 

Jeorgina Gentil RodriguesI; Sandra Maria Osório Xavier MarinhoII

IBibliotecária da Biblioteca de Ciências Biomédicas/Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica (ICICT)/ Fundação Oswaldo Cruz. jeorgina@icict.fiocruz.br
IIBibliotecária cooperada da Biblioteca de Ciências Biomédicas/ICICT/Fundação Oswaldo Cruz. smarinho@icict.fiocruz.br. Av. Brasil, 4.365, 21045-900 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil

 

 


RESUMO

Descreve a formação do acervo de periódicos científicos da Biblioteca de Ciências Biomédicas da Fundação Oswaldo Cruz. Destaca a coleção de periódicos científicos raros, que se estende do século XVIII ao XX e contempla valiosos trabalhos na área das ciências biológicas e da saúde. Apresenta a criação da instituição por Oswaldo Cruz e a organização da biblioteca. Documenta o empenho da Biblioteca de Ciências Biomédicas em promover o acesso ao periódico científico em diferentes formatos tecnológicos.

Palavras-chave: periódicos científicos; história; Biblioteca de Ciências Biomédicas; Instituto Oswaldo Cruz; Brasil.


ABSTRACT

The article describes the formation of the scientific periodicals collection of the Fundação Oswaldo Cruz Biomedical Sciences Library. It highlights the collection of rare scientific periodicals that extends from the 18th century to the 20th and encompasses valuable works in the biological sciences and health fields. The work also includes the creation of the institute by Oswaldo Cruz and the organization of the Library and documents the efforts of the Biomedical Sciences Library to promote access to scientific periodicals in different technological formats.

Keywords: Scientific periodical; rare scientific periodical; Biomedical Sciences Library;  Instituto Oswaldo Cruz; history; Brazil.


 

 

Quando se pensa em informação científica, vem de imediato à mente a imagem do periódico, que ocupa a maior parte de qualquer biblioteca científica. Para Ziman (1981, p.114), os periódicos "possuem diversas características significativas, as quais nos contam muita coisa sobre a comunidade científica e sobre o modo como ela trabalha".

Desde que começou a ser publicado, no século XVII, o periódico científico passou a proporcionar à comunidade científica um canal formal de comunicação, por meio da publicação de artigos originais que sistematizam os achados de pesquisas tecnocientíficas capazes de contribuir para o avanço da ciência.

Desse modo, destacam-se as seguintes funções atribuídas ao periódico científico (Campello, Campos, 1993):

- canal de disseminação do conhecimento produzido, através dos serviços de indexação e bibliotecas;

- registro público do conhecimento (propriedade intelectual do autor);

- função social (prestígio e reconhecimento dos autores);

- canal formal de comunicação;

- espaço mais amplo da ciência para divulgação dos resultados de pesquisas;

- arquivo ou memória científica;

- estabelecimento da ciência 'certificada' (aval da comunidade científica).

Os periódicos científicos surgiram como evolução de um sistema particular de comunicação, que até então era feito por meio de cartas e atas. A comunicação por correspondência pessoal foi o primeiro meio que os cientistas utilizaram para a transmissão de suas ideias. As correspondências eram enviadas pelos cientistas a seus pares para relatar suas descobertas.

A dialogicidade e a interação entre os pares tornaram-se intensas, resultando na criação das primeiras sociedades científicas, como a Royal Society, em 1662 (Meadows, 2000). É fato que, no século XVIII, alguns periódicos incluíam contribuições referentes a temas científicos, mas foi a partir do século XIX que essa tendência se desenvolveu e os periódicos se tornaram mais especializados.

É importante destacar que a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, impulsionou o processo de organização da ciência e, por conseguinte, a ascensão do periódico científico (Stumpf, 1996).

O crescimento da produção de periódicos científicos decorreu de diversos fatores, especialmente no processo de institucionalização e popularização da ciência. Nesse contexto, ocorreram a geração de novos conhecimentos ligada ao processo e a disseminação da produção científica. Desse movimento surgiu a necessidade de reunir esses relatos em volume único, facilitando a distribuição e reduzindo gastos de impressão.

Em 1665 surgiu a revista científica em seu sentido moderno - o Journal des Sçavans, em Paris, e o Philosophical Transactions, em Londres -, para discussão dos resultados e divulgação das investigações científicas e tecnológicas e das invenções, substituindo o sistema particular de comunicação. Ambos os periódicos foram modelos para inúmeras outras revistas científicas editadas por sociedades, associações e academias europeias (Meadows, 2000; Boarini, 2004).

Conforme Ziman (1981), no século XVIII surgiram os primeiros periódicos em campos específicos da ciência. Os Annales de Chimie et de Physique (Paris, 1789) e Annalen der Physik (Leipzig, 1790), por exemplo, voltavam-se para a química e a física, respectivamente, e o periódico médico The Medical and Philosophical Journal of London (Londres, 1799) abordava assuntos de medicina e cirurgia.

Embora os primeiros periódicos científicos tenham surgido com a finalidade de desempenhar a função de registro público das atividades e dos interesses das sociedades científicas de época, suas características se foram transformando ao longo dos séculos XVIII e XIX, quando começaram a desvincular-se de sua origem e evoluir para sua forma moderna (Mckie, 1979; Stumpf, 1996). O século XX, entretanto, vivenciou o processo conhecido como explosão documental, o crescimento exponencial do número de periódicos científicos para mais de um milhão, em vários tipos de suporte. Nos últimos anos a questão do crescimento da produção de periódicos científicos alcançou nova dimensão, com o advento das publicações eletrônicas que circulam livremente ou são comercializadas na Internet.

 

O periodismo no Brasil

Com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, ocorreram mudanças significativas no cenário cultural nacional. Um dos primeiros atos do príncipe regente d. João foi a criação, em 13 de maio de 1808, da Impressão Régia, que tinha o monopólio das publicações oficias (Camargo, Moraes, 1993).

Em 24 de junho de 1808 foi instaurada a censura prévia, que perdurou até 1821. No mesmo ano de 1808 surgiu, em Londres, o Correio Brasiliense, considerado o primeiro jornal em língua portuguesa a circular no Brasil. Sodré (1966, p.25), aceitando esse jornal como parte integrante da imprensa brasileira, considera "a data de aparecimento de seu primeiro número [1º de junho de 1808] marco inicial ... do nosso periodismo ...". Jornal dedicado aos interesses nacionais (independência e abolição da escravatura), circulou clandestinamente tanto no Brasil quanto em Portugal e foi o primeiro periódico publicado por um brasileiro e livre da censura portuguesa.

Também em 1808 a Impressão Régia editou a primeira publicação oficial impressa no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, cuja única preocupação era noticiar o que se passava na Europa e agradar a família real. Depois da Gazeta do Rio de Janeiro, surgiram Idade d'Ouro do Brasil (1811), na Bahia, e Variedades ou Ensaios de Literatura (1812), esta a primeira publicação literária em revista do Brasil (Rizzini, 1946; Bahia, 1990).

Em 1821, com o fim da censura prévia e o desenvolvimento da imprensa no Brasil, surgiram os jornais de cunho político e informativo: Revérbero Constitucional Fluminense e A Malagueta, no Rio de Janeiro, Aurora Pernambucana, em Pernambuco, e Conciliador do Maranhão, no Maranhão, além do Diário do Rio de Janeiro, primeiro jornal informativo brasileiro. Nos anos seguintes outros periódicos seriam lançados nas demais províncias do país: O Paraense (Belém, PA, 1822), Compilador Mineiro (Ouro Preto, MG, 1823), O Diário do Governo do Ceará (Fortaleza, CE, 1824), Farol Paulistano (São Paulo, SP, 1827), Diário de Porto Alegre (Porto Alegre, RS, 1827), Matutina Meiapontense (Vila de Meia Ponte, hoje Pirenópolis, GO, 1830), Íris Alagoense (Maceió, AL, 1831), O Catharinense (Desterro, hoje Florianópolis, SC, 1831), Natalense (Natal, RN, 1832), Recopilador Sergipano (Estância, SE, 1832), Correio da Victoria (Vitória, ES, 1849) e Cinco de Setembro (Manaus, AM, 1851) (Sodré, 1966).

 

O periódico científico brasileiro

No Brasil as associações científicas surgiram no século XVIII, a mais antiga na Bahia, em 1724, denominada Academia Brasílica dos Esquecidos e de fundo essencialmente literário e cultural. Em 1772 foi criada a primeira academia dedicada à ciência, a Academia Científica. Sob auspícios do vice-rei, marquês do Lavradio, estava sediada no Rio de Janeiro e destinava-se a estudos diversos, tendo prestado significativas contribuições ao Brasil.

A presença de d. João e da corte portuguesa desencadeou a criação de diversas instituições científicas no país: Academia Médico-Cirúrgica (1813, Salvador; 1815, Rio de Janeiro); Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (1829), posteriormente Academia Imperial de Medicina (1835) e atual Academia Nacional de Medicina; Faculdade de Medicina (1832, Salvador e Rio de Janeiro). Contudo a ciência brasileira ainda era muito 'pálida' (Azevedo, 1994).

Os jornais literários, que segundo Freitas (2006, p.57) "foram os principais comunicadores das artes e das ciências no reino e 1º Império do Brasil", embora não especializados foram os primeiros periódicos a publicar ciência no Brasil. Entre eles sobressaem: O Patriota, Jornal Litterario, Politico, Mercantil, do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, 1813-1814), segunda revista impressa no país e a pioneira em textos de divulgação científica e ilustrações; Annaes Fluminenses de Sciencias Artes e Literatura (Rio de Janeiro, 1822), revista que desempenhou importante papel no processo de institucionalização das ciências; Jornal Scientifico, Economico e Literário (Rio de Janeiro, 1826) e O Beija-Flor: Annaes Brasileiros de Sciencia, Politica, Litteratura (Rio de Janeiro, 1830-1831).

O primeiro jornal médico aqui editado foi o Propagador das Ciências Médicas ou Anais de Medicina, Cirurgia e Farmácia para o Império do Brasil e Nações Estrangeiras, em 1827, no Rio de Janeiro, por iniciativa do médico francês radicado no Brasil Joseph-François Xavier Sigaud, mas extinguiu-se no ano seguinte (Ferreira, 2004). Esses pioneiros periódicos médicos brasileiros tiveram sua trajetória vinculada ao movimento de institucionalização da medicina, posterior à independência política do Brasil. Conforme observa Ferreira (2004, p.95), sua origem "de certo modo se confunde com a da tardia institucionalização da imprensa no Brasil, que data da primeira década do século XIX, quando foi levantada a proibição que durante todo o período colonial colocou sob suspeição a impressão tipográfica. Esse fato redimensiona a importância do jornalismo médico, à medida que ele também pode ser abordado como parte das transformações culturais produzidas pela liberdade de imprensa". Nesse cenário surgiram os seguintes periódicos médicos: Semanário de Saúde Pública (Rio de Janeiro, 1831-1833); Diário de Saúde ou Ephemerides das Sciencias Medicas e Naturaes do Brazil (Rio de Janeiro, 1835-1836); Revista Médica Fluminense (Rio de Janeiro, 1835-1841); Revista Médica Brasileira (Rio de Janeiro, 1841-1843); Gazeta Médica do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, 1862-1964); Gazeta Medica da Bahia (Bahia, 1866-1972) e O Brazil-Médico (Rio de Janeiro, 1887-1971).

A história do periódico científico no Brasil mostra que a produção dos jornais e revistas médicas editados durante o século XIX constituiu os pilares da institucionalização da ciência no país.

 

Institucionalização da ciência no Brasil

O ensino oficial da medicina, no Brasil, começou em 5 de novembro de 1808, quando, por decretos do príncipe regente d. João, foram criadas a Escola Anatômico-cirúrgica e Médica, no Rio de Janeiro, e a Escola de Cirurgia da Bahia, em Salvador - primeiras instituições brasileiras destinadas a pensar a saúde pública.

No cenário internacional, seguiram-se as descobertas de Pasteur, que expandiram o paradigma microbiano e bacteriológico e possibilitaram outra compreensão das causas da doença e de suas formas de transmissão e cura. Em 25 de maio de 1900 foi criada, no Rio de Janeiro, a primeira instituição destinada às pesquisas biomédicas - o Instituto Soroterápico Federal, origem da atual Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Segundo Benchimol (1990) e Benchimol e Teixeira (1993), a criação do Instituto Soroterápico Federal e do Instituto Butantan, em São Paulo, em 1901, que se dedicou à pesquisa em ofidismo, propiciou o desenvolvimento e consolidação da pesquisa científica no Brasil.

 

A formação da coleção de periódicos científicos da Biblioteca de Ciências Biomédicas

O Instituto Soroterápico Federal tinha por incumbência fabricar soros e vacinas contra a peste e tomou como modelo o Instituto Pasteur de Paris, embora as duas instituições houvessem encontrado condições bastante diversas para o desenvolvimento de suas atividades (Instituto..., 2002). Em 1907 transformou-se em Instituto de Patologia Experimental. Em 19 de março de 1908 foi oficialmente adotada a denominação Instituto Oswaldo Cruz (IOC), em homenagem ao cientista. Em 1970 tornou-se Fundação Instituto Oswaldo Cruz e em maio 1974 recebeu a atual designação, Fundação Oswaldo Cruz.

Desde a sua criação, há mais de um século, a Fiocruz se apoia no tripé pesquisa/ensino/produção. Em 1903 Henrique da Rocha Lima iniciou a organização, ainda em bases informais, do ensino de bacteriologia, parasitologia, anatomia e histologia patológicas, visando à formação de profissionais necessários à própria instituição e à difusão das ciências biomédicas no país (Instituto..., 2002). Stepan (1976) constata que a instituição formou um corpo científico crítico com condições de transmitir o conhecimento acumulado graças ao Curso de Aplicação, inaugurado em 1908 e primeira escola brasileira de pós-graduação, verdadeira inovação no panorama científico nacional.

Em sua fase de consolidação, o IOC já contava com equipe de pesquisadores renomados, que empreendiam pesquisas originais voltadas para a resolução de problemas brasileiros: Henrique Figueiredo Vasconcelos, Henrique Rocha Lima, Alcides Godoy, Antonio Cardoso Fontes, Carlos Chagas, Arthur Neiva, Ezequiel Dias, Henrique Aragão e José Gomes Farias, todos ali formados.

Entre 1901 e 1910, o Instituto produziu 120 artigos originais, publicados em periódicos científicos nacionais e estrangeiros altamente seletivos. Dos nacionais, o que concentrou maior número de artigos foi O Brazil-Médico. De acordo com Weltman (2002, p.171), o fato de esse periódico ser semanal "proporcionava a quem ali publicava a garantia de prioridade de suas descobertas, uma vez que estas não tardariam a chegar ao domínio público". Entre os periódicos estrangeiros em que artigos de pesquisadores do IOC eram publicados, encontram-se Zentralblatt für Bakteriologie (Jena), Biologischen Zentralblatt (Leipzig), Archiv für Protistenkunde (Jena), Archiv für Schiffs und Tropen-Hygiene (Leipzig), Zeitschrift für Hygiene und Infektionskrankheiten (Leipzig), Münchener Medizinischen Wochenschrift (München), Annales de l'Institut Pasteur (Paris), Comptes Rendus de la Société de Biologie (Paris) e Bulletin de la Société de Pathologie Exotique (Paris). Weltman (2002) constata que esses artigos são relacionados a protozoologia, parasitologia, bacteriologia e entomologia, a maioria versando sobre doenças infecciosas e parasitárias. Por essa época, a lista de revistas científicas assinadas para a biblioteca do instituto ultrapassava 420 títulos (IOC, c.2000).

Com a criação do Instituto Soroterápico Federal teve início a organização da Biblioteca de Ciências Biomédicas, anteriormente denominada Biblioteca de Manguinhos, com a chegada dos primeiros livros e revistas ao instituto. Conforme Bortoletto e Sant'Anna (2002), muitos títulos faziam parte das coleções particulares dos pesquisadores da instituição; eram revistas que traziam as mais recentes descobertas científicas.

A Mesa das Quartas-feiras, atividade informacional, surgiu a partir das reuniões semanais desenvolvidas por Oswaldo Cruz com o corpo científico da instituição, entre 1902 e 1908 (Sousa, 2006). O pesquisadores se reuniam para a leitura dos artigos científicos, sempre às quartas-feiras, em um barracão localizado ao lado da construção do Pavilhão Mourisco, onde também ficava guardado o acervo recém-constituído da biblioteca. Aragão (1950, p.16) observa: "Tinha Oswaldo Cruz o trabalho de marcar, em cada revista, as publicações mais importantes, assinalando o nome daquele que as deveria ler para resumi-las na sessão a realizar-se semanalmente. E neste mister ia também orientando o assunto conforme as tendências e predileções que observava em seus discípulos". De acordo com Sousa (2006), a Mesa das Quartas-feiras atingiu o reconhecimento de prática científica relevante a partir da publicação de 183 resumos dessas reuniões na seção de suplementos de A Folha Medica.

Oswaldo Cruz dotou a instituição de biblioteca totalmente voltada para o usuário. O impacto da premiação de 1907, a medalha de ouro na Exposição Internacional do 14º Congresso de Higiene e Demografia de Berlim, pelas campanhas de saneamento do Rio de Janeiro, foi decisivo para a biblioteca, que em 1907 assinava 98 títulos de periódicos e em 1909, 421 (Bustamante, 1958).

No final de 1909 Oswaldo Cruz contratou Assuerus Hyppolitus Overmeer, homem culto, livreiro holandês, poliglota, a quem foi entregue a organização da Biblioteca de Ciências Biomédicas, à frente da qual ficou 35 anos, aí permanecendo até sua morte, em 1944. Seu posto foi mais tarde ocupado, com dedicação e proficiência, pela bibliotecária Emília de Bustamante. Segundo Bustamante (1958, p.12): "Indiscutivelmente, muito se deve a esse homem, cujo lema era 'simplicidade e bom senso', a eficiência dos serviços da Biblioteca."

Com a cooperação do cientista Arthur Neiva, a Biblioteca adquiriu raridades dos séculos anteriores em ciências naturais. Contudo os períodos de crise financeira - especialmente com a Revolução de 1930 e durante os governos militares de 1964 a 1985 - que o Instituto atravessou repercutiram na Biblioteca, que precisou interromper assinaturas de periódicos, jamais retomadas. A esse respeito, Fonseca Filho (1974, p.125) observa:

Isso aconteceu, por exemplo, com as revistas de botânica, nas quais, entretanto, se encontram muitos trabalhos que interessam à biogeografia, à ecologia e à micologia médica, especialidades cultivadas e pesquisadas em Manguinhos. O mesmo ocorreu com periódicos de outras especialidades, sem que tenha havido sempre a preocupação e sem que se tenha feito sempre o esforço necessário para se completarem as colecções desfalcadas. Pouco importa que tais colecções sejam pouco consultadas, porquanto de um lado chega sempre o dia em que vêm a fazer falta, e, de outro lado, as colecções completas, como se poderá ler abaixo, constituem patrimônio cultural e material do qual, nos casos em que o pode fazer, o Instituto muito se orgulha.

Apesar das dificuldades financeiras, as aquisições das revistas foram compatíveis com o crescimento do Instituto e atenderam às diversas linhas de pesquisa, às áreas de atuação dos cientistas e aos cursos de aplicação. Em 1941 a Biblioteca já contava com 2.443 títulos de periódicos especializados. Em 1944 esta cifra se elevou a 2.600 títulos. Na década de 1960 constavam aproximadamente em seu acervo 4.412 títulos de revistas nacionais e estrangeiras (Bustamante, 1958). Atualmente são 7.300 títulos de periódicos, dos quais 915 correntes e 601 considerados raros ou especiais. Ainda segundo Fonseca Filho (1974, p.125), "bem poucas instituições, não sabemos mesmo se alguma no Brasil e na América Latina, podem jactar-se de possuir tais preciosidades".

A preciosa coleção de periódicos científicos raros refere-se às seguintes áreas de especialização: anatomia patológica (área pioneira da instituição), bacteriologia, biologia, biologia marinha, entomologia, hematologia, história natural, imunologia, malacologia, micologia, microbiologia, protozoologia, química, virologia, zoologia, a maioria nos idiomas alemão, francês e inglês. Há periódicos fartamente ilustrados e até gravuras pintadas a mão.

Atualmente, a Biblioteca de Ciências Biomédicas, coordenada pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), reúne cerca de 1,5 milhão de volumes, entre livros e periódicos científicos, dissertações e teses, anais de congressos e material multimídia (vídeos, DVDs), utilizando sistemas de informação em rede e facilitando o acesso por meio de modernas tecnologias de informação. A Seção de Obras Raras A. Overmeer tem sob sua guarda cem mil volumes considerados raros e especiais, além da mencionada coleção de 601 títulos de periódicos científicos nacionais e estrangeiros, de reconhecido valor científico e histórico.

 

Os periódicos científicos raros

Os periódicos científicos são classificados como raros tanto em virtude de sua antiguidade quanto por sua importância histórica e relevância como fonte de pesquisa. A Biblioteca de Ciências Biomédicas possui periódicos brasileiros dos séculos XIX e XX, destacando-se Revista do Instituto Histórico e Geográfico (Rio de Janeiro, 1839-1929), Gazeta Médica da Bahia (Bahia, 1876-1972), O Brazil-Médico (Rio de Janeiro, 1877-1971), A Tribuna Médica (Rio de Janeiro, 1899-1972), Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi de História Natural e Ethnografia (Pará, 1900-1908), Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro, desde 1909) e Boletim da Academia Nacional de Medicina (Rio de Janeiro, 1919-1929) - todos fundamentais para o processo de constituição e consolidação da imprensa científica e cultural no Brasil -, além de títulos como Chácaras e Quintas (São Paulo, 1910-1970), A Lavoura (Rio de Janeiro, desde 1897) e a Folha Médica (Rio de Janeiro, desde 1920), em que se encontram contribuições originais dos cientistas do Instituto.

Em relação aos periódicos estrangeiros, entre eles alguns títulos ainda correntes, destacam-se Annales de Chimie et de Physique (Paris, 1789-1913), Annalen der Physick (Leipzig, 1790-1983), Proceedings of the Royal Society of London (Londres, 1800-1969), Lancet (Londres, desde 1823), Annales d'Hygiène Publique et de Médecine Légale (Paris, 1829-1907), Actes de la Société Linnéenne de Bordeaux (1838-1930), Annales de la Société Entomologique de Belgique (1857-1924), Zoological Record (Londres, desde 1864), Annales de L'Institut Pasteur (Paris, 1887-1923), British Medical Journal (Londres, desde 1889), American Journal of Medicine Science, (Philadelphia, desde 1891), Nature (Paris, desde 1892), Journal of Experimental Medicine (New York, desde 1896), Science (Washington, desde 1900), New England Journal of Medicine (Boston, desde 1909) e Journal D'Hygiene (Paris, 1910-1913) e Boletim da Academia das Ciências de Lisboa (Lisboa, 1914-1916).

Em relação aos periódicos latino-americanos, sobressaem as seguintes coleções: Revista del Museo de La Plata (Buenos Aires, 1891-1927), Anales del Instituto Medico Nacional (México, 1894-1914), Anales del Departamento Nacional de Higiene (Buenos Aires, 1895-1936), Revista Chilena de Historia Natural (Santiago do Chile, 1900-1930), Anales Cientificos Paraguayos (Puerto Bertoni, 1901-1919), Boletin de la Salud Publica (Montevidéu, 1932-1945) e Revista de Higiene (Bogotá, 1933-1942).

 

A coleção de periódicos científicos e as redes de cooperação

O crescente número de publicações incorporadas ao acervo da Biblioteca de Ciências Biomédicas reflete o prestígio institucional da Fiocruz no cenário científico internacional e, consequentemente, promove o intercâmbio com pesquisadores de outros países, posto que contribui para a divulgação científica na área biomédica em todo o mundo.

Segundo Meadows (2000, p.167), "um periódico de prestígio pode ser definido simplesmente como aquele que publica as melhores pesquisas pelos melhores pesquisadores". Sem dúvida, os periódicos científicos são as fontes mais importantes de informação para as atividades de ensino e pesquisa, constituindo insumo para investigações e desenvolvimento das ciências. Dessa forma, as bibliotecas/centros de informação são constantemente solicitadas por gama diversificada de demanda. Para agilizar seus serviços de atendimento, facilitar a recuperação da informação por parte dos usuários e manter esses materiais à disposição do público, bem como o intercâmbio com os pesquisadores de outros países, surgiu o sistema das redes de cooperação bibliográfica (Marinho, 2004).

Na década de 1970, a Biblioteca de Ciências Biomédicas incorporou-se às redes cooperativas do Catálogo Coletivo Nacional (CCN), do Instituto Brasileiro de Ciência e Tecnologia (Ibict), e Seriados em Ciências da Saúde (SeCS), da Bireme. Em 1980 passou a integrar o Programa de Comutação Bibliográfica (Comut), que permite às comunidades acadêmicas e de pesquisa o acesso a documentos em todas as áreas do conhecimento - através de cópias de artigos de revistas tecnocientíficas, teses e anais de congressos -, exclusivamente para fins acadêmicos e de pesquisa, respeitando-se rigorosamente a Lei de Direitos Autorais. Nesse contexto, empenha-se em fornecer a seus usuários todos os meios disponíveis de acesso à informação, conveniando-se a programas cooperativos de informação como o Portal de Periódicos da Capes, que disponibiliza periódicos eletrônicos com textos completos, bases de dados referenciais com resumos, patentes, teses e dissertações, estatísticas e outras publicações de acesso gratuito na internet.

Em 1999, seu catálogo bibliográfico foi disponibilizado na internet. A implantação de programas e equipamentos tecnológicos avançados proporcionou a seus usuários, internos e externos, dispor de títulos de periódicos que, no Brasil, só a Fiocruz mantém através de suas assinaturas, sendo seus artigos muito solicitados por outras instituições de ensino e pesquisa.

Não há como negar que as publicações eletrônicas fazem parte do cotidiano das bibliotecas, seja pela exigência por parte dos usuários, seja devido à imposição de algumas editoras em publicar exclusivamente em formato eletrônico. Os suportes mudam, e o acesso a eles deve ser sempre priorizado pela unidade de informação. A Biblioteca de Ciências Biomédicas orgulha-se por manter, em seus acervos, coleções completas e correntes dos periódicos científicos e técnicos de prestígio, nacionais e estrangeiros, em diferentes mídias (impressa, digital e eletrônica).

 

Considerações finais

Para Freitas (2006, p.54), "além de fonte privilegiada da história da ciência, o periódico científico pode ser considerado um espaço institucional da ciência, pois se insere dentro do universo das realizações e comunicação das atividades científicas". Os periódicos constituem elementos importantes nas bibliotecas, pois neles são divulgados os resultados das pesquisas mais atuais sobre determinado assunto, tornando-se o meio mais ágil de atualização da informação científica e tecnológica. Registram, assim, o desenvolvimento de experiências em diversas áreas do conhecimento.

Desde sua origem até hoje, a importância dos periódicos é primordial, e as modernas bibliotecas procuram preencher as lacunas adquirindo títulos de periódicos e utilizando os recursos avançados de informação e comunicação para disponibilizá-los a seus usuários. A relevância dessas publicações, para o cientista está, antes de tudo, em divulgar o conhecimento originado de suas atividades de pesquisas, assim como, aliás, para o historiador, que nelas tem documentos valiosos, reveladores de preocupações, pensamentos e opiniões de determinadas épocas a respeito de acontecimentos e personagens.

No atual ambiente da comunicação científica, a Biblioteca de Ciências Biomédicas configura-se como ponte entre passado e futuro, constituindo seu acervo de periódicos científicos não apenas memória tecnocientífica, mas sim um verdadeiro centro de informação.

 

REFERÊNCIAS

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