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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.17 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702010000100011 

ANÁLISE

 

Germanidade e banhos medicinais nos primórdios dos balneários no Rio Grande do Sul*

 

 

Sílvio Marcus de Souza Correa

Professor do Departamento de História Universidade Federal de Santa Catarina UFSC - Campus Universitário Trindade Centro de Filosofia e Ciências Humanas 88040-970 - Florianópolis - SC - Brasil. silviocorrea@cfh.ufsc.br

 

 


RESUMO

Nos primórdios dos balneários no Rio Grande do Sul, encontravam-se alguns imigrantes alemães, não apenas entre os banhistas, mas também entre os empresários do incipiente ramo do curismo-turismo. Era um grupo pequeno de imigrantes de origem urbana que, em geral, já conhecia as vantagens curativas ou revigorantes dos banhos em balneários europeus. Entre eles destacavam-se os médicos, importantes emissores de um discurso científico em prol dos balneários. As práticas terapêuticas de banhos de mar chegaram ao Brasil meridional pela imigração européia da segunda metade do século XIX, embora sua difusão só tenha ocorrido na primeira metade do século seguinte, quando se desenvolveram as primeiras praias balneárias no Rio Grande do Sul.

Palavras-chave: vilegiatura marítima; curismo; balneários; história; Rio Grande do Sul (Brasil).


 

 

No Brasil, os banhos medicinais inscrevem-se na profilaxia de certas moléstias e nos cuidados com o corpo que o meio tropical demanda. Trata-se de cultura aristocrática que aqui chegou com a grande migração portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808. Tal prática cortesã, entretanto, acabaria por deixar os círculos aristocráticos, bem como sua finalidade terapêutica, para assumir contornos mais burgueses e também de lazer (Camargo, 2007). Sem abolir as motivações terapêuticas e profiláticas originais, os banhos e os passeios à beira-mar assumiram perfil hedonista e passaram a fazer parte de um novo estilo de vida e a integrar a literatura romântica, especialmente os romances urbanos.1 Pintores como o alemão J.M. Rugendas também não deixaram de registrar cenas à beira-mar, no Rio de Janeiro e em outras praias visadas para a cura e o recreio das elites urbanas da América Latina. Da costa do Rio Grande do Sul, as aquarelas do francês Jean-Baptiste Debret e do alemão Hermann von Wendroth datam de período anterior à vilegiatura marítima, quando as esparsas localidades pesqueiras ainda não tinham sido transformadas em praias balneárias.

As 'águas virtuosas' das fontes termais também passaram a ser valorizadas no Brasil a partir do século XIX. No Formulário ou Guia Médica, de Pedro Chernoviz (1864), por exemplo, já consta uma série de estâncias hidrominerais do Brasil, com detalhada descrição das propriedades físico-químicas de suas águas e suas indicações médicas para determinadas moléstias. O curismo, porém, tardou a fomentar a prática dos banhos de mar no Rio Grande do Sul, onde os primeiros indícios de vilegiatura marítima datam do último quartel do século XIX.

Em 18 de fevereiro de 1878 chegava a Porto Alegre o jovem alemão Hans Hoffmann. Depois de tumultuada viagem, durante a qual os passageiros sofreram de enjoos e outros males da travessia atlântica, o jovem percorreu a costa brasileira de Recife até Rio Grande. Visitou esta última cidade portuária e, poucos dias depois, embarcou no vapor Guahyba rumo à capital da província sulina. Ao desembarcar em Porto Alegre, onde muitas casas de comércio exibiam nomes em alemão, o jovem aventureiro procurou por seu tio Friedrichs, proprietário de uma ferragem no centro da capital.2 Ao chegar ali, soube que o proprietário e sua esposa só regressariam da praia alguns dias depois (Noal Filho, Franco, 2004, p.168).

Essa passagem do diário de um jovem de 15 anos sinaliza algo valioso para o estudo dos banhos de mar no último quartel do século XIX, no Rio Grande do Sul (Hofmann, 1878), pois indica que alguns imigrantes alemães já praticavam a vilegiatura marítima em época na qual os banhos de mar eram feitos sob prescrição médica.

Também em "Queda e redenção", trecho da narrativa Hilda, de Aquiles Porto Alegre (2002, p.126), há referência ao assunto, pois nele é mencionado que os banhos de mar com finalidades medicinais eram praticados na província:

Pelos meses de dezembro e janeiro algumas famílias ricas e outras pobres, com algum doente, deixam a capital e vão aos banhos do mar. Neste tempo o lugar torna-se então mais alegre, porém não dura muito que a tristeza não venha de novo assolar a natureza do local. Em março e abril os banhistas, aos primeiros arrepios do frio, como as andorinhas, levantam as tendas que povoavam a extensão da praia e as caravanas partem com direção a Porto Alegre.

Um terceiro vestígio da vilegiatura marítima encontra-se num anúncio do jornal O Mercantil, de 8 de janeiro de 1884, sobre banhos em Cidreira: "As pessoas que quiserem ir aos higiênicos banhos da Cidreira, encontrarão boas conduções em espaçosas carretas que se acharão na Várzea desta cidade, em princípios de janeiro entrante e por cômodos preços; acrescentando-se que lá também encontrarão boas acomodações. Pode-se desde já tratar com João de Deus Gomes, na casa de negócio do mesmo, no Campo do Bonfim, esquina da rua da Azenha". Em seu livro Revivendo o passado, Archymedes Fortini (1953, p.71) também fez menção aos banhos de mar, bem como, aliás, ao primeiro hotel da vilegiatura marítima no Rio Grande do Sul. Trata-se do Hotel da Saúde, de propriedade de Leonel Pereira de Souza, fundado em 1888 na praia de Tramandaí. Entretanto, a mais remota referência a uma veranista alemã numa praia marítima do Rio Grande do Sul, talvez esteja na revista A Gaivota (1942, p.42), ao registrar o falecimento, em dezembro de 1941, da mais antiga veranista da praia de Cidreira, Cristiana Schneiders, viúva de Carlos Schneiders, comerciante em Porto Alegre. Ela falecera com 92 anos e durante 75 anos veraneara em Cidreira - ou seja, a família Schneiders frequentava os banhos de mar da Cidreira desde 1866.

Em monografia sobre os primórdios de Cidreira, Myrthes Gonzales (s.d.) comenta que, no final do século XIX, os primos Leopoldo e Edmundo Bastian, Carlos Dauth, Ernesto Scheneiders e as famílias Bopp e Cristoffel solicitaram aos nativos a construção de choupanas de palha iguais às dos pescadores, para nelas passar a temporada de verão. Tais informações corroboram as primeiras referências literárias à vilegiatura marítima no Rio Grande do Sul e a presença dos alemães entre os pioneiros.

Como informa o anúncio do jornal O Mercantil já mencionado, o transporte de veranistas era feito por carretas que saíam em comboio de Porto Alegre e, do último quartel do século XIX até a década de 1920, alcançavam o litoral marítimo por um caminho difícil, passando por Agronomia, Passo do Vigário, Capão da Porteira, Capivari, Palmares, e alcançando Cidreira. Desse ponto os viajantes poderiam deslocar-se pela orla até outras praias balneárias (Soares, 2000, p.21).

 

 

Entre os fabricantes de carretas destacava-se a família alemã Sperb3, e a demanda de transporte e víveres por parte dos veranistas motivou, provavelmente, Jorge Eneas Sperb a fundar, em 1898, um hotel na praia de Tramandaí.

De Porto Alegre a Tramandaí, as carretas de carga tracionadas por bois, levavam oito dias de viagem. Cinco dias antes de Jorge Sperb sair para Tramandaí com sua família de São Leopoldo, onde moravam, ia a Porto Alegre para despachar as carretas de bois, de sua propriedade, carregadas de bebida, alimentos e outros artigos que se faziam necessários para a manutenção e funcionamento do Hotel Sperb ... . As carretas de bois carregadas com mantimentos, que saíam cinco dias antes de Porto Alegre, seriam alcançadas pela carreta de cavalos da família de Jorge E. Sperb. Era tudo muito bem calculado. Chegavam mais ou menos juntas. (Depoimento de Flavia Sperb Zinck, neta de Jorge E. Sperg, citado em Soares, 2000, p.35)

A vilegiatura marítima acabaria desencadeando uma nova relação com o litoral. A passagem do curismo ao turismo e o estudo dessa evolução no Rio Grande do Sul permitem inferir que, nos primórdios das estações balneárias das praias de mar, imigrantes alemães e descendentes estiveram entre os principais atores.

 

Terra, água e ar: a tríade benfazeja à saúde dos imigrantes

Os relatos de viajantes europeus acordam em uníssono sobre as qualidades da água, do ar e da terra do Rio Grande do Sul, especialmente para o desenvolvimento da agricultura, da indústria e do comércio. A terra fértil, o ar salubre e os rios piscosos e navegáveis dos vales eram condições muito favoráveis à prosperidade do empreendimento colonial. Mas como o solo considerando fértil era aquele coberto pelas matas, o desmatamento tornou-se imprescindível à colonização agrícola. Poucos foram os que criticaram as técnicas de cultivo nas áreas de colonização agrícola do Brasil meridional.4 Evidentemente, a ênfase da política de colonização e imigração europeias na agricultura ou na indústria acabou valorizando as terras aráveis da hinterlândia, plena de recursos naturais, entre os quais os rios navegáveis, fundamentais para o comércio das colônias agrícolas. Assim, pouco valor tinha o território arenoso do litoral, com topografia, ventos e correntes que dificultavam a navegação de cabotagem. Só no último quartel do século XIX as águas marinhas passaram a atrair banhistas, e a areia do estirâncio, a servir de passeio aos veranistas.

 

 

Nas primeiras décadas da colonização alemã no Rio Grande do Sul, o ar puro das colinas verdejantes, os rios sinuosos dos vales e a terra escondida na mata densa contrastavam com a paisagem deserta, inculta e inóspita do litoral marítimo. Vale lembrar que a maioria dos imigrantes alemães era proveniente da hinterlândia germânica, tendo sido a travessia atlântica sua primeira experiência com o mar. Muitos outros, no entanto, não eram agricultores. Para alguns dos profissionais liberais que imigravam, a vilegiatura marítima, especialmente ao Báltico, fazia parte de suas experiências, assim como a temporada em estações termais. Nesse sentido, a natureza brasileira foi percebida de formas distintas pelos diversos grupos sociais de imigrantes alemães. Tal percepção variou, em parte, conforme a influência da relação pretérita desses grupos com a natureza da Alemanha. Na Pomerânia, por exemplo, já havia uma tradição de banhos de mar no início do século XIX, e muitos filhos de camponeses trabalhavam nos balneários marítimos durante o período estival. A situação pós-napoleônica obrigou, no entanto, muitos pomeranos a emigrar. Nessa época, o Rio Grande do Sul começava a receber os primeiros imigrantes alemães, que, depois de uma longa travessia marítima, identificavam a paisagem litorânea de Rio Grande e do 'mar de dentro' com aquela do Mar do Norte. O médico alemão Robert Avé-Lallemant (1980, p.105 e ss) destacou as semelhanças das paisagens litorâneas do Rio Grande do Sul com as do norte da Alemanha: "O pontal do Farol do Rio Grande parece exatamente com o campo ermo de um farol numa arenosa costa nórdica ... . A lagoa dos Patos, em nossos mapas aparentemente tão pequena, é um grande lago de água salgada, muito singular, quase comparável aos nossos golfos (Haff) do mar Báltico".

Em Porto Alegre, Avé-Lallemant (1980, p.111) também fez comparações com regiões alemãs, ao vislumbrar a paisagem da bacia hidrográfica com as várzeas que a entremeiam.

Recordo-me, do tempo da minha juventude, de um lindo quadro do lago Uglei e de toda a região de Gutin e Plöen, onde também a terra, a floresta, a água doce e a campina realmente se fundiam, como se toda a paisagem fosse um suave lençol d'água ... . Mas a reminiscência nórdica não se restringe apenas ao alto da cidade de Porto Alegre, de onde se pode contemplar longa distância. Desce também à parte comercial. Ali em toda parte se vê gente da raça loura perambulando. A cada momento se vê um alemão transitando, a cada momento se vê um nome alemão sobre as portas das casas e se ouve falar a rude língua alemã do Holstein e do dialeto pomerânio até ao bávaro renano.

O médico alemão também enfatizou a importância da tríade 'água, ar e terra' para a saúde dos habitantes do Brasil meridional, especialmente a dos imigrantes alemães. Em sua opinião, a colônia-modelo de São Leopoldo muito devia ao "solo fértil de uma terra abençoada num clima suave", mas o contingente alemão fazia a diferença em relação às demais regiões da província (Avé-Lallemant 1980, p.148). Afinal, "na vasta terra tudo sofre com a indiferença, a preguiça e a negligência com que o homem, quanto mais a boa natureza o cumula de bênçãos, tanto menos lhe corresponde o seu agradecimento" (p.386). Relacionava, pois, o florescimento econômico e cultural da província sulina do Império brasileiro com a chegada de seus patrícios.

Com base nos três principais requisitos sanitários de Hipócrates (ar, água e solo), Avé-Lallemant (1980, p.385-386) considerava o Rio Grande do Sul uma "Alemanha melhorada". Outro médico alemão, Johannes Franz Epp (1864), chegou a denominar o Rio Grande do Sul 'Nova Alemanha'. Cabe salientar que, com o aumento da imigração e colonização alemãs, muitos médicos trataram da adaptação de seus conterrâneos em áreas tropicais. Os estudos sobre doenças tropicais e sua profilaxia (medidas de higiene, atividades físicas, cuidado com a alimentação, vacinação etc.) se tornaram importantes à época de Bismarck, quando uma política imperialista fez o Reich alemão participar da partilha da África.5 Na África austral, os alemães também encontraram clima favorável à colonização e endossaram o discurso colonialista (e racista) de que a natureza tropical não era indômita e sim o negro, preguiçoso.6 Para muitos alemães, negros africanos e caboclos brasileiros eram preguiçosos e não faziam jus àquelas respectivas terras 'abençoadas'.

 

O curismo-turismo nas primeiras décadas do século XX

Heinz von Ortenberg foi um dos médicos alemães que atuaram na África austral e também no Brasil meridional. De sua experiência de prática médica nas tropas alemãs, durante a campanha militar contra os hereros e os hotentotes, publicou um livro, em 1908, por uma editora de Berlim. Nesse ano, porém, o jovem von Ortenberg já se encontrava no Brasil, em Santa Cruz do Sul (RS), onde exerceu a medicina por muitas décadas.7

Durante a Primeira Guerra Mundial, von Ortenberg retornou à Alemanha e atuou novamente como médico das tropas alemãs no front. Em 1916 ele e alguns pares foram enviados para a Bulgária, onde passaram meses num balneário do Mar Negro. A prática do banho turco foi atividade prazerosa que von Ortenberg declarou realizar com frequência durante sua estada em Burgas (Telles, 1980, p.84). Lá também visitou as termas, já conhecidas dos antigos romanos e cujas águas o médico alemão reputava ótimas para a cura de "reumatismo, gota, ciática e males femininos" (p.88-89).

No pós-guerra, von Ortenberg retornou ao Rio Grande do Sul e, apesar de residir em Santa Cruz do Sul, frequentou durante a década de 1930 o balneário de Iraí, onde outros curistas alemães passavam alguns dias ou semanas no verão. Durante suas estadas de hidroterapia, enviou algumas cartas a sua mulher Hanna. Nelas, faz referência aos hóspedes alemães do Hotel Descanso, cujo proprietário, Bernhardt Maahs, também era alemão, e fornece informações sobre outros aspectos - como higiene e asseio - daquela estação hidromineral.

Na estância mineral de Iraí, o curismo deu também vazão à recreação, tornando-se os jogos de azar atração lúdica cada vez mais importante ao turismo - em 1941 ali foi inaugurado o Cassino Guarani. Seguiu-se, portanto, a tendência internacional de ampliar as atrações turísticas dos balneários. Nas estâncias hidrominerais de Minas Gerais já havia cassino no Hotel Brasil, em São Lourenço, no Hotel Glória, em Caxambu, e no Grande Hotel Araxá, na localidade homônima. Além desses, os famosos Cassinos da Urca e Atlântico, na capital do país, e o do Hotel Quitandinha, em Petrópolis (RJ), podem ser considerados indicadores da nova valorização do entretenimento e do lazer especialmente ligados ao jogo, que representavam um modo de vida moderno (Rossini, 2001, p.64 e ss).

A criminalização dos jogos de azar no país, em 1946, selou a sorte dos cassinos em território nacional, e o Guarani foi fechado oficialmente naquele ano. Para o estudo dos banhos medicinais, a atividade do cassino tolhe a análise da atração de Iraí na primeira metade da década de 1940. Segundo Fischer (1954, p.61), a visitação ao balneário havia sido incrementada, talvez, pela abertura do cassino, entre 1941 e 1946. Os banhos conferiram renda significativa à localidade desde o final dos anos 1930, embora, provavelmente, parte substancial dessa renda tenha sido drenada pelo jogo durante a vida curta do Cassino Guarani.

Na primeira metade da década de 1940, hidroterapia e jogo eram atividades complementares para os turistas que escolhiam a estação balneária de Iraí. Alguns deles, no entanto, como von Ortenberg, desaprovavam o aumento dos frequentadores daquele balneário, pois desvirtuava as finalidades terapêuticas da estada. Não apenas o sossego ficava comprometido, como também o controle de higiene dos banhos. Além disso, o médico alemão parecia não gostar do convívio com clientela mais heterogênea, que ele denominava "miserável plebe".

Em carta remetida de Iraí, datada de 3 de dezembro de 1931, von Ortenberg reputa as águas termais de milagrosas (ein geradezu wunderbares Wasser). Segundo outro médico, Heitor da Silveira (1932), a água mineral de Iraí teria propriedades que minimizavam tensões neuropsíquicas, tonificavam músculos e tratavam estresse, revigorando funções físicas e mentais. Além disso, ela ajudaria na aceleração do metabolismo celular, eliminação do ácido úrico, estimulação de secreções internas, regularização da pressão sanguínea, além de possuir ação diurética, antialérgica e sedativa, com melhoria do sono, podendo ser benéfica, sobretudo, para o organismo de pessoas nervosas, neurastênicas ou que sofriam de insônia.

 

 

 

 

Nas cartas de von Ortenberg há uma série de informações sobre a hidroterapia em Iraí. A casa de banhos ficava perto do hotel em que ele costumava hospedar-se, e havia supervisão médica dos banhos. Muitos hóspedes eram alemães, e o maior fluxo deles era durante os meses de janeiro, fevereiro e março (Telles, 1980, p.139-140). Além de profissionais liberais, caixeiros-viajantes alemães ou teuto-brasileiros também frequentavam a estação balneária, bem como outros médicos - o doutor Bassewitz era um deles -, especialmente médicos 'naturistas' (p.148).

Nas décadas de 1930 e 1940, Iraí (RS) e Araxá (MG) eram algumas das referências brasileiras de estações hidrominerais. No Rio Grande do Sul, jornais e revistas da época traziam anúncios dos balneários de Iraí e Ijuí (RS), Tubarão (SC) e Araxá e Caxambu (MG), entre outros. Desde o final do século XIX, o valor terapêutico e certas propriedades das águas minerais atraíram alguns segmentos urbanos que endossavam o êxito dos tratamentos com base na hidroterapia.8

Curistas da Argentina, do Uruguai e do Chile também procuravam o balneário iraiense em pleno sertão do Rio Grande do Sul (Rossini, 2001, p.37). O afluxo de curistas era de tal monta que a companhia aérea Varig chegou a estabelecer uma linha entre Porto Alegre e Iraí, porém, com o refluxo decorrente do fechamento do cassino, a companhia deixou de voar para o norte do estado. Desde o final da década de 1920, no entanto, seus hidroaviões já faziam regularmente o trajeto entre Porto Alegre e as praias balneárias. Na década de 1930 um dos fundadores da Varig, Ernesto Meyer, organizou um serviço de transporte aéreo com aviões Junkers entre Porto Alegre e Torres. Em Tramandaí a Varig chegou a construir um campo de pouso (Soares, 2000, p.118). Esse incremento nos meios de transporte para as praias de mar acusa um aumento da demanda na época do veraneio, o que significa ter a estância hidromineral de Iraí sofrido a concorrência dos balneários marítimos do Rio Grande do Sul.

 

Banhos de ar, de luz, de sol e de águas marinhas

Em geral, aqueles que escreveram sobre a estação hidrotermal de Iraí ou sobre o Cassino Guarani, como Martin Fischer (1954) e Sirlei Rossini (2001), apontam para o fechamento dos cassinos no país como o principal motivo da crise econômica que se abateu sobre o município de Iraí a partir dos meados do século XX. No entanto, nenhum autor atentou para a evolução dos banhos de ar, de luz, de sol e, sobretudo, de águas marinhas.

Cabe lembrar que, na década de 1940, houve uma série de incrementos na infraestrutura dos balneários marítimos, desde a melhoria das condições de estada, tanto em termos de higiene quanto de conforto da rede hoteleira, até o aumento da frequência e a melhoria dos serviços de transporte para as praias balneárias do litoral gaúcho. Nessa época, os anúncios dos hotéis salientavam suas instalações sanitárias, adequadas às exigências do Departamento de Saúde estadual e outras vantagens, como água doce nos chuveiros, luz elétrica e acesso a ondas de rádio. As empresas de transporte, por seu turno, informavam os horários e os vários destinos de seus percursos diários ou hebdomadários durante os meses de verão. Além disso, agências imobiliárias já atuavam no negócio de loteamentos, na compra e venda de terrenos e na ampliação da infraestrutura urbana das praias de mar. Em termos de entretenimento, os hotéis do litoral atlântico também começavam, no final da década de 1930, a ter seus próprios cassinos. Vários anúncios de cassinos em praias como Tramandaí, Imbé e Cidreira foram publicados no jornal Correio do Povo, nos anos 1940.

Assim, ao mesmo tempo em que as estações hidrominerais eram recomendadas pelo valor medicinal de suas águas, os balneários marítimos também eram procurados a conselho médico. O médico gaúcho Raul Pilla (1943), em artigo para uma revista especializada em praias balneárias do Rio Grande do Sul, afirmava que "os banhos, as pulverizações salinas do ar, a limpidez e a forte luminosidade da sua atmosfera fazem das praias marítimas grandes e insubstituíveis fatores higiênicos e terapêuticos" (p.49).

Escusado lembrar que, desde a Antiguidade, a hidroterapia era praticada na Europa. Mas o tratamento com águas quentes ou frias causou algumas polêmicas. No século XVIII, o doutor Richard Smollet, adepto da hidroterapia, aconselhava banho frio (Corbin, 1989, p.72). Foi nessa época que se divulgou a moda do banho frio, do banho de mar, tendo sido descobertas as virtudes terapêuticas da água do mar. Segundo o doutor John Speed, "o banho de mar não é somente um banho frio, mas um banho frio medicinal" (p.77). Foi esse projeto terapêutico que impulsionou o banho de mar, a vilegiatura marítima na Europa (p.80-81).

 

 

Em relação à hidroterapia na Europa, no Brasil meridional tal prática de banhos medicinais ocorreu mais tarde, sendo concomitante à chegada de alguns imigrantes alemães adeptos e principais promotores tanto dos banhos quentes das estações termais do interior, quanto dos banhos frios dos mares do Norte e do Báltico. Para melhor entender o vínculo entre a imigração alemã e a vilegiatura marítima no Rio Grande do Sul, deve-se levar em conta algumas tendências culturais e científicas em voga na Alemanha desde o final do século XIX e que levaram a um novo modo de vida em termos de saúde (os alemães adotaram a expressão Lebensreform).

No litoral brasileiro, as praias do Rio Grande do Sul são as mais frias. Assim, imigrantes alemães do Brasil meridional não tardariam a promover a vilegiatura marítima, com base na experiência dos banhos medicinais nas águas frias do mar do Norte ou do Báltico. No Rio Grande do Sul, a ida aos banhos de mar para cura de certas moléstias concorreu com os sanatórios do interior, em que a hidroterapia era empregada seguindo métodos alemães. Vale lembrar que, além do silesiano Vincenz Priessnitz, o bávaro Sebastian Kneipp foi um dos percussores da hidroterapia na Alemanha. Seu livro Mein Wasserkur (Kneipp, 1886) tornou-se o vade mecum dos banhos terapêuticos.

Mein Wasserkur chegou a ser muito difundido entre os médicos do Rio Grande do Sul, sobretudo os alemães. No final do século XIX, em Hamburger Berg, houve um estabelecimento de saúde que seguia a hidroterapia de Kneipp, cujo médico naturista, Leonardo Teschpoeke havia estudado em Wörishofen (Alemanha).9 Também em Santa Cruz, o alemão Eduard Kämpf procurou uma localidade com boa fonte para instalar um sanatório. Concomitantemente com a hidroterapia de Kneipp, Eduard Kämpf, médico diplomado em Leipzig, adotava a técnica de Schroth. Além de banhos quentes e frios, eram empregados banhos de sol e de vapor, assim como massagens e dieta vegetariana (Kalender..., 1903). Von Ortenberg atuou ao lado de seu compatriota Eduard Kämpf na estação de cura deste último, em Santa Cruz do Sul. Isso significa que o frequentador assíduo dos banhos hidrominerais de Iraí trabalhava com hidroterapia no Sanatório Vida Nova, em Santa Cruz do Sul.

 

 

No Rio Grande do Sul, outros sanatórios e casas de saúde também foram localizados à beira-rio. Na capital havia, no início do século, a Casa de Saúde Porto-Alegrense, em que atuavam os médicos Protásio Alves e Sebastião Leão. Seus anúncios em alemão permitem inferir a importância da clientela de origem germânica. Na mesma época, em Taquara, funcionava o Sanatório do Doutor Von Kilbatchiche. A propósito, há uma lacuna na historiografia da imigração alemã no Rio Grande do Sul sobre o surgimento de sanatórios no início do século XX e sua relação com a medicina e práticas naturistas que se desenvolviam na Alemanha.

Além de sanatórios, casas de saúde e hospitais onde médicos nacionais e estrangeiros prescreviam para certas moléstias os banhos medicinais, uma literatura médica em português e em alemão também aconselhava os banhos a seus leitores. Entre o público-alvo dessa literatura especializada, destaca-se a mulher, dona de casa (Hausfrau), vista como um vetor da medicina preventiva. Dizia-se, em meio aos naturistas alemães, que um corpo que frequenta os banhos (de ar, de água e de sol) não precisa frequentar os médicos. Os cuidados domésticos com a higiene e a saúde passavam necessariamente pela prática dos banhos e outros preceitos da medicina naturista.

Em termos científicos, esse tipo de medicina conheceu grande impulso a partir de meados do século XIX, especialmente no espaço linguístico alemão. Em 1842 o médico Johann Schroth tratava seus pacientes com banhos de ar, de luz e de água, em seu recém-criado estabelecimento em Lundewiese. Em 1854, Hermann Brehmer fundou um sanatório em Gröbersdorf, na Silésia, onde combatia a tuberculose com banhos de ar e de sol. No ano seguinte, apoiado em sua experiência alpina, o suíço Arnold Rikli enfatizou os banhos de luz e de sol como terapia eficaz para curar a doença (Andrieu, 2008, p.36). Em 1903 outro suíço, Auguste Rollier, fundou clínica em Leysin, nos Alpes, onde também se praticava com igual objetivo a helioterapia. Dez anos depois foi publicado seu livro Die Heliotherapie der Turberkulose (Helioterapia da tuberculose) (Ory, 2008, p.67-68; Andrieu, 2008, p.61).

Os banhos atmosféricos e a helioterapia acabaram por contribuir para o deslocamento da vilegiatura marítima, anteriormente concentrada nos Mares da Mancha, do Norte e do Báltico. A partir do final do século XIX a luminosidade, o ar e as praias do Mediterrâneo passaram a atrair os curistas. A hidroterapia e a helioterapia dos sanatórios alemães e suíços acabaram influenciando as técnicas francesas de tratamento contra várias moléstias cutâneas, nervosas, cardiovasculares e respiratórias, entre outras.

Por conselho médico, os banhos de ar, luz, sol e água (quente ou fria) favoreceram nova relação com a atmosfera, sobretudo nas montanhas ou à beira-mar, e com outros elementos naturais, notadamente os hidrominerais. A prática também teve como decorrência o desnudar do corpo humano. O naturismo, portanto, suscitou o nudismo, o surgimento da cultura do corpo livre (Frei Körper Kultur), na Alemanha do final do século XIX. Em 1902 o nudismo teve seu primeiro periódico, a FKK-Zeitschrift, que serviu de referência literária do naturismo alemão até 1924 (Andrieu, 2008, p.38). Escusado lembrar que o naturismo ia de par com as novas higiene e cultura física. No início do século XX, a prática de ginásticas e outros esportes ganhou nova ênfase na Alemanha e chegou ao sul do Brasil, aliás, também com os imigrantes alemães e suas associações, como a que deu origem à Sociedade Ginástica de Porto Alegre (Sogipa).

Em várias edições da Revista do Globo da década de 1930, encontram-se matérias ou registros fotográficos de práticas desportivas na Alemanha e também da ginástica e dos campeonatos que envolviam atletas do Instituto Porto Alegre, do Colégio Americano e da Deutscher Turnverein (atual Sogipa). As 'paradas atléticas' também permitiam a integração dos vários atletas da Turn Verein - de Porto Alegre e das 'filiais' do interior. Além disso, os anúncios de produtos cosméticos ou farmacêuticos para pele, depilação e higiene íntima da mulher indicavam uma nova percepção estética do corpo, que não se pode dissociar da prática dos banhos de mar.

Cabe ainda destacar que o naturismo vigente durante a Belle Époque na Alemanha teve um antecedente cultural, o romantismo. Entre outros movimentos naturistas naquele país, o Wandervögel (pássaros migratórios), criado em 1896, apresentava essa verve romântica, e seus adeptos faziam passeios para contemplação da natureza, em oposição ao conforto citadino e ao utilitarismo da sociedade industrial (Rauch, 1995, p.112). Bosques, montanhas, lagos e mares alemães passaram a receber cada vez mais viandantes. Em 1895, na capital do império austro-húngaro, jovens social-democratas fundaram a associação turística Die Naturfreunde, que em apenas uma década reuniu dezenas de seções locais e mais de oito mil sócios, ultrapassando as fronteiras austríacas e ganhando adeptos na Suíça e no sul da Alemanha. Esse reencontro com a natureza favoreceu novas sensibilidades (p.115-116), destacando-se a percepção positiva do bronzeamento. Com a helioterapia, a hidroterapia e os 'banhos atmosféricos', a coloração da pele ganhou novo significado. Nessa estética surgida na década de 1930, de par com preceitos médicos, a noção aristocrática da cor de mármore foi sendo substituída pela noção burguesa da cor de bronze, e ao se despir o corpo humano ganhou novo valor e nova coloração.10

O decorrente culto ao corpo justifica-se, afinal a helioterapia e a hidroterapia contribuíram para a exposição cada vez maior do corpo não apenas ao ar livre, mas também ao olhar público. Nesse sentido, muitos produtos visavam embelezar o corpo à mostra. Com os indivíduos cada vez mais despidos, vestidos, joias e demais ornamentos perderam terreno para formas, cor, volume, proporções e outros predicados do corpo. O fisiculturismo favoreceu a ginástica e os esportes, mas também a indústria cosmética e farmacêutica.

Entre as indústrias pioneiras nesse ramo dos cosméticos, no Rio Grande do Sul, destaca-se a firma de Carlos Geyer, que também era professor na Faculdade de Medicina. Outros imigrantes alemães e descendentes exerciam a docência ali ou na Faculdade de Farmácia, como Alberto Goetze, Carlos Wallau, Carlos Hoffmeister e Frederico Falk. René Gertz (2002, p.163) observou que, na Faculdade de Medicina, "os alemães e descendentes - inclusive luteranos - não eram seres totalmente exóticos". Contudo, carece ainda de estudos a influência da medicina alemã no círculo científico sul-rio-grandense das primeiras décadas do século XX.

Do desejo de beira-mar a sua satisfação

Quando o médico Robert Avé-Lallemant viajou pelo Rio Grande do Sul, os banhos quentes ou frios com finalidades terapêuticas não eram ainda moda na província. Predominava no Brasil, de modo geral, a vilegiatura campestre, preferencialmente nas regiões serranas, como terapia para males advindos das localidades insalubres ou do modo de vida moderno. Se Petrópolis era o destino para a convalescença de todos os que, no Rio de Janeiro, eram "doentes, fracos, debilitados pelo clima ardente, ameaçados pela febre amarela, fatigados pelas preocupações" (Avé-Lallemant, 1980, p.94), no Rio Grande do Sul as colônias alemãs, em meio à floresta, cumpriam essa função revigoradora dos balneários ou centros de vilegiatura. Para Avé-Lallemant, a província sulina não carecia de balneários, já que suas prósperas colônias ofereciam todos os atributos para restaurar o corpo e a mente daquele que padecia em centros urbanos, fosse dos miasmas ou de todo um ambiente insalubre. A capital da província, aliás, não se diferenciava muito de uma aldeia em meados do século XIX. O arraial do Menino Deus era um dos destinos preferidos para a vilegiatura campestre, e as praias do rio Guaíba também ofereciam lazer e descanso a seus visitantes. Porém, Franz Epp, outro médico alemão, sentiu falta de um balneário público em Porto Alegre (Noal Filho, Franco, 2004, p.131). Outros viajantes europeus (Baguet, Isabelle, Ambauer) apontaram para o potencial balneário de Porto Alegre, especialmente por seu clima e seus arrabaldes.

A industrialização e a urbanização, entretanto, foram transformando os refúgios e os recantos, e em poucas décadas as praias do Guaíba, o arraial do Menino Deus e o Caminho Novo, com suas casas de campo, deixaram de servir ao passeio, ao descanso, ao repouso. Paralelamente o litoral começou a receber maior número de veranistas, sendo fator decisivo, como já mencionado, o discurso científico em prol dos banhos medicinais.

No entanto, práticas religiosas também celebravam curas milagrosas em águas sulinas. Da mesma forma, o apelo à providência divina foi uma constante entre os banhistas diante da imprevisível natureza marinha. Festas religiosas também ocorriam nas praias balneárias, estabelecendo relação mística entre o mar e a saúde, afinal os mesmos banhistas que procuravam as praias por conselho médico não deixavam de solicitar serviços religiosos. De Conceição do Arroio (atual município de Osório), o vigário José Mencker expediu ofício, datado de 26 de janeiro de 1924, no qual informou que "banhistas da praia de Cidreira desejavam inaugurar uma capela no dia 12 de fevereiro" (citado em Soares, 2000, p.166). Em edição de 1943, a revista A Gaivota também registrou, sob a rubrica "Reminiscências", a festa para Nossa Senhora da Saúde, celebrada na praia de Cidreira no verão de 1931. Isso significa que, paralelamente à fixação das dunas, arborização dos balneários, drenagem das restingas, extensão da rede de transporte, chegada de luz elétrica, água encanada e esgoto, bem como a tantas outras formas de domesticação da natureza por modernos métodos técnicos e científicos, os veranistas contaram com a religião para 'colonizar' as praias do litoral do Rio Grande do Sul.

A partir da década de 1940 o veraneio nas praias de mar ganhou novos adeptos, já que as férias remuneradas favoreceram o lazer da classe trabalhadora. Iniciava-se a democratização das praias. A partir de então, as primeiras famílias que atuavam em várias atividades do incipiente turismo no litoral depararam com quadro desafiante, posto que a demanda crescera e os serviços passaram a exigir mais investimentos. Ao mesmo tempo, aumentou a pressão junto aos poderes públicos para intervenção mais consequente, em termos de expansão e melhoria da infraestrutura e dos serviços básicos nas praias balneárias.

Os proprietários dos primeiros hotéis e restaurantes praianos eram, em grande parte, imigrantes alemães ou seus descendentes, como indica o predomínio de nomes germânicos nos anúncios da revista A Gaivota. Sperb, Hoffmeister e Kunz são exemplos de nomes de alguns hotéis da praia de Tramandaí. Matérias promocionais em jornais também atestam o empreendedorismo dos alemães em turismo, nas praias do Rio Grande do Sul - alguns anúncios eram publicados em alemão, dada a quantidade significativa da clientela teuto-brasileira. Banhos de mar em praias como Torres, Capão da Canoa, Tramandaí, Cidreira, Quintão e Rio Grande eram propostos em pacotes de sete, 14 ou 21 dias, variando o valor da temporada conforme o hotel. Em Torres, desde 1915 o Hotel Picoral foi ponto de referência para curistas e banhistas, e enfatizava os diversos banhos de caráter medicinal, além da ginástica ao ar livre, tão em voga na Alemanha desde o início do século XX.

Além da rede hoteleira, outras atividades ligadas à vilegiatura marítima também contaram com o empreendedorismo de imigrantes alemães e descendentes. Entre elas, pode-se destacar a de Jaeger & Irmão, empresa que oferecia viagem diária de Porto Alegre para Tramandaí, Cidreira, Capão e Torres, conforme anúncio em A Gaivota (n.15, 1942 , p.47). De Palmares a Torres havia também a opção da empresa de transporte Edmundo Dreher & Cia. Para construção de bungalows e chalets de madeira na praia, havia a casa de Max Geiss & Cia. Ltda., com sede em Porto Alegre (A Gaivota, n.3, 1931, p. 67 ). Na construção de estradas também houve a participação de empresários alemães; a rodovia Osório-Torres, por exemplo, seria construída pela firma Dahne & Conceição (A Gaivota, n.3, 1931, p.42). A série de anúncios de empresas de construção, paisagismo e transporte rodoviário, lacustre e fluvial, publicada em A Gaivota, aponta a passagem das empresas familiares para as de capital associado ou mesmo de caráter estatal, o que denota também a evolução da vilegiatura marítima, que redundaria no turismo de massa a partir da segunda metade do século XX.

 

 

Outra atividade em que os imigrantes alemães e seus descendentes foram pioneiros e que muito contribuiu para o desejo de beira-mar foi a de produção de imagens, notadamente sob a forma de cartazes, cartões-postais e fotografias. A representação imagética das praias balneárias do Rio Grande do Sul pela (re)produção de imagens e o impacto de sua circulação entre os destinatários ainda não foram devidamente analisados. Da mesma forma, merece estudo acurado a representação das praias balneárias através das fotografias publicadas em revistas como Máscara, Kodak, Globo e A Gaivota e jornais como o Correio do Povo, desde a primeira metade do século XX.

 

 

Assim como certas estações hidrominerais do interior, os balneários marítimos também se inscreveram nas representações sociais, por sua vez simbolicamente vinculadas a certas imagens, que foram (re)produzidas por fotógrafos e pintores, muitos de origem alemã. Além das imagens impressas nos cartões-postais, os veranistas ainda escreviam no anverso suas impressões, que circulavam pelo correio durante o período de veraneio. Cartões-postais, telegramas e cartas divulgaram várias imagens das estações balneárias e concorreram para uma mudança da representação social do litoral do Rio Grande do Sul.

 

Considerações finais

Apesar de compartilhar inicialmente o mesmo projeto terapêutico, as estações balneárias do interior e do litoral tiveram destinos distintos. A vulgarização da vilegiatura marítima no Rio Grande do Sul ocorreu durante o século XX e, para isso, foi necessário incremento na infraestrutura em termos de transporte, saneamento básico, projeto urbanístico dos balneários etc. O médico Raul Pilla (1943) já apontava essa necessidade de 'modernização' dos balneários na década de 1940, quando pleiteava que os benefícios à saúde humana dos banhos de mar e das caminhadas à beira-mar deveriam ser democratizados. Nesse sentido, associava a saúde pública à modernização da orla marítima e de seus balneários. Lembrava o médico que "as praias úteis socialmente são as mais modestas, aquelas onde não se explora o jogo ou ele constitui mera distração, porque estão ao alcance de toda a gente e nelas se exerce, em toda a plenitude, a profunda influência do clima marítimo"; nesse sentido, asseverava como "verdadeira necessidade social popularizar as praias de mar" (p.49).

Considerando o número expressivo de membros da comunidade alemã no Rio Grande do Sul desde o último quartel do século XIX, sobretudo os comerciantes e industriais da capital e de cidades como São Leopoldo e Santa Cruz do Sul, pode-se inferir que os imigrantes alemães foram os pioneiros, embora não exclusivamente, da vilegiatura marítima no Rio Grande do Sul.11 Esse pioneirismo, porém, não deve ser compreendido só por fatores internos, tanto econômicos quanto culturais, da comunidade alemã do Rio Grande do Sul. Como apontou o médico Robert Avé-Lallemant (1980, p.415) em meados do século XIX, os imigrantes alemães encontraram no sul do Brasil uma legislação liberal, favorável à iniciativa privada, que raramente se poderia usufruir em qualquer parte da Alemanha. Além disso, constatou o viajante que os imigrantes alemães, diferentemente dos ingleses e franceses, não eram chauvinistas, e isso facilitava seus negócios no Rio Grande do Sul.

Por certo imigrantes alemães tinham campos ou nichos profissionais mais vantajosos do que outros. Médicos, farmacêuticos e outros profissionais da saúde gozaram da liberdade profissional vigente no Rio Grande do Sul durante a República Velha. O exercício da medicina foi questão muito debatida à época. Desde a sua criação, a Sociedade de Medicina de Porto Alegre combateu o charlatanismo, mas também fomentou corporativismo de forte matiz nativista, como se deduz no affaire Bassewitz (Gertz, 2002, p.165 e ss.), num período em que os sanatórios pululavam na capital e no interior do estado. A influência médica alemã para o desenvolvimento das novas concepções de higiene e saúde, bem como de uma filosofia naturista que marcou os primeiros anos dos sanatórios, das estações hidrominerais e das praias balneárias merece ainda sondagens mais aprofundadas.

De todo modo, o estudo dos primórdios da vilegiatura marítima no Rio Grande do Sul permite inferir que o desenvolvimento do litoral foi propiciado por legislação estadual que favoreceu a iniciativa privada e, por conseguinte, a modernização da sociedade sulina em vários aspectos. Nesse sentido, a vilegiatura marítima se inscreve num processo de urbanização e industrialização que caracteriza a sociedade burguesa emergente no sul do Brasil das primeiras décadas do século XX.

Neste estudo ressaltou-se a presença de imigrantes alemães e seus descendentes entre os primeiros curistas, banhistas e turistas das estações balneárias do Rio Grande do Sul. Eles também foram produtores de discursos de cunho científico, literário e jornalístico sobre os benefícios dos banhos. No entanto, a colonização do litoral e a domesticação da natureza costeira não estiveram excluídas das políticas de modernização do Rio Grande do Sul. Na drenagem de pântanos, nas intervenções para ligação de lagoas a fim de melhorar sua navegabilidade, na abertura de estradas e de fixação de dunas, na urbanização das praias balneárias, bem como na engenharia florestal para arborizar os balneários e, por conseguinte, viabilizar a humanização da paisagem litorânea, o governo estadual contou com a experiência profissional de vários imigrantes e seus descendentes, para atender a crescente demanda popular por férias à beira-mar. O desenvolvimento da vilegiatura marítima no Rio Grande do Sul redundou, assim, num veraneio típico do turismo de massa a partir da segunda metade do século XX. Porém, se os principais atores desse processo, em suas diferentes fases, já podem ser identificados, os impactos sociais, econômicos e ambientais na orla marítima ainda estão por ser avaliados em perspectiva histórica.

 

NOTAS

* Este artigo foi originalmente apresentado como conferência no 18º Simpósio de História da Imigração e Colonização - Saúde: Corporeidade - Educação, realizado na Unisinos, em São Leopoldo (RS), de 17 a 19 de setembro de 2008. O autor agradece Joana Carolina Schossler e Maximiliano Meyer, auxiliares de pesquisa com bolsa de iniciação científica do CNPq, pela dedicação e motivação imprescindíveis ao bom andamento do projeto de pesquisa, desde a localização e consulta de fontes até a análise dos dados e discussão dos resultados.

1 Em Portugal já havia a prática dos banhos em estâncias termais como Estoril e Caldas da Rainha. No Brasil oitocentista, portugueses e luso-brasileiros frequentavam a praia, onde andavam de barco e passeavam pela beira do mar, como se pode ler nos 'romances urbanos' de José de Alencar e outros escritores românticos. Porém os banhos de mar eram raros. Vale lembrar que no romance O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós, aparecem os banhos de mar com finalidade terapêutica.

2 Provavelmente, trata-se de Francisco Xavier Friedrichs, comerciante e importador de ferros, com loja na rua da Bragança (atual rua Marechal Floriano). No ano em que o jovem Hans Hoffmann chegou ao Brasil, Francisco Friedrichs era também agente de colonização (1878-1879) (Gans, 2004, p.62).

3 Magda Gans (2004, p.64-69) identificou três fabricantes de carroças da família Sperb: dois tinham fábrica no beco do Rosário (atual rua Otávio Rocha) e o outro na rua do Rosário (atual rua Vigário José Inácio), em Porto Alegre. Todos eram ativos no ramo desde a década de 1880.

4 O geógrafo alemão Leo Waibel foi um dos poucos especialistas a apontar o impacto ambiental e social das técnicas de cultivo predominantes na colonização europeia no Brasil meridional (Etges, 2000).

5 Sobre a presença alemã na África austral à época de Bismarck, ver Wesseling, 1996, p.535-546.

6 Sobre discursos e práticas colonialistas da experiência alemã na África,ver Gronemeyer, 1991.

7 Sobre a trajetória de Heinz von Ortenberg, ver Telles, 1980.

8 Sobre Araxá, ver Lima, 2006, p.227-250.

9 Sobre o estabelecimento Kneipp em Hamburger Berg, ver a edição brasileira de Mein Wasserkur (Kneipp, 1893).

10 Sobre as mudanças na percepção do bronzeamento e sua relação com as práticas dos banhos, ver Andrieu, 2008 e Ory, 2008.

11 Sobre o peso demográfico e a influência econômica, social e cultural da comunidade alemã e teuto-brasileira em Porto Alegre, ver Gans, 2004.

 

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Recebido para publicação em novembro de 2008.
Aprovado para publicação em fevereiro de 2009.

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