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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.17 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702010000200003 

ANÁLISE

 

A Escola Médica de Pádua: medicina e filosofia no período moderno

 

 

Regina Andrés Rebollo

Professora da Universidade São Judas Tadeu. Rua Taquari, 546, 03166-000 - São Paulo - SP - Brasil. prof.haniger@usjt.br

 

 


RESUMO

Trata-se de contribuição parcial ao entendimento da história da recepção e transmissão dos textos clássicos hipocráticos e galênicos na Itália do período moderno. Observando-se rotuli e puncti da Escola Médica da Universidade de Pádua, que registram as disciplinas e os conteúdos ministrados no período compreendido entre 1500 e 1600, pode-se conhecer o currículo oficial dessa famosa escola. A consulta a tais documentos mostra o compromisso da formação médica oficial com a tradição, em especial com Hipócrates, Galeno, Avicena e Aristóteles.

Palavras-chave: história da medicina; currículo médico paduano; medicina dos séculos XVI e XVII.


 

 

Antes de apresentar os resultados da pesquisa de que trata este artigo, gostaria de pontuar que o programa oficial da Escola Médica de Pádua é apenas uma das tantas evidências que revelam a formação médica do período e o compromisso com os autores clássicos. Além dos documentos acadêmicos oficiais, os rotuli e puncti, a maior parte das edições dessa época pode também revelar parte da formação do público médico consumidor e seus interesses imediatos, em relação tanto ao ensino teórico como à prática clínica. Além disso, as aulas particulares, hábito mantido desde os primórdios dos studia e que poderiam revelar algo do conteúdo do aprendizado médico, infelizmente não foram registradas. Dessa forma, os cadernos de anotações de alunos, disponíveis para a análise dos historiadores, diferentemente do que ocorre na Inglaterra, são muito raros na Itália. Assim, o conteúdo programático oferecido fora da universidade permanece desconhecido, embora possamos levantar algumas hipóteses com base nas grandes edições latinas e vernaculares. Os exames de ordem também poderiam apontar para as exigências intelectuais e de formação do médico do período, embora representativos tão somente da medicina oficial dos currículos universitários.

Considerando tais observações, é mais prudente aceitar as informações aqui constantes de maneira não exclusiva e entender esta análise como contribuição parcial à compreensão da história da formação médica de então e da recepção e transmissão dos textos clássicos hipocráticos e galênicos.

 

A Universidade de Pádua

No século XVI, a Universidade de Pádua era considerada o melhor centro europeu para o estudo da medicina. Muitos estudantes não italianos, após o mestrado em artes (M.A.), para lá seguiam almejando obter o doutorado em medicina (M.D.). Embora fosse universidade católica, não impunha restrições religiosas, favorecendo os estudantes protestantes vindos da Inglaterra e da Alemanha. As causas sociais e políticas que levaram a Universidade de Pádua a se tornar o melhor centro de ensino da Europa, nos séculos XVI e XVII, já foram bastante exploradas por seus inúmeros comentadores, tais como Benetti e Piero (2002), Grendler (1995), Cipolla (1976), Bylebyl (1979) e Rashdall (1936). Segundo esses autores, o sucesso da instituição deveu-se em grande parte ao respeito às liberdades civis, políticas e religiosas, ao apoio institucional da República veneziana, bem como à riqueza da cidade de Veneza e a sua crescente demanda por quadros e profissionais bem formados.

O ano de 1222 marca o início oficial da história da Università degli Studi di Padova, em seguida à transferência maciça de alunos e professores provenientes da cidade de Bolonha. Em 1399, inaugurou-se a Universitas Iuristarum, em que se estudavam direito civil, direito canônico e teologia. Depois dessa data e sob auspícios de Francisco II de Carrara, foi criada a Universitas Artistarum, que compreendia os cursos de astronomia, dialética, filosofia, gramática, medicina e retórica. Os estudantes eram subdivididos de acordo com sua proveniência geográfica: a natio citramontana, que reunia os provenientes da Itália; e a natio ultramontana, composta pelos de outros países.

A antiga Università degli Studi di Padova fazia parte, assim como as universidades de Bolonha, Paris, Oxford e Cambridge, dos grandes centros culturais do mundo ocidental. Contudo, ao contrário das demais citadas, não surgiu ex privilegio, isto é, por licença especial dos pontífices ou imperadores, mas sim como resultado espontâneo da cultura civil, favorecido pela constituição. Inicialmente a universidade foi organizada como corporação livre de estudantes e articulada segundo critérios étnicos (citramontanos e ultramontanos). Assim como em Bolonha, os estudantes aprovavam os estatutos, elegiam os reitores do corpo estudantil e escolhiam os professores, a quem eles mesmos pagavam. No século XV, a escolha dos professores e seu pagamento passaram à responsabilidade das autoridades públicas.

Do século XV ao XVII, a universidade viveu período de grande desenvolvimento, favorecido pela tutela da República de Veneza, e verifica-se forte incremento do pensamento filosófico, da Escola de Anatomia e Medicina e das ciências da astronomia, física e matemática, estas últimas impulsionadas pelo trabalho de Galileu Galilei. Entre os séculos XV e XVI, seus mais famosos estudantes foram Niccolò Copernico, Francesco della Rovere (papa Sisto IV), Giovanni Pico della Mirandola, Leon Battista Alberti, Paolo Toscanelli, Francesco Guicciardini, Pietro Bembo, Torquato Tasso, Paolo Sarpi, Bernardino Telesio, Tommaso Campanella, Roberto Bellarmino, William Harvey, Gian Battista Da Monte e Gerolamo Cardano. Em 1545 foi fundado o primeiro horto botânico público universitário, e em 1594-1595 o primeiro teatro anatômico da Europa, construído por Fabricio d'Acquapendente, grande anatomista e professor de William Harvey.

A Universidade de Pádua, denominada Studio, era composta por dois cursos distintos: a Universidade dos Juristas e a Universidade dos Artistas ou de Artes, na qual se incluía a formação em medicina. Nela havia um corpo de professores doutores em arte e medicina e um Colégio de Médicos e Filósofos, cuja principal função era examinar os futuros médicos doutores e fornecer licenças para o exercício e a prática médica na cidade. As três disciplinas mais prestigiosas do curso de artes eram: Teoria da Medicina, Prática da Medicina e Filosofia Natural. Tal prestígio lhes atribuía o estatuto de disciplinas ordinárias, como veremos, diferenciadas das extraordinárias, ministradas em geral após o almoço. No século XVI, a universidade contava com cinco professores para cada uma das três disciplinas apontadas (Tomasini, 1986, p.291-332).

No ciclo de três anos do curso de medicina, havia, no mínimo, cinco posições acadêmicas para cada uma das principais disciplinas: pela ordem de importância, o primeiro e o segundo professores ordinários e os primeiro, segundo e terceiro professores extraordinários. Os dois professores ordinários eram concurrentes, isto é, tratavam os mesmos assuntos na mesma hora do dia, ficando a critério do aluno a escolha da aula a ser assistida. Os dois primeiros professores extraordinários formavam par similar, mas ensinavam em horários distintos dos professores ordinários, respeitando um ano de retardamento em relação a eles. O terceiro professor extraordinário ensinava concorrendo com os outros dois ou nos dias feriados do calendário acadêmico (Bertolaso, 1959-1960, p.1-15; Tomasini, 1986, p.294-296, 300-301).

De 1509 a 1517, a universidade ficou fechada devido à guerra da Confederação de Cambrai. Reaberta em 1518, passou a ser dirigida pelo Senado veneziano e sofreu importantes mudanças. Alguns professores que lá trabalhavam antes da guerra não retornaram a seus postos. Com isso, outros, engajados no ascendente movimento médico humanista, foram contratados. Em termos curriculares, esse engajamento significou séria revisão das autoridades médicas medievais, constituída em sua maior parte por textos apócrifos de Galeno e Hipócrates. Em Pádua, o movimento começou a tomar forma com Niccoló Leoniceno de Ferrara, que escreveu a obra Opuscula (1532), e seu aluno Giambatista da Monte, professor responsável pela famosa e prestigiada tradução latina de Galeno, publicada pela casa de edição Giunta. Da Monte foi introdutor do ensino e treinamento da prática clínica nos hospitais e nas casas particulares e suas observações foram reunidas em seu Consilia (1559).

 

A vida acadêmica

Na abertura solene de cada ano escolar do Studio Patavino, eram apresentados o programa e o horário das aulas para os estudantes de artes. O reitor, acompanhado das autoridades políticas da cidade, dos alunos e professores, seguia para o Duomo, onde era celebrada a missa. Algum professor ou estudante proferia o discurso de inauguração. O notário lia publicamente o rotulo (rolo de papel inicialmente manuscrito e depois impresso) que apresentava o elenco de professores, o programa e o horário das lições daquele ano (Bertolaso, 1959-1960, p.20; Favaro, 1922, p.15-18). No curso de medicina, as disciplinas mais importantes eram as duas ordinárias de Medicina, teórica e prática, e a ordinária de Filosofia. No início, os professores das disciplinas eram eleitos pelos próprios alunos, mas, devido ao tumulto anual que cada eleição gerava, o Senado de Veneza assumiu a tarefa. Os professores gozavam de certa liberdade na montagem do curso e na escolha dos textos. Cada um declarava, no início do ano, a matéria que ensinaria. O Senado aprovava ou não o elenco de matérias e leituras, isto é, o rotulo. A cada ano o professor mudava o tema de suas lições, mas deveria completar seu conteúdo em três anos, tempo de duração do bacharelado em medicina. Dessa maneira, quando um professor era afamado mantinha a atenção e a frequência dos alunos por três anos seguidos (Bertolaso, 1959-1960, p.20).

Além das aulas públicas na universidade, os professores davam aulas particulares depois do almoço, cujos temas, assuntos e leituras eram definidos em conjunto, de acordo com os interesses particulares de professores e alunos, sendo portanto menos atrelados ao programa oficial da Faculdade de Medicina, embora complementares ao ensino oficial. Pouca ou quase nenhuma documentação pode ser encontrada a esse respeito, uma vez que o material não foi oficialmente registrado. Pode-se, contudo, conjeturar que nessas aulas haveria mais liberdade para discussão dos temas vetados no currículo oficial. Muito provavelmente, as grandes inovações médicas e anatômicas do período moderno foram conquistadas nas aulas particulares.

De 1367 a 1500, cada matéria ensinada era distribuída por 12 ou 14 dias letivos. Esse fracionamento era indicado com o nome de puncta (pontos) ou puncta taxata e era, também, oficialmente determinado pela universidade. A partir de 1600, tal sistema deixou de ser aplicado e o professor teve mais liberdade para decidir o conteúdo a ser ministrado a cada dia. A mudança ocorreu em 1614, quando se constatou que o ensino centrava-se nos pontos que cairiam nos exames do doutorado, e não na totalidade do conteúdo exigido para cada disciplina. Para o ensino, os professores eram obrigados a usar livro-texto ou manual, indicado no início do ano escolástico e autorizado pelo reitor para a utilização em sala de aula. Os comentários a respeito de cada livro considerado fundamental deveriam ser feitos em dez lições ou pontos. Aos estudantes era vetada a leitura de livros não aprovados pelo reitor, pelo professor principal ou por seu substituto (Bertolaso, 1959-60p. 21).

 

O currículo médico e as disciplinas oferecidas

Uma relação das disciplinas e pontos (rotuli e puncti) oferecidos nos séculos XVI e XVII, com base na Acta medicæ historiæ patavina, de Bertolaso (1959-1960), registra as informações a seguir.

A disciplina Medicina teórica ordinária (Ad theoricam ordinariam medicina), considerada a cátedra mais importante do curso de medicina, era ministrada na primeira hora da manhã, ao longo de duas horas, por dois médicos de teoria. No primeiro ano lia-se o Livro I do Cânon, de Avicena; no segundo ano, Aforismos, de Hipócrates; e no terceiro ano, Tegni, de Galeno.Logo em seguida, na terceira hora da manhã, ensinada por três médicos e composta ao todo por duas horas de prática médica, havia a disciplina de Medicina prática ordinária (Ad practicam ordinariam medicina). No primeiro ano, era lido De febribus, relacionado com o Livro IV do Cânon, de Avicena; no segundo ano, De morbis particularibus a capite usque ad cor (Doenças particulares da cabeça ao coração); e no terceiro ano, De morbis particularibus à corde infra (Doenças particulares abaixo do coração). Para os alunos do segundo e terceiro anos, era lido e comentado o Livro IX do Almansor, de Rhazes1, até as doenças dos membros e até o final do texto, respectivamente.

A disciplina de Medicina teórica extraordinária (Ad theoricam extraordinariam medicina) ocupava a segunda hora depois do almoço. O professor extraordinário retomava a matéria dada pela manhã pelo professor ordinário, mas seguindo ordem inversa: no primeiro ano, eram lidos e comentados Tegni, de Galeno; no segundo ano, Aforismos, de Hipócrates; e no terceiro ano, o Livro I do Cânon, de Avicena.

A disciplina Medicina prática extraordinária (Ad practicam extraordinariam medicina) completava, depois do almoço, o ciclo da mesma disciplina ordinária, também na ordem inversa. Liam-se o Livro IV do Cânon, de Avicena, e o Livro IX do Almansor, de Rhazes.

A disciplina Medicina teórica extraordinária ministrada nos dias feriados (Ad theoricam extraordinariam medicina diebus festis) representava a terceira cadeira de teoria, a menos procurada por leitores ou professores, e ocupava a segunda hora do entardecer. Abordava os assuntos que não haviam sido ensinados nas disciplinas teóricas ordinárias e extraordinárias, e os autores estudados eram aqueles definidos pelas cadeiras de medicina teórica: Avicena, Hipócrates e Galeno.

Desde 1387, a disciplina Cirurgia e anatomia (Ad chirurgiam et anatomiam) era ensinada pelo mesmo professor (Bertolaso, 1959-1960, p.29). Vesálio havia iniciado a tradição dos grandes mestres de anatomia, abrindo caminho para Colombo, Falópio (1551-1562), Acquapendente (1565-1621), Montagnana e outros. A partir de 1662, as duas disciplinas foram definitivamente separadas e para cada uma delas foi contratado um professor principal. O ensino da anatomia era feito durante todo o mês de janeiro, no inverno gelado da Europa, pela manhã e por vezes à tarde. Durante 26 dias ou mais, as aulas eram concorridíssimas e assistidas por todos os alunos da faculdade de artes, uma vez que todas as demais cadeiras eram suspensas. Com Vesálio, o texto de Mondino foi substituído pela observação apurada de corpos dissecados. Em 1549, Guidusius ensinou anatomia com base no Librum Galeni de ossibus. Na época de Falópio, Acquapendente e Joannes Weslingius (1632-1648), as lições passaram a ser ensinamentos repassados a partir de observações pessoais, e os autores outrora lidos passaram a ser, muitas vezes, criticados ou desprezados.

Nas aulas de Cirurgia, na terceira hora da manhã, dois cirurgiões tratavam, no primeiro ano, de tumores; no segundo ano, de feridas e úlceras; e no terceiro ano, de luxações e fraturas. O livro De tumoribus præter naturam, de Galeno, e o Livro VI, de Dioscórides, foram utilizados por Falópio e relatados nos rotuli de 1555. Segundo os rotuli de 1568, Acquapendente lecionou a respeito de tumores e fraturas; em 1569, úlceras na cabeça; em 1570, tumores e fraturas; em 1571, feridas, luxações e fraturas; em 1572, feridas e fraturas; em 1573, ossos, feridas e luxações; e em 1594, as partes similares e dissimilares e o modo como são afetadas, além de ossos, anatomia, luxações e fraturas.

Nas Aulas sobre os simples (Ad lecturam simplicium), isto é, as substâncias simples, não compostas, forneciam-se as primeiras noções sobre botânica e farmacologia. O ensino de botânica teve início em 1533, com Bonafede (Bertolaso, 1959-1960, p.31). Em 1545 criou-se um horto ou jardim público para as aulas práticas de botânica, que em 1561 foram denominadas Exibição dos simples (Ad ostensionem simplicium). Em 1594 Prospero Alpino introduziu o manual De simplicium medicamentorum facultatibus, que era estudado concomitantemente aos Livros I, II e III de Dioscórides, que versavam, respectivamente, sobre as plantas aromáticas, sobre os remédios e os animais, sobre os vinhos, metais e as "coisas subterrâneas"; e VI, De materia medica, considerado apócrifo, contendo noções sobre os venenos e as curas.

A disciplina Sobre o Livro III de Avicena (Ad lecturam tertii libri Avicennæ) complementava as cadeiras de prática ordinária e extraordinária e era a terceira disciplina mais importante do currículo. Nela eram tratados os assuntos das duas disciplinas de Prática, alternando-se os textos do Livro III do Cânon, de Avicena, e outros temas como febres, 'doenças particulares da cabeça ao coração' e 'doenças particulares abaixo do coração'.

Antes de comentar o conteúdo de tais textos, relato a evolução dos rotuli da Universidade de Pádua, entre 1568 e 1696-1697, pontuando suas mudanças e alterações (conforme Rotoli di professori..., 1520-1740).

 

1568 e 1574

O rotulo de 1568 registra o seguinte conteúdo: na disciplina Medicina teórica ordinária, Livro I, capítulo 1 do Cânon, de Avicena; em Medicina teórica extraordinária, Tegni, de Galeno; em Medicina prática ordinária, Livro IX do Almansor, de Rhazes, e De afetibus causis; em Medicina prática extraordinária, Almansor, de Rhazes, e Doenças particulares (não se esclarece se De morbis particularibus à corde infra ou à capite usque ad cor.); na disciplina Pontos sobre o Livro III de Avicena, "posto desocupado" (locus vacat); em outros pontos do Livro III de Avicena, "posto desocupado".

Seis anos depois, o rotulo de 1574 registra: em Medicina teórica ordinária, Livro I, capítulo 1 do Cânon, de Avicena; em Medicina teórica extraordinária, as chamadas "Questões salernitanas"; em Medicina prática ordinária, Doenças particulares abaixo do coração; em Medicina prática extraordinária, novamente Doenças particulares abaixo do coração e capítulo sobre a prática do Almansor, de Rhazes.

A única mudança observada no período é na disciplina Medicina teórica extraordinária, com a substituição do Tegni, de Galeno, pelo estudo das "Questões salernitanas", produto da literatura didática médica baseada no aprendizado escolástico e estruturada em perguntas e respostas. Seu maior representante foi Urso da Calábria, professor de Salerno. As "Questões salernitanas" reuniam uma coleção sobre ciência e medicina, escrita por autor inglês anônimo por volta de 1200. Provavelmente, foi inspirada no Regimen sanitatis, que desde seu surgimento teve diversos títulos, como Medicina salernitana, De conservanda bona valetudine e Flos medicinæ Scholæ Salerni, tendo sido o documento literário fundamental da Escola Médica de Salerno. O núcleo originário contém quase trezentos versos, recolhidos e comentados no século XIII por Arnaldo de Villanova, aos quais se acrescentaram outros aforismos, atribuídos indiscriminadamente à Escola Médica de Salerno.

 

1611-1612: a inclusão de Aristóteles

Em 1611-1612, o rotulo registra as seguintes disciplinas e leituras. Nas aulas ordinárias, na primeira hora da manhã, em Medicina teórica, era lido e comentado o capítulo 1 do Livro I de Avicena. Na segunda hora da manhã, nos dias feriados, na disciplina denominada Primeiro fen (seção) do Cânon de Avicena (Ad lecturam 2 fen primi Canon Avicenæ), estudavam-se os tratados De morbis, causis morborum & symptomatibus (Das doenças, causas e sintomas) e o De pulsibus & urinis (Sobre o pulso e a urina). Na terceira hora da manhã, na disciplina de Anatomia ordinária (Ad anatomen cum ordinarijs), praticava-se a inspeção anatômica (administrabit anatomem). Depois do almoço, na primeira hora, em Medicina prática, lia-se Doenças particulares abaixo do coração. Na segunda hora após o almoço, em Filosofia ordinária, eram estudados os Livros I e II do De anima, de Aristóteles. Às 14 horas (in pulsatione campanæ2), no horto botânico ou medicinal, na disciplina Sobre a disposição das substâncias simples, eram demonstradas certas plantas utilizando-se o Livro I de Dioscórides, que versava sobre medicamentos aromáticos.

Das aulas extraordinárias, na primeira hora da manhã, em Lógica (Ad lógica) estudava-se Segundos analíticos, de Aristóteles. Na primeira hora matutina dos dias feriados, na disciplina Aulas sobre Meteororum e Parva Naturalia de Aristóteles (Ad lect. Meteororum, ac. Parvorum naturalium Arist.), o Livro II do Meteororum. Na segunda hora da manhã, em Medicina prática extraordinária, lia-se Doenças particulares da cabeça ao coração. Na segunda hora matutina, em Humanidades greco-latinas (Ad humanitatem græcam & latinam), estudava-se Retórica, de Aristóteles. Em Medicina teórica extraordinária, lia-se e comentava-se, na terceira hora da manhã, Tegni e, depois do almoço, Ars parva, ambos de Galeno. Na primeira hora depois do almoço, em Filosofia extraordinária (Ad philosophia extraordinária), lia-se o Livro III do De anima (Tertium De anima). Na primeira hora depois do almoço, nos dias feriados, em Filosofia moral de Aristóteles (Ad philosophia moralem Aristotelis), estudava-se o Livro I da Ética, de Aristóteles. Na terceira hora depois do almoço, em Cirurgia (Ad lecturam chirurgiæ), estudava-se Das feridas (De vulneribus). Depois do almoço, nos dias feriados, em Medicina teórica, comentava-se Aforismos, de Hipócrates; também na segunda hora nos dias feriados, na disciplina Sobre o Livro III de Avicena, estudava-se o tratado Sobre as febres.

Ao longo de 38 anos (1574 a 1612), várias disciplinas foram introduzidas no currículo médico, e tais mudanças registram principalmente a profissionalização e a importância da filosofia natural na formação médica. Entre as novas disciplinas, o primeiro fen do Livro I do Cânon de Avicena ganha estatuto de disciplina (Ad lecturam 2 fen primi Canon Avicenæ). Foram criadas as disciplinas de Anatomia e Cirurgia. A Filosofia natural concentrou-se exclusivamente em Aristóteles, com a leitura dos seguintes tratados: De anima, Segundos analíticos, Livro II do Meteororum, Parva Naturalia, Retórica e o Livro I da Ética a Nicômaco. Introduziu-se a disciplina ordinária de Botânica e farmacologia, na qual se lia o Livro I de Dioscórides, que versava sobre os medicamentos aromáticos. Aforismos de Hipócrates voltou a ser lido nos feriados, e Sobre as febres foi indicado para a disciplina Sobre o Livro III de Avicena.

Embora o currículo do final do século XVII mostre mudanças significativas, conservou na teoria médica os clássicos Hipócrates, Galeno e Avicena, demonstrando o comprometimento do ensino médico em Pádua com a tradição clássica. A maior evidência de tal compromisso é atestada pelos exames para obtenção do grau de doutor, que, de acordo com os estatutos, consistiam em exposição aleatória de trecho da obra de cada um desses autores.

Aspectos inovadores foram introduzidos no programa de prática clínica, tais como visitas diárias aos hospitais, acompanhadas de discussões formais dos casos, e o ensino sistemático 'das urinas' e 'dos pulsos'. Em Anatomia, introduziram-se as autópsias dos casos fatais (anatomia patológica) e dissecações públicas. Em Botânica, a grande inovação consistiu na introdução de aulas no horto botânico.

 

1648

Registram-se, em 1648, as seguintes disciplinas e leituras obrigatórias. Nas aulas ordinárias, em Medicina teórica, Aforismos, de Hipócrates, na primeira hora da manhã. Em Anatomia ordinária, na terceira hora da manhã, inspeções anatômicas no dia e hora previstos (administrabunt anatomem die & tempori debito). Em Medicina prática, De febribus, na primeira hora vespertina. Em Filosofia ordinária, na segunda hora vespertina, Livros I e II de Física, de Aristóteles. Em Sobre a disposição das substâncias simples, Livro V de Dióscorides, De vino & mettalicis (in Horto incipie docere die 2. maii, hora 22).

Nas aulas extraordinárias, em Lógica, Segundos analíticos, de Aristóteles, na primeira hora da manhã. Nas Aulas sobre Meteororum e Parva Naturalia de Aristóteles, o Livro II na primeira hora matutina em dias feriados. Em Medicina prática extraordinária, Ad corde infra, na segunda hora da manhã. Em Humanidades greco-latinas, Tacitum & epigrammata græca, na segunda hora matutina. Em Medicina teórica, primeiro fen, in pulsatione campanæ de Avicena, na primeira hora vespertina. Em Filosofia extraordinária, Livro VIII de Física, na primeira hora depois do almoço. Em Filosofia moral de Aristóteles, Ética a Nicômaco, na primeira hora depois do almoço, e De somnis & vigilijs, nos dias feriados. Em Cirurgia, De vulneribus præter naturam, na terceira hora da manhã. Em Medicina teórica, Ars parva, de Galeno, na segunda hora vespertina, nos dias feriados. Nas Aulas sobre o Livro III de Avicena, Da cabeça ao coração, na primeira hora matutina, nos dias feriados. Em Matemática, Elementa, de Euclides, na terceira hora vespertina.

Nos 36 anos transcorridos entre 1612 e 1648, as principais alterações foram a introdução de Aforismos substituindo o Livro I do Cânon, de Avicena, na disciplina de Medicina teórica ordinária; a reintrodução de De febribus no lugar de Sobre as doenças particulares abaixo do coração, na disciplina de Medicina prática ordinária; a introdução de Física (Livros I e II), de Aristóteles, em Filosofia ordinária e extraordinária, substituindo De anima (Livros I, II e III); a substituição do Livro I (medicamentos aromáticos) de Dioscórides pelo Livro V (sobre os vinhos e os metais); a substituição de Retórica, de Aristóteles, por Tacitum & Epigrammata Græca na disciplina Ad humanitatem græcam & latinam; na disciplina de Medicina teórica extraordinária, a substituição de Tegni, de Galeno, pelo primeiro fen do Cânon, de Avicena; a introdução de De somnis & vigilijs, de Aristóteles, em Filosofia moral de Aristóteles; a substituição de Aforismos, de Hipócrates, por Tegni, de Galeno, em Medicina teórica nos dias feriados; e, por fim, a introdução de Elementos, de Euclides na disciplina de Matemática. Cabe ressaltar o novo Aristóteles que então foi lido pelos futuros médicos - novo no sentido de que os textos introduzidos valorizam as discussões sobre filosofia natural e método, e aquisição e demonstração do conhecimento, temas tão caros aos paduanos do período, como Abano, Pace e Zabarella, entre outros.

 

1696-1697

Entre 1696 e 1697, nas aulas ordinárias, em Medicina teórica, Aforismos, de Hipócrates, na primeira hora da manhã. Em Anatomia, inspeções no dia e hora previstos, na terceira hora da manhã. Em Medicina prática, De febribus, na primeira hora vespertina. Em Filosofia, Livros I e II de Física, de Aristóteles, na segunda hora vespertina. Nas Aulas sobre as substâncias simples, De purgantibus, in pulsatione campanæ matutina; em Demonstração das substâncias simples, in Horto incipiet die 2 maii, hora.

Nas aulas extraordinárias, em Lógica, Livro I de Segundos analíticos, de Aristóteles, na primeira hora da manhã. Em Medicina prática extraordinária, Sobre as doenças particulares abaixo do coração, na segunda hora da manhã. Em Humanidades greco-latinas, a forma da poesia e a tragédia de Aristóteles, na segunda hora matutina. Em Medicina teórica, nos dias feriados, posto desocupado. Em Filosofia, Livro VIII de Física, na primeira hora depois do almoço. Em Filosofia moral de Aristóteles, Ética a Nicômaco, de Aristóteles, na primeira hora depois do almoço, nos dias feriados. Em Cirurgia, De vulneribus præter naturam, na terceira hora da manhã. Em Ad lecturam astronomiæ et meteororum, Livro III de Meteororum, de Aristóteles, e A teoria dos planetas segundo as hipóteses dos antigos e dos modernos, na terceira hora da manhã. Em Ad lecturam tertij libri Avicena, Doenças particulares da cabeça ao coração, na primeira hora matutina, nos dias feriados. Em matemática, Elementos, de Euclides, na terceira hora vespertina.

Em quase meio século (1648-1697), as principais mudanças foram a introdução da disciplina prática Demonstrações das substâncias simples, na qual se lia De purgantibus, e, em Humanidades, a retomada da forma da poesia e da tragédia de Aristóteles; a introdução de discussão sobre o Livro III de Meteororum, de Aristóteles e A teoria dos planetas segundo as hipóteses dos antigos e dos modernos.

De maneira geral, entre 1568 e 1697, o currículo da Faculdade de Medicina da Universidade de Pádua não foi muito diferente do núcleo fundamental do primeiro Articellæ medieval, que reunia os tratados Isagoge, de Joahnitius (Hunain ibn Ishaq), Aforismos, Prognóstico e Do regime nas doenças agudas, de Hipócrates, Urinas, de Teófilo, Pulsos, de Filareto, e Tegni, de Galeno. Há, de fato, uma simplificação do conteúdo curricular, se comparmos com aquele do século anterior, registrado no estatuto de 1407 da Faculdade de Medicina de Bolonha, que reunia as leituras indicadas a seguir. No primeiro ano, em Medicina teórica, o Liber canonis, de Avicena; de Galeno, os tratados De differentiis febrium, De complexionibus, De mala complexione, De simplicibus medicinis, De diebus creticis, De interioribus, De regimine sanitatis; de Hipócrates, Aphorismata. No segundo ano, de Galeno, Tegni, De accidenti et morbo, De crisi, De diebus criticis, De febribus ad glaucone, De tabe, De utilitate respirationis, De differentiis febrium, De mala complexione, De simplicibus medicinis; de Avicena, De viribus cordis, Liber canonis; de Hipócrates, Prognostica, De morbis acutis. No terceiro ano, de Galeno, Therapeutica, De virtutibus naturalibus, De diebus criticis, De accidenti et morbo, De crisi, De complexionibus, De febribus ad Glauconem I; de Hipócrates, Aphorismata; de Averróis, as partes I e II do volume 2 da Introdução de Colliget. No quarto ano, de Avicena, Liber canonis; de Galeno, De interioribus, Regimen sanitatis, Therapeutica VII-XII, De virtutibus naturalibus; de Hipócrates, De natura; de Averróis, Colliget.

No primeiro ano em Medicina prática, de Avicena, Liber canonis (Livro III, fanûn ou seções 1-3). No segundo ano, de Avicena, Liber canonis (Livro III, fanûn ou seções 9-12). No terceiro ano, de Avicena, Liber canonis (Livro III, fanûn ou seções 13-16). No quarto ano, de Avicena, Liber canonis (Livro III, fanûn ou seções 18-21).

No curso de Cirurgia, que durava um ano, Chirurgia, de Bruno da Longobucco; Chirurgia, de Galeno; de Avicena, Liber canonis (Livro IV, fanûn ou seções 3-6); e de Rhazes, Ad almansorem (Livro VII) (Maragola, 1966, p.267-76). Cabe lembrar que as novas e inúmeras edições do período atestam o continuado interesse por esses autores, já então acompanhados de seus intérpretes, muito mais eruditos e essencialmente críticos.

 

As obras e seu conteúdo: a recepção dos textos hipocráticos e galênicos

No comentário a seguir concentro-me nas disciplinas de Medicina teórica e Medicina prática, pois era justamente nelas que os textos hipocráticos e galênicos encontravam mais recepção. Nos séculos XVI e XVII, a disciplina de Medicina teórica foi a mais importante do curso, utilizando-se o Livro I do Cânon, de Avicena; Aforismos, de Hipócrates; e Tegni, de Galeno. Nas outras disciplinas de Medicina teórica, Ad theoricam extraordinariam medicina e Ad theoricam extraord. diebus festis ou Ad theoricam extraord. vespertinam, as mesmas matérias eram ministradas alternadamente, à exceção de 1574, quando foram tratadas as "Questões salernitanas" e, a partir de 1612, introduzida a Ars parva (Tegni), de Galeno. A disciplina Ad lecturam tertii libri Avicennæ, embora considerada a terceira disciplina teórica mais importante, registrou leituras relacionadas com a prática, tais como o Livro III do Cânon, de Avicena, alternado com noções sobre febres, doenças particulares da cabeça ao coração e doenças particulares abaixo do coração. A formação teórica foi, portanto, fornecida pelos clássicos Hipócrates, Galeno e Avicena, e o conteúdo teórico concentrou-se nas ideias acerca da matéria corporal e de seu comportamento diante das doenças e do ambiente, concebidas no período clássico e alexandrino e posteriormente interpretadas pelo mundo árabe.

O capítulo 1 do Livro I do Cânon, de Avicena, abria o curso de Medicina teórica introduzindo noções da fisiologia hipocrático-galênica dos quatro elementos, quatro temperamentos, quatro estações, quatro humores, os órgãos, os espíritos (naturais, vitais e animais), as forças, as faculdades da alma, as ações, bem como os seis fatores não naturais de Galeno (ar, alimentos e bebidas, sono e vigília, movimento e repouso, evacuação e retenção, sentimentos e emoções); e noções de patologia como as doenças e suas causas, noções de semiologia, sintomatologia, pulso e urina, as crises e os dias críticos, as pletoras e o prognóstico. O material é bastante semelhante àquele da introdução ao Tegni, de Galeno, intitulada Isagoge. Escrita por Joahnitius, médico e tradutor nestoriano do século IX, Isagoge abria o manual medieval Articellæ e resumia (com pequenas alterações) os principais conceitos da medicina galênica. Avicena pouco intervém nessa introdução, que é quase integralmente recuperada em seu primeiro capítulo do Livro I do Cânon da medicina. O texto começa com a apresentação das divisões da medicina em teórica e prática. A primeira delas era subdividida em três partes essenciais: as coisas naturais, as não naturais e as contranaturais. As coisas naturais eram sete: os elementos (água, fogo, terra e ar); as misturas (úmido, seco, quente, frio e suas combinações possíveis); os humores (sangue, fleuma ou pituíta, bílis negra e bílis amarela); os membros do corpo (cérebro, coração, fígado e testículos, concebidos como principais, e nervos, veias, artérias e vasos espermáticos, considerados secundários); as faculdades naturais (potencialidades de cada parte do corpo, como nutrição, crescimento e atração); as funções (atividade ou ação das partes); os espíritos (natural, vital e animal); além de quatro coisas naturais adicionais: as faixas etárias (infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice); a cor das partes do corpo; o estado do corpo; e as diferenças sexuais. Das coisas não naturais, todas externas ao corpo, citavam-se clima, exercícios físicos, banhos e dietas, sono e atividade sexual e emoções ou acidentes da alma. Dos contranaturais, as doenças, classificadas em relação a sintomas, aparência, partes do corpo afetadas e suas causas. Já a medicina prática lidava com a conservação da saúde, que era mantida considerando-se as seis coisas naturais (ar, alimentos, bebidas, sono e vigília, evacuação e retenção, movimento e repouso) e as emoções; com a eliminação da doença por meio da prescrição de regimes; com remédios, levando-se em conta sua qualidade ou seu efeito contrário às doenças, quantidade (temperamento e força), dosagem, momento de administração e sua escolha; e, por fim, com cirurgia.

Considerado por alguns historiadores o maior médico de todos os tempos, Abu-Ali Husayn ibn-Abdallah ibn-Sina, conhecido no mundo ocidental como Avicena, nasceu em Bukhara, na Ásia Central, em 980 e faleceu em 1073. Primeiro ministro e médico da corte do governante de Bukhara, escreveu mais de cem livros, 16 deles sobre medicina. Sua obra Kitab al-Qanun fi al-Tibb, conhecida como Cânon da medicina, foi traduzida para o latim pela primeira vez em 1187, sendo leitura canônica nos studia universitários da Europa cristã a partir da segunda metade do século XIII (Ferre, 2003, p.168). O Cânon da medicina é considerado a obra mestra de Avicena e foi referência e base dos estudos médicos no Oriente e no Ocidente durante sete séculos, posto que amplamente ensinado na maior parte das escolas. Foi o primeiro resumo claro e ordenado do saber médico de seu tempo, escrito de maneira didática, em curtos parágrafos, compondo uma enciclopédia médica de cinco livros (hoje volumes), nos quais eram conciliados os pensamentos de Hipócrates e Galeno, bem como as concepções biológicas de Aristóteles, enriquecidos pelas observações do autor. Sua introdução no currículo médico dos studia esteve relacionada à introdução do 'novo Galeno'3, considerado leitura preliminar para melhor compreensão desse pensamento médico.

No Livro I do Cânon da medicina, como visto, Avicena descreve os princípios gerais e as teorias da medicina, fisiologia, etiologia, sintomatologia, dietética, medicina preventiva, psicoterapia e terapêutica. Encontram-se ainda noções de anatomia e de patologia dos diversos órgãos. No Livro II descrevem-se as propriedades terapêuticas dos medicamentos simples, relacionados em ordem alfabética; trata, ainda, da elaboração dos medicamentos, bem como da farmacologia. No Livro III há descrição detalhada das doenças localizadas no corpo ('da cabeça ao coração'), todas acompanhadas por proposição terapêutica. O Livro IV dedica-se a doenças gerais, sinais e sintomas, diagnósticos, prognósticos, febres, tumores, feridas, fraturas, picaduras, envenenamentos, pequenas cirurgias e cuidados cosméticos. Por fim, o Livro V é elaborado como formulário e descreve prescrições médicas e preparações medicinais, enumerando 760 medicamentos compostos. Os Livros II e V, dedicados à farmacologia, foram preteridos por Dioscórides, talvez pelas dificuldades de terminologia e de identificação das plantas indicadas. Já os Livros III e IV, organizados de maneira didático-pedagógica, serviram como valioso material de consulta na prática clínica, sendo amplamente utilizados dentro e fora das universidades.

Por sua vez, o compêndio Aforismos vinha sendo, desde a Antiguidade, o tratado hipocrático mais conhecido. Sua inclusão na formação universitária médica remonta ao período medieval, quando também fez parte do manual Articellæ. Creditado a Hipócrates, o compêndio sintetiza o conhecimento médico dos antigos médicos gregos e foi concebido para a memorização e a prática. O texto mostra grande afinidade com os tratados da escola de Cós, a saber, Sobre o regime nas doenças agudas; Prognóstico; Epidemias; Ares, águas e lugares; Humores; Prenoções coacas; e Crises. Os sete livros ou seções (particole) que o compõem são formados por 412 'aforismos', termo cunhado por Rabelais ao verter a obra para a língua francesa. O primeiro livro ou seção trata das dietas e da purgação; o segundo, do sono e da saúde; o terceiro, da influência do clima e da temperatura sobre a saúde e a doença nas diversas faixas etárias; o quarto retoma o tema da purgação no contexto do diagnóstico, especialmente por meio do exame da urina; o quinto aborda espasmos, epilepsia, doenças do peito e sua cura, bem como indisposições nas mulheres, tema que reuniu o maior número de aforismos ginecológicos do tratado; o sexto, diagnóstico, prognóstico e terapias; e o sétimo aborda os sintomas e a identificação das doenças.

Tegni, de Galeno, reúne os princípios gerais da medicina e já nos antigos florilégios, como o Articellæ, era considerado texto essencial na formação médica. Em latim o texto recebeu várias denominações, como Ars parva, Ars medica e Microtegni, mas se tornou mais conhecido como Tegni (Techné) de Galeno. Servia como introdução ao sistema médico galênico, por ser uma exposição sistemática da vasta obra do autor de Pérgamo, dispersa em muitos textos. A introdução descreve os diferentes modos de exposição apropriados para a arte da medicina: aquela que deriva da noção de fim, por meio da análise (decomposição); a reunião dos achados da análise (composição); e a diálise de uma definição (separação), que Galeno afirmava ser um tipo de explicação ou simplificação (Galen, 1997, passagem 305, p. 345).

Para Galeno, a diálise permitia afirmações derivadas de conclusões tiradas com base em demonstrações práticas, viabilizando a reunião de um conjunto de princípios verdadeiros, entre eles a definição da arte médica como o conhecimento da saúde, da doença e "daquilo que não é nem uma coisa e nem outra" (Galen, 1997 passagem 308, p.346). Galeno apontou três categorias às quais tal definição se aplicaria - o corpo, as causas e os sinais - e dividiu o texto em três partes. Na primeira, considerou os corpos em seu estado de saúde, morbidade e neutralidade; na segunda, apresentou a doutrina galênica dos sinais e sintomas; e na terceira expôs a teoria das causas de Galeno em relação às indisposições mórbidas. A ordem da exposição acompanhava a ordem lógica da prática clínica, pois, segundo Galeno, o diagnóstico só era possível a partir da observação dos sinais, depois de cuja consideração se podiam buscar as causas dos estados de saúde (passagem 309, p.346-347). A saúde do corpo era concebida como a boa mistura das substâncias simples, das partes primeiras (elementos e qualidades) e da boa proporção dos órgãos que eram por elas compostos (posição, tamanho, figura e números das partes). A doença resultaria da má mistura de elementos, qualidades e partes do corpo. Os sinais permitiam o diagnóstico do estado presente, o prognóstico do estado futuro e investigação mnemônica do passado. A observação dos sinais se fazia com base nos princípios da fisiologia galênica: o cérebro, o coração, o fígado e os testículos, bem como suas partes subservientes - os nervos e a espinha dorsal, as artérias, as veias e o duto espermático, respectivamente.

Após considerar os três estados possíveis (saúde, doença e neutralidade) para cada uma das partes principais, Galeno apresentou sua famosa teoria das causas necessárias das doenças, imortalizada pela medicina medieval como a teoria dos seis não naturais: o ar e o ambiente; o movimento e o repouso; o sono e a vigília; as bebidas e os alimentos; evacuação e repleção; e "o que acontece com a alma" (sentimentos e emoções). O texto finaliza com a apresentação dos outros trabalhos de Galeno e a ordem em que eles deveriam ser lidos. De maneira geral, Tegni reflete a interpretação galeniana de certos tratados hipocráticos, tais como seus comentários a Ares, águas, e lugares, Prognóstico, Do regime nas doenças agudas e Dos humores, entre outros.

Se considerarmos que os três estudos (Tegni, capítulo 1 do Livro I do Cânon e Aforismos) repetiam as mesmas noções teóricas, podemos imaginar que o ensino teórico era uma espécie de memorização de noções herdadas, que deviam ser reproduzidas sem mudanças significativas.

As disciplinas práticas (Medicina prática ordinária e Medicina prática extraordinária) registram ensinamentos de Avicena e Rhazes. Eram lidos De febribus (Livro IV do Cânon), Doenças particulares da cabeça ao coração e Doenças particulares abaixo do coração (Livro III do Cânon) e o Livro IX do Almansor, de Rhazes.

A teoria das febres de Avicena, bem como sua descrição das doenças particulares, também se baseavam nos tratados galênicos4, por sua vez baseados nos tratados hipocráticos.5 A vantagem do texto de Avicena era seu caráter sistemático e sucinto, servindo bem ao ensino e à memorização.

Liber ad Almansorem ou Nonus Almansoris, de Rhazes, é dos mais importantes exemplos do modo de transmissão do pensamento médico clássico. As fontes do primeiro livro, sobre compra de escravos, e do terceiro, sobre dietética, foram Hipócrates, Galeno, Oribásio, Aécio e Paulo de Égina; o quarto livro contém a higiene de Galeno; o quinto versa sobre dermatologia; o sexto é também derivado dos autores gregos e aborda a dieta dos trabalhadores; o sétimo se dedica à cirurgia, sendo quase exclusivamente derivado dos tratados cirúrgicos de Corpus hipocraticum, de Paulo de Égina, Synopsis, de Oribásio, e da obra de Aécio; o oitavo trata da toxicologia; e o nono considera as doenças que afetam o corpo, da cabeça ao coração. Este último capítulo foi o mais indicado nos currículos do período aqui abordado. Rhazes extraiu o material do De morbis, de (pseudo) Hipócrates, do De locis affectis, Methodi medendi e, por fim, do De compositione medicamentorum secundum locos, todos de Galeno. O décimo livro, também sobre febres, apoia-se igualmente em Hipócrates, Galeno, Aécio e Paulo de Égina. Em edição de 1497, editada em Veneza por Otinus de Luna, Papiensis, o Liber nonus ad Almansorem de Rhazes, na incipit tabula, descreve quase cem doenças da cabeça ao coração, tais como frenesi, apoplexia, paralisia, 'tortura ossi', melancolia, verminose, pleurisia, 'tremores do coração', icterícia, hidropisia, cistite, hérnia e 'podagra'.

 

As obras de Aristóteles e sua importância para a formação médica

Médicos e filósofos humanistas como Taddeo Alderotti6, Pietro D'Abano7 e Agostinho Nifo8 reiteraram a importância da filosofia natural para o ensino da medicina, assim como Zabarella, no século XVI, e Pietro Castelli, no XVII. Essa importância era apresentada sob dois aspectos: um apontava o caráter de ciência (e não apenas de arte ou técnica) da medicina, o que a tornava um ramo da filosofia natural; o outro, decorrente do primeiro, abordava o estatuto científico do conhecimento médico, isto é, seu modo de aquisição e a maneira de justificá-lo.

De acordo com Wallace (1988, p.202), o que hoje denominamos ciência foi, no século XVII, philosophia naturalis ou scientia naturalis, e seu escopo abrangia todas as coisas materiais que se apresentam aos sentidos. A matemática e a metafísica estavam excluídas de tal filosofia. Aristóteles estabelecera seu conteúdo nos libri naturalis - Física, De Cælo, De Generatione et Corruptione, Meteorologia, De Anima, Parva Naturalia - e nos tratados sobre os animais - História dos animais, Das partes dos animais e Geração animal. Essas obras foram, no século XVII, a base dos estudos de filosofia natural.

Ainda conforme Wallace (1988, p.202-210), Francisco de Toledo (1532-1596), influente teólogo e filósofo jesuíta espanhol, em seu Commentaria una cum quaestionibus in VIII libros de physica auscultatione, publicado em 1574, recomendava que a estrutura do currículo das escolas renascentistas respeitasse a própria 'função' e as divisões da filosofia. A função da filosofia seria eliminar a ignorância humana em três áreas principais: na contemplação da verdade, no aprendizado para se viver melhor e no conhecimento voltado para preencher as necessidades materiais da vida. Tais áreas forneceriam as principais divisões da filosofia: speculativa, practica e factiva. Fariam parte da filosofia speculativa a metafísica, que trataria dos princípios comuns e das propriedades de todos os seres; a física, que abordaria tudo aquilo que pode ser percebido pelos sentidos; a matemática pura, incumbida dos números e das figuras; a matemática media, que se ocuparia da quantidade e dos movimentos, como a música e a perspectiva. A filosofia practica se ocuparia de todos os assuntos humanos voltados para a prática da vida, incluindo a ética, a economia e a política. E a filosofia factiva ou construtiva, antes denominada filosofia mecânica, incluiria todas as artes necessárias à vida humana e a seu prazer, como a agricultura, a navegação e o canto.

A física e a filosofia natural ocupavam-se das mesmas entidades naturais e eram divididas conforme os princípios das coisas naturais, apresentados nos oito livros da Física, de Aristóteles. No De Cælo eram tratadas as entidades simples incorruptíveis (os corpos celestes) e corruptíveis (os elementos, também tratados no De Generatione et Corruptione). As entidades compostas eram divididas em animadas e inanimadas, que eram de dois tipos: as que se encontravam nas regiões superiores (como a chuva e as coisas encontradas na atmosfera) eram explicadas no Meteorologia, e as mais perfeitas, encontradas na terra (pedras e metais) eram estudadas no De mineralibus. As entidades compostas animadas eram estudadas no De anima, no De plantis e nos tratados sobre os animais, bem como no Parva Naturalia (Wallace, 1988, p.210).

Dessa forma a medicina, que deveria fazer parte da filosofia factiva, pois era uma arte, pertencia aos assuntos da física ou da filosofia natural. Como vimos, Avicena descreve, nas primeiras seções do Cânone, o conteúdo da fisiologia médica: "elementos, temperamentos, humores, órgãos e faculdades", que em sua totalidade compõem "os princípios filosóficos naturais da vida humana" (Avicenne, 1956, p.12). Avicena baseou-se em Galeno, que seguiu os ensinamentos de Aristóteles e inspirou-se em Hipócrates.

Já na Antiguidade, os termos 'física', 'filosofia' e 'medicina' se confundem. Filosofia natural era o estudo da natureza, da physis grega. Physis, por sua vez, deu origem ao termo 'físico', que também significava médico9. E assim como o nome implicava, a física (ou medicina) era um dos ramos do estudo da natureza ou da filosofia natural. Médicos precisavam estudar filosofia natural porque o propósito da física era preservar a saúde e prolongar a vida, e sendo ela era regida por princípios naturais, tal propósito só poderia ser atingido a partir do conhecimento e domínio de tais princípios. Assim, a filosofia, incluindo a filosofia natural e a lógica, eram consideradas duas disciplinas propedêuticas para a medicina.

A conexão entre medicina e filosofia possui uma longa história. Para Aristóteles e Galeno, a filosofia tinha papel essencial na educação e prática médicas. No De sanitate et morbus e no De sensu et sensato, afirma que a tarefa do filósofo natural é estudar o princípio das doenças e da saúde, e uma vez que doenças e saúde são consideradas propriedades da vida, filósofos e médicos que têm interesse científico na arte da medicina devem compartilhar os mesmos objetivos, os primeiros estudando medicina e os segundos baseando suas teorias médicas nos princípios naturais da ciência (Aristotle, 1957). No pequeno tratado Quod optimus Medicus sit quoque Philosophus (O bom médico é também filósofo), Galeno afirma a importância da filosofia e da lógica para a medicina (Galen, 1997, parágrafo 3, passagens 59-63, p.32-34).

No século XVI, Taddeo Alderotti, da Universidade de Bolonha, e Pietro D'Abano, da Universidade de Pádua, assinalavam a importância da filosofia para o ensino da medicina. Pietro D'Abano ficou conhecido como O Conciliador, em razão do título de seu livro Consiliatur differentiarum philosophorum et præcipue medicorum, publicado em Mantua, em 1504, e depois em Veneza e sistematicamente lido na escola médica de Pádua, sendo várias vezes reeditado no final do século XVII. Nele, D'Abano explica e 'reconcilia' as diferenças entre médicos e filósofos. Estruturado em 210 'diferenças', apresenta os principais ensinamentos médicos gregos e árabes e propõe maneiras pelas quais esses ensinamentos podiam ser reconciliados com a filosofia natural da época, essencialmente aristotélica. Nas primeiras 'diferenças', D'Abano afirma que as três coisas mais importantes para a formação médica são a lógica, a filosofia natural e a astrologia (Schmitt, 1969, p.13-15).

Em 1607 Castelli publicou De Optimo Medico, em Veneza, em que descreve detalhada e exaustivamente a melhor educação para o médico. Em sua opinião, a formação médica deve basear-se em dois tipos de conhecimento: no empírico, adquirido por meio da química, botânica, cirurgia e anatomia; e no racional, baseado na filosofia. Para argumentar a favor da importância da filosofia para a medicina, Castelli cita fragmentos do De Sanitate et Morbus, de Aristóteles, e do Quod optimus Medicus sit quoque Philosophus (O bom médico é também filósofo), de Galeno (Schmitt, 1985, p.14).

A maior parte dos manuais utilizados nas escolas e universidades confirma o forte programa aristotélico no ensino da filosofia natural. Produzidos entre 1600 e 1650, tais manuais foram elaborados a partir dos comentários feitos por seus predecessores imediatos ao Corpus aristotelicum. Entre os autores mais utilizados para a elaboração desses manuais encontram-se Julio Caesar Scaliger10, Philip Melanchton11, Jacopo Zabarella e os jesuítas Franciscus Toletus, Benedito Pereira e Francisco Suarez. As obras de Aristóteles foram cuidadosamente traduzidas do grego e reinterpretadas e comentadas com fidelidade e adesão.12

 

O método da scientiæ médica e anatômica

Para Wallace (1988, p.205), o século XIII dedicou boa parte de sua reflexão aos estudos de metodologia científica, que proliferaram com a descoberta dos comentadores gregos aos Primeiros e Segundos Analíticos. Do século XIII até o final do XVI, na Universidade de Pádua, D'Abano, Nifo, Pace e Zabarella teorizaram sobre o modo de raciocínio a ser empregado na scientia: a lógica da descoberta associada ao regressus demonstrativo e aos métodos de resolução e composição. Por serem professores do curso de artes e medicina, discutiram as necessidades lógicas de suas disciplinas.

Os anatomistas dos séculos XVI e XVII viram-se na obrigação de teorizar sobre a filosofia do método anatômico, de justificar o novo método de 'olhar a natureza'. Se a medicina faz parte da filosofia natural, ela deve seguir os princípios epistemológicos e metodológicos exigidos para a constituição do saber demonstrado, a verdadeira scientia. Demonstrar, como ensinara Aristóteles, é apresentar as causas ou os princípios de algo; no caso da anatomia, é responder às questões sobre o que é a parte do corpo e por que ela exerce tal função. Os anatomistas procuraram alcançar tal objetivo aplicando, na investigação médico-anatômica, a fórmula historia-actio-usus-utilitas das partes. O resultado de tais investigações, porém, era considerado demonstração no sentido aristotélico? A demonstração anatômica possuía estatuto equivalente ao da demonstração aristotélica? A maior parte dos anatomistas sabia que a demonstração anatômica diferia essencialmente das demonstrações em ciência, porque suas premissas partiam da observação de fatos particulares e não de princípios universais. Os anatomistas compartilhavam a crença de que a observação anatômica era uma forma especial de conhecimento, cujo estatuto epistemológico, igualado ao da ciência, fornecia conhecimento válido e verdadeiro. Acreditavam que a demonstração anatômica deveria começar pelos universais, que eram primeiramente desenvolvidos a partir da indução, processo iniciado pelos particulares dos sentidos. Mais uma vez, o Aristóteles da Física e dos Primeiros e Segundos Analíticos era utilizado como principal fonte.

Duas grandes correntes filosóficas concorriam na Universidade de Pádua: um aristotelismo mais ligado à 'Escola', cujo maior representante foi Piccolomini; e um aristotelismo menos 'cristianizado' e fortemente influenciado pelos comentários de Averróis, o aristotelismo paduano, cuja figura central foi Jacobo Zabarella.

As discussões sobre a lógica da ciência foram inicialmente estabelecidas pelos filósofos aristotélicos paduanos Zabarella e Pace. Julio Pacius (ou Pace), que trabalhou com Zabarella e lecionou em Pádua na mesma época em que Harvey lá estudou, procedeu a uma nova leitura de Aristóteles, humanística e filológica, priorizando os textos gregos e os comentadores Amônio e Filopônio. Em seus escritos, Pace propagava um novo modo de obter conhecimento, o método do regressus, que, em sua opinião, devia ser utilizado quando os princípios de uma demonstração eram desconhecidos (como na investigação anatômica). O método é um processo de aquisição do conhecimento que envolve três momentos: o primeiro inicia com um raciocínio dirigido à descoberta das causas a partir dos efeitos, e uma parte desse raciocínio é a resolução ou análise das coisas compostas em seus primeiros princípios; o segundo é a negociação do intelecto, pela qual os princípios causais descobertos são tornados mais conhecidos para a mente; e o terceiro, inverso ao primeiro, é o retorno dos primeiros princípios aos efeitos observados. Segundo Pace (1596, p.422), essa é uma demonstração verdadeira, baseada nas causas (to dioti).

Pace, na verdade, seguia a orientação de Jacobo Zabarella (1533-1589). Aluno de Bernar-dinus Tomitamus, com ele aprendeu humanidades, lógica, filosofia natural e matemática. Já formado, publicou diversos livros, entre eles: Opera logica (publicado em Veneza, 1578 e em Colônia, 1597), que incluía De Methodis, De Natura Lógica, De Regressus e In duos Aristotelis libros Posteriores Analyticos commentarii, entre outros textos menores; Tabulæ Logica (Veneza, 1580); De naturalis scientiæ constitutione (1586), texto introdutório a sua obra maior sobre filosofia natural, De rebus naturalibus (Colônia, 1590); além de vários comentários à obra de Aristóteles, como o In libros Aristotelis Physicorum commentarii (Veneza, 1601) e o In tres libros Aristotelis De Anima commentarii (Veneza, 1605). É em De naturalis scientiæ constitutione (capítulo 33) que Zabarella sustenta que "onde termina o filósofo, começa o médico" (ubi desinit philosophus, ibi incipit medicus).

Para Zabarella (1586), a physiologia, um dos ramos da filosofia natural relacionados ao corpo e às suas partes, fornecia o conhecimento científico através do qual a medicina, arte eminentemente prática, poderia atingir seus resultados, o restabelecimento da saúde. Quem quisesse conhecer a estrutura do corpo humano devia seguir os ensinamentos de Aristóteles em Das partes dos animais e não só na História dos animais, pois o primeiro fornecia o entendimento da função e do propósito das partes internas e não apenas a mera descrição da estrutura das partes externas, objeto do segundo. Para Zabarella, a lógica derivada de Segundos Analíticos deveria ser aplicada a todas as disciplinas teóricas e práticas, principalmente a medicina. Em De methodis e De regressus, Zabarella afirma que o método lógico fundamental a ser empregado no raciocínio médico é o methodus resolutiva (tese apoiada em passagens de Galeno, Averróis e Avicena).

A discussão de Zabarella acerca das diferentes formas de chegar ao conhecimento resultou no regressus, mistura da distinção do conhecimento to oti e to dioti de Aristóteles, da distinção de conhecimento analítico e sintético de Galeno e do medieval quia e propter quid. O resultado gerou um método duplo de obtenção do novo conhecimento, começando pelos particulares das observações. Segundo Zabarella, em In libros Aristotelis physicorum commentarii (publicado em Veneza, 1601 e em Basle, 1622), o conhecimento to oti é superficial, um modo de tratamento não desenvolvido e que produz mera historia, como as narrativas sem causa daqueles que produzem histórias e como a História dos animais, de Aristóteles (Zabarella, 1601, p.3). A segunda parte do regressus é a descoberta dos primeiros princípios causais e, a partir deles, da explicação dos particulares da observação. Para Zabarella só essa etapa pode ser considerada scientalis, conhecimento verdadeiro, ou a descoberta do menos conhecido a partir do mais conhecido.

Em resumo, o método de Zabarella pressupõe: uma 'demonstração que' (quod), através da qual somos levados do conhecimento confuso do efeito para o conhecimento confuso da causa; uma consideração mental, através da qual, de um conhecimento confuso da causa, adquirimos um conhecimento distinto dela; e uma demonstração propter quid, através da qual somos levados da causa distintamente conhecida para o conhecimento distinto do efeito. Nas palavras de Zabarella (1597, 481b; tradução livre):

O regressus está entre a causa e o efeito, quando eles são conversíveis e o efeito é mais conhecido por nós do que a causa. Pois, uma vez que temos sempre que partir daquilo que nos é mais conhecido, começamos primeiro a demonstrar a causa desconhecida a partir do efeito conhecido, e então retornamos (regredimur) da causa assim conhecida para o efeito a ser demonstrado, podendo saber a razão porque ele é dessa forma.

Ora, a 'demonstração que' (quod) corresponde ao relato da historia, pelo qual, com base na descrição do efeito, buscamos conhecer a causa. Por 'consideração mental' podemos entender a busca do estabelecimento da relação entre a descrição, a ação e o uso das partes. E a demonstração propriamente dita (propter quid) nada mais é do que a apresentação da causa final ou do propósito das partes, em que o anatomista demonstra como as partes e os atributos do órgão ou das partes, fornecidos pelo relato da historia e da actio, são apropriados para sua função. Possuindo a finalidade da parte, o anatomista pode explicar (regredir) as particularidades do fato observável (tamanho, figura, número etc.), em função de seu princípio ou causa final. Assim sendo, a demonstração anatômica não será uma prova demonstrativa no sentido tradicional, mas sim uma demonstração visual, pois demonstrar anatomicamente será mostrar através da dissecação e não através de algum argumento lógico. A aceitação de tal método lógico ou 'prova' na ciência anatômica exige duas crenças epistemológicas: a primeira diz respeito à confiança irrestrita na possibilidade do conhecimento sensível, confiança essa que se traduz na máxima de que as observações anatômicas devem ser oculares, pessoais e reprodutíveis; e a segunda afirma que experimentos reprodutíveis transformam eventos particulares em fatos universais. Tanto no primeiro caso quanto no segundo, anatomistas puderam apoiar-se nos escritos de Aristóteles e Zabarella.

Segundo Risse (1983, p.175), o método aristotélico de demonstração ou prova em ciência, quando aplicado aos objetos da experiência, ao mundo empírico, possui duplo fundamento: um sistema de proposições; e uma ordenação dos objetos sensíveis. O saber é conhecimento a partir de princípios, mas para conhecer é preciso antes, possuir o princípio. O método deve então ser duplo: a indução analítica do universal a partir do particular, isto é, do concreto particular chegase, através da universalização, ao conhecimento dos princípios; e a dedução sintética do particular a partir do universal, em que um princípio é pressuposto e dele a conclusão é derivada de maneira puramente formal. A dedução sintética só será legítima quando o assunto pressuposto for verificável. Em outras palavras, a indução analítica procede do particular que conhecemos por experiência, para extrair o que nele é universal (demonstratio quia); a dedução sintética procede do universal, conceitualmente fundante, embora distante da experiência, e conclui por que o particular 'é' ou 'é assim' (demonstratio propter quid); e, por fim, o método demonstrativo axiomático dedutivo conclui rigorosamente a partir da definição colocada, não se baseando num saber de objetos reais.

De acordo com Aristóteles, os sentidos não podem julgar a substância, o porquê de algo, estando limitados a julgar que algo particular foi recebido em nossa impressão a partir dos órgãos sensíveis; em outras palavras, que algo existe. Esse tipo limitado de conhecimento não constitui, naturalmente, a ciência. A demonstração começa pelos universais, primeiramente desenvolvidos a partir da indução, processo que se inicia com os particulares dos sentidos, isto é, com a observação. Devemos utilizar a indução para chegar aos universais, dessa forma conhecendo seu conteúdo, que será, por sua vez, objeto da demonstração científica. O conteúdo deve começar, no sentido metafísico, com a essência daquilo que está sendo demonstrado, e a afirmação dessa essência é uma definição. Só a indução não fornece a essência, o porquê de alguma coisa. Segundo Aristóteles, a essência não é objeto dos sentidos, mas sim do entendimento (Aristotle, 1984, capítulo 13, passagem 97b26).

 

 

NOTAS

1 Muhammad ibn Zakariya Abu Bakr al Razi (864?-925?).

2 In pulsatione campanæ: na batida da campainha ou sino; por exemplo, às seis 'em ponto'.

3 As novas traduções latinas dos textos de Galeno, entre eles De complexionibus, De malicia complexiones diverse, De simplici medicina, De morbo et accidenti, De crisi et criticis diebus, De ingenio sanitatis, De differentiis febrium, De interioribus e o De regimine sanitatis (Ballester, 1982).

4 Sobre o pulso para iniciantes; Para Glauco, sobre o método de cura; e os comentários a Hipócrates: Método de cura (14 livros), conhecido como Megatechne ou Methodus medendi; Sobre as feridas; Sobre as feridas da cabeça; Epidemias I (três livros); Epidemias II (seis livros), Epidemias III (três livros) e Epidemias VI (oito livros).

5 Epidemias, livros I e III; Epidemias, livros II, IV e VI; Das doenças femininas, livros I e II; Das feridas; Das doenças, livros II e III; Das doenças internas; Das afecções; Das doenças, livro I; Epidemias, livros V e VII; Sobre as fístulas; Da doença das virgens; Sobre as hemorroidas.

6 Thaddeus Florentinus (1215-1295), professor de filosofia e medicina em Bolonha.

7 Pietro D'Abano (1257-1315), professor de filosofia e medicina em Pádua.

8 Agostinho Nifo (1469/70[?]-1538), médico eminente e professor de filosofia em Pádua, Pisa, Roma e Nápoles. Produziu vasta obra médica e filosófica, como De Ratione Medendi, De Intellectu, Dialectica ludicra e Expositio super octo Aristoteles libris de physico audito (Veneza, 1552).

9 Em inglês physician. Para a língua portuguesa o sentido permanece em fisiólogo ou fisiologista. No século XVI, physicus e physiologus eram termos usualmente utilizados para o filósofo natural.

10 Julio Caesar Scaliger escreveu De causis linguæ latinæ (1540); In II libros De plantis (1556); Poetices libri VII (1556); Animadversiones in VI libros De causis plantarum Theophrasti (1566); e Commentaria in De animalibus (1584).

11 Philip Melanchton escreveu Compendiaria dialectices ratio (1520); De dialectica libri quatuor (1531); Dialectices libri III (1537); e Erotemata dialectices (1555).

12 No início do século XVI, um grande número de comentadores de Aristóteles era conhecido como o Círculo Averroista. Pomponazzi, Nifo, Achillini de Bolonha, seu aluno Boccadifero, Montecanti de Ferrara, os professores de Pádua Cremonini, Zabarella e Zimara, Buonamicci, professor de Galileu em Pisa, desenvolveram vasta discussão filosófica sobre as relações da ciência, da medicina e da anatomia. Para Averróis, o commenttator de Aristóteles por excelência, a filosofia natural voltava-se essencialmente para a medicina e suas questões naturais.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação em junho de 2009.
Aprovado para publicação em novembro de 2009.

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