SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.17 issue2Physical education, science, and health: notes on the holdings of the Center for Sports Memory (UFRGS)Thoughts on cognitive access to information in Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.17 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702010000200016 

LIVROS & REDES

 

Por uma medicina científica e humanista: a atualidade da obra de Rudolf Virchow

 

Towards a scientific, humanist medicine: the relevance of Rudolf Virchow today

 

 

Márcio Magalhães

Doutorando do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde/Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz. marcmagand@gmail.com

 

 

 

Para um grupo relativamente reduzido de médicos e historiadores talvez pareça redundante ou banal utilizar o adjetivo polivalente para referir-se à figura de Rudolf Virchow (1821-1902). Quem dentro desse limitado grupo de especialistas não saberia que o médico alemão, nascido em Schivelbein (pertencente à Polônia desde 1945), ignorando as supostas fronteiras do conhecimento, atuou como naturalista, político, antropologista e filósofo furtivo? Fora desses círculos restritos, no entanto, é provável que Virchow não seja sequer conhecido. Teria sido ele um excêntrico, um generalista pouco afeito às especializações que começaram a se definir entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século seguinte?

Interessado em retificar o que lhe pareceu um lapso na história da ciência, Heinrich Schipperges produziu um sucinto perfil biográfico intitulado Rudolf Virchow: patologista, antropologista, político (publicado na Alemanha em 1994). A intenção desse trabalho, agora disponível em língua portuguesa, é apresentar a vasta e complexa obra daquele múltiplo personagem oitocentista.

Considerado o mais importante sanitarista alemão do século XIX e reconhecido como o Pai da Patologia Celular, Virchow teve destacada atuação política em sua época. Republicano desde a juventude, integrou a Organização Democrática da Associação dos Trabalhadores em 1848 (ano-base das breves ondas revolucionárias que passaram para a história como a Primavera dos Povos), tornou-se membro, a partir de 1859, da Câmara Municipal de Berlim (onde desempenhou papel fundamental nas reformas sanitárias da cidade) e ajudou a fundar o Partido Progressista Alemão, em 1861, mesmo ano em que foi eleito para a Câmara dos Deputados da Prússia. Por conta de seus posicionamentos progressistas, entrou em rota de colisão com o poderoso e reacionário Otto von Bismarck (1815-1898), que chegou a convidá-lo para um duelo de pistolas.

Virchow valorizou sobremaneira os problemas sociais e culturais na causação de doenças. O sanitarista corroborava a divisão das epidemias em naturais e culturais, sendo a história destas últimas, segundo ele, a história dos distúrbios experimentados pela cultura, das perturbações diversas que motivavam reviravoltas na sociedade. Mas havia algo mais: a célula, que ele passou a considerar a forma última e elementar da vida, o 'motor da vida' e o 'motor da doença', organizava-se em formas específicas, num arranjo social, coletivo, que dava origem a grupos de tecidos. A partir desse pressuposto, passou a defender a ideia de que formações patológicas eram decorrentes de gerações inadequadas desses tecidos (heterometria, hipertrofia, hiperplasia etc.). Die Cellularpathologie (A patologia celular), sua obra seminal, foi publicada em 1858.

Heinrich Schipperges - ele mesmo médico, filósofo e historiador - empenhou-se na construção de uma narrativa que pudesse contemplar as diversas atividades desenvolvidas por Rudolf Virchow. O que uniria, afinal, política, medicina e antropologia (tida por nosso personagem como uma ciência humana abrangente, uma doutrina do homem a ser elaborada pela medicina científica)? A ideia de uma ciência unificada, vislumbrada pelo sanitarista alemão e por muitos de seus contemporâneos, perpassa o trabalho de Schipperges. Para os homens do Oitocentos, o método científico seria capaz de promover a unificação da ciência. Somava-se a essa expectativa o entusiasmo com a ideia de progresso, reforçada pela obra A origem das espécies (1858), de Charles Darwin (1809-1882). A teoria da evolução por meio da seleção natural, defendida por Darwin, teve o mérito de trazer o homem para dentro do esquema da evolução biológica, fato responsável pela abolição das divisões entre ciências naturais e humanas. Virchow respirou e colaborou com essa atmosfera universalista.

O livro de Schipperges, que teve nos trabalhos de Erwin Ackerknecht (1953) e de Manfred Vasold (1988) duas importantes referências, traz uma quantidade considerável de citações de trechos da obra de Virchow. Segundo o autor, sua intenção era "dar voz o máximo possível", colher um "testemunho pessoal" do personagem. Em alguns momentos tem-se a impressão de um Rudolf Virchow um tanto isolado, heroico. Os posicionamentos do personagem em relação à obra de Darwin e à bacteriologia, apesar de mencionados, são pouco explorados pelo autor. Ainda assim, vale ressaltar que o livro em questão tem o mérito de permitir ao público brasileiro maior familiaridade com a vida e a obra de um dos grandes médicos sanitaristas do século XIX.

 

REFERÊNCIAS

ACKERKNECHT, Erwin. Rudolf Virchow: doctor, statesman, anthropologist. Madison: University of Wiscosin Press, 1953.         [ Links ]

VASOLD, Manfred. Rudolf Virchow: der grosse Arzt und Politiker. Stuttgart: Deutsche Verlags-Anstalt. 1988.         [ Links ]

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License