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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.17 no.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2010

https://doi.org/10.1590/S0104-59702010000400001 

CARTA DO EDITOR

 

 

Caros leitores,

Chegamos ao final de mais um ano de trabalho recompensador.

Além das edições trimestrais de praxe, que se encerram com esta, leitor, que você folheia, lançamos dois suplementos de grande fôlego: "Câncer no século XX: ciência, saúde e sociedade", em julho, ao ser inaugurada uma exposição que correu o país; e "Hospício e psiquiatria na Primeira República: diagnósticos em perspectiva histórica", lançado neste dezembro no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde os autores debateram com plateia extremamente participante.

A revista teve a sua classificação mantida como A1 Internacional em História no Qualis, sistema utilizado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para avaliar a produção dos programas de pós-graduação. No Portal SciELO, História, Ciências, Saúde - Manguinhos é enquadrado em duas categorias de periódicos: ciências da saúde e ciências humanas. A abrangência de leitores e colaboradores reflete-se na diversidade de classificações obtidas pela revista no Qualis-Capes: A1 Internacional também em Educação; A2 em Sociologia, Serviço Social e Letras/Linguística; e outras classificações em 18 áreas. Estamos ancorados no campo da história, base de nossa identidade em meio a tantas interfaces.

O número de artigos submetidos à publicação continuou a crescer, consolidando-se a tendência às coautorias, o que parece refletir a pressão exercida pela Capes sobre os programas de pós-graduação e a generalização, nas ciências humanas, da tendência a orientadores assinarem, como segundos autores, trabalhos realizados por doutorandos.

Em páginas geradas com o auxílio do Google Analytics, constata-se o crescimento das visitas feitas à revista no Brasil e no mundo. No período de 26 de julho de 2007 a 30 de julho 2008, o Google detectou 277 visitas de oito países/territórios. De 1º de agosto de 2008 a 30 de setembro de 2009, ocorreram 15.699 visitas a partir de 47 países/territórios, sendo os dez primeiros Brasil, Portugal, México, Argentina, Estados Unidos, Espanha, Colômbia, Reino Unido, Chile e Alemanha. Entre 1º de outubro de 2009 e 1º de outubro de 2010, o número de visitantes foi de 13.547, pouco se alterando o perfil dos países que mais acessaram a revista.

Em 2006 teve início a seleção dos trabalhos que ganhariam versão em inglês. A decisão foi motivada pelo reconhecimento de que a presença de História, Ciências, Saúde - Manguinhos no Portal Scielo oferece enorme potencial quanto a visibilidade e alcance, o qual, para ser plenamente aproveitado, requer a superação da barreira linguística constituída pelo idioma nativo. Pois já chega a 68 o número de trabalhos disponíveis também em inglês na edição digital, vertidos do português ou espanhol (na edição em papel, circulam apenas nesses idiomas).

Na presente edição, foram três os artigos vertidos para o inglês, tendo assim versões bilíngues na edição digital da revista, de livre acesso em www.scielo.br/hcsm.

Em "Girolamo Fracastoro y la invención de la sífilis", Virginia Iommi Echeverría, professora da Pontificia Universidad Católica de Valparaíso (Chile), reexamina as diferentes percepções do médico veronês sobre as origens dessa afecção. Confronta a autora o conhecido poema Syphilidis sive de morbo gallico libri tres (Os três livros da sífilis ou o mal francês), publicado em Verona, em 1530, com o tratado em prosa que veio a lume duas décadas depois com o título De contagione et contagiosis morbis et eorum curatione libri tres (Os três livros sobre o contágio, as enfermidades contagiosas e sua cura). Virginia mostra que, na primeira, o ar é o veículo de corrupção e doença, ao passo que, na segunda, Fracastoro propõe nova via de transmissão, o contágio direto, pois teria cessado a disposição original do ar, persistindo então a doença de maneira diferente. Mostra ainda a autora que as 'sementes' associadas à transmissão dessa sífilis não fogem aos marcos clássicos do hipocratismo, contrariando assim a ideia, sustentada ainda hoje pela historiografia positivista, de que Fracastoro foi um precursor da microbiologia.

Pablo Souza e Diego Hurtado, da Universidad Nacional de San Martín (Buenos Aires), analisam transformações ocorridas numa vertente da medicina pouco explorada pelos historiadores em "La lectura del libro natural: apuntes para una historia de los estudios anatómicos y quirúrgicos en Buenos Aires (1870-1895)". A trajetória de Ignacio Pirovano, que veio a ser catedrático de anatomia y cirujano mayor na escola portenha, serve de fio condutor para o estudo da influência das tradições cirúrgicas europeias, especialmente a parisiense, e das tensões entre os modos de transmitir conhecimentos no seio de grupos de médicos tanto na capital francesa como na argentina.

Ator importante na valorização da medicina hospitalar argentina, Pirovano foi o principal responsável pela introdução, nesse país, de práticas cirúrgicas restitutivas e listerianas. Exploram os autores, de maneira bastante original, a relação desse nativo de um contexto científico periférico com um de seus mestres, Jules-Émile Péan, cirurgião malvisto pelo establishment médico parisiense, que operava de fraque no Hopital Saint Louis encantando numerosas audiências com sua destreza, velocidade e criatividade técnica.

Vivian da Silva Cunha, doutoranda do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz, assina "Isolados 'como nós' ou isolados 'entre nós'?: a polêmica na Academia Nacional de Medicina sobre o isolamento compulsório dos doentes de lepra". O trabalho apresenta os fatos que levaram à criação da Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas em 1920, no âmbito da reforma da saúde pública brasileira realizada então, e em consequência de debates que transformaram a doença de Hansen em problema nacional, a ser enfrentado pela segregação dos doentes. Nessa moldura, inscreve Vivian sua original análise da controvérsia que opôs Belisário Penna, liderança do movimento sanitarista nos anos 1910 e diretor do Serviço de Profilaxia Rural, e Eduardo Rabello, chefe da Inspetoria de Profilaxia da Lepra e das Doenças Venéreas, renomado dermato-sifilógrafo e um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Dermatologia. O que estava em disputa era o regime de segregação a implantar, flexível na perspectiva deste último, extremamente duro para Penna. Para Rabello, os portadores da lepra deviam ser internados em hospitais, preferencialmente colônias-agrícolas, ou em seus próprios domicílios, quando a condição econômica do doente permitisse a adoção das medidas profiláticas consideradas necessárias. Para Penna, o único meio seguro de evitar a propagação daquela patologia, característica da semicivilização, seria o afastamento de seus portadores da sociedade em que viviam, criando-se um ou dois municípios onde fossem confinados os leprosos existentes no país, de todas as classes sociais.

O fato de eu mencionar, nesta carta, apenas os artigos vertidos para o inglês não significa demérito aos demais trabalhos que oferecemos a você, leitor, na presente edição de História, Ciências, Saúde - Manguinhos. São de ordem puramente financeira as razões que nos impedem de verter a revista inteira para o idioma que ainda é o principal meio de trocas na comunidade científica internacional.

Escrevo no dia em que é proclamado oficialmente o verão, e daqui, deste limiar de 2010, antevejo você, amigo leitor, no alvorecer do ano novo, a ler estas linhas. Faço votos então de que tenha atravessado o intervalo que nos separa com muita alegria e disposição para enfrentar o novo ciclo de nossas vidas. Será, espero, repleto de saúde, boas amizades, trabalhos gratificantes e esperança de tempos felizes.

 

Jaime L. Benchimol
Editor

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