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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.18 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2011

https://doi.org/10.1590/S0104-59702011000200005 

ANÁLISE

 

Fabricando o soldado, forjando o cidadão: o doutor Eduardo Augusto Pereira de Abreu, a Guerra do Paraguai e a educação física no Brasil

 

Molding soldiers, forming citizens: Doctor Eduardo Augusto Pereira de Abreu, the Paraguayan War, and physical education in Brazil

 

 

Carlos Leonardo Bahiense da SilvaI; Victor Andrade de MeloII

IDoutorando do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde/Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz. Avenida Prefeito Lucídio Cardoso, 1500/1206, 22631-021- Rio de Janeiro - RJ - Brasil. leonardobahiense@gmail.com
IIProfessor do Programa de Pós-Graduação em História Comparada/Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rua Silveira Martins, 76, casa 16. 22221-000 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil. victor.a.melo@uol.com.br

 

 


RESUMO

Discute a obra de Eduardo Augusto Pereira de Abreu, Estudos higiênicos sobre a educação física, intelectual e moral do soldado, publicada em 1867, a qual, marcada pela experiência da Guerra do Paraguai, foi uma das primeiras produções em que se buscou explicitamente unir preocupações médicas e militares, bem como estabelecer nítida conexão entre a fabricação de um combatente e o forjar de um cidadão, ambos prontos para defender a pátria. Nela, a prática de atividades físicas ligadas ao civismo, ao vigor e à saúde foi apresentada como de grande relevância, antecipando e influenciando futuros debates nacionais sobre a importância da educação física.

Palavras-chave: educação física; Guerra do Paraguai (1864-1870); medicina; Brasil.


ABSTRACT

The article discusses Eduardo Augusto Pereira de Abreu's Estudos higiênicos sobre a educação física, intelectual e moral do soldado (Hygienic studies on the physical, intellectual, and moral education of soldiers), published in 1867. Marked by the experience of the Paraguayan War, this was one of the first works that endeavored explicitly to conjoin medical and military concerns and to establish a clear link between molding a soldier and forming a citizen, both ready to defend the fatherland. Placing heavy emphasis on the practice of physical activities tied in with civism, robustness, and good health, the book both anticipated and influenced subsequent debates in Brazil on the importance of physical education.

Keywords: physical education; Paraguayan War (1864-1870); medicine; Brazil.


 

 

Na manhã de 21 de outubro de 1892, aos sessenta anos de idade, falecia em sua residência, localizada na rua do Riachuelo, número 215, na cidade do Rio de Janeiro, o médico Eduardo Augusto Pereira de Abreu. Conforme o atestado de óbito, a morte do facultativo foi causada por septicemia. Seu corpo foi enterrado no Cemitério de São Francisco Xavier, no bairro de São Cristovão, na mesma cidade.

Pereira de Abreu não foi um médico qualquer. Filho do comendador Plácido Antônio Pereira de Abreu - barbeiro de dom João VI, criado de quarto de dom Pedro I, tesoureiro da imperatriz Leopoldina - e de Ana Senhorinha Pereira de Abreu, o esculápio construiu invejável currículo. Doutor pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1855, foi membro da Junta Central de Higiene Pública, órgão criado cinco anos antes para cuidar da administração da saúde pública, no auge da primeira epidemia de febre amarela que se abateu sobre a Corte. Foi membro da Academia Imperial de Medicina (admitido em 13 de julho de 1863), sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa, associado à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e à Sociedade Amante da Instrução, cavaleiro da Casa Imperial, agraciado com a Imperial Ordem da Rosa e vereador.

Em 1861 foi nomeado segundo cirurgião do Exército. Em razão da Guerra do Paraguai (1864-1870), em 1865 foi enviado a Montevidéu, no Uruguai. Era, na ocasião, o homem de confiança (secretário e assistente) de Manoel Feliciano Pereira de Carvalho1, chefe do corpo de saúde. Todavia permaneceu apenas dois meses naquela cidade e deixou o Exército pouco depois de retornar ao Rio de Janeiro. O motivo alegado para obter sua demissão foi a precariedade de sua saúde. Submetido a inspeção médica, identificou-se que sofria de "tumores hemorroidais externos, dartros sifilíticos, exostose sobre o parietal" e "endurecimento sifilítico do testículo esquerdo" (Abreu, 1865).

Um fato modificou uma vez mais a trajetória do doutor Eduardo Augusto: em novembro de 1867, aos 61 anos, despedia-se da vida Manoel Feliciano, que vinha dando sinais de esmaecimento físico desde que, meses antes, a cólera vitimara seu filho no campo de batalha. Diante da necessidade de profissionais experientes, o novo chefe do corpo de saúde, José de Souza Fontes, contratou Pereira de Abreu como secretário.

Vestir o uniforme militar parecia ser seu destino. Desempenhou esse papel por mais dois anos, quando assumiu a Enfermaria de Menores do Arsenal de Guerra da Corte, que possuía, como observou Thomas Ewbank2 (1973, p.2), uma escola de aprendizes: "Na oficina-escola, duzentos rapazes, de seis a 13 anos, brancos, pretos, mulatos e índios formavam com suas mesas de trabalho uma única peça, como que modelada em granito. Aprendem leitura, escrita, aritmética e desenho". Aos 14 anos, os jovens optavam por um ofício e, posteriormente, eram incorporados à artilharia.

Embora a trajetória de Eduardo Augusto Pereira de Abreu pareça interessante, não é nossa intenção detalhar sua biografia, e as informações até aqui apresentadas são suficientes para delinear seu perfil. Também não é nosso intuito analisar o conjunto de sua obra3, mas sim discutir um de seus textos, aquele no qual a educação física ocupa posição privilegiada: Estudos higiênicos sobre a educação física, intelectual e moral do soldado: escolha do pessoal para a boa organização do nosso Exército, de 1867.

Dedicado ao conde d'Eu, que dirigiu as forças brasileiras na etapa final da Guerra do Paraguai, o livro foi escrito no auge do conflito, quando as elites médicas e políticas debatiam o perfil que deveria ter o soldado enviado às frentes de batalha. Para além disso, aquele era um momento de exaltação da retórica nacionalista, e tornaram-se mais claras as preocupações com a formação do cidadão que deveria estar pronto para defender a pátria.

Inezil Penna Marinho (1943, p.53) qualificou como extemporâneo o livro de Pereira de Abreu: "Esse trabalho é realmente notável ... Tem-se a impressão de que o autor se encontrava avançado meio século em relação à época em que viveu". É fato que essa obra teve muito impacto entre os que defenderam a 'causa' da educação física nacional.

Antes, porém, de discutir as ideias de Eduardo Augusto, tratemos de um tema importante para nossa reflexão: o envolvimento dos militares com a educação física no Brasil do século XIX.

Nos primeiros anos do século XIX, as cidades brasileiras - entre elas o Rio de Janeiro, a capital - apresentavam condições deficientes de saneamento e eram constantemente agredidas por epidemias. A partir do segundo quartel da centúria, em meio às crescentes preocupações com a saúde, uma das iniciativas foi o aperfeiçoamento da formação do médico e a reformulação da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Entre as inovações, implementou-se a exigência de apresentação de teses para a concessão do título de doutor. Algumas dessas teses se debruçaram sobre a educação física, que ainda não era concebida como disciplina escolar, constituindo antes um conjunto de cuidados ligados à higiene, à puericultura e também, de forma geral, à prática de atividades físicas.4 Manoel Pereira da Silva Ubatuba, em 1845, apresentou o trabalho Algumas considerações sobre a educação física; no ano seguinte, Joaquim Pedro de Mello defendeu a tese Generalidades acerca da educação física dos meninos; em 1852, Antonio Francisco Gomes submeteu a julgamento Influência da educação física do homem; e, no decorrer do século XIX, muitos outros exemplos poderiam ser citados.5

Embora, no Brasil, a educação física se tenha difundido mais a partir da década de 1920, já na Corte do século XIX ela era praticada em escolas conceituadas, como o Colégio Pedro II e a Escola Normal (Melo, 1998). Percebe-se também certa preocupação governamental com o tema. De fato, desde 1823, logo após o país tornar-se independente, falava-se em educação física nos projetos de estruturação do sistema nacional de ensino (Marinho, 1943, p.312). Em muitas propostas e regulamentos editados a partir de então, a disciplina foi considerada. Em 1860 ela receberia atenção maior, quando o inspetor-geral de instrução pública da Corte atentou para os "exercícios ginásticos que desejo ver o quanto antes introduzido nas escolas promovendo a educação física da mocidade que as frequenta, sendo das necessidades bem urgentes do ensino público primário, ainda ficando adiadas por falta de espaço e de acomodações nos prédios atuais" (citado em Boletim..., 1941, p.91). Além dos problemas específicos de espaço adequado e daqueles mais gerais, relativos a um sistema de ensino ainda incipiente, havia também as resistências às atividades físicas por parte uma sociedade escravocrata que considerava de menor importância e mesmo depreciativas as práticas 'manuais'.

Nas forças armadas do Brasil, contudo, as atividades físicas passaram a ser mais estimuladas a partir de meados do século XIX. Naquele momento, nos exércitos e armadas de vários países, observa-se a valorização da prática sistemática de exercícios físicos, que passou a ser considerada útil para a manutenção da boa forma do combatente e ferramenta eficaz de disciplinarização das tropas. Podem-se identificar, especialmente no continente europeu, militares ligados ao desenvolvimento da educação física e à concepção e difusão de métodos ginásticos, a exemplo de Francisco Amoros y Ondeano e Georges Hébert, ligados a escolas francesas - ainda que o primeiro fosse espanhol - e o major Josef Gottfrid Thulin (método sueco). Também civis como Georges Demeny (método francês) e Per Henrik Ling (método sueco) desenvolveram estudos com apoio e/ou no interior de instituições das forças armadas.6

Nas escolas militares do Rio de Janeiro, cresceu a preocupação com o ensino de atividades físicas. Em 1858, nos cursos de infantaria e cavalaria da Escola Militar do Rio de Janeiro, estabeleceram-se oficialmente aulas de esgrima, natação e equitação, tendo sido nomeado mestre Antônio Francisco da Gama. Já na Escola de Marinha, adotaram-se as seguintes práticas: "esgrima, uma vez por semana; ginástica, uma vez por semana; natação, duas vezes por mês e aos domingos antes da missa", e foram contratados um mestre de esgrima e ginástica e outro de natação (Marinho, 1943, p.50).

Em 1860 Pedro Guilhermino Meyer, alferes do Estado-maior da segunda classe, de nacionalidade prussiana, foi nomeado contramestre de ginástica da Escola Militar; na ocasião, ele já atuava no Colégio Pedro II. No mesmo ano, José Ferreira da Costa assumiu o cargo de instrutor de ginástica do Depósito de Aprendizes de Artilheiros (Rio de Janeiro). A partir de então, em todas as reestruturações das escolas militares sempre se considerou a necessidade de ensino e prática de atividades físicas.

Oficialmente, o método alemão foi o adotado pelo Exército, o que parece ter relação com a expressiva presença de soldados prussianos, contratados pelo governo brasileiro para a campanha contra Oribe e Rosas (1851) e que por aqui ficaram servindo ao país, tendo participado também dos combates da Guerra do Paraguai. Entre esses homens, um dos nomes de maior prestígio nas fileiras militares foi Pedro Meyer7, que ao regressar do conflito cisplatino reassumiu as funções de instrutor de ginástica da Escola Militar.

A influência dos militares se estendeu ao meio civil devido à atuação deles como instrutores. Evidências disso podem ser encontradas nas fontes históricas, como por exemplo a nomeação do capitão Ataliba M. Fernandes, em 1881, como professor de ginástica na Escola Normal, sediada na Corte. Quarenta anos antes, o capitão Guilherme Luiz de Taube tornara-se o primeiro mestre de ginástica do Colégio Pedro II, tendo sido substituído pelo ex-coronel do Exército espanhol Frederico Hoppe, a quem se seguiram os já mencionados Antônio Francisco da Gama e Pedro Guilhermino Meyer.8 Não surpreende então que, em 1870, o governo imperial tenha mandado traduzir e distribuir o Novo guia para o ensino da ginástica nas escolas públicas da Prússia.9

Contestações ao método alemão começaram a se estruturar melhor na sociedade brasileira no último quartel do século XIX. As ponderações iniciais, todavia, surgiram um pouco antes, com o livro do doutor Eduardo Augusto Pereira de Abreu. Voltemos então a nosso personagem e sua obra.

Algumas inquietações desencadearam as reflexões de Pereira de Abreu: quais seriam as características de um bom soldado? Como prepará-lo adequadamente? No entender do médico, a boa formação seria indispensável para que o militar respeitasse o regulamento - definidor da vida na caserna - e as leis do país. A ideia era 'fabricar' combatentes que fossem, antes de tudo, 'amigos da ordem'. Mais ainda, que estivessem prontos para servir à pátria imediatamente.

Para o médico (Abreu, 1867, p.5), um combatente sem boa formação, sem "virtudes cívicas", representava um risco para a nação, visto que sua "credulidade ou ignorância" eram uma porta aberta às manipulações e poderiam colocá-lo em posição contrária aos interesses do 'povo'. Até mesmo o monarca poderia tornar-se vítima, se o militar permitisse que "todos os seus caprichos e vontades insensatas" aflorassem. Se não fossem domados, a Coroa poderia ser eliminada "de um sopro, ficando em seu lugar a revolução", ambiente no qual os "ignorantes julgam encontrar seu bem-estar e o cumprimento de suas ambições".

Tais reflexões sugerem que o militar ideal deveria estar pronto para preservar a ordem vigente, o establishment, a lutar pela conservação do regime monárquico estabelecido pela Constituição de 1824. Se, porém, o imperador se deixasse seduzir pelos encantos do autoritarismo e se voltasse contra os brasileiros, caberia também ao combatente defender os nacionais: ele deveria ser um soldado-cidadão, noção um tanto imprecisa que ganhou força no contexto da Guerra do Paraguai.

Importa, pois, que com a educação do soldado se plante em seu coração, a maior parte das vezes inculto, o amor à ordem e o respeito às leis, a fim de que ele, tornando-se dessa forma baluarte vigoroso do Trono em face da revolução, e defensor encarniçado do povo se o Trono quiser imperar abusando das leis sancionadas pelos representantes da nação, ou por outra, se o absolutismo e tirania acharem abrigo no cetro do monarca (Abreu, 1867, p.7).

De acordo com o autor, portanto, o soldado ideal deveria ser, antes de tudo, educado. A educação era considerada mecanismo eficaz para disciplinar o militar, para torná-lo, nas suas palavras, dócil, subordinado; e um dos componentes de sua proposta educacional era a religião. Para legitimar seu argumento, recorria à autoridade de um dos principais representantes do iluminismo francês: "O próprio J.J. Rousseau, que tanto zombou e ridicularizou os princípios mais santos da nossa religião, em seus últimos momentos declarou solenemente que era impossível ser homem de bem sem religião, convencendo-se [de] que sua opinião até então tinha sido errônea" (Abreu, 1867, p.7). "A religião é a garantia e base de uma nação - afirmava o doutor Eduardo Augusto - quanto mais domina o espírito religioso em um povo, mais este é feliz, mais garantias oferece para o seu futuro, maiores passos dará para seu adiantamento civilizador, nascendo a moral, esse princípio elementar de ordem tão necessária a toda a sociedade constituída em família (p.8).

É revelador o fato de a religião ser associada a vocábulos como moral e ordem. Na compreensão de Pereira de Abreu, o sentimento religioso deveria encontrar morada no coração dos soldados, porque lhes incutia apreço à disciplina. Lembrava ele que o vigor dos exércitos grego e romano, na Antiguidade clássica, guardava relação com a vigência desse princípio entre os guerreiros, o que facultou "o aparecimento de tantos heróis que pelejaram pelos direitos da nação a que pertenciam, sustentando o poder de seus reis" (Abreu, 1867, p.8).

Além de considerar a religiosidade um 'instrumento político' para a preservação da monarquia encabeçada por Pedro II, Abreu também a concebia como essencial à manutenção do equilíbrio e 'civilidade' do soldado em campo de batalha:

O soldado religioso jamais pratica crueldades, cônscio de que Deus é testemunha de suas menores ações e o confidente de todos os seus pensamentos.

Honrado e virtuoso, ele tremerá quando queira derramar sangue inocente e praticar qualquer crueldade.

As cenas sanguinárias da pilhagem e dos tormentos que infligiam aos inimigos esses Exércitos bárbaros de outrora, e atualmente essa horda de selvagens paraguaios, para um soldado verdadeiramente religioso tornar-se-á impossível realizar-se, eles respeitarão os seus inimigos desarmados, não saquearão suas moradas, nem desonrarão suas famílias (Abreu, 1867, p.8).

O sentimento religioso constituiria, portanto, um escudo moral capaz de neutralizar a agressividade desmedida e tornar o combatente adequado a um Estado civilizado e moralmente superior ao inimigo.

É interessante registrar que a religião, durante a Guerra do Paraguai, era considerada, por alguns, um antídoto capaz de aplacar os medos que assombravam e, às vezes, paralisavam os combatentes. Batalhas sangrentas, doenças e morte eram experiências constitutivas de seu cotidiano. Observemos o ofício que Luiz Álvares dos Santos, primeiro cirurgião do Hospital Militar de Corrientes, na Argentina, enviou em 8 de agosto de 1867, a Manoel Feliciano, chefe do Corpo de Saúde:

É o serviço dos Capelães do hospital que devia ser obrigado à exata execução do Regulamento, dizendo missas e fazendo práticas consoladoras aos míseros doentes. No meio dos dolorosos sofrimentos a que são condenados os infelizes defensores da honra nacional, a religião deve ser um bálsamo santo para ungir-lhes o coração e a alma. As condições morais têm também influência sobre a cura dos feridos e dos operados. O afastamento da mãe pátria, os sofrimentos e as fadigas da guerra, algumas vezes as inquietações pelo resultado pronto ou remoto da luta, o desânimo que produz uma derrota, o receio de outra, o espetáculo das dores circunvizinhas, os temores pela vida própria são para os feridos outras tantas causas de abatimento físico e moral, contra que o Cirurgião deve lutar pela simpatia e pela bondade, pela contínua reanimação de esperanças, por promessas benévolas e caridosas. Por que não há de o Capelão do Exército realizar também essa tarefa tão nobre, tão bela, tão santa? Por que não há de o Ministro da religião do mártir da cruz elevar sua palavra ... no meio dos hospitais levando a todas feridas d'alma o batismo do cristianismo. Por que ao invés disso, se hão de reduzir os Capelães ao único papel de "emissários da morte", apresentando-se nos hospitais só para confessar e ungir o moribundo, e pois encomendar o defunto? (Santos, 8 ago. 1867)

Na opinião de Pereira de Abreu, além da instrução religiosa, os soldados deveriam receber educação básica. O médico lembrava que os países mais desenvolvidos, empenhados na formação de um exército de qualidade, estavam atentos a esse aspecto. E não por outra razão insistia na imperiosidade de transformar as escolas dos batalhões em algo real, com professores competentes para exercer adequadamente suas funções. Em sua avaliação, os capelães, devidamente gratificados, deveriam assumir esse ofício. Abreu mostrava-se insatisfeito com o fato de militares de baixa patente estarem à frente de tarefa tão importante. Eram homens que, segundo ele, mal sabiam ler, portanto estavam despreparados para o ensino.

O médico sugeria que o ministro da Guerra autorizasse a adoção de uma gramática de português e de algum compêndio "de fácil compreensão e que ao mesmo tempo impressione [as] acanhadas inteligências [dos soldados]". Propunha que essa obra contivesse máximas "ardentes" e "entusiastas", envolvidas por fatos interessantes da história militar (Abreu, 1867, p.35). Pereira de Abreu não se estende sobre esse tópico, mas depreendemos que, para ele, a história militar deveria ser uma referência, um sistema de balizamento. A pedagogia do soldado passava pelo enaltecimento dos feitos de combatentes dos tempos idos; com tais exemplos em mente, o soldado faria a diferença em campo de batalha.

Outra questão sobre a qual se debruçou o facultativo diz respeito às características corpóreas dos homens engajados na luta contra os paraguaios. Parecia obcecado pelo corpo de sua criatura tal como Mary Shelley (1797-1851) pelo personagem de sua mais famosa novela, Frankenstein ou O moderno Prometeu (1818). A leitura corporal de Pereira de Abreu baseava-se, em larga medida, na frenologia de Franz-Joseph Gall10, que propugnava a sistematização de pesquisas cranianas que levassem à identificação da região responsável pelos "pensamentos e ... faculdades de acordo com o anatomolocalismo reinante" (Faure, 2008, p.46). As características do crânio expressariam o caráter do indivíduo; o pescoço e a cabeça, analisados conjuntamente, denunciariam o grau de inteligência e virilidade; os cílios e as características do olhar indicariam desvios sexuais e outras anormalidades. Essa visão 'internalista' do sujeito social extrai dele um rosário de caracteres inatos que determinariam sua personalidade:

poderemos em geral com alguma clareza reconhecer, pelo estudo comparativo das depressões, elevações e outros defeitos físicos do crânio, a má ou boa conformação deste, antevendo mesmo, por este simples exame, as qualidades morais ou predisposições do indivíduo, como tão aproximadamente nos demonstra o sistema de Gall.

O estudo anatômico desta parte do corpo nos ensina a reconhecer que uma circunferência craniana acima do regular e em diminuição, a estreiteza e inclinação exagerada da fronte, o alargamento pronunciado do diâmetro biparietal e achatamento posterior da cabeça, o encravamento ou afundado da abóbada palatina, a implantação e a configuração defeituosa das orelhas, são em geral os vícios de conformação os mais característicos.

Além disso, uma cabeça pequena, junta a um pescoço fino e alongado, é quase que constantemente indício certo de uma natureza débil e sofredora, de uma inteligência curta e de uma virilidade incompleta ...

O olhar nos fornece igualmente dados mui certos para a escolha do indivíduo; aqueles que possuem olhar vivo, sustentando com firmeza o exame ocular investigador, devem sem desconfiança ser aceitos; opinião contrária devemos ter para com aqueles que possuem olhar lânguido, desconfiado, incerto, brilho úmido, e finalmente defendido por longos cílios, pertencendo, sobretudo, a indivíduos de semblante afeminado (Abreu, 1867, p.40).

O interesse de Abreu pelo corpo não tinha limites. Cabeça, pescoço, olhos, todas as peças da estrutura física humana deviam ser objeto de escrutínio e valoração, tendo como parâmetro a 'constituição' ideal, que ele apresenta com abundância de detalhes:

Assim aquele indivíduo que apresentar uma estatura mais ou menos elevada, bem constituído em seu todo, de uma conformação geral simétrica, isenta de magreza ou obesidade, fronte elevada, cabeça regular coberta de quantidade regular de pelos bem colocado sobre um pescoço suficientemente musculoso, sem dar a perceber relevo algum que indique sofrer de escrófulas e de papeira ou bócio, semblante suficientemente colorido e em que se acha cunhado o sinal da integridade funcional dos órgãos do sentido e da inteligência, voz clara, forte e sonora, flacidez na região abdominal, indício certo de uma boa digestão e do estado normal dos diversos órgãos mais ou menos importantes que se acham nela contidos, respiração franca e profunda, circulação calma e uniforme, torso flexível e robusto, constituído pela ampliação do tórax, espessura das espáduas e achatamento do ventre, membros unidos, direitos e musculosos, terminados por extremidades fortes ou delicadas segundo a raça ou condição do indivíduo, livremente móveis, pele macia mais ou menos aveludada, cor própria da raça a que pertence, apresentando saliências venosas sem relevos varicosos nem arborizações linfáticas, dotado de força muscular suficientemente desenvolvida, virilidade assaz visível, finalmente a harmonia do todo e o bem contorneado das regiões apreciáveis a vista profissional, própria a devassar o exercício regular das funções vitais, tais são os traços visíveis de reconhecer-se a boa constituição em indivíduos maiores de 18 a 20 anos (Abreu, 1867, p.32).

O médico considerava essenciais os exames identificatórios para a organização de um exército saudável. Com base neles as pessoas com 'estrutura física inferior' poderiam ser afastadas. Aos olhos de Abreu - influenciado pela teoria galliana -, os exames eram necessários porque os indivíduos com desvios imanentes prejudicariam o desempenho da corporação militar.

A Guerra do Paraguai chamou a atenção dos médicos do serviço de saúde do Exército para o corpo do soldado. Em tese, o combatente enviado ao front deveria ser saudável e treinado, apto a superar as vicissitudes do conflito. Tal preocupação era cara ao doutor Eduardo Augusto, que defendia a prática da ginástica como forma de preparação física e manutenção do vigor. Para fundamentar sua argumentação, uma vez mais evocava romanos e gregos, que consideravam a ginástica "a parte mais preciosa de sua educação" (Abreu, 1867, p.11). Para ele, graças aos exercícios físicos os exércitos antigos apresentaram desempenho invejável nos enfrentamentos militares. Por isso mesmo deveriam servir como modelo ao soldado do Oitocentos:

Admiramos Aníbal, general de Cartago, atravessando uma parte dos Gallis e Alpes, suportar com seu Exército tão longas marchas e tantas privações ... e chegar ao teatro da luta, bater-se com denodo, e cantar a vitória como se tivesse tomado armas naquele momento.

Admiramos esses valentes batalhões comandados pelos Cipiões, Mários, e Pompeus, carregados de pesos enormes (mais de sessenta libras refere a história), andarem oito léguas em menos de cinco horas e em combate correrem, escalarem e saltarem, com todo o seu equipamento de guerra, que não era pouco (p.11).

No cenário internacional, no processo de valorização da prática de atividades físicas, foi usual o recurso a releituras da Antiguidade. Tomemos como exemplo a criação dos Jogos Olímpicos modernos (1896), exaltação de uma concepção idealizada do evento da Grécia Antiga. Tais mobilizações histórico-culturais podem ainda ser observadas, no decorrer dos séculos XVIII e XIX, na elaboração dos métodos gímnicos, na institucionalização da educação física como disciplina escolar e mesmo nas escolas de dança clássica e moderna. Como lembra Melo (2007, p.368),

o helenismo romântico, crescente desde o final do século XVIII, no qual ocupava lugar de destaque a Alemanha, é de grande importância para entendermos o crescimento das preocupações com o esporte no cenário do século XIX. Johann Winckelmann exaltava o corpo dos gregos. Wilhelm Von Humboldt, inspirado na Grécia Antiga, propunha a união do esporte à escola em suas propostas de reformulação do ensino alemão.

As propostas de Pereira de Abreu (1867, p.13) diziam respeito a uma "ginástica médica" que incidiria tanto sobre o corpo quanto sobre o intelecto e o caráter, desenvolvendo "coragem" e "energia". Além disso, inibiria os "maus hábitos" da masturbação e da homossexualidade, sobretudo naqueles tão fortemente estigmatizados pela moral e higiene oitocentistas: "A adolescência é ... a época em que o exercício físico e higiênico é o mais útil e próprio, derramando sobre todos os músculos a seiva vital que tende a concentrar-se nos órgãos da geração; com ele, pois, prevenimos os hábitos ociosos que o excesso da sensibilidade destes órgãos determina muitas vezes". Tais preocupações também eram comuns em outros países. Richard Holt (1989), por exemplo, demonstra que, nas escolas públicas inglesas durante a Era Vitoriana, a prática esportiva era considerada, por pais e professores, estratégia fundamental para a construção da virilidade dos jovens. Supostamente, aliás, ela retardaria o desenvolvimento da sexualidade, ao oferecer alternativa para canalizar a energia sexual dos adolescentes e afastá-los, assim, de condutas consideradas moralmente incorretas.

Pereira de Abreu (1867) também considerava a ginástica um instrumento capaz de proteger os adolescentes dos "hábitos ociosos", e enfatizava sua relação com a educação de um jovem que, viril e fisiologicamente sadio, estaria pronto para servir à pátria. Em seu livro, expôs explicitamente seu ponto de vista acerca da influência benéfica dos exercícios físicos sobre o sistema muscular e os principais órgãos: "Assim o estômago excita a secreção do suco gástrico, e mais forte se torna o apetite. O sistema muscular do tórax, possuindo toda a energia e atividade, faz [com] que a respiração se execute regularmente e por consequência há uma hematose perfeita" (p.14). Assim, a ginástica era considerada igualmente importante como meio terapêutico para debelar enfermidades: "seu emprego cura ou evita o raquitismo nos meninos que sofrem ou que estão ameaçados deste mal, ou de moléstias mais graves no tecido ósseo, nas atrofias musculares progressivas, nas neuroses, nevralgias, hipocondria, doenças nervosas, palpitações de coração provenientes de um crescimento assaz rápido ou de uma vida sedentária" (p.16).

Também era defendida pelo doutor Eduardo Augusto a "ginástica militar", alicerçada "no manejo do dardo, da lança, arco, funda, clava ou massa". Ele lamentava que o desenvolvimento de armas de fogo houvesse tornado obsoletos aqueles instrumentos de guerra, reduzindo as exigências de esforço muscular dos soldados. Nesse cenário, suas "faculdades mentais" também seriam fragilizadas: "Nossa tática moderna, desde a invenção das armas de fogo, tem sido o germe destruidor da educação ginástica, depreciando uma tão útil e importante base da educação do soldado, seguida da sensível diminuição de sua força física e de sua repugnância aos trabalhos" (Abreu, 1867, p.13).

Segundo o médico, a implementação da ginástica nos quartéis e nas escolas deveria prever a presença obrigatória de médicos, que assumiriam o papel de supervisão. Igualmente necessária seria a adoção de compêndio que orientasse a prática.

Pereira de Abreu estava convencido de que as duas modalidades de ginástica - médica e militar - deveriam ser aplicadas nas escolas militares e estendidas a todo o tecido social, independentemente de idade ou classe dos praticantes. Sugeria, para tal, não o método alemão, na época mais adotado, mas sim as propostas dos franceses que, na verdade, consolidar-se-iam posteriormente, em decorrência da Guerra Franco-prussiana (1870-1871):

o melhor manual de ginástica é o adotado para as tropas francesas, divide os exercícios em exercícios elementares, tendo por objeto a flexibilidade dos membros e do corpo e o desenvolvimento elementar da força muscular, compreendendo os movimentos variados de cabeça e do corpo, dos braços e pernas, as corridas e os exercícios físicos, os diferentes equilíbrios, o desenvolvimento elementar da força dos músculos por movimentos de braços sustentando pesos, os movimentos das pernas em diversas posições, finalmente as diferentes lutas, e em segundo os exercícios de aplicação, tendo por fim o desenvolvimento sucessivo dos membros superiores e inferiores, os do tronco e do corpo em geral, chamados de assalto, de escalada, puramente só ou carregado de armas e bagagens, as suspensões em barras horizontais ou inclinadas, etc., enfim, todos os exercícios chamados de alta ginástica, e de que tem havido alguns exemplos na Escola de Aplicação ou Militar, único lugar entre nós que tais exercícios se executam, digno de louvor, simulando assaltos e combates (Abreu, 1867, p.18).

Essa proposta ecoaria em diversas ocasiões no futuro, e não poucas vezes o nome de Eduardo Augusto Pereira de Abreu seria lembrado. Rui Barbosa, por exemplo, quando foi relator de um projeto de reforma do ensino público na Câmara dos Deputados, em 1882, enfatizou a importância da educação física. Barbosa defendeu a obrigatoriedade da ginástica para ambos os sexos, em todos os níveis de formação, exceto o superior, e argumentou: "a ginástica não é um agente materialista, mas, pelo contrário, uma influência tão moralizadora quanto higiênica, tão intelectual quanto física, tão imprescindível à educação do sentimento e do espírito quanto à estabilidade da saúde e ao vigor dos órgãos" (citado em Marinho, 1943, p.69). E baseando-se no fato de que já existiam, em vários países, iniciativas de estímulo à prática de exercícios, ele inseria a educação física num projeto de construção e defesa da nacionalidade: "Ninguém nutre menos tendência de militarização e de guerra do que nós. Mas a precisão, a decisão e a energia dos movimentos militares constituem, a par de um excelente meio de cultivo das forças corpóreas, um dos mais eficazes fatores na educação do caráter viril" (p.77). De acordo com seu ponto de vista, deveria ficar claro que "todas as nações que caminham à vanguarda da civilização moderna tem-no reconhecido, estatuindo que a escola seja a primeira iniciadora do cidadão nas agruras da arte que o deve preparar para a defesa da pátria. Por toda a parte, nos países mais livres, nos Estados menos ambiciosos, entre as nações menos belicosas, a milícia cívica estende as suas raízes até o ensino popular" (p.77).

 

 

 

 

As ideias de Rui Barbosa11 são desdobramentos do que Eduardo Augusto Pereira de Abreu propusera pioneiramente, estimulando outras manifestações em favor da prática de atividades físicas e da adoção de um método mais adequado à realidade do país. Importantes personagens como Pedro Manuel Borges e Arthur Higgins, no século XIX, e Jorge de Morais e Fernando Azevedo, no século XX, envolver-se-iam com a defesa de outras propostas, diferentes do método alemão.12 Jorge de Morais, por exemplo, na condição de deputado pelo estado do Amazonas, ao propor na Câmara a criação de uma escola de formação para profissionais de educação física, em 1905, condenou "a prática espalhada por todo o Brasil do antigo método de ginástica alemão. Tal agonística com aparelhos fixos determina uma fadiga prematura, sensação de esgotamento, abusando dos exercícios de suspensão e apoio, produzindo um desenvolvimento parcelado de grupos de músculos, completamente prejudicial ao conjunto harmônico e são do maquinismo humano" (citado em Marinho, 1943, p.107).

 

 

Pereira de Abreu (1867) associava ainda a ginástica ao "divertimento" e ao "passatempo". Tratar-se-ia de atividade a que os soldados se poderiam dedicar em seus momentos de lazer: "convém que todos os corpos possuam pequenas escolas ginásticas, a fim de as praças diariamente se exercitarem durante o tempo de descanso ou folga". Esse hábito produziria maior vigor corporal e desenvolvimento físico, poupando os soldados "de muitas enfermidades que assolam todos os corpos débeis e enfraquecidos", incluídos "os vícios e suas terríveis consequências, filhas da ociosidade e maus conselhos" (p.20). Não surpreende tal posição. Devemo-nos lembrar que, na Europa, especialmente na Inglaterra e França, estruturava-se uma nova ordem social marcada pela valorização das vivências públicas e progressivamente as ideias de espetáculo e consumo ganhavam relevância. A consequente expansão do mercado de entretenimento despertava preocupações no tocante à mistura de classes e ao pudor das novas atividades. A prática de exercícios físicos também foi concebida como forma de controle dos corpos que invadiam a cena pública.

Como vimos, o interesse de Pereira de Abreu pela ginástica articulava-se a outros elementos que concorriam para a fabricação do bom soldado-cidadão. A importância da história é clara em suas propostas de adoção de compêndios e na exaltação da Antiguidade; a valorização da moral e da disciplina é explícita em sua visão do papel da religião; a frenologia e a fisiologia estruturam sua compreensão acerca do que considerava corpos inadequados ou corpos ideais. Assim, não surpreende que três práticas corporais fossem apresentadas como importantes para a educação corporal: a esgrima, a natação e a equitação.

"A esgrima é reconhecida hoje como um dos meios mais vantajosos para o desenvolvimento da força - escreve o doutor Abreu (1867, p.20) - nascendo daí a destreza no manejo das armas chamadas brancas, e na defesa de corpo a corpo". É importante lembrar que as batalhas da Guerra do Paraguai não raro se transformavam em embates corporais, nos quais o combatente que manejasse com destreza a baioneta ou a espada poderia salvar a sua vida e a de seus companheiros. Ao observador contemporâneo não deixa de ser inusitado treinar negros e caboclos (que eram maioria no Exército) numa prática historicamente entendida como integrante da educação das elites, em especial da aristocracia. Mas uma detalhada análise fisiológica e anatômica fundamentava a percepção do facultativo sobre aquela 'arte':

não somente se adquire com o seu uso extrema agilidade, facilidade e graça nos movimentos, como sobretudo serve a curar as desviações ligeiras da coluna vertebral ...

O olhar ou vista torna-se mais firme e seguro, determinando nos órgãos ligeiras comoções, seguidas de aceleração no pulso; a vida ou a saúde ganha em sua conservação. A constituição modifica-se, desenvolvendo-se, de uma maneira geral, o sistema muscular; ampliando o tórax facilita os movimentos de elevação e abaixamento próprios da inspiração e da respiração.

Os movimentos que demanda este jogo são tais que exigem o concurso de grande número de músculos. Assim, pois, na defensiva são os músculos do antebraço e da mão que mais funcionam, e no da agressão são os dos membros inferiores e especialmente os dos superiores, da parte lateral e direita do tronco ... .

Com esta variedade de movimentos no sistema muscular, muitas vezes o indivíduo de constituição fraca e débil torna-se robusto e forte, ficando por consequência isento de certas e determinadas enfermidades próprias de uma má constituição (p.21).

A prática da natação, por sua vez, desenvolveria habilidades e condicionamentos fundamentais para as batalhas marítimas. Pereira de Abreu (1867) valeu-se uma vez mais de referências aos guerreiros da Antiguidade. Segundo o doutor, aqueles homens tinham consciência de que saber nadar poderia salvar um combatente das "submersões acidentais, facilitar as retiradas e os ataques em pontos não previstos pelo inimigo" (p.21). Além de seu valor militar, a natação, tal como a esgrima, era apresentada como exercício útil sob o ponto de vista higiênico, pois fortificava o sistema muscular e a constituição individual:

O peso específico e a configuração de nosso corpo são embaraços que se opõem à natação, sendo aquele mais pesado do que a água, e o volume desta superior ao vácuo formado pelo corpo quando mergulhado, segue-se que não poderemos sustentar na sua superfície sem executarmos certos movimentos que aumentem sensivelmente o dito vácuo, e por consequência nos ponha em igualdade com o volume d'água deslocado, concorrendo além disto a maior soma de moléculas de ar contida nos pulmões e aí conservada pela oclusão do glote, tornando o corpo mais leve e por consequência favorecendo sua presença sobre a água (p.22).

Na época da publicação da obra, já existiam escolas de natação em algumas instituições militares brasileiras, a exemplo do Arsenal de Guerra. O doutor Eduardo Augusto propunha a ampliação dessas iniciativas, imputando ao oficial de saúde uma função essencial:

Único juiz competente, não perderá nunca de vista: 1º - Que este exercício deve ser empregado com moderação; 2º - Que devem ser isentos aqueles cujo banho lhes seja prejudicial, tais como os que apresentam predisposições sensíveis para as moléstias orgânicas do coração e pulmões, e sobretudo os que ainda se acham em convalescença ... ; 3º - Finalmente munido de sua caixa de socorrer asfixiados por submersão, que felizmente já possuímos, prevenirá todos os acidentes que comumente aparecem nessas ocasiões (Abreu, 1867, p. 22).

Pereira de Abreu (1867) também afirmava que a equitação beneficiava a higiene e o fortalecimento muscular "estimulando ... as funções dos órgãos digestivos, oferecendo-lhe movimentos pouco mais ou menos rápidos que favorecem a progressão dos líquidos, além da ação manifestamente tônica sobre a economia, tornando de indivíduos fracos, delicados e linfáticos, homens robustos e de constituição forte" (p.23). Não obstante compreender a cavalaria como atividade capaz de aperfeiçoar a formação corporal do militar, o médico não deixou de sublinhar seus possíveis 'males', que se manifestariam se o exercício fosse realizado em excesso ou se os cavaleiros não fossem suficientemente fortes para praticá-lo. Além dos "furúnculos e outras pequenas enfermidades temporárias" que acometiam os que não estavam ainda bem adestrados,

a equitação excita os órgãos genitais e o sistema venoso das extremidades inferiores, pela contínua compressão a essas partes fazendo daí provir todo [um] cortejo de enfermidades ...

Nem toda a organização está disposta ou preparada a suportar o jogo contínuo do balanço do cavalo quando em movimento e em terreno inteiramente desigual como o nosso.

Assim pois é de suma gravidade a escolha do pessoal especial de cavalaria, e só deverão ser admitidos aqueles indivíduos de robusta constituição e melhor ainda acostumados com a equitação, o que facilmente conseguiremos reservando para essa arma os filhos de algumas províncias do sul em que a equitação como que faz parte dos seus primeiros passos da vida ou princípio de educação (p.24).

Obviamente, a equitação era também valorizada por contribuir diretamente para o sucesso das batalhas. Uma vez mais, os aspectos médico e militar eram por ele articulados, na defesa de certas práticas para a formação do combatente, algo que não dificilmente extravasava em sugestões para o cidadão em geral, até mesmo porque, vale lembrar, na época os cavalos eram presença constante na sociedade, como meio de transporte e atividades de diversão e lazer, como touradas, cavalhadas e provas de turfe.

Embora o interesse pelo corpo não tenha nascido no Oitocentos, nesta centúria pôde-se observar um crescimento exponencial das considerações sobre ele, um processo que tem relação com o desenvolvimento científico e o aumento da possibilidade de exposição pública, dimensões, por sua vez, articuladas à redução dos grilhões morais, notadamente de caráter religioso, marca da construção do ideário e imaginário da modernidade. Além disso, as próprias exigências de consolidação do Estado-nação, da industrialização e da urbanização contribuíram para esse novo olhar. Nesse contexto, nota-se a valorização da prática de atividades físicas: educação física, ginástica e esportes.13

Mas os conflitos bélicos do século XIX parecem ter contribuído para reforçar tal interesse. Um exemplo é o que ocorreu na França no período pós-guerra franco-prussiana, encerrada quando Napoleão III foi cercado na Batalha de Sedan e os franceses assistiram, humilhados, ao líder da Confederação Germânica do Norte, Guilherme I, imperador do recém-criado Estado alemão, ser coroado em pleno Palácio de Versalhes. A derrota marcou profundamente aquele país e despertou o interesse pelas experiências das escolas públicas da Inglaterra, nas quais os esportes assumiam, cada vez mais, roupagem civilizacional (Holt, 1989). Além disso, proliferaram as associações de ginástica. Em 1873 foi criada a União das Sociedades de Ginástica da França, com o objetivo de "aumentar as forças defensivas do país ao favorecer o desenvolvimento das forças físicas e morais pelo emprego racional da ginástica, pelo estudo do tiro, pela natação" (Sansboeuf, 1901, citado em Holt, Vigarello, 2008, p.462).

As palavras de Sansboeuf poderiam ter sido escritas por Eduardo Augusto Pereira de Abreu. A Guerra do Paraguai, antes mesmo da franco-prussiana, gerou inquietações semelhantes nas autoridades científicas e governamentais do Brasil. O conflito dramatizou os limites do desenvolvimento da nação e apresentou a suas elites e intelectualidade uma série de questões novas a debater.14 Nesse cenário, a proposta de instituição das atividades físicas estava ligada a preocupações com o forjar do novo homem brasileiro, vigoroso e saudável.

Qual seria a peculiaridade das posições de Eduardo Augusto Pereira de Abreu? No Brasil, ele parece ter sido um dos primeiros a unir as preocupações militares às médicas, buscando sintonia com o que se passava nas 'grandes nações'. Mais ainda, procurou fazer a conexão entre a fabricação do combatente e o forjar do cidadão, ambos prontos para defender a pátria.

Segundo Marinho (1943, p.53), as ideias do doutor Eduardo Augusto não tiveram aplicação no seu tempo, "pois os oficiais instrutores se achavam influenciados pelo método de Meyer". Tal afirmação precisa ser problematizada. Cunha Júnior (2008), por exemplo, demonstra que, no Colégio Pedro II, Meyer ministrava aulas bastante ecléticas, nas quais eram perceptíveis influências francesas e suíças. Em sua opinião,

nossos mestres não seguiram uma "escola" específica, mas obtiveram inspiração de variadas fontes, compondo talvez, já nesta época, uma ginástica à brasileira, orientada pelo ecletismo, bem como pelos improvisos necessários a sua aplicação nas escolas de nosso país. Ademais, julgar que tais influências europeias foram contundentes, seria desconsiderar as experiências que esses sujeitos acumularam durante anos, no exercício cotidiano de ensinar e pensar os exercicios gymnasticos (p.77).

De qualquer forma, Pereira de Abreu lançou as bases de uma problemática que se desdobraria no século XX, com consequências tanto para a educação física, como área profissional e acadêmica emergente, quanto para a sociedade como um todo: militares e médicos articulados em prol de uma prática de atividades físicas considerada fator fundamental para a defesa e o progresso da nação. Os militares estariam mais envolvidos nesse intento, não só nos altos escalões governamentais como também nas instituições da sociedade civil, onde atuavam como instrutores. Eram os que exaltavam cotidianamente a prática de atividades físicas. Além disso, devemos lembrar que voltaram com prestígio da Guerra do Paraguai. Já os médicos forneceriam a argumentação científica, conferindo status elevado ao tema. Tinham ainda influência em muitas decisões políticas, numa época em que 'modernizar' passou a ser palavra de ordem cada vez mais frequente.15

Enfim, as posições de Eduardo Augusto Pereira de Abreu devem ser entendidas no contexto de seu tempo, mas, de certa forma, também como precursoras de questões importantes. O que o teria induzido a isso? Provavelmente o fato de que dialogava com uma experiência histórica: a Guerra do Paraguai. O conflito foi, em última instância, seu laboratório.

 

NOTAS

1 Considerado o Patriarca da Cirurgia Brasileira, foi um dos pioneiros, no Brasil, a fazer uso da anestesia geral (Tuoto, 24 fev. 2009).

2 Cronista inglês que esteve no Rio de Janeiro entre 1845 e 1846.

3 Entre as produções do autor, constam "Das causas da menstruação" (1855), "Utilidade do emprego do laringoscópio nas moléstias da garganta" (1864), "Qual o meio de melhorar o serviço de saúde do Exército?" (1866), "Memória sobre as causas gerais e especiais do escorbuto" (1867) e "Considerações higiênicas e filosóficas sobre o recrutamento do Exército" (1868).

4 Para mais informações, ver Paiva, 2003.

5 Para uma discussão sobre essas teses, ver Paiva, 2003 e Gondra, 2004.

6 Os métodos ginásticos, que foram sistematizados em diversos países a partir do século XVIII, objetivavam dar cunho científico à prática de atividades físicas, estabelecendo normatização. Mobilizando uma releitura da Grécia Antiga, tinham em comum o fato de estar relacionados à construção da ideia de Estado-nação e expressar as novas preocupações com a saúde e o corpo, típicas do século XIX, tanto em relação à necessidade de formar o combatente que defenderia as fronteiras nacionais, quanto com o intuito de preparar o cidadão que pudesse conduzir os países ao progresso, sem se deixar atingir pelos problemas ocasionados pela industrialização e urbanização. A diferença básica entre os métodos estava na forma indicada de prática da ginástica. O método alemão propugnava o desenvolvimento da força por meio de implementos diferenciados; o método sueco interessava-se mais pelo desenvolvimento da resistência e da flexibilidade, e os exercícios deveriam ser executados com insistência. O método francês buscava articular força, flexibilidade e resistência, e os exercícios deveriam ser executados até o limite articular; os métodos dinamarquês e calistênico se destacavam pelo uso do ritmo, sendo que o segundo concedia grande ênfase ao desenvolvimento da força. Posteriormente, a fim de superar o caráter segmentado desses métodos (isto é, a ideia de que cada segmento do corpo deveria ser trabalhado isoladamente), surgiram propostas que indicavam movimentação global - o método natural de Hebert e o método natural austríaco. Estes tiveram de lidar com a força da proposta inglesa de educação física, pautada no esporte. Já no século XX, os franceses tentariam unir as duas propostas (esporte e ginástica) no método Educação Física Desportiva Generalizada. A partir da década de 1950, houve a redução do uso de métodos devido ao desenvolvimento do paradigma dos objetivos, isto é, o que importa é o objetivo e não exatamente a forma de execução. Sobre o tema, ver Marinho, 1953.

7 Sobre o tema, ver Bento, s.d.

8 Ver, sobre o tema, Cunha Júnior, 2008.

9 A Prússia de então consolidara pioneiramente um sistema de educação pública que teve influência em vários países, o Brasil incluído, onde foi exaltado por Joaquim Teixeira de Macedo.

10 Sobre o impacto das ideias de Gall acerca dos médicos franceses, ver Williams, 2002.

11 Ver, sobre o tema, Machado, 2002.

12 Sobre esse debate, ver Soares, 1994.

13 Uma abordagem mais densa sobre a história e antropologia do corpo encontra-se em Turner, 1996 e Shilling, 2003.

14 Sobre os impactos da Guerra do Paraguai na política e na cultura nacionais, ver Schwarcz, 1998.

15 Sobre os desdobramentos desse processo, ver Melo, 1996.

15 Ver discussão sobre os desdobramentos desse processo em Melo, 1996.

 

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Recebido para publicação em dezembro de 2009.
Aprovado para publicação em maio de 2010.

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