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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.19 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702012000400011 

IMAGENS

 

Imagens cruzadas: exército e sertão na Primeira República

 

Intersecting images: the army and the hinterlands in the First Republic

 

 

Rogério Rosa Rodrigues

Professor da Universidade do Estado de Santa Catarina. Av. Madre Benvenuta, 2007. 88035-001 - Florianópolis - SC - Brasil. rogerclio@gmail.com

 

 


RESUMO

Analisa a proposta político-social do Exército para a nação brasileira na década de 1910. Articula o momento de modernização do Exército com o contexto de avaliação crítica do regime republicano e valorização da corporação militar nos jogos de poder. O método de análise consistiu no cruzamento das fotografias da Guerra do Contestado com os discursos militaristas presentes nos livros escritos por oficiais do Exército, nos artigos publicados na imprensa carioca e nos discursos proferidos por Olavo Bilac em prol do sorteio militar. Foi identificado o desejo do Exército de ligar sertão e litoral, e de adotar a caserna como espaço privilegiado para a formação de cidadãos.

Palavras-chave: Guerra do Contestado; Exército, fotografia de guerra, sertão; Brasil.


ABSTRACT

The article analyzes the Army's political and social proposal for the Brazilian nation in the 1910s. It considers the Army's climate of modernization in conjunction with the prevailing context of critical evaluation of the republican regime and greater recognition of the role of the armed forces in power games. The analytical method was to cross-reference photographs from the Contestado campaign with militarist discourses found in books authored by Army officers, in articles published in the Rio de Janeiro press, and in Olavo Bilac's speeches in favor of a draft lottery. It was found that the Army wanted to link the hinterlands to the coast and to adopt the barracks as a prime space for forming citizens.

Keywords: Contestado campaign; Army; war photography; hinterlands; Brazil.


 

 

O Contestado e os militares

Ao assumir a liderança na repressão ao movimento do Contestado1 em agosto de 1914, o Exército brasileiro aproveitou a ocasião para alavancar o projeto institucional de modernização de seus quadros e ao mesmo tempo sua proposta político-social para o desenvolvimento da nação brasileira. À corporação era atribuída a missão de civilizar os sertões e levar o progresso e a civilização aos recônditos do país. Os militaristas acreditavam que a formação dos cidadãos deveria passar pela caserna e que somente uma instituição de abrangência nacional com comando forte seria capaz de formar verdadeiros patriotas e combater o domínio oligárquico, visto como vício a corroer o regime republicano.

O início de 1910 foi um marco importante nesse contexto, uma vez que a campanha presidencial que opôs Rui Barbosa ao oficial do Exército Hermes da Fonseca, dividira as elites políticas.2 Outras iniciativas promovidas pelos militares reforçam o argumento de que a revitalização política do Exército não passava apenas pela modernização institucional da corporação, como faz crer José Murilo de Carvalho (1974). As investidas promovidas no interior do país pela Comissão Rondon, a campanha de derrubada de velhas oligarquias estaduais conhecidas como 'política das salvações' e a formação da Liga de Defesa Nacional (LDN) são exemplos plausíveis de que o Exército tinha ambições que ultrapassavam os limites da caserna. Acreditamos que por meio dessas iniciativas, a corporação firmava sua missão político-social e dava contornos a uma proposta para o desenvolvimento da nação.

Nesse cenário, a participação do Exército na repressão aos sertanejos do Contestado assumiu caráter singular. Por meio do exame das estratégias e ações desenvolvidas dentro e fora do campo de batalha no limite do Paraná com Santa Catarina vislumbramos tanto a reforma institucional como o projeto político-social do Exército. No primeiro caso, analisaremos a promoção da tecnologia e das estratégias de guerra efetuadas pelo comandante-geral da operação militar; no segundo, atentaremos para os discursos subjacentes à ação militar. Para dar conta da proposta concentraremos nosso enfoque nas fotografias de guerra. Considerando os critérios de sua fabricação, a lógica da seleção, o diálogo com as demais linguagens e discursos, bem como a política de sua veiculação, entendemos que tais imagens assumem um caráter poderoso de divulgação dos ideais militares.

 

A fotografia de guerra e o Exército

Desde a chegada das tropas federais no cenário de guerra, em setembro de 1914, a imprensa brasileira denunciava a possibilidade de se repetir no sul do Brasil o que ocorrera em Canudos. A relação efetuada destacava o despreparo do Exército, a ignorância da população rural e a necessidade de medidas urgentes para pôr fim ao movimento rebelde.

A intervenção federal no Contestado se deu pela solicitação formal dos presidentes de governo dos estados contendores. O fato denuncia o poder da resistência e das reivindicações dos fiéis de João Maria3, bem como a incapacidade das forças militares dos estados em reprimir o movimento sertanejo. Os rebeldes lutavam pelo direito de compartilhar suas crenças religiosas, mas também contra o desmando dos coronéis locais e contra os interesses capitalistas da Brazil Railway Company e a empresa por ela subsidiada, Lumber and Colonization Company. A primeira ficou responsável pela construção da estrada de ferro que promoveu a ligação entre São Paulo e Rio Grande do Sul, a segunda pela colonização das terras e exploração da madeira na região (Monteiro, 1974; Diacon, 1991).

No comando das operações repressivas estava Fernando Setembrino de Carvalho, militar que estivera &agra