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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.19  supl.1 Rio de Janeiro Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702012000500016 

NOTA DE PESQUISA

 

Arqueologia da escravidão em fazendas jesuíticas: primeiras notícias da pesquisa*

 

The archeology of slavery on Jesuit fazendas: first research notes

 

 

Luís Cláudio P. SymanskiI; Flávio GomesII

IProfessor do Departamento de Sociologia e Antropologia/Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas/Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Antônio Carlos, 6627. 31270-901 - Belo Horizonte - MG - Brasil. luis.symanski@pq.cnpq.br
IIProfessor dos programas de pós-graduação em Arqueologia e em História Comparada/Universidade Federal do Rio de Janeiro; pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Largo de São Francisco, 1. 20050-070 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil. escravo@prolink.com.br

 

 


RESUMO

Nesta nota de pesquisa apresentamos questões teóricas e metodológicas sobre uma investigação em arqueologia histórica iniciada recentemente, que visa analisar o cotidiano da escravidão, regimes demográficos, práticas culturais etc. Um levantamento de sítios arqueológicos em antigas senzalas e fazendas escravistas do Vale do Paraíba e norte fluminense está sendo realizado. Com a cooperação de historiadores, arqueólogos e antropólogos, registros da cultura material de populações escravas de origem indígena e depois africana estão sendo localizados nas escavações iniciadas na fazenda jesuítica do Colégio em Campos dos Goytacazes (RJ), administrada por religiosos e depois leigos nos séculos XVII, XVIII e XIX.

Palavras-chave: arqueologia histórica; escravidão; cultura material; engenhos, Campos dos Goytacazes.


ABSTRACT

These preliminary research notes present theoretical and methodological questions regarding a recently inaugurated investigation in historical archeology that intends to analyze daily life under slavery, demographic regimes, cultural practices, and so on. A survey of archeological sites on former 'senzalas' (slave quarters) and slave-owning fazendas in the Paraíba Valley and northern part of the state of Rio de Janeiro is currently in progress. With the cooperation of historians, archeologists, and anthropologists, records of the material culture of slave populations, which originally comprised indigenes and later Africans, are being located at excavations underway on the fazenda that is part of the Jesuit school in Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, first run by the clergy and later by members of the laity in the seventeenth, eighteenth, and nineteenth centuries.

Keywords: historical archeology; slavery; material culture; sugar plantations; Campos dos Goytacazes.


 

 

Nas últimas décadas, os estudos sobre a escravidão no Brasil mobilizaram muitos pesquisadores, com debates e uso de fontes e perspectivas teóricas e metodológicas diversas. Como resumo das principais características desse movimento historiográfico: estudos acadêmicos, resultantes de teses e dissertações produzidas por pesquisadores treinados em programas de pós-graduação; a diversidade nas perspectivas teórico-metodológicas adotadas, reunindo tanto aspectos multidisciplinares como o diálogo com estudos desenvolvidos em outras regiões das Américas; o uso cada vez mais ampliado e original de métodos quantitativos (Klein, 2009); pesquisas sistemáticas baseadas em fontes primárias de natureza diversa e em diferentes acervos; a diversificação cada vez maior na escolha das temáticas, mas também a revisão de temas clássicos; estudos de caso ou enfoques em regiões específicas; e ênfase nas análises sobre a experiência cotidiana dos escravos e libertos, contemplando as várias visões sobre a escravidão e a liberdade.

É possível identificar mudanças de rumos e ênfase em alguns eixos temáticos e metodológicos. Como exemplo vejamos a atenção voltada para abordagens em torno da ideia de cultura na sociedade escravista. Por muito tempo falou-se genericamente da remi-niscência da cultura africana, sendo necessário, para alguns, classificá-la. Foi na direção de uma 'tradição' que determinados trabalhos antropológicos se encaminharam. Guardadas suas especificidades, foram percorridos nomes como Nina Rodrigues (1977), Arthur Ramos (1935, 1942, 1953, 1979), Edison Carneiro (1964) e Roger Bastide (1974, 1985). A própria antropologia demonstrou os caminhos dessa '(re)invenção' da África no Brasil.1 Para a crítica de tais abordagens sobre as origens da cultura africana foram fundamentais os estudos clássicos de João Reis (2003) e Robert Slenes (1999), entre outros. As ideias em torno do 'africano' genérico e de uma 'crioulização' a-histórica foram reconfiguradas. De quem falamos? Quais os impactos do tráfico atlântico e as sociedades africanas envolvidas? E os mundos do trabalho, da formação de famílias e das identidades na escravidão nas Américas? Mais ainda: e a cultura material da sociedade escravista?

É justamente esta última questão que envolve os estudos arqueológicos sobre a escravidão no Brasil, sob a premissa de que a arqueologia, como uma ciência social que tem como fonte principal a cultura material, constitui uma via de acesso à história e cultura dos grupos escravos que é simultaneamente alternativa e complementar aos registros escritos. O registro arqueológico desses grupos consiste, basicamente, nos vestígios materializados de suas práticas cotidianas, práticas que, muitas vezes, foram mantidas ocultas das vistas dos segmentos dominantes. Apresenta, assim, um enorme potencial de fornecer informações, não passíveis de serem obtidas por outras fontes, sobre os padrões de vida material, economia, dinâmica social, cosmologias, religiosidade, construção e reconstrução de identidades e agência das populações africanas na diáspora.

Ainda assim, as investigações em sítios de ocupação africana e afrodescendente no Brasil ainda são escassas, de forma diversa do que ocorre nos EUA, onde pesquisas sistemáticas sobre a escravidão vêm sendo realizadas desde o início da década de 1970 em contextos como plantations, chácaras, comunidades de fugitivos e unidades domésticas rurais e urbanas (Fennell, 2011).

O estudo de Guimarães e Lanna (1980) em quilombos de Minas Gerais foi o marco inaugural da arqueologia da escravidão no Brasil, seguido por escavações no quilombo do Ambrósio em Minas Gerais (Guimarães et al., 1990). Essas pesquisas, porém, não tiveram continuidade, resultando apenas na publicação dos resultados iniciais. Em 1992 e 1993, Orser e Funari (1932) realizaram escavações exploratórias no quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga em Alagoas.2 Ainda no começo da década de 1990, foram realizadas escavações na senzala da fazenda São Fernando, em Vassouras (RJ) (Lima, Bruno, Fonseca, 1993). Pesquisas mais recentes incluem escavações em três pequenos quilombos do Rio Grande do Sul (Carle, 2005), novas escavações no quilombo dos Palmares (Allen, 2006), escavações em uma senzala urbana em Martinho da Serra (RS) (Machado, Milder, 2006), em senzalas de dois engenhos de açúcar e em um quilombo da chapada dos Guimarães (MT) (Symanski, 2006; Symanski, Souza, 2006) e nas senzalas do engenho São Joaquim, em Pirenópolis (GO) (Souza, 2011).

Entre outras questões, algumas investigações têm discutido as formas como os escravos - em variados contextos - gestaram uma cultura material visando à manutenção, reprodução e transformação de cosmologias e práticas rituais, conforme evidenciado pela reprodução de escarificações em vasilhames cerâmicos artesanais, pelo uso de possíveis itens devocionais de matriz africana, como os colares dos sepultamentos da Sé de Salvador (Tavares, 2006), um cristal negro encontrado na senzala do engenho São Joaquim, em Goiás, e cristais de quartzo implantados sob o piso da casa-grande do engenho Rio da Casca, em Mato Grosso (Symanski, 2007; Souza, Agostini, no prelo). O processo de trocas culturais dos grupos classificados como africanos, indígenas e europeus tem sido abordado com base nos modelos correlatos de crioulização, transculturação e etnogênese. Crioulização consiste em um processo envolvendo interações e trocas complexas que resultaram em novas formas culturais. Esse modelo busca incluir o efeito da experiência do Novo Mundo sobre todos os grupos populacionais, os euro-americanos (Singleton, 1998; Dawdy, 2000) entre eles. Na arqueologia, o uso desse modelo levou a um esforço para entender a cultura material dos sítios de ocupação africana e afro-americana com base nos referenciais culturais próprios desses grupos, em vez de levar em conta apenas os significados atribuídos pela cultura hegemônica.

O modelo de crioulização, contudo, tem sido criticado por obscurecer a identidade cultural de grupos étnicos específicos e por ser estático, posto que desconsidera o papel ativo dos atores em sua capacidade de manipular mais de um tipo de linguagem, de estilo comportamental ou de repertório material de acordo com os seus interesses (Singleton, 1998; Gundaker, 2000). O que deve ser considerado é que esse processo de emergência de identidades crioulizadas, que anterior ao se assumia até então, deve ser contextualmente avaliado, pois pode apresentar ritmos e impactos distintos de acordo com as especificidades da escravidão em diferentes regiões das Américas, bem como ser marcado por períodos de expressão de diferenças e reconstrução de identidades pautadas em referenciais diversificados, conforme sugerem estudos arqueológicos em contextos do Mato Grosso (Souza, Symanski, 2009).

É nesse âmbito de desenvolvimento dos estudos arqueológicos sobre a escravidão no Brasil que está sendo desenvolvido o projeto 'Café com açúcar: arqueologia da escravidão em uma perspectiva comparativa no sudeste rural escravista, séculos XVIII e XIX'3, que visa investigar a vida material de grupos escravos das plantations do Sudeste, a partir de escavações em senzalas coletivas e familiares de dois tipos principais de unidades de produção: engenhos de açúcar e fazendas de café.

A proposta do projeto é adotar uma perspectiva comparativa, com o objetivo de obter informações sobre as diversificadas configurações econômicas, sociais e culturais desenvolvidas pelos grupos escravizados, em função tanto da estrutura produtiva quanto da composição cultural diferenciada desses plantéis. O foco recai, por um lado, nas estratégias de dominação empregadas pelos senhores nesses estabelecimentos e, por outro, nos mecanismos desenvolvidos pelos escravos para lidar com elas, bem como sobre as possi-bilidades buscadas pelos escravos para a realização de seus próprios projetos nessas estruturas de limitação, que dizem respeito à capacidade de agência desses grupos. O projeto, assim, está orientado para as seguintes questões: houve diferenças nos padrões de vida material, econômica, social e cultural dos grupos escravos em função do tipo de estrutura produtiva? Esses grupos conseguiram agenciar diferentemente suas vidas nesses diferentes contextos? A diversidade da composição cultural dos plantéis levou a diferenças nas configurações materiais e sociais desses grupos? Houve variações nas táticas de resistência desses grupos em função dos tipos diferenciados de estruturas produtivas? Ou a variação cultural dos plantéis teve mais influência nos tipos de táticas desenvolvidos? Puderam os grupos africanos manter elementos de suas culturas? Foi possível a grupos de origem africana diferenciada conformar subgrupos nesses espaços, pautados em afinidades culturais comuns em suas respectivas regiões de origem? E, por fim, qual foi o ritmo do processo de crioulização no Sudeste escravista brasileiro sob diferentes regimes produtivos? Houve amplas regularidades nesse processo, ou as especificidades regionais de ordem econômica e cultural levaram à conformação de culturas crioulas diferenciadas?

Tais questões deverão ser discutidas com base em amplo estudo da cultura material, envolvendo desde o nível macro da configuração espacial das unidades de produção, visando entender as formas como esses espaços foram estruturados e articulados, até a dimensão micro do contexto de deposição de um dado artefato e de suas relações contextuais com outros artefatos do mesmo nível e camada deposicional, bem como com as estruturas do entorno, que incluem desde fogueiras até as edificações das senzalas, casas-grandes e demais benfeitorias. Considera-se que os artefatos produzidos pelos escravos podem ter papel ativo na reconfiguração das identidades desses grupos, pois que permitem a reprodução de estilos que podem ter sido típicos de suas sociedades africanas matrizes. O estudo da diversidade estilística espacial e diacrônica, assim, pode apontar para mecanismos de retenção de estéticas, significados e mesmo cosmologias de diferentes grupos africanos, como também pode informar sobre os processos de mudanças ocasionados pelas trocas culturais entre grupos diversificados (Ferguson, 1992; Souza, Symanski, 2009). O material zooarqueológico, por outro lado, pode informar sobre as práticas de subsistência desses grupos, envolvendo estratégias como a caça, a pesca e a criação de animais para consumo próprio, sobre os hábitos alimentares por eles mantidos, incluindo a preferência por determinadas espécies e o acesso a determinados cortes de carne (Heinrich, 2012; Souza, 2011, p.93). Por fim, o agrupamento de certos itens, intencionalmente enterrados ou encontrados junto a estruturas como fogueiras (tais como crucifixos, moedas perfuradas, cristais, chifres, conchas, pregos, esqueletos de animais etc.), pode apontar para práticas rituais de africanos na diáspora, e, desse modo, contribuir para o entendimento do processo histórico da conformação das religiões de matriz africana nos cenários rurais (Wilkie, 1995; Leone, Fry, 2001; Symanski, 2007).

Foram selecionadas duas regiões para os trabalhos de campo: Campos dos Goytacazes, caracterizada pela maciça presença de engenhos de açúcar nos séculos XVIII e XIX, com intenso uso da mão de obra escravizada (Faria, 1998; Lara, 1988); e o vale do Paraíba, região em que conformou, no primeiro quartel do século XX, uma economia cafeeira de dimensões globais, com suntuosas fazendas, tornando-se, em consequência, uma das principais áreas importadoras de africanos do Sudeste (Stein, 1990; Silva, 1984).

A primeira fase das investigações arqueológicas teve início em julho de 2012, na fazenda dos Jesuítas de Campos dos Goytacazes. Sua sede foi construída em meados do século XVII por padres da Companhia de Jesus. Um século mais tarde, a propriedade foi arrematada pelo comerciante Joaquim Vicente dos Reis. A sede da propriedade é uma das mais antigas construções de Campos dos Goytacazes. Tombada pelo Patrimônio Histórico em 1946 e desapropriada pelo governo do estado na década de 1970, resistiu com seu último morador, João Batista Barroso, até 1980, ano de sua morte. A partir de então, o edifício foi aban-donado. Em 1991 passou por processo de restauração para que fosse implantada a Escola de Cinema da Universidade Estadual do Norte Fluminense, sofrendo posteriormente novo abandono. Em 2001 foi ocupado pelo Arquivo Público Municipal de Campos dos Goytacazes.

As escavações arqueológicas contemplaram duas áreas: uma de deposição de refugo referente aos ocupantes da sede, situada cerca de 45m a noroeste da sede; e a outra 80m a norte da sede, referente à extremidade noroeste de uma grande senzala em conformação de U que ficava de frente para a sede, cujas extremidades originalmente ultrapassavam a linha da parede frontal da sede da fazenda em aproximadamente 10m, formando uma praça de cerca de 180m x 180m (Figura 1).

Na área de deposição de refugo da sede da fazenda foram abertas duas unidades de escavação, totalizando 9m2 de área escavada, com profundidade média de 40cm, suficiente para recuperar amostra significativa de material arqueológico referente ao período entre o final do século XVIII e meados do século XIX, incluindo grande quantidade de porcelanas europeias, louças inglesas, restos alimentares, predominando ossos de bois. Na área referente à senzala foram abertas duas unidades de escavação, iniciadas na forma de trincheiras paralelas alinhadas no sentido norte-sul, a 15m de distância uma da outra. A trincheira leste, com 9m de comprimento, e a trincheira oeste, com 11m, sendo ambas subdivididas em quadrículas de 1m x 1m. Ambas foram rebaixadas até atingir a base do depósito arqueológico, entre 40 e 50cm de profundidade. A trincheira oeste apresentou escassa quantidade de material construtivo, ao passo que na trincheira leste foi encontrada grande quantidade desse tipo de material, representado por telhas e tijolos, indicando tratar-se, esta última, da extremidade noroeste da senzala em U. A área de escavação das duas trincheiras foi a seguir expandida, abrindo-se área adicional de 5m x 3m anexa à trincheira leste, e mais 12 quadrículas de 1m x 1m no entorno da trincheira oeste.

Verificou-se que ambas as áreas de escavação eram locais de deposição de refugo dos ocupantes da senzala, provavelmente daqueles que habitavam a ala noroeste. Eles tenderam a depositar seu refugo sobretudo além da extremidade da senzala, na área da trincheira oeste. Para tanto, abriram valas irregulares rasas nesse local. Provavelmente como forma de higienização, em geral cobriam o conteúdo dessas valas, representado por uma enorme quantidade de material orgânico - conforme indicado pelos ossos de animais domésticos e silvestres - , com uma camada de telhas, tornando, a seguir, a depositar mais refugo sobre essa camada e, novamente, cobrindo com outra camada de telhas. Já a área da trincheira leste era, provavelmente, referente à última unidade de habitação da senzala. Não foram, contudo, identificados os alicerces dessa edificação, somente, como mencionado, vestígios do material de sua construção. Porém, evidências da estrutura de uma fogueira nessa área, composta por grandes tijolos soltos, em conformação circular, contornando uma vala que continha grande quantidade de carvão, além de material ósseo e mariscos, indicaram que essa área era adjacente à última unidade de habitação da senzala, tendo sido utilizada por seus ocupantes em atividades relacionadas ao preparo e consumo de alimentos.

As duas unidades de escavação referentes à área da senzala apresentaram grande quantidade de material arqueológico, sendo cerca de 50% da amostra referente a material ósseo de animais domésticos como bois, porcos e galinhas, mas também silvestres e aquáticos, incluindo capivaras, porcos-do-mato e peixes. Entre os itens da cultura material foi recuperada uma grande quantidade de fragmentos de cerâmicas artesanais de produção local ou regional, cerâmicas torneadas, faianças portuguesas do século XVIII e louças inglesas do século XIX, ornamentos simples de cobre martelado, como pulseiras e pingentes, contas de colares de vidro e cachimbos de cerâmica. As características desse material apontam para um intervalo de deposição concentrado entre 1800 e 1850, não alcançando, assim, a ocupação setecentista referente ao plantel de escravos dos jesuítas.

A amostra está em processo de análise nas dependências do Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná, passando por procedimentos de limpeza, restauração, curadoria, identificação e catalogação. Os resultados da análise trarão diversas informações inéditas sobre a vida cotidiana, os hábitos alimentares, a economia e os sistemas de crenças da população cativa que ocupou a fazenda dos Jesuítas na primeira metade do século XIX. Em uma perspectiva comparativa, essas informações servirão como base para caracterizar a vida cotidiana dessa população, suas similaridades e diferenças com aquela dos grupos que, nessa época, trabalhavam compulsoriamente nas fazendas de café do Vale do Paraíba, região em que será desenvolvida a próxima etapa do projeto.

 

AGRADECIMENTOS

Carlos Roberto Freitas, diretor do Arquivo Público Municipal de Campos dos Goytacazes, bem como às funcionárias Rafaela Machado e Larissa Manhães Ferreira pelo total apoio à realização da pesquisa de campo. O sucesso da escavação arqueológica deveu-se ao incansável trabalho da equipe, composta por Bárbara de Ridder Barros, Caetano Tocchetto, Carlos Eduardo Lançoni, Cibele da Rocha, Daniele Jesus, Fernando Cantele, Fernando Myashita, Isabela Suguimatsu, Jean Lovato, Kendra Andrade, Luara Stollmeier, Lucas Roahny da Silva, Monique Seidel, Patrícia Marinho, Sabrina Andrade, Suzana Munsberg e Tamires Lico.

 

NOTAS

* Um levantamento de sítios arqueológicos em antigas senzalas e fazendas escravistas do Vale do Paraíba e norte fluminense está sendo financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), através da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Federal do Paraná. A primeira etapa dessa pesquisa contou com o financiamento do CNPq e o apoio do Arquivo Público e da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes.

1 Ver Cunha, 1985; Dantas, 1982; Farias, Soares, Gomes, 2005; Fry, Vogt, 1996; Oliveira, fev. 1996; Parés, 2006; Silveira, 2006; Slenes, fev. 1992; Souza, 2002.

2 Ver Orser, Funari (1992). Pedro Funari, por sua vez, escreveu, ao longo dos últimos vinte anos, um grande número de artigos e capítulos de livros sobre a pesquisa arqueológica em Palmares. Um bom detalhamento das pesquisas, fornecendo informações sobre o campo e o material encontrado, está em Orser (1996).

3 Projeto financiado pelo CNPq, processo número 472181/2011-4, sob a coordenação de Luís Cláudio Symanski e Flávio Gomes.

 

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