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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.20 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702013000200023 

Livros & Redes

Fordlândia, sonho e realidade: a história de uma cidade e de seu criador

Fordlândia, dream and reality: the history of a city and its creator

Daniela de OliveiraI 

IMestranda do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável/Universidade de Brasília.daniela@unb.br

GRANDIN, Greg. Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva, Montingeli Júnior, Nivaldo. Rio de Janeiro, Rocco, 2010. p. 400-400,

Mais do que contar a história da criação e do abandono de uma cidade no interior da Amazônia, Fordlândia conta a história de seu criador Henry Ford (1863-1947) e o contexto social e econômico de suas crenças, convicções e ações. A história de uma cidade pré-fabricada no interior do Brasil, inicialmente destinada a fornecer borracha para pneus e outras peças para as fábricas de carros da Ford Motor Company, é o ponto de partida para um exame de Ford e de temas como o seu projeto de sociedade, o papel da iniciativa privada na formação da sociedade, as relações de mercado e consumo, a ascensão e crise da indústria automobilística, a globalização, e formas de ocupação e apropriação dos ambientes naturais.

O autor do livro, Geg Grandim é um importante historiador norte-americano, professor da New York University, autor de três livros sobre a temática da América Latina. Fordlândia, o seu livro mais recente, foi considerado o melhor livro do ano em 2010 pelo The New York Times, The New Yorker, The Boston Globe, San Francisco Chronicle e Chicago Tribune, e foi indicado como finalista ao prêmio Pulitzer em história, ao National Book Award e ao National Book Critics Circle Award.

Fordlândia é resultado de um trabalho cuidadoso de pesquisa que inclui consultas aos arquivos da empresa Ford Motor Company e do governo brasileiro, diários de funcionários, além de entrevistas com os descendentes de empregados da empresa e moradores de Fordlândia e duas visitas (feitas em 2007 e 2008) ao que sobrou das cidades de Fordlândia e Belterra no interior do estado do Pará. Destaca-se dentre essas fontes o acesso aos arquivos da empresa, pois o autor usou tanto cartas, memorandos, relatórios, filmes e fotos como relatórios e balancetes de produção, gastos, operação etc.

O livro é composto por 23 capítulos divididos em três partes: a primeira sobre o criador da cidade (Henry Ford), a segunda e a terceira - sem deixar de fora Ford em nenhum momento - sobre as aventuras e desventuras do processo de implantação da cidade de Fordlândia.

Na primeira parte, o autor relata como Ford gerenciava sua empresa, destacando os elementos que justificaram seu sucesso. O autor deixa claro que a criação de Fordlândia não era um investimento financeiro, nem mesmo uma ampliação dos seus negócios. Era um experimento social cuja expectativa de autofinanciamento não seria a extração do látex, mas a exploração das windfalls - recursos disponíveis com baixo custo e que exigem muita mão de obra.

Contextualizado na primeira década e nos meados da segunda década do século XX, e antes da grande recessão dos anos 1930, ou seja, no auge da prosperidade de Henry Ford e suas indústrias, o texto destaca a importância de Ford para a sociedade norte-americana e para o mundo: responsável pela disseminação do uso do automóvel; pela revolução nos meios de produção (linhas de montagem, valorização da maximização dos lucros e redução dos custos); pelo pagamento dos melhores salários e pelo provimento privado de serviços públicos como educação, saúde e lazer para os seus empregados.

O autor destaca que os grandes feitos de Ford também foram carregados de contradições: Ford era avesso aos monopólios de energia e da borracha; sua linha de montagem reduziu os trabalhadores a engrenagens; a dependência de serviços providos pela empresa submeteu os empregados ao seu código moral pessoal com forte viés ditatorial; o combate aos sindicatos e à sua influencia sobre os trabalhadores; os conflitos com os judeus, banqueiros e políticos. Movido pela vontade de minimizar os efeitos negativos do capitalismo sobre a sociedade, o método de trabalho de Ford criava outros tantos. Grandim evidencia a hábil capacidade de um homem tornar realidade as suas ideias, deixando clara a relação do sucesso de seus negócios com sua capacidade de realização.

A primeira parte também introduz a cidade de Fordlândia. Na impossibilidade de criar mais uma de suas aldeias industriais - especificamente a cidade de Muscle Shoals, no Alabama - , Ford voltou-se para o Brasil, embora a iniciativa da aproximação tenha partido do governo brasileiro. Este ofereceu a Ford a possibilidade de acesso a uma área no interior da Amazônia brasileira, oferta essa acompanhada de falsas promessas de incentivos.

Mas, para Ford, os potenciais benefícios econômicos pareceriam ser menos importantes. Sua real motivação foi a oportunidade de implantar um novo projeto de sociedade, muito influenciado pelo relato que Carl D. LaRue (botânico da Universidade de Michigan) fez da área na época. A miséria, o trabalho escravo de extração da borracha e as condições de vida quase primitivas da população, destacados pelo relato de LaRue, foram mais que suficientes para justificar, para Ford, seu projeto civilizatório na Amazônia.

A riqueza de detalhes desse relato prende a atenção do leitor, que se surpreende no decorrer do texto com informações sobre a personalidade de Ford, seus valores morais e sobre o contexto político, social e econômico norte-americano e brasileiro. O que chama mais a atenção neste último é a ausência de normas, a corrupção e um certo desprezo pelos investimentos estrangeiros.

Na segunda e terceira partes do livro, o autor mostra os desafios de Ford e sua equipe e a pouca habilidade que demonstraram para vencê-los, fosse por ignorar o dinamismo do capitalismo no início do século XX, mesmo no contexto de pós-depressão, fosse por ignorar as particularidades do ambiente natural do seu experimento. Mesmo considerando-se um conservacionista (embora com forte apego à visão utilitária da natureza), Ford, em 1928, enviou ao Brasil gerentes de operação que ignoraram até mesmo as máximas do seu processo produtivo - ausência de desperdício e eficiência de aproveitamento máximo de recursos naturais. Aliás, os gerentes da Fordlândia - funcionários da confiança de Ford - dividem com ele o protagonismo quando o assunto é a implantação da cidade. O autor descreve detalhes das personalidades, dos trabalhos anteriores e do contato nada amistoso deles e suas famílias com o wilderness amazônico.

Embora a tentativa de materialização do sonho tenha consumido muitos recursos financeiros, técnicos e humanos, Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na Selva mostra o frágil vinculo do sonhador com a sua realização. Mesmo no contexto do fraco interesse pelo plantio das seringueiras e pela produção de borracha, é difícil imaginar que o gênio da indústria, o homem responsável pela maximização dos lucros e redução dos custos e pela otimização de cada etapa da linha de montagem, tenha sido o mesmo que pagou por terras que receberia de graça do governo brasileiro, ignorou técnicas de plantio da seringueira e seu parasita natural, desconsiderou as condições locais e culturais da região, empreendeu uma estratégia de ocupação do território preconceituosa e desumana e demorou a tomar iniciativa em relação às manifestações de desvio de caráter de funcionários mais próximos.

Além de manter e reforçar práticas inadequadas, desperdiçar os recursos naturais como uma estratégia de desmatamento que priorizou a queima da floresta, os custos operacionais foram altos. Houve excessiva demanda por mão de obra, transformando as etapas iniciais de operação de Fordlândia em um verdadeiro martírio, tanto para os trabalhadores brasileiros quanto para os funcionários norte-americanos da Ford Motor Company. A implantação da cidade parecia desconectada das inovações que aconteciam no mercado e no âmbito das matérias primas. Arrogância, excesso de autoconfiança e a descrença em profissionais especializados parecem explicar os erros cometidos.

A terceira parte do livro traz um pouco de alento ao leitor. Em que pese o conjunto de operações que resultaram no fato de a construção da cidade ter sido um fracasso, o último gerente de Fordlândia, Archibald Johnston, durante quase dez anos de trabalho, conseguiu sugerir uma organização social e obter avanços no plantio da seringueira. Ele conseguiu isso subvertendo a maioria das regras de Ford: foi mais condescendente com as regras morais e conseguiu justificar a presença de um especialista em patologia e botânica (é verdade que o próprio Johnston já se tornara um, pela sensibilidade apurada, pela observação, pela curiosidade e acesso às informações sobre o plantio - práticas ignoradas pelos gerentes anteriores). A cidade foi construída e reconstruída em um local próximo com casas em estilo norte-americano, campo de golfe, cinema, escolas, hospital, estações de captação, tratamento e distribuição de água; usinas de força; estradas; portos fluviais; estação de rádio e telefonia, além da infraestrutura administrativa e, enfim, anos mais tarde, as plantações de seringueiras. Em Belterra, por algum tempo, as plantações se mantiveram saudáveis e imunes às pragas graças à técnica de enxertia de copa. Embora com uma produção de aproximadamente 750 toneladas de látex - quase nada em relação ao consumo da Ford - o rendimento era baixo, com alto custo, nada competitivo e completava 16 anos de investimentos sem retorno.

Nem mesmo no período de efêmera prosperidade Ford visitou Fordlândia. Dois anos antes de sua morte a cidade foi entregue ao governo brasileiro. Seu neto, Henry Ford II, desativou também as aldeias industriais norte-americanas de Alberta e Pequaming. O relato das desventuras da construção e operação da cidade mostra o contraponto entre o sucesso e o fracasso, seja no processo de apropriação dos recursos, seja na tentativa de conter o capitalismo.

A história de Fordlândia termina em um momento importante da história do Brasil: o início de um período em que o Estado - e não o mercado - passa a ser o grande fomentador do desenvolvimento, período igualmente marcado pela relação imprevidente com os recursos naturais ressaltada pelo autor, embora em um contexto mais recente.

As indicações para o melhor livro do ano de 2010 comprovam a popularidade contínua de Henry Ford e o fascínio da sociedade norte-americana pela sua própria história, mesmo que pouco gloriosa, além de sinalizar que o livro tem muito a dizer ao público dos EUA.

Publicado originalmente em inglês, o livro proporciona uma leitura fácil, fluida e em forma de romance, capaz de agradar norte-americanos ou brasileiros. No entanto, o leitor deve se preparar para uma leitura povoada de flashblacks, pois cada capítulo tem o seu próprio tempo. Como narrativa romanceada, tem um público amplo; como reflexão sobre os temas citados anteriormente, a leitura é recomenda aos estudantes das áreas de ciências naturais, sociais, história e gestores de políticas públicas. O livro tem cerca de cinquenta ilustrações que retratam, na maioria das vezes, a Fordlândia em seus melhores momentos, formando um contraponto ao texto que as acompanha.