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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.20 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-597020130003000002 

Análise

Malária como doença e perspectiva cultural nas viagens de Carlos Chagas e Mário de Andrade à Amazônia

Nísia Trindade Lima1 

André Botelho2 

1Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz e professora do Programa de Pós-graduação em História das Ciências e da Saúde/Fundação Oswaldo Cruz. Avenida Brasil, 4036, sala 400, 21040-361 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil. lima@fiocruz.br

2Professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/Universidade Federal do Rio de Janeiro. Largo de São Francisco de Paula, 1, sala 420, 20051-070 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil.andrebotelho@digirotas.com.br

RESUMO

Trata de duas viagens importantes para o pensamento social sobre a Amazônia: a de Carlos Chagas, realizada de 1912 a 1913, e a de Mário de Andrade, em 1927. Para discutir o papel dessas experiências nas interpretações desses autores, analisam-se as relações propostas entre malária e o projeto de constituir uma civilização nos trópicos. Nos textos de Chagas, estranhamento é a categoria que organiza a percepção a respeito da Amazônia, evidenciada na ideia de patologia dos trópicos a desafiar o conhecimento estabelecido sobre a doença. Empatia, por outro lado, é a categoria-chave para compreender a perspectiva crítica de Mário de Andrade, que valoriza as formas de sociabilidade, crenças e expressões populares da região, inclusive as relativas à malária.

Palavras-Chave: Amazônia; Carlos Chagas (1878-1934); Mário de Andrade (1893-1945); malária; modernismo

As viagens à Amazônia e os relatos nela inspirados condensam uma complexa discussão sobre as possibilidades, os impasses e os sentidos próprios da construção da civilização nos trópicos. Feitos não apenas por cientistas e intelectuais estrangeiros, mas também brasileiros, os registros dos viajantes contribuíram para a composição de persuasivas representações que se tornaram, ao mesmo tempo, um ponto de partida para discussões mais amplas sobre a sociedade brasileira. Itinerários nos quais se deslocavam ideias, leituras e impressões sobre a natureza, a cultura, as populações locais e as relações entre região e nação, e mesmo entre o Brasil e o mundo, esses deslocamentos e seus correspondentes relatos permaneceram cruciais nas duas primeiras décadas do século XX.

Esse foi o caso emblemático da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, chefiada por Euclides da Cunha, e dos textos escritos sobre a Amazônia por esse autor, que se tornaram verdadeiro paradigma para o tema. Outros relatos, porém, ganharam expressão no mesmo período, ainda que interpelados direta ou indiretamente pelo de Euclides. Dois deles referem-se a viagens particularmente importantes para o pensamento social brasileiro e amazônico de que nos ocuparemos neste artigo: a de Carlos Chagas (1912 a 1913) e a de Mário de Andrade (1927).

De outubro de 1912 a abril de 1913, comissão do Instituto Oswaldo Cruz liderada por Carlos Chagas (1878-1934) avaliou, após solicitação da Superintendência da Defesa da Borracha, as condições sanitárias dos principais centros de produção daquela matéria-prima. As descrições e análises transcritas no relatório da viagem formaram uma imagem sobre a região amazônica marcada pela tensão em torno da categoria 'patologia tropical' e pela defesa do papel da higiene na integração da Amazônia a um projeto civilizatório para o país (Cruz, Chagas, Peixoto, 1972).

Na década de 1920, autores modernistas estabeleceram diálogo com tais relatos e interpretações. Caso de Mário de Andrade (1893-1945) que aborda, a partir de novas perspectivas, recorrendo muitas vezes à sátira e à ironia, os traços estigmatizados dos trópicos, como atraso e doença. Sua viagem à Amazônia, entre 8 de maio e 15 de agosto de 1927, o relato dela resultante e diversos textos relacionados constituem um esforço de transfiguração positiva da civilização tropical, sob inspiração de um projeto de desrecalque cultural do brasileiro. Projeto coletivo do nosso modernismo, mas que assume sentido próprio na interpretação do Brasil de Mário de Andrade.

Não obstante as diferenças entre as experiências de viagem à Amazônia e os significados a elas atribuídos por Carlos Chagas e Mário de Andrade, as relações entre malária e a possibilidade de constituir uma civilização nos trópicos aparecem como elementos centrais de suas narrativas e análises. Ainda que do ajuizamento que fazem da doença surjam visões muito distintas sobre o próprio sentido do processo civilizatório na sociedade brasileira. Daí justamente o interesse em apreciá-las em conjunto.

Medicina e povoamento dos trópicos

Em abril de 1913, o jornal A Noite publicou uma matéria que resume alguns dos principais elementos do contexto intelectual e científico no qual ocorreu a viagem dos médicos Carlos Chagas, Antônio Pacheco Leão e João Pedroso de Albuquerque ao vale do rio Amazonas:

A Expedição científica ao inferno verde

Nova Moléstia?

O Instituto Oswaldo Cruz examinará os resultados obtidos

Chegou hoje a esta capital, de volta de sua missão científica ao Vale do Amazonas o Senhor Pacheco Leão. Como se sabe, Sua Senhoria tinha partido em companhia de outros cientistas, a 24 de outubro de 1912 (há cerca de sete meses) - para estudar quais eram as moléstias reinantes no Vale do Amazonas. Tinha todo o interesse ouvir, agora de Sua Senhoria que causas extraordinárias tinha encontrado a comissão naquelas regiões longínquas da Amazônia 'onde tudo é grande, tudo é maravilhoso'. Que tinham descoberto nas dobras misteriosas desse grande cenário, onde só se vê um ator que definha e morre: o homem?! (A expedição..., 25 abr. 1913; destaque no original)

A ideia de uma natureza desafiadora e de um homem frágil marca o imaginário sobre a Amazônia e é reiterada pela matéria de A Noite, que traz uma paráfrase de texto de Euclides da Cunha. Era outra perspectiva de olhar para o paradoxo originalmente proposto por Henry Thomas Buckle, para quem, na Amazônia, diante de uma natureza grandiosa e exuberante, o homem se revelaria em toda a sua fragilidade. Em relação a esse contraponto, Euclides da Cunha observava que o homem chegara às terras amazônicas antes que elas estivessem prontas a recebê-lo. Segundo esse autor, a Amazônia a princípio o desapontara, a começar pelo rio. Imaginara um rio grandioso e o achara pequeno, um verdadeiro diminutivo do mar, sem as ondas, a profundidade e o mistério. Em suas palavras, tal desencanto só seria revisto após a visita ao Museu do Pará (atual Museu Emilio Goeldi) e a leitura de uma monogra-fia do botânico Jacques Huber, na qual ele discorria sobre a formação geológica e a idade recente da Amazônia. Foi esse trabalho que inspirou Euclides da Cunha a usar a imagem da última página do Gênesis na sua conferência de ingresso na Academia Brasileira de Letras (Cunha, 2009b; Lima, 2009; Santana, 2000).

Esse tema foi retomado no prefácio que Euclides escreveu para o livro Inferno verde, de Alberto Rangel, publicado em 1908 (Cunha, 2001). Por sua vez, a ideia de uma natureza amazônica impenetrável ao homem e dominada pela doença encontrou nessa obra um dos registros mais dra-máticos. Com o personagem Souto, um engenheiro que sucumbira à selva, acometido pela malária, Rangel expressou os obstáculos enfrentados por aqueles portadores do pro-gresso. Associados aos projetos de expansão da infraestrutura material e de comunicações do Estado Nacional, médicos, engenheiros e militares eram os atores privilegiados nas narrativas sobre o que se percebia como uma verdadeira epopeia de incorporação dos sertões do noroeste.

Diante do cenário monumental, o homem seria pequeno e indefeso, quer ele fosse o sertanejo que migrara e vivera o drama da exploração da borracha, tal como dramaticamente Euclides da Cunha (2009a) o descreveu, quer fosse o engenheiro Souto, personagem de Alberto Rangel (2001). Concebida como a última página do Gênesis ou como 'inferno verde', a natureza e a doença igualavam a todos os que percorriam as terras amazônicas. É a essas fortes imagens que se refere a matéria de A Noite.

Carlos Chagas, em viagem cerca de oito anos após a de Euclides da Cunha à Amazônia, lidou com essas imagens buscando na medicina a saída para a construção de uma civilização nos trópicos entre o paraíso e o inferno, Chagas parecia indicar a trilha do progresso, desde que fosse combatida a doença denominada por Oswaldo Cruz o duende da Amazônia: a malária.

A matéria de A Noite faz ainda referência à tentativa de o jornalista obter informações sobre uma nova doença que se acreditava ter sido descoberta na região.1 A existência de uma nova entidade patológica era tema candente e estava relacionada às pesquisas dirigidas por Carlos Chagas sobre manifestações clínicas inusitadas de malária entre a população que habitava o vale do rio Acre. A expectativa da imprensa quanto a esse fato pode ser explicada pelo impacto da descoberta por aquele médico, nos sertões de Minas Gerais, quatro anos antes, da tripanossomíase que recebeu seu nome. A compreensão sobre a importância atribuída a esse último fato, a um só tempo, científico e social, requer que se considere o papel das viagens científicas promovidas pelo Instituto Oswaldo Cruz.

As principais viagens ao interior do Brasil ocorreram quando o Instituto Oswaldo Cruz já se consolidara como centro de pesquisa experimental. Elas podem ser vistas como uma espécie de ampliação das fronteiras daquela instituição científica, tanto em termos do elenco de pesquisas e atividades realizadas quanto de expansão geográfica por meio de viagens científicas e, em algumas localidades, de criação de postos permanentes2 (Benchimol, Teixeira, 1993). As primeiras destinaram-se inicialmente ao desenvolvimento de trabalhos profiláticos que acompanharam ações relacionadas às atividades exportadoras, base da economia do país: construção de ferrovias e saneamento de portos. Na década de 1910, importantes viagens ocorreram por requisição da Inspetoria de Obras contra as Secas e, o que nos interessa mais de perto neste trabalho, da Superintendência de Defesa da Borracha (Thielen et al., 2002; Lima, 1999).

Também podemos inserir essas expedições científicas na tradição da medicina tropical. Historiografia recente vem indicando a importância desse campo de estudos para a análise das relações entre os impérios e as colônias, as imagens e preconceitos sobre os trópicos, caracterizando um campo de conhecimentos e práticas no qual se torna difícil dissociar ciência e política (Kropf, 2009a, 2009b; Farley, 1992; Worboys, 1996, 1997; Caponi, 2002; Moulin, 1996; Stepan, 2001; Arnold, 1996a, 1996b, 1997).

No caso do Brasil, conforme demonstrou o estudo de Simone Kropf (2009a, 2009b) , o desenvolvimento da medicina tropical teve um incremento notável a partir das viagens científicas do Instituto Oswaldo Cruz e, em particular, daquela na qual ocorreu a descoberta da doença de Chagas. A medicina tropical esteve associada não a um projeto imperialista, mas aos esforços de modernização e de construção de um projeto nacional, no qual os conhecimentos científicos e, em particular, os referentes à saúde pública, desempenharam importante papel. Tal projeto pressupôs a aliança entre o laboratório e o trabalho de campo; o encontro da microbiologia com o estudo in loco dos vetores de doenças que passavam a ser designadas doenças tropicais. Segundo a autora:

A possibilidade de articular conhecimento biológico, conhecimento médico e ações sanitárias em torno dos temas concretos da patologia brasileira conferia justificativa social e possibilidade de integração aos estudos sobre os múltiplos aspectos da relação entre micro-organismos, insetos e doenças. Assim, poderíamos dizer que a inspiração, por parte do Instituto de Manguinhos, no modelo do Instituto Pasteur, assumiu, em 1908, um sentido bem mais amplo do que o da associação entre pesquisa, ensino e produção, tradicionalmente apontada pelos historiadores: tratava-se de um movimento de adequação da microbiologia aos rumos da medicina tropical. E, neste caso, também numa analogia ao que ocorreu com o Instituto Pasteur, a ida ao campo, motivada pela associação entre ciência, política e demandas sociais e econômicas, garantiu o caminho dos nossos pasteurianos na trilha da medicina tropical (Kropf, 2009a, p.95).

O contato dos cientistas de Manguinhos com o Brasil do interior foi orientado pelo paradigma da medicina tropical, ao mesmo tempo em que seguiu o caminho trilhado por outros atores sociais, como os engenheiros que lideravam a construção das ferrovias. Em geral, os médicos destacaram-se em trabalhos dessa natureza, especialmente na profilaxia da malária, problema frequente e pano de fundo em todos os registros das missões destinadas a 'conhecer e integrar os sertões'.3 No caso específico do Instituto Oswaldo Cruz, as atividades sanitárias requeridas pela construção de ferrovias foram acompanhadas de intenso trabalho científico destinado ao estudo da forma de transmissão de importantes doenças e, em especial, da presença e comportamento de seus vetores.

A profilaxia da malária nos trabalhos de construção das ferrovias representou um importante capítulo na história do conhecimento científico sobre a doença e no processo de institucionalização da medicina tropical no Brasil. Conforme observaram Jaime Benchimol e André Felipe Silva (2008), os conhecimentos sobre a malária, a despeito de seus avanços na passagem do século XIX para o XX, continuaram a se constituir como objeto de controvérsias científicas. Além disso, as dificuldades de aplicação das regras profiláticas às condições de cada país, seja pelos ecossistemas específicos, seja pelos interesses econômicos e políticos, tornaram-se particularmente evidentes na experiência dos cientistas do Instituto Oswaldo Cruz ao acompanharem a expansão da malha ferroviária no território nacional.

Foram as dificuldades de realizar a profilaxia da malária que levaram à contratação de Oswaldo Cruz, em 1909, pela Madeira-Mamoré Railway Company. Tratava-se daquela que ficou conhecida como "ferrovia do diabo", em cujo trabalho de construção morreram milhares de trabalhadores (Hardman, 1991). O relatório das atividades de Oswaldo Cruz "Considerações gerais sobre as condições sanitárias do rio Madeira" contém descrições impressionantes sobre o quadro de doenças e o abandono das localidades, apresentando descrições muito próximas àquelas da Comissão Rondon. O cientista de Manguinhos visitara também, no mesmo período que aquela expedição, Santo Antônio do Madeira e a região banhada pelo Jaci-Paraná, descrevendo, do mesmo modo que o sertanista, o abandono e o espectro da morte que rondava os habitantes.

A autoimagem positiva dos médicos, que fica evidente no conjunto dos relatórios analisados, é também acentuada no relatório de Carl Lovelace, um dos médicos do corpo técnico da Madeira-Mamoré Railway:

Se o nosso trabalho aqui mostrou, de qualquer modo, que o espectro aterrador das endemias reinantes pode ser definitivamente vencido, os membros desta corporação ficarão satisfeitos com o conhecimento e a honra de terem cooperado com pequeno contingente para a evolução universal no século XX, que os historiadores do futuro narrarão com o título de Povoamento dos Trópicos (citado em Hardman, 1991, p.153).

A segunda expedição científica à Amazônia realizada pelo Instituto Oswaldo Cruz resultou na prescrição de uma série de medidas destinadas ao saneamento da região, especialmente no que se referia à profilaxia da malária. A partir dessa experiência, textos elaborados por Carlos Chagas indicam a inscrição do pensamento médico brasileiro nesse ideal de povoamento dos trópicos. Poucos anos antes, em 1909, Chagas realizara em Lassance, durante os trabalhos de extensão da Estrada de Ferro Central do Brasil até Pirapora, em Minas Gerais, a descoberta da tripanossomíase, o que projetaria seu nome como sucessor de Oswaldo Cruz e um dos mais importantes cientistas brasileiros.4

De outubro de 1912 a abril de 1913, comissão do Instituto Oswaldo Cruz formada por Carlos Chagas, João Pedroso e Pacheco Leão avaliou as condições sanitárias e de vida dos principais centros de produção da borracha (Cruz, 1972). De acordo com as expectativas da Superintendência da Defesa da Borracha, tratava-se de conhecimento da região e elaboração de um plano que permitisse exploração racional de seus recursos, protegendo os seringueiros dos riscos representados pelas doenças, especialmente a malária (Cruz, 1972, p.50).

O método de trabalho da comissão evidencia a adoção de procedimentos diversificados de coleta de informações, além da multiplicidade de ações nas quais os cientistas estiveram envolvidos: atendimento a doentes; realização de exames microscópicos; aplicação de medicamentos, a exemplo do tártaro emético para o tratamento da leishmaniose; registro fotográfico; observações dos parasitos; realização de autópsias; além de entrevistas com autoridades locais sobre a organização social e dados epidemiológicos (Schweickardt, Lima, 2007, 2010; Schweickardt, 2011).

Por se tratar de documento oficial dirigido ao ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, o relatório sobre as condições médico-sanitárias do vale do Amazonas foi assinado por Oswaldo Cruz. Entretanto, na introdução ao documento, ele explicita que Carlos Chagas redigiu a segunda e a terceira partes, relativas, respectivamente, a descrição do percurso e análise epidemiológica de toda a área visitada pela expedição. É possível, desse modo, tomar como de autoria de Chagas as referidas seções do relatório e, portanto, discutir com base nessa fonte suas ideias a respeito da Amazônia e das possibilidades de povoamento dos trópicos.5 Para a análise aqui empreendida será também considerado o texto da conferência proferida pelo cientista em 1913, no palácio Monroe - "Notas sobre a epidemiologia do Amazonas" - , no qual ficam evidentes suas teses centrais sobre os temas da doença e das perspectivas para o desenvolvimento da Amazônia.

Quando Chagas registra as observações e as pesquisas realizadas, evidencia imprevistos relativos a condições impróprias à observação de casos mórbidos: começava o período das enchentes e, por isso, as epidemias reinantes estavam em seu mínimo de intensidade. Além disso, os seringueiros encontravam-se ainda internados nas matas, a grandes distâncias das margens dos rios, o que diminuía consideravelmente o campo de observação. Não obstante, conclui-se pela importância epidemiológica da malária, tal como resume Oswaldo Cruz na apresentação do relatório: "o duende do Amazonas é o impaludismo. Caminha-lhe ao lado, prestando mão forte, matando pouco, mas inutilizando enormemente, a leishmaniose, nas suas diferentes manifestações: a ferida brava dos seringueiros" (Cruz, 1972, p.50).

Permeando o relato que faz da viagem e também o texto mais livre da conferência, duas categorias ocupam lugar central nos escritos de Carlos Chagas sobre a Amazônia: a patologia anarquizada dos trópicos - com tudo o que surpreende o cientista - e a ideia da ocupação do território pela migração - o homem na Amazônia em substituição à população nativa. O papel dos cientistas, especialmente do campo médico, se daria na busca de condições de salubridade que viabilizassem a ocupação social e econômica daquele território.

A grande surpresa reservada pela viagem consistiu na possibilidade de uma nova modalidade de malária, caracterizada pela sintomatologia - edema pré-tibial (edema apreciável dos membros inferiores) - e pela morfologia do plasmódio, que atuava como agente patógeno. É aos ecos desse achado que se referia a matéria publicada no jornal A Noite. Ao abordar o percurso pelo rio Acre e, particularmente as pesquisas no seringal Bom Destino, Chagas faz a seguinte observação: "relativamente a pesquisas experimentais nos casos dessa natureza, a única noção que parece de valor, das que até agora foram adquiridas, é a enorme frequência de um plasmódio muito próximo, senão idêntico, ao parasito da quartã. Denominou a Comissão tal parasito Pt.X, porque não se acha autorizada, por enquanto, a identificá-lo definitivamente ao da quartã" (Cruz, 1972, p.81). E em outra passagem: "tratar-se-á de uma variedade nova de hematozoário, próxima do parasito da quartã e tendo como característica biológica principal, na sua ação patogênica, a produção de edema?" (Cruz, 1972, p.81).

É interessante observar que as primeiras pesquisas realizadas por Carlos Chagas foram sobre a malária, tema de sua tese de doutoramento, defendida em 1903. Nesse trabalho, ele postulou a influência das condições climáticas no ciclo da doença, argumento modificado em trabalhos posteriores, pois, em muitos momentos enunciou a necessidade da estabilidade, ou melhor, da fixidez das características das doenças. Daí seu discurso sobre a "patologia anarquizada dos trópicos". É o que se pode depreender do texto da conferência anteriormente citada, do que é ilustrativo o seguinte trecho:

Dir-se-ia uma patologia anarquizada. Fatos mórbidos, que nos eram familiares na observação do sul, revestiam-se de modalidades estranhas, furtando-se muitas vezes ao nosso juízo diagnóstico. Doenças bem estudadas, conhecidas em sua razão etiológica, em seus processos patogênicos e na inteireza de sua fisionomia clínica, mostravam-se modificadas, ou seja, pela gravidade extrema de seus elementos, que não lhe sabíamos atribuíveis. E, de tal modo assim foi, que se poderia admitir ali uma exceção a essa lei de patologia geral, de fixidez das entidades mórbidas, pela qual cumpre sempre orientar o médico na interpretação dos casos clínicos obscuros (Chagas, 1913, p.450).

No que tange à epidemiologia da Amazônia, a grande surpresa, conforme observamos, referia-se às formas de manifestação da malária. Novamente o texto da conferência é bastante enfático em suas conclusões:

É que, na Amazônia, a patologia dos trópicos se apresenta com as suas características verdadeiras, não raro modificadas nas condições climáticas mais temperadas das zonas intertropicais. Seja a malária o primeiro e o melhor exemplo da nossa surpresa. Conhecíamos essa moléstia de longa observação, em campanhas antipalúdicas, que nos foram oportunidade de apreciar todas as variantes da infecção pelo plasmodium de Laveran. Não acreditávamos que alguma coisa mais pudesse existir na expressão clínica daquela moléstia e, nesse ponto, esperávamos encontrar na Amazônia, apenas um cenário mais vasto, reproduzidos os mesmos fatos que hoje constituem banalidade em estudos de medicina tropical. Assim não foi. A própria malária ali vem muitas vezes modificada em sua sintomatologia, ora apresentando nova síndrome, que não lhe é habitual, ora inteiramente disfarçada sob modalidades clínicas que desconhecíamos nessa moléstia (Chagas, 1913, p.450).

Do ponto de vista da importância dos textos de Carlos Chagas na construção de imagens duradouras sobre a região amazônica e seu povoamento, a segunda categoria relevante é a da migração em condições de salubridade como fundamento de um projeto para a região. Observa-se no relatório a ausência de empatia pelas sociedades indígenas locais, ainda que se dedicasse atenção a algumas das doenças que as acometiam. Encontram-se no relatório passagens sobre a escravização de indígenas e sua exploração pelo sistema de barracão, mas também descrições que revelam essa ausência de empatia por parte do cientista. É o que se lê na descrição das condições do seringal Providência, no rio Negro:

Os trabalhadores de seringais neste barracão são quase todos índios, de diversas tribos. Apresentam-se aqui, como em todo o Rio Negro, numa condição física e moral das mais precárias, sendo os homens de estatura pequena, de constituição pouco robusta e de aspecto geral pouco simpático. As mulheres são extremamente feias, muito precocemente envelhecidas, ou melhor, trazendo desde a mocidade estigma da velhice. Predomina em ambos os sexos a mais extrema indolência.

Pelo que, dada essa inferioridade nos indivíduos dessa raça, são eles muito explorados aí pelo branco, tendo no Rio Negro, mais do que em qualquer outro, a exata impressão de escravidão (Cruz, 1972, p.106).

Ainda que denúncias contrárias ao sistema de barracões apareçam no texto, na perspectiva do cientista, a solução para o povoamento da região encontrava-se na migração dos sertões do 'norte', especialmente na migração de cearenses. A malária seria o coroamento dos infortúnios do migrante em seu processo de exploração nos seringais. Ainda que não haja citação textual, são nítidas as semelhanças com a construção discursiva de Euclides da Cunha em que a denúncia sobre as condições sociais do seringueiro sobressai nas páginas de Contrastes e confrontos e À margem da história (Lima, 2009). Neste, a primeira parte, sugestivamente denominada Terra sem história, um dos capítulos mais expressivos é o dedicado ao ritual de malhação do Judas. A narrativa atinge o clímax quando o escritor dramatiza uma das cenas presenciadas na sua confecção: um sertanejo, após esmerar-se como se produzisse verdadeira obra de arte, colocou ao fim seu próprio chapéu na cabeça do espantalho: "É um doloroso triunfo. O sertanejo esculpiu o maldito à sua imagem. Vinga-se de si mesmo, pune-se, afinal, da ambição maldita que o levou àquela terra" (Cunha, 2009a, p.178).

Pois, na visão de Carlos Chagas, é o sertanejo forte, porém alquebrado pela malária, o grande personagem do povoamento dos trópicos, desde que superadas as péssimas condições de saúde de todo o vale amazônico. O texto da conferência no palácio Monroe é bastante claro:

O homem, na Amazônia, ali chegando dos salubérrimos sertões do norte do Brasil, levando para o trabalho a vitalidade máxima de uma raça forte e as maiores aspirações de uma prosperidade econômica, adquirida, embora, numa luta homérica, bem depressa vai lastimar a própria ousadia no aniquilamento de todas as energias acumuladas. São levas inteiras de cearenses, desse povo de valentes que exemplifica a resistência e a tenacidade nacionais, em curto prazo dizimadas pela malária! Os que não perecem, aqueles cujo destino incerto foi menos inclemente, esses regressam, trazendo em lesões orgânicas definitivas, os resíduos da moléstia (Chagas, 1913, p.455).

Mário de Andrade e a malária como perspectiva cultural

A viagem à Amazônia foi a terceira de uma série de quatro viagens principais feitas por Mário de Andrade, decisivas na formação da sua sensibilidade e interpretação do Brasil (Botelho, 2012). As duas primeiras viagens, em 1919 e em 1924, tiveram como destino as hoje cidades históricas de Minas Gerais; a última, o Nordeste, realizada entre dezembro de 1928 e março de 1929. Isso, claro, descontadas suas muitas vindas ao Rio de Janeiro, então capital federal, e idas ao interior de São Paulo, onde tinha família e amigos. Das últimas duas viagens deixou relatos preciosos, publicados somente em 1976 no livro O turista aprendiz, organizado por Telê Ancona Lopez. O livro compreende os relatos da viagem à Amazônia, revistos pelo autor e para os quais escreveu um prefácio datado de 30 de dezembro de 1943, e da viagem ao Nordeste que Mário chamou de viagem etnográfica, divulgados simultaneamente nas crônicas "O turista aprendiz", do Diário Nacional. Tipo de diário de bordo ficcionalmente transfigurado e, como dito, revisto posteriormente, o relato da viagem à Amazônia recebeu o título completo de "O turista aprendiz: viagens pelo Amazonas até o Peru pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega!", numa paródia do título do livro de viagem de seu avô materno Joaquim Leite Moraes, escrito quando deixou São Paulo para assumir a presidência da província de Goiás.6

Já na primeira entrada do diário da viagem amazônica redigida ainda em São Paulo, datada de 7 de maio de 1927, aparece a afirmação cheia de consequências para a compreensão do tema da viagem em Mário de Andrade e trabalhada noutros textos (Botelho, 2011a, 2011b), de que, para ele, as "reminiscências de leitura me impulsionaram mais que a verdade" (Andrade, 1976a, p.51). Foi movido pelas suas leituras que Mário fez sua viagem para a Amazônia, região com a qual tinha ligação sentimental e intelectual antiga, desde a juventude. Ligação que configura uma verdadeira 'utopia amazônica', como tão bem designa Telê Ancona Lopez (1976, 1996) a meditação de Mário de Andrade sobre uma civilização tropical. Lembremos apenas que, quando da sua viagem, em 1927, já havia pelo menos uma redação adiantada de Macunaíma - todo ele construído pela bricolagem de materiais de toda sorte e de escritos alheios diversos (Souza, 2003). Dentre eles, os mais conhecidos são os mitos e lendas colhidos entre os Taulipangs e Arecunás do extremo norte do Brasil, Guianas e Venezuela por Koch-Grünberg coligidos em Von Roraima zum Orinoco, livro no qual Mário encontraria, enfim, o protagonista para a sua rapsódia (Lopez, 2005). Mário de Andrade também dialogou, ainda que sem necessariamente nomear diretamente seus interlocutores, com as representações da Amazônia produzidas desde o Setecentos pelos viajantes naturalistas, apropriadas e traduzidas em momentos diferentes por cientistas e escritores, como Euclides da Cunha.

A viagem durou três meses. E começou de modo frustrante para Mário, que esperava dela uma reedição da caravana modernista a Minas Gerais em 1924, que passou para a crônica do modernismo como uma viagem de "descoberta do Brasil" (Eulálio, 2001). Seguida ao carnaval passado no Rio de Janeiro, Mário fez essa viagem em companhia de outros artistas paulistas e seus mecenas, como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Paulo Prado, Olívia Guedes Penteado, René Thiollier e, entre outros, o poeta franco-suíço Blaise Cendrars. Percorreram a Minas Gerais histórica, tão ligada ao passado paulista bandeirante, deliciando-se com as cidadezinhas, a arquitetura barroca, a imaginária religiosa, a música. A descoberta fundamental, porém, foi a de que o primitivismo estético, então valorizado pelas vanguardas europeias que nos serviam de referência, no nosso caso, encontrava-se não em lugares distantes e exóticos, mas em nossa própria sensibilidade. Essa descoberta teve consequências cruciais para o modernismo em geral, e também efeitos profundos na pintura de Tarsila do Amaral, na poesia de Oswald de Andrade, e também na poesia de Mário, notadamente em Clã do jabuti (1927), e nos rumos do seu trabalho artístico e crítico como um todo. E se mostrou crucial também para a construção tão cheia de provocação, ironia e crítica que faria sobre a malária, ou maleita, como era de sua preferência, a partir da viagem à Amazônia.

Somente a bordo do Rio de Janeiro, porém, Mário de Andrade descobre que aquela combinação entre descoberta do Brasil e irreverência modernista da viagem anterior não se reeditaria em águas e terras amazônicas. Viajaria sem seus amigos mais chegados, ao lado de dona Olívia Guedes Penteado, dama da aristocracia cafeeira paulista e mecenas dos modernistas, mais sua sobrinha, Margarida Guedes Nogueira (Mag, no relato) e Dulce do Amaral Pinto (Dolur), filha de Tarsila do Amaral. Como o grupo viajasse recomendado aos presidentes dos estados e outras autoridades oficiais por Washington Luiz, amigo de dona Olívia, as situações protocolares se repetiram de porto em porto até Iquitos, no Peru, e de estação em estação pela Madeira-Mamoré até a Bolívia, onde chegaram. Nem é preciso acrescentar que isso ocorreu para contragosto e irritação de Mário, o único varão da expedição que, ainda por cima, fora incumbido por dona Olívia de fazer os discursos de agradecimento em nome do grupo pela hospitalidade recebida. Somente na volta para São Paulo, a bordo do Baependi, eles se encontrariam com Oswald e Tarsila, que regressavam da Europa.

Tudo isso descontado, a viagem à Amazônia permitiu a Mário de Andrade o contato direto com uma parte do Brasil então muito pouco conhecida no restante do país, que há tempos despertava sua imaginação e sentimentos. E criou para ele, sobretudo, o desafio de experimentar, sob novas circunstâncias, o sentimento de empatia, que vinha transfigurando seu contato com o 'popular' desde sua rigorosa formação católica, e que se mostraria central para seu projeto modernista, em termos estéticos, intelectuais e éticos. Daí que, durante a viagem, temas relativos à civilização brasileira, tradição e modernidade, autenticidade e tradução cultural, além dos seus próprios pressupostos reflexivamente confrontados com o mundo que vai descobrindo, aflorem a todo o momento (Lira, 2005, p.147).

Na 'utopia amazônica' de Mário de Andrade, os estigmas que há muito marcavam negativamente a civilização tropical sintetizada na Amazônia são como que transfigurados positivamente. Operação modernista ligada à descoberta familiar, sem exotismos, do 'primitivo' e ao projeto coletivo modernista de desrecalque cultural brasileiro. E que, por certo, também se prende à visão de mundo mais ampla de Mário de Andrade e sua percepção em relação às transformações radicais por que a sua própria sociedade paulista passava. Com o avanço do capitalismo industrial, a rápida substituição de padrões de temporalidade, de sociabilidade, de práticas sociais e de valores angustiava um bocado Mário, que se fez crítico desse processo (Berriel, 1987). É o caso da 'preguiça', que ganha sentido contestatório em face da racionalização e da mecanização do tempo e das relações sociais e passa a ser valorizada como uma forma de ócio criativo. Essa ideia, que remonta a textos de juventude de Mário, como "A divina preguiça", de 1918, implica uma consideração do problema da ecologia na discussão sobre civilização, isto é, de adequação do homem ao seu meio, inclusive o clima. Nesse sentido, a sua viagem à Amazônia "reforça a certeza da legitimidade da preguiça enquanto ócio criador, que vinha bebendo desde suas leituras de juventude dos clássicos gregos, de Virgílio e Horácio" (Lopez, 1972, p.51). Em Macunaíma (1928), a identificação do progresso material com uma sociedade das máquinas e o tipo de civilização que enseja se completa. A oposição entre uma civilização 'falsa' - a do progresso material - e outra utópica 'verdadeira', a do primitivo, ganha, assim, expressão (Lopez, 1972, p.112).

Mas é também, entre outros, o caso da malária. Na prostração posterior aos acessos da doença, Mário de Andrade imaginava poder ver certos estados fisiológicos e psíquicos capazes de suspender a curiosidade, que associa negativamente ao progresso como principio básico da civilização industrial, e produzir relativa indiferença, por ele valorizada como meio de contemplação e espírito reflexivo. A essa reflexão inusitada sobre a doença, ou melhor, sobre a relação cultural dos homens amazônicos com a doença, Mário de Andrade chama de filosofia da maleita. Ela se contrapõe, por exemplo, ao que se pode ler nos relatos de Carlos Chagas com os quais também estamos trabalhando. Neles, observa-se que a malária é considerada 'o' mal da região, parecendo inaceitável, sobretudo, o modo como a doença ia se incorporando à vida da população. O que, naturalmente, do ponto de vista médico-científico com que se olha para o problema, parece inaceitável, já que a moléstia seria evitável por meio de medidas profiláticas. Vejamos agora, um dos relatos de Mário de Andrade sobre o tema:

E desejei a maleita, mas a maleita assim, de acabar com as curiosidades do corpo e do espírito. Foi assim. Nem bem chegamos a bordo, Trombeta veio logo alvoroçada avisar que estava no bar um moço maravilhoso de lindo ... fomos ver o tal moço e era realmente de uma beleza extraordinária de rosto, meio parecido com Richard Barthelmess. Mas inteiramente devorado pela maleita, a pele dele, duma lisura absurda, era de um pardo terroso sem prazer. As meninas ficaram assanhadíssimas e, como deixavam todo mundo olhando e desejando elas, principiaram fazendo tudo para o rapaz ao menos virar o rosto e espiar. Pois ele não olhou. Todo o barulho que fazíamos nada o interessava sequer pra uma olhadela, não olhou. Pagou a bebida e saiu sem olhar ... Então desejei ser maleiteiro, assim, nada mais me interessar neste mundo em que tudo me interessa por demais (Andrade, 1976a, p.107).

Difícil imaginar contraste maior sobre os estigmas que há muito marcavam a civilização tropical sintetizada na Amazônia. Estamos diante de uma empatia transfiguradora dos signos do atraso tropical, cujo sentido último é restituir dignidade aos seus portadores sociais, como no caso dos acometidos pela malária. Outra situação muito similar a acima descrita na citação de O turista aprendiz aparece também numa das crônicas do Diário Nacional: "Maleita - II", de 15 de novembro de 1931. Nela, Mário volta ao maleitoso que se aproxima no vaticano (como eram então chamados os barcos de passageiros amazônicos) em que viajava e em cuja postura desinteressada viu beleza e dignidade: uma "imagem, que não durou muito percebi que era duma maravilhosidade, palavra de honra, sublime, estava inteiramente criada pela maleita" (Andrade, 1976b, p.459). Volta também nesta crônica ao efeito principal que vê na maleita: a neutralização da curiosidade como princípio do progresso. Diz Mário:

A curiosidade é o elemento primário de progresso; é o mal e castigo da vida que fez crescer a Grécia e depois matou a Grécia, matou Roma, matou não tem importância, fez sofrer e faz sofrer. Sobretudo desdiviniza o homem. Curiosidade é maldição. E nas terras de calor vasto é simplesmente made in Germany, camelote, importação, falta de cultura. Por isso eu sonho com a maleita, que há-de acabar minha curiosidade e aclamará minha desgraçada vaidade de precisar ser alguém nesta concorrência aqui no Sul (Andrade, 1976b, p.459).

O trecho indica como a transfiguração positiva da malária é recurso de crítica ao sentido de homogeneização da experiência social a partir da adoção de um único modelo de civilização. Problemática sintetizada na ideia de progresso, e que implica para algumas sociedades na importação de modelos civilizatórios exógenos em detrimento do reconhecimento de outras possibilidades culturais tidas como próprias. Apressemo-nos, porém, antes de qualificarmos melhor a questão, a observar que a valorização da malária e tudo o que isso implica não leva Mário de Andrade a ignorar em seus diferentes relatos a desigualdade social e a situação material de extrema penúria que presencia entre a gente simples da Amazônia.7

Recorramos novamente às crônicas do Diário Nacional, apenas alguns dos textos com os quais a intertextualidade com o relato da viagem à Amazônia é fundamental para aprofundar ainda esse ponto. Na crônica "Maleita - I", de 8 de novembro de 1931, uma semana antes, portanto, da já citada "Maleita - II" que lhe dá continuidade, Mário admite de saída que conhece bem o lugar social específico dos seus pontos de vista (dele Mário e, supostamente, também do leitor visado) que chama de "litorâneo-europeu". Diz Mário:

Eu sei que, sob o nosso ponto de vista litorâneo-europeu, é horroroso isso que estou falando. Sei também que qualquer sujeito que já tremeu um dia na cama, obrigando a casa a tremer, vai me chamar de 'futurista' ou de maluco. Sei mais que existe o fácil argumento em contrário de que se quero ter maleita é só ir na beira do Moji e... tomar maleita. Tudo isso é pueril (Andrade, 1976b, p.453-454; destaque no original).

Aparentemente irmanado com o leitor por meio dos preconceitos da sua época (e ainda em parte nossos), Mário passa em seguida a expor esse mesmo leitor ao seu próprio preconceito, esse oposto da empatia.

Sei que com nossa idiotíssima civilização importada, um indivíduo não se envergonha de arrebentar o fígado à custa de whisky e cocteils, não se envergonha de perder uma perna num desastre de automóvel ou quebrar o nariz numa virada de patinação, mas abomina os prazeres sensualíssimos, tão convidativos ao misticismo, do delicioso bicho-de-pé. Que por nós é considerado uma falta de educação. Não se amola de dormir num quarto de hotel, num trem noturno, onde a tuberculose dorme; sorrindo passa a língua num selo de carta, até sendo essa coisa esteticamente nojenta que é o selo amarelo e vermelho da Segunda República! Pois passa a língua num selo desses e considerará uma depravação, a gente desejar a maleita! (Andrade, 1976b, p.454).

A crônica realiza assim um hábil exercício de relativização cultural e, por meio de uma série de paralelos entre sua defesa da maleita e a condenação dessa visão em nome da civilização, acaba expondo com clareza pedagógica o etnocentrismo dominante em sua (e em parte ainda nossa) sociedade.

Também aos médicos e sanitaristas contemporâneos que pretendiam deter o monopólio da autoridade sobre a malária no discurso científico então em construção, ou procuravam persuadir os leigos e o Estado disso, Mário, claro, tem o que dizer:

A gritos de Higiene (não discuto e reconheço o valor da higiene), a berros de cirurgia e a enriquecimento de jornais, com anúncios de remédios que a gente ingere pela boca mortífera, nós nos iludimos dentro de nossa pseudossabedoria, imaginando que os nossos recursos são maiores, e que o conforto duma poltrona é maior que o do chão duro. Quando tudo não passa duma simples questão de mentalidade e costume (Andrade, 1976b, p.454).

E, por fim, ao argumento difusamente humanista de que "o acesso de tremedeira na maleita é um sofrimento danado", Mário afirma: "Não discuto. Deve ser pois que todos os maleitosos afirmam isso". Mas não deixa de esclarecer:

a obsessão da minha vida, não é o acesso de febre. Nem no acesso de febre se resume a filosofia da maleita, com perdão da palavra. Está claro que o meu desejo é mais elevado. Quero, desejo ardentemente é ser maleitoso não aqui, com trabalhos a fazer, com a última revista, o próximo jogo de futebol, o próximo livro a terminar. Desejo a doença com todo o seu ambiente e expressão, num igarapé do Madeira com seus jacarés, ou na praia de Tambaú com seus coqueiros, no silêncio, rodeado de deuses, de perguntas, de paciências. Com trabalhos episódicos e desdatados, ou duma vez sem trabalho nenhum.

Quanto ao sofrimento dos acessos periódicos, não é isso que desejo, mas a prostração posterior, o aniquilamento assombrado, cheio de medos sem covardia, a indiferença, a semimorte igualitária (Andrade, 1976b, p.454).

Volta, nesse ponto, à comparação como recurso para a relativização cultural, lembrando uma série de hábitos corriqueiros em nossa sociedade e tidos, portanto, como civilizados, que podem esconder o mesmo sentido que ele busca na malária:

Quanto ao acesso, passa. E em nossa civilização o cocainômano, por prazeres possíveis, não aguenta galhardo a fungação, os trejeitos a que obriga o pó? Ninguém dirá, nem mesmo o morfinômano, que uma injeção seja agradável. Vamos além: a infinita maioria dos coctails, a infinita maioria das bebidas fortes é soberanamente desagradável. E nós bebemos tudo isso, por uma infinidade de tendências, de aspirações, de curiosidades, de vaidades, impossíveis de analisar completamente. E pela satisfação de prazeres, de estados fisiopsíquicos posteriores, nós nos sujeitamos a todos esses horrores, e nos sujeitamos a fazer visitas, a participar nosso casamento, a acompanhar enterro, ler jornais, bancar de alegres, e outros sofrimentos e martírios mais maiores e mais quotidianos que o acesso de tremedeira. Ora vocês querem ser 'civilizados!', sejam! Mas eu tenho uma apaixonada atração pela maleita (Andrade, 1976b, p.454-455; destaque no original).

Essa "atração pela maleita" não deixa de convergir com a busca de ascensão a um estado pro-pício à percepção sensorial do mundo almejada por artistas modernistas desde Baudelaire, e com os muitos meios de que se valeram ao longo do tempo para isso. Busca ainda mais acirrada diante do sentido fechamento da ordem burguesa, da descoberta do inconsciente, da linguagem simbolista e suprarrealista adotadas pelas vanguardas europeias e da sua valorização do orientalismo e do primitivo que tanto inspiravam nosso modernismo. A lite-ratura contemporânea - sugere uma crítica - "hesita entre a embriaguez dos sentidos e os benefícios dos êxtases místicos. A ascese religiosa, necessária às iniciações esotéricas, afugenta os comodistas. A grande maioria decide-se pelo recurso às drogas, cujas iluminações pres-cindem da rigorosa disciplina da vontade, exigida pelas seitas orientais" (Queiroz, 1990, p.27).

Todavia, porque a mais importante descoberta modernista do Brasil foi a de que o primitivo faria parte de nós mesmos, não seria exótico como para as vanguardas europeias, Mário pôde se dedicar à transfiguração positiva dos estigmas que há muito marcavam a civilização tropical. Favorecido por essa inaudita atualidade da sensibilidade e expressão brasileiras, o desrecalque cultural que procura provocar a partir da valorização da malária tem claro propósito crítico, coerente com o espírito irreverente e inconformista que animou o melhor do nosso modernismo.

Civilização, civilizações

Estranhamento: essa é a categoria central que organiza a percepção de Carlos Chagas a respeito da região amazônica. Estranhamento que se revela na surpresa diante da natureza, das manifestações mórbidas e da sociedade local. A ideia de uma patologia dos trópicos a desafiar o conhecimento estabelecido, sobretudo no que se refere à malária, perpassa a narrativa sobre a viagem e é reiterada em textos posteriores (Chagas, 1913, 1935). Em seus escritos estão também presentes, ao lado de críticas às condições impostas aos trabalhadores dos seringais, descrições negativas sobre a população local, principalmente no que se refere aos indígenas. O protagonista do povoamento e da civilização dos trópicos seria o migrante, em particular o sertanejo cearense, descrito de forma muito semelhante ao personagem criado por Euclides da Cunha.

Portador de um projeto civilizatório, o cientista, ao refletir a partir de sua experiência na Amazônia sobre os novos conhecimentos relativos à higiene e à medicina tropical, identificava uma tensão entre a afirmação positiva sobre o papel da ciência e os desafios representados pela instabilidade que caracterizava o quadro epidemiológico. Isso ocorria, sobretudo, pelas formas desconhecidas de manifestação da malária e de como elas acometiam as populações ribeirinhas da Amazônia. Em suma, algumas certezas eram relativizadas, ainda que se reiterasse a possibilidade de superar fantasias e promover a civilização nos trópicos. Essa teria de ser promovida por um esforço que conjugasse cientistas e governo, por meio de iniciativas de saneamento; estímulo à migração e ao povoamento.

Nesse esforço, verifica-se o deslocamento de um discurso médico para uma interpretação mais ampla da sociedade. Desse modo, a identificação das doenças endêmicas como principal obstáculo à civilização ganharia progressivo destaque nos anos que se seguiram à descoberta da doença de Chagas; à viagem desse cientista à Amazônia; e à expedição de Arthur Neiva e Belisário Penna a localidades dos vales dos rios São Francisco e Tocantins. Tal imagem se expressaria com mais força na campanha pelo saneamento do Brasil, de final da década de 1910 (Santos, 2004; Kropf, 2009a; Hochman, 1998; Lima, 1999). Aos textos dos médicos Carlos Chagas, Arthur Neiva e Belisário Penna, entre outros, se somariam artigos de escritores, a exemplo de Monteiro Lobato, que iniciava então sua carreira literária e operou a conhecida revisão em seu personagem Jeca Tatu. Não se tratava mais de um mal de raça; porém, era ainda de um mal que se tratava, o que, conforme apontaria Antonio Candido anos mais tarde em seu estudo sobre o caipira paulista, indicaria a persistência do estigma do atraso (Candido, 1971).

Empatia, por outro lado, é a categoria-chave para compreender a perspectiva não apenas do viajante, mas do intelectual e homem Mário de Andrade. Empatia forjada em um jogo complexo de distanciamentos e aproximações, e não meramente deslocamentos; de estranhamentos e reconhecimentos, e não apenas de identificações. Empatia que ele manifesta, sobretudo, com os homens e mulheres do povo e suas formas de sociabilidade, crenças e expressões artísticas populares que podem ajudar a problematizar certas leituras mais apressadas das suas relações intelectuais e sentimentais com o universo popular. Em contraste, os contatos que Mário se vê obrigado a manter com os ricaços e as autoridades locais durante a viagem à Amazônia são marcados por impaciência e irreverência subversivas, como sugere a chave irônica e mesmo cômica com que são quase sempre relatados.8 Do mesmo modo como lhe desagradam as reformas urbanas das cidades grandes por que passa, especialmente Manaus, que lhe parecem artificialmente parisienses, expressões no espaço da bovarista elite oligárquica local forjada na belle époque do látex (Dias, 1999; Lira, 2005).

Esses aspectos assinalados das relações de empatia com o povo e o popular nas viagens que fez ao Norte, e também ao Nordeste no ano seguinte, são duradouros na obra e na trajetória de Mário de Andrade, e assumem um sentido permanente em sua interpretação do Brasil. A viagem de Mário pela Amazônia é também uma forma de meditação sobre a sociedade, e consolida sua comunhão com a cultura do povo, e seu empenho em promover o reconhecimento da sua dignidade e dos seus portadores sociais. Como no caso da sua "filosofia da maleita" aqui explorada, cujo sentido provocativo, irônico e crítico somente se mostra plenamente quando considerado na relação empática do outro e do impacto que ela tem sobre o seu próprio mundo de origem. Afinal, como tão bem sugere Bakhtin (2010, p.23):

entrar em empatia com esse outro indivíduo, ver axiologicamente o mundo dentro dele tal qual ele o vê, colocar-me no lugar dele e, depois de ter retornado ao meu lugar, completar o horizonte dele com o excedente de visão que desse meu lugar se descortina fora dele, convertê-lo, criar para ele um ambiente concludente a partir desse excedente da minha visão, do meu conhecimento, da minha vontade e do meu sentimento.

Malária de um lado, civilização de outro. No caso de Carlos Chagas, a doença, em suas manifestações peculiares na Amazônia, era percebida como principal chave explicativa para o que percebia como atraso e obstáculo à civilização. Desse modo, seu projeto civilizatório atribuía à ciência e à higiene, em particular, o papel central para que se superassem condições que percebia como de atraso nos planos sanitário e social. Ao afirmar que caberia ao método científico dominar a doença e as restrições a uma atividade humana produtiva, o cientista reiterava, ao mesmo tempo, uma concepção unívoca de civilização.

Para Mário de Andrade, porém, a civilização que estigmatiza a Amazônia é "importada", uma "idiotíssima civilização importada" cujo ponto de vista exclusivista é restritivamente "litorâneo-europeu".9 Seu 'desejo de maleita' alimenta, assim, sua utopia de uma sociedade menos alienada e menos alienante que codifica uma crítica a dinâmica social mais ampla e ao sentido pouco criativo e muito subalterno com que o processo civilizatório estaria operando na sociedade brasileira. O que o incomoda é a relação unilateral, de mão única, de importação de práticas e valores externos, e não de tradução crítica a partir da valorização também do que aqui se vinha configurando. Daí o diálogo marcado pela ironia que estabeleceu em torno de algumas ideias centrais da campanha do saneamento da Primeira República e da denúncia dos males do país, tais como um dos brados de seu personagem Macunaíma: "Pouca saúde, muita saúva: os males do Brasil são" (Andrade, 1988, p.69). Em Mário de Andrade, portanto, a valorização do 'primitivo' não se dá, exatamente, em detrimento da 'civilização' (a Europa que também trazemos em nós e de que somos parte), mas antes opera como fator de correção, por assim dizer, como um contraponto à sua tendência de homogeneização.

Antes do que a uma simples oposição à civilização, a valorização do que poderíamos chamar genericamente de 'cultura popular' (brasileiramente transfigurada a partir da valorização vanguardista do primitivo) por parte de Mário de Andrade visa subsidiar uma visão mais plural de civilização. Concepção plural porque nela há lugar para as diferenças e para uma convivência mais democrática entre elas, incluído seus embates. Civilizações e não apenas uma única civilização. A lição não é pequena se lembrarmos, de um lado, dos velhos e novos processos de homogeneização e padronização dos comportamentos, sentimentos e imaginações e, de outro, que a própria obra de Mário de Andrade possui esse caráter mais plural e polifônico, com contrapontos, enfim, que querem significar, acima de qualquer coisa, que nem tudo deve fechar-se em um sentido único.

Assim, talvez, a "civilização importada" seja "idiotíssima" não simplesmente por ser importada, ou, posto de outro modo, não exatamente por Mário de Andrade acreditar na possibilidade e buscar uma identidade estável e autocentrada para a sociedade brasileira, como de resto o seu Macunaíma tão informado pelas leituras amazônicas e sua própria viagem à região já indicava. Mas ela é "idiotíssima" por pretender fechar experiências sociais e culturais tão diferentes como as brasileiras de todas as regiões em um único modelo civilizatório, estigmatizando práticas e valores que dele discrepem. Essa problemática é crucial e merece uma revisão sistemática de modo a tornar mais heurísticos os significados da obra e da trajetória de Mário de Andrade, bem como o sentido do seu modernismo (Botelho, 2012). Problemática a que Mário deu o nome de 'mal de Nabuco', pensando-se ironicamente, segundo afirma em carta de 1924 ao amigo Carlos Drummond de Andrade, como um correlato justamente de Carlos Chagas:

Você [Drummond] fala na "tragédia de Nabuco, que todos sofremos". Engraçado! Eu há dias escrevia numa carta justamente isso, só que de maneira mais engraçada de quem não sofre com isso. Dizia mais ou menos: "o doutor [Carlos] Chagas descobriu que grassava no país uma doença [transmitida pelos barbeiros] que foi chamada moléstia de Chagas. Eu descobri outra doença, mais grave, de que todos estamos infeccionados: a moléstia de Nabuco". É preciso começar esse trabalho de abrasileiramento do Brasil... (Andrade, 2002, p.70).

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1 O jornalista lastimava a impossibilidade de obter informações mais precisas, uma vez que o relatório da viagem, antes de qualquer divulgação, teria de ser encaminhado por Oswaldo Cruz a Pedro Toledo, ministro da Agricultura, Indústria e Comércio.

2 Entre os postos permanentes, destacam-se os de Bambuí e Lassance, em Minas Gerais, criados para o estudo da doença de Chagas.

3 Essa observação não diz respeito apenas aos profissionais do Instituto Oswaldo Cruz, mas aos vários médicos brasileiros e estrangeiros que participaram de atividades dessa natureza e elaboraram textos importantes para o conhecimento das ações realizadas e, em alguns casos, da ecologia e das populações locais. Missões como a de Rondon e as diversas tentativas de construção da ferrovia Madeira-Mamoré foram acompanhadas de importantes relatórios elaborados pelos médicos. Algumas indicações nesse sentido podem ser vistas no livro de Hardman (1991).

4 O mais importante estudo biográfico sobre Carlos Chagas foi realizado por seu filho, Carlos Chagas Filho (1993). Para uma análise histórica sobre a descoberta e a importância da doença de Chagas na história da saúde e do pensamento social no Brasil, ver Kropf (2009a).

5 Uma análise mais detalhada do relatório, incluindo a leitura de versões preliminares encontra-se em Schweickardt, Lima (2007).

6 O título do livro de Leite Moraes é Apontamentos de viagem de São Paulo à capital de Goiás, desta à do Pará, pelos rios Araguaia e Tocantins e do Pará à Corte: considerações administrativas e políticas.

7 Como sugere, entre outros trechos, a entrada do dia 15 de junho, em que relata sua conversa com o senhor idoso e enfermo de Remate de Males, que viajava na terceira classe do navio: "só quem sabe mesmo alguma coisa é gente ignorante de terceira classe" (Andrade, 1976a, p.100).

8 Como na chegada a Iquitos, no Peru: "Caceteações de recepção oficial, uma centena de apresentações. O presidente da província, todo de branquinho, um peruanito pequetito, chega, vai no salão, senta troca trinta e quatro palavras com dona Olívia, se levanta militarmente e parte. Então o secretário dele ou coisa que o valha, me avisa que ele espera em palácio, a retribuição da visita dentro de duas horas exatas! Como os reis em Londres ou na Itália, viva o protocolo! ... Homem! Sei que sentei na cama desanimado, me deu vontade de chorar, de chamar por mamãe... Em palácio, recepção alinhada, tudo de branco. Tive que fazer de novo o improviso que fizera pela primeira vez em Belém e repetira já várias vezes, sempre que encontrava discurso para dona Olívia pela frente" (Andrade, 1976a, p.113).

9 Percebe-se aqui, embora não se possa tratar do assunto neste momento, a presença de Euclides da Cunha inclusive no léxico de Mário de Andrade.

Recebido: Setembro de 2012; Aceito: Março de 2013

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