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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.20 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-597020130003000009 

Análise

Geraldo Horácio de Paula Souza, a China e a medicina chinesa, 1928-1943

Geraldo Horácio de Paula Souza, China and Chinese medicine, 1928-1943

Maria Inês de França Roland1 

Reinaldo José Gianini2 

1Doutora pelo Programa de Pós-graduação em medicina preventiva da Faculdade de Medicina/Universidade de São Paulo. Avenida Doutor Arnaldo, 455, 2o andar, 01246-903 - São Paulo - SP - Brasil.minesroland@usp.br

2Professor da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Sorocaba. Praça Doutor José Ermírio de Moraes, 290, 18080-230 - Sorocaba - SP - Brasil.rgianini@pucsp.br

RESUMO

Estuda-se a produção ensaística do médico Geraldo Horácio de Paula Souza em Eugenia e imigração (1928), e após viagem oficial ao Oriente, em Digressões sobre a medicina chinesa clássica (1942) e A sabedoria chinesa diante da ciência ocidental e a Escola Médica de Pequim (1943). Os documentos analisados por meio das matrizes conceituais de Carlo Ginzburg indicam uma mudança na visão do sanitarista sobre os chineses. Formado segundo o modelo de medicina experimental difundido pela Fundação Rockefeller, Paula Souza pautou sua prática profissional pelo rigor científico e valorização do registro imagético. Após sua viagem à China, a linha de pensamento defendida na juventude, de estagnação da civilização chinesa, mudou, diante daquilo que considerou capacidade modernizadora da China republicana.

Palavras-Chave: Geraldo Horácio de Paula Souza (1889-1951); medicina chinesa; educação médica; acupuntura; Escola Médica de Beijing

ABSTRACT

This essay is on the writings of sanitary doctor Geraldo Horácio de Paula Souza in Eugenia e Imigração (1928) and, after an official trip to the Orient, in Digressões sobre a medicina chinesa clássica (1942) and A sabedoria chinesa diante da ciência ocidental e a Escola Médica de Pequim (1943). The documents, analyzed according to the conceptual approach of Carlo Ginzburg, indicate a change in his view of the Chinese. Trained according to the Rockefeller Foundation's model of experimental medicine, Geraldo de Paula Souza was guided in his work by scientific rigor and record imagery. In his youth he was of the opinion that the Chinese civilization was stagnated, but this view changed after his visit, when he perceived the Chinese republic's capacity to modernize.

Key words: Geraldo Horácio de Paula Souza (1889-1951); Chinese medicine; medical education; acupuncture; Beijing Union Medical College

Para nosso país, onde contrastam a grande extensão territorial e possibilidades econômicas de todo gênero, com nímia escassez de população, a imigração abundante, sem perigo de predomínio sobre o elemento nacional, é uma necessidade meridiana. Cumpre, porém, cautela e inteligente prudência. ... O imigrante não é um hóspede passageiro. ... É necessário refletir maduramente e em tempo oportuno. ... A época dos semitas parece extinta; a raça preta nada tem produzido de notável; a amarela ilustrou-se em tempos recuados, com a civilização chinesa, que estacionou, entretanto, como que significando esgotamento de aptidões.

Souza (1928, p.5)

O estudo da China moderna, nos seus diferentes aspectos, como o que ora tentamos, no setor da medicina, deve interessar especialmente aos brasileiros, no esforço de tornar realmente independente e forte o nosso país. No mundo moderno, os países devem criar uma nítida compreensão entre os seus filhos, do que se deve entender por nacionalismo elevado, esse nacionalismo que não se opõe ao mais perfeito sentimento internacionalista, porém que se não submete à condição colonial e servil. Somente assim, poderemos todos contribuir para o bem-estar geral, tanto na esfera econômica como cultural, aceitando os benefícios do capital e da técnica alienígenos para o desenvolvimento de nossa riqueza, sem o perigo da absorção e da subordinação.

Souza (1943, p.31)

Em 18 de agosto de 1939, o Buenos Aires Maru1 partiu do porto do Rio de Janeiro, levando consigo, entre outros passageiros, Geraldo Horácio de Paula Souza, sua esposa Evangelina e outros acadêmicos (dois advogados e um engenheiro), rumo ao Japão, em visita oficial a instituições de ensino superior daquele país. Fluente em francês e inglês, catedrático em Higiene no Instituto de Higiene e Saúde Pública (IHSP) da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo desde 1922, Geraldo de Paula Souza nutria gosto singular pelo conhecimento e paixão pelo registro fotográfico cultural e de cunho científico, adquirido nos tempos da Johns Hopkins University.

Geraldo Horácio de Paula Souza (Figura 1) nasceu no dia 5 de julho de 1889, na cidade de Itu, São Paulo, um ano após a abolição do regime escravocrata e às vésperas da Proclamação da República, filho mais novo de Antonio Francisco de Paula Souza, criador da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e Ada Herwegh (Santos, Faria, 2003; Campos, 2002). Sobre o médico sanitarista, cabe mencionar, ainda, a graduação em Farmácia pela Faculdade de Farmácia de São Paulo, concluída em 1908, e Medicina, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1913; o ingresso na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, no cargo de assistente no Departamento de Química, em 1914, e o retorno a essa instituição de ensino no ano de 1920, já como catedrático da disciplina de higiene e diretor do IHSP daquela faculdade. Também ocupou a direção do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo entre 1922 e 1927, desde então seguindo carreira nacional e internacional relacionada à higiene e saúde pública, como diretor do IHSP2; membro do Instituto de Organização do Trabalho (Idort)3; membro do Serviço Social da Indústria (Sesi)4; integrante da Liga das Nações5 e da Divisão de Saúde da United Nations Relief and Rehabilitation Administration (Unrra)6 (Campos, 2002), onde travou contato e estabeleceu vínculo com o doutor Szeming Sze

, médico e diplomata chinês. Cosmopolita, modelo de profissional para muitos médicos sanitaristas de sua época, Geraldo Horácio de Paula Souza tornou-se - seis anos após aquela viagem ao Oriente - responsável direto pela criação da Organização Mundial de Saúde (OMS)7, ao lado de seu colega chinês da Unrra. Paula Souza e Szeming Sze eram membros das delegações de seus países, Brasil e China, na reunião de constituição da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945.

Figura 1 Geraldo Horácio de Paula Souza (Acervo Ada de Anhaia Mello) 

À sua biografia deve-se acrescentar o nome de Francisco Borges Vieira, colega e amigo; ambos foram bolsistas da Escola de Higiene e Saúde Pública da Johns Hopkins University, entre 1918 e 1920, quando se tornaram os primeiros médicos brasileiros a obter título de doutorado em Higiene e Saúde Pública. Desde então, os dois colegas e amigos seguiram juntos na carreira profissional. Deve-se, da mesma forma, mencionar o nome do doutor Lim Chong-Eang (

8; pinyin: Lín Zong-Yáng), colega chinês de Geraldo de Paula Souza na Johns Hopkins. Os dois amigos se reencontraram quando da visita de Geraldo de Paula Souza à China, ocasião em que o doutor Lim Chong-Eangera catedrático e um dos diretores da Beijing Union Medical College (BUMC).9

O presente estudo acompanha a produção ensaística sobre a China e a medicina chinesa de Geraldo de Paula Souza, após sua viagem ao Oriente.

No dia 1o de setembro de 1939, o Buenos Aires Maru navegava pelas águas do Pacífico, quando eclodiu a II Guerra Mundial. Essa viagem teve como pano de fundo a estabilização da ditadura Vargas no Brasil, e a indecisão do Estado brasileiro entre constituir aliança geopolítica com os países que formavam o Eixo ou aqueles que se reuniram entre os aliados. Nos anos em que Geraldo de Paula Souza publicou seus livros e realizou palestras sobre a China e a medicina chinesa (1942-1943), esse quadro já estava definido, e o Brasil se encontrava vinculado na guerra aos chamados países aliados.

Fontes e metodologia utilizadas

Constituem as fontes de pesquisa documentos particulares da esposa de Geraldo Horácio de Paula Souza, Evangelina, e da filha Ada Celina Paula Souza de Anhaia Mello, além de documentos do acervo do Centro de Memória da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (Rodrigues, 2008).

Esses documentos englobam cartas, reportagens jornalísticas, material de divulgação, diários e obras publicadas, dentre elas Eugenia e imigração (1928); Digressões sobre a medicina chinesa clássica (1942); e A sabedoria chinesa diante da ciência ocidental e a Escola Médica de Pequim (1943) (Figuras 2 e 3).

Figura 2 Capa de Digressões sobre a medicina chinesa clássica: respeito e reverência à medicina chinesa clássica e à civilização chinesa 

Figura 3 Capa de A sabedoria chinesa diante da ciência ocidental e a Escola Médica de Pequim: vínculo harmonioso entre o clássico e o moderno 

Usa-se como metodologia a teoria indiciária de Carlo Ginzburg10 - com análise temática e de conteúdo. Buscam-se indícios da mudança de visão do médico brasileiro em relação à China e à medicina chinesa, evidenciados em suas obras, mas silenciados até os anos 1980 na Faculdade de Medicina e na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Desse silêncio decorrem as questões centrais que orientam este trabalho: por que teria Geraldo Horácio de Paula Souza publicado dois livros sobre a China, três e quatro anos após uma viagem oficial ao Japão para conhecer instituições japonesas? O que conta Geraldo de Paula Souza nessas obras? Como se dá a circulação dessas ideias e por que elas resultam em silêncio?

Pretende-se relacionar as obras em estudo com as disputas em torno do modelo de ensino médico no Brasil naquela época, bem como o de nação, pautado pela educação das massas, nutrição e saúde pública.

Da China para o Brasil: tratamentos de saúde não incluíam a acupuntura

Os jesuítas são considerados os principais divulgadores dos medicamentos asiáticos no Ocidente, a partir do século XVI. No Brasil, estabeleceram boticas em Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo (Leite, 1999). Freyre (2008) menciona as ervas medicinais chinesas, mas não a acupuntura como terapêutica transplantada para o Brasil no período colonial.

Quando Geraldo Horácio de Paula Souza realizou suas palestras sobre medicina chinesa clássica e moderna (1942-1943) na Escola Paulista de Medicina, na Associação Paulista de Medicina, no Instituto Biológico e na Associação Brasileira de Educação (esta no Distrito Federal), a medicina chinesa não parecia constituir objeto de investigação ou prática dos médicos brasileiros nem chineses, quanto mais a acupuntura.

Em suas palestras, elogiou o brilhantismo de uma civilização com pelo menos cinco mil anos de mentalidade singular e o espírito laborioso e forte de seu povo. Mencionou os métodos de tratamento utilizados pela medicina chinesa clássica, considerando ser o mais antigo a acupuntura, seguido do moxibustão, encantamentos, prática cirúrgica e anestesia, além de alguns aspectos de magia como decorrência do taoísmo esotérico.11 Paula Souza considerou a medicina chinesa clássica preventiva12 e com aproveitamento possível na "medicina social moderna" (Souza, 1942, p.11).

Esse discurso contrasta com aquele do jovem médico que escrevera Eugenia e imigração, quatorze anos antes, quando considerava a civilização chinesa estagnada no potencial de realizações.

Medicina chinesa clássica

Regressando do Oriente, Geraldo de Paula Souza buscou literatura para estudar mais profundamente a civilização chinesa e a medicina chinesa clássica. Em Digressões sobre a medicina chinesa clássica, afirmou pouco ter encontrado e se revelou inseguro quanto à fidedignidade das traduções existentes.13 Tomou como base obra de Wong e Wu14, acrescidas de outras referências, dentre elas A China e os Chins, do embaixador Henrique Lisboa, que esteve a serviço do Brasil na China, no final do século XIX.

Digressões nasceu de duas conferências sobre a medicina chinesa, apresentadas na Associação Paulista de Medicina e no Instituto Biológico, em meados de 1942. O assunto foi retomado em palestra proferida na Associação Brasileira de Educação, em 22 de julho de 1943, no Distrito Federal (Possui a China..., 22 jul. 1943; Panorama..., 23 jul. 1943). Considerando-se apenas os documentos disponíveis, sabe-se que a obra foi presenteada a Monteiro Lobato (Lobato, 6 fev. 1944), doutor Vital Brasil (Campanha, 9 fev. 1944), doutor Antonio de Almeida Prado (6 fev. 1944), Arnold Tachudy (Souza, 1 fev. 1944), Roberto Simonsen (4 maio 1944) e Washington Luís Pereira de Souza (3 jan. 1945). O doutor Vital Brasil, médico sanitarista de renome internacional ligado à Fundação Rockefeller, era diretor do Instituto Butantã; doutor Antonio de Almeida Prado era catedrático da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo; Arnold Tachudy, representante do Coordenator of Interamerican Affairs of The United States of America; Roberto Simonsen, engenheiro, industrial, administrador, professor, historiador e político, criador do Serviço Social da Indústria (Sesi), em 1942, e responsável pela participação de Geraldo de Paula Souza no Sesi e no Idort. Washington Luís, advogado, historiador e político brasileiro, fora presidente do estado de São Paulo (1920-1924).15

Pela mesma correspondência, Geraldo de Paula Souza informou que também fez circular a obra sobre a Escola Médica de Beijing, o que parece bastante compreensível, considerada sua defesa dos princípios daquela faculdade aplicados a São Paulo e ao Brasil.

Digressões pode ser considerada um enigma na formação e carreira de Geraldo de Paula Souza. Por que o médico brasileiro teria se debruçado sobre tema dessa natureza? A obra busca o entendimento da medicina chinesa clássica, ainda que vista como algo superado. Em contrapartida, a obra também enaltece o progresso dos chineses por meio da ciência e eugenia pela educação, à maneira ocidental.

As impressões de viagem à China experimentadas por Geraldo de Paula Souza podem ser inferidas da correspondência enviada ao embaixador Chen Chieh16 em 2 de março de 1944, quando escreve: "Renovo aqui a minha afirmação de que fiquei encantado com o seu país em minha viagem ao Extremo Oriente, pedindo-lhe crer-me um dos seus mais sinceros admiradores e estudiosos de sua civilização" (Souza, 2 mar. 1944). De fato, ele passa a estudar com interesse a medicina e a civilização chinesas.

Na obra em questão, caracteriza o chinês como possuidor de uma mentalidade17 distinta da ocidental.

Em uma pequena e preciosa monografia de Claude Ferrère, esse fino observador muito bem coloca a questão: "os chineses não são superiores aos outros homens; não são também inferiores; são apenas diferentes". Nessa frase há uma imensa verdade que devemos ter sempre em boa lembrança. ...

{os chineses} procuram em nossos dias se incorporar ao restante da humanidade, absorvendo a cultura do ocidente, sem se despir das conquistas do seu próprio passado, trazendo o subsídio de uma mentalidade inteiramente outra (Souza, 1942, p.4-5) .

Enfatiza a antiguidade da civilização chinesa18, a comunicação pela escrita e a religião19, além de considerar o chinês um homem resistente à dor e à fadiga. Quanto ao pensamento, considera o chinês filosófico e místico, em oposição ao uso do método analítico e científico no Ocidente, sendo sua "fé na medicina preventiva" o aspecto positivo daquele modo de pensar (Souza, 1942, p.11). Por exemplo, provoca-lhe estranhamento o culto aos antepassados e o respeito ao conceito de Feng shui

nas práticas diárias e tomadas de decisão dos chineses.

Geraldo de Paula Souza descreve certo desenvolvimento histórico das teorias e práticas médicas clássicas chinesas que remontam a aproximadamente dois mil e setecentos anos, com o uso da acupuntura, moxibustão, massagens e beberagens, passando por insignes médicos como Chang-Chung-Ching

e Hua-Tuo (

; pinyin: Huá Tuó) como exemplos de experimentação e medicina científica. Segue até o período chamado de medieval por Wong e Wu (1936), quando se verifica uma estagnação do desenvolvimento experimental da profissão, refratária às tentativas de introdução da medicina ocidental na China. Apresenta como exemplo disso a infrutífera tradução para o mandarim, pelo frade Dominique Parrenin, de L'anatomie de l'homme suivant, la circulation du sang et lês nouvelles decouvertes, de Dionis, um século depois de Vesalius realizar seus estudos anatômicos e publicar sua obra a respeito do assunto.20

Essa mentalidade médica foi revigorada pelo Ocidente, de maneira substancial, segundo Geraldo de Paula Souza, apenas nas primeiras décadas do século XX. Nesse aspecto, o médico brasileiro pareceu desejar qualificar a cultura chinesa, ainda que considerasse a necessidade de uma leitura crítica sobre o assunto. Se discordou de conceitos da medicina chinesa clássica considerados por ele equivocados, tratou em seguida de alguma deficiência da medicina ocidental, não deixando aquela abandonada em suas fragilidades. Exemplo disso pode ser lido, com algum humor, nesta citação de Lin Yutang

:

Nenhum chinês seria, diz ele, suficientemente estúpido para dissertar sobre o 'sorvete', e, após uma série de cuidadosas observações, chegar à conclusão de que a principal função do açúcar é de conferir-lhe o gosto doce, ou discutir sobre as bactérias das roupas de uso íntimo, que aumentam à medida que se tornam mais usadas - assuntos esses, tratados em conspícuas teses apresentadas a uma universidade americana. Sem a visão científica, afirma, mas dotado de um grande senso comum, o chinês considera o estudo e a observação da vida de um verme ou de um peixe-dourado, abaixo da dignidade de um intelectual (Souza, 1942, p.49-50).

Geraldo de Paula Souza discorreu sobre a relação íntima entre a medicina chinesa clássica e a cosmogonia chinesa. Apresentou de forma criteriosa aspectos culturais e filosóficos. Sobre a medicina chinesa clássica, discorreu sobre os princípios que a caracterizam: o dos wuxing (

- cinco movimentos), o do Yin-Yang (

), o dos Zang-fu (

); o dos Sanjiao (

- porções toráxica, abdominal superior e abdominal inferior, chamados pelo autor de "três espaços ardentes", em Souza, 1942, p.33); o do Gui (

- alma), o do Shen (

; pinyin: Shén - Espírito), e o dos Jinluo (

, chamados mais apropriadamente pelo autor de "doze canais", em Souza, 1942, p.32)21, chamando atenção para o diagnóstico característico da medicina chinesa clássica e, na construção deste, o lugar privilegiado da pulsologia chinesa.22 Alertou para a importância de os missionários e médicos em serviço na China conhecerem as particularidades da cultura e da medicina chinesa clássica, a fim de realizarem um trabalho mais adequado naquele país.

Geraldo de Paula Souza discorreu também, não sem admiração, sobre o conceito de saúde na medicina chinesa clássica, segundo a qual o estado de saúde é decorrência da harmonia dos cinco elementos constitutivos do homem: madeira, fogo, terra, metal e água, sendo a doença resultado da alteração dessa harmonia. Para o chinês, afirmou:

As causas das doenças são de três ordens: as internas, as externas e as que escapam a essas duas categorias. As internas derivam das 'sete emoções', a saber: alegria, tristeza, aflição, ódio, amor, medo e desejo; as externas, das 'seis influências': vento, calor, umidade, fogo, secura e frio. Na terceira categoria, figuram as doenças derivadas da fome, do excesso de alimentação, da perda de voz pelo excesso de gritar, das picadas de insetos e mordidas de animais, das feridas, do afogamento etc. (Souza, 1942, p.30; destaques no original) .

Questão de interesse, abordada com especial atenção, foi a da anatomia. Tal é a importância desse tema para a medicina ocidental que Geraldo de Paula Souza fez um exercício de ilustração comparada entre as representações gráficas de anatomia chinesa e ocidental, apontando o caráter aparentemente fantasioso da primeira em relação à segunda. Acrescentou longa explanação sobre a teoria dos Zang-fu, considerada por ele como anatomia chinesa, e concluiu que a deficiência chinesa em relação à anatomia moderna se devia ao fato de, na China, por motivos religiosos, ter sido proibida no passado a dissecação de cadáveres. Embora essa ideia ainda persista em alguns meios, já é evidenciado que a medicina chinesa possuía investigação em anatomia desde pelo menos o século I d.C. (Schnorrenberger, 2008). Quer parecer que, por meio de suas comparações entre a medicina chinesa clássica e o desenvolvimento histórico da medicina ocidental, Geraldo de Paula Souza buscasse construir algum fio de continuidade entre elas. Como se a medicina chinesa pudesse ter chegado ao estágio da medicina científica, caso não houvesse sofrido obstáculos externos a seu desenvolvimento natural.

Atenção não tão detalhada foi reservada à farmacopeia chinesa, tema retomado em A sabedoria chinesa diante da ciência ocidental e a Escola Médica de Pequim, também de maneira apressada. Em Digressões, o médico sanitarista chamou atenção apenas para as drogas vendidas nas ruas por camelôs ou em boticas - o que não deixa de ser curioso, haja vista a importância conferida pela medicina chinesa às terapêuticas medicamentosas por meio de substâncias vegetais, animais e minerais - e observou a necessidade de redução dos milhares de ervas medicinais a um elenco de algumas centenas, no sentido de simplificar um conhecimento muito vasto, de difícil aprendizado. Nesse sentido, a leitura da medicina chinesa clássica feita por Geraldo de Paula Souza se mantém bastante atual no Brasil, posto que ela quase se reduz à acupuntura. Também atual é seu reconhecimento da efetividade da medicina chinesa clássica em alguns casos e da continuidade de seus estudos em ambiente científico (mesmo após seu ensino e prática terem sido oficialmente proibidos em território chinês). O médico comentou:

Por mais primitiva e empírica que nos pareça a prática médica daquele povo, há particularidades que nos surpreendem, como as asserções de médicos que por lá têm vivido. Morse, por exemplo, fala-nos a respeito de doentes examinados e tidos como incuráveis pelos nossos recursos e que, entretanto, se apresentavam curados pelos chineses! Se isso nada significa, como diz ele, serve pelo menos para nos mostrar que não devemos desprezar o que alguns, por vezes, conseguem (Souza, 1942, p.43) .

Geraldo de Paula Souza (1942, p.44) reconheceu a existência de produção de estudos científicos na área, na China e no exterior, apesar da proibição do ensino e da prática dessa medicina em território chinês:

A matéria médica chinesa tem sido objeto de estudos, não só de médicos do país, como também do estrangeiro, nesses últimos anos. Dos primeiros destacam-se alguns de grande cultura à antiga, colaborando com os de formação mais moderna. Uma era nova se abre, assim, a investigações do mais alto valor. Quando menos, colocará a questão nos seus devidos termos, eliminando tanto os exageros dos que se excederam em louvores à medicina empírica, como dos que desprezaram as lições que esta pode fornecer.

E completou, a respeito da

biblioteca da famosa Escola Médica de Pequim, uma das mais completas e modernas da atualidade. Lá se cultua, carinhosamente, a história da medicina. Há entendidos da medicina antiga trabalhando ao lado dos mais modernos investigadores. Uns escavam os arredores da cidade na pesquisa dos restos do homem primitivo (de Beijing), êmulo do de Neanderthal; outros, no trato dos velhos manuscritos, revelam o que de interessante pode haver naqueles documentos (Souza, 1942, p.48) .

Como mencionado anteriormente, a acupuntura e a moxibustão foram apresentadas como terapêuticas muito empregadas pela medicina chinesa clássica. Vale insistir nesse e em outros sinais que Geraldo de Paula Souza deixa em sua apresentação da medicina chinesa clássica, tais como o uso dos termos 'canais' e 'meridianos' para conceituar os Jinluo, a explicação detalhada da pulsologia chinesa e o uso do termo 'clássica' para classificar a medicina estudada e praticada pelos chineses antes da chegada da medicina ocidental na China (Souza, 1942). Isso indica ao menos dois aspectos dessas obras: (i) circulava informação sobre acupuntura e moxibustão no Ocidente e, muito possivelmente, no Brasil23 nesse período, e Geraldo Horácio de Paula Souza teve contato direto ou indireto com ela, desenvolvendo seu argumento a partir de literatura e, quem sabe, observação, ao menos em sua visita à China; e (ii) a medicina chinesa clássica permaneceu efetivamente sendo estudada pelos médicos chineses, tendo seus tratados preservados, o que garantiu sua sobrevivência até a atualidade. (Figura 4)

Figura 4 Fotografia tirada por Geraldo de Paula Souza sobre estratégia de tratamento de saúde com moxibustão (Acervo Ada de Anhaia Mello) 

No campo da higiene, o médico brasileiro considerou muito rudimentar o que se pratica na China, com algumas obras de saneamento e práticas remotas de variolização, entre outras menores.

As páginas finais de Digressões foram dedicadas à biologia. Nelas, Geraldo de Paula Souza descreveu os achados de estudiosos chineses contemporâneos sobre as teorias chinesas clássicas a respeito dos vermes e suas manifestações nos humanos.

Novamente, Geraldo de Paula Souza chamou atenção para o fato de essa medicina clássica, considerada por ele como estática e estagnada - o mesmo sendo dito a respeito da medicina medieval europeia - ainda ser objeto de estudo e prática nas faculdades de medicina chinesa modernas. Foi considerada digna de menção a interpretação chinesa clássica sobre os vermes:

os vermes não são completamente parasitos, alguns são produzidos pela metamorfose em pessoas descuidadas na ingestão de alimentos sujos ou crus e frios. Esses alimentos, estagnados e indigeridos, podem se transformar em vermes pela ação do yin e do yang. O meio mais seguro de diagnosticar a infecção verminótica é a presença de manchas esbranquiçadas na parte interna dos lábios. Outros sintomas são a palidez da face, fraqueza geral, endurecimento do abdômen (Souza, 1942, p.52-53) .

Progresso por meio da ciência e eugenia pela educação

Existe uma distinção evidente entre o jovem Geraldo de Paula Souza que escreve Eugenia e imigração (1928) e o médico amadurecido que produziu duas obras sobre a medicina chinesa clássica e moderna, passada pouco mais de uma década. Naquela obra, o autor classifica três tipos de eugenia: a positiva (casamentos recomendáveis, para evitar males congênitos; educação sexual, para promover a castidade extraconjugal e evitar doenças venéreas; e cultura física e mental, para promover o desenvolvimento animal e intelectual, por meio da educação escolar); a preventiva (para evitar fatores disgênicos e degenerativos, como o crime, os vícios, os excessos e as moléstias); e a negativa (para evitar a procriação de anormais e perpetuar taras, por meio da evitação de casamentos perniciosos).

Estimular exclusivamente a imigração ariana que se dissolva com facilidade na massa da população nacional e contrariar a introdução de outros elementos é imperioso, para prosseguir com atividade a atenuação dos caracteres inferiores que têm influído na forma-ção do tipo, e para consequente elevação deste. Favorecer fatores que venham a acrescer o contingente que se deve corrigir é evidente desserviço à maior das causas nacionais.

O amarelo, com a continuidade da imigração, formará provavelmente, no nosso meio, como fatos de observação já comprovada, verdadeiros corpos estranhos, refratários à absorção étnica e, de futuro, perigosa à nossa integridade territorial. Difícil será, tantas as diferenças físicas e psíquicas entre o brasileiro e o amarelo, a assimilação deste pelo primeiro. Difícil e também indesejável, porque essa fusão viria renovar ou aumentar o índice mongólico do nosso tipo, que se deve atenuar e se vai reduzindo com a arianização do brasileiro. Mamelucos e cafusos ou caborés, fusão aqueles do branco com o índio e estes do mulato com o indígena, de raça mongólica segundo as presunções, são elementos inferiores que só degradariam o nosso tipo, sobre o qual já reagiram e, em pequena escala, felizmente, ainda atuam (Souza, 1928, p.6) .

O médico que visitou a China onze anos depois, considerou a Escola Médica de Beijing "a mais perfeita de quantas temos visitado" (Souza, 1943, p.7).

Antecipando o que será apresentado a seguir, em A sabedoria chinesa diante da ciência ocidental e a Escola Médica de Pequim foram objeto de interesse de Geraldo de Paula Souza, além do partido arquitetônico, a duração dos cursos, a grade curricular, a dedicação dos professores em tempo integral, os idiomas utilizados nas aulas (chinês, inglês, francês, alemão, japonês), e ainda a distribuição das escolas médicas pelo território chinês: tudo descrito com riqueza de detalhes, apresentado na forma de anexo em sua obra. Escreveu o médico brasileiro:

Que linda lição para o Brasil, onde tanto há que fazer! Vastos territórios a serem povoados, enormes massas humanas a serem cuidadas; problemas médico-sociais de toda ordem; incógnitas a serem determinadas; ameaças à saúde coletiva, e precariedade de recursos para tudo resolver. Os maiores gastos que se façam, no sentido de prover o país com universidades, com centros de pesquisa e de ensino da medicina sob seus vários aspectos, serão largamente compensados pelas economias resultantes de uma melhor saúde pública, de mais firme estruturação social, uma mais forte geração de brasileiros, capazes de velar pela integridade e progresso da nação (Souza, 1943, p.30-31) .

Dentre os aspectos que colocam a China na modernidade, Geraldo de Paula Souza enalteceu - já evidente nas Digressões sobre a medicina chinesa - , o impulso desta no sentido da ocidentalização, mantendo relativa autonomia.

A Escola Médica de Beijing

Em A sabedoria chinesa diante da ciência ocidental e a Escola Médica de Pequim, Geraldo de Paula Souza apresentou o estado em que se encontrava, então, o ensino superior no Brasil e, particularmente, na cidade de São Paulo24, destacando as faculdades de Direito, a Politécnica e a Faculdade de Medicina, incorporadas à recém-criada Universidade de São Paulo, "as mais bem dotadas do Brasil, ainda ... mesquinhamente aparelhadas diante do potencial de riquezas que a nossa terra representa {, pois} ... Se na terra fértil tudo cresce, melhor ainda seria quando devidamente cuidada" (Souza, 1943, p.4). Sobre a Faculdade de Medicina, cuja responsabilidade de formar os melhores profissionais é acrescida à de se tornar um centro de cultura e pesquisa, são tecidos comentários sobre a dificuldade de a Fundação Rockefeller implementar o modelo Flexner de ensino, nos anos 1920 (Souza, 1943, p.5).

alguns anos depois de sua criação, dois princípios foram adotados após ingente luta gerada pela incompreensão; o princípio de limitação do número de estudantes, de acordo com a capacidade do ensino real, já aceito por todos, e o do estabelecimento de departamentos em regime de tempo integral, assegurando ao ensino a máxima eficiência. Assim mesmo, nem o primeiro chegou a ser estabelecido segundo a razão de ser da sua instituição, por isso que, limitado embora o número de alunos, este sempre excedeu a capacidade do ensino diante da exiguidade dos recursos outorgados; quanto ao segundo, pode dar franca demonstração de sua utilidade, ainda que parcialmente adotado e atingindo apenas parte das cadeiras do curso, aquinhoado com restrições e o que é mais sério, constantemente ameaçado de desaparecer. Não obstante, essas normas, aplicadas em parte, permitiram, em determinados assuntos, se distanciasse a nossa escola de quantas existem na América do Sul.

Deve-se ler, nessa passagem, a crítica direta de Geraldo de Paula Souza aos tropeços (Mota, 2005) de São Paulo na constituição da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo no mesmo período, a qual, tendo contado com apoio da Fundação Rockefeller nos anos 1920, da mesma forma como sua congênere chinesa, tinha seu desenvolvimento entravado pela falta de professores em regime de dedicação exclusiva, inexistência de um hospital até 1943, entre outros problemas. Deve-se ler também que, ao escrever suas obras sobre a China, Geraldo de Paula Souza estava empenhado em conquistar a autonomia definitiva da Escola de Higiene e Saúde Pública. Desde 1934, havia uma mobilização em torno do "reconhecimento do diploma {de médico sanitarista} como o documento emitido pelo Departamento Nacional de Saúde, com sede no Rio de Janeiro. Esse pedido foi deferido apenas em 1941" (Brener, 2010, p.47) e, apenas em 1945, a autonomia foi conquistada, por meio da ação conjunta de Borges Vieira e Geraldo de Paula Souza, este nos EUA, participando da reunião preparatória para constituição da ONU, aquele na direção da Escola de Higiene e Saúde Pública. Pelo decreto-lei n.14.857 foi criada a Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo (Brener, 2010).

Retomando nessa obra a reflexão sobre cultura e medicina chinesa clássica, Geraldo de Paula Souza reverenciou a antiguidade da civilização chinesa, mas enalteceu a superioridade, o dinamismo e o progresso do Ocidente. Sobre as concepções filosóficas chinesas e medicina clássica, considerou que, no chinês

O seu espírito prático, no que tange ao sentimento religioso, escolhe entre o Budismo, melhor adaptado às preocupações dos habitantes das cidades e o Taoísmo, talhado para satisfazer os campesinos, e a doutrina de Confúcio, código de ética elevada, seguido pelos letrados. Nenhuma contradiz a outra a ponto de não poderem elas ser a um tempo aceitas pelo mesmo indivíduo.

Sob o ponto de vista médico, o Taoísmo foi mais fértil em criações. Sob seus auspícios nasce o estudo das plantas medicinais, uma concepção fisiológica, sendo afiliado a uma teoria cosmogônica. As noções se entrelaçam, 'o simbolismo dos cinco elementos, a magia, as lendas, os encantamentos, a astrologia, os afrodisíacos, a hierarquia dos deuses, os sacerdotes, constituem a parafernália indispensável à criação de uma boa e sólida religião popular'. Cuida ainda do atletismo e da higiene corporal, da qual a inspiração profunda é parte importante, conduzindo à imortalidade, - 'o Taoísmo, em resumo, é uma tentativa chinesa de descoberta dos mistérios da natureza' (Souza, 1943, p.9-10; destaques no original) .

O livro de Geraldo de Paula Souza pode ser considerado, nesse contexto, uma reafirmação de suas convicções políticas e profissionais, como médico sanitarista e educador em saúde, além de seu alinhamento aos princípios da Fundação Rockefeller.

A obra pode ser dividida em três grandes temas: a ideia de progresso no ocidente e a República chinesa; a defesa do modelo do ensino médico em prática na Escola Médica de Beijing; o modelo de escola médica idealizado por Geraldo de Paula Souza, permeados por uma crítica discreta à invasão japonesa, esta última de interesse particular, pois, ao viajar para o Oriente, Geraldo de Paula Souza estava em missão oficial de visita a instituições daquele país, a convite do governo japonês. Causa curiosidade que, ao retornar, tenha se dedicado tão fortemente a estudar a civilização e a medicina chinesa clássica, e enaltecer a Escola Médica de Beijing, tendo visitado escolas médicas do Império do Sol Nascente.

Sobre a invasão japonesa, aborda a interiorização das universidades chinesas e não deixa de mencionar as transformações impostas pelos países hegemônicos, durante o processo de ocidentalização da China (Souza, 1943, p.16, 19-20), na passagem do século XIX para o XX.

Apesar da duração da guerra e da perda em homens, o Governo Chinês, além de facilitar, por todos os modos, as instituições culturais, tomou a deliberação de não chamar às armas alunos e mestres. Os estudantes de áreas ocupadas pelos japoneses foram transportados para zonas mais seguras, onde pudessem prosseguir nos seus trabalhos ...

As iniciativas para formação de escolas médicas modernas se consubstanciaram principalmente a partir de 1900. A Guerra dos Boxers paralisou por algum tempo esse movimento, embora, justamente nesse período, melhor se tenha firmado o prestígio da medicina ocidental, por intermédio dos hospitais europeus lá estabelecidos.

Após a incursão punitiva empreendida pelas nações brancas, as indenizações devidas aos Estados Unidos foram, inteligentemente, por este país, transformadas em meios destinados ao custeio de estudos de jovens chineses no estrangeiro. Esse ato generoso dos nossos amigos do norte frutifica hoje nessa união de vistas entre chineses e norte-americanos, na guerra contra o inimigo comum.

Dentre as razões pelas quais Geraldo de Paula Souza critica a ocupação japonesa na China considera-se importante o vínculo estreito entre o médico e a Fundação Rockefeller, cuja ação filantrópica rivalizava com a influência japonesa sobre a China no início do século XX.

A ideia ocidental de progresso e as iniciativas da China republicana

O jovem Geraldo Horácio de Paula Souza partilhava de ideias eugenistas25 que acreditavam no melhoramento civilizatório das sociedades por meio da educação, herança, quem sabe, de intelectuais republicanos como Manoel Bonfim.26 Talvez por esse motivo tenha-lhe chamado atenção de maneira especial a política de alfabetização das massas iniciada na China em 1920, facilitada pela simplificação da língua escrita27 e a educação compulsória.

A cultura das massas visa, a um tempo, a instrução geral, orientação econômica e higiênica e o preparo cívico-político das populações. Uma primeira experiência, em maior escala, se processou a partir de 1929, em Tinghsien28, na província de Hopei; outras seguiram-se com igual êxito. ...

A China das mulheres de pés atrofiados, símbolo da servidão e da imobilidade, também se transforma, dando ao mundo o exemplo da mulher patriota, culta e de ação. {Figura 5} À testa desse movimento, está a admirável Senhora Chiang-Kai-Chek {

; pinyin:Jiǎngjièshí}, pioneira da agitação cultural das massas. ...

A revolução vem substituindo os letrados chineses, de formação puramente literária, por jovens preparados à luz dos melhores conhecimentos universais. Os trinta anos de república, apesar de todos os desmandos, promoveram certa cultura de massas; o homem do campo e da rua começa a participar da revolução literária e cultural. A crendice das classes populares e até das demais vem sendo violentamente abalada pelo movimento da jovem China, desde o início da República de Sun-Yat-Sen {

} (Souza, 1943, p.14-15, 17) .

Figura 5 Pés atrofiados de mulher chinesa. Essa prática cultural impressionou Geraldo de Paula Souza, que a retratou em diferentes oportunidades (Acervo Ada de Anhaia Mello) 

Nesse sentido, a interiorização das escolas superiores, após a invasão japonesa, teria trazido um aspecto positivo à China, resultando na interiorização da educação das massas e na alfabetização de cerca de cinquenta milhões de chineses apenas entre 1938 e 1940. Contribuiriam para esse esforço de modernização à ocidental traduções para o chinês de obras literárias e científicas do Ocidente.

As duas iniciativas descritas por Geraldo de Paula Souza faziam parte de um programa mais abrangente da Fundação Rockefeller e do governo republicano chinês no sentido de promover o desenvolvimento cultural da China nos moldes do Ocidente. Em curso desde 193529, teve como primeiro instrumento de ação o movimento de educação em massa, sob a liderança de Y. C. "Jimmy" Yen (Y.C. James Yen;

; pinyin:Yànyángchū), formado em Yale, nos EUA, que consistia em um modelo de educação da população rural centrado na redução dos ideogramas chineses aos mil mais comuns, com educação baseada em técnicas especiais (Ninkovich, 1984, p.810-811). Esse programa, que se estendeu para ensino de técnicas científicas de produção rural, já estava esgotado, sem incentivo da Fundação Rockefeller, quando da visita de Geraldo de Paula Souza à China, em 1939, devido à ocupação do país pelo Japão, justamente nas áreas de seu desenvolvimento.

Curiosamente, Geraldo de Paula Souza atribui grande importância a um discurso da senhora Chiang-Kai-Chek, conclamando a sociedade chinesa para o progresso ocidentalizante. O mesmo pronunciamento foi lido com reservas pelo China Medical Board, da Fundação Rockefeller, considerando-o um tanto nacionalista (Ninkovich, 1984).

A Escola Médica de Beijing como modelo para o ensino da medicina no Brasil

Geraldo de Paula Souza (1943, p.20-21) constrói um discurso edificante do modelo de ensino médico na China republicana, de estilo ocidental, visando a dar sustentação ao modelo de ensino por ele proposto para o ensino médico no Brasil. Desse modo, informa que, na China, a transformação modernizante na área médica teve início com missões religiosas e a instalação de hospitais ocidentais:

Especialmente fértil em iniciativas médicas é o período de 1910 a 1920, tanto pelos serviços prestados pela Cruz Vermelha Internacional, após a guerra civil, como em consequência do aparecimento da peste pneumônica na Manchúria, que motivou a intensificação dos serviços de saúde pública. Além das escolas existentes, grandes instituições, tais como as universidades de Yale e de Harvard, ou a Fundação Rockefeller, ali se estabeleceram, esta última constituindo, para melhor atuar, uma organização especial, a "China Medical Board". Entre as escolas médicas, figurava já a "Peking Union Medical College", que veio a se constituir o centro principal de interesse das atividades da "China Medical Board" e de que nos serviremos agora, como exemplo do que de mais perfeito se pode obter, em matéria de ensino moderno. ...

Esse 'Union Medical College', fundado em 1906, era fruto de uma ação conjunta da comissão Americana de Missões Estrangeiras, das Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana da América, da Sociedade Missionária de Londres, da Missão Episcopal Metodista, da sociedade de Propaganda do Credo (Anglicana), da Associação Missionária Médica de Londres, que reunidas, mantiveram-se até 1915, quando foi transferida a responsabilidade do trabalho ao 'China Medical Board' da Fundação Rockefeller. ...

Já o caso de São Paulo foi diferente. Fundada em 1913, {a Faculdade de Medicina e Cirurgia} inicia sua vida em ambiente de grandes restrições. Nem prédios satisfatórios, nem remuneração compensadora para o pessoal, nem recursos de grande número de profissionais experimentados no ensino. Assim mesmo procurou selecionar entre os melhores, ou de mais futuro, e trouxe, para o seu seio, valores de fora, sempre que possível. {No Brasil} ... Os tropeços eram, entretanto muito grandes. Somente um decênio após esse início, é que o auxílio da Fundação Rockefeller permitiu a construção dos laboratórios; ainda assim, falta-lhe até 1943, o hospital do mesmo padrão. E ainda perduram as restrições.

No caso de Pequim, surgem os recursos à medida que se apresentam as necessidades. Não há interrupção no crescimento.

As edificações da Escola Médica de Beijing foram objeto de especial interesse do médico brasileiro, tendo seus prédios sido registrados em dezenas de fotografias e sua planta reproduzida no anexo de seu livro (Figura 6). Enquanto o prédio do IHSP, em São Paulo, seguia o estilo da moderna arquitetura ocidental30, a Escola Médica de Beijing fora construída de maneira a fundir o passado com o presente:

Um dos afamados arquitetos americanos organizou os planos das edificações, que seguem o belo estilo chinês. O material empregado, nos 14 edifícios que constituem o conjunto escola e hospital, foi o mais fino que se encontrou, tanto o de origem local, como o que veio de fora. A cobertura dos edifícios é de telhas verdes, de louça vidrada; os pórticos, executados em laca da mais perfeita, destacam-se da sobriedade das paredes de tijolos compridos, pelas suas cores vivas, onde o verde e o vermelho predominam. Tudo em harmonia com o ambiente da velha China ... Ao lado de bem equipados laboratórios para o ensino, figura o hospital, de 350 leitos, dispondo de fartos recursos de ambulatório e de um centro de saúde para instrução aos estudantes de saúde pública e das enfermeiras, cuja escola é mantida pela Faculdade Médica. A biblioteca é notável, com mais de sessenta mil volumes, dispõe das revistas mais importantes das ciências biológicas e médicas, modernas. Não foram regateados os recursos para essa obra; somente na construção tendo sido dispendidos cinco milhões de dólares, ou cerca de cem milhões de cruzeiros nos dias de hoje. Não constitui essa soma, exagero algum, apenas o justo preço, considerando-se o valor do ensino superior no desenvolvimento do país.

Os escritos da medicina chinesa aí também figuram e são objeto de acurado estudo, por parte dos insignes especialistas (Souza, 1943, p.22).

Figura 6 Fotografia da Escola Médica de Beijng, tirada por Geraldo de Paula Souza (Acervo Ada de Anhaia Mello) 

A despeito da admiração demonstrada por Geraldo de Paula Souza, é possível que o partido arquitetônico da Escola Médica de Beijing tenha sido parte de um projeto maior da Fundação Rockefeller para ocidentalizar a cultura chinesa por meio da educação, mantendo aspectos estilísticos da arquitetura chinesa. Nas palavras de Ninkovitch (1984, p.805):

No nível simbólico, a arquitetura do PUMC {Peking Union Medical College}, com seu telhado tradicional disfarçando o segundo e o terceiro modernos abaixo, foi escolhido deliberadamente 'para a faculdade não parecer imposta, mas uma agência que viria a ser íntima e organicamente parte de uma civilização chinesa desenvolvida'. Outra concessão às sensibilidades culturais chinesas seria a gradual conquista de autonomia, com responsabilidade e controle passando para os chineses.

Outra explicação plausível não pode deixar de ser mencionada. Quando da construção do prédio da atual Faculdade de Saúde Pública, Geraldo de Paula Souza desejava um partido arquitetônico original deste em relação ao prédio da Faculdade de Medicina, adjacente. Apesar de contrariado, acabou por aceitar uma edificação com características parecidas às daquele (Brener, 2010).

A visita à Escola Médica de Beijing e a proposta de ensino médico para o Brasil

Paula Souza, paulista, republicano, cientificista, urdiu um vínculo estreito de admiração pela nação chinesa, sua cultura e medicina clássica, durante sua viagem ao Oriente. A linha que teceu essa rede foi a da Fundação Rockefeller em sua expansão pelo mundo (Santos, Faria, 2003; Candeias, 1984).

Na China, a ocidentalização na área de saúde remonta à segunda metade do século XIX e início do século XX, com a instalação de missões religiosas no país. A Escola Médica de Beijing, The Beijing Union Medical College31, fundada em 1906 por um conjunto de missões protestantes, teve a responsabilidade do trabalho transferida para o China Medical Board, da Fundação Rockefeller, em 1915 (Souza, 1943).32 No Brasil, essa relação se oficializou em 1916, quando Arnaldo Vieira de Carvalho enxergou na colaboração da Rockefeller uma saída possível para a crise estrutural da recém-fundada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, dados os revezes no embate com as autoridades locais no sentido de fornecer condições adequadas de ensino e assistência à saúde. O diretor da faculdade solicitou, então, apoio da Rockefeller para estabelecer as cadeiras de Higiene e Patologia (Mota, Marinho, 2009). A pedra fundamental da sede da Faculdade de Medicina foi lançada em 1920, consolidando o vínculo com a Rockefeller. Cabe lembrar que Geraldo Horácio de Paula Souza seguiu dois anos antes para os EUA, para formar-se em Higiene e Saúde Pública na Johns Hopkins.

A Fundação reorganizou a instituição já na metade dos anos 1920,

como mostraram a diminuição do número de alunos matriculados, a criação do departamento de higiene, a formação de estudantes e professores em universidades e instituições norte-americanas, o financiamento da construção de prédios e laboratórios adequados e o expressivo aumento da carga horária de algumas cadeiras (Mota, Marinho, 2009, p.79) .

Resta ainda considerar um aspecto da civilização chinesa considerado democrático por Geraldo de Paula Souza: o sistema de exames instituído por Confúcio (aproximadamente século V a.C.) (Moraes, 2007), com última cerimônia ocorrida em 1904, durante a Dinastia Qing.

A apreciação do sistema de exames por Geraldo de Paula Souza tem relação direta com alguns dos "processos de profissionalização encetados pela Rockefeller em escala mundial, destacando-se a formação de enfermeiras visitadoras, o estabelecimento de padrões universalistas de recrutamento e formação, e a promoção de estudos sobre doenças endêmicas" (Faria, 2007, p.80). Outra característica valorizada pelo médico sanitarista e trazida pela Rockefeller foi o regime de tempo integral para pesquisa e docência.

A Escola de Higiene e Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins - fundada em 1916 pela Rockefeller - operava como referência institucional e pedagógica para a atuação da fundação em outras partes do mundo, no campo sanitário. O IHSP tornou-se a primeira instituição de saúde pública a ser projetada pela Fundação fora dos Estados Unidos, e o primeiro órgão brasileiro (na Faculdade de Medicina de São Paulo) a dispor de regime de tempo integral para pesquisa e docência (Faria, 2007, p.81) .

Ao viajar para o Oriente, Geraldo de Paula Souza acumulava praticamente vinte anos de experiência profissional como catedrático e gestor. Seu interesse pela Escola Médica de Beijing pode ser relacionado a uma estratégia de defesa do modelo de medicina e ensino médico que ele compartilhava. Já a paixão pela medicina chinesa clássica permanece inquietante.

Modelo proposto por Paula Souza

É possível considerar que as obras produzidas por Geraldo de Paula Souza sobre a China canalizassem diferentes objetivos. Primeiro, minimizar a resistência de grupos de interesse ao modelo de educação médica e política de saúde propostos por ele e pela Fundação Rockefeller; segundo, defender seu próprio modelo de educação médica e ação em saúde pública, contra interesses conflitantes, como o de fusão de órgãos de saúde, proposto pelo secretário Salles Gomes Júnior, em 1938; e, terceiro, expor seu encantamento genuíno pela civilização chinesa.

Desde seu retorno dos EUA e ingresso no Instituto de Saúde e no Serviço Sanitário, no início dos anos 1920, o médico sanitarista encontrou resistência de opositores a suas ideias (Candeias, 1984). Essa oposição a seu modelo de saúde pública, em que os centros de saúde33, a pesquisa e o ensino médico, além da educação sanitária34 (Faria, jul.-dez. 2006) aparecem como prioridades (Souza, 11 ago. 1921), pode ter uma dimensão pessoal - seu maior opositor era Francisco de Salles Gomes Junior (Favero, 18 fev. 1938) - , e certamente ideológica - uma concepção de serviços verticais de saúde, versus aquela concepção integrada (equipes multiprofissionais35, centros de saúde, postos de higiene e educação sanitária36) de Geraldo de Paula Souza. É possível que também pesasse, do ponto de vista ideológico, uma disputa entre um programa de assistência à saúde com forte participação estatal versus um programa privatista, centrado na medicina liberal, assim como vinha acontecendo no início do século XX nos EUA (Faria, 2007).

A disciplina de higiene foi instituída em São Paulo por meio de acordo de cooperação entre o International Health Board (IHB), da Fundação Rockefeller, e o diretor da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, Arnaldo Vieira de Carvalho, em 1917. Esse acordo permitiu a criação de um Laboratório de Higiene na cadeira de higiene da Faculdade de Medicina, responsável pelo curso de higiene e a "realização de pesquisas com doenças infecciosas" (Faria, 2007, p.82). Em 1920, Geraldo de Paula Souza retornou dos EUA, assumindo o Laboratório de Higiene, o qual, em 1924, passou a Instituto, o IHSP, gozando de autonomia em relação à Faculdade de Medicina e subordinado à Secretaria de Justiça e Negócios Interiores. Pelo projeto de reorganização proposto por Paula Souza, o IHSP passou a oferecer suporte à Faculdade de Medicina e ao Serviço Sanitário, com regime de dedicação integral a pesquisa e ensino (Faria, 2007).

Desde os primeiros anos de funcionamento e ensino tornou-se propósito fundamental do IHSP, que aliava ao curso regular de higiene, oferecido aos alunos da Faculdade de Medicina, os cursos especiais abertos a outros profissionais, como enfermeiras, farmacêuticos e técnicos de laboratório (Faria, 2007, p.85) .

O período em que Geraldo de Paula Souza preparava suas obras sobre a China e a medicina chinesa e apresentava suas palestras (1940-1943) coincidia com sua atuação para garantir autonomia acadêmica e política ao IHSP (Criação..., 3 mar. 1943; São Paulo..., 15 abr. 1943). Enquanto isso, no âmbito federal, começava a se esboçar um novo modelo de assistência à saúde, centrado em complexos médico-hospitalares, o qual veio a se constituir em modelo hegemônico nas décadas seguintes.37

A educação sanitária (Teixeira, 2008; Rodrigues, Vasconcellos, 2007; Candeias, 1984) foi uma proposta de saúde pública aprendida por Geraldo de Paula Souza durante sua formação na Johns Hopkins, e trazida por ele para o IHSP e o Serviço Sanitário (Faria, 2007, p.16). Consistia em substituir "a mentalidade da higiene compulsória pela da criação da responsabilidade pessoal" (Souza, citado em Campos, 2002, p.76). Esse modelo de política de saúde de inspiração norte-americana teve na medicina preventiva sua pedra de toque.

Desde que assumiu a direção do Serviço Sanitário, Geraldo de Paula Souza defendeu uma visão 'racionalizadora' dos serviços de saúde, focando atenção nas cidades e na vida moderna. Essa visão, oficializada pelo Código Sanitário de 1925, seria realizada por meio de dois instru-mentos: centros de saúde e educação sanitária (Candeias, 1988; Faria, 2005). Os centros de saúde, concebidos como lugar de informação e formação sanitária da população, seriam ainda centros de estudos para a medicina social. Já a educação sanitária seria voltada para professoras primárias (profissão eminentemente feminina na época), a serem formadas em cursos ministrados no IHSP, para "disseminação de conhecimentos de higiene entre a população" (Candeias, citado em Campos, 2002, p.52), além de cooperação em campanhas profiláticas.

As educadoras/visitadoras sanitárias, um dos elementos constitutivos da proposta de Geraldo de Paula Souza, cuja primeira turma de estudantes formou-se em 1927 pelo IHSP, foram gradativamente substituídas por enfermeiras profissionais, a partir dos anos 1940, após a criação da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. O curso de educadoras sanitárias de nível médio foi extinto em 1962 (Faria, 2007; Candeias, 1984). Em 1967, teve início o curso de educação em saúde pública, de nível superior e multiprofissional (Candeias, 1984), na então Escola de Higiene e Saúde Pública.

Deve-se ainda considerar o 'nacionalismo' da época como um segundo pano de fundo que permeia as obras de Geraldo de Paula Souza ora em estudo, objeto de interesse de Santos e Faria (2003). Esse foi o nome dado aos movimentos políticos em torno das estruturas de poder e exploração de riquezas nas diferentes nações que se estabilizaram antes e durante o período das guerras mundiais. A década de 1930 foi marcada, no Brasil, pela contraposição de diferentes modelos teóricos para explicar/propor uma formação para a nação brasileira, sendo um deles defendido por Gilberto Freyre (1977, 2003, 2004, 2008; Roland, 2000). O modelo de Freyre propunha a modernização da nação por meio da conciliação entre passado e presente, ou seja, um projeto não excludente do passado e das massas.38 Não há indícios de que Geraldo de Paula Souza tenha sofrido influência direta da obra de Gilberto Freyre. No entanto, suas obras sobre a China, a medicina chinesa, saúde pública e educação popular daquele país sugerem aspectos de identificação entre sua proposta civilizatória e aquela do antropólogo brasileiro.

Na área da saúde e do ensino médico, o modelo de nacionalismo defendido por Geraldo de Paula Souza esteve em conformidade com o ideário da Fundação Rockefeller, também válido para a China. Esse modelo teve a seguinte interpretação de Santos (2003, p.197-198):

A reforma sanitária e o ensino médico, ainda que sob modelos distintos, seriam de fundamental importância {na China e no Brasil}. Por tornarem possível - esta, a utopia dos dirigentes da Rockefeller - a criação e difusão de serviços médicos de boa qualidade e saneamento para vastas populações da cidade e do interior. Para a realização de uma reforma sanitária e educacional fazia-se necessário que algumas correntes de pensamento nos dois países defendessem a modernização científica e, sobretudo, a melhora das condições de vida da população. O pensamento nacionalista, tanto na China como no Brasil, foi em grande parte responsável por essas aspirações. ...

No Brasil, os nacionalistas dividiam-se em várias correntes de opinião. Uma corrente importante acreditava que a conquista da 'modernidade' só seria possível por meio do crescimento e desenvolvimento das cidades brasileiras. A conquista da modernidade para esse grupo estava intimamente relacionada à necessidade de 'europeização' do país. Uma segunda, preocupada mais com os problemas que assolavam as áreas interioranas do país, buscava integrar o sertanejo à civilização do litoral e ao projeto de construção da nacionalidade. ...

Os grupos nacionalistas na China encontravam-se em lados opostos quanto à entrada de conhecimentos ocidentais no país. De um lado, havia os que apoiavam totalmente a 'ocidentalização' do ensino médico chinês. De outro lado, havia os que defendiam a medicina milenar da China, e viam-na ameaçada pela penetração, em seu país, de conhecimentos médicos ocidentais, considerados incompatíveis com a antiga medicina oriental.

A desvalorização da medicina tradicional chinesa pelos novos 'missionários' norte-americanos encontrou apoio entre os partidários de uma das correntes nacionalistas existentes na época de Sun Yat-Sen

. Como assinala um estudioso, "a ênfase dos nacionalistas em desenvolver a China por meio da proposta de ocidentalização foi implementada no campo sanitário pelo Ministério da Saúde, restringindo a medicina oriental e promovendo a medicina ocidental" (Brown, 1982, p.137, citado em Santos, Faria, 2003, p.198) . Ao longo do processo de instauração do ensino médico moderno e ocidentalizante, no Peking Union Medical College, o apoio dado à Rockefeller foi progressivamente minado pelo grupo dos nacionalistas que defendiam a medicina tradicional como parte fundamental da cultura chinesa. Daí, ao cabo de algumas décadas, o relativo insucesso da Missão Rockefeller na China. (destaques no original)

Mesmo tendo sido formado pelo ideário da Fundação Rockefeller, Geraldo Horácio de Paula Souza não ficou imune à medicina chinesa clássica, combatida por certos grupos alinhados à medicina experimental em território chinês, mas valorizada e considerada vanguardista no Ocidente, na modalidade de acupuntura.39 Quando Geraldo de Paula Souza viajou para a China, a medicina chinesa clássica estava oficialmente proscrita dos cursos de medicina40, enquanto, no Ocidente, a acupuntura ascendia entre as elites chamadas burguesas e aristocráticas (Lutaif, 2005; Candelise, 2010).

Considerações finais

Este artigo acompanhou a produção ensaística de Geraldo de Paula Souza sobre a China e a medicina chinesa clássica, após sua viagem ao Oriente. Buscou descrever sua leitura da China e da medicina chinesa clássica e moderna, por meio de suas obras sobre o tema. Também buscou indicar uma mudança ideológica operada no médico brasileiro, durante essa viagem, quando deixou de considerar os povos chamados então de 'amarelos' disgênicos e enalteceu as conquistas e desenvolvimento da civilização chinesa nas áreas da saúde, nutrição e educação. A história da atual Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo é o resultado direto da defesa de ideias e práticas associadas à saúde pública, nutrição e educação das massas, a começar por sua matriz inspiradora, a Johns Hopkins University.

Ao viajar para o Oriente, Geraldo de Paula Souza acumulava em torno de vinte anos de experiência profissional como catedrático e gestor. Seu interesse pela Escola Médica de Beijing deve ser atribuído a uma reflexão amadurecida sobre o modelo de medicina e ensino médico do qual compartilhava. A sabedoria chinesa diante da ciência ocidental e a Escola Médica de Pequim acompanha o empenho de Geraldo de Paula Souza pela autonomização do IHSP em relação à Faculdade de Medicina e a instalação de um modelo específico de educação médica - turmas pequenas, dedicação integral, ensino e pesquisa - , tal como verificado na escola médica da distante China. Em correspondência ao professor Afrânio Peixoto, um ano antes da viagem ao Oriente, Geraldo de Paula Souza (1o fev. 1938) se refere aos riscos de o instituto perder autonomia e ser fundido a outros laboratórios de saúde.

Entretanto, há ainda muito a esclarecer. Por que Geraldo de Paula Souza não mencionou em Digressões o desenvolvimento da acupuntura no Ocidente, senão como objeto de estudo histórico? Por que não mencionou em A sabedoria chinesa que, à época de sua visita, o modelo de ensino médico, de melhoramento agrícola e de educação orientados por acordos entre o governo chinês e a Fundação Rockefeller estavam bastante desestruturados pela invasão japonesa no norte da China?

As obras em estudo indicam uma mudança em sua trajetória profissional. Considera-se que a viagem à China tenha possibilitado a Geraldo de Paula Souza rever alguns conceitos e pacificar conflitos de valores e interesses entre o discurso eugenista de caráter eurocêntrico, que colocava o Ocidente na linha de chegada de um progresso linear no sentido da modernidade, e a conciliação com o passado, como mostram as epígrafes que abrem esse artigo.

É possível que Geraldo de Paula Souza tenha vislumbrado nessa viagem uma capacidade civilizatória do Brasil não excludente do passado, como aparece no registro fotográfico em que o médico brasileiro posa ao lado de um ancião chinês (Campos, 2002) e também na descrição respeitosa da edificação da Beijing Union Medical College. Do discurso eugenista de 1928 para as obras sobre a medicina chinesa e a Beijing Union Medical College observa-se uma mudança significativa entre o olhar que via o exotismo da China e dos chineses para aquele matizado, conciliador.

Esse aspecto do médico e gestor público foi silenciado ao longo do tempo. Geraldo de Paula Souza é lembrado e homenageado, no entanto, por sua contribuição para a saúde pública mundial. Em edição de janeiro-junho de 1951, ano do falecimento do médico sanitarista, The Lancet prestou sua homenagem ao médico sanitaritarista, na seção Obituary:

GERALDO HORACIO DE PAULA SOUZA

M.D.

A saúde internacional sofreu uma perda pela morte, após breve adoecimento, do professor G. H. de Paula Souza, diretor e catedrático de saúde pública da Universidade de São Paulo, Brasil. Tendo iniciado sua carreira na saúde internacional como médico da Organização de Saúde da Liga das Nações, fez parte por um período da Unrra, durante a guerra; representou o Brasil na Comissão Preparatória, em Paris, e na Conferência Mundial de Saúde, em Nova Iorque, em 1946; participou do Comitê Executivo, e das Assembleias da Organização Mundial de Saúde. Ele será lembrado, principalmente, por sua insistência bem-sucedida, com o representante da China, na Conferência de São Francisco, que resultaria na inclusão da saúde nas funções e estrutura da Organização das Nações Unidas. Também por seu interesse pelas questões mais candentes de saúde pública, seu posicionamento contra o paroquialismo, e sua infalível cortesia e bondade.

Na página seguinte do periódico, seção Notes and News (1951), nova referência a Geraldo de Paula Souza como um dos "pais fundadores" da Organização Mundial de Saúde.

Em São Paulo, onde Geraldo de Paula Souza estabeleceu as bases de sua trajetória profis-sional local e internacional, o estudo da acupuntura (e não da medicina chinesa), com base científica e experimental foi introduzido na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo cerca de trinta anos após seu falecimento. Nos anos 1970, a doutora Satiko Ymamura instalou serviço de acupuntura Ryodoraku (técnica japonesa) no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Nos anos 1980, duas iniciativas foram adotadas: o professor doutor Manoel Teixeira Leite introduziu a acupuntura médica no Instituto Central do Hospital das Clínicas pelas mãos do doutor Hong Jin Pai, médico chinês naturalizado brasileiro, graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e especializado em acupuntura nas universidades de Taiwan e Beijing; e o doutor Paulo Luiz Faber criou a primeira Liga de Acupuntura para alunos de graduação em medicina, em funcionamento durante os anos 1990. Mais recentemente, o doutor Wu Tu Hsing instalou, com apoio dos colegas Hong Jin Pai, Chin An Lin e de outros colaboradores, o curso de especialização em acupuntura médica (a partir de 1995), uma nova Liga de Acupuntura (a partir de 2002), um curso optativo de acupuntura para alunos de terceiro ano de graduação em medicina (a partir de 2006) e a residência em acupuntura (a partir de 2007) no Instituto de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP.

O doutor Chin An Lin foi pioneiro na criação de linha de pesquisa em acupuntura na FMUSP, e o doutor Hong Jin Pai foi o primeiro brasileiro a receber o título de médico-chefe internacional de acupuntura pela World Federation of Chinese Medicine Societies (WFCMS), em 2011. Nesse movimento, a acupuntura vem ganhando espaço na FMUSP, ambiente considerado ortodoxo no ensino e prática da biomedicina.

A China, após isolamento imposto pelo Ocidente (1949-1972), ganhou assento no Conselho de Segurança da ONU, em 1972, e caminha para se tornar hegemônica no conjunto das nações, oferecendo, na área de saúde, cursos de formação de curta e longa duração em medicina chinesa para profissionais de saúde ocidentais e orientais.

Agradecimentos

À equipe do Centro de Memória da Faculdade de Saúde Pública da USP por contribuir com especial cuidado na elaboração deste artigo. À professora doutora Cristina de Campos pela colaboração e disponibilização de material iconográfico produzido por Geraldo Horácio de Paula Souza.

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* O presente artigo faz parte do projeto de pesquisa de doutorado intitulado Fatores associados ao estabeleci mento da medicina tradicional chinesa na cidade de São Paulo, que foi aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O projeto recebeu financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

1 Considerado o maior navio de passageiros da poderosa armadora japonesa Osaka Shosen Kabushik Kaisha (OSK), com capacidade para 1.200 passageiros, o Buenos Aires Maru foi construído pelo estaleiro Mitsubishi. Realizou sua primeira viagem em 1929 e fez serviços regulares para a América do Sul, durante os anos 1930, na chamada Rota de Circunavegação do Globo, de 21.543 milhas náuticas (39.900 quilômetros). Sua última viagem ao Brasil ocorreu em 1941, quando trouxe o último conjunto de imigrantes japoneses para o país. Foi perdido durante a Segunda Guerra Mundial, após ataque da aviação norte-americana. (Buenos Aires Maru, 29 jun. 2008, O Porto..., 5 maio 2008).

2 O IHSP, criado em 1918, por meio de acordo entre a Fundação Rockefeller e o governo do estado de São Paulo, fazia parte inicialmente da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (Brener, 2010).

3 Criado em 1931, o Idort propunha "um discurso científico sobre o trabalho e a formação de trabalhadores adequados às necessidades da indústria paulista" (Vasconcellos, citado em Campos, 2002, p.23). Geraldo de Paula Souza participou das atividades do Idort desde sua criação.

4 No Sesi, Geraldo Paula Souza atuou como chefe da Assistência Social (Campos, 2002).

5 A participação de Geraldo Paula Souza na Liga das Nações, Genebra, Suíça, entre 1927 e 1929, esteve ligada à Seção de Higiene (Campos, 2002).

6 Na Unrra, Geraldo de Paula Souza ocupou os cargos de chefe do Controle Epidêmico e secretário da Comissão Internacional de Quarentena (Candeias, citado em Campos, 2002, p.27).

7 Geraldo Horácio de Paula Souza publicou um livro em que trata da criação da OMS (Souza, 1948).

8 Essa ordem dos ideogramas segue o cartão de visitas do doutor Lim Chong-Eang (c1940).

9 O segundo diretor da Beijing Union Medical College, citado por Geraldo de Paula Souza, doutor Henry Houghton, foi diretor do China Medical Board, da Fundação Rockefeller, de 1934 a 1946. Sobre a história da Beijing Union Medical College, ver Bullock (1980).

10 Diz o autor de Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história: "Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas - sinais, indícios - que permitem decifrá-la" (Ginzburg, 1989, p.177).

11 O taoísmo filosófico bem como o confucionismo e o budismo constituem a base da mentalidade chinesa. Nesse contexto, o taoísmo religioso constitui um aspecto dessa mentalidade.

12 Tal afirmação advém de sua interpretação de um provérbio chinês: "O bom médico evita a doença; o medíocre cuida da moléstia iminente; o inferior, dos males já estabelecidos" (Souza, 1942, p.11).

13 Entre 1929 e 1936 foram publicados, na França, ao menos cinco artigos sobre medicina chinesa clássica (Morant, Ferreyrolles, jun. 1929; Morant, 1932, 1934, 1979a, 1979b). Os descendentes de Soulié de Morant ainda publicaram a célebre obra póstuma do diplomata e acupunturista francês, L'acuponcture chinoise, em 1957. Segundo Lutaif, essa obra póstuma teve duas edições anteriores, uma em 1939 e outra em 1941 (Lutaif, 2005, p.35).

14 Obra ofertada a Geraldo de Paula Souza pelo colega da Johns Hopkins, doutor Lim Chong-Eang (Wong, Wu, 1936).

15 Durante a Primeira República, os governadores de estado recebiam o título de presidente.

16 Não foi possível identificar ideograma ou pinyin.

17 Usa abordagem de Lin Yutang (

) sobre o tema, "quando afirmou que a verdade para o chinês é coisa que nunca pode ser provada, mas apenas sugerida, e que o conhecimento é questão subjetiva. A verdade pode ser sentida por uma espécie de intuição, e para Chuengtse (

), citado por Lin Yutang, pode ser apreciada como uma 'dialética sem palavras'. Vemos, assim, como o espírito chinês é avesso ao método científico" (Souza, 1942). Sobre o tema, também é possível consultar A sabedoria chinesa diante da ciência ocidental e a Escola Médica de Pequim (Souza, 1943).

18 Afirma Souza (1942, p.10): "Curiosa é sempre a peregrinação pelo país exótico; cheia de ensinamentos a apreciação de uma cultura, única na história, que ininterruptamente segue o seu curso desde mais de 5.000 anos".

19 A religião chinesa, como é observado por Geraldo, admite as ideias de Lao-tzu (

), Confúcio (

), e Buda (

, transliterado: Buddha).

20 Quando Geraldo de Paula Souza publicou sua obra, circulava em Paris o L'acunponcture chinoise, de Goerge Soulié de Morant, contendo ilustrações com a localização dos pontos de acupuntura e meridianos, em organização alfanumérica e em modelos anatômicos ocidentais, ao lado de modelos orientais do século XVII e contemporâneos (Lutaif, 2005).

21 Quanto aos meridianos (ou canais), deve-se considerar certa incredulidade de Geraldo em relação a sua existência. Em certa passagem de Digressões, comentou: "o anatomista chinês 'inventa' a representação dos misteriosos 12 canais e suas anastomoses, que lhe deve servir para a prática de acupuntura, ofereço à apreciação do leitor as duas pranchas de Vesalius, onde o anatomista genial procurou reproduzir com exatidão a rede de vasos sanguíneos e a distribuição de nervos" (Souza, 1942, p.21; destaque no original). Entretanto, descreveu mais adiante, com certo detalhe, a teoria dos "doze canais" (Souza, 1942, p.32-35). De fato, o nome meridiano foi criado pelo sinólogo francês George Soulié de Morant, em seu esforço de traduzir, de maneira simplificada e compreensível aos médicos franceses do início do século XX, o termo Jing Luo, interpretado por Lutaif como "condutores de energia vital" (Lutaif, 2005, p.30).

22 Geraldo de Paula Souza fez uma descrição ilustrada da pulsologia chinesa, informando sobre a existência de 156 tratados diferentes sobre o pulso. Sobre a tomada do pulso do paciente explica: "Aconselha-se o médico a conservar-se calmo, notando primeiramente se a sua própria respiração está normal, ponto importante, pois a uma expiração e inspiração, devem corresponder quatro pulsações. Essa prática, de origem tão remota, precedeu em exatidão a utilizada no ocidente" (Souza, 1942, p.38). Para mais esclarecimentos sobre os princípios da medicina chinesa clássica, sugere-se a leitura de Tesser (2010).

23 Pouco mais de dez anos depois, o jornal O Estado de S. Paulo publicava reportagem sobre tratamento de estética com uso de reflexologia nos pontos de acupuntura, indício de que circulava informação sobre o tema ao menos entre elites econômicas e políticas (Baron, 28 dez. 1956). Da mesma época, também pode ser mencionado anúncio de tratamento de saúde por meio de acupuntura publicado n'O Estado de S. Paulo. Intitulado "Terapêutica oriental: acupuntura e moxa" (21 set. 1958, p.26), informava: "Tendo grande aceitação e eficácia na Europa e nos EUA, e sendo adotada pelos próprios médicos atualmente. Indicações: nevralgia, reumatismo, pressão alta, paralisia, asma, gastroenterite, úlcera gástrica, catarro apical, cárie vertebral {sic}, nictpuria {sic}, neurastenia, doenças de mulheres e outras várias infecções. Especialista: Kotaro Murata. Instituto Fisioterápico 'Murata'".

24 Lina Faria (2007, p.17) sintetiza o lugar de São Paulo no desenvolvimento da medicina científica do Brasil: "São Paulo desempenhou papel fundamental no desenvolvimento de carreiras científicas, de políticas sanitárias e de pesquisa experimental no país ... Sua projeção deveu-se, em parte, à atuação da Fundação Rockefeller na criação de carreiras científicas voltadas para o ensino e pesquisa nas áreas biomédicas. Deveu-se, principalmente, ao papel dinâmico de Geraldo Horácio de Paula Souza (1889-1951) - um dos principais interlocutores da Fundação Rockefeller - na manutenção e difusão de um modelo científico proposto pela própria Fundação e na criação de um ambiente propício à produção científica no IHSP {Instituto de Higiene e Saúde Pública}".

25 Havia duas vertentes do pensamento eugenista na transição do século XIX para o século XX. A primeira, que considerava países como o Brasil disgênicos, por conta da constituição de sua população mestiça, indígena e negra, ponderando que apenas as populações brancas estavam destinadas à civilização, e a segunda, a dos defensores do melhoramento das raças e das sociedades por meio da educação. Geraldo de Paula Souza pode ser considerado um adepto convicto dessa segunda vertente (Faria, 2007, p.50-53).

26 Sobre esse intelectual brasileiro, ver Silva (1990).

27 A escrita chinesa constitui um capítulo à parte na história da China. Unificada pela primeira vez durante a Dinastia Qin (221-207 a.C.), mas restrita às elites letradas até o final do período dinástico, foi simplificada durante a primeira república chinesa e difundida em território chinês pelo regime republicano (Ninkovich, 1984).

28 Não foi possível identificar ideograma ou pinyin.

29 Para mais informações sobre o tema, ver relatório anual da Fundação Rockefeller (The Rockefeller Foundation, 1939, p.357-375).

30 Sobre as edificações do IHSP, ver Campos (2002). Sobre o prédio da Escola Médica de Beijing, ver relatório anual da Fundação Rockefeller (The Rockefeller Foundation, 1919).

31 "Na experiência da Rockefeller na China continental, a filantropia científica centrou-se em torno da criação do Peking Union Medical College {PUMC} e de um projeto de ensino médico 'ocidentalizante'. Neste caso como no Brasil, a presença da missão estrangeira desencadeou conflitos e resistências de cunho nacionalista e trouxe à tona processos muito complexos de interação e oposição entre tradições e culturas médicas distintas ... Os programas de educação médica criados pelo PUMC se assemelhavam aos que prevaleciam nos Estados Unidos. Estes programas enfatizavam o diagnóstico e o tratamento individual. Tratava-se de ensino 'médico', e a saúde pública, seus métodos e princípios - diferentemente do Brasil - não eram uma preocupação fundamental da Rockefeller ... O PUMC foi a consolidação da ideia concebida por Frederick T. Gates de treinar um reduzido número de médicos para que se tornassem os líderes da medicina moderna na China. As tecnologias médicas oferecidas pelo PUMC tinham, nesse contexto, pouco ou nenhum impacto sobre as doenças mais comuns da China, principalmente as infecciosas e nutricionais ... Um dos aspectos mais instigantes para o estudioso da 'experiência chinesa' são as dissensões no interior da própria Fundação. Abraham Flexner, o educador norte-americano responsável pelas profundas reformas do ensino médico dos Estados Unidos no início do século, discordava dessa linha de atuação da Rockefeller: para ele, um ensino médico 'de qualidade', significaria, no caso particular da China, voltar as costas aos problemas prementes de saúde de toda a população continental. Outros consultores acabaram por imprimir à Fundação a posição inicialmente proposta por Gates" (Santos, Faria, 2003, p.189, 196-197; destaques no original). Abraham Flexner, um dos mais próximos conselheiros de John D. Rockefeller, que persuadira a Fundação Rockefeller a financiar a Universidade de Chicago, estimula a Fundação a investir na transformação cultural da China, por meio da educação, desde o início do século XX. O ensino médico e a pesquisa científica foram considerados por ele os meios mais apropriados para incutir nos chineses o pensamento indutivo e a cultura da ciência. Sobre o tema, ver Ninkovich (1984). Sobre Flexner e o relatório que reformulou a estrutura dos cursos de medicina em diferentes países, sob influência da Fundação Rockefeller, ver Faria (2007).

32 Santos e Faria (2003, p.57) discordam dessa datação, informando que a Fundação Rockefeller assumiu o Beijing Union Medical College em 1921.

33 O modelo proposto por Paula Souza consistia em estrutura de assistência pública à saúde onde eram desenvolvidas ações em educação materno-infantil, combate à tuberculose, educação sanitária, higiene pré-natal, infantil e rural, análises laboratoriais e formação de profissionais de saúde pública (Faria, 2006).

34 O curso de educação sanitária do Instituto de Higiene de São Paulo foi criado em 1925. Era oferecido a professoras primárias e tinha um ano e seis meses de duração. As educadoras ou visitadoras sanitárias eram formadas para construir 'consciência sanitária': ensinar preceitos de higiene para mães pobres nas cidades e no campo, verificar condições patológicas ou anomalias orgânicas em crianças, tomando providências, além da introduzir no campo "hábitos e costumes de civilização". O objetivo final da educação sanitária era garantir a geração de "proles saudáveis", em acordo com o ideário eugenista da época, e focado no doutrinamento da mulher (Faria, 2006, p.182, 184, 190).

35 A proposta original de equipes multiprofissionais em saúde pública, defendida pela Fundação Rockefeller e idealizada para o Instituto de Higiene, incluía "representantes das Ciências Biomédicas, Ciências Sociais, Educacionais, Comportamentais e da Engenharia, entre outros", com igual parcela de responsabilidade. No entanto, o instituto ministrava, nos anos 1920, a cadeira de Higiene da Faculdade de Medicina e mais "os seguintes cursos: doutor em higiene destinado a médicos; engenheiros sanitários, técnicos de laboratório de saúde pública, visitadoras de saúde pública para enfermeiras diplomadas, auxiliares de higiene escolar para professoras do magistéiro primário e cursos intensivos de aperfeiçoamento técnico sobre assuntos de higiene" (Candeias, 1984, p.17, 28).

36 "Informação, adestramento, inspeção e coerção": assim Teixeira sintetiza a educação sanitária ensinada a visitadoras sanitárias e colocada em prática pelo Serviço Especial de Saúde Pública (1942-1960), criado por meio de acordo entre os governos norte-americano e brasileiro, com objetivo de "combater a ignorância e modificar rotinas rapidamente sob a certeza de que vidas estariam sendo poupadas" (Teixeira, 2008, p.973). Essa definição não condiz com o modelo de prevenção defendido por Geraldo de Paula Souza, desde sua formação na Johns Hopkins. Melhor seria identificá-la com informação, convencimento e comprometimento. Embora houvesse uma dimensão civilizatória nessa educação sanitária, desqualificando certas práticas culturais de tratamento de saúde consideradas pré-modernas, o que mais caracterizava a educação sanitária como ação de saúde eram alguns princípios defendidos pela linha da educação para o compromisso, estruturada décadas depois. Sobre essa linha de trabalho educativo, ver Joule (2006) e Joule, Bernard (2006).

37 "No período de 1935 a 1945, o Mesp {Ministério da Educação e Saúde Pública} passou por sucessivas reformas ministeriais. Com a reforma de 1937 (Lei n. 378), foi criada, na Diretoria de Saúde, a Divisão de Assistência Hospitalar. O objetivo era estender a ação federal, até então restrita à Capital, aos estados. A Divisão foi responsável pelos primeiros estudos para o estabelecimento de um plano hospitalar para todo o país" (Faria, 2007, p.65).

38 Sobre o tema, ver Roland (2000).

39 A acupuntura passou a ser valorizada no Ocidente a partir do século XVIII, inicialmente associada à cirurgia; depois, à medicina em geral, durante a primeira metade do século XIX. Desde então, sofreu um declínio, sendo classificada como etnomedicina, retomando impulso já no século XX, a partir dos anos 1960, com linha mais mística e, em seguida, científica (Barnes, 2007; Baldry, 2005; Bossy, 1982; Bowers, 1978).

40 Segundo Lutaif (2005, p.26), naquela época, a acupuntura "tinha seus períodos de ilegalidade" na China.

Received: December 2011; Accepted: August 2012

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