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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.20  supl.1 Rio de Janeiro Nov. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702013000400022 

Livros & Redes

Peter Lund: entre o mito e a história

Peter Lund: between myth and history

Deise Rodrigues

1Doutoranda do Programa de Pós-graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas/Universidade Federal de Minas Gerais.deiseouropreto@yahoo.com.br

MARCHESOTTI, Ana Paula Almeida. Peter Wilhelm Lund: o naturalista que revelou ao mundo a pré-história brasileira. Rio de Janeiro: E-papers, 2011. 193p. 

Quando se trata da história da paleontologia no Brasil, o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880) surge como a maior referência. Lund passou a maior parte de sua trajetória científica em Lagoa Santa, e a cidade mineira o reconhece como um herói histórico. A encruzilhada entre a história e a memória da vida e ciência de Peter Lund, construída em meio às alegorias e às evidências, levou a historiadora Ana Paula Almeida Marchesotti a desenvolver uma pesquisa de mestrado que culminou na produção de seu primeiro livro, Peter Wilhelm Lund: o naturalista que revelou ao mundo a pré-história brasileira. A autora confessa que realiza um desejo infantil de conhecer a história de Peter Lund, logo, sua obra é “fruto de inquietações que nasceram na criança, fizeram sonhar a adolescente e semearam a curiosidade da historiadora” (p.17).

O interesse de Marchesotti se estende à obra de Lund, à comunidade científica de seu tempo e também aos mitos que o cercam. A histo-riadora Regina Horta Duarte explica, no prefácio, que o trabalho tem lugar entre a fronteira da biografia histórica e a história da ciência (p.9). Ao longo da leitura, sente-se que tal interface é alcançada. A preocupação do texto ultrapassa a abordagem biográfica, assinala as contribuições de Lund à história natural e os desdobramentos teórico-metodológicos, ao mesmo tempo, o exercício da biografia é recurso da autora, que relevou a trajetória científica e intelectual do sujeito.

Nesse sentido, o uso da biografia na obra, cujo objetivo é entender a relação sujeito-sociedade, está em sintonia com as tendências atuais da historiografia. Marchesotti propôs o diálogo entre os condicionamentos sociais e liberdades individuais que explora a tensão social entre norma e liberdade. Dessa forma, a autora evita as armadilhas da tradicional história intelectual, que destitui a obra de seu autor na pretensão de que ideias e pensamentos são almas sem corpos, ou que ignora o tempo histórico daquele que produz o texto. Marchesotti busca inspiração nas orientações de Roger Chartier para a leitura das obras de Lund e sua bibliografia. Nesse ponto, ela considera as produções intelectuais e estéticas, as representações mentais, as práticas sociais governadas por mecanismos e dependências desconhecidos dos próprios sujeitos. O desafio teórico é complexo, a autora insiste na liberdade do indivíduo – embora relativa, de romper seus contextos normativos e repressivos. Ao longo da obra, há certa dificuldade em perceber a medida desse embate da individualidade do cientista frente às amarras paradigmáticas.

Em relação à história da ciência de Lund, a autora se utilizou de fontes alternativas. As memórias científicas do naturalista foram lidas em paralelo à outra fonte histórica: as correspondências. A articulação documental é uma das contribuições positivas à historiografia da ciência. A correspondência ativa e passiva de Peter Lund soma mais de mil cartas, que se encontram na Biblioteca Real da Dinamarca, ainda a serem exploradas e traduzidas para os pesquisadores brasileiros. O livro de Ana Paula não só traz esse dado como também inclui, dentro de suas possibilidades, tais cartas na análise histórica.

A problemática central do livro é a superação da pergunta acintosa que acompanhava até então a trajetória de Lund: Por que o naturalista parou suas atividades em Lagoa Santa no ano de 1846? Marchesotti subverteu a questão e não a repetiu. Sua hipótese, ao contrário, defende que o naturalista jamais parou. Para a autora, o que houve foi o redirecionamento da prática científica, que deixava de se resumir somente nas explorações das cavernas. As correspondências mostram que Lund permaneceu ativo. O fluxo constante das cartas direcionadas às instituições de ciência e aos sábios evidencia que o naturalista não abandonou o ofício. Ao desenvolver esse pressuposto, Marchesotti afirma que Lund interrompeu apenas as explorações das grutas. No entanto, após 1846, ele continuou exercendo um importante papel nas discussões científicas de seu tempo e na comunidade local.

Além de uma profícua correspondência com sujeitos da ciência de variadas nacionalidades, Lund transformou Lagoa Santa em parada obrigatória no trajeto de inúmeros viajantes, sendo citado como mestre e incentivador. Teve suas ideias discutidas e requisitadas no meio científico internacional, manteve uma assídua leitura de obras e revistas científicas. Dessa maneira, percebe-se o caráter instrumental da carta para a prática científica no século XIX. Essa vasta rede de correspondências entre os naturalistas marcaria a necessidade e o meio que eles possuíam de se comunicar em relação às ‘descobertas’, estudos, dúvidas e teorias, como também de viabilizar o trânsito de artistas e auxiliares em missões, e até de materiais fósseis e instrumentos científicos.

Insistindo que as atividades científicas de Lund excedem suas visitas às cavernas, Marchesotti prepara o leitor para o debate científico da história natural no século XIX. A narrativa discute a ciência do naturalista dinamarquês entre o legado de Cuvier e os impactos da virada evolucionista de Darwin. A compreensão dessa problemática é subsidiada na obra por autores do pensamento biológico, como Ernst Mayr e Stephen Jay Gould. Os argumentos desses pesquisadores relativizam a difundida oposição do catastrofismo versus evolucionismo. A autora suaviza a dicotomia na revisão da obra científica de Lund.

Lund era um defensor das ideias de Cuvier, da mesma forma, analisava os fósseis a partir dos métodos desse naturalista francês. Os fósseis eram avaliados conforme o estrato geológico em que foram encontrados. As noções ‘cuvieristas’ da extinção das espécies e da ideia de sucessão orgânica através do tempo acompanhavam as memórias científicas das descobertas de Peter Lund. Foi assim que, segundo Marchesotti, “Lund não achou os fósseis, ele os procurou e lhes deu sentido” (p.42).

A discussão da dualidade catastrofismo/evolucionismo é revista também nas biografias sobre Lund. As representações do sujeito científico oscilam entre as duas teorias. Tem-se uma dupla distinção: ora Lund é apresentado como o naturalista que perdeu o trem da história, apoiado nas proposições ultrapassadas do catastrofismo; ora é tido como o homem além de seu tempo, que não só aceitou a ideia de evolução na ciência, como trouxe elementos de sustentação à mesma. A autora coloca que procurou “demonstrar como as teorias e a própria trajetória de Lund foi sendo digerida pela intelectualidade brasileira no decorrer do tempo e como sua imagem foi sendo construída e modificada” (p.26).

A obra de Marchesotti revela que as representações sobre Lund acabaram se tornando guias para um aprofundamento do debate epistemológico da história da ciência. Marchesotti se apresenta como inquisidora das representações, embora enfatize pouco o tempo e a histo-ricidade das obras analisadas. A autora, na verdade, deixa escapar como as representações são relevantes para o conhecimento do sujeito Lund. Mesmo que crie seus mitos, a memória coletiva permite a existência do homem no tempo, o qual só ganha uma história, se for possível, antes, representá-lo. Aos historiadores da ciência, a leitura é bem-vinda pela sua qualidade metodológica e riqueza temática que envolve Peter Lund no centro das discussões dos naturalistas no século XIX. Para outros leitores, por exemplo, os habitantes de Lagoa Santa, além do mito Lund, configura-se o sujeito histórico da obra.

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