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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.22 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702015000300004 

ANÁLISE

Fome, comida e bebida na música popular brasileira: um breve ensaio

Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos 1  

Mariana Perrelli Vasconcelos 2  

Iris Helena Guedes de Vasconcelos 3  

1Professor, Departamento de Nutrição, Centro de Ciências da Saúde/Universidade Federal de Santa Catarina. 88040-900 – Florianópolis – SC – Brasil. fguedes@floripa.com.br

2Professora, Colégio e Curso Ponto de Ensino. Rua Barão de Mesquita, 88. 20540-000 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil. perrellimariana@gmail.com

3Professora aposentada, Unidade Acadêmica de Letras, Centro de Formação de Professores/Universidade Federal de Campina Grande. 58900-000 – Cajazeiras – PB – Brasil. ihguedes@yahoo.com.br


RESUMO

O artigo reflete sobre como as temáticas fome, consumo de refrigerantes e consumo de feijão com arroz são enfocadas na música popular brasileira. Investigamos os anos de ditadura militar (1964-1985). O foco da análise é a chamada canção de protesto, gênero musical caracterizado por críticas estético-cultural, político-ideológica e social aos governos militares. Tomando como referencial teórico os estudos de ideologia e filosofia da linguagem de Mikhail Bakhtin, evidenciamos que a canção de protesto retratou elementos dos contextos econômico, político e social, e propiciou a difusão de hábitos e ideologias alimentares saudáveis ou não saudáveis, contribuindo para a construção da identidade alimentar brasileira.

Palavras-Chave: fome; refrigerante; feijão com arroz; música popular brasileira; ditadura militar

ABSTRACT

The article reflects on how the themes of hunger, consumption of soft drinks and consumption of beans and rice are addressed in Brazilian popular music. We investigate the years of military dictatorship (1964-1985). The focus of the analysis is on the so-called protest song, a musical genre characterized by aesthetic, cultural, political, ideological and social criticism to military rule. The study of the ideology and philosophy of language of Mikhail Bakhtin is the theoretical reference; especially his concepts of “ideological sign” and “word.” Analysis reveals that the protest song portrayed elements of the economic, political and social contexts and led to the diffusion of healthy or unhealthy eating habits or ideologies, contributing to the construction of the Brazilian dietary identity.

Key words: hunger; soft drinks; beans with rice; Brazilian popular music; military dictatorship

O artigo reflete sobre como a temática alimentação e nutrição é enfocada na música popular brasileira (MPB).1 Tomamos como recorte temporal de análise os 21 anos de ditadura militar (31 de março de 1964 a 15 de março de 1985), contexto histórico no qual surgiram “ícones” da MPB como os compositores Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Ivan Lins, Milton Nascimento, entre outros.

O cenário musical desse período foi palco de confluência de distintos gêneros musicais que emergiram, se estruturaram e se consolidaram entre os quais destacamos a Bossa Nova, a Jovem Guarda, a Tropicália e a MPB.2No campo da MPB, nosso foco de análise será a chamada “canção de protesto”,3 gênero musical que emergiu e se consolidou no período histórico em apreço, tendo como principal característica a crítica estético-cultural, político-ideológica e social como forma de resistência e oposição civil à ditadura militar (Contier, 1998; Napolitano, Villaça, 1998; Naves, 2000; Napolitano, 2004, 2010; Kirschbaum, Carvalho de Vasconcelos, 2007; Neder, 2012; Tinhorão, 2013).

O cenário nutricional do período foi palco de três importantes pesquisas do campo da alimentação e nutrição: (1) A pesquisa de gastos familiares com alimentação, realizada em 1962 pela Fundação Getulio Vargas (FGV); (2) O Nutrition Survey no Nordeste Brasileiro, realizado em 1963 a partir de convênio entre o Interdepartmental Committee on Nutrition for National Development (ICNND) dos EUA e o Instituto de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco; e (3) O Estudo Nacional da Despesa Familiar (Endef), realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos anos 1974-1975. Distintas análises das conclusões de tais investigações apontaram que, à época, parcela significativa da população brasileira, em todas as regiões do país, apresentava insuficiência no consumo alimentar, caracterizada particularmente pordeficit no consumo de calorias e proteínas, cujas principais consequências nutricionais se traduziam na predominância de doenças relacionadas à fome e à miséria (desnutrição energético-proteica, hipovitaminose A, anemia ferropriva, bócio endêmico, entre outras) (Viacava et al., 1983;Mondini, Monteiro, 2000; Vasconcelos, 2007).

Como estratégia metodológica, a partir da seleção de algumas composições musicais do período, procuramos analisar como as temáticas fome, consumo de refrigerantes e outras bebidas e consumo de feijão com arroz foram abordadas pelos artistas da MPB ao longo dos anos de ditadura militar. Ressaltamos os critérios de intencionalidade e conveniência tanto do processo de seleção das composições analisadas, como das temáticas que foram foco de nossa análise.

Tomamos como referencial teórico os estudos de ideologia e filosofia da linguagem deBakhtin (1999), particularmente, suas concepções de “signo ideológico” e “palavra”. Na perspectiva bakhtiniana, “um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas ao contrário destes, ele também reflete e refrata outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo” (p.31). Para o autor, “a palavra é o fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da palavra é absorvida por sua função de signo. A palavra não comporta nada que não esteja ligado a essa função, nada que não tenha sido gerado por ela. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social” (p.36). Na comunicação social ou comunicação na vida cotidiana, portanto, a palavra é a ponte da interação verbal entre quem fala e quem escuta (locutor e interlocutor).

Este ensaio encontra-se estruturado em três seções. Na primeira, abordamos os distintos significados (polissemia) que a palavra fome revela nas letras das canções analisadas. Na segunda, analisamos como o consumo de refrigerantes (particularmente Coca-Cola) e de outras bebidas é retratado. E na terceira examinamos como as canções analisadas abordam o consumo de feijão e da combinação feijão com arroz.

Vale esclarecer o porquê da opção por focar a análise no consumo de refrigerantes e outras bebidas, de feijão e da combinação feijão com arroz. Evidências científicas acumuladas nos últimos anos têm apontado como fatores de risco (consumo de refrigerantes e outras bebidas adocicadas) e fatores de proteção (consumo de feijão e da combinação feijão com arroz) esses marcadores associados à obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis (Brasil, 2006; Hu, Malik, 2010;Ko et al., 2010; Silva, Santos, Moura, 2010; Malik, Hu, 2012; Rodrigues et al., 2013). Por outro lado, partindo de parâmetros socioantropológicos e nutricionais assumimos o pressuposto de que o consumo de refrigerantes (particularmente Coca-Cola) constitui hábito alimentar importado dos EUA, enquanto o consumo da combinação feijão com arroz constitui hábito alimentar tipicamente brasileiro (Cascudo, 2004; Carneiro, 2005; Brasil, 2006; Coca-Cola..., 2013). Nessa perspectiva, neste ensaio, será analisada a prática de consumir refrigerantes (particularmente Coca-Cola) como indicador da adoção de um hábito alimentar não saudável, sendo a prática de consumir feijão com arroz considerada indicador de um hábito alimentar saudável.

Portanto, em relação às três temáticas centrais analisadas (fome, consumo de refrigerantes e consumo de feijão com arroz), a ideia foi identificar como a canção (composição) de protesto percebeu e retratou elementos do contexto econômico, político e social; como propiciou a difusão de hábitos e ideologias alimentares saudáveis ou não saudáveis; e, por último, como contribuiu para a construção da identidade alimentar brasileira.

“Você tem fome de quê?” As complexas dimensões da fome no Brasil

No Brasil, o complexo processo de gênese e reprodução da fome tem sido objeto de estudo desde os primeiros anos da década de 1930, quando o médico Josué de Castro (1908-1973) ousou denunciá-lo como um fenômeno de natureza multidimensional, oriundo da articulação de dimensões biológicas e sociais (Vasconcelos, 2001).

Assim, no livro Geografia da fome, publicado pela primeira vez em 1946, Josué de Castro (1980, p.305) denunciava: “A fome não é mais do que uma expressão – a mais negra e a mais trágica expressão do subdesenvolvimento econômico. Expressão que só desaparecerá quando for varrido do país o subdesenvolvimento econômico, com o pauperismo generalizado que este condiciona”.

Ainda em Geografia da fome, finalizando suas conclusões, como forma de enfrentamento/superação da fome, Josué de Castro (1980, p.305) propunha: “Impõe-se uma política que acelerando o processo de desenvolvimento, quebrando as mais reacionárias forças de contenção que impedem o acesso à economia do país a grupos e setores enormes da nacionalidade, venha a criar os meios indispensáveis à elevação dos nossos padrões alimentares”.

Ressaltamos que em 9 de abril de 1964 Josué de Castro teve seus direitos políticos cassados pela ditadura militar, exilou-se em Paris, onde faleceu em 1973. Enquanto isso, a fome foi considerada temática proibida pelos governos militares (Vasconcelos, 2001, 2010b).

No campo das chamadas canções de protesto, entre aquelas que conseguiram falar sobre fome, uma das mais emblemáticas é “Pra não dizer que não falei das flores (caminhando)”, composta por Geraldo Vandré (1968): “Pelos campos há fome em grandes plantações / Pelas ruas marchando indecisos cordões / Ainda fazem da flor seu mais forte refrão / E acreditam nas flores vencendo o canhão”.

Nesses versos, Geraldo Vandré retrata um dos paradoxos daquele contexto socioeco-nômico e político do país: a miséria e a fome da população rural brasileira em detrimento da abundância e riqueza da agricultura para exportação. A concentração da terra e renda nas mãos de uma minoria de latifundiários, enquanto a maioria da população rural vivia em precárias condições de vida. Naquele contexto dos anos 1960, tornou-se bastante evidente o processo de acentuação das desigualdades regionais e de campo-cidade, oriundo tanto da concentração da acumulação do capital no eixo Centro-Sul do país, como de sua penetração na agricultura brasileira. No caso do Nordeste, observou-se um acirramento do quadro de estagnação econômica que, aliado às secas periódicas da região, acarretou uma intensificação da mobilidade de força de trabalho em direção às áreas em que a concentração do crescimento econômico se verificava. Por outro lado, desencadeou intensa organização, mobilização e luta dos trabalhadores rurais e urbanos no Brasil. Por exemplo, destacamos as Ligas Camponesas, movimento iniciado em 1955, no Engenho Galileia (município de Vitória de Santo Antão, Pernambuco). Nos primeiros anos da década de 1960, as Ligas Camponesas encontravam-se espalhadas por todos os municípios de Pernambuco e pelos demais estados do Nordeste e do país, mobilizando os trabalhadores rurais em prol da implantação da reforma agrária e de mudanças sociais mais profundas. Esse movimento foi progressivamente esfacelado e extremamente reprimido com a instalação da ditadura militar, em março de 1964 (Azevêdo, 1982; Ianni, 1986; Vieira, 1987; Furtado, 1997; Vasconcelos, 2010b).

Vale retomar os resultados do inquérito de consumo alimentar realizado em 1962 pela FGV em oito estados brasileiros (Bahia, Ceará, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro). Considerando ponto crítico a ingestão de 2.450 calorias, tal pesquisa constatou que 38,5% da população estava abaixo desse nível, sendo que 53,7% correspondia à população urbana e 39,1% à população rural. No Nordeste, o percentual da população com ingestão calórica insuficiente foi de 74,4%, não havendo, praticamente diferenças entre a população urbana e a rural (FGV, 1970; Vasconcelos, 2010b).

Por denunciar a fome e conclamar o povo brasileiro para ir à rua e se engajar na luta contra a ditadura militar, a canção “Pra não dizer que não falei das flores” teve sua execução proibida,4 os discos do compositor foram destruídos pelos militares; Geraldo Vandré foi obrigado a exilar-se do Brasil, ainda em 1968, a partir da decretação do Ato Institucional n.5 (AI-5) (Napolitano, 2004).

Caetano Veloso (1968), em “Alegria, alegria”, composta em 1967, também fala sobre fome, abordando-a em outra dimensão: “Por entre fotos e nomes / sem livros e sem fuzil / sem fome, sem telefone / no coração do Brasil”.

Decerto, a letra de “Alegria, alegria” encerra muitos significados, o que pode possibilitar múltiplas interpretações. Antes de tudo, é preciso situar o contexto histórico-social e político em que essa canção foi concebida. Em pleno auge da ditadura militar, os aparentes versos desconexos e metafóricos criados por Caetano Veloso para expressar sua crítica e descontentamento àquela forma de governo, à censura, à prisão, à tortura, à violência policial-militar, ao exílio, à alienação cultural, se revestem de relevante sentido político de protesto e contestação. “Alegria, alegria” sofreu censura, e sua execução foi proibida após decretação do AI-5. Caetano Veloso foi preso e exilou-se em Londres até 1972, quando retornou ao Brasil (Napolitano, 2004; Tinhorão, 2013).

Em 1976, a dupla João Bosco e Aldir Blanc, na canção “O ronco da cuíca”, presenteiam-nos com uma instigante abordagem sobre a origem da fome:

A raiva dá pra parar, pra interromper.

A fome não dá pra interromper.

A raiva e a fome é coisas dos home.

A fome tem que ter raiva pra interromper.

A raiva é a fome de interromper.

A fome e a raiva é coisas dos home (Bosco, Blanc, 1976b).

Nessa canção, as palavras raiva e fome entrecruzam-se, se diferenciam, se distinguem e ao mesmo tempo se complementam numa relação de interdependência de uma sobre a existência da outra. A raiva, sentimento humano, com sentido vernáculo correspondente a grande irritação, aversão, fúria, desespero ou ódio por determinada situação, pessoa, coisa, atitude etc., de acordo com a canção, poderia ser controlada ou combatida, dentro de certos limites de racionalidade. A fome, expressão corporal da necessidade fisiológica quantitativa e/ou qualitativa de alimentos e nutrientes, de acordo com a canção, não poderia ser extinta ou interrompida por impulsos ou comportamentos racionais, sendo obrigatório o suprimento corporal dos alimentos e nutrientes exigidos. Sendo assim, como produto das relações sociais humanas, da exploração econômica do homem pelo homem em determinados contextos históricos sociais, a fome teria que romper tais relações de exploração para poder ser interrompida ou extinta (Castro, 1980; Ferreira, 2010).

Na canção “Gente”, Caetano Veloso (1977)retrata de forma poética o contexto de miséria e de fome vivenciado por significativa parcela da população de trabalhadores brasileiros no pós-milagre econômico:

Gente lavando roupa, amassando pão,

Gente pobre arrancando a vida com a mão,

No coração da mata, gente quer prosseguir,

Quer durar, quer crescer,

Gente quer luzir ...

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome (Veloso, 1977).

Recordamos que, à época, as contradições do período de milagre econômico brasileiro (1968-1974), tais como a elevação das taxas de desemprego, o arrocho salarial, o aumento da inflação, a concentração da renda e da terra, as elevadas taxas de mortalidade infantil, de doenças infecciosas e parasitárias, de fome, de desnutrição, de deficit de crescimento e outras deficiências nutricionais, foram amplamente divulgadas na imprensa nacional e internacional, mesmo com a criteriosa censura nos meios de comunicação. Um dos exemplos foi o “silêncio” do governo militar em torno dos dados do Endef, a pesquisa realizada pelo IBGE em 1974 e 1975. Os resultados só começaram a ser divulgados a partir de 1978 e atestavam que 67% da população apresentava consumo energético inferior às necessidades nutricionais mínimas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde. Como consequência, 46,1% dos menores de cinco anos, 24,3% dos adultos e idosos brasileiros do sexo masculino e 26,4% do feminino apresentavam desnutrição energético-proteica (Viacava et al., 1983;Mondini, Monteiro, 2000; Vasconcelos, 2005, 2007).

Em 1987, os Titãs (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Brito), compuseram a canção “Comida”, em que a fome ganha dimensão bem apropriada ao contexto de luta pela redemocratização que o país vivenciava – a fome de democracia, cultura, diversão, arte e felicidade:

A gente não quer só comida.

A gente quer comida, diversão e arte.

A gente não quer só comida.

A gente quer saída para qualquer parte.

A gente não quer só comida.

A gente quer bebida, diversão, balé.

A gente não quer só comida.

A gente quer a vida como a vida quer.

Bebida é água! Comida é pasto!

Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?

A gente não quer só comer.

A gente quer comer e quer fazer amor.

A gente não quer só comer.

A gente quer prazer pra aliviar a dor (Antunes, Fromer, Brito, 1987).

Vale ressaltar a inclusão intencional da canção “Comida” em nossa análise, embora extrapolando os limites do recorte temporal estabelecido (1964-1985) e de certa forma os limites da sua categorização como canção de protesto. De fato, em 1987 o país vivenciava o terceiro ano do processo de redemocratização pós-ditadura militar ou transição democrática, contexto chamado de Nova República. Por outro lado, embora formados em 1982 com uma proposta musical com nítidas características de resistência cultural à ditadura militar, os Titãs vinculam-se a um gênero musical distinto da chamada “canção de protesto” – o “rock brasileiro” (Marmo, Alzer, 2002; Napolitano, 2010; Tinhorão, 2013). Sendo assim, a intencionalidade da inclusão da canção “Comida” em nossa análise foi uma tentativa de apontar as diferentes abordagens da palavra fome nos dois contextos. Observa-se que os Titãs nos remetem não apenas à satisfação de duas das necessidades vitais do ser humano – comer (comida) e beber (bebida) – e aos efeitos da insatisfação destas necessidades – fome e sede, mas a reivindicar o direito de satisfação de outras necessidades humanas também fundamentais. No contexto nutricional, as pesquisas realizadas a partir de meados da década de 1980 começavam a apontar redução da prevalência da desnutrição (fome) e o início da escalada do aumento da prevalência da obesidade (Mondini, Monteiro, 2000; IBGE, 2004; Vasconcelos, 2005, 2007). Nesse sentido, tornam-se compreensíveis os distintos retratos da fome feitos pelos artistas da MPB no período da ditadura militar e na transição democrática. Fazendo uma analogia da análise de Napolitano (2010) sobre as distinções entre a canção engajada do período 1969-1974 (por ele chamada de “canção dos anos de chumbo”) e aquela do período de 1975-1982 (por ele chamada de “canção da abertura”),5 diríamos que o contexto de fome extrema retratado pelos artistas da MPB no período 1960-1970 já havia passado, mas o contexto de obesidade e de liberdade já estava começando a partir de meados da década de 1980, embora ainda não retratado nas canções populares.

Enfim, no contexto de luta contra a ditadura militar e pela redemocratização do país, vale destacar o papel do movimento sanitário brasileiro, cujo principal ideário foi a realização da reforma sanitária e a construção do Sistema Único de Saúde (SUS) (Fleury, 2009). Além disso, destaca-se no interior desse movimento mais amplo a luta pelo Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) (Valente, 2002). Assim, ressaltamos a realização da oitava Conferência Nacional de Saúde (Brasília, 17 a 21 de março de 1986), em que se definiram a “saúde como direito de todos e dever do Estado” e, como seu desdobramento, a realização da primeira Conferência Nacional de Alimentação e Nutrição (1ª Cnan). A 1ª Cnan, também realizada em Brasília, de 26 a 28 de novembro de 1986, foi o evento em que se assumiu pela primeira vez que o acesso à alimentação adequada nos diferentes estágios biológicos é um direito fundamental de todas as pessoas e uma obrigação prioritária do Estado (Valente, 2002). Reconhecemos, portanto, nesse evento um embrião do processo de mobilização e luta que resultou na recente promulgação pelo Congresso Nacional, em 4 de fevereiro de 2010, da Emenda à Constituição de 1988, que incluiu, em seu artigo 6º, a alimentação como um dos direitos sociais de todo brasileiro, conforme estabelecia o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) n.47, de 2003 (Brasil, 5 fev. 2010).

“Eu tomo uma Coca-Cola”: a americanização dos hábitos alimentares

A canção de protesto “Alegria, alegria”, lançada em 1967, retrata de forma magistral a importância que o consumo do refrigerante Coca-Cola já representava no final dos anos 1960 para os hábitos alimentares dos jovens brasileiros: “Eu tomo uma Coca-Cola / ela pensa em casamento / uma canção me consola / eu vou” (Veloso, 1968).

De fato, a introdução do consumo de Coca-Cola nos hábitos alimentares brasileiros tem sido creditada aos soldados norte-americanos, que no decorrer da Segunda Guerra Mundial (1941-1945) faziam paradas obrigatórias em Pernambuco (Recife) e Rio Grande do Norte (Natal) antes de prosseguir em seus navios e aviões para a Europa. Naquele período foram implantadas as primeiras fábricas do refrigerante no Brasil e a partir de então foram desencadeadas as ricas campanhas publicitárias para a ampliação de seu consumo. Alguns slogans das campanhas tais como “isto faz um bem” (1959), “tudo vai melhor com Coca-Cola” (1966) e “Coca-Cola dá mais vida” (1972) denotam muito bem o apelo de marketing que os produtores desse refrigerante estrategicamente utilizaram para ampliar a adesão ao consumo desse importante símbolo do american way of life entre os jovens brasileiros (Coca-Cola..., 2013).

Levando em consideração o contexto histórico no qual Caetano Veloso compôs a música “Alegria, alegria”, podemos dizer que estamos diante de uma possível ambiguidade do termo Coca-Cola, e não só dele, como também de toda a letra, assim como nas outras músicas desse período. Porém, focaremos especialmente os possíveis sentidos atribuídos à palavra Coca-Cola, que é o ponto-chave de nosso trabalho neste momento. A ambiguidade aqui proposta gera uma duplicidade de sentido, uma estratégia marcante utilizada pelos artistas e intelectuais durante a ditadura militar, período em que a censura dominava os meios publicitários e artísticos, proibindo qualquer forma de manifestação explícita de ideias consideradas subversivas pelos militares (Couto, 1998; Napolitano, 2004).

Coca-Cola seria o símbolo da liberdade,6 de acordo com seus slogans e pelo fato de ser uma marca dos EUA, país que possuía, e ainda possui, o statusde maior potência mundial, ilusoriamente tido como o local em que os sonhos podem ser realizados. Logo à primeira vista, seria possível ter a impressão de que o emprego da palavra Coca-Cola poderia representar o elo entre Brasil, país em plena ditadura militar e sufocado por uma crise brutal, e o “modelo” de país ideal vendido pelos canais de informação (Coca-Cola..., 2013).

Já de acordo com o contexto do autor que escreve a canção, levando em consideração seu ponto de vista crítico, podemos atribuir outra visão, pois a partir da ideologia de protesto,7 a Coca-Cola seria um símbolo de alienação. Contraditoriamente, ao iludir a população com sua marca de modismo e liberdade, o país regente dos modismos e exportador de cultura produziu uma geração mergulhada na obesidade (Ezzati et al., 2006; Lobstein, Jackson-Leach, 2007; Wang et al., 2011).

Nesse sentido, temos uma antítese estabelecida por esse duplo sentido que pode suscitar o termo Coca-Cola. Essas duas visões são possíveis por dois fatores importantes, o contexto histórico-social e principalmente pelos seguintes versos:

Ela pensa em casamento

E eu nunca mais fui à escola

Sem lenço e sem documento,

Eu vou...

Eu tomo uma Coca-Cola

Ela pensa em casamento

E uma canção me consola

Eu vou (Veloso, 1968).

O vocábulo casamento representa o aprisionamento e está estabelecendo um paralelismo de ideias com Coca-Cola. Quando o autor diz: “E eu nunca mais fui à escola”, podemos observar uma forte crítica à censura do momento vivenciado por Caetano, no qual até nas escolas só era ensinado o que convinha ao governo, também uma maneira de alienação generalizada para que os futuros cidadãos não enxergassem a realidade de barbáries que estavam acontecendo. “Sem documento”, pois os que enxergavam caíam na clandestinidade para não ser encontrados e, consequentemente, torturados para não continuar difamando as atrocidades do governo e para entregar seus companheiros de luta. “E uma canção me consola”, porque os sentimentos reprimidos e as reivindicações podiam ser expressos de maneira a ludibriar a censura. Observamos assim, mais um ponto da ambiguidade encontrada na letra. Se o eu lírico diz que nunca mais foi à escola, se diz sem lenço e sem documento e uma canção o consola, então nos parece que ele está aprisionado por ser contra o sistema. Dessa maneira, nos faz pensar que ele está se contextualizando fora do sistema ditatorial, mas quando ele toma uma Coca-Cola se insere naquele ambiente porque ela representa um termo de ligação à alienação. Um ponto importantíssimo que não pode ser esquecido e que deve alimentar nossa análise é o dos indícios do apoio político, ideológico e financeiro dos EUA à ditadura militar brasileira e de outros países latino-americanos (Couto, 1998); logo, nada mais óbvio do que trazê-lo para este contexto a partir da Coca-Cola.

Como já foi dito, essa música é composta por versos aparentemente desconexos que só ganham sentido a partir do tipo de ouvinte, ou seja, um ouvinte que conheça e/ou tenha vivenciado o contexto histórico da canção.8 Assim, já em 1968, nos versos de “Alegria, alegria”, Caetano Veloso expressava ter o costume de consumir Coca-Cola. Hábito que reaparece na canção “Você não entende nada”, gravada inicialmente pela cantora Gal Costa em 1970. Relembramos que, à época da gravação de “Você não entende nada”, Caetano Veloso encontrava-se exilado em Londres; assim, alguns versos da canção fazem alusão a esse contexto (Napolitano, 2004; Tinhorão, 2013). Por outro lado, outros versos parecem denotar a incorporação e a difusão de hábitos alimentares inadequados e perigosos à saúde, tais como o consumo do refrigerante Coca-Cola no horário das refeições principais e, simultaneamente, consumo de sobremesa, café com adoçante e cigarro (Brasil, 2006; Hu, Malik, 2010; Ko et al., 2010; Malik, Hu, 2012). Portanto, tais versos parecem evidenciar uma crítica à automatização e o desejo de quebrá-la, de transgredir:

Você traz a coca-cola eu tomo,

Você bota a mesa, eu como, eu como...

Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não aguento,

Traz meu café com suita eu tomo

Bota a sobremesa eu como, eu como...

Você tem que saber que eu quero correr mundo

Correr perigo

Eu quero é ir-me embora

Eu quero dar o fora

E quero que você venha comigo (Veloso, 1968).

Enquanto isso, Milton Nascimento, na canção “Saudades dos aviões da Panair (conversando no bar)”, em 1975, sete anos depois que Caetano Veloso cantava que consumia Coca-Cola, nos relata que sua adesão ao hábito de consumir esse produto apenas estava começando: “Cerveja que tomo hoje é apenas em memória dos tempos da Panair / a primeira Coca-Cola foi, me lembro bem agora, nas asas da Panair / a maior das maravilhas foi, / voando sobre o mundo nas asas da Panair” (Nascimento, Brant, 1975).

Por outro lado, a dupla João Bosco e Aldir Blanc compunha “Dois pra lá, dois pra cá”, gravada inicialmente, em 1973, por Elis Regina (1945-1982), em que aparece o relato do consumo da mistura de álcool com refrigerante: “Eu hoje me embriagando dewhisky com guaraná, / ouvi tua voz sussurrando são dois pra lá, dois pra cá” (Bosco, Blanc, 1975).

A sonoridade musical da mistura “whisky com guaraná” com os passos da dança parece perfeita, mas acima de tudo nos remete mais uma vez à identificação do sincretismo alimentar9 do povo brasileiro. Destacamos que, àquela época, outros drinks oucocktails alcoólicos (mistura de bebida alcoólica com refrigerante) muito habituais no Brasil eram o “Cuba libre”(mistura de rum, Coca-Cola e uma fatia de limão) e sua alternativa à brasileira, o “sambão” (mistura de cachaça com Coca-Cola). Sem esquecer o drinque alcoólico genuinamente brasileiro – a “caipirinha” (cachaça, limão, açúcar e gelo).

Vale ressaltar que, no Brasil, o início do processo de industrialização de bebidas à base de guaraná ocorreu a partir de 1905, mas só em 1921 foi lançada no mercado a atual marca de refrigerante Guaraná Antarctica, a segunda marca de refrigerante mais consumida no Brasil e uma das 15 mais consumidas no mundo (Guaraná..., s.d.). De acordo com dados das pesquisas realizadas pelo IBGE, entre 1974-1975 e 2002-2003, a quantidade anual per capitade refrigerante de guaraná adquirida para consumo no domicílio passou de 1,297 para 7,656 litros/quilogramas (IBGE, 2004).

Tim Maia (1942-1998), por sua vez, em 1971, na canção “Chocolate”, procurava demonstrar sua aparente preferência alimentar por uma bebida não alcoólica – o chocolate. Sendo assim, expressava sua “rejeição” por bebidas não alcoólicas de consumo muito mais usual dentro dos hábitos alimentares brasileiros (chá, café, Coca-Cola e guaraná) (IBGE, 2004, 2010; Brasil, 2006):

Não quero chá.

Não quero café.

Não quero Coca-Cola.

Me liguei no chocolate.

Só quero chocolate.

Não adianta vir com guaraná pra mim.

É chocolate que eu quero beber (Maia, 1971).

Decerto, para driblar a censura e não explicitar o consumo de drogas (álcool, anfetaminas, maconha, haxixe, entre outras), há relato biográfico de que Tim Maia usava o termo “chocolate” para camuflar o uso de “haxixe” (pasta de maconha) (Motta, 2007). De fato, frente às evidências científicas atuais, o consumo de chocolate em relação às demais bebidas rejeitadas na canção de Tim Maia encontra-se associado a efeitos benéficos à saúde, particularmente, em relação a suas propriedades antioxidante, cardioprotetora, anti-inflamatória, entre outras (Efraim, Alves, Jardim, 2011).

Em 1973, Chico Buarque e Gilberto Gil lançaram a canção “Cálice”, a qual foi imediatamente censurada, tendo sua execução proibida até 1978.10 Afora o lírico e ideológico uso de palavras que a canção encerra, seus autores acenam para o “desapego” de um hábito alimentar de origem milenar, o consumo de vinho:11 “Pai! Afasta de mim esse cálice / de vinho tinto de sangue / como beber dessa bebida amarga / tragar a dor e engolir a labuta?” (Buarque, Gil, 1978).

Ressaltamos que o lirismo da canção é marcado pela força do emprego metafórico do termo cálice e sua ambiguidade contextual. Assim, o apelo ao desapego a esse hábito alimentar de origem milenar não pode ser desvinculado da questão ideológica, ou seja, da simbologia do vinho empregada pela tradição cristã,12 que os poetas se apropriam para denunciar o sacrifício das vítimas da ditadura militar e a imposição do silêncio pela censura, bem como a omissão da Igreja.

Enfim, quatro décadas depois, frente às evidências científicas dos malefícios à saúde/nutrição que o consumo de refrigerantes e bebidas adocicadas provoca, particularmente em relação a sua associação com o desenvolvimento da obesidade e doenças crônicas não transmissíveis associadas (Hu, Malik, 2010; Ko et al., 2010; Malik, Hu, 2012), nos parece que seria politicamente incorreto dentro do paradigma da “alimentação saudável” dos anos atuais (WHO, 2004; Vasconcelos, 2010a) cantar o consumo de refrigerantes e bebidas alcoólicas.

Seguindo a trilha da interpretação de Napolitano (2010, p.400) sobre o papel político-social da MPB ao concluir que “é plausível afirmar que a música popular teve alguma responsabilidade pela ampliação das ideias e dos valores da resistência civil, fazendo penetrar o sussurro das conspirações poéticas no círculo do medo construído pela repressão”, diríamos que as canções analisadas neste ensaio tiveram alguma responsabilidade pela difusão do hábito de consumo de refrigerantes (particularmente Coca-Cola) e outras bebidas, contribuindo de forma compartilhada com uma rede complexa e multicausal de fatores biológicos e ambientais para a atual prevalência de obesidade e doenças associadas da população brasileira (Brasil, 2006).

“O preto que satisfaz”: a identidade alimentar do brasileiro

Inúmeras canções brasileiras exaltam a importância do consumo do feijão como um dos principais alimentos básicos que compõem o padrão alimentar do país. Assim, na canção “Cotidiano”, composta por Chico Buarque em 1971, ao relatar a rotina diária de um trabalhador brasileiro, aparece referência ao consumo diário de feijão no almoço, o que pode expressar tanto a existência de um padrão alimentar monótono, como denotar as raízes histórico-culturais dos hábitos alimentares da população: “Todo dia eu só penso em poder parar; / meio-dia eu só penso em dizer não, / depois penso na vida pra levar / e me calo com a boca de feijão” (Buarque, 1971b).

De forma análoga, na canção “Construção”, gravada no mesmo ano, Chico Buarque (1971a), em sua descrição das condições de vida do operário da construção civil, também relata o consumo diário da “mistura feijão com arroz” como prato principal ou único do almoço: “Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe... / comeu feijão com arroz como se fosse o máximo”.

Em 1978, ano em que foi criado o Comitê Brasileiro pela Anisitia, congregando várias entidades da sociedade civil (Carlos, 2008), Chico Buarque lançou a canção “Feijoada completa”, ensinando a receita do prato mais tradicional da culinária brasileira contemporânea para recepção dos exilados políticos:

Mulher, você vai gostar

Tô levando uns amigos pra conversar

Eles vão com uma fome que nem me contem

Eles vão com uma sede de anteontem

Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão

E vamos botar água no feijão

Mulher, não vá se afobar

Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar

Ponha os pratos no chão, e o chão tá posto

E prepare as linguiças pro tira-gosto

Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão

E vamos botar água no feijão

Mulher, você vai fritar

Um montão de torresmo pra acompanhar

Arroz branco, farofa e a malagueta

A laranja-bahía ou da seleta

Joga o paio, carne-seca, toucinho no caldeirão

E vamos botar água no feijão

Mulher, depois de salgar

Faça um bom refogado, que é pra engrossar

Aproveite a gordura da frigideira

Pra melhor temperar a couve mineira

Diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão

E vamos botar água no feijão (Buarque, 1978).

A canção “Tô voltando”, composta por Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, popularizada a partir da gravação feita pela cantora Simone, em 1979, em pleno raiar do processo de anistia política, faz alusão ao desejo de um pretenso exilado político de poder novamente degustar aquele “feijão-preto” preparado por sua amada: “Pode ir armando o coreto / e preparando aquele feijão-preto, / eu tô voltando” (Tapajós, Pinheiro, 1979).

A canção “O preto que satisfaz”, composta em 1979 por Gonzaguinha (1945-1991), é outro exemplo do relevante papel cultural e nutricional do feijão no país:

Dez entre dez brasileiros preferem feijão.

Esse sabor bem Brasil, verdadeiro fator de união da família.

Esse sabor de aventura famoso Pretão Maravilha.

Faz mais feliz a mamãe, o papai, o filhinho e a filha.

Dez entre dez brasileiros elegem feijão!

Puro, com pão, com arroz com farinha ou macarrão, macarrão, macarrão!

É nessas horas que esquecem dos seus preconceitos.

Gritam que esse crioulo é um velho amigo do peito.

Feijão tem gosto de festa, é melhor e mal não faz.

Ontem, hoje, sempre, feijão, feijão, feijão, o preto que satisfaz! (Nascimento Junior, 1979).

Conforme apontamos (Vasconcelos, 2008), emGeografia da fome, Josué de Castro (1980) introduziu os conceitos de áreas alimentares, áreas de fome e de mosaico alimentar brasileiro, traçando o primeiro mapa da fome no país. Por “áreas alimentares”, concebeu uma determinada região geográfica que dispunha de recursos típicos, dieta habitual baseada em determinados produtos regionais e com seus habitantes refletindo, em suas características biológicas e socioculturais, a influência marcante da dieta. E por “mosaico alimentar brasileiro”, concebeu a diferenciação regional dos tipos de dieta existentes no país, oriundos das variadas categorias de recursos naturais (alimentos) e das distintas etnias que constituíram a nação brasileira. Sendo assim, em Geografia da fome, o país seria dividido em cinco diferentes áreas alimentares assim distribuídas: (1) área amazônica; (2) Nordeste açucareiro ou zona da mata nordestina; (3) sertão nordestino; (4) Centro-Oeste e (5) extremo sul. Àquela época, para todas as regiões brasileiras, como exceção do extremo sul, o feijão aparecia como um dos quatro alimentos componentes da dieta básica da população (Castro, 1980).

Também em estudo anterior (Vasconcelos, 2001), ao analisar a contribuição de Gilberto Freyre (1900-1987) à constituição do campo da nutrição no Brasil, a partir da leitura de Casa-grande e senzala(Freyre, 1998), observamos que, para aquele autor, a interação de fatores etnoculturais, socioeconômicos e geográficos propiciou a formação do padrão de consumo e dos hábitos alimentares da sociedade colonial brasileira. Para Gilberto Freyre, o referido padrão foi produto de sincretismo alimentar das cozinhas (culinárias) do índio brasileiro, do negro africano e do branco português. Sendo assim, ele relata uma série de evidências com o intuito de demonstrar que foi a mistura das cozinhas dessas três raças que constituiu a cozinha mestiça, para ele a autêntica cozinha brasileira. Embora em algumas passagens Gilberto Freyre relate o consumo de feijão no período da sociedade colonial escravocrata, não há registro do consumo da mistura feijão com arroz, tampouco de feijoada. De acordo com Gilberto Freyre, na farinha de mandioca fixou-se a base do nosso sistema de alimentação. Ao longo de várias passagens, ele chama atenção para dois produtos alimentares nativos – a mandioca e o milho –, particularmente para a farinha de mandioca, que, segundo ele, transformou-se no alimento fundamental do brasileiro.

Nas últimas décadas, alguns estudos têm procurado resgatar as origens históricas, socioculturais e simbólicas do consumo do feijão, da mistura feijão com arroz e da feijoada à brasileira (Maciel, 2001; Papavero, 2002; Elias, 2004; Carneiro, 2005;Silva, Gomes, 2008). Muitos desses estudos tomam como referencial a obra de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986)História da alimentação no Brasil (Cascudo, 2004), em que aparecem os primeiros registros sobre a feijoada como símbolo da cozinha brasileira, o prato típico nacional, síntese de nossa identidade alimentar.

As canções analisadas nesta seção denotam que os artistas da MPB realizaram um inquérito alimentar bem preciso dos hábitos alimentares da população brasileira (Vasconcelos, 2007), apontando o feijão e a combinação feijão com arroz como pratos do cotidiano alimentar e a feijoada como o prato atípico, dos dias de festa, de finais de semana ou de reunir os amigos. A sensação percebida é de que cantar sobre feijão, feijão com arroz e feijoada virou “moda” na MPB dos anos 1970.

Nas canções “Cotidiano” e “Construção”, representantes do gênero musical chamado porNapolitano (2010, p.391) de “canção dos anos de chumbo” por ter sido lançadas no período de violência extrema da ditadura militar (1969-1974), o feijão e a combinação feijão com arroz aparecem como pratos do cotidiano alimentar do oprimido trabalhador brasileiro. Já nas demais canções (“Feijoada completa”, “Tô voltando” e “O preto que satisfaz”) – representantes do gênero musical chamado por Napolitano (2010, p.391) de “canção da abertura” por tersido lançadas no período de “abrandamento” da ditadura militar (1975-1982) – o feijão, a combinação feijão com arroz e outros alimentos e a feijoada aparecem como prato atípico, dos dias de festa, de finais de semana ou de reunir os amigos ou a família.

Entretanto, a análise de tendência temporal da disponibilidade domiciliar de feijão e arroz na alimentação das famílias brasileiras, evidenciada pelas Pesquisas de Orçamento Familiar (POFs) do IBGE, tem apontado constante redução dos percentuais de participação desses alimentos ao longo do período 1974-2009. Assim, entre 1974-1975 e 2002-2003 foi verificada uma redução de 30% e de 23% na disponibilidade domiciliar de feijão e de arroz, respectivamente. Entre o período de 2002-2003 e 2008-2009, a redução observada foi 26,4% para o feijão e de 40,5% para o arroz (IBGE, 2004, 2010; Rodrigues et al., 2013).

Portanto, precisamos voltar a ouvir a canção de Chico Buarque e “comer feijão com arroz como se fôssemos uns príncipes, comer feijão com arroz como se fosse o máximo”, comer feijão com arroz porque é saudável.

Considerações finais

A análise realizada reforça a ideia de que as canções de protesto objetos de nossa investigação constituíram importantes ferramentas de comunicação entre os cantores/compositores e seus ouvintes (locutores e interlocutores na perspectiva bakhtiniana), a partir da disseminação polissêmica das palavras e frases que compunham suas letras.

Foi possível identificar que umas cumpriram o papel de retratar cenas do contexto histórico, denunciando as condições de fome, miséria, violência e exploração de significativas parcelas da população brasileira. Outras foram veículo de crítica e ao mesmo tempo de difusão de novos hábitos e ideologias alimentares. Outras exaltaram o papel sociocultural de determinados alimentos e pratos típicos no processo de construção de nossa identidade alimentar. Por consequência, em seu conjunto, as canções de protesto contribuíram no processo de construção da nacionalidade brasileira dentro do contexto analisado.

Além das dimensões apontadas, podemos acrescentar que a MPB criada nos anos de ditadura militar também ousou caminhar por outras trilhas interpretativas do ato de alimentação humana. Nessa direção, vale mencionar um trecho da canção “O rancho da goiabada”, composta por João Bosco e Aldir Blanc em 1976:

Os boias-frias quando tomam umas biritas

Espantando a tristeza

Sonham, com bife a cavalo, batata frita

E a sobremesa

É goiabada cascão com muito queijo

Depois café, cigarro e um beijo de uma mulata

Chamada Leonor ou Dagmar (Bosco, Blanc, 1976a).

Nesses versos, João Bosco e Aldir Blanc procuram induzir no sonho etílico dos boias-frias aquilo que Claude Fischler (1995)chamou de dimensão simbólica do ato alimentar. Para esse autor, além da dimensão ou valor nutricional (ser fonte de energia, vitaminas e minerais necessários para construção e manutenção do corpo humano), o alimento encerra uma dimensão ou valor simbólico (ser fonte de imaginário, significados e representações sociais ou coletivas). Assim, em vez de retratar a realidade de fome e de exclusão político-social vivenciada pelo enorme contingente de trabalhadores rurais temporários (volantes ou boias-frias) que o processo de modernização capitalista da agricultura brasileira criou a partir dos anos 1960 (Gonçalves Neto, 1997), João Bosco e Aldir Blanc apelam para o onírico alimentar (uma marmita ou “quentinha” com bife a cavalo, batata frita, goiabada cascão com muito queijo e café), muito embora também tenham cantado os hábitos não saudáveis de consumo de álcool e fumo dos protagonistas do “Rancho da goiabada”.

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1Desde já é preciso ressaltar que na literatura investigada não há consenso sobre o conceito de música popular brasileira (MPB). Observa-se o uso dessa expressão tanto em sentido mais amplo (sem limitação cronológica ou de gênero musical, abarcando desde a modinha do século XVIII ao funk carioca do século XXI) como em sentido restrito (com limitação cronológica e de gênero musical) (Contier, 1998; Napolitano, 2004; Neder, 2012; Tinhorão, 2013). Neste ensaio, adotaremos uma concepção de MPB dentro de seu sentido restrito conforme aquela apresentada por Napolitano (2004, p.105): “MPB (Música Popular Brasileira), sigla que desde meados dos anos 1960 congregava a música de matriz nacional-popular (ampliada a partir de 1968, na direção de outras matrizes culturais, como opop), declaradamente crítica ao regime militar”.

3Na literatura investigada também não verificamos consenso sobre o conceito de “canção de protesto”. Observamos o uso de variantes como “canção engajada”, “canção participante”, “canção de vanguarda”, “canção de resistência”, “canção política”, “canção de oposição” e “canção de esquerda”, usadas muitas vezes como sinônimos e outras não. Para Contier (1998, p.14), por exemplo, “a chamada canção de protesto, escrita por dezenas de compositores durante os anos 1960, num primeiro momento, representava uma possível intervenção política do artista na realidade social do país, contribuindo assim para a transformação desta numa sociedade mais justa”. Por sua vez, em Napolitano (2004, 2010) aparece menção ao termo “canção de protesto”, mas é mais usual a expressão canção engajada: “A canção engajada, em todas as suas variantes, não apenas dialogou com o contexto autoritário e as lutas da sociedade civil, mas ajudou, poética e musicalmente falando, a construir um sentido para a experiência social da resistência ao regime militar, transformando a ‘coragem civil’ em tempos sombrios em síntese poético-musical” (Napolitano, 2010, p.390).

4A canção “Pra não dizer que não falei das flores” foi regravada em 1979 pela cantora Simone, obtendo sucesso de crítica e público, sendo uma das canções da agenda do movimento pela abertura política no país.

5Comparando o contexto 1975-1982 com o contexto 1969-1974, Napolitano (2010, p.391) considera que “A era da violência extrema havia passado, mas a era da liberdade ainda não havia começado”.

6Conforme Bakhtin (1999, p.32), “qualquer produto de consumo pode, da mesma forma, ser transformado em signo ideológico. ... Mas o produto de consumo enquanto tal não é, de maneira alguma, um signo”.

7A ideologia de protesto contida na chamada canção engajada, de acordo com distintas análises, consistia na adoção de ideias e princípios contra a internacionalização da economia, da cultura e de outras esferas da sociedade sob a égide do imperialismo. No campo específico da música popular brasileira, consistia na luta político-ideológica contra a influência do imperialismo representado por determinados gêneros musicais tais como o jazze o rock, e pela defesa e valorização de gêneros musicais de base nacional-popular (samba, marcha, frevo, baião, entre outros). O movimento Tropicália, introduzido, particularmente, por Caetano Veloso e Gilberto Gil, parece ter rompido com algumas dessas bases político-ideológicas. Nesse sentido, à época, ambos foram considerados, por companheiros artistas e críticos da MPB, “alienados” e “americanizados”. Nessa perspectiva, tanto o uso de instrumentos musicais eletroeletrônicos como a referência ao hábito de consumir Coca-Cola na letra de “Alegria, alegria” parecem indicar esse viés “modernizante”, “americanizado” e “alienado” dos criadores da Tropicália (Contier, 1998; Napolitano, 2004, 2010; Neder, 2012; Tinhorão, 2013).

8Conforme Bakhtin (1999, p.106), “o sentido da palavra é totalmente determinado por seu contexto. De fato, há tantas significações possíveis quantos contextos possíveis. No entanto, nem por isso a palavra deixa de ser una”. Na perspectiva de Bakhtin (1999), a palavra é a ponte da interação verbal entre quem fala e quem escuta (locutor e interlocutor ou, no nosso caso, cantor/compositor e ouvinte). Parece-nos, então, que essa perspectiva vai ao encontro da reflexão feita por Napolitano (2010, p.397) sobre o problema da realização social da canção: “A forma e a função política de uma canção devem ser inseridas na análise das situações de audição concretas, que permitem tensionar o jogo entre intenção do autor, forma da obra e condições de apropriação do público”.

9Estamos considerando a “mistura whisky com guaraná” um “sincretismo alimentar brasileiro” dentro da perspectiva de Gilberto Freyre (1998): fusão de uma bebida nacional (o refrigerante de guaraná) com uma bebida alcoólica estrangeira.

10A respeito dessa canção, ver, entre outras, as notas informativas sobre seu processo de criação, censura e difusão no site oficial do cantor Chico Buarque, em especial no endereço eletrônico: http://www.chicobuarque.com.br/construcao/mestre.asp?pg=calice_73.htm. Acesso em: 12 fev. 2014.

11A respeito dos efeitos do consumo de vinho para a nutrição e saúde, particularmente, sobre possíveis efeitos benéficos/protetores no desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (doenças cardiovasculares, certos tipos de câncer etc.), ver, entre outros, Rique, Soares, Meirelles (2002) e Penna, Hecktheuer (2004).

12Conforme fundamentação teórica contida em Bakhtin (1999).

Recebido: Maio de 2013; Aceito: Março de 2014

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