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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.23 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2016  Epub 18-Jul-2016

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702016005000015 

Análise

O micróbio protagonista: notas sobre a divulgação da bacteriologia na Gazeta Médica da Bahia, século XIX

The protagonist microbe: notes on the communication of bacteriology in the Gazeta Médica da Bahia journal, nineteenth century

Anderson Gonçalves Malaquias1 

1Técnico administrativo em educação, Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca. Avenida Maracanã, 229. 20271-110 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil. malaquiascefet@gmail.com

Resumo

A teoria dos germes, decorrente, em especial, dos trabalhos de Louis Pasteur e Robert Koch, fez estremecer as bases do saber médico a partir da segunda metade do período oitocentista e promoveu uma revolução na “arte de curar”. A busca por micróbios específicos para as doenças norteou as investigações de pesquisadores convertidos aos dogmas pasteurianos. Este trabalho procura mostrar, em linhas gerais, o papel desempenhado pela Gazeta Médica da Bahia no processo de divulgação da bacteriologia junto às comunidades médicas baiana e nacional. O artigo apresenta alguns trabalhos e reflexões de colaboradores do periódico e destaca algumas controvérsias que ajudaram a traçar um panorama da difusão da teoria dos germes pelo Brasil ao longo do século XIX.

Palavras-Chave: Gazeta Médica da Bahia; história da bacteriologia; imprensa médica; revolução pasteuriana

Abstract

Germ theory, derived particularly from the work of Louis Pasteur and Robert Koch, shook the foundations of medical knowledge in the second half of the nineteenth century and triggered a revolution in the “art of healing.” The search for specific microbes for diseases guided the investigations of the researchers converted to the Pasteurian tenets. This paper aims to show what role the Gazeta Médica da Bahia journal played in spreading knowledge about bacteriology to the medical communities in Bahia and throughout Brazil. Some works and reflections by the newspaper’s authors at the time are presented, as are some of the controversies that help depict the way germ theory was divulged in Brazil throughout the nineteenth century.

Key words: Gazeta Médica da Bahia; history of bacteriology; medical press; Pasteurian revolution

No Brasil, a década de 1860 foi caracterizada pelo aparecimento de sociedades e periódicos médicos que proporcionaram um espaço privilegiado para deliberações acerca de temas específicos, como práticas clínicas, cirurgias, experiências e novidades científicas. Nesse período, um grupo de médicos na Bahia começou a se reunir informalmente para discutir e debater questões relacionadas com a medicina e “assuntos científicos”. Desses encontros se originou um movimento de vanguarda: a Escola Tropicalista Baiana,1 composta inicialmente de três médicos estrangeiros e quatro brasileiros.

Os estrangeiros radicados em Salvador foram os que se sobressaíram no movimento, sendo os mais estudados na historiografia (Benchimol, 2000; Barreto, Aras, 2003; Coni, 1952; Jacobina et al., 2008; Edler, 2002; Peard, 1997). Com seus trabalhos originais, confrontaram a liturgia médica aplicada no país, alcançando, inclusive, reconhecimento internacional. Foram eles: Otto Edward Henry Wücherer (1820-1875),2 médico que se destacou pelos estudos sobre ofídios brasileiros e sua peçonha, foi um dos pioneiros na prática da medicina experimental no Brasil; ocupando-se do registro e da pesquisa dos parasitos helmínticos (Barreto, Aras, 2003), revelou a “etiologia das urinas leitosas e foi quem descobriu no intestino delgado dos opilados a [sic] Ankilostomun duodenale” (Pereira, 1898, p.251-252). José Francisco da Silva Lima (1826-1910)3 dedicou-se aos estudos sobre o beribéri e o ainhum (Jacobina et al., 2008a); por meio de suas incursões pela Europa, abastecia a comunidade médica local com informações valiosas a respeito dos avanços conquistados pela medicina no Velho Mundo. Por fim, e não menos importante, John Ligertwood Paterson (1820-1882),4 esculápio que praticou uma medicina solidária, ficando conhecido como médico dos pobres (Jacobina et al., 2008); era coordenador do grupo, e, juntamente com Wücherer, foi um dos primeiros a identificar, diagnosticar e alertar as autoridades sanitárias sobre as epidemias de febre amarela (1849) e de cólera (1855) que ocorreram na Bahia (Pereira, 1898, p.251-252).

Os brasileiros componentes do grupo foram Ludgero Rodrigues Ferreira (1819-1866), Antônio José Alves (1818-1866), Antônio Januário de Farias (1822-1883) e Manuel Maria Pires Caldas (1816-1901);5 posteriormente outros médicos aderiram ao movimento: Antônio Pacífico Pereira (1846-1922), Manoel Vitorino Pereira (1853-1902) e Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906).6

Os tropicalistas se mostravam sensíveis à conjuntura e à realidade social na qual estavam inseridos. Interessavam-se em desenvolver pesquisas e estudos sobre as principais enfermidades que acometiam especialmente as populações mais pobres e se ocupavam em investigar as especificidades das doenças dos trópicos, bem como as possíveis influências do clima sobre as raças e a possibilidade de aclimatação dos europeus a esses ambientes. Estudavam também a fauna e a flora brasileiras e outros assuntos importantes para a sociedade, sempre em conformidade com as regras impostas pelas normas científicas da época (Barros, 1998).

Peard (1997, 1999) salientou o ineditismo dos trabalhos desenvolvidos pelos tropicalistas por meio das investigações produzidas sobre as doenças consideradas típicas do clima tropical com a utilização de avançados instrumentos e aparatos, como, por exemplo, a utilização pioneira da microscopia. Edler (2002, p.380), no entanto, põe em xeque esse ineditismo, ressaltando que também na Corte existiam evidências consistentes de que “o ambiente médico estava igualmente permeado pelas novas metodologias e pelo mesmo ideal de inovação científica, pautado por semelhante preocupação em se criar um conhecimento original sobre as doenças endêmicas e epidêmicas que flagelavam a população”.

A rede de interação formada pelo grupo de tropicalistas resultou na criação, em 1866, da Gazeta Médica da Bahia (GMB), um periódico independente e livre da burocracia estatal. A GMB alcançou grande longevidade. Seus volumes foram editados durante 68 anos, até 1934, com breves interrupções. As publicações foram retomadas trinta anos depois, em 1966, quando a revista – de origem privada – passou a compor o patrimônio da Faculdade de Medicina da Bahia (Fameb), mas retornaram ao silêncio em 1972 (Bastianelli, 2002). Porém, em 2004, a GMB retomou suas atividades, por iniciativa do professor e diretor da Faculdade de Medicina da Bahia, José Tavares Neto, agora com publicações semestrais (Jacobina, Gelman, 2008).

Ao longo de sua história, a GMB promoveu a divulgação dos mais variados assuntos científicos, inclundo pesquisas originais de seus médicos colaboradores. Em suas páginas, os tropicalistas veicularam diversas notícias sobre o mundo acadêmico com comentários acerca da situação do ensino médico oficial no Brasil e no mundo; ponderaram sobre as reformas curriculares dos cursos ministrados pelas faculdades de medicina; discutiram assuntos diver- sos com foco na realidade da saúde pública local; transcreveram artigos científicos estrangeiros e compilaram diversos livros; divulgaram o emprego de novas drogas e terapias; e expuseram suas considerações sobre o comportamento social da população, com reflexões sobre o contexto social da época (Moraes, 2013; Jacobina, Gelman, 2008).

A comunidade médica que se reunia em torno da GMB expressava uma oposição de ideias e metodologias em relação aos ritos praticados pelos centros oficiais de ensino, representados pelas faculdades de medicina do Rio e de Salvador e pela Academia Imperial de Medicina, que, sob a égide da teoria miasmática, apontavam o solo como produtor de emanações responsáveis por grande parte das moléstias que acometiam a humanidade. A despeito disso, mesmo contrapondo-se à metodologia aplicada ao ensino médico local, espelhada no saber médico advindo da Europa, o grupo demonstrava certo ecletismo ao mesclar as novas doutrinas do Velho Mundo com outras mais antigas que estavam impregnadas na cultura médica nacional (Peard, 1997).

O periódico baiano foi defensor de uma medicina de cunho social nas políticas públicas e da medicina experimental nas pesquisas clínicas (Jacobina et al., 2008). Em vários de seus volumes são encontradas críticas direcionadas ao ensino praticado nas escolas de medicina do país e clamores por reformas curriculares que redundassem em uma formação acadêmica mais voltada para a experimentação. A Faculdade de Medicina da Bahia, hora ou outra, figurava como alvo dessas críticas, por conta do ensino retórico ministrado:

Se acompanharmos o estudante em seus cursos na Faculdade mesma, veremos que a organização e o sistema de ensino são deficientes, viciosos e quase completamente improdutivos. É certo que contamos em nossas Faculdades com professores muito notáveis, mas é forçoso confessar que, quer pela sua organização e pelos elementos de que dispõem, quer pelo sistema oficialmente adotado e determinado por lei, o ensino é uma quase formalidade, a prática de uma ilusão (Pereira, 1877h, p.5).

Sobre depoimentos históricos como o supracitado, acerca da postura e da metodologia apresentadas pelas academias, Edler (1996) sugere que esses, em sua maioria, eram direcionados ao governo imperial, que não concentrava esforços necessários para as reformas dos estatutos médicos por muito tempo pleiteadas. O autor destaca que tais declarações públicas “ao mesmo tempo tentavam denunciar o caráter meramente consumidor e passivo, mas não genericamente distinto, da medicina acadêmica brasileira em relação ao movimento científico que empolgava a Europa” (Edler, 1996, p.289).

Apesar do aparente distanciamento, existem evidências que indicam uma aproximação entre a GMB e a Faculdade de Medicina da Bahia, simbolizada, nesse caso, na figura de alguns dos membros da Escola Tropicalista. A tríade estrangeira (Wücherer, Paterson e Silva Lima) não teve vínculo formal com a Faculdade de Medicina da Bahia, porém prestava assistência à entidade participando de atos acadêmicos como a orientação de estudantes e autópsias. Membros e colaboradores da GMB, pertencentes a outras gerações da Escola Tropicalista, como Raimundo Nina Rodrigues e Juliano Moreira, foram docentes da referida academia (Jacobina et al., 2008, p.93). Dois dos fundadores e articulistas do periódico, Antônio Januário de Faria e Antônio Pacífico Pereira, além de professores, conduziram a Fameb em cargos de direção. Este último se destacou pela militância em favor do experimentalismo e pela remodelação estrutural e metodológica da Fameb. Como diretor da GMB, nos períodos de agosto de 1867 a julho de 1870 e depois entre janeiro de 1876 e junho de 1921 (Jacobina, Gelman, 2008), Pacífico Pereira fez do periódico seu porta-voz para divulgação de considerações acerca do ensino médico e sua legislação,7 bem como para interpelação junto ao governo imperial sobre mudanças na legislação médica e financiamento para intervenções estruturais que possibilitassem à Fameb se equiparar às modernas instalações existentes na faculdade da Corte (Pereira, 1884a, p.406).

As pesquisas originais publicadas pela GMB eram consonantes ao cânon científico europeu, revelando que seus articulistas estavam a par das principais doutrinas e postulados que emergiam no Velho Mundo. Muitos dos trabalhos que estamparam as páginas do periódico emanaram principalmente dos três hospitais existentes na Bahia: o Hospital Militar, o Hospital Português e o Hospital da Santa Casa da Misericórdia.8 Desses, o Hospital da Santa Casa destacou-se como espaço privilegiado no qual os médicos (pertencentes ou não ao quadro oficial de colunistas da revista) desenvolveram suas práticas e observações referentes aos procedimentos da medicina experimental (Barreto, Aras, 2003).

A GMB floresceu em um período de eclosão de novas teorias que provocaram abalos nas doutrinas médicas estabelecidas. Essas novidades propuseram que a morbidade poderia ser o resultado da ação deletéria de micróbios específicos junto ao organismo, e provocaram o redirecionamento de procedimentos e métodos empregados nos processos terapêuticos e profiláticos para o trato das enfermidades (Benchimol, 1995). Assim foi concebida a bacteriologia, balizada no aperfeiçoamento dos microscópios e nas técnicas de observação/experimentação; não obstante, suas premissas penetraram lentamente o saber e a prática médica, assim como fomentaram várias disputas e controvérsias entre partidários e opositores desse novo paradigma.

A GMB, como veículo oficial da imprensa médica brasileira, dedicou várias páginas à divulgação do tema, incentivando o conhecimento e o debate no seio da classe médica baiana e nacional sobre as novidades no tocante à teoria dos germes e os enfrentamentos e conflitos cognitivos ou científicos dela advindos. Os artigos e relatos eternizados nas páginas do periódico baiano são importantes registros e ajudam a traçar um panorama em relação ao processo de divulgação da bacteriologia no Brasil durante o século XIX.

Das objetivas do microscópio aos prelos da imprensa médica

Não obstante, os micróbios têm constituído o ponto mais saliente do interesse científico em medicina: eles preocupam os pensamentos e mesmo a imaginação de muitos médicos antigos e de quase todos os moços (Wirchow, 1885, p.208).

Por volta da segunda metade do Oitocentos, a teoria dos germes ganhou força nos círculos eruditos, apontando os seres infinitamente pequenos como os agentes causadores das moléstias que assolavam a humanidade. Essas novidades advinham principalmente da França, onde Louis Pasteur9 – pesquisador do campo da química e da biologia – desenvolveu seus estudos e descobertas que provocaram uma transformação no âmbito da terapêutica médica e da profilaxia de determinadas doenças. A partir das conclusões obtidas com as pesquisas sobre processos fermentativos envolvendo entes biológicos, a descoberta das vacinas contra o cólera das galinhas, carbúnculo e a hidrofobia, Pasteur colaborou com a inauguração de um novo paradigma científico quando relacionou os microrganismos vivos às transformações químico-biológicas em determinados materiais orgânicos, assim como, posteriormente, à gênese de algumas doenças.

Conforme avançavam as pesquisas de Pasteur, Robert Koch (1843-1910)10 e outros bacte-riologistas, o problema relacionado entre causa e efeito, há tempos buscado para explicação da etiologia e da terapêutica das enfermidades, vislumbrou na teoria dos germes um subsídio considerável. Portocarrero (1991) corrobora essa assertiva ao reiterar que as ações e transformações encabeçadas por Pasteur, e que passaram a permear as ciências médicas (revolução pasteuriana), caracterizaram-se por apresentar uma série de novos e complexos procedimentos advindos e fomentados por um raciocínio causal. Posteriormente, a descoberta de que a capacidade revelada por dado microrganismo patogênico para infectar um organismo e provocar a doença era diminuída ou eliminada a partir da inoculação de micróbios ate-nuados11 (específicos para dada doença) incentivou as práticas profiláticas relacionadas com o método vacinal e de imunização. Dessa maneira, a teoria dos germes foi construindo seu legado, e suas constatações extravasaram o círculo dos eruditos, sendo assimiladas pela sociedade, o que propiciou a “transformação do gesto, da palavra, do vestuário, da arquitetura hospitalar e da legislação” (Portocarrero, 1991, p.69).

Porém, nem tudo foi consenso no tocante ao ideal bacteriológico. Sua assimilação não foi unívoca, e ocorreram diversas disputas, nas quais partidários e opositores ao novo paradigma, longe de se apresentarem como uma plateia passiva e acrítica, travaram obstinadas querelas sob a égide de suas convicções e fundamentos respaldados principalmente numa medicina climatológica. Edler (1998, p.179) comenta que essa luta se desenrolou em um contexto “em que a medicina acadêmica buscava alcançar prestígio como sistema perito, visando à construção de um monopólio da autoridade científica frente a homeopatas e diversas outras categorias de curadores”.

A gênese conflituosa da introdução da microbiologia no Brasil deveu-se aos dissensos exibidos pela classe médica brasileira em torno da medicina experimental e da apropriação dos conceitos dela advindos. O aprimoramento das técnicas e dos instrumentos utilizados na bacteriologia, associado à evolução dos conceitos e do entendimento acerca do macro e micromundo animal e vegetal, corroborou com esse processo quando promoveu abalos nas vigas de sustentação de teorias há muito consolidadas (Benchimol, 1999). Tais conflitos doutrinários, em dados momentos, extravasaram as instâncias oficiais e se difundiram por outros setores da imprensa, como jornais cotidianos de grande circulação (tidos como não científicos), que apimentaram a disputa com suas “críticas profanas” e promoveram o debate entre os médicos locais e o público, leigo e desconfiado, diante do conjunto de incertezas sobre a eficácia dos novos procedimentos e da própria medicina praticada no país (Benchimol, 1999).

Na Bahia, a ciência dos micróbios foi aclimatada e difundida principalmente pelos médicos tropicalistas, que utilizaram as páginas da GMB para divulgação de suas pesquisas inclinadas à prática experimental e também para registrar suas ponderações diante das novidades que emergiam dos principais laboratórios internacionais. Ferreira (1996) afirma que a institucionalização da medicina no Brasil teve no periodismo médico um importante aliado. Por suas páginas, a classe de facultativos buscou a legitimação para suas atividades e a elevação da medicina ao patamar de ciência consistente e confiável. De fato, os periódicos médicos se revelaram como um lócus importante para propagação dessas novas doutrinas, tornando-se palco de conflitos, de ideias e de “negociação político-epistemológica” entre defensores e opositores da bacteriologia (Edler, 1998, p.179).

Os colaboradores da GMB produziram uma ciência peculiar, servindo-se de abordagens e conceitos médicos consoantes às principais doutrinas médicas que eclodiam nos círculos eruditos da Europa. A apropriação e adaptação desses saberes decorriam de um intercâmbio de informações promovido pela troca de correspondência, leitura e tradução de bibliografias e periódicos europeus, participação em eventos, comissões e viagens de estudo, além de encontros e congressos científicos. Existia uma interação entre os membros do periódico e alguns pesquisadores estrangeiros ainda desconhecidos, como Patrick Manson (1844-1922), Casimir Davaine (1812-1882) e Joseph Bancroft (1836-1894), que depois se destacariam nos estudos em parasitologia e medicina tropical. Os trabalhos desses homens de ciência foram apreciados pela equipe da GMB que não desconsiderava os estudos ou investigadores de menor expressão junto à medicina acadêmica europeia (Benchimol, 2000).

Desde seus primórdios a GMB acompanhou as possibilidades curativas e terapêuticas que rodearam a bacteriologia. Na edição de agosto de 1867 foi publicada uma das primeiras alusões à possível origem bacteriológica para as doenças. A GMB transcreveu de um periódico médico português, O Escoliaste Médico, um artigo sob o título “Em procura da causa do cólera: fatos e conjecturas”, que trazia uma visão panorâmica dos estudos desenvolvidos por pesquisadores de vários países, sobre a provável natureza do princípio contagioso do cólera. O autor do artigo (não mencionado), próximo ao seu epílogo, cita os experimentos do doutor Klob, de Viena, que observou microrganismos presentes nas evacuações de pessoas infectadas com a doença e especulou, com reservas, uma possível relação entre causa e efeito para o achado:

A par disto vem a propósito dizer que numa indagação feita pelo Dr. Klob, em Viena, se dá como descoberto nas evacuações semelhantes à água de arroz provenientes dos coléricos um fungo microscópico, multiplicado por milhões, pouco diferente das ordinárias formas das Criptogamias europeias, mas discernível com um aumento de oitocentas a quatro mil vezes. E se é preciso em todos os apregoados descobrimentos conservar uma reserva de dúvida, que assista na continuação da experiência ou na expectativa de mais confirmação, também é certo que nunca entre todas as teorias do cólera houve outra mais aceitável do que aquela que procura o germe colérico num princípio orgânico (Excertos..., 1867, p.35-36).

Nas edições de fevereiro e março de 1878, o periódico baiano publicou o artigo “A doutrina do contagium vivum e suas aplicações à medicina”, de autoria de William Roberts, apresentado em uma seção da Associação Médica Britânica. O autor discorreu a respeito da tese que postulava a natureza microbiológica para determinadas doenças e manifestou sua defesa à teoria dos germes:

Se as bactérias sépticas são a causa da septicemia – se os espirilos são a causa da relapsing fever –, se o Bacillus anthracis é a causa da febre esplênica, a conclusão é quase irresistível de que outros organismos análogos são a causa de outras inflamações infecciosas e de outras febres específicas. ... Creio que a doutrina do contagium vivum está estabelecida em bases sólidas; e que o princípio que ela envolve, empunhado firmemente por mãos hábeis, será um instrumento poderoso de futuros descobrimentos (Roberts, 1878, p.114-127).

A GMB deu enfoque também aos trabalhos realizados por Louis Pasteur e suas possíveis implicações médicas.12 Os números 6, 7, 8 e 10 do periódico, publicados nos meses de junho, julho, agosto e outubro de 1878, respectivamente, na seção “Patogenia”, trouxeram aos seus leitores a tradução de um artigo extraído da Gazette Médicale de Paris que reproduziu, na íntegra, uma comunicação que Pasteur e colaboradores apresentaram à Academia de Medicina de Paris, sob o título “A teoria dos gérmens e suas aplicações à medicina e à cirurgia; pelos senhores Pasteur, Joubert e Chamberland”. No artigo, Pasteur iniciou sua comunicação ressaltando a importância das conclusões que obteve com as pesquisas referentes à fermentação e relatou outros diversos trabalhos que tinha desenvolvido sobre a etiologia bacteriológica de algumas doenças, como a moléstia pútrida ou “septicemia”13 e o carbúnculo. Respaldando-se em suas conclusões, Pasteur defendeu a origem bacteriológica de algumas doenças e disparou críticas às teorias médicas antecessoras da doutrina dos germes e sem embasamento experimental:

No começo destas investigações, porque elas apenas começam, embora já aí se revele um novo mundo, o que se deve procurar com mais insistência? É a prova peremptória de que existem moléstias transmissíveis, contagiosas, infectuosas, cuja causa real reside essencial e unicamente na presença de organismos microscópicos. É a prova de que, para um certo número de moléstias, deve-se abandonar para sempre as ideias de virulência espontânea, as ideias de contágio e de elementos infectuosos, nascendo de repente no corpo do homem e dos animais. E próprios para dar origem a moléstias que vão se propagar depois, sob formas entretanto idênticas a si mesmas; opiniões todas fatais ao progresso médico, e que têm produzido hipóteses gratuitas de geração espontânea, de materiais albuminoides, de hemiorganismo, de arquebiosis e tantas outras concepções sem fundamento na observação (Pasteur et al., 1878, p.281).

Além de divulgar as novas doutrinas que ganhavam destaque nos círculos científicos da Europa a partir da tradução de publicações realizadas pelos principais periódicos médicos estrangeiros, a GMB também expôs considerações de personagens da ciência médica nacional em relação ao tema, bem como suas reflexões a respeito das transformações e possibilidades que os achados e as descobertas do mundo microscópico poderiam promover à humanidade e à medicina em geral. Demétrio Ciríaco Tourinho (1826-1888)14 foi um dos médicos que teceram comentários à teoria dos germes. Na edição da GMB de setembro de 1871, assinou um artigo destacando o avanço das pesquisas em bacteriologia: “Estudos importantes sobre a etiologia das moléstias infecciosas continuarão a ocupar os patologistas. Os descobrimentos modernos, feitos com microscópio, vão explicando de modo satisfatório a patogenia daquelas afecções” (Tourinho, 1871, p.30).

Outro personagem emblemático da elite médica baiana que trouxe a lume as novidades concernentes à ciência dos micróbios foi Antônio Pacífico Pereira (1846-1922). Em março de 1872, o médico baiano transcreveu na seção “Medicina” uma descoberta promissora para o diagnóstico da sífilis: “Diagnóstico da sífilis pelo exame microscópico do sangue”, apresentado na Imperial Sociedade dos Médicos de Viena em janeiro do ano supracitado (Pereira, 1872, p.218-219). Pacífico Pereira mostrou-se adepto à teoria dos germes e inclinado à medicina de cunho experimental, realizando pesquisas que culminaram na possível descoberta do agente etiológico do beribéri:15

A existência de micróbios no sangue dos beribéricos foi por mim verificada em tão grande número de casos e tão constantemente que não duvidei em reconhecer uma correlação entre a presença destes parasitas e a natureza do processo patológico do beribéri (Pereira, 1881, p.193).

Com o artigo “Contágio da lepra: investigações histológicas e bacteriológicas que demons-tram sua natureza parasitária”, Pacífico Pereira (1888, p.527-541) comentou os estudos bacteriológicos realizados em torno da doença e deu destaque para as incertezas que pairavam no meio científico sobre as formas de propagação da lepra, revelando em suas análises profundo embasamento e domínio da temática.

À medida que a teoria dos germes se consolidava, ávidos pesquisadores se lançavam na laboriosa busca pelos agentes etiológicos das mais importantes doenças epidêmicas, como a febre amarela. No Brasil, o médico Domingos José Freire (1843-1899)16 empenhou-se na perscruta dessa moléstia, concluindo, por suas investigações, que a febre amarela era de origem bacteriana. O periódico baiano acompanhou os passos de Freire (1886a, p.61-64; 1886b, p.341-355; Paz et al., 1898, p.433-438) e destacou a repercussão de suas descobertas pelo mundo:

Na Revue des Sciences do sr. H. de Parville, publicada no Journal des Debats de 27 de janeiro, lê-se circunstanciada notícia sobre a eficácia da vacinação contra a febre amarela, descoberta estudada e praticada pelo sr. dr. Domingos Freire, distinto professor da Faculdade do Rio de Janeiro ... Se a descoberta do micróbio gerador da febre amarela e a vacinação preservativa por meio de sua inoculação no organismo humano constituir, em resultado final, uma imensa glória para nosso estudioso colega, é igualmente verdade que esta descoberta redundará em um dos mais relevantes serviços prestados à humanidade. Tal descoberta elevará o nome do dr. Freire até a altura em que pairam os de Jenner e de Pasteur, e com relação ao Brasil será um benefício tão considerável que o dr. Freire fará jus a uma recompensa nacional, que, seja qual for, será sempre inferior àquela que ele merece (Monteiro, 1887, p.429-430).

Pedro Severiano de Magalhães (1950-1927)17 foi outro pesquisador que se utilizou das páginas da GMB para divulgar seus trabalhos. Em seu artigo “Myringomikosis aspergillina, de Wreden”, publicado nas edições de março e abril de 1887, Pedro de Magalhães (1887, p.394-404) registrou suas observações clínicas e apontamentos sobre determinados fungos microscópicos que promoviam infecções no conduto auditivo humano e fez comentários referentes aos estudos e tratamentos preconizados para a moléstia.

A procura de fármacos que pudessem ser empregados na terapêutica de doenças infecciosas foi também objeto de interesse por parte dos médicos convertidos aos dogmas pausterianos. Em março de 1883, a GMB divulgou os estudos de Antônio José Pereira da Silva Araújo (1853-1900), professor de moléstias sifilíticas e da pele na Policlínica Geral do Rio de Janeiro, intitulados “Contribuição para o estudo terapêutico da resorcina” (Araújo, 1883, p.390-401). Nesse trabalho, Silva Araújo falou do efeito parasiticida que o fármaco pesquisado demonstrou quando empregado no tratamento de algumas importantes micoses de pele. Ao final, sugeriu a possibilidade do emprego da resorcina para o tratamento da febre amarela, devido a sua toxicidade para os seres diminutos:

Na febre amarela, em que os estudos dos srs. drs. Domingos Freire, Gama Lobo, Carmona y Valle e Beauperthuy pleiteiam pela natureza parasitária da moléstia, é de crer que a resorcina se mostre de vantagens similares, se não superiores às que forneceu ao ilustre professor Domingos Freire o salicilato de sódio. Talvez sejam bem suportadas as injeções hipodérmicas de resorcina, e, de outro lado, se a ação pela via retal e prompta como ensina o dr. Kahler, não há motivo para deixarmos de ensaiar tão poderoso agente terapêutico (Araújo, 1883, p.400).

A GMB noticiou mais uma investigação de Silva Araújo, transcrita do periódico Brasil Médico, em outubro de 1888. A nota, “Dermatomicose do couro cabeludo”, trazia detalhes das intervenções clínicas realizadas pelo médico perante a enfermidade de uma paciente que sofria com uma grave infecção de pele provocada por um micróbio ainda não identificado (Congresso..., 1888, p.178-186).

Publicadas na seção “Bacteriologia” nos meses de maio e julho de 1892, as pesquisas de Aurélio Rodrigues Vianna (1864-1935) intituladas “Novo tratamento antisséptico da difteria pela antipirina” (Vianna, 1892b) e “Estudos experimentais sobre a ação antisséptica poderosa da antipirina sobre os bacilos da febre tifoide, do mormo, do pus azul, da difteria e Coli communis” (Vianna, 1892a) mostraram a possível ação bactericida da antipirina para os micróbios de algumas doenças, concluindo que essa substância poderia ser empregada na terapêutica de moléstias infecciosas, principalmente no tratamento da difteria e da febre tifoide.

A marcha da teoria dos germes fundamentou outros trabalhos de pesquisadores baianos. Entre eles, uma publicação de Frederico Mauricio Draenert (1838-1903):18 “Cogumelos parasitas e a sua influência nociva sobre outros organismos; com algumas observações fitofisiológicas explicativas e necessárias” (Draenert, 1870). Nesse opúsculo, Dranert ressaltou o interesse despertado pela classe médica ao tomar ciência da significativa e consistente descoberta do agente etiológico da doença do bicho-da-seda, por Agostino Bassi. Chamou atenção para a analogia que passou a ser construída, a partir de tais conclusões, em relação às enfermidades que acometiam o homem. O autor destacou ainda a importância de se realizarem mais pesquisas envolvendo esse promissor campo de interesse médico:

Sua importância não pode entrar em dúvida, porque o interesse que elas reclamam já passa de ser meramente botânico; elas têm íntima relação com fenômenos patológicos. É principalmente pelo moderno caráter etiológico dos estudos médicos que a questão dos parasitas em geral, e especialmente a produção de moléstias epidêmicas e ou contagiosas por cogumelos, ocupa hoje um lugar distinto entre os objetos das nossas investigações, e que a sua resolução se tem tornado uma necessidade indeclinável da medicina científica (Draenert, 1870, p.150).

Nos decênios finais do Oitocentos, o beribéri já se configurava como uma doença epidêmica grave que acometia marinheiros e as populações de várias províncias brasileiras. O crescimento do número de casos, associado aos índices de mortalidades, despertou o interesse de partidários da bacteriologia, e o beribéri passou a fazer parte do rol das doenças possivelmente provocadas por seres infinitamente pequenos. Após a divulgação de trabalhos, como os de Pacífico Pereira, que demonstravam a presença de micróbios no sangue de beribéricos, Antônio Pacheco Mendes (1856-1941), professor de anatomia e fisiologia patológica da Faculdade de Medicina da Bahia, debruçou-se sobre a questão, produzindo uma série de experimentos que tinham como objetivo a busca da validação ou refutação da tese bacteriana sugerida para a doença:

O interesse todo particular que me despertou a comunicação da descoberta do micróbio beriberígeno sugeriu-me a ideia de empreender investigações no intuito de verificar se existe no sangue dos beribéricos o parasita apresentado como causa da moléstia em questão, ficando, assim, contraprovada ou refutada, por um segundo experimentador, a existência do micróbio mencionado, segundo fosse afirmativo ou negativo o resultado de nossas indagações. Não cogitando, porém, de cotejar o valor da teoria microbiana com o da anátomo-biológica, o nosso fim neste artigo é apresentar a descrição dos métodos e os resultados nas indagações do micróbio beriberígeno (Mendes, 1885d, p.347-348).

Suas investigações estamparam algumas publicações da GMB durante vários anos (Mendes, 1884a, 1884b, 1884c, 1884d, 1885a, 1885b, 1885c, 1885d, 1885e, 1889a, 1889b, 1889c) e concluíram que os micróbios achados no sangue dos beribéricos não poderiam ser associados à manifestação da moléstia:

Os microrganismos existentes no sangue das pessoas atacadas de beribéri não explicam a gênese d’essa moléstia. As provas fornecidas pelo método experimental – cultura e inoculações em animais – produziram resultados negativos, sancionando assim esta conclusão (Mendes, 1889a, p.254-255).

Na província baiana, o doutor Joaquim dos Remédios Monteiro (1827-1901)19 foi também um ávido defensor da teoria dos germes e um dos grandes enaltecedores da genialidade de Louis Pasteur, Robert Koch e outros bacteriologistas. Como articulista, divulgou suas reflexões diante das descobertas do químico francês, a repercussão no meio científico e as implicações promovidas por esse conjunto de novos conhecimentos junto à medicina, indústria e vida cotidiana. Na seção “Bio-bibliografia”,20 sob o título “Pasteur e as suas doutrinas”, Remédios Monteiro (1882c, p.111-116) publicou suas avaliações a respeito dos avanços conquistados pela ciência, a partir da nova doutrina pasteuriana. Para ele, a ciência médica, depois da teoria dos germes, passou a ser dividida em duas metades: a medicina antes de Pasteur, obscura, ignorante e cheia de incertezas, e a medicina pós-Pasteur, esclarecida, promissora e iluminada pela genialidade daquele a quem chamou de o novo messias:

Antes dos estudos modernos concernentes à teoria parasitária ou dos germes, reinava a maior obscuridade, para não dizer ignorância, a respeito de certas moléstias; faltava o guia que havia de dirigir o médico no conhecimento e tratamento delas, que lhe ensinasse os agentes terapêuticos que podem prestar relevantes serviços à humanidade sofredora ... Pasteur foi o Messias, que devia conduzir a patogenia e a terapêutica dessas determinadas moléstias à terra da promissão (Monteiro, 1882b, p.209).

Várias investigações realizadas sob a égide da bacteriologia e do método experimental foram transcritas nas páginas do periódico baiano ao longo do século XIX. Trabalhos de médicos ilustres como Pacífico Pereira (1891), Remédios Monteiro (1884), Bráz Hermenegildo do Amaral (1889), João Batista de Lacerda (1884), Eduardo Chapot Prevost (1893), Ismael da Rocha (1893) e Deolindo Galvão (1894) – com os respectivos títulos “Frequência das endometrites; suas causas e seu tratamento curativo e profilático”, “A Feira de Santana como sanatório da tuberculose pulmonar”, “Os três últimos casos de pústula maligna no Hospital de Caridade”, “O microrganismo do beribéri”, “Verificação de uma diagnose bacteriológica sobre o cólera asiatico”, “Relatório sobre o tratamento da tuberculose pelo processo do professor Koch”, “Um caso de empiema e outro de piopneumotórax tuberculoso, operados pela pleurotomia antiséptica” – revelaram o emprego de técnicas experimentais, possíveis descobertas científicas, procedimentos clínicos e terapêuticos, bem como reflexões e assertivas baseadas nas novidades difundidas pela bacteriologia diante dos principais círculos científicos.

Remédios Monteiro também destacou um seleto grupo de médicos que na província baiana (alguns já citados anteriormente) contribuíram com pesquisas e observações clínicas no campo da patologia parasitária intertropical e se mostraram inclinados ao paradigma pasteuriano. Foram eles: Otto Wucherer, criador da escola helmintológica brasileira; José Francisco da Silva Lima; Antônio José Pereira da Silva Araújo; Antonio Rodrigues Lima (1854-1923); Gonsalves Theodoro; Pedro Severiano de Magalhães (1850-1927); Agnello Leite; John Ligertwood Paterson; José Luiz d’Almeida Couto (1833-1895); Manoel Victorino Pereira; e Pacífico Pereira, sendo os três últimos vinculados oficialmente à Faculdade de Medicina da Bahia (Oliveira, 1992, p.205, 223, 413).

Diante dos contributos promovidos ao processo de divulgação da bacteriologia junto às classes médicas baiana e nacional, a GMB excedeu o papel de um mero expositor de notícias médicas, visto que se comportou como um veículo de intervenção sociocultural, exibindo publicações impregnadas de comentários e reflexões que denotavam o status político, cultural e social da época, bem como o contexto e os mecanismos de afirmação, aperfeiçoamento e consolidação da teoria dos germes no período oitocentista. Nessa conjuntura, não era rara a exposição de críticas ou enaltecimentos, por parte de seus redatores e articulistas, aos investigadores e às investigações de bacteriologistas nacionais e estrangeiros, como demonstrado na transcrição a seguir:

À medida que a ciência progride, as doutrinas também mudam. A teoria dos germes explica ao menos melhor, como nenhuma outra hipótese o fez, a transmissão e a marcha das epidemias pestilenciais (Monteiro, 1882a, p.259).

Os membros da classe médica brasileira devem e podem manter-se na verdadeira órbita da sua atividade, sem se arrendarem da estrada real da probidade científica e profissional em busca de triunfos efêmeros e falazes, ou de nomeada e interesses de legitimidade duvidosa (A propósito..., 1883, p.437).

As controvérsias registradas

O processo de difusão e implementação da teoria dos germes no Brasil encontrou resistência e, inicialmente, foi visto com desconfiança por parte da classe médica, que se manteve hesitante perante o novo paradigma. Segundo Benchimol (1995, p.69), “a entronização do pasteurianismo no Brasil não foi uma assimilação passiva e unívoca de ideias oriundas de países economicamente hegemônicos”. Suspeições e dúvidas rodearam a bacteriologia até seu estabelecimento como disciplina científica.

Em setembro de 1883, a GMB reproduziu um artigo de Jousset de Bellesme (1883) sob o título “Perigo das teorias parasitárias”. O texto registrou a preocupação demonstrada pelo autor com a incúria exibida por certos colegas médicos adeptos da teoria parasitária que, na busca da eliminação dos possíveis micróbios provocadores das doenças, administravam indiscriminadamente altas doses de antissépticos sem mensurar os riscos aos portadores da enfermidade em questão.

Quando aqui mesmo escrevemos que estas teorias quase inteiramente hipotéticas levavam a medicina por mau caminho, atribuindo aos fenômenos mórbidos uma simplicidade que na realidade nem de longe possuem, e conduzindo a tratamentos irracionais e perigosos para os doentes, lançaram-nos a pecha de exagerados, de prevenidos; entretanto não éramos mais que o eco de grande número de clínicos, e tão verdade é que manifesta reação surge hoje contra estas tendências na escola dos patologistas franceses. Os médicos que empregam a terapêutica com imparcialidade e de um modo por assim dizer experimental evidentemente tinham acolhido as teorias de Pasteur esperançados em que dela tirariam excelente partido no tratamento das moléstias ... Como a administração destes medicamentos em doses pequenas não produz resultado algum, manda a lógica que se aumentem as doses até que o incômodo micróbio fique aniquilado. Infelizmente, porém, como há pouco dizia, de passagem, esquece-se o doente, que por sua vez se não esquece, quando a dose for suficiente, de morrer subitamente ... Felizmente sabemos, em suma, e de fonte certa, que os doentes em breve estarão livres desse perigo artificial, porque estes arrebatamentos terapêuticos, nos provará certamente a história, são de todo semelhantes à tempestade – pois têm o tumulto e a duração efêmera dela (Bellesme, 1883, p.126, 130).

Articulistas do periódico também registravam as dificuldades que a recente doutrina enfrentava para alcançar seu espaço definitivo como teoria confiável. Em uma nota, Remédios Monteiro (1883, p.496) proferiu lamúrias demonstrando seu descontentamento com alguns médicos brasileiros pela pouca importância dada ao tema. José Francisco da Silva Lima (1889, p.580), ao promover algumas considerações direcionadas ao opúsculo do doutor José Luiz D’Almeida Couto, comentou que “a teoria parasitária, apesar de sedutora e patrocinada por patologistas e microbiologistas eminentes, estava ainda longe de ser uniformemente aceita, e não lhe faltavam contestações mais ou menos fundadas”. Pacífico Pereira transcreveu um trecho do discurso de Silva Araújo proferido em uma sessão solene celebrada na Academia Nacional de Medicina em outubro de 1895, em que desabafou ao relatar como em seus primórdios eram profligadas as ideias de Louis Pasteur no seio da Faculdade de Medicina da Bahia:

Uma explosão de cólera rompeu dos lábios do professor, e ele apostrofou-me: ‘A teoria das fermentações, de Pasteur, que o senhor adota e que leva às últimas aplicações à clínica, é uma ciência de bichinhos, é uma ciência podre!’ Senhores, o que se passou em 1875, na Faculdade da Bahia, passava-se na Faculdade Médica do Rio de Janeiro, passava-se em Paris, passava-se no mundo inteiro: era a descrença; era a luta; era a guerra de morte, cercada até dos elementos astuciosos e pérfidos de uma miserável querela de campanário. Razão tinha, até certo ponto, o professor baiano, porque aquele era quase a unanimidade do pensamento médico, sobre os descobrimentos de Pasteur (Pereira, 1896, p.95).

Nesse mesmo artigo, Pacífico Pereira retrucou as asserções de Silva Araújo, afirmando que na Faculdade de Medicina da Bahia existiam admiradores e preconizadores das doutrinas de Pasteur, mesmo antes de 1875. Pacífico Pereira (1896, p.101) citou os professores Rodrigues da Silva e Cerqueira Pinto e seus discípulos (dos quais ele se intitulava) como propagado- res da teoria dos germes junto à Fameb e reiterou que “os trabalhos de Pasteur eram já muitos lidos e apreciados, nesta escola, no período a que alude o dr. Silva Araújo”.

A despeito da desconfiança, à medida que a “má fama” dos micróbios percorria o mundo, ávidos pesquisadores emergiam da clausura de seus laboratórios, trazendo, aprisionados nas objetivas dos microscópios, os responsáveis pelos fatores deletérios ao organismo. Controvérsias e polêmicas decorreram entre os defensores e opositores da teoria dos germes e de sua possível ação profícua em medicina. O ideal da etiologia microbiológica de certas doenças foi perseguido por meio de renhidas disputas, nas quais os cientistas que empregavam essas novas tecnologias médicas buscavam, com afinco, soluções para as mazelas patológicas da humanidade e, em contrapartida, eternizar seus nomes entre os grandes e renomados gênios que se destacaram ao longo da história.

A GMB acompanhou várias dessas querelas que se desenrolaram dentro e fora do país. Do exterior, deu destaque principalmente às controvérsias em torno do agente etiológico do cólera (Gualberto, 1884; Pereira, 1893; Contestação..., 1885). No Brasil, acompanhou, entre outras, a controvérsia envolvendo os médicos Antônio Pacífico Pereira (1846-1922) e João Batista de Lacerda (1846-1915),21 que protagonizaram uma disputa pela primazia da descoberta do agente etiológico do beribéri. Em outubro de 1883, Pacífico Pereira publicou um artigo no periódico baiano contestando as investigações desenvolvidas por João Batista de Lacerda no Laboratório de Fisiologia Experimental do Museu Nacional e que resultaram na descoberta do agente causador da doença – o micróbio do beribéri. Pacífico Pereira questionou a forma prematura da publicidade dada a tais conclusões, veiculada por Lacerda em um periódico da Corte – a União Médica – e contestou o ineditismo do trabalho desenvolvido por seu colega, esclarecendo que dois anos antes já havia publicado na GMB suas pesquisas, as quais descreviam e apontavam a presença de microrganismos no sangue dos beribéricos:

Não entraremos na apreciação científica das investigações do laborioso sr. Lacerda sobre o beribéri por uma simples notícia, que não tem o caráter de uma exposição autêntica, nem o cunho das observações e experiências repetidas e rigorosas, que são necessárias para chegar-se a conclusões definitivas e seguras em matéria de tal ordem; não podemos porém deixar de retificar algumas asserções desta notícia, não pelo desejo de reivindicar uma prioridade que nos caiba, e à qual não ligamos grande valor, mas sim para restabelecer a verdade cronológica de fatos, que há muito do domínio da nossa literatura médica, pois estão arquivados em nossa imprensa profissional.

Não é novo na ciência o descobrimento de um micróbio no sangue nos beribéricos, nem são novas as experiências feitas com a cultura de sangue dos indivíduos afetados desta moléstia. Em diversos artigos que nesta Gazeta publicamos, em 1881 sobre a etiologia e natureza do beribéri e que a União Médica do Rio de Janeiro nos fez a honra de transcrever, tratamos da hematologia do beribéri, e descrevemos o microrganismo que por muitas vezes vimos e estudamos no sangue dos indivíduos afetados desta moléstia (Pereira, 1883, p.161-162).

Lacerda retrucou os apontamentos de Pacífico Pereira asseverando que os métodos (mais sofisticados) empregados em seus experimentos foram diferentes dos utilizados na pesquisa desenvolvida na Bahia. Por conta desses detalhes é que suas pesquisas eram peculiares e inéditas na ciência. Em abril de 1884, Pacífico Pereira disparou sua tréplica com mais um artigo veiculado na GMB, na qual apresentou novos pontos sobre o tema, em resposta ao artigo que Lacerda publicara na União Médica. O médico baiano afirmou que “não era difícil demonstrar que faltava aos processos experimentais empregados por Lacerda o rigor científico indispensável para chegar a conclusões capazes de satisfazer os que são menos fáceis de convencer” (Pereira, 1884b, p.455-456). Segundo Peard (1999, p.62-63), a disputa entre Lacerda e Pacífico Pereira desenrolou-se em um momento de crescente tensão entre a Faculdade de Medicina da Bahia e o governo Imperial. A autora faz menção às intervenções da GMB, que, por meio das publicações de seus articulistas, criticava e expunha certas discrepâncias no tratamento e na assistência, por parte do governo Imperial, conferidos às duas faculdades médicas. Ela sugere ainda que a proximidade da Faculdade de Medicina da capital com o governo central lhe renderia certos privilégios e que este cenário possa ter alimentado uma rivalidade regional entre os tropicalistas e os médicos da Corte.

A GMB registrou também o embate entre o contagionista Pedro Severiano de Magalhães e o anticontagionista José Lourenço de Magalhães, que divergiram quanto à natureza microbiológica da lepra (Magalhães, 1893). José Lourenço não reconhecia os trabalhos de Armauer Hansen (descobridor da bactéria da lepra), negava a característica contagiosa da doença e afirmava que a propagação da moléstia se consumava por vias hereditárias. Utilizou-se, por diversas vezes, da imprensa leiga para divulgar suas proposições, fato que gerou críticas, principalmente advindas de Pedro Severiano de Magalhães, que, acerca das afirmações de José Lourenço, assim se pronunciou:

Sendo certa, como é, a natureza bacteriana da lepra, pode ou deve qualquer médico aceitar e muito menos propalar a afirmação da não contagiosidade da morfeia? ... O trabalho do dr. José Lourenço, pretendendo combater a doutrina contagicionista da lepra, também apareceu em órgão da imprensa leiga, a Gazeta de Notícias; mas considerando os campos antagônicos em que nos achávamos no ponto de vista de doutrina científica em relação à questão, julguei baldada qualquer discussão a respeito. ... Crente na possibilidade do contágio, julgo dever apontar o perigo e aconselhar o seu remédio; e usando da franqueza de quem fala sem interesse pessoal na questão, considero um desserviço ao país e à humanidade apregoar grandes males se firmada em um erro como creio ser o caso da opinião que nega o contágio da morfeia (Magalhães, 1893, p.256, 261, 263).

Os seres diminutos também figuravam como protagonistas das diversas investigações que buscavam descobrir a etiologia da febre amarela. Vários foram os pesquisadores nacionais e estrangeiros que anunciaram a descoberta do possível germe responsável pela doença. Os micróbios Cryptococcus xantogenicus de Domingos Freire, Fungus febris flavae de João Batista de Lacerda, Peronospora lutea de Carmona y Valle e os Micrococcus tetragenus de Carlos Juan Finlay foram todos descritos no penúltimo decênio do Oitocentos e apontados como os possíveis vilões da febre amarela (Benchimol, 1999). A requisição de paternidade para o verdadeiro ente patogênico dessa e de outras moléstias fez fermentarem acaloradas disputas pela busca de um lugar no rol das célebres genialidades científicas. Claude Rebourgeon, veterinário de origem francesa, contratado pelo governo brasileiro para organizar o processo de fabricação de vacina animal contra a varíola (Benchimol, 2000), defendeu a primazia da descoberta de Domingos Freire em uma sessão da Sociedade de Biologia de Paris, como divulgou a GMB (Noticiário, 1885, p.345):

O dr. Freire, diz o informante, cabalmente conquistou a prioridade desta descoberta cuja realidade é provada não só pelos casos fatais da inoculação do micróbio em animais, como pelo resultado ainda mais importante da atenuação do vírus por modo a ser mais tarde divulgado.

Em outubro de 1890, numa comunicação verbal realizada no terceiro Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia e transcrita em fevereiro de 1892 pela GMB, Francisco Marques de Araujo Góes (1982) criticou os trabalhos de Domingos Freire, alegando que suas investigações em torno da etiologia da febre amarela eram desprovidas do rigor científico necessário para se chegar a tais conclusões. Citou também as conclusões do doutor Sterneberg (diretor do laboratório de bacteriologia de Baltimore enviado ao Brasil para examinar os trabalhos de Domingos Freire), que apontaram importantes fragilidades no desenvolvimento das pesquisas do médico da Corte.

Não foi a primeira vez que a metodologia empregada por Domingos Freire em seus experimentos era contestada. Em abril de 1883, o médico carioca foi duramente criticado pela GMB ao publicar uma carta em um diário da Corte – a Gazeta de Notícias – na qual apresentou detalhes da pesquisa que identificou a presença de Cryptococcus xantogenicus no solo de um cemitério local e protocolou recomendações sanitárias para profilaxia da febre amarela, como a cremação de cadáveres e a remoção dos cemitérios para locais mais distantes da cidade. O periódico baiano contestou a precipitação de Domingos Freire ao divulgar na “imprensa profana” conclusões incipientes:

Não obstante haver sido escrita às pressas, e destinada à imprensa profana a carta do eminente professor, e um tanto apressada também, cremos, a observação ali relatada, não o supomos dispensado, em matéria de tanto alcance, de se mostrar, como costuma-se, rigoroso no processo dos seus empreendimentos experimentais, reservado e cauteloso nas inferências que sugerem os fatos observados, e solícito em não consentir que a publicidade extemporânea prive os seus melindrosos trabalhos da maturidade científica que os possa tornar fecundos em resultados práticos. ... Parece-nos, pois, incompleta a observação, e pouco lógicas as conclusões contidas na carta a que nos referimos, e, além disso, extemporânea, prematura, e fora do seu lugar a divulgação de um trabalhão científico apenas começado, e cuja importância poderá ser invalidada pelas investigações ulteriores (A propósito..., 1883, p.430, 432).

As incertezas que impregnavam as diferentes proposições apresentando micróbios e vacinas específicas para a febre amarela motivaram outros pesquisadores a investir na perscruta desse suposto ente patogênico. Entre junho e outubro de 1897, a GMB publicou as asserções do médico da Corte doutor Wolf Havelburg (1897a, 1897b, 1897c, 1897d, 1897e), feitas em uma conferência realizada no Hospital dos Lázaros. Intitulada “Estudos experimentais, anatômicos e bacteriológicos sobre as propriedades e sobre a etiologia da febre amarela”, a comunicação de Havelburg anunciou a descoberta do micróbio da febre amarela, cuidadosamente isolado do conteúdo estomacal dos acometidos pela doença (Havelburg, 1897b). Concomitantemente, em junho de 1897, Giuseppe Sanarelli apresentou, em uma conferência realizada em Montevidéu, o Bacillus icteroides como agente etiológico da moléstia. Seu trabalho foi estampado nas páginas da GMB entre os meses de julho e novembro do ano citado (Sanarelli, 1897a, 1897b, 1897c, 1897d, 1897e).22 Sanarelli já era considerado um exímio bacteriologista e experimentador confiável devido às inúmeras investigações científicas já publicadas (Löwy, 2006). A clareza das técnicas por ele empregadas angariaram admiradores para a defesa de suas teses. Dentre eles, João Batista de Lacerda,23 que levou seu Fungus febris flavae para o estaleiro, passando então a comungar com as ideias do bacteriologista italiano (Benchimol, 1999). Em meio às disputas de prioridade, Domingos Freire pleiteou junto ao governo federal24 a formação de uma comissão especial, formada por médicos brasileiros, para apreciar seus experimentos. Essa comissão iniciou seus trabalhos em junho de 1897, e seus relatórios concluíram que o micróbio apresentado por Domingos Freire pertencia a uma espécie nova, e que a inoculação desses micrococcus em animais produziam sintomas parecidos com os da febre amarela (Paz et al., 1898, p.483). O endosso conferido pela comissão às pesquisas de Freire não foi bem recebido pela Academia Nacional de Medicina, que, em dezembro de 1898, aprovou um manifesto contra as campanhas de vacinação praticadas por Domingos Freire (Benchimol, 1999, p.373).

Em outro episódio, Domingos Freire, agora em defesa da paternidade de outro patógeno, reclamou, junto à Sociedade de Medicina Interna de Berlim, a prioridade na descoberta do micróbio do carcinoma. A GMB noticiou a contestação do médico da Corte em janeiro de 1888. Freire havia detectado no sangue de um doente canceroso vários bacilos de extremidades arredondadas, similares aos da febre tifoide (O micróbio..., 1888, p.513), e alegou que suas pesquisas, apesar de similares, antecediam as investigações de seu concorrente Ernst Scheurlen, fato que validava a primazia de sua descoberta:

O que desejo é fazer valer o direito de prioridade, que tenho sobre a descoberta do bacilo do carcinoma. Ouso esperar que a Sociedade de Medicina Interna de Berlim não se recusará atender a uma reclamação que me parece fundada em razões incontestáveis (Freire, 1888, p.333).

Nesse cenário permeado por controvérsias estimuladas pelo florescer de um novo paradigma, ficou evidente o desejo apresentado por muitos médicos-cientistas de alcançar não só o reconhecimento e a legitimação da profissão exercida, mas projeção e destaque para pesquisas que lhes rendessem prestígio. Assim, abriu-se o caminho para as rivalidades pessoais, para o corporativismo, para o jogo de influência e para fatores não epistêmicos, visto que a ciência não é construída por seus atores de uma forma imparcial e impessoal, mas impregnada das ações e reações imanentes às sociedades e aos contextos, nos quais seu desenvolvimento se promove. Nesse sentido, o recrudescer da teoria microbiana, associado ao desenvolvimento de novas tecnologias e aparatos aplicados à medicina, proporcionou um ambiente favorável para que esses ávidos homens de ciência se lançassem no campo da pesquisa, experimentação e proposição de novas teorias, tendo como foco, na maioria das vezes, o micróbio: ora como vilão, quando colocado como ente promotor das moléstias infecciosas; ora como herói, representado pelas vacinas imunizantes, produzidas a partir de suas culturas atenuadas.

Considerações finais

A GMB foi um dos periódicos brasileiros em que a utilização dos métodos e das práticas engendrados por Pasteur e outros incentivadores da bacteriologia como Robert Kock obteve destaque, proporcionando às comunidades médicas, local e nacional, informações e esclarecimentos sobre os trabalhos desenvolvidos por esses e outros proeminentes cientistas.

A publicidade dada à emergente teoria dos germes pela GMB não se resumiu apenas à divulgação dos experimentos desenvolvidos pelos bacteriologistas estrangeiros. Seus articulistas, quando retratavam tais pesquisas, frequentemente dialogavam com o assunto, expondo suas opiniões e pontos de vista.

A partir do terceiro quartel do Oitocentos, houve um crescimento considerável de publicações veiculadas pelo periódico com enfoque nas pesquisas bacteriológicas, revelando o papel desempenhado pela revista na divulgação desse novo campo de pesquisa no território nacional. Os artigos divulgados pelo periódico demonstraram também a intensidade “densa e conflitiva” da apropriação dessas novas metodologias. Os médicos inclinados ao recente paradigma pasteuriano utilizaram-se das páginas do periódico para expor seus trabalhos e suas ideias, tendo, na figura do doutor Remédios Monteiro, um dos mais contundentes articulistas que hastearam a bandeira em defesa da teoria dos germes. Outros facultativos influentes no cenário médico da Bahia, como Pacífico Pereira e Demétrio Ciríaco Tourinho, revelaram-se simpáticos aos emergentes postulados de Pasteur.

As controvérsias acompanhadas pelo periódico contribuíram para apresentar o panorama em que se deu a disseminação da teoria dos germes junto à classe médica brasileira. Desse modo, a GMB mostrou-se como canal importante para divulgação da teoria dos germes na Bahia, colaborando para o processo de criação e consolidação da identidade médica nacional e ultrapassou – com suas publicações de cunhos informativo, cultural, científico, crítico e político – o papel de um simples veículo de informação, sendo hoje considerada, como afirma Bastianelli (2002), uma importante fonte de pesquisas para o campo das historiografias médica e social do Brasil.

AGRADECIMENTO

Este artigo resultou da dissertação de mestrado defendida em maio de 2012 junto ao Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Educação do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, sob a orientação de Maria Renilda Nery Barreto, intitulada Ciência, educação e divulgação científica: o nascimento da bacteriologia nas páginas da Gazeta Médica da Bahia (1866-1890).

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1 Expressão cunhada por Coni, em 1952. Os tropicalistas apresentavam-se de forma independente à medicina acadêmica. Compunham uma rede informal de profissionais da medicina e desenvolviam trabalhos originais no campo da parasitologia e das doenças inerentes ao clima tropical.

2 Otto Edward Henry Wücherer nasceu em Portugal e era filho de pai alemão e mãe holandesa. Viveu um período de sua infância em Salvador, para onde retornaria em 1843, já graduado em medicina pela Universidade de Tübingen, Alemanha (Pereira, 1873, p.306-307).

3 Silva Lima, de origem portuguesa, chegou ao Brasil em 1840 ainda na adolescência. Doutorou-se em 1851, pela Faculdade de Medicina da Bahia (Jacobina et al., 2008).

4 John Ligertwood Paterson era escocês, formado em medicina pela Universidade de Aberdeen, em 1841. Firmou residência na cidade de Salvador no ano seguinte (Jacobina et al., 2008).

5 Ludgero Rodrigues Ferreira formou-se pela Fameb; como clínico, prestou assistência médica à população baiana, porém veio a falecer sem chegar a tomar parte nas sessões que o referido grupo de facultativos realizava; Antônio José Alves alcançou, em 1855, a cátedra de clínica cirúrgica da Fameb; trabalhou promovendo assistência médica à população durante a epidemia de cólera-morbo que ocorreu em 1855 (Santos, 2008). Antônio Januário de Farias graduou-se na Fameb, na qual posteriormente se tornou lente de fisiologia, professor de clínica médica e diretor da faculdade, entre 1874 e 1881. Manoel Maria Pires Caldas foi um hábil cirurgião que no Hospital da Santa Casa passou adiante seus conhecimentos médicos e suas experiências no campo da urologia (Bastianelli, 2002).

6 Pacífico Pereira nasceu na Bahia, colou grau em medicina pela Fameb em 1876, onde foi lente catedrático de anatomia geral e patológica (1882) e, posteriormente, lente de histologia; foi também diretor dessa faculdade entre de 1895 e 1898 (Oliveira, 1992, p.413-417). Manoel Vitorino nasceu em Salvador, doutorou-se em medicina em 1876 pela Fameb, na qual posteriormente se tornou catedrático, ocupando a segunda cadeira de clínica cirúrgica em 1883. Nina Rodrigues destacou-se dentre um pequeno grupo de médicos reformistas que se dedicaram a promover importantes apontamentos sobre questões de saúde pública; defendia, entre outras coisas, a construção de um sistema próprio de instituições e serviços para que campanhas de saneamento pudessem ser implantadas com sucesso na Bahia (Castro Santos, 1998).

7 Em 1877, Pacífico Pereira (1877a, 1877b, 1877c, 1877d, 1877e, 1877f, 1877g, 1877h) usou as páginas da GMB para promover apelos aos legisladores da nação por reformas significativas ao ensino médico brasileiro.

8 Ver o histórico dessas instituições em Barreto e Souza (2011).

9 Pasteur nasceu no dia 27 de dezembro de 1822, na cidade francesa de Dole. Em 1847, doutorou-se em física e química pela Escola Normal Superior, em Paris. No ano seguinte, tornou públicas suas pesquisas no campo da cristalografia, que logo lhe renderam prestígio no meio científico. Orientou seus trabalhos para a área da bacteriologia, engendrando estudos conclusivos que nortearam as práticas da indústria, agropecuária e da saúde pública. Morreu em 28 de setembro de 1895 com o status de herói francês por conta dos significativos serviços prestados à ciência e à humanidade (Geison, 2002).

10 Robert Koch, um dos fundadores da microbiologia, nasceu na cidade de Clausthal e faleceu, aos 67 anos, em Baden-Baden. Em 1866, formou-se em medicina pela Universidade de Göttingen. Descobriu em 1882 o bacilo da tuberculose e no período de 1883-1884 isolou o agente etiológico do cólera. Em suas pesquisas e observações, enumerou algumas exigências necessárias para a demonstração da etiologia bacteriana de qualquer doença. Nascia, assim, o chamado postulado de Koch, que consistia basicamente na ação de se promover o isolamento do microrganismo causador da moléstia em culturas puras e depois inoculá-lo em cobaias, observando se nesses animais se manifestava uma doença cuja sintomatologia e lesões fossem idênticas ou similares às da doença que no homem se desenvolvia e, por fim, isolar em culturas puras o micróbio inicial, obtido a partir desses mesmos animais doentes. Em 1890, Koch supôs ter encontrado a cura para a tuberculose, porém a tuberculina (substância obtida de culturas do bacilo da tuberculose) não prosperou e passou a ser utilizada posteriormente no diagnóstico da doença.

11 Basicamente, a atenuação da virulência microbiológica (procedimento pelo qual o poder infectante do micróbio era diminuído) era conseguida pela realização de culturas artificiais e sucessivas de bactérias patogênicas desenvolvidas em laboratórios. Essas culturas eram expostas a períodos de restrições de nutrientes e de fatores importantes para o seu desenvolvimento, o que promovia um enfraquecimento na sua capacidade deletéria e, a partir de então, sua viabilidade para administração junto ao organismo, com aplicação de vacinas e/ou soros.

12 A GMB transcreveu outros trabalhos realizados por Pasteur ou ainda avaliação desses por seus pares, tais como: estudos sobre inoculações vacínicas nos animais doentes de carbúnculo (Championniere, 1882, p.116-121); experiências sobre a raiva (Pasteur, 1884, p.40-43); comunicação feita por Pasteur (1885, p.246-256) acerca da raiva; métodos para prevenção da raiva (Pasteur, 1886b, p.450-460) e nova comunicação sobre a raiva (Pasteur, 1886a, p.265-271).

13 Processo de contaminação e infecção das feridas, traumatismo ou incisões decorrentes de procedimentos cirúrgicos (Monteiro, 1883, p.496).

14 Natural de Salvador (BA), Tourinho obteve o grau de doutor em medicina em 1847, pela faculdade do Rio de Janeiro. Após concurso, tornou-se lente catedrático de patologia interna da Fameb entre 1871 e 1888 (Oliveira, 1992, p.189).

15 Doença comum na Ásia, de onde veio sua denominação (beri significa “fraco” em cingalês, idioma do Sri-Lanka), que provoca perda de peso, fraqueza e, em estágio avançado, alterações cardíacas (Carreta, 2006, p.84).

16 Domingos José Freire foi professor de química orgânica e biológica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Começou a estudar a febre amarela no final de 1879, desenvolvendo posteriormente uma vacina para a prevenção da doença. Para mais detalhes sobre a vida e obra de Domingos José Freire, ver Benchimol (1999).

17 Formou-se em medicina em 1873 pela Faculdade de Medicina da Bahia. Ocupou as cadeiras de patologia e clínica cirúrgica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro a partir de 1891.

18 Draenert nasceu na Alemanha e radicou-se na Bahia em 1863. Foi professor de química, física e mineralogia da Escola Agrícola da Bahia, entidade pioneira na diplomação de engenheiros-agrônomos no Brasil. Estudou algumas pragas que acometiam as plantações de cana-de-açúcar, sendo considerado por alguns fitopatologistas o descobridor da primeira doença de origem bacteriana encontrada em vegetais.

19 Formou-se doutor pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1851. Mudou-se para a Bahia em 1875. Trabalhou pela higiene pública e pela educação popular, criando a Biblioteca Municipal de Feira de Santana (Queiroz, 1997).

20 Seção publicada nas edições veiculadas pela GMB nos meses de setembro, novembro e dezembro de 1882 e também de fevereiro a maio de 1883.

21 Nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em medicina pela Faculdade da Corte em 1870 e desenvolveu pesquisas voltadas para a fisiologia e a microbiologia. Ocupou cargos importantes no cenário nacional como a chefia do Laboratório Experimental e a subdiretoria das seções de zoologia, antropologia e paleontologia do Museu Nacional, bem como cargos no Ministério da Agricultura (Schwarcz, 2011).

22 A GMB publicou entre março e junho de 1898 outras comunicações de Sanarelli que apresentavam a soroterapia para o tratamento e a profilaxia da febre amarela.

23 A comunicação de Lacerda (1897, 1898b, 1898a) que alegava ter a “chave do problema sanitário do Rio de Janeiro”, inspirada no trabalho de Sanarelli, foi registrada pela GMB entre 1897 e 1898.

24 Para mais detalhes do episódio, ver Benchimol (1999).

Recebido: Fevereiro de 2014; Aceito: Março de 2015

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