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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.23 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2016  Epub 18-Jul-2016

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702016005000017 

Análise

Novas evidências documentais para a história da homeopatia na América Latina: um estudo de caso sobre os vínculos entre Rio de Janeiro e Buenos Aires

New documental evidence on the history of homeopathy in Latin America: a case study of links between Rio de Janeiro and Buenos Aires

Conrado Mariano Tarcitano Filho*

Silvia Waisse1 

1Pesquisadora, Centro Simão Mathias de Estudos em História da Ciência/Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); professora, Programa de Estudos Pós-graduados em História da Ciência/PUC-SP. Rua Caio Prado, 102/salas 46-49. 01303-000 – São Paulo – SP – Brasil. swaisse@pucsp.br

Resumo

A homeopatia começou a propagar-se logo após sua formulação por Samuel Hahnemann, nos primeiros anos do século XIX, chegando ao Cone Sul na década de 1830. Esse processo é tradicionalmente vinculado à figura de um “introdutor”, por vezes alcançando estatuto mítico. No entanto, pouco se sabe acerca da chegada da homeopatia à Argentina nesse período. Com base em trabalho de arquivo, identificamos uma clara circulação de homeopatas médicos e leigos no eixo Rio de Janeiro-Buenos Aires. Dada a conhecida atividade proselitista desenvolvida nos círculos ligados aos homeopatas leigos B. Mure e J.V. Martins no Rio de Janeiro, a documentação disponível aponta para a possível extensão desse movimento também na Argentina, o que não tinha sido evidenciado até o presente.

Palavras-Chave: homeopatia; século XIX; Brasil; Argentina; documentação

Abstract

Homeopathy began to spread soon after it was formulated by Samuel Hahnemann in the early 1800s, reaching the Southern Cone in the 1830s. In processes of this kind, one figure is often cited as being responsible for introducing it, often attaining quasi-mythical status. Little is known, however, about how homeopathy reached Argentina at that time. Through archival research, we discovered that medical and lay homeopaths circulated between Rio de Janeiro and Buenos Aires. Given the well-known proselytizing of the circles gravitating around lay homeopaths B. Mure and J.V. Martins in Rio de Janeiro, the documents indicate that this movement actually went as far as Argentina, which had not been confirmed until now.

Key words: homeopathy; nineteenth century; Brazil; Argentina; documentation

A homeopatia começou a se propagar pelo mundo logo após sua formulação por Samuel Hahnemann (1755-1843), na futura Alemanha, na primeira década do século XIX. De modo geral, esse processo seguiu um padrão identificável nos diversos países e regiões: introduzida por algum médico ou aficionado leigo, rapidamente a homeopatia passa a interessar um grande número de médicos, assim como membros influentes da comunidade – políticos, intelectuais, jornalistas, nobres, governantes, militares etc. Na esteira disso, são fundadas associações, periódicos, cursos de divulgação e de formação, e são oferecidos serviços de atendimento. Eventualmente, surgem movimentos solicitando a abertura de hospitais e cursos universitários, que, sistematicamente, confrontam a resistência das instituições da medicina convencional.

O mapa do circuito migratório da homeopatia (Figura 1) demonstra que ela chegou ao Cone Sul a partir da década de 1830, sendo desenvolvida no Brasil (1836), na Colômbia (1837), no Paraguai (1848) e no Uruguai (1849). Além disso, o Brasil se tornou um centro propagador não só regional, mas também para países da África e do Oriente (Tischner, 1939, v.4, p.727, 750).

Figura 1 : Difusão da homeopatia no século XIX (Fonte: elaborado pelos autores) 

O mapa ilustrado na Figura 1 mostra a Argentina como área sem homeopatia no século XIX, embora seja reconhecida como um dos principais centros internacionais da homeopatia no século XX. Essa situação curiosa não é abordada na literatura internacional, tampouco na produzida na própria Argentina. De fato, a maioria de trabalhos sobre a história da homeopatia nesse país foi realizada por clínicos homeopatas muito bem intencionados, mas sem os recursos conceituais e metodológicos da pesquisa em história da ciência, da tecnologia e da medicina. Além disso, esses estudos estão mais dedicados a celebrar efemérides e precursores do que a compreender uma determinada encruzilhada na história da medicina. Cabe destacar que esse não é um fenômeno incomum: na historiografia da homeopatia, reconhece-se que, até recentemente, os estudos históricos foram basicamente realizados por clínicos homeopatas com o propósito de estabelecer a natureza científica dessa disciplina diante dos ataques da medicina convencional (Dinges, 1996).

A única exceção ao quadro pintado antes é representada pelo trabalho de conclusão do curso de graduação em história de A. Walzer Vijnovsky (2008), neto de um célebre homeopata argentino. Meritória pela pesquisa documental, a obra, no entanto, mistura, sem qualquer ordem e critério, menções e transcrições de documentos com relatos, muitos deles míticos e contraditórios, transmitidos acriticamente como parte da tradição herdada.

Além disso, a literatura internacional não faz qualquer menção à presença de atividade homeopática na Argentina no século XIX. No entanto, a nossa pesquisa identificou nesse país elementos típicos da difusão no Oitocentos, com associações de classe, publicações, sucesso no combate a epidemias, apoio de personalidades destacadas e, é claro, ataques por parte da medicina convencional. Assim, foi possível produzir um novo mapeamento da chegada e da difusão da homeopatia na Argentina, com alguns resultados inéditos.

O mito do herói introdutor

Em geral, os estudos tradicionais destacam a figura de um “introdutor”, e a discussão, consequentemente, focaliza três pontos: a delimitação do papel desses introdutores, as evidências que permitem sustentar que a homeopatia foi propagada por um ou outro “introdutor” e a maneira como essa “introdução” teria sido realizada. Por vezes, os estudiosos chamam os introdutores de “emissários”, “missionários” ou, ainda, “apóstolos” (Tischner, 1939, v.4, p.722-723; Galhardo, 1928, p.554; King, 1905, v.1, p.20).

Nesse contexto, é possível identificar dois modelos gerais de difusão da homeopatia no século XIX. Um deles é baseado na participação de médicos, sendo que alguns deles teriam procurado Hahnemann para resolver problemas pessoais de saúde e, diante do sucesso terapêutico, passaram a estudar a homeopatia e, em seguida, a praticá-la. Muitos desses médicos residiam fora da Alemanha e, ao retornar a seus países de origem, além de exercer, também ensinaram homeopatia. O segundo modelo, embora similar, refere-se ao mediado por pacientes (não médicos), que também passaram a se interessar pela terapêutica hahnemanniana, divulgando-a em seus países de origem e, eventualmente, também clinicando.

Podemos mencionar, apenas como alguns exemplos ilustrativos, o caso do dinarmaquês Hans B. Gram (1787-1840), considerado o “introdutor” da homeopatia nos EUA. Em viagem à Dinamarca, tratou-se e estudou com o médico Hans C. Lund (1765-1846), que, por sua vez, havia aprendido homeopatia diretamente com Hahnemann e, por ter traduzido os textos deste ao retornar à Dinamarca, é considerado o “introdutor” da homeopatia nesse país escandinavo. Já Gram é considerado o “introdutor” da homeopatia nos EUA, pois, ao retornar, em 1825, publicou um pequeno texto com intenção propagandística, sendo que, além de ensinar homeopatia aos médicos John Gray (1804-1882) e Federal Vanderburgh (1788-1868), não teve qualquer outra participação na disseminação da homeopatia nos EUA (Winston, 1999). Curiosamente, no caso da Espanha, são identificados vários “introdutores”. De acordo com Tischner (1939, v.1, p.728), a introdução da homeopatia nesse país teria sido realizada, em 1829, pelo médico italiano Cosimo M. de Horatiis (1771-1850), que, participando da comitiva real enviada pelo rei de Nápoles para o casamento de dona Maria Cristina com dom Fernando VII, proferiu uma palestra sobre homeopatia na Academia de Medicina de Madri. Apesar de ser, por isso, considerado o “introdutor” da homeopatia na Espanha, essa palestra não teve qualquer consequência. De acordo com W.H. King (1905, p.20), a homeopatia só teria começado a ser exercida no ano seguinte, quando um comerciante de nome Zuarte foi consultar Hahnemann na Alemanha e, satisfeito com o resultado de seu tratamento, levou vários exemplares dos livros de Hahnemann para a Espanha e os distribuiu entre os médicos da Andaluzia, onde o exercício da homeopatia se iniciaria de fato. Estudos mais recentes, no entanto, destacam que as primeiras notícias sobre a homeopatia, publicadas nos Anales de Ciencia, Literatura y Arte, em 1832, chamaram a atenção de Prudencio Querol, médico de Badajoz, que teria sido o primeiro a experimentar essa medicina em pacientes. Posto que o primeiro farmacêutico a preparar medicamentos homeopáticos, Juan Manuel Rubiales, também residia em Badajoz, onde foi fundado o primeiro periódico especializado no tema, os estudiosos espanhóis consideram essa cidade o berço da homeopatia espanhola (González-Carbajal García, 2008).

Frequentemente, a figura do introdutor é rodeada de mitos e lendas, utilizados para legitimar a homeopatia. No relato-padrão, um grande personagem, em geral, um vulto histórico, um herói nacional ou um membro da aristocracia é quase que milagrosamente curado pelo “introdutor”, despertando o interesse da população. Como exemplos, podemos citar o médico Mathias Marenzeller (1765-1864), “introdutor” da homeopatia na Áustria, que teria tratado de um duque austríaco e, posteriormente, levado o célebre general Karl Philipp zu Schwarzenberg (1771-1820) a se tratar com Hahnemann (Tischner, 1939, v.4, p.722-723). Outro exemplo bem conhecido é o do farmacêutico transilvano Johann Martin Honigberger (1794-1869), que foi chamado à Índia para tratar o marajá Ranjit Singh (1780-1839) (Waisse, 2014).

Vale a pena ainda mencionar o caso de Portugal – sempre com implicações na cultura médica brasileira –, onde tudo indica que os primeiros práticos homeopatas foram tanto leigos quanto médicos diplomados (Pereira, Pita, Araújo, 2005), como, por exemplo, Florêncio Peres Furtado Galvão, professor de matéria médica e farmácia na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, que incluía elementos de doutrina homeopática em suas aulas.1 No entanto, a introdução da homeopatia seguiria o padrão já descrito, particularmente graças ao apoio das elites, incluindo o próprio rei dom Pedro V, além de ministros do Império, como Manuel da Silva Passos (1805-1862) e o duque de Saldanha (1790-1876) e, igualmente, jornalistas como Camilo Castelo Branco (1825-1890) e Rebello da Silva (1822-1871). Nesse sentido, destaca-se a figura de Silva Passos, um mito político por si mesmo, que, doente desde a infância, achara alívio apenas na homeopatia, que passaria a promover, após denunciar que os médicos convencionais “não [estudam] nada, não [sabem] nada, mas [falam] de tudo” (Silva Passos, 1861, citado em Araújo, 2005, p.155). A segunda figura pública que merece destaque é o filósofo, jurista e ministro de dom João VI, Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846), que, depois de ter conhecido Hahnemann durante seu exílio em Paris, em 1839, obteve para ele a nomeação como um dos vinte “membros honorários de 1a classe” da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa (Pereira, Pita, Araújo, 2005, p.573),2 ao lado de figuras como Anthelme Richerand (1779-1840), Gabriel Andral (1797-1876), Karl F. Burdach (1776-1847) e François Magendie (1783-1855). Não por acaso alguns dos candidatos a “introdutor” da homeopatia no Brasil, como Germon e Mure (discutidos mais adiante), alegariam contatos pessoais com Pinheiro Ferreira, precisamente para legitimar a pretensão ao “título”.

Dessa forma, é pertinente rever o papel desempenhado pelos supostos “introdutores” em relação àquele desenvolvido pelos indivíduos que, efetivamente, promoveram a propagação, divulgação e solidificação da homeopatia nos diversos países. Os padrões descritos também podem ser identificados na América do Sul, como veremos a seguir.

Homeopatia no Brasil: para além do mito fundador

A literatura é unânime em apontar Benoit Jules Mure (1809-1858) como o introdutor da homeopatia no Brasil (Galhardo, 1928; Luz, 1996, p.58; Rosenbaum, 2002). O estatuto heroico do introdutor revela-se, por exemplo, no fato de que o Dia Nacional da Homeopatia, 21 de novembro, comemora a chegada do francês Mure ao Brasil em 1840. Igualmente, quase toda publicação produzida no país, sem foco histórico particular, começa por variantes da frase “A homeopatia foi introduzida no Brasil por Mure”.3

Não é o nosso propósito neste trabalho analisar a construção do “mito Mure”, visto se tratar de assunto extremamente complexo e que merece estudo à parte. Todavia, para o que nos interessa neste ponto, torna-se relevante indicar a natureza mítica da figura do “introdutor”, por meio de evidências flagradas, com certa constância, na documentação disponível.

Assim, de acordo com essa documentação, as primeiras evidências de atividade homeopática no Brasil estão vinculadas ao médico suíço Frederico Jahn que, já em 1836, defendeu uma tese intitulada Exposição da doutrina homeopática (Jahn, 1836) junto à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nesse trabalho, o autor mostra um profundo conhecimento da teoria e da prática homeopáticas e, por meio de um discurso inflamado, revela mais interesse em fazer uma ardente defesa partidária do que em cumprir meras formalidades acadêmicas, como questionaria, quase um século depois, J.E.R. Galhardo (1928, p.273). De todo modo, o trabalho pioneiro de Jahn foi corroborado, em sua própria época, tanto por partidários quanto por opositores da homeopatia.

Entre os partidários, por exemplo, o médico Domingos de Azeredo Coutinho de Duque Estrada (1812-1900) afirma que seu primeiro contato com a homeopatia foi, precisamente, mediado por Jahn, que lhe forneceu os primeiros livros para seu estudo (Duque Estrada, 1845). Afirma ainda que, embora realizasse suas primeiras experiências com a terapêutica homeopática em 1840, “nos casos nos quais a alopatia falhava”, só passaria a utilizar essa modalidade preferencialmente a partir de 1842-1843, por ocasião de uma epidemia de escarlatina no Rio de Janeiro, durante a qual “até os médicos morriam” e “não tinha nada a se fazer”, mesmo com certo receio de ser perseguido, uma vez que ele se supunha “então ... o único homeopata no Rio de Janeiro ... pois os Srs. Drs. Mure e Lisboa ainda aqui não exerciam a nova doutrina” (p.5-7).

Dentre os opositores, destaca-se José de C.R. de Andrade, fervoroso partidário da medicina de François-J.V. Broussais (1772-1836), que em 1842 defendeu a segunda tese sobre (e a primeira contrária) a homeopatia na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (Andrade, 1842). Os alvos do autor foram, naturalmente, Jahn, além de José da Gama e Castro (1795-1893) e Emílio Germon (1799-?). Gama e Castro, redator do Jornal do Commercio, publicaria em 1841 uma série de artigos em defesa da homeopatia a pedido de Mure – na época em Saí, Santa Catarina, como veremos mais adiante. Viajando à Europa em 1842, Gama e Castro foi sucedido por Germon nessa tarefa. O trabalho de Andrade – especialmente sua queixa “É inexplicável a rápida conversão dos nossos homeopatas!” (Andrade, 1842, p.22) – demonstra que a atividade homeopática desenvolvida no Rio de Janeiro, antes de Mure se estabelecer na cidade (1843-1848), já era notável, a ponto de ser atacada.

Germon era um médico francês que veio ao Brasil no início da década de 1820, em viagens de pesquisa sobre história natural por encomenda do então ministro do Império José Bonifácio de Andrada (1763-1838). Quando José Bonifácio perdeu o cargo, Germon deixou de contar com a proteção oficial e voltou à França, onde aprendeu homeopatia com Hahnemann. Nomeado pelo governo francês membro de comissões sanitárias, Germon foi um dos responsáveis pelo tratamento dos afetados pela epidemia de cólera que assolou Marselha em 1835, como atesta carta enviada pelo prefeito dessa cidade (Germon, 1848, p.311). Na sequência, em 1837, retornou ao Brasil, onde deu continuidade a sua prática clínica homeopática.

De acordo com meticuloso trabalho de arquivo, Raquel S. Thiago (1995) demonstrou que Mure não realizou qualquer atividade homeopática sistemática até pelo menos 1843, quando se estabeleceu no Rio de Janeiro. Foi precisamente nesse ano que Germon publicou a primeira edição do seu Manual de homeopatia, cuja importância pode ser medida pelo fato de que a primeira edição, de dois mil exemplares, se esgotou completamente, levando à produção de uma segunda (1848) e uma terceira (1858) (Silva, 1870, p.169).4 Cabe mencionar ainda que essa é uma das 43 obras de medicina, cirurgia e história natural publicadas no Brasil entre 1808 e 1843, excetuando traduções de três obras estrangeiras e três publicações seriadas (Paula, 1998). Germon chegou a ser considerado, em 1847, junto com Frederico L.C. Burlamaque (1803-1866) e Alexandre A. Vandelli (1784-1862), para o cargo de diretor do Museu Nacional (Marques, Filgueiras, 2009). Em 1822, os moradores da vila de Parati fizeram uma subscrição a fim de compensá-lo diretamente pelos cuidados médicos e cirúrgicos a ser prestados anualmente aos assinantes e suas famílias, quando o costume era que os médicos recorressem à Fisicatura-mor para receber seus pagamentos (Pimenta, 1997, p.30).

Como é sabido, Mure, na verdade, veio ao Brasil em 1840 para fundar um falanstério fourierista,5 o que tentou realizar em Saí.6 Como observa Germon – confirmado na documentação recolhida por Thiago (1995, p.143) –, Mure não chegou a desenvolvê-lo nem a fundar instituições tais como a Escola Suplementar de Medicina e o Instituto Homeopático de Saí, que aparentemente nunca saíram do papel, apesar de anunciadas pelo Jornal do Commercio. Provavelmente, movido pela falta de sucesso em Santa Catarina, Mure decidiu transferir-se, em 1843, para o Rio de Janeiro, onde deu início a suas atividades homeopáticas e onde, também, já existiam antecedentes e condições para tanto, conforme vimos.

“O médico do povo”: práxis leiga e difusão da homeopatia

Apesar dos problemas mencionados, a delicada constituição do mito em torno da figura do “introdutor” merece ser analisada para além dos evidentes equívocos e contradições que lhe deram base. Nesse caso, seria interessante lembrar que a impressionante difusão da homeopatia no Brasil deve ser, efetivamente, atribuída ao trabalho conjunto de Mure e João Vicente Martins (1808-1854). Igualmente e por motivos que logo veremos, seria bom lembrar que esses dois homeopatas lendários não eram diplomados em medicina. De fato, a formação de Mure sempre foi um assunto altamente polêmico, desde sua própria época até os dias de hoje.7 Assim, visando esclarecer essa questão polêmica, realizamos uma consulta junto à direção de arquivos da Faculdade de Medicina de Montpellier, cujo resultado permitiu verificar que Mure cursou um único semestre em 1837 (Figura 2).8

Figura 2 : Registre des examens, 1837-1847, Montpellier (Fonte: Direction des Affaires Générales, Université Montpellier 1, França) 

Na verdade, tal resultado seria de se esperar, pois tudo indica que, para Mure, a homeopatia era uma prática alheia à medicina. Suas manifestações nesse sentido foram as mais variadas, chegando até mesmo a afirmar que os praticantes da homeopatia deveriam ser formados e treinados em instituições próprias, para que não se “contaminassem” com os conceitos e práticas da medicina acadêmica. Essa separação radical da medicina seria, aliás, o que justificaria o maior progresso da homeopatia no Brasil em comparação à Europa:

Chegou o tempo de revelar as causas profundas que entravaram durante 50 anos o desenvolvimento da homeopatia na Europa e de patentear a razão porque o Brasil tem em tão poucos anos sobrepujado os trabalhos de todos os homeopatas do mundo desde o princípio do século atual. A posição atual da homeopatia no Brasil não tem igual em nenhuma parte do velho continente. ... Enquanto a homeopatia for entregue a seus maiores inimigos, praticada e ensinada pelos médicos, o seu progresso será vagaroso e duvidoso o seu porvir. ... O golpe mais fatal que recebeu a homeopatia no seu país natal foi a fundação de cadeiras de homeopatia no seio das faculdades alopáticas (Mure, 8 abr. 1848).9

Não se tratava de mero discurso. Ao contrário, com a colaboração de Martins, Mure lançou-se com todo ímpeto à fundação de instituições associativas, de ensino e atendimento clínico, como o Instituto Homeopático do Brasil e a Escola Homeopática do Brasil, enfatizando a formação de leigos e o caráter filantrópico e intrinsecamente cristão da homeopatia (Galhardo, 1928, p.514-518, 660-661). Ângela Porto (1989) observou que esses esforços continuariam após o retorno de Mure à Europa, em 1848, inclusive com a criação de um laboratório homeopático no Rio de Janeiro, ocupado na preparação de boticas homeopáticas que eram enviadas para todo o país, acompanhadas de folheto com instruções para uso e preparo dos medicamentos.

O uso leigo e doméstico da homeopatia foi particularmente enfatizado nas publicações produzidas por Mure, Martins e seus discípulos, a começar pela tradução brasileira de O médico do povo: instruções pondo ao alcance dos homens conscienciosos e de boa vontade os processos mais aperfeiçoados e as mais recentes descobertas da arte de curar, indicando os meios de tratar todas as moléstias segundo os princípios da homeopatia (Mure, 1853, 1868), assim como em outras publicações desse gênero. Entre essas, alguns dos exemplos mais notáveis seriam: Medicina doméstica homeopática ou Guia prático da arte de curar homeopaticamente (Cochrane, 1868); Homeopatia doméstica (Chidloe, 1853); e O médico das crianças ou conselhos às mães sobre a higiene e tratamento homeopático das moléstias de seus filhos (Almeida, Lemos, 1860).10

Desse modo, no Brasil, a homeopatia em sua vertente leiga e contestatória se automarginalizou da medicina oficial graças à ativa intervenção de Mure e Martins. Por meio de um sólido trabalho de arquivo, T.S. Pimenta demonstra a frustração do establishment médico, devida à incapacidade de coibir o desenvolvimento de uma rival cada vez mais poderosa. Assim, por exemplo, durante a epidemia de cólera de 1855, a Secretaria de Polícia da Corte publicou uma listagem dos médicos habilitados por endereço e “sistema de curativo” (convencional ou homeopático), demonstrando o nível de reconhecimento governamental e a reputação da homeopatia na sociedade em geral (Pimenta, 2003, p.215-216; 2004, p.42). Por esses e outros motivos, impossível não concordar com Pimenta quando afirma que um dos principais motivos do conflito entre médicos acadêmicos e homeopatas foi a insistência inabalável de Martins de que não havia necessidade de formação médica para exercer a homeopatia.

Todavia, para o que se seguirá aqui, é necessário lembrar que uma parte significativa do projeto de Mure e Martins incluía o envio de “missionários catequizadores” a todas as províncias do Império e a diversos países vizinhos. Certos documentos apontam para o envio de “missionários catequizadores” também à Argentina. A omissão desse aspecto por quem se dedicou ao estudo histórico da homeopatia argentina poderia, inclusive, indicar que tais missionários não exerceram qualquer influência nos desenvolvimentos posteriores. No entanto, nos deteremos, justamente, nesse aspecto histórico que com frequência foi esquecido, em parte porque ilustra claramente o projeto de Mure e Martins; em parte porque a compreensão mais ampla de tal projeto nos permitiu lançar luzes diferentes, ou mesmo inéditas, sobre o histórico da homeopatia argentina.

Esse histórico começaria, ainda no Brasil, a partir de um texto publicado no n.226 do Jornal do Commercio, de 17 de agosto de 1851, no qual Martins relata que o Instituto Homeopático do Brasil havia chancelado a ida de professores formados pela Escola Homeopática do Brasil a Montevidéu e à Argentina em janeiro de 1850. Esses professores eram o padre Santiago Estrázulas y Lamas e João Christiano D’Korth, nenhum deles médico.11 O único documento localizado que indica a possível presença deles na Argentina é uma carta de D’Korth para Martins, datada de 24 de julho de 1851 e publicada por Martins (17 ago. 1851) no Jornal do Commercio:

tendo passado em diversos pontos da Confederação Argentina, demorando-me em cada um deles tão somente o tempo necessário para dar a conhecer às vantagens da homeopatia e nunca o preciso para ganhar dinheiro, porque meu lema sempre foi o de – caridade sempre – em todo o tempo de minha missão de propaganda, o executei tão rigorosamente, que até os próprios habitantes do campo e povoados por onde passava se admiravam que pudesse haver um homem a quem se desse o nome de médico, que trabalhasse sem recompensa e com sacrifícios e despesas, todavia cheguei a receber reprovações de alguns comandantes dos povos onde exerci a homeopatia por praticá-la com tão absoluto desinteresse.

A introdução da homeopatia na Argentina

Um primeiro aspecto que chama a atenção na historiografia da homeopatia argentina é a falta da figura de um “introdutor” bem definido, pois até o momento não se tem uma ideia clara de como nem por meio de quem a homeopatia aportou na Argentina.12

O primeiro homeopata conhecido a clinicar no país foi o médico francês Guillermo Darrouzain (1802-1869). No entanto, sua atividade clínica na Argentina e no Uruguai, em 1837 e 1838, não foi homeopática. De acordo com um anúncio que publicou em 1855, nesse momento acabava de retornar à cidade de Rosário, tendo adquirido “novos conhecimentos”, isto é, os homeopáticos (Vijnovsky, 2008, p.355-356). Em algum momento de sua trajetória, Darrouzain foi perseguido pelo governo de Juan Manuel de Rosas (1793-1877) e, tendo que suspender sua atividade profissional, é possível que tenha aproveitado esse intervalo para aprender homeopatia. Na época, as vias de difusão da homeopatia irradiavam a partir do Rio de Janeiro, de modo que é provável que Darrouzain tivesse aprendido inicialmente com discípulos de Mure e Martins no Uruguai, possivelmente o padre Estrázulas y Lamas.

Nesse sentido, deve-se apontar um fenômeno bastante significativo, embora não identificado pelos estudiosos até o momento. O governo de Rosas, especialmente seu segundo período (1835-1852), foi caracterizado por uma violenta intolerância política, diante da qual os opositores só encontravam saída no exílio (Luna, 2009, p.51) em Montevidéu, no Chile, na Bolívia e também no Rio de Janeiro. No último caso, alguns exilados aproveitaram o período transcorrido na capital brasileira para adquirir formação em homeopatia.

O primeiro exemplo relevante é fornecido pelo caso de Amado Laprida (1823-1862), filho de Narciso de Laprida (1786-1829), presidente do congresso que decretou a independência da Argentina da Espanha em 1816. Fugindo de Rosas, Amado se exilou no Rio de Janeiro, onde completou a formação no Instituto Homeopático do Brasil, entre 1844 e 1849 (Vijnovsky, 2008, p.361-362). De modo interessante, esse título foi oficialmente reconhecido na Argentina para a prática convencional da medicina.

Outro caso ainda mais notável é o da reputada educadora Juana Manso (1819-1875), que, num artigo publicado em 1871, fez uma retrospectiva de sua experiência com a homeopatia (Manso, 1871). Manso, também exilada devido ao governo de Rosas, estabeleceu-se no Rio de Janeiro entre 1844 e 1846 e novamente entre 1848 e 1853, isto é, quando Mure ensinava e praticava a homeopatia na cidade. Manso fez relatos acerca de seus contatos com Mure e, mais especialmente, com Martins, além de outros, assim como do fato de que ela, sua mãe e uma de suas filhas haviam sido salvas da epidemia de febre amarela pelo tratamento homeopático. Além disso, o aparente sucesso de sua prática homeopática doméstica fez com que vários dos seus vizinhos a procurassem para a solução de diversas condições mórbidas.13

Os depoimentos de Manso são de grande relevância para a história da homeopatia argentina, porque dão evidências de trocas homeopáticas entre o Brasil e a Argentina e abrem espaço para que se desenhe a possibilidade de a homeopatia ter sido incrementada na Argentina a partir de conhecimentos obtidos com Mure e Martins no Brasil.

Também merece destaque o caso de Domingo Matheu (1817-1870), cujo pai, com o mesmo nome, participou na Primera Junta de Mayo, que governou a Argentina após a independência. Matheu Filho também passou uma temporada de exílio no Rio de Janeiro, retornando a Buenos Aires em 1854, quando, a fim de obter o título de doutor em medicina, apresentou uma tese intitulada Algunas consideraciones sobre la homeopatía (Matheu, 1854), na qual contesta os princípios homeopáticos, dos quais se mostra profundo conhecedor. Uma vez que, na época, conforme pontuado até aqui, não havia atividade homeopática detectável na Argentina (além da exata coincidência entre a data de sua chegada e a de sua tese), é mais que provável que também Matheu tivesse adquirido seus conhecimentos no Rio de Janeiro.

Assim, embora identificada, a circulação aqui descrita, bem como suas possíveis implicações para o desenvolvimento da homeopatia na Argentina, ainda demanda muita atenção. Essa observação se torna ainda mais intrigante ao se considerar que os exemplos citados dizem respeito a personalidades públicas.

Primeira instituição e primeiros problemas

Embora tenhamos identificado a presença e a atividade de homeopatas na Argentina pelo menos desde a metade do século XIX, a primeira instituição formal, a Sociedad Hahnemanniana Argentina, foi fundada apenas em 1869, sob o patrocínio do médico homeopata espanhol Antonio Álvarez Peralta, membro da Sociedad Hahnemanniana Matritense.

As tarefas assumidas pela sociedade abrangiam a publicação do Boletín de la Sociedad Hahnemanniana Argentina, que circulou de maio de 1869 a outubro de 1872, com artigos sobre a teoria e a prática homeopáticas, dedicados ao público médico. Por esse motivo, também incluía matérias de interesse geral da classe médica, como a da criação contemporânea do Consejo Nacional de Higiene (CNH), a da regulamentação das casas de tolerância e, a partir de 1871, sobre a epidemia de febre amarela. Esta última foi exatamente o motivo para a redução na frequência de publicação do Boletín, a partir de janeiro de 1871, como informa o seu comitê editorial, no n.16, de 1871, e para o encerramento completo das atividades da sociedade em outubro de 1872 (Sociedad..., 1871, p.362-363; 1872, p.393-394).

Nesse ínterim, a homeopatia sofria os primeiros ataques, como evidencia o debate em relação à criação do CNH. Assim, o editorial do Boletín, de 25 de agosto de 1870, alerta para o fato de que o projeto de fundação do CNH era uma “arma preparada para destruir a homeopatia em Buenos Aires, que é o pesadelo dos senhores homeopatas” (Sociedad..., 1870). O texto se refere aos artigos estatutários que outorgavam ao CNH o poder de fiscalizar o exercício da medicina e da farmácia.

Em paralelo, um acirrado debate ocupou grande espaço na Revista Médico-quirúrgica, entre maio de 1860 e junho de 1870, fazendo com que, quinzenalmente, essa polêmica se reavivasse nas páginas da revista voltada para o público médico convencional. O estopim para tal debate foi a publicação da obra Reseña del sistema médico homeopático y dosis infinitesimales, acompañada de algunos documentos y datos estatísticos, pelo médico homeopata Juan Corradi (?-?), membro da Sociedad Hahnemanniana Argentina (Corradi, 1869). Tratava-se, evidentemente, de uma obra de divulgação, mas chamou a atenção do editor da revista, Pedro Mallo (1837-1899), que desafiou Corradi a um debate público no periódico. Não é nosso objetivo, aqui, descrever as posições de um e de outro com relação aos benefícios do tratamento homeopático defendidos por Corradi e fortemente atacados por Mallo, mas apenas evidenciar a presença da homeopatia no cenário médico argentino do século XIX, representado aqui pela mais prestigiada revista médica da época.

A segunda (e curiosa) instituição homeopática argentina

No ano em que a Sociedad Hahnemanniana fechava suas portas, foi fundada outra instituição, a Sociedade Homeopática Argentina (SHA), presidida por Juan Petit de Murat (1832-1888), responsável, a partir de 1875, pela publicação do periódico El Homeópata. Aparentemente, a SHA dava continuidade à instituição anterior, já que entre seus membros fundadores constavam três da antiga sociedade ora extinta (Jonas,1951, p.134-135). Essa presumível continuidade, assim como a reputação adquirida por Petit de Murat durante o combate à epidemia de febre amarela,14 parecia ter deixado estabelecido o status da SHA. No entanto, duas notas discordantes chamaram nossa atenção. Em primeiro lugar, o fato de uma instituição falir para reabrir imediatamente sob outro nome. Em segundo, a observação do conteúdo de El Homeópata, quando comparado ao do Boletín.

Quanto aos aspectos formais, o Boletín é austero, sem imagens de capa, seu conteúdo é estritamente médico, incluindo aspectos da teoria e prática homeopáticas, discussões de casos clínicos e debates com a medicina convencional. Isto é, a publicação estava evidentemente destinada a um público médico. Levando isso em consideração, um lançar de olhos sobre El Homeópata já é capaz de captar um contraste marcante.

Como ilustra a Figura 3, El Homeópata não pretende ser um periódico médico, mas um veículo de divulgação científica e literária, com fortes elementos religiosos, como denota a presença dos anjos nos dois lados do rosto de Hahnemann, um deles anunciando a homeopatia com uma trombeta, e o outro trazendo a coroa para consagrar seu triunfo. O rosto de Hahnemann está pousado sobre uma águia, animal utilizado como símbolo da homeopatia, também presente nas publicações do Instituto Homeopático do Brasil, presidido por Mure. Da mesma forma, há referências bíblicas explícitas a Malaquias 3:20 (Et orietur vobis timentibus nomen meum sol iustitiae et sanitas in pennis eius: Mas para vós que temeis meu nome, nascerá o sol de justiça e nas suas asas trará saúde) (Sacrosancti..., 1986), parafraseadas no subtítulo. Finalmente, o propósito manifesto de “defender a ciência sem privilégios”, praticar a “caridade sem limites” e “agir, em vez de falar”, de modo que se pode concluir que El Homeópata carregava um forte componente ideológico, muito similar ao projeto de Mure e Martins.

Figura 3 : Primeiro número de El Homeópata (Fonte: Biblioteca Nacional de la República Argentina) 

A análise do conteúdo dos artigos publicados nesse periódico corrobora nossa hipótese. À guisa de exemplo, pode-se citar uma seção reiterada nos vários fascículos, dedicada “Às mães de família e ao público em geral”, em que são oferecidos conselhos sobre nutrição, educação e higiene infantis, além de incentivada a prática leiga e doméstica da homeopatia. Há ainda uma série de artigos, muitas vezes intitulados “Lecciones de Homeopatía”, de autoria de Petit de Murat, que visavam difundir, de modo didático e prático, os fundamentos da prática homeopática entre o público leigo. Essa linha editorial é imediatamente evocativa do tipo de obras publicadas por Mure, Martins e discípulos, descritas anteriormente.

Chama a atenção o fato de esta última seção também discutir a situação da homeopatia em outros países. A respeito do Brasil, na “Lição n.VI”, por exemplo, Petit de Murat (5 dez. 1875, p.2) descreve a situação da homeopatia no país, enaltecendo o papel que Mure desempenhara em tal contexto, e enfatiza que diversos alopatas e outras pessoas antes assumidamente contra a prática proposta por Hahnemann estavam agora trabalhando como homeopatas. Encontra-se, também, a seção “Cartas edificantes o instructivas sobre la homeopatía”, que traz textos sobre a vida de Hahnemann e a homeopatia no cenário médico internacional.

No entanto, a maior parte do periódico está dedicada a um ataque acirrado, com termos por vezes violentos, à medicina convencional (alopatia), que chega a ser qualificada de trevas, em oposição à homeopatia, considerada a “luz”. A homeopatia, por compreender em qual “lado se encontram a verdade e a justiça”, poderia curar “para sempre uma doença ... evitar cirurgias ... curar de maneira radical enfermidades nervosas, inclusive a alienação mental” (Murat, 5 dez. 1875, p.1). Avançando nesse raciocínio, propõe-se que: “diminuirá o número de médicos, posto que cada pai de família, cada padre d’almas, cada Prior de convento ou chefe de Regimento poderá ser médico dos seus. Como já existem muitos exemplos. Tudo isso é e pode a ciência homeopática. Não é exagero” (Murat, 1875, p.1).

Literal e explicitamente, tem-se aí reproduzido o modelo de Mure e Martins, o que é referendado por um texto do último, publicado no Jornal do Commercio, em 17 de agosto de 1851, em que afirma:

um dia virá em que todo chefe de família compreenderá como não está fora do seu alcance, de sua inteligência, curar ele mesmo todas as moléstias de seus filhos, de seus parentes, de seus fâmulos e de seus vizinhos menos que ele cuidadosos: essa convicção virá para todos quando se forem multiplicando os exemplos de curas homeopáticas alcançadas por quem não for médico; e essa multiplicidade de exemplos aí está o clero brasileiro a promovê-la dia a dia, aí estão os nossos discípulos (os que ficaram dignos de si e de nossa maior afeição) para explicar ao povo como facilmente pode ele ter à mão os remédios de seu emprego quando são apropriados (Martins, 17 ago. 1851).

Dada a circulação de homeopatas entre o Brasil e a Argentina e as profundas semelhanças entre os movimentos liderados por Mure-Martins e Petit de Murat, decidimos pesquisar de modo mais abrangente a biografia científica deste último. Com base na informação fornecida por descendentes de Petit de Murat em seminário apresentado no Departamento de Homeopatia da Universidade Maimônides, em Buenos Aires, Argentina, conseguimos estabelecer que Petit de Murat nasceu em 1832 no Rio de Janeiro, sendo seu nome Juan Jacinto Vieyra da Silva Denis Petit de Murat. Não se sabe muito acerca de sua vida, apenas que se casou aos 19 anos no Uruguai e que em 1871 aportou em Buenos Aires, para visitar familiares. Na ocasião, a epidemia de febre amarela estava no seu acme, e Petit de Murat teve atuação destacada, como já foi mencionado.

Sendo estrangeiro, Petit de Murat precisava revalidar seu título de médico (Giampietro, 2011, p.207), contudo, não pudemos localizar a tese requerida para tanto. Em 1875, ele apresentou um diploma em antropologia e homeopatia, expedido pela Facultas Universitatis Americanæ apud Philadelphiam, da Pensilvânia, EUA – conservado no acervo familiar. A procura por essa escola na literatura especializada foi infrutífera, de modo que consultamos diretamente o Departamento de Educação do Estado da Pensilvânia, sendo informados de que, se essa escola realmente operou, o fez sem autorização nem acreditação.

Desse modo, deve-se concluir que, assim como Mure e Martins, Petit de Murat também não era médico, o que talvez explique por que todos eles defendiam a prática leiga e doméstica e atacavam a classe médica. Tampouco pode ser descartada, embora não tenhamos conseguido localizar documentação confirmatória, a ideia de que Petit de Murat tivesse adquirido seus conhecimentos homeopáticos no Brasil junto a discípulos de Mure.

Considerações finais

Os resultados de nossa pesquisa apontam para processos de difusão da homeopatia no século XIX que não se enquadrariam nos modelos de elaboração tradicional. Embora por razões bem diferentes, foi possível notar, por exemplo, que a figura do “introdutor” não seria pertinente, tanto no caso brasileiro quanto no argentino.

Conforme demonstrado pela documentação, no caso brasileiro, ao menos três homeopatas pleitearam o título de “introdutor” da homeopatia: Germon, Mure e Duque Estrada, sem esquecer, ainda, F. Jahn, responsável pela primeira produção acadêmica sobre o assunto no país. Por outro lado, essa documentação também demonstrou que os três contendentes principais tiveram destacadíssimo papel no estabelecimento da homeopatia no país, em diferentes níveis de atuação: Germon principalmente como autor, Mure como propagador popular, e Duque Estrada na interface com as instituições médicas oficiais. Ou seja, a nenhum deles poderia ser atribuída, isoladamente, a bem-sucedida implantação da homeopatia no Brasil. A bem da verdade, tudo parece indicar que o trabalho sucessivo ou conjunto de incontáveis personalidades teve, igualmente, papel crucial.

No caso argentino, o modelo baseado na figura do “introdutor” mostra ser completamente inaplicável, posto que sequer parece ter existido um candidato adequado para o título. Talvez esse seja o motivo do marcante vazio no espaço ocupado pela Argentina no mapa da difusão da homeopatia no século XIX. Por outro lado – diferentemente do caso brasileiro, notável pela continuidade institucional até inícios do século XX –, a homeopatia argentina sempre foi dispersa, até a formação de um núcleo duro de estudiosos, práticos e ativistas na década de 1930.15 Essa mesma circunstância histórica também vai contra o modelo tradicional, que considera o século XIX o momento de vertiginosa expansão da homeopatia, em oposição ao declínio por ela experimentado no século XX, justamente, a partir da década de 1940, quando na Argentina tem início seu auge.16

A pesquisa documental também nos permitiu constatar a existência de uma circulação, ainda pouco conhecida, mas notável, de homeopatas, tanto leigos quanto médicos diplomados, no eixo Rio de Janeiro-Buenos Aires. Igualmente, foi possível verificar a influência dos chamados “missionários catequizadores” enviados por Mure e Martins para além das fronteiras do Império, como indicaria o caso de Darrouzain, um dos primeiros médicos a exercer, reconhecidamente, homeopatia na Argentina. Espera-se, assim, que essas vias de pesquisa, ainda pouco trilhadas, possam trazer novas contribuições para a elucidação do desenvolvimento histórico da medicina na América Latina no século XIX.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à professora doutora Ana Maria Alfonso-Goldfarb seus conselhos e a minuciosa revisão do manuscrito. Igualmente, agradecem ao professor doutor Martin Dinges, do Institut für Geschichte der Medizin der Robert Bosch Stiftung, Stuttgart, Alemanha, ter facilitado o uso dos arquivos do instituto e seu caloroso acolhimento. Finalmente, o reconhecimento ao doutor José E. Eizayaga, diretor do Departamento de Pós-graduação em Homeopatia da Universidad Maimónides, Buenos Aires, Argentina, por sua gentil colaboração. Parte deste trabalho é resultado da pesquisa de doutorado de Conrado Mariano Tarcitano Filho, realizada com auxílio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a quem os autores agradecem.

O muito querido médico e doutor em história da ciência, apaixonado pelo seu Rio de Janeiro, Conrado Mariano Tarcitano Filho, nos deixou em 26 de novembro de 2014. Porém, com a imensa satisfação de saber que o presente artigo tinha sido aceito pela prestigiosíssima História, Ciências, Saúde – Manguinhos. A tal ponto estava orgulhoso e tal era seu cuidado no trabalho, que, impedido já de se locomover, não hesitou em solicitar a ajuda de amigos e familiares para voltar a verificar a literatura nas bibliotecas do Rio de Janeiro. Fica para nós o seu exemplo, o seu sorriso... e as saudades (Silvia Waisse).

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*In memoriam

1 Não conseguimos localizar seus dados biográficos, exceto que deve ter concluído seus estudos de medicina na Universidade de Coimbra em 1835 (Universidade..., 1834, p.13).

2 Nesta e nas demais citações em língua estrangeira, a tradução é livre.

3 Para exemplos desse padrão em publicações, dissertações e teses, vide Monteiro, Iriart (2007); Galhardi, Barros (2008); Loch-Neckel, Carmignan, Crepaldi (2010); Ferreira (2010); Figueiredo, Machado (2011).

4 Notavelmente, essa obra não consta no catálogo de nenhuma biblioteca no Brasil. A cópia consultada para nosso estudo foi obtida junto à Biblioteca Nacional de Lisboa (BNL). Graças à intervenção do Centro Simão Mathias de Estudos em História da Ciência (Cesima), a obra foi digitalizada e na atualidade se encontra disponível on-line por acesso aberto no website da BNL.

5 Como afirma Mure num texto no Jornal do Commercio, de 17 de dezembro de 1840, e é registrado na primeira crônica sobre a história da homeopatia no Brasil, preparada por Alexandre J. de Mello Moraes (1816-1878), discípulo de Martins, para ser apresentada num encontro internacional de homeopatia, realizado em Filadélfia em 1878 (Mello Moraes, 1879, p.2).

6 Para detalhes inteiramente baseados em documentos conservados, ver Thiago (1995).

7 Ao aportar no Rio de Janeiro, em 1840, Mure informou ser médico formado na faculdade de Paris (Thiago, 1995, p.51). No entanto, em sua tese de doutoramento apresenta-se como graduado em Montpellier (Mure, 1843, p.6). Essa versão é corroborada na tradução de L’homéopathie mise à la portée des médecins et des gens du monde (1842), do doutor [Marie-Guillaume-Alphonse] Devergie (1843, p.11), feita por um anônimo membro do Instituto Homeopático do Brasil. No entanto, em 1847 ocorreu um cisma na incipiente comunidade homeopática brasileira, que resultou na criação da Academia Médico-homeopática, exclusiva para médicos e farmacêuticos oficialmente diplomados (Galhardo, 1928, p.424 e s.). Curiosamente, Mure não foi admitido na Academia, e o motivo é indicado pelo médico Maximiano Marques de Carvalho (24 jan. 1848) no Jornal do Commercio (24 jan. 1848): “M. Mure não foi nem é médico homoeopata, nem alopata, mas negociante em fitas, telas e brocados em Lyão, donde é natural”. A polêmica historiográfica seria iniciada por Galhardo (1928, p.475 e s.), que acusa Marques de Carvalho de má-fé e ratifica o grau em medicina de Mure com base num texto que este publicara no Jornal do Commercio em 23 de janeiro de 1848, no qual afirma explicitamente ter obtido seu “diploma alopático” em Montpellier (Mure, 23 jan. 1848). A defesa feita por Galhardo foi, desde então, assumida por toda a tradição de estudiosos e praticantes de homeopatia no Brasil.

8 Como é apontado na literatura disponível (Galhardo, 1928, p.654, 668-669, 677-678), J.V. Martins era cirurgião, e não médico. No século XIX, as atribuições específicas de boticários, cirurgiões e médicos eram bem definidas, cabendo aos primeiros a preparação de medicamentos, aos segundos o tratamento de moléstias externas, traumatismos e procedimentos cirúrgicos e aos últimos o diagnóstico e tratamento das moléstias internas (Prata, 2010).

9 Essa visão é corroborada pelos médicos homeopáticos contemporâneos. Assim, Germon (1845, p.13-14)observa, em termos muito violentos: “sans-culotte iluminados, intitulados ‘Instituto Homeopático’, que dirigidos ... por um maníaco Saintsimoniano... um homeopata [que] trata todos os médicos brasileiros de ignorantes e até de idiotas”. Por sua vez, Marques de Carvalho (24 jan. 1848, p.2) indica que “M. Mure insulta os homeopatas que estudaram nas antigas escolas, profanando assim ao nosso mestre [Hahnemann] que foi médico alopata”.

10 Além dos já referidos, valeria à pena ainda destacar: Matéria médica, ou, patogenesia homeopática, contendo a exposição científica e prática dos caracteres e efeitos dos principais medicamentos homeopáticos, coligida e posta ao alcance do povo (Mello Moraes, 1852); Guia prático de medicina homeopática para uso do povo (Mello Moraes, 1860); Dicionário de medicina e terapêutica homeopática, ou a homeopatia posta ao alcance de todos ... (Mello Moraes, 1872).

11 Eles são também mencionados como os “introdutores” da homeopatia no Uruguai por Tischner (1939, v.4, p.722-723), que não faz menção à Argentina. Martins, porém, é enfático ao afirmar que a Argentina também teria sido visitada por esses homeopatas. Sobre as atividades homeopáticas de Estrázulas y Lamas no Uruguai, ver Tunes (s.d.). A viagem de D’Korth ao Uruguai para difundir a homeopatia é testemunhada em Laemmert (1851).

12 Mitos, no entanto, não faltam. Assim, conta-se que o general José de San Martín (1778-1850) utilizou medicamentos homeopáticos ao cruzar os Andes para libertar o Chile e o Peru do reino espanhol. A suposta botica homeopática de San Martín está exposta no Museo Histórico General San Martín, em Mendoza. No entanto, essa botica pertencia a Ángel Correas, e, segundo a família do mesmo, este a teria cedido a San Martín. Inúmeros homeopatas argentinos dedicaram-se a especular, em função dos vidros mais cheios e mais vazios, para quais moléstias San Martín teria se utilizado de medicamentos homeopáticos. No entanto, nenhum deles fez a pergunta mais evidente: como a botica voltou para a filha de Correas? De acordo com outro mito, o general Bartolomé Mitre (1821-1906) teria levado consigo, na Guerra do Paraguai, uma botica homeopática atualmente conservada no Museo Mitre, em Buenos Aires. No entanto, nossa visita pessoal permitiu conferir que os medicamentos lá exibidos não são homeopáticos, sendo que quem fez essa atribuição (Belgrano, 1970, citado em Vijnovsky, 2008, p.49, 147) aparentemente ignorava que, na época, os medicamentos utilizados na medicina convencional eram os mesmos que os homeopáticos, só que em doses ponderais, além do fato de que seldigestif de Vichy, Cachon, Aromathique e Alun nem são nomes de medicamentos homeopáticos.

13 Aproveitamos para esclarecer aqui um erro sistematicamente reiterado na literatura argentina, que afirma que Manso havia obtido o título de médica no Rio de Janeiro, depois de se matricular no curso de obstetrícia da Faculdade de Medicina, em 1852. Ao que tudo indica, essas fontes ignoram que a carreira de parteira é separada até o dia de hoje da de medicina, inclusive na Argentina. Levando-se isso em consideração, lembramos que a primeira médica brasileira foi Maria Augusta Generoso Estrela (1860-1946), que se formou nos EUA apenas em 1879. Já a primeira mulher a se formar em medicina numa escola brasileira, em 1887, foi a gaúcha Rita Lobato Velho Lopes (1867-1954).

14 Sua atuação lhe valeu a nomeação como médico pela Comisión Popular Masónica e pela Prefeitura de Buenos Aires. Dados fornecidos por descendentes de Petit de Murat ao doutor José E. Eizayaga, que nos repassou amavelmente. Por esses motivos, Petit de Murat também se tornou médico de diversos presidentes da nação, como, por exemplo, o general Julio Argentino Roca, que presidiu o país entre 1860 e 1866.

15 Embora esse período não pertença ao escopo do presente trabalho, a verificação de como teria se constituído a institucionalização da homeopatia argentina, a partir de 1930, já se encontra em um de nossos estudos anteriores (Tarcitano Filho, 2013).

16 Essa progressão histórica vai de encontro a outro modelo identificado pelos estudiosos, de acordo com o qual a homeopatia experimentou uma expansão vertiginosa no século XIX, para decair no século XX, mais precisamente, a partir da década de 1940, até ressurgir a partir dos anos 1970, no contexto da crítica geral à medicina convencional em função do seu custo e desumanização, da produção de doenças iatrogênicas, do aumento do nível de educação global e do movimento New Age, entre outros fatores (Dinges, 1996).

Recebido: Junho de 2014; Aceito: Dezembro de 2014

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