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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versión impresa ISSN 0104-5970versión On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.25 no.1 Rio de Janeiro enero/marzo 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702018000100005 

Análise

A psique ao encontro da matéria: corpo e pessoa no projeto médico-científico de Nise da Silveira

Felipe Sales Magaldi1 

1Doutorando, Programa de Pós-graduação em Antropologia Social/ Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro - RJ - Brasil femagaldi@gmail.com

Resumo

No início do século XX, a psiquiatria brasileira foi caracterizada por controversos métodos de tratamento, como a eletroconvulsoterapia, as psicocirurgias e o coma insulínico. Em 1946, a médica alagoana Nise da Silveira ocupou a linha de frente na crítica a esse modelo terapêutico por meio da criação de um ateliê criativo no antigo Centro Psiquiátrico Nacional, na zona norte carioca. O artigo examina os fundamentos do projeto médicocientífico de Nise da Silveira a partir de fontes documentais e de pesquisa de campo no grupo de estudos do Museu de Imagens do Inconsciente, mantido por seus discípulos. Sustenta-se que seu pensamento constitui uma recusa aos pressupostos do fisicalismo e do mecanicismo, aproximando-se das ontologias vitalistas e românticas.

Palavras-chave Nise da Silveira (1905-1999); psiquiatria; fisicalismo; romantismo; vitalismo

O surgimento da psiquiatria remonta ao momento de passagem entre os séculos XVIII e XIX, quando houve uma ruptura em relação às formas de gestão da loucura até então vigentes no Ocidente. Por meio do gesto de médicos como Philippe Pinel, encarregado do famoso hospital parisiense de Bicêtre, os loucos, antes reclusos junto a blasfemos, mendigos, ladrões, boêmios e devassos de toda sorte, passaram a encontrar seu lugar diferenciado de retiro nos hospitais psiquiátricos (Foucault, 1961). Para o nascente projeto alienista, o desatino poderia ser apaziguado, desde que submetido ao tratamento moral, por meio do qual seriam restituídos modos de pensar e sentir considerados adequados. Surgia assim uma ciência das paixões, combinando originalmente um ideário humanista a uma metodologia clínica baseada nos imperativos da ordem e do dever (Gauchet, Swain, 1980).

Entretanto, ao longo do século subsequente, essa vertente da psiquiatria, de caráter marcadamente moral, passaria a se debater com uma série de críticas responsáveis pela denúncia de sua ineficácia. A anatomopatologia, focada na dissecação dos corpos, e a neurofisiologia, dedicada à busca das localizações cerebrais dos fenômenos de saúde e doença, constituíram nesse momento os campos germinais da reação fisicalista que progressivamente ganharia prestígio no campo da medicina mental (Foucault, 1963; Vidal, 2005). Na psiquiatria alemã, esta nova tendência, que poderia ser também descrita como organicista, encontraria sua expressão máxima na obra de Emil Kraepelin, que creditava às desordens biológicas a origem das doenças psiquiátricas. No Brasil, passaria a encontrar território de difusão sobretudo a partir da trajetória de Juliano Moreira, diretor do Hospital Nacional de Alienados entre 1903 e 1930 e partícipe do campo científico alemão (Venancio, 2005).

Pode-se afirmar que a primeira metade do século XX foi caracterizada pela hegemonia das concepções fisicalistas da doença mental, claramente articuladas com os ideários da eugenia e do higienismo que proliferavam em contextos tão distintos quanto a Alemanha nazista e países latino-americanos como Argentina, México e Brasil. A década de 1930 foi particularmente propícia ao advento de técnicas fisicalistas de tratamento que elegiam o cérebro como seu terreno privilegiado de intervenção, tais como a eletroconvulsoterapia e a lobotomia. O primeiro caso, mais conhecido como eletrochoque, consistia na aplicação de descargas elétricas na região temporal. O segundo era definido por uma neurocirurgia que empreendia um corte lateral no lobo frontal do cérebro. Outras operações comuns à época dirigiam-se à totalidade do corpo, como, por exemplo, o coma insulínico (ou "insulinoterapia"). A insulina, outrora usada como sedativo hipoglicêmico, passava a ser injetada em portadores de esquizofrenia na intenção de alcançar melhorias em seu estado mental (Masiero, 2003; Melo, 2009).

Este artigo tem como objetivo discutir a reação crítica ao fisicalismo - aqui definido como concepção ontológica específica segundo a qual atributos supostamente "mentais", "psicológicos" ou "sociais" são explicados por meio da corporalidade humana, a qual se passa a atribuir uma lógica própria e preponderante (Duarte, 1999) - que se tornava hegemônico na psiquiatria brasileira em meados do século XX. Para tanto, toma como pedra de toque a trajetória e a produção intelectual de uma médica alagoana notável por sua oposição a algumas intervenções representativas do projeto fisicalista. Trata-se da psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), que atuou no âmbito do Setor de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (Stor) do antigo Centro Psiquiátrico Nacional, localizado no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, a partir de 1944.

Com base nas leituras de autores filiados aos campos da psicanálise, da arte e da filosofia, como Carl Gustav Jung, Antonin Artaud e Baruch de Spinoza, Nise da Silveira propôs que atividades expressivas como a pintura e a escultura fossem utilizadas como forma de terapia e de compreensão da loucura, em distanciamento a métodos que ela considerava agressivos e ineficazes. Fundou, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente, constituindo um espaço simultaneamente terapêutico, científico e expositivo dentro do próprio complexo psiquiátrico do Engenho de Dentro. Ao longo das décadas subsequentes, passando por 1975, ano de sua aposentadoria compulsória, e até 1999, ano de seu falecimento, seu trabalho intelectual foi constante, incluindo organização de livros, documentários, exposições e fundação de outras instituições, como a Casa das Palmeiras, pioneira no atendimento a egressos de internações psiquiátricas. Sustenta-se aqui que seu pensamento constitui uma recusa sistemática a determinados pressupostos considerados hegemônicos ao longo da emergência do pensamento científico moderno, notadamente os do fisicalismo e do mecanicismo, o que torna possível sua aproximação à ambição monista dos pensamentos românticos e vitalistas.

As hipóteses aqui apresentadas são fruto de uma pesquisa que tem sido realizada desde 2012, a qual já deu origem a uma dissertação de mestrado (Magaldi, 2014) e dois artigos (Magaldi, 2016a, Magaldi, 2016b), continuando no presente momento em uma tese de doutorado. O campo da investigação se define pelo conjunto de atores, saberes e instituições envolvidos na construção do projeto médico-científico de Nise da Silveira, desde a década de 1940 até os dias de hoje, quando permanece inspirando políticas públicas, manifestações culturais e militâncias políticas. A partir de uma perspectiva antropológica, a metodologia do presente estudo busca integrar: (1) realização de observação participante em instituições relacionadas ao trabalho de Nise da Silveira, onde são acompanhadas atividades tais quais grupos de estudos, palestras, ateliês de expressão, exibições de filmes e exposições; (2) estudo etnográfico de arquivos e documentos - incluindo livros, artigos, entrevistas, catálogos, biografias, cartas, manuscritos, prontuários etc. - vinculados ao tema, distribuídos em diversas bibliotecas e arquivos dentro e fora do referido complexo psiquiátrico. Especificamente neste texto, serão enfatizados os livros de autoria de Nise da Silveira, biografias e a experiência do atual grupo de estudos do Museu de Imagens do Inconsciente.

A estrutura do artigo compreende, em primeiro lugar, uma revisão de literatura sobre os tipos de tratamento exemplares do contexto em questão, dando particular ênfase à psicocirurgia, à eletroconvulsoterapia e ao coma insulínico. Em seguida, descrevem-se alguns fundamentos da crítica de Nise da Silveira e de seu decorrente projeto médico-científico, apreendendo seus principais conceitos. Para encerrar, uma breve revisão dos novos desdobramentos do fisicalismo nas últimas décadas do século XX, sobretudo a partir da consolidação da psicofarmacologia como dispositivo terapêutico predominante, das crescentes pesquisas moleculares e da expansão dos manuais diagnósticos e estatísticos de transtornos mentais, tomados como elementos fundamentais da biopolítica contemporânea (Rose, 2013).

Trepanações modernas

Em 1935, durante uma edição do Congresso Internacional de Neurologia realizada em Londres, um chimpanzé ocupava o palco das apresentações dos doutores John Fulton e Carlyle Jacobsen. Os cientistas tinham como intuito apresentar a mudança de comportamento do animal selvagem após a ablação de seus lobos frontais, experiência que o havia tornado dócil e passivo.

No mesmo período, esse tipo de operação inspiraria em uma série de neurologistas norte-americanos - destacando-se Walter Freeman e James Winston Watts - e portugueses - destacando-se Antonio Egas Moniz - a tentativa de promover cirurgias cerebrais em seres humanos por meio da introdução de hastes metálicas na região craniana. O objetivo era eliminar doenças mentais ou modificar comportamentos considerados inadequados. Como destaca o trabalho de Masiero (2003), esse tipo de técnica passaria a ser pioneiramente discutida no Brasil por volta de 1928 com a visita do referido cientista português, associado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, à Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. No país, durante duas décadas, mais de mil pessoas, incluindo estrangeiros e crianças, foram submetidas às psicocirurgias, embora nunca tenha havido consenso técnico sobre sua eficácia.

Deve-se atentar para uma diferença terminológica entre a psicocirurgia de origem norteamericana e a portuguesa. A primeira ficou mais conhecida como lobotomia (do grego lobos, porção e tomos, corte) e a segunda como leucotomia ("leuco", branco, denotando a substância branca cerebral). Os termos passaram a ser sinônimos a despeito das variações técnicas empregadas por cirurgiões de hospitais psiquiátricos dos continentes americano e europeu. Em comum, ambas baseavam-se no pressuposto de que o comportamento humano teria claras bases anatomofisiológicas, e que uma modificação - mais especificamente, uma secção - no cérebro, entendido como sede material da vida psíquica, poderia mitigar suas disfunções. Essa perspectiva retomava as teorias localizacionistas oitocentistas que relacionavam pontos do crânio a funções mentais, consubstanciadas no campo da frenologia. Enquanto a operação de Freeman e Watts se dava a partir do desligamento das fibras entre o lobo pré-frontal e o tálamo, a de Moniz encontrava no lobo frontal seu alvo de intervenção. Ambas as modalidades foram empregadas na psiquiatria brasileira, com particular destaque para a técnica portuguesa (Masiero, 2003).

Outra intervenção cerebral largamente utilizada no período foi a eletroconvulsoterapia, mais conhecida como eletrochoque. Foi o húngaro Ladislas Meduna quem primeiro se aventurou na seara das terapias convulsivas tendo em vista a melhora de sintomas psiquiátricos. O médico lançava a curiosa hipótese segundo a qual a indução da epilepsia em um paciente esquizofrênico seria capaz de atenuar seu estado patológico, uma vez que as duas doenças teriam caráter biologicamente antagónico. Para tanto, fazia uso de uma injeção de metrazol. Seria com o psiquiatra italiano Ugo Cerletti que a técnica ganharia contornos mais nítidos, sobretudo por meio do uso da eletricidade, previamente testada em porcos, para promover a convulsão. Em 1937 era lançada a eletroconvulsoterapia, em encontro da Associação de Psiquiatria Suíça. Tratava-se basicamente do dispêndio de descargas elétricas na região das têmporas por meio do uso de pequenos eletrodos.

Um terceiro método constitutivo do horizonte fisicalista ascendente durante o período em questão foi a insulinoterapia, criada pelo austríaco Manfred Sakel em 1933. Diversamente da psicocirurgia e do eletrochoque, não se tratava de uma intervenção diretamente cerebral, mas de uma série de injeções intramusculares de insulina. A dita substância já era usada na medicina, sobretudo em casos de delirium tremens e de desnutrição. Sakel, no entanto, observou que a mesma também poderia ser eficaz quando aplicada em pessoas diagnosticadas com esquizofrenia, especialmente em suas versões paranoide e catatônica. O objetivo era induzir o paciente a um estado que, ao longo de quatro fases de aplicação, partia da hipoglicemia até chegar ao coma - motivo pelo qual o tratamento ficou também conhecido como coma insulínico (Melo, 2009).

A eclosão de intervenções médicas como a psicocirurgia, o eletrochoque e o coma insulínico são importantes no sentido de apontar para algumas transformações marcantes na história da psiquiatria na passagem do século. Já se chamou a atenção para seu acento mentalista ou moral, notável nos primórdios oitocentistas do alienismo. Apesar de comprometida com os princípios classificatórios da história natural, a psiquiatria de então dedicava sua atenção à alma, à vontade e ao entendimento, o que instaurava um hiato metodológico com o restante da medicina clínica, progressivamente enraizada na solidez da substância corporal. Seria só a partir das pesquisas somatológicas do século XIX que a psiquiatria se fundiria cada vez mais com a medicina, afastando-se da égide do dualismo alienista rumo a uma ambição fisicalista no estudo e no tratamento da loucura (Serpa Jr., 2004; Venancio, 1993). Lobotomia, leucotomia, eletrochoque e insulinoterapia, criadas no entreguerras, seguramente foram expressões exemplares dessa direção assistencial no período em questão.

A psiquiatra rebelde

Nise Magalhães da Silveira, nascida em 1905, na cidade de Maceió, graduou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1926. No ano seguinte, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estagiou na clínica de Antônio Austregésilo, figura importante na constituição do campo da neurologia brasileira. Em 1933, foi aprovada em concurso público para o Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospício Nacional de Alienados, onde atualmente reside o campus da UFRJ. Nesse período, marcado pelo regime político do Estado Novo, a médica foi denunciada por uma enfermeira devido à posse de livros marxistas, levando-a ao encarceramento no presídio Frei Caneca. Ali, ao lado de Olga Benário, viria a tornar-se personagem de Graciliano Ramos em suas Memórias do cárcere. Mesmo diante de sua libertação, em 1936, Nise foi afastada do serviço público, passando a viver sob ameaça de nova prisão. Pouco se sabe sobre seu período de exílio, tendo permanecido completamente desligada das atividades médicas. Só em 1944 voltaria a integrar as atividades hospitalares, dessa vez no hospício do Engenho de Dentro, para o qual boa parte dos internos da Praia Vermelha foram transferidos, por conta de superlotação (Frayze-Pereira, 2003; Mello, 2002, 2014).

Ao retornar ao serviço público, Nise da Silveira se deparava com os novos métodos de tratamento criados nos laboratórios de psiquiatria da última década, então recém-alastrados nos manicômios brasileiros. Não foi tardia a demonstração de sua resistência à aplicação de técnicas como o eletrochoque, a psicocirurgia e a insulinoterapia. O emblemático caso do encontro da médica com o novo modelo assistencial pode ser encontrado em biografia escrita pelo escritor e crítico de arte Ferreira Gullar (1996, p.46), na qual consta uma entrevista realizada com Nise da Silveira em janeiro de 1996:

Durante esses anos todos que passei afastada, entrou em voga na psiquiatria uma série de tratamentos novos que antes não se usavam. Aquele miserável daquele português, Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de cardiazol. Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que estava adaptado àquelas inovações. Então me disse: ‘A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque.’ Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Quando o outro paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: Aperte o botão. Eu respondi: Não aperto! Aí começou a rebelde.

Quais foram as motivações dessa resistência? Na continuidade do depoimento, Nise da Silveira também descreve sua contenda em relação ao coma insulínico, o que contribui para tal esclarecimento: "Um dia apliquei choque de insulina em uma paciente e a mulher depois não acordava. Aflita, apliquei-lhe soro glicosado na veia e nada da mulher acordar. Tentei de novo, até que consegui. Aí disse: nunca mais” (Gullar, 1996, p.46). Vê-se aqui que o risco dessas técnicas estava entre os elementos mais problemáticos a ensejar a crítica. No entanto, como demonstrado a seguir, muito mais do que arriscados, para Nise da Silveira esses tratamentos eram agressivos e ineficazes. Eletrochoque, lobotomia e coma insulínico se encontravam para ela no tênue fio entre a cura e a violência, além de sustentar-se em alguns problemáticos pressupostos filosóficos.

No artigo inaugural do livro O mundo das imagens, publicado em 1992, a médica aponta para uma impressionante e persistente influência de Descartes no que se refere ao entendimento das relações entre corpo e mente na medicina científica. Nessa leitura, de acordo com a concepção cartesiana, o corpo seria uma máquina e as doenças resultariam de perturbações em seu funcionamento. A medicina comprometida com esse pressuposto tomaria como seu objetivo primordial a intervenção físico-química no intuito de eliminar estados patológicos, em homología ao conserto de um enguiço mecânico. No caso específico da psiquiatria, a razão seria reduzida a um epifenômeno do cérebro, desconsiderando as dimensões psicológicas em favor da busca de causalidades orgânicas. Eis o ponto de articulação que, no pensamento niseano, estabeleceria a continuidade entre mecanicismo e fisicalismo. Não se tratava mais de afirmar uma razão separada do corpo, como no cartesianismo original, mas de reduzir a segunda ao primeiro, mais especificamente ao cérebro, entendendo-o como um equipamento a ser corrigido.

Segundo Nise da Silveira (1992, p.11), uma das primeiras consequências da concepção cartesiana seria a agressividade dos métodos de tratamento, "utilizados para consertar à força a máquina doente”. Nesse sentido, entende o eletrochoque como "uma iluminação às avessas” (p.11), fazendo referência a seu criador, Ugo Cerletti, e descrevendo a experiência de sofrimento de seu primeiro paciente: "'Não, outra vez! É horrível’, foram as palavras pronunciadas pela primeira vítima do eletrochoque" (p.11). Em seguida, refere-se também ao coma insulínico, criticando severamente seus efeitos, descritos como regressões fisiológicas e psicológicas. Tanto quanto o eletrochoque, a insulinoterapia trataria de provocar uma perda de memória a qual, segundo seus adeptos, confirmaria uma suposta eficácia do tratamento. Finalmente, a médica aborda as psicocirurgias, citando tanto Egas Muniz quanto Walter Freeman, entendendo-as como um método de tratamento que criaria autômatos, sem capacidade de abstração e imaginação. "Todas essas técnicas, constituem, portanto, um atentado à integridade do homem em seu órgão mais nobre" (p.12). Nos capítulos subsequentes da obra, a médica faz ainda referência ao caso de Lucio Noeman, um paciente lobotomizado contra sua vontade, descrevendo-o em um estado de "decadência irreversível" (p.23).

Novamente de acordo com Gullar (1996), a oposição de Nise da Silveira se deu fundamentalmente a partir da criação de um ateliê de atividades expressivas no Setor de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação do complexo psiquiátrico, para o qual foi transferida, em 1946, graças à ação de Paulo Elejalde, então diretor do Centro Psiquiátrico Nacional, posto que essa instituição era a única em que não eram aplicadas as intervenções aqui revistas. Atividades ocupacionais já eram oferecidas ali, mas se limitavam a trabalhos braçais e a serviços de limpeza. Em parceria com o artista plástico Almir Mavignier, então funcionário burocrático do hospital, Nise da Silveira passou a oferecer atividades como a pintura, a escultura e a modelagem como alternativas de tratamento. Não se tratava de uma escola de arte, mas de um ambiente de livre criação e de incentivo à produção espontânea, realizada em um contexto de valorização da convivência e do afeto catalisador. As obras de seus pacientes despertaram interesse em figuras do grupo concretista carioca, como Ivan Serpa, Mario Pedrosa e Abraham Palatnik, que defenderam sua validez estética, bem como seu trânsito por museus e galerias de arte do Rio e São Paulo (Villas Bôas, 2008, 2015). A extensa produção pictórica de sua oficina viria a compor, em 1952, o acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, fundado no cerne do complexo psiquiátrico do Engenho de Dentro.

Deve-se destacar ainda que a psiquiatra alagoana lidava com pacientes cuja comunicação verbal era extremamente comprometida. Ademais, a médica não via no modelo assistencial de sua época nenhuma tentativa substantiva de buscar uma compreensão das vivências subjetivas das psicoses. O uso das imagens constituiu, nesse sentido, um recurso privilegiado de acesso ao que chamava de "mundo interno" de seus pacientes.

A noção de "inconsciente" ocupou, nesse sentido, um lugar de destaque. Sabe-se que a categoria foi consagrada a partir das formulações do pai fundador da psicanálise, Sigmund Freud. Na virada do século XIX para o XX, na Viena fin-de-siècle, esse autor distanciava-se significativamente da psicologia da consciência ao propor um campo de estudos e práticas destinados à investigação da face oculta da psique, território de desejos não somente desconhecidos, inexplorados, mas aparentemente distantes da esfera do racional. No século XIX, filósofos germânicos do porte de Schelling, Nietzsche e Schopenhauer já haviam tido um papel fundamental na concepção do inconsciente como força oposta ao racionalismo. A despeito da ausência de seu verniz terapêutico, já estava presente nesses autores uma ênfase na dimensão sombria do espírito humano (Roudinesco, Plon, 1998). Na própria origem do alienismo estaria também presente a tese de que a loucura era, na verdade, produto das paixões, que destituiriam o sujeito de si mesmo (Gauchet, Swain, 1980). A clínica freudiana consolidava tal tese investindo grandemente na linguagem verbal como recurso terapêutico. A talking cure, ulteriormente refinada no método da associação livre, seria a técnica privilegiada a partir da qual os conteúdos inconscientes emergiriam à tona, desencadeando o alívio psíquico (Freud, 2003).

Freud não deixou de dedicar sua atenção à linguagem imagética, fazendo-o tanto a partir da análise de material onírico (Freud, 1980) quanto da interpretação de obras de arte (Freud, 1990). Entretanto, Nise da Silveira sustentou que um dos problemas mais importantes da orientação freudiana seria a submissão constante da imagem à palavra. Nesse sentido, em seu clássico Imagens do inconsciente, livro que melhor condensa seu pensamento, afirmou a autora:

A psicanálise procura descobrir nas imagens pintadas materiais reprimidos disfarçados. E, a fim de trazê-los à consciência, na terapia analítica a imagem servirá apenas de ponto de partida para associações verbais até que sejam alcançados os conteúdos inconscientes reprimidos. … Será necessário, pois, que as imagens sejam traduzidas em palavras (Silveira, 1981, p.133-134).

Assim, seriam as imagens, tomadas por si próprias, o caminho privilegiado de expressão do inconsciente. A linguagem verbal seria o território da lógica, da razão, dos conceitos. No pensamento niseano, essa relação torna-se mais explícita, sobretudo a partir da leitura da obra de Antonin Artaud, escritor e dramaturgo francês que passou os últimos anos de sua vida internado em hospitais psiquiátricos parisienses. Em seus célebres cahiers, o autor registrara suas vivências de dentro da cela, escrevendo sem parar até sua morte. Para Nise da Silveira, Artaud seria um dos poucos que conseguiram, por meio da palavra, expressar a experiência da loucura. Esse ponto se explicita a partir de um texto originalmente publicado no livro Artaud: a nostalgia do mais, publicado em 1989:

Antes de Artaud, nunca alguém conseguiu, por meio de palavra, exprimir com tanta força essas dilacerantes vivências. Pela imagem, sim, que é a direta forma de expressão dos processos inconscientes profundos, muitos o fizeram, e fazem todos os dias, usando lápis e pincéis. Pela palavra, não. Pois a linguagem verbal é por excelência o instrumento do pensamento lógico, das elaborações do raciocínio. E essas experiências, às quais Artaud dá forma por meio de palavras, passam-se a mil léguas da esfera racional (Silveira, 1989, p.10-11).

A articulação entre a terapêutica de Nise e o uso das atividades de expressão visual também encontrou na obra de Carl Gustav Jung, pai fundador da psicologia analítica, uma incessante fonte de inspiração. Em suas teorias, a médica encontrou os argumentos para sustentar que a criação de imagens constituía não só um caminho de acesso ao inconsciente, mas também um meio desencadeador de uma eficácia terapêutica. Para a psiquiatra, se a experiência psicótica seria fundamentalmente caracterizada por uma fragmentação do psiquismo, o ato de pintar e de modelar teria uma função integradora. Essa verificação se deu sobretudo a partir da observação da recorrência de figuras circulares e concêntricas na produção de seus pacientes. Nesse ponto encontram-se as origens da relação entre Nise e Jung, conforme narrado no segundo capítulo do livro Imagens do inconsciente. Em 1954, a médica alagoana, depois de reunir centenas dessas imagens no ateliê do Engenho de Dentro, escreveu uma carta ao próprio psiquiatra suíço perguntando se elas seriam mandalas e como interpretá-las. A secretária de Jung, Aniela Jaffé, respondeu um mês depois, confirmando serem essas imagens mandalas - isto é, símbolos universais da unidade, presentes em diversas culturas desde os tempos mais remotos -, o que demonstraria a tendência do inconsciente para compensar a situação de caos do consciente na esquizofrenia. Aí se vislumbra uma espécie de vitalismo que concebe um potencial reorganizador e autocurativo da psique, em homología com os organismos vivos:

Como todo sistema vivo, a psique se defende quando seu equilíbrio se perturba. As imagens circulares, ou próximas ao círculo, dão forma aos movimentos instintivos de defesa da psique, aparecendo de ordinário logo no período agudo do surto esquizofrênico, desde que o doente tenha oportunidade de desenhar e pintar livremente num ambiente acolhedor (Silveira, 1981, p.55).

Seu encontro pessoal com o psicanalista se daria em 1957, em razão do segundo Congresso Internacional de Psiquiatria, realizado em Zurique. Nessa ocasião, o Museu de Imagens do Inconsciente participara de uma exposição incluindo obras de pacientes psiquiátricos internos de hospitais de toda a Europa. Intitulada "A arte e a esquizofrenia”, seus corredores foram visitados pelo próprio Jung, que confirmava que a manifestação espontânea de tais figuras era produto da linguagem simbólica do inconsciente coletivo. Como se sabe, Jung, dissidente de Freud, acreditava que haveria nas profundezas do psiquismo uma camada ainda mais profunda, repleta de matrizes imagéticas primordiais, os arquétipos, presentes nas mais diversas culturas ao longo dos séculos (Jung, 2008). Esse pensamento, claramente articulado à noção universalista de uma unidade psíquica do homem, tinha como corolário a ideia de que a experiência psicótica seria particularmente propícia à emergência de temas arquetípicos, como as mandalas observadas por Nise.

Além do recurso à noção de inconsciente e à de eficácia terapêutica na produção de imagens, outro mote fundamental do trabalho de Nise da Silveira deve ser sublinhado antes que se dê continuidade à reflexão aqui proposta. Trata-se de sua atenção quanto à singularidade da loucura, em oposição ao sistema diagnóstico então vigente. Esse ponto encontra-se novamente explícito em sua relação com o pensamento de Antonin Artaud. Nise da Silveira encontrara em um comentário de Artaud a propósito de uma pintura do surrealista Victor Brauner um de seus conceitos fundamentais: "O ser tem estados inumeráveis e cada vez mais perigosos”, conforme narrado no texto de introdução ao livro Artaud: a nostalgia do mais:

Pareceu-me que Artaud se referia a certos acontecimentos terríveis que podem ocorrer na profundeza da psique, avassalando o ser inteiro. Descarrilhamentos da direção lógica do pensar; desmembramentos e metamorfoses do corpo; perda dos limites da própria personalidade; estreitamentos angustiantes ou ampliações espantosas do espaço; caos; vazio; e muitas mais condições subjetivamente vividas que a pintura dos internados de Engenho de Dentro tornavam visíveis. Decerto imagens revelavam perigosos estados do ser, que não se deixavam aprender dentro do modelo médico adotado pela psiquiatria vigente (Silveira, 1989, p.9).

Nise sustenta que a psiquiatria descritiva era insuficiente para transmitir a dramaticidade de tais vivências, limitando-se a enumerar sintomas básicos ou acessórios da esquizofrenia. Ao evitar as palavras esquizofrenia ou doença em favor da noção de "estado do ser”, a médica deixa claro que seu trabalho se direcionava tanto para a oposição das terapias psiquiátricas quanto dos sistemas diagnósticos. A autora prossegue, atribuindo ao dramaturgo francês o mérito de expressão da loucura: "tais sintomas não compõem uma doença, uma entidade patológica definida, mas se manifestam como estados múltiplos de desmembramento e de transformação do ser” (Silveira, 1989, p.9).

Todos os elementos supracitados servem para oferecer um panorama muito breve da terapêutica construída por Nise da Silveira. A investigação sistemática do inconsciente - e a procura de soluções para a sua desintegração por meio da experiência sensorial - estava entre as motivações mais fundamentais da médica alagoana.

Uma outra ciência

Alguns estudos históricos descreveram uma grande ruptura cosmológica na tradição ocidental, responsável por ensejar o nascimento das ciências modernas. Alexandre Koyré (1979) tratou de apontar para uma crise de consciência europeia ocorrente por volta dos séculos XVI e XVII, concomitante ao surgimento de uma nova cosmologia que substituía o mundo fechado geocêntrico da astronomia grega e medieval pelo modelo de um universo infinito, primeiramente heliocêntrico, depois acêntrico, da astronomia moderna. Segundo o autor, muitos historiadores buscaram analisar as implicações sociais de tal mudança, chamando a atenção para a passagem de uma scientia contemplativa para uma scientia activa et operativa, isto é, da conversão do espírito humano da teoria para a práxis; outros ressaltaram a mudança de acento da teleologia para o mecanicismo como princípio explicativo prevalecente etc. De todo modo, em comum residiria uma preocupação em delinear os fundamentos de uma ruptura entre a antiga e a nova visão de mundo, que não se teria dado súbita nem facilmente, tampouco estaria restrita ao âmbito da astronomia, encontrando em Newton, Copérnico, Galileu e Descartes algumas de suas figuras-chave.

Foi sobretudo em favor da cosmovisão mecanicista que se teria consolidado tamanha transformação. A filosofia mecânica teria deslocado a representação de um mundo animado, prevalecente no modelo astrobiológico e na tradição médico-filosófica até o período renascentista, para aquele em que a totalidade do real seria analisada no modelo de um agregado de moléculas materiais combinadas segundo as leis do movimento. Paolo Rossi (2001) deu a esse propósito significativas colocações, descrevendo o mecanicismo como aquele projeto que deveria ser levado adiante em busca da descoberta de leis, alcançadas graças a um modelo de análise operante pela abstração de quaisquer elementos sensíveis e qualitativos. Para o autor, a psicofisiologia cartesiana, responsável pela separação radical entre matéria e espírito, "abre o caminho ao mecanicismo biológico dos médicos-mecânicos e à progressiva substituição dos princípios vitais da tradição vitalista pelos métodos da química e da física” (p.255).

A perspectiva antropológica sustentada por este artigo entende que é preciso levar a sério os saberes que, no cerne da própria cosmologia ocidental, forneceram anteparos aos ideais da nascente modernidade, entendendo-a não como uma ruptura monolítica e absoluta, mas como um processo continuamente marcado por contestações e resistências. Luiz Fernando Dias Duarte (2004, 2006, 2012) aponta para a reação romântica ao mecanicismo newtoniano, expressa sobretudo em Teoria das cores, de Johann Goethe, como um dos marcos mais fundamentais de um complexo processo de denúncia dos reducionismos materialistas, da perda das propriedades sensíveis e da incapacidade de apreender os elementos em sua totalidade significativa. Em oposição à cosmovisão racionalista atribuída à ilustração, compunha-se sobretudo a partir do século XVIII, e principalmente na cultura germânica, uma série de contraposições nos âmbitos da ciência, da arte e da política, tomando como apanágios os valores da sensibilidade, da subjetividade, da criatividade, da espontaneidade, do espírito, do fluxo, da experiência, da pulsão, da vida, da vontade, da totalidade, da integração e da singularidade.

Ainda a propósito disso, Georges Gusdorf (1982) aponta para o surgimento de um saber romântico na Europa Ocidental por volta do século XVIII, também conferindo particular destaque ao contexto germânico, responsável pela contraposição ao novo padrão de ciência que encontrara na filosofia mecanicista sua expressão mais notável. A revolução mecanicista teria assegurado o triunfo de uma representação analítica do universo, dissociado em um número imenso de fenômenos isolados cuja coesão era assegurada pelo determinismo rigoroso das leis científicas. Na continuidade de tal agitação, os iluministas teriam dado cabo ao projeto de colocar em equação o universo, depurando seus princípios por meio de abstrações axiomáticas genéricas. O romantismo, ao contrário, retornava a um modelo de saber anteriormente reinante, que não limitava sua ambição a decifrar a ordenação superficial dos fenômenos, mas se esforçava a fazer aliança com a essência da realidade cósmica.

No seio dos saberes românticos, promovia-se uma recusa radical ao mecanicismo matemático da ciência experimental, resgatando a arte dos horóscopos, da alquimia e das ciências ocultas e herméticas em geral. Nessa leitura, que encontrou na Naturphilosophie sua expressão máxima, o universo assemelhava-se mais a um poema do que a uma máquina, sendo entendido como um todo vivente regido por uma ordem comum. Como destaca Peter Hans Reill (2005), os Naturphilosophen como Goethe e Schelling teriam radicalizado a ambição de uma visão totalizante, capaz de unir espírito e matéria, considerando o universo uma entidade viva a desenvolver-se de acordo com princípios inerentes e a natureza como produto de um ativo incondicional de impossível redução às explicações causais.

A tensão entre os princípios predominantes do racionalismo, do individualismo, do universalismo, do achatamento dos níveis e do afastamento do sensível e seus referidos princípios reativos ficou mais nitidamente explícita na controvérsia histórica entre o Iluminismo e o Romantismo, sobretudo entre os séculos XVIII e XIX. Não obstante, isso não quer dizer que seus desdobramentos não continuem operando mais recentemente. Pelo contrário, sobretudo no período que sucedeu ao segundo pós-guerra, a dita tensão permanece consubstanciada em uma série de fenômenos nem sempre homólogos, surgidos em distintos âmbitos das sociedades ocidentais, como nas artes, na filosofia e na política. A contracultura, os orientalismos e os distintos pós-modernismos estão entre os exemplos mais evidentes da ininterrupção dos temas suscitados pelos primeiros românticos. Nesse sentido, pode-se apontar para uma "pulsão romântica” (Duarte, 2004) como um dos princípios cosmológicos característicos do que se convencionou chamar de modernidade. Deve-se lembrar ainda que a natureza dessa tensão não é recíproca ou igualitária, uma vez que um de seus termos constitutivos corresponde sempre ao contraponto, o momento segundo de uma dinâmica que o ultrapassa e o determina. Trata-se, portanto, de uma tensão hierárquica, marcada por um valor diferencial, posto que um dos lados, constitutivo do termo reativo, permanece na condição desfavorecida.

O surgimento da medicina científica também pode ser lido à luz do reconhecimento dessa tensão. A psiquiatria, sobretudo a partir do declínio do alienismo, constituiu-se sob a égide de um projeto classificatório incumbido de inscrever no domínio da natureza o comportamento e o corpo humano, sobretudo a partir da aplicação dos princípios mecânicos ao funcionamento da mente. Não obstante, entre os saberes que se desgarram de seu ímpeto original, a psicanálise destacou-se como corpo teórico destinado a tentar reparar os reducionismos atribuídos ao universalismo, ao fisicalismo, ao racionalismo, ao materialismo, enfim, ao "naturalismo” presente no projeto hegemônico da ciência moderna (Duarte, 2013), embora permanecendo inarredavelmente comprometida ele.

Tal reparo foi seguramente tímido no projeto freudiano. Apesar de sua disposição de levar a sério a loucura, evocando tanto a tradição crítica quanto a tradição trágica (Birman, 2010), não é nada opaco o comprometimento com os modelos mecanicistas e a expectativa de subsequente comprovação naturalista para suas hipóteses. Entre as distintas vertentes do saber psicanalítico, como demonstrado a seguir, foi sobretudo a psicologia analítica de Jung, maior inspiração de Nise da Silveira, aquela a reanimar mais radicalmente a ambição monista típica da cosmologia romântica.

O problema da afinidade entre o pensamento junguiano e o saber romântico não emerge nesta pesquisa somente de uma perspectiva analítica convencionalizante. Trata-se, diversamente, de um questionamento etnográfico que surgiu a partir de minha frequência ao grupo de estudos do atual Museu de Imagens do Inconsciente, instituição que dá continuidade ao trabalho de Nise da Silveira. As reuniões aconteciam todas as terças-feiras na sala de palestras da instituição em 2012, ano em que foi realizado trabalho de campo que originou uma dissertação de mestrado (Magaldi, 2014), estando abertas para funcionários, pacientes e interessados em geral. Conforme o programa do evento, seus objetivos gerais e específicos eram promover o estudo dos métodos de leitura de imagens de C.G. Jung e Nise da Silveira.

Ao longo de uma pesquisa etnográfica desenvolvida nesse âmbito, tornou-se evidente que, para as próprias pessoas engajadas no projeto médico-científico niseano, o pensamento romântico tem um caráter fundamental. Maddi Damião Jr., o professor convidado, ex-aluno da médica alagoana, é autor de um texto a propósito do tema, no qual trata de contrapor o princípio iluminista de ciência à ciência romântica, acusando o primeiro de reduzir a realidade vivente. O autor destaca que a especificidade da ciência romântica seria justamente a preservação da riqueza da realidade viva, ponto notavelmente expresso na famosa frase de Goethe, segundo a qual "cinza é toda teoria, mas sempre verde é a árvore da vida”. Damião Jr. dirige então sua atenção ao apontamento das relações entre o pensamento junguiano e o romantismo. Embora Jung não tenha se oposto ao racionalismo de forma obtusa, sua característica mais fundamental seria a busca de uma ciência do singular. "Uma ciência do singular lida com o problema da verdade, da interpretação, do sentido e do devir, da criação e é para esta ciência e para esta forma de pensar que a psicologia de Jung nos orienta" (Damião Jr., 2011, p.90).

Esses fundamentos românticos da psicologia analítica impõem, em primeiro lugar, uma radical oposição ao dualismo cartesiano, responsável pela separação entre o corpo e a alma e por conferir à razão um primado sobre a extensão. No trecho a seguir, presente em um manuscrito preservado e posteriormente publicado por uma de suas alunas, Martha Pires Ferreira, Nise da Silveira explicita seu ataque à psicofisiologia de Descartes em favor do modelo analítico de Jung, propositor de uma união entre corpo e alma, psique e matéria, resgatando o projeto de reunificação romântica pontuado neste texto:

Há psiquiatras muito inteligentes, não levem ao pé da letra quando chamei de burrice exemplar da psiquiatria. Jung, por exemplo, não era só um psiquiatra, era um gênio. Foi um homem que levou a psique ao encontro da matéria. Ele reúne matéria e espírito e se aproxima de algo, em psicologia, muito próximo a Einstein. Uma coisa é considerar que matéria e espírito são uma coisa só. Outra é a visão cartesiana, que considera a matéria, o bicho, o homem uma máquina que funciona isoladamente com a razão no alto da cuca comandando (Ferreira, 2008, p.9).

Outros estudiosos da obra de Jung também têm chamado a atenção para as continuidades entre sua psicologia e a filosofia romântica. Em seu livro Em busca de Jung, J.J. Clarke (1993) destaca que Jung explícitamente atribuía a alemães como Goethe, Schiller e Schelling o pioneirismo do estudo do inconsciente. Para o autor, é possível elencar uma significativa lista de pontos de convergência entre os pensamentos aqui tratados, incluindo a análise e a reabilitação do instinto, da intuição e da imaginação; a preocupação com os sonhos e com a fantasia; a crença na natureza inconsciente da arte; a noção de uma simbiose entre homem e natureza; a contestação do racionalismo científico; e, o que é mais fundamental para este artigo, a crítica da concepção mecanicista de mente, reformulada em uma cosmologia mais ampla que poderia ser descrita como uma filosofia não dualista, isto é,"uma filosofia unificada da natureza que incluísse por igual os mundos da matéria e do espírito" (p.88).

O trabalho de Sonu Shamdasani (2003) a propósito da emergência do pensamento de Jung na psicologia moderna parece confirmar essa hipótese ao localizar na genealogia da noção de "inconsciente" os fundamentos da importância do pensamento romântico para a psicologia analítica. O autor faz referência a um seminário realizado em 1938, em que Jung estabelece uma continuidade entre a filosofia moderna e o romantismo por meio da citação das obras de von Hartmann e Carus (autor de Psique, em 1846). Ao mapear as relações entre esses autores, incluindo igualmente toda a tradição intelectual alemã desde o pensamento kantiano, Shamdasani produz o efeito de distanciar-se das leituras "freudocêntricas" que atribuem à dissidência com o pai fundador da psicanálise o fundamento da psicologia junguiana, ampliando o complexo cenário intelectual no qual esta pôde se constituir.

Além de explicitar as conexões diretas entre esses autores, o mais importante aqui é chamar a atenção para a persistência das questões inscritas na controvérsia dos pensadores românticos com os postulados mecanicistas nos desdobramentos mais recentes da medicina moderna, sobretudo no que diz respeito às relações entre corpo e pessoa, questão elementar do saber psiquiátrico. A proposta de trabalho de Nise da Silveira, ao creditar à singularidade da experiência sensorial e à potência criativa uma função terapêutica, deve ser também entendida à luz do reconhecimento dessa outra via pulsante do pensamento ocidental moderno. Em entrevista publicada na revista Rádice, 1976-1977, Nise da Silveira é indagada sobre a conotação romântica de seu pensamento. "Mas e daí ser romântico? O romantismo não será uma contracorrente ao excesso de racionalismo?” (Mello, 2009, p.67).

Mas foi também com referência a Baruch de Spinoza, detrator de Descartes e um dos inspiradores da tradição romântica (Martins, 2011), que Nise da Silveira pôde delinear seu pensamento. Spinoza dirigiu sua crítica a partir da inseparabilidade entre corpo e alma, negando sistematicamente a noção de uma divindade transcendental. Viu no universo uma máquina eterna, no entanto desprovida de sentido e de finalidades, sendo a expressão de uma causalidade necessária e imanente. Em Cartas a Spinoza (Silveira, 1995), livro de correspondências fictícias de autoria da médica alagoana, os fundamentos de seu pensamento são postos em continuidade com a psicologia junguiana por meio da valorização da imaginação e do fundamento da unidade de todas as coisas, concebidas como modos de existência da substância divina.

Assim, no pensamento niseano, o dualismo, como separação radical entre matéria e espírito atribuída ao mecanicismo cartesiano, bem como seu subsequente desdobramento reducionista, o fisicalismo - isto é, a tentativa de reduzir o espírito à matéria - são negados em favor da concepção de um mundo em que matéria e espírito ou corpo e alma são indissociáveis, posto que compostos por uma sensibilidade vital. Verifica-se, nesse sentido, a tentativa de levar "a psique ao encontro da matéria”, sem reduzir uma à outra. Trata-se, portanto, de um projeto que poderíamos chamar tentativamente de um "monismo vitalista”, que concebe uma solidariedade entre pessoa e cosmo, e uma pulsão criadora imanente à vida, em continuidade com o spinozismo, a tradição romântica e seus desdobramentos filosóficos e antropológicos mais contemporâneos.

Horizontes contemporâneos do fisicalismo

A tensão entre a terapêutica niseana e as técnicas de tratamento psiquiátricas vigentes durante sua história profissional não deve levar a confundir sua proposta com nenhuma espécie de "misticismo”. Os apanágios do universalismo, do individualismo e do princípio de visualização, típicos do moderno projeto de ciência, consistiram o pano de fundo comum contra o qual se apresentou a contenda. Tanto quanto os psiquiatras "comportados”, a psiquiatria rebelde centrou-se na busca sistemática de uma base universal da psicologia humana (observada notadamente na noção de "inconsciente coletivo”) e na figura do indivíduo criador como sede da vida psíquica. A preocupação de tornar o invisível visível, típica das dissecações da medicina clínica oitocentista, tal como descrita por Foucault (1963), encontrou em um vocabulário psicanalítico sua nova roupagem por meio do ímpeto de buscar as imagens do inconsciente. De todo modo, a aproximação dos conceitos de Nise aqui apresentada permite que pensemos em algumas considerações a respeito de sua posição marcadamente reativa na história da psiquiatria brasileira.

Uma articulação entre psicologia analítica e atividades expressivas ocupou um papel pioneiro na crítica ao projeto fisicalista hegemônico na psiquiatria brasileira na primeira metade do século XX. Deve-se atentar, entretanto, para o fato de que seu trabalho foi obliterado pelo meio médico de então. A partir da década de 1980, graças aos logros da reforma psiquiátrica brasileira, esse quadro vem se alterando, embora ainda de maneira tímida, uma vez que, como destacam Melo e Ferreira (2013), o nome da médica alagoana é frequentemente alvo de mitificação, além de ainda gozar de pouco status na academia brasileira. O acionamento do nome de Nise da Silveira por militantes, pesquisadores e produtores culturais que a alçam ao estatuto de pioneira da reforma no Brasil continua existindo sob o risco do desconhecimento de sua obra.

De modo geral, tais transformações não implicaram um declínio do fisicalismo como concepção ontológica a fundamentar as técnicas de tratamento em psiquiatria. Ao contrário, esse horizonte crítico permanece na condição de anteparo. No mesmo ano de fundação do Museu de Imagens do Inconsciente, 1952, seria sintetizado o primeiro antipsicótico, a clorpromazina. A partir de então, a psicofarmacologia progressivamente despontaria como dispositivo terapêutico predominante. Observa-se, no último quarteirão do século XX, uma alta disseminação do uso de psicofármacos, concomitantemente às mudanças institucionais que marcaram a progressiva passagem de um modelo manicomial para um modelo ambulatorial de assistência. Esse contexto também é marcado por uma alteração diagnóstica que ganha forma, sobretudo, a partir da publicação do terceiro DSM, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. A partir dessa versão, publicada em 1980, as doenças mentais passam a ser compreendidas como entidades mórbidas universais, e a relação terapêutica médico/paciente passa a ser guiada especialmente pelo controle farmacológico dos sintomas. Por trás de um suposto ateoricismo, revela-se a teoria específica das perturbações subjacente a esse material, definida pela crença em um substrato objetivo sustentado na biologia e na fisiologia (Henning, 2000).

Muitos estudos têm apontado para a emergência triunfal de um corpo de saberes preocupado com a materialidade e os constrangimentos biológicos na compreensão do comportamento humano. Uma série de autores (Azize, 2008; Bezerra Jr., 2000, 2007; Russo, Henning, 1999; Russo, 2001; Rose, 2013; Meloni, 2011) pontua que, a partir da década de 1980, ocorreu no campo científico um intenso recrudescimento do projeto de tornar os humanos "objetos naturais”. Nesse contexto, a genética comportamental, a sociobiologia, a psicologia evolucionária e as neurociências despontaram como disciplinas axiais, dedicadas a promover uma leitura fisicalista e frequentemente reducionista dos fenômenos psíquicos e culturais.

Esse processo teve particulares repercussões para os saberes psicológicos fundamentados em proposições não exclusivamente naturalistas, como é o caso da psicanálise. Esta se vê imersa numa complexa arena científica em que, na posição desfavorável, é impulsionada a competir com as proliferantes terapias biológicas, como a psicofarmacologia. Varrida dos sistemas classificatórios da psiquiatria, a psicanálise é obrigada a justificar seus conceitos básicos frente às ciências naturais, frequentemente procurando nelas respaldo para sua própria legitimidade (Campos, 2000; Bezerra Jr, 2007). Vale ressaltar que, nesse contexto, os referidos métodos de tratamento contra os quais se debateu Nise da Silveira não foram totalmente extintos, especialmente a eletroconvulsoterapia, que é hoje, segundo seus defensores, uma técnica menos agressiva, sendo aplicada com os devidos cuidados anestésicos, além de contar com um suposto maior consentimento do paciente (Varella, 2012). A partir dos anos 1980, a noção de um sujeito psicológico habitado por um mundo simbólico interior é obscurecida em favor do que Nikolas Rose (2003, p.54) chamou de "individualidade somática”, isto é, "a tendência de definir aspectos-chave da individualidade de cada um em termos corporais, o que significa pensar a si mesmo como ‘embodied', e entender esse corpo nos termos da biomedicina contemporânea”.1

Nikolas Rose enfatiza o fato de que, a partir da década de 1960, observa-se o fim da era áurea da medicina clínica. A partir de então, uma nova série de transformações se daria no campo da medicina, que passaria a estender seu controle específico sobre a doença rumo à administração da reprodução e do risco, além da otimização da saúde e do corpo. Isso se daria a partir de uma significativa sofisticação tecnológica dos sistemas de diagnóstico e terapia, envolvendo inclusive a "complexificação” da divisão do trabalho entre especialistas no campo médico. Esse conjunto de mudanças foi conceituado pelo autor por meio da noção de "molecularização”. O nível "molar” de visualização corporal era típico da medicina clínica, na escala de membros, órgãos, tecidos, fluxos de sangue, hormônios etc. Essa escala, embora certamente não tenha sido extinta, estando presente, aliás, na publicidade de produtos para a saúde e nas crescentes cirurgias plásticas, vê-se acrescida de outra, "molecular”, que passa a ocupar o posto axial da biomedicina contemporânea. Trata-se agora da preeminência de uma compreensão da vida em termos de propriedades funcionais e codificações genéticas, entendidas como mecanismos reguladores do comportamento.

Em termos molares, a condução de um diagnóstico se dava em termos da patologia dos órgãos. No nível subsequente, diversamente, intenta-se buscar a estrutura molecular do agente causador de cada doença. Esse ponto encontra especial visibilidade na psicofarmacologia. Assim, na indústria farmacêutica e nas pesquisas com fins de tratamento, a seleção, a manipulação, o teste e o desenvolvimento de agentes terapêuticos são basicamente realizados em termos moleculares, assim como a explicação de seu modo de funcionamento. O autor pontua que até mesmo curas herbáceas e a psicanálise chegam a buscar legitimação molecular para seus aparentemente misteriosos modos de agir. Além disso, deve-se atentar para a progressiva expansão e remodelação dos sistemas diagnósticos, graças às pesquisas moleculares. Distúrbios anteriormente classificados conjuntamente passam a ser cada vez mais fragmentados e especificados.

Considerações finais

Feito esse panorama, cabe realizar algumas considerações finais sobre as continuidades e descontinuidades da ambição fisicalista presente na psiquiatria de meados do século passado e naquela hoje hegemônica. Chama atenção a significativa permanência da questão da supressão sintomatológica, manifesta tanto nas controvérsias sobre a psicocirurgia, a eletroconvulsoterapia e a insulinoterapia quanto no uso de medicamentos destinados aos transtornos mentais. Essa relação se dá, no entanto, a partir de uma alteração do sistema diagnóstico e de sua articulação com a indústria farmacêutica. Essa orientação enseja a própria definição de entidades nosográficas e etiológicas a partir da alteração química dos comportamentos. De acordo com o novo modelo neurobiológico, os comportamentos são concebidos como doenças que podem ser curadas exclusivamente a partir da materialidade orgânica.

Não obstante, pode-se afirmar que uma nova modalidade de biopolítica tem emergido do Ocidente, "complexificando" esse cenário. Nikolas Rose e Paul Rabinow (2006) apontaram para alguns potenciais de desenvolvimento da noção de "biopoder" no contexto das recentes transformações biomédicas, a partir das reflexões iniciais de Foucault (1988). Chamaram atenção para a recente proliferação dos discursos de verdade sobre o caráter vital dos seres humanos. Além disso, pontuaram que as estratégias de intervenção sobre existência coletiva não se dão somente sobre populações nacionais, mas também sobre coletividades biossociais emergentes em termos de raça, etnicidade, gênero, religião ou em termos genéticos. Por fim, apontaram para uma mudança nos modos de subjetivação, por meio dos quais os indivíduos são levados a atuar sobre si próprios sob certas formas de autoridade, por meio de práticas do self em nome de sua saúde ou de uma coletividade.

Essas colocações, se levadas a sério, impõem algumas descontinuidades em relação ao projeto fisicalista predominante até meados do século passado. Em primeiro lugar, destaque-se que Rose e Rabinow propõem uma descrição de biopoder que seja composta pela articulação de um corpo heterogêneo de atores sociais, tais como organizações não governamentais, ativistas, pesquisadores, grupos de médicos e pacientes, em constante negociação por empreendimentos que tenham a vida como seu telos, incluindo novos modos de individualização e concepções de autonomia e direitos. Nesse sentido, apontam para a biopolítica como campo de ação, ou ao menos um campo indeterminado, nas quais as hierarquias podem ser constantemente negociadas e mesmo invertidas. Esse diagnóstico se afasta daquele contra o qual se debateu o projeto médico-científico de Nise da Silveira, inscrito ainda em um sistema de hierarquia muito rígido, no qual as técnicas de tratamento respaldadas pelo saber médico poderiam ganhar facilmente contornos violadores e agressivos, sendo aplicadas de maneira pouco ou nada questionável. É preciso, portanto, pensar as transformações que ensejam a ascensão da psicofarmacologia e dos manuais diagnósticos como inseridas em um possível campo de maior negociação, debate e margem de ação, incluindo a progressiva participação dos próprios pacientes, até na esteira da reforma psiquiátrica.

Por outro lado, como recentemente lamentou Luiz Carlos Mello (2009, p.130), atual diretor do Museu de Imagens do Inconsciente, "A psiquiatria, hoje, é totalmente baseada em remédios, neurolépticos… O doente toma o remédio, vai pintar e não pinta. E me perguntam por que não surgem novos artistas no Engenho de Dentro; como podem aparecer novos artistas se eles estão dopados?".

Sua afirmação traz desafios para se pensar a especificidade de uma suposta nova biopolítica em um sistema de saúde pública ainda em vias de se consolidar como o brasileiro. A dimensão da violação médica permanece uma possibilidade explícita ou latente, e a hiperdosagem de medicamentos e a exclusividade do dispositivo psicofarmacológico são os exemplos mais evidentes da sombra desse atual modelo de tratamento. Em O mundo das imagens, a própria Nise da Silveira faz menção crítica ao que chama de "quimioterapia", método que teria substituído seus predecessores a partir da década de 1950, acusando seus efeitos colaterais, como o entorpecimento das funções psíquicas. "O problema agora era reduzir ou anular as manifestações delirantes e as expressões motoras que as acompanhavam. Estavam criadas camisas de forças químicas” (Silveira, 1992, p.13). Embora não tenha descartado de forma absoluta a psicofarmacologia como ferramenta terapêutica, a médica manifesta sua desconfiança em relação a ela: "O tratamento por meio de substâncias químicas controla os sintomas, mas não os cura … A verdadeira terapia consistiria em facilitar a cura, fornecendo ao indivíduo uma atmosfera de apoio emocional” (p.13).

Por fim, seria preciso analisar a complexidade da dita individualidade somática que configuraria o fisicalismo contemporâneo, uma vez que ela se verifica não somente no campo da psiquiatria biológica e das neurociências localizacionistas, mas, também, nas terapias corporais e nas vertentes da neurociência mais fenomenológicas, atentas à plasticidade cerebral e à epigenética (Russo, Ponciano, 2002; Serpa Jr., 2004). É possível que a própria proposta terapêutica de Nise da Silveira já constitua um meio caminho entre a individualidade psicológica e a individualidade somática. Pois se a arte tem propriedades terapêuticas, não é senão com o corpo, mais especificamente, com as mãos, com o toque da carne na matéria que ela pode ganhar forma. Levar a psique ao encontro da matéria, não obstante, não é o mesmo que reduzir a primeira à segunda. E foi essa a diferença que esteve no cerne da construção das noções de corpo e pessoa no projeto médico-científico de Nise da Silveira.

1Nesta e nas demais citações de textos publicados em outros idiomas, a tradução é livre.

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Recebido: 06 de Junho de 2016; Aceito: 04 de Novembro de 2016

Translated by Rebecca Atkinson.

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