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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.25 no.3 Rio de Janeiro jul./set. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702018000400004 

ANÁLISE

Em busca do novo Éden no século XX: os portugueses e a fundação de colónias naturistas no Brasil

Isabel Drumond Braga1 

1Professora, Faculdade de Letras/Universidade de Lisboa. Lisboa – Portugal isabeldrumondbraga@hotmail.com

Resumo

Este trabalho integra um projeto que se dedica ao estudo dos inícios do vegetarianismo e do naturismo em Portugal. Procura contextualizar a ligação entre as duas realidades para, em seguida, verificar a extensão dos ideais naturistas ao Brasil, em particular na região do Pará, por meio da fundação de uma efémera colónia naturista em Boim (na margem do rio Tapajós) e do projeto fracassado de criação de uma nos arredores de Belém. Outras tentativas de divulgação das ideias vegetarianas e naturistas passaram pela chegada de livros e revistas portugueses e pela fundação de sociedades vegetarianas e naturistas em várias cidades brasileiras. Importa, pois, problematizar e interpretar esses percursos por meio de fontes inéditas.

Palavras-Chave: Amílcar de Sousa (1876-1940); colónias naturistas; Pará; Portugal

Felizes os que vivem nos trópicos! Os habitantes dos países quentes podem nunca ter fome! E aqueles que têm de comer pouco mais precisam (Sousa, 1912, p.65).

Os antecedentes e os primórdios do discurso vegetariano em Portugal

Apesar de a defesa do consumo de alimentos de origem vegetal ter iniciado na tradição filosófica indiana, designadamente por meio de religiões como o hinduísmo e o budismo (Trotignon, 2011, p.243-292), foi durante a Antiguidade clássica, em especial com Pitágoras (c. 570 a.C-c. 495 a.C.), Plutarco (c. 46-120) e Porfírio de Tiro (c. 234-c. 304), que se defenderam posições relevantes para a cultura ocidental (Soares, 2011; Dias, 2012; Bernabé Pajares, 2015; Pinheiro, 2016; Spencer, 2016), as quais, contudo, permaneceram bastante subalternizadas durante a Idade Média (Niola, 2015, p.63-74; Larue, 2015, p.16-66). O debate, em especial no campo médico, desenvolveu-se a partir do século XVII, incidindo sobre os malefícios do consumo de carne. Salientem-se os contributos de Louis Lémery (1677-1743) e Philippe Hecquet (1661-1726), em França (Perrot, 2011, p.294); John Arbuthnot (1667-1735) e George Cheyne (1671-1743), em Inglaterra (Morton, 1998, p.53-88; Rauw, 2015, p.13-14) e Antonio Cocchi (1695-1758), em Itália (Mannucci, 2008, p.180-183). Não obstante essas e outras posições em defesa do vegetarianismo no Ocidente (Baratay, 1996; Berkman, 2004), este só entrou em voga no século XIX, em especial durante a segunda metade. Recorde-se que o termo “vegetariano” foi criado no fim dos anos de 1830 e generalizou-se a partir de 1847, quando se fundou a Vegetarian Society, em Ramsgate, Inglaterra. A nova associação teve como órgão de difusão das suas ideias o The Vegetarian Messenger, periódico em que muitos artigos enfatizaram os benefícios morais e espirituais de abstenção do consumo de carne (Twigg, 1981; Miller, 2011, p.154).

Na cultura portuguesa, os discursos vegetariano e naturista tiveram alguma relevância a partir das primeiras décadas do século XX, em particular devido à ação dos membros da Sociedade Vegetariana de Portugal, fundada no Porto em 1911. Essa agremiação teve origem no comité da revista, de periodicidade irregular, O Vegetariano (1909-1935), dirigida por Amílcar de Sousa, tendo como estatuto-programa um documento assinado em 1o de março de 1911. A comissão fundadora foi constituída por várias personalidades: o referido Amílcar de Sousa, presidente; Jerónimo Caetano Ribeiro, secretário; Manuel de Oliveira Borges, secretário; e ainda os vogais Eduardo de Lima Lobo e Manuel Teixeira Leal. Como presidente honorário foi escolhido o escritor e crítico literário Jaime de Magalhães Lima.

A ligação do vegetarianismo ao naturismo foi uma realidade palpável desde cedo. Isto é, os adeptos destas práticas defendiam ideias semelhantes: benefícios da água, do ar, do sol e consequentemente de uma vida em contato com a natureza, a par de uma alimentação natural, isenta de carne e de peixe, em paralelo aos ataques ao tabaco, às bebidas excitantes e ao álcool. Naturistas e vegetarianos estavam de acordo que uma maneira de viver não conforme às leis da natureza era a principal causa das enfermidades.

O maior ativista do vegetarianismo foi seguramente Amílcar de Sousa (1876-1940), médico formado na Universidade de Coimbra, em 1905, que aderiu ao naturismo em 1910, depois de ter se tornado vegetariano. Foi autor de diversas obras de divulgação, todas com várias edições e algumas com tradução para castelhano, das quais se destacam O naturismo (1912), A saúde pelo naturismo (1916), A cura da prisão de ventre (1923), Arte de viver (1926), Banhos de sol (1937) e ainda uma novela naturista, ou como na atualidade se designa, uma utopia, intitulada Redenção (1923), sem esquecer os mais de cem artigos publicados na imprensa da especialidade.

O discurso da autoria de Amílcar de Sousa para se referir aos não vegetarianos, por vezes em tom agressivo, quase sempre denunciador e visando convencer os omnívoros a abandonarem o consumo de animais e seus derivados, não foi de todo original. Seguiu os tópicos dos temas dos discursos de outros vegetarianos e naturistas estrangeiros, cujas obras foram bem conhecidas do médico português, um leitor ávido e viajado, que frequentemente aludiu a novas descobertas de outros naturistas. Ressalte-se que foi também tradutor de várias obras e impulsionador de uma biblioteca naturista em língua portuguesa, um conjunto de publicações com várias dezenas de títulos, dada a conhecer ao público por meio das últimas páginas da já referida revista O Vegetariano e também do Almanaque Vegetariano Ilustrado (1913-1922), do qual foi igualmente diretor. Foi orador em dezenas de conferências pronunciadas em Portugal, Espanha e Brasil. Ou seja, mais do que um criador, Amílcar de Sousa foi um divulgador, um missionário, um apóstolo do vegetarianismo e do naturismo, que usou diversos meios ao seu alcance para formar e catequisar novos adeptos, atacando, em especial, o consumo de carne (Braga, 2018).

A linguagem utilizada por naturistas e vegetarianos foi, por vezes, virulenta. Pensemos em expressões como “feita de sangue e de fogo” (Sousa 1916a, p.XIX) ou “alimentos cadavéricos preparados ao fogo” (Sousa, 1937, p.106) utilizadas por Amílcar de Sousa, em consonância com outros naturalistas, para se referir à alimentação omnívora. Por outro lado, o ódio à carne levou-o a referi-la como um “alimento feroz próprio para lobos cruéis e hienas sanguinárias” (Sousa, 1923, p.89). E, no mesmo tom, não deixou de defender ideias como “o Homem, libertando-se da prisão do fogo, não precisa da cozinha, onde principalmente se fabrica a morte” (Sousa, 1916a, p.87) ou “o Homem é um puro frugívoro, entretanto num regime de transição, o leite, os ovos e o mel são alimentos admissíveis, o que é inadmissível é a carne dos cadáveres dos animais” (Sousa, 1916a, p.61), ou ainda “comendo alimentos de lume não se vive senão em contínuo desmerecimento fisiológico. E se nos privarmos da luz sobre o nosso corpo, anemiamos o sangue e desnaturamo-lo por completo” (Sousa, 1937, p.67). Consequentemente, o vegetarianismo de carácter frugívoro e crudívoro era a única dieta verdadeiramente aceitável, a qual deveria ser complementada com exercício físico e banhos de sol: “Uma horta é uma farmácia. Um pomar, uma sala de jantar e almoçar. Tudo isto se colhermos as plantas e formos buscar os frutos no traje adâmico, ao ar, à luz e ao sol” (Sousa, 1923, p.92). Esse tipo de discurso foi recorrente e não raras vezes agrupado numa espécie de cartilha com vários pontos a seguir (Sousa, 1916a, p.335-336, 341-342; Sousa, 1916b, p.77-78).

Além do ataque cerrado ao consumo de animais e seus derivados, outros géneros foram igualmente atingidos. Nesse âmbito, refira-se em particular ao vinho e ao álcool em geral, às bebidas excitantes, ao açúcar, ao sal e ainda ao uso de tabaco, que, não sendo um alimento, entrava no grupo dos produtos cujo uso combatia. A linguagem continuou a ser igualmente forte. Por exemplo, os ovos foram entendidos como “deletérios para alimento humano” (Sousa, 1916b, p.46); o sal, um “agente subversivo da cozinha” (Sousa, 1923, p.46), e o tabaco, “um mal [que] tem invadido os povos civilizados. É o companheiro do álcool e da carne, é um irmão do jogo e da devassidão” (Sousa, 1934, p.16,81).

A passagem da dieta omnívora para a vegetariana deveria ser feita paulatinamente, primeiro consumindo os alimentos a suprimir apenas numa das refeições diárias, até os conseguir eliminar por completo (Sousa, 1916a, p.335-336). O mesmo se preconizou para a adoção do regime frutívoro e crudívoro, o ideal dos mais refinados, sem, contudo, conseguir a unanimidade. Se Amílcar de Sousa (1916a, p.28) defendeu, de forma utópica, que:

A terapêutica postiça e habitual deixaria de existir e do mesmo modo os matadouros e talhos, as praças de peixe e as peixeiras, os cafés e restaurantes atuais, as deletérias cozinhas e cozinheiras, os vinhateiros e os cervejeiros que fabricam produtos de fermentação etc., dar-se-ia um desenvolvimento colossal aos pomares e às hortas. As vacas reservariam o leite para os seus vitelos, e as cabras para os seus cabritos e as próprias galinhas que põem os ovos não seriam ‘cultivadas’ para esse fim… também poderíamos usar os cereais triturados para fazer massas cruas com sumo de frutos, como laranja ou tangerina, e sem o malefício do lume, ou demolhando-os.

Jaime Magalhães Lima (Ribeiro, 1923, p.24), mais realista, não deixou de considerar que:

Eu creio, firmemente, que a cozinha continua a ser uma parte preciosa, que está para durar e crescer; e peço a Deus que a favoreça, porque não só o merece, pelas suas muitas e complexas virtudes, mas instantemente o pede pois, se é de maior idade para uma reduzida minoria, está ainda de todo na infância para a grande maioria, que mal sabe cozer com esmero uma púcara de couves bem limpas, em água pura, temperadas em justa proporção e fervidas somente até àquele ponto em que o seu sabor e digestibilidade atingiram o grau mais conveniente. Creio que a cozinha é uma instituição que com o tempo não tem criado cabelos brancos e ostenta uma perene mocidade, embora eu, muito moderadamente, lhe solicite as suas graças e vantagens e não ignore pelas suas munificências tem sido origem de muitos vícios e desgraça de muito boa gente, singela e ingénua. Procuro, é certo, libertar-me quanto possível da sua tirania, mas não sou um rebelde ao seu império que aduz carta de legitimidade de muito difícil contestação a meu ver.

O discurso anticarnívoro implicou inevitavelmente poupar os bichos. Embora nenhum membro da Sociedade Vegetariana de Portugal tenha feito qualquer manifesto em defesa da vida animal, Amílcar de Sousa (1923, p.51-52) não deixou de se referir a eles em termos de simpatia e apreço:

Um talho é um local nojento. Um matadouro, um sítio de carnificina. Ver matar um boi pacífico às marretadas, ou um tímido cordeiro, é um espetáculo que choca. Ninguém que tenha sentimentos de bondade é capaz de, a sangue frio, matar uma pomba branca que arrulha no pombal ou um frango de plumagem macia e multicor que vive na capoeira. Ver frigir uma enguia viva, ou deitar em água a ferver os camarões, não é decididamente um ato glorioso e heroico.

Para levar a efeito uma vida naturista equilibrada, havia que ser autodisciplinado, praticar exercício físico, apanhar banhos de ar, sol e água, usar roupa não apertada e porosa, calçado sem biqueiras, habitar numa casa com terraço, jardim ou quintal, com amplas janelas e dotada de casa de banho com banheira ou duche, abster-se de fumar e praticar uma alimentação isenta de carne, peixe, álcool, chá, café e cacau. Para alguns, os frutos em cru seriam os mais adequados. Outros, não tão radicais, optaram por não praticar o frugivorismo exclusivo e muito menos o crudivorismo. De qualquer modo, o ideal era viver nos trópicos, pois o clima permitia a exposição ao ar e ao sol e, em especial, a abundância de muitos e variados frutos. Amílcar de Sousa (1923, p.49) foi claro em vários momentos: “Para ser feliz, o homem deveria voltar para o Éden que está em qualquer lugar nos trópicos. Aí o sol e a água, o ar e a luz dão ao homem naturista saúde e riqueza. A experiência da civilização está feita. Em vez da paz, a guerra; em vez do amor, o ódio; em vez da alegria, a tristeza”.

Vegetarianismo e naturismo de Portugal para o Brasil

No seu intuito de converter e propagandear os ideais vegetarianos e naturistas, a Sociedade Vegetariana Portuguesa foi conseguindo sócios brasileiros, de várias regiões do país, publicou cartas e fotografias de muitos deles, na revista O Vegetariano e no Almanaque Vegetariano, e nesses periódicos incluiu receitas culinárias com produtos brasileiros, ao mesmo tempo que foi publicitando o aparecimento das sociedades vegetarianas e naturistas brasileiras. Por outro lado, sabe-se que todas as publicações da Sociedade Vegetariana de Portugal, incluindo as referidas revistas, eram vendidas no Brasil. Em 1913, os locais de venda eram sete (O Vegetariano, 1913b, p.64). E, em 1920, Amílcar de Sousa tentou sem êxito publicar uma edição brasileira da Arte de viver, pois, em 1934, soube-se que “este volume retocado, ampliado, engrandecido, completo e final foi entregue na sua visita ao Brasil, em 1920, à Sociedade Vegetariana Brasileira. Nunca foi, porém, lançado a público por circunstâncias alheias à vontade do autor” (O Vegetariano, 1934, p.97). Eis um conjunto de matérias a requerer atenção e desenvolvimento, desejáveis num futuro próximo.

Quadro 1 : Locais de venda no Brasil das publicações da Sociedade Vegetariana de Portugal 

Cidade Estabelecimento Morada
Rio de Janeiro Adaucto Neiva Av. Passos, n.28
Rio de Janeiro Livraria Cruz Coutinho Rua de São José, n.82
Pará Livraria Martins Travessa Campos Sales, n.11
Manaus Lino Aguiar & Companhia Rua Principal, n.87
São Paulo Jorge & Companhia Rua de São Bento, n.51
Pernambuco A. Pasini Rua do Livramento, n.22
Porto Alegre Octaviano Furtado Rua da Azenha, n.146

Fonte: elaborado pela autora.

No estado atual das investigações, percebe-se que as referidas sociedades que se iam formando no Brasil eram objeto de apreço e comentário em Portugal. Por exemplo, em 1913, fundou-se a Sociedade Naturista Brasileira, no Rio de Janeiro, cuja sede se localizava na rua do Ouvidor, número 22. A Sociedade Vegetariana Portuguesa felicitou os confrades do outro lado do Atlântico:

O Brasil é um grande país onde se fazia notar a falta de uma coletividade humanitária e altruísta que esclarecesse e difundisse as vantagens da dieta de frutos, da vida ao ar livre, do exercício físico e do sol que tanta energia derrama sobre aquele solo abençoado! O Brasil é, de norte a sul, um Éden e um paraíso ininterrupto com suas florestas virgens, com seus pomares e hortas onde se encontram os frutos melhores do mundo. O Brasil é a pátria da bananeira que só por si basta como alimento ao Homem! Porém, os frutos são desprezados, as florestas derrotadas, as hortas mal tratadas. Os brasileiros não prestam culto à natureza (O Vegetariano, 1913a, p.381).

Nem todas as referidas sociedades criadas no Brasil foram consequências da influência portuguesa. Um russo teve um papel de destaque em algumas: Eliezer Kamenesky (1888-1957). Trata-se de um judeu, naturista, nascido na Rússia, que viajou por Europa, América e Ásia, em deambulações por vezes clandestinas, como quando aos 15 anos embarcou em Odessa e aportou em Londres. Estudou piano e canto, mas perdeu a voz. Aos 19 anos, leu uma das obras de Konstanty Moes-Oskraguiello (1850-1910), um médico vegetariano polaco, e tornou-se frugívoro. Em 1919, já se fixara em Portugal, casando-se com Arnilde Roque Penim, anos depois. Foi poeta, músico e ator, tendo ficado conhecido do grande público pelas suas interpretações como ator secundário nos filmes A revolução de maio, realizado em 1937, por António Lopes Ribeiro; O pai tirano, de 1941, do mesmo realizador, e O pátio das cantigas, igualmente de 1941, realizado por Francisco Ribeiro. Nesses três filmes interpretou um comunista russo, Dimoff; um refugiado russo, Ciriloff; e o russo Boris Dunov, respetivamente (Torgal, 2010; Vieira, 2011). Em O pátio das cantigas, segundo notícia publicada na revista Animatógrafo, que incluiu uma fotografia do ator a tocar violoncelo junto de vários animais, a casa de Boris era o reino da harmonia (Animatógrafo, 10 nov. 1941).

Como naturista e vegetariano, Eliezer Kamenesky escreveu um romance de perfil autobiográfico, traduzido para inglês por Fernando Pessoa (Kamenetzky, 1918, p.44-47; Castro et al., 1992), dedicou-se à divulgação destas opções de vida, fazendo conferências, inclusivamente no Brasil. Numa realizada na Bahia, cujo texto datilografado se encontra no espólio que deixou, referiu as três maldições da humanidade: a carne, o álcool e o fumo, e tornou claro que entendia o carnivorismo como a deturpação e a prostituição da civilização (Espólio… s.d.), um linguajar comum a outros naturistas e vegetarianos.

Cândido Craveiro, ao qual nos referiremos em seguida, que com ele se cruzou no Brasil em 1916, escreveu um artigo em O Vegetariano intitulado “Um apóstolo: Eliezer Kamenesky”, no qual forneceu diversos dados biográficos do russo, salientando que havia sido apedrejado em Nova Iorque e no Rio de Janeiro, ao andar pela rua envergando apenas uma túnica, tendo sido preso no Rio de Janeiro e em São Paulo nove vezes (Craveiro, 1916b, p.339-340). No mesmo ano, em novembro, a referida revista que acolheu o texto de Craveiro escolheu a figura de Kamenesky para a capa. Esse tipo de imagem, muito radical, identificada com o neoestoicismo anarquista, chegou a aproximar-se da do vagabundo em resultado do uso de barbas e de cabelos longos, a par de túnicas e de sandálias, tendo outros expoentes, tais como, por exemplo, Marius Clayol, na França (Baubérot, 2004, p.209).

No Brasil, Kamenesky (1917, p.326-327) esteve ligado à fundação da Sociedade Vegetariana da Bahia (1917), à sua congénere da Paraíba (1917), a uma outra com o mesmo nome em Santos (1917) (O Vegetariano, 1917b, p.225, 263), e ao Núcleo Naturista de Pernambuco (1917) (O Vegetariano, 1917a, p.401). Na Paraíba fez uma conferência que contou com a presença das autoridades do estado, no salão nobre do Instituto Histórico (p.402-403). Esses êxitos, ainda que eventualmente pouco duradouros, terão sido responsáveis pela escolha que fez, quando, ao ser entrevistado pelo jornal A Pátria, já a viver em Portugal, declarou que o país que melhor o recebera havia sido o Brasil: “Ali a minha missão criou fundas raízes, além do melhor dos acolhimentos, fundei muitas sociedades naturistas” (Um profeta…, 1920, P.81-82).

Já em Portugal, Eliezer Kamenesky colaborou, ainda que esporadicamente, na revista O Vegetariano, ao mesmo tempo que outros autores a ele se referiram nos seus textos ali publicados, tal foi o caso de, por exemplo, Lopes de Castro (1919, p.7). Num de cariz divulgador, da autoria do naturista russo, insistiu-se em matérias como os banhos, o vestuário e o calçado adequados, a necessidade de uma alimentação vegetariana em oposição à dieta omnívora e ao consumo das bebidas excitantes e ao tabaco, refletindo-se ainda sobre a indústria moderna (Kamenesky, 1919, p.41-48).

A defesa dos seus ideais não escapou à sátira de O Século Cómico: suplemento humoristico de O Século, que, em 1920, publicou na secção “Em Foco”, e sob o pseudónimo de Belmiro, um desenho do ator com barba e cabelo comprido e um soneto a ironizar a opção vegetariana que professava certamente com afinco, uma vez que já era notada:

Esse da Rússia Eliezer famoso,

Que temos entre nós, diz a gazeta,

O nojo contra o bife e a costela

Prega por toda a parte, sem repouso,

Isso da carne produz o gozo,

Segundo o mesmo diz, é tudo peta;

Ele próprio come erva, ali, à preta,

E está forte, gorducho, majestoso.

Outrem duvide, eu não, da panaceia,

De que o nosso organismo pede talo,

Cevada, grama, ortiga, feno, aveia

Há muitos anos já – por que negá-lo? –

Que eu tenho assim uma ligeira ideia

De sermos uma espécie de cavalo…

(O Século…, 12 abr. 1920).

Em meados de 1920, o naturista deixou Portugal, ainda que por pouco tempo. Nessa altura, Amílcar de Sousa (1920a, p.97) referiu-se-lhe como “símbolo errante de vida simples, alma querida da natureza” e considerou “a tua crença é firme. O teu exemplo é belo”. Maria O’Neill (1920, p.99) dedicou-lhe um soneto. O Vegetariano publicou ainda “Oração ao sol”, “Portugal” e “A minha despedida”, da autoria de Kamenesky (O Vegetariano, 1920a, p.98, 116). Em outubro de 1921, já o naturista estava de volta. Nesse mês, foi publicada uma entrevista que dera. Nela afirmou gostar de Portugal, mas lamentar a existência de muitas tabernas, casas de jogo, cafés e prostitutas (O Vegetariano, 1921a, p.326-327).

Em 1927, o naturista russo viu-se na eminência de ser expulso de Portugal. O governo suspeitava que Kamenesky fosse um elemento subversivo e, como tal, “indesejável”. A Sociedade Naturista Portuguesa reagiu ao projeto do executivo por meio da celebração de uma sessão pública de homenagem e solidariedade, levada a efeito a 14 de abril, na Universidade Livre de Lisboa (O Vegetariano, 1927b, p.118). Afinal, uma “falsa notícia” tinha estado na base do projeto de expulsão, continuando a Sociedade Naturista Portuguesa a trabalhar para sensibilizar o governo a desistir do propósito (O Vegetariano, 1927a, p.152).

A fundação das colónias naturistas em busca de um novo Éden

A ideia de fundar colónias naturistas teve concretização na Europa e no Brasil da primeira metade do século XX. Efetivamente, na Suíça, um grupo heterogéneo de jovens, entre os quais Henry Oedenkoven e Ida Hofmann, fundou Monte Verità (Ascona), uma colónia vegetariana, em busca de uma vida pautada por curas e roupas naturais e rejeição de vacinas, de modo a obterem a regeneração por meio do ar, da água e do regime dietético vegetariano. Rapidamente, a colónia, organizada segundo princípios do socialismo utópico, orientou-se para um sanatório. Esse empreendimento foi conhecido em Portugal, pois em 1915, um artigo publicado em O Vegetariano dava informações sobre a criação de Monte Verità, 12 anos antes, ou seja, em 1903. M. Diaz de Wilke (1915) referiu-se-lhe como um local muito aprazível onde tudo estava muito bem organizado, segundo as práticas naturistas:

Os dois recintos que temos, um para homens e outro para senhoras, são formados de bosques e planícies verdes. Temos banhos frios ao ar livre e uma casa para banhos quentes, quase inteiramente de vidro, com todo o ar possível, seco e quente para quem goste deste ambiente ou para quem dele precise para se libertar do reumatismo (p.20).

Como a ideia de paraíso, de novo Éden, estava associada aos trópicos, o Novo Mundo apresentou-se como um palco ideal, e Ida Hofmann acabou por fundar outra colónia, Monte Sol, na região de Palmital, em Santa Catarina, Brasil. O projeto iniciado entre 1921 e 1923, duas décadas após a experiência suíça, procurava concretizar métodos de cura por processos naturais, em espaços cuja natureza fosse de molde a cativar pelas suas qualidades, de modo a restituir vigor aos que se instalassem. A propriedade adquirida, pouco salubre, bem como o modo de vida dos que se instalaram, deu origem a um insucesso, consolidado após quatro anos, de tal modo que uma nova tentativa, num outro local, concretamente no município de Catalão, em Goiás, ainda foi posta em prática, na década de 1930, mas os resultados não sofreram alterações. Consumou-se o fracasso de um projeto alternativo em busca de um novo Éden (Christol, 2015).

Ora, ainda que não se saiba se Amílcar de Sousa foi conhecedor do projeto Monte Verità antes de ter escrito a sua obra O Naturismo, cuja primeira edição é de 1912, o que não há dúvida é que, tendo em conta o apreço que nutria pelos trópicos, idealizou a instalação de uma colónia, ainda antes da Primeira Guerra Mundial. E, para tal, traçou um rigoroso quadro-programa, que o aproximou dos utopistas:

Escolheríamos um local sadio, servindo por facilidade de comunicações aceleradas, uma via-férrea, uma carreira de navegação periódica. Estamos certos que a meia hora de distância duma qualquer cidade tropical, se poderia fundar uma colónia naturista. Imaginemos um terreno virgem ainda, servido com um curso de água, situado num local inclinado e de solo fértil e bom. Construir-se-ia um edifício singelo com materiais impermeáveis que a indústria fornece. Seria um grande alpendre, como um grande chapéu, a impedir a chuva, a não permitir as grandes inclemências do sol e do temporal. Dentro uma piscina de águas correntes e límpidas, uma biblioteca e um salão grande de conferências. Eis a casa comum, a ‘Casa de Todos’. Haveria quartos para doentes que chegassem, a fim de serem resguardados. Em vez de terem vidros, as vidraças seriam de rede fina (Sousa, 1912, p.67).

Amílcar de Sousa continuou a descrever a colónia naturista modelo: casa de linhas sóbrias, ornamentada por pinturas no interior e estátuas e azulejos no exterior. E, foi mais longe, prescrevendo a indumentária dos hóspedes: pijamas, sandálias ou botas de tiras entrelaçadas e chapéus de palha, para os homens; túnicas à maneira grega, chapéus ornados com flores e sandálias, para as mulheres. As crianças usariam um vestuário sumário para se movimentar livremente. Para ocupar o tempo, as pessoas cultivariam árvores de fruto e dedicar-se-iam a pequenos trabalhos de artesanato. Não haveria criados, e as rotinas passavam por abluções, ginástica e banhos de sol. As mulheres tratariam das crianças, e os homens de tarefas de acordo com a tendência de cada um. As refeições seriam à base de frutos – bananas, laranjas, limas, limões, ananases, amendoins, castanhas do Pará, pinhões e nozes –, e ao fim do dia haveria tempo para abluções, novos exercícios, jogos, divertimentos e conferências sobre naturismo. Finalmente, haveria tempo para ensinar às crianças as matérias escolares.

Pouco tempo depois do delineamento desse projeto, em 1914, embarcaram para o Pará Ernesto Borges, que trabalhara na editora da Sociedade Vegetariana de Portugal e havia fundado, no Porto, nas Galerias de Paris, a Casa Branca, estabelecimento que servia refeições vegetarianas; e o ilustrador Cândido Craveiro. Foram no mesmo ano, mas em embarcações diferentes. Instalaram-se nos terrenos de um português, Joaquim Pedro Gameiro, com o objetivo de fundar uma colónia naturista frugívora em Boim (rio Tapajós), da qual parece não restar traços. Segundo Amílcar de Sousa, pretendiam realizar o Éden no século XX (Sousa, 1914b, p.167).

Em maio de 1914, Ernesto Borges, já havia chegado ao Pará, tendo contado com auxílio local oferecido pelo vegetariano Camilo Velhote e por seu cunhado Loureiro. Nas primeiras notícias que enviara, tornou claro que “só me tenho alimentado de frutas. São deliciosas. A minha dificuldade está na escolha, mas o instinto guia-me” (Sousa, 1914a, p.277). Amílcar de Sousa também recebeu notícias de Gameiro, em julho: “Acabo de armar uma barraca na avenida Dr. Amílcar de Sousa, onde faremos as nossas refeições e onde tomaremos os nossos banhos ao ar, sol e chuva… Boim é montanhoso e pitoresco” (Craveiro, 1914, p.403-404).

Cândido Craveiro enviou notas de viagem: partira de Leixões em 24 de julho e chegara ao Pará em 7 de agosto, depois de ter feito escala no Funchal. No dia primeiro daquele mês, recebera a bordo, tal como todos os outros passageiros, a notícia do início da Primeira Guerra Mundial. Em 12 de agosto, apanhou um vapor para Boim. Antes, teve tempo para apreciar Belém, cidade que considerou bonita, com as ruas ornamentadas com mangueiras e higiene superior à do Porto. Salientou ainda as dificuldades de dormir numa rede que adquirira. Em 15 de agosto, chegou a Santarém, tendo à sua espera Joaquim Pedro Gameiro (Craveiro, 1914, p.403-404).

Cândido Craveiro continuou a enviar notícias que foram sendo publicadas em O Vegetariano. Em carta ilustrada com desenhos, datada de 1o de outubro de 1914, dirigida a Amílcar de Sousa, fez saber dos avanços do seu estabelecimento no local e do tipo de vida que mantinha. Escreveu quase nu, apenas envergando umas calças esfarrapadas, e declarou já viver numa casa, com dois compartimentos, tipo cabana, de palha e de madeira, com chão de barro, construída sob a orientação de Ernesto Borges. A matéria-prima fora obtida no mato, e a casa permitia a entrada do sol, do vento, da chuva, da passarada e de outros bicharocos. O mobiliário era um caixote, que servia de cadeira, e uma mesa cujos pés tinham sido construídos com ramos recentemente colhidos. Dormiam em redes nos compartimentos decorados com postais ilustrados, tábuas pintadas pelo próprio Cândido Craveiro e um mapa do Brasil.

Figura 1 : Casa naturista de Boim, desenhada por Cândido Craveiro (Fonte: Craveiro, 1915a, p.149) 

Após ter apontado as condições materiais, salientou as características da terra: bom clima, agricultura abandonada, com exceção da mandioca e da seringueira, e escassa fruta, o que Joaquim Pedro Gameiro já tentava resolver mediante a plantação de árvores. De qualquer modo, dispunham de abacate, abacaxi, abricó (damasco), açaí, banana, caju, castanha, coco, laranja, limão, manga, mamão e sapotilha, pelo que não se percebe a referência à pouca abundância, a menos que se referisse às frutas europeias. Relatou ainda a realização de queimadas e informou que em breve iriam proceder à transplantação de árvores. A paisagem foi descrita como “rude, áspera, selvagem, afogada em mato, contrastando extraordinariamente com os poéticos e doces campos da nossa terra” (Craveiro, 1915a, p.150).

Cândido Craveiro valorizou o banho matinal, “uma das coisas mais agradáveis que aqui temos”, a canoagem, os passeios a pé e salientou a relevância do naturismo, em especial por meio do exemplo de Gameiro, que já ultrapassara os 70 anos e havia rejuvenescido, caminhando, trepando a árvores e dedicando-se à agricultura. Declarou ainda que valeria a pena pensar na exploração das bagas de saponina – sem indicar de que planta provinham, eventualmente Sapindus saponaria –, pois forneciam o “verdadeiro sabonete naturista”. Finalmente, deu conta das suas preferências alimentares: saladas de cariru e de maxixe e açaí tomado puro ou com farinha (Craveiro, 1915a, p.152).

Figura 2 : Praia em Boim, desenhada por Cândido Craveiro (Fonte: Craveiro, 1915a, p.151) 

A dureza das condições de vida e de trabalho levou Craveiro a refletir sobre a adoção do naturismo por parte de alguns, que entendeu snobs, para concluir que se estivessem no Boim regressariam “aos pátrios lares cheios de naturismo até aos olhos” (Craveiro, 1915a, p.153). Ainda teve ocasião para referir que estavam fortes e saudáveis, mas que também já haviam conhecido momentos de desânimo e saudades da civilização, acabando por confessar:

Eu não fui nado e criado nisto. A minha vida foi outra, e quase sempre vivi no meio do ruído e da animação. E isto aqui é tão solitário! Vivemos entre uma população semisselvagem, longe, muito longe do mundo, isolados. Harmonizar o melhor possível o nosso viver com a natureza, assim deve ser; mas, regressar ao selvagismo, não. Ora, este meio parece que nos torna selvagens. Como refúgio, é com sofreguidão que às vezes me atiro a algum dos raros livros que trouxe, e ainda há dias me surpreendi a ler, muito interessado, a secção ‘Ecos da Sociedade’ dum jornal de Lisboa, de há quatro meses, que para aqui trouxe a embrulhar umas botas (Craveiro, 1915a, p.153).

Perante essa confissão, adivinha-se o desfecho a curto prazo. Efetivamente, essa carta foi escrita em 1o de outubro de 1914, e, em maio de 1915, Cândido Craveiro já se encontrava no Pará, referindo o fracasso do projeto, cujas razões não aduziu. Então, salientou o valor da terra para viver o frugivorismo, a relação entre o calor e a facilidade das práticas naturistas e o escasso aproveitamento que a população local fazia desses recursos, preferindo carne e peixe e consumindo álcool. Ali terá iniciado ou participado em sessões de esclarecimento sobre o naturismo, manifestando-se esperançoso e declarando que “o Pará será um dia o baluarte do naturismo” (Craveiro, 1915b, p.40). Tudo começara com a publicação de artigos de Amílcar de Sousa no jornal Folha do Norte (Seixas, 2011; Fernandes, Seixas, 2011; Seixas, Carvalho, Massarani, 2013; Seixas et al., 2013) que, não obstante terem sido ridicularizados por alguns, começavam a dar fruto. Finalizou com o apelo à criação de um Núcleo Naturista no Pará, sob os auspícios da Sociedade Vegetariana de Portugal (Craveiro, 1915c, p.393-395).

Figura 3 : Caricatura de Gameiro, por Cândido Craveiro (Fonte: Craveiro, 1915a, p.150) 

Figura 4 : Caricatura de Craveiro, por Cândido Craveiro (Fonte: Craveiro, 1915a, p.150) 

Ernesto Borges faleceu em 1915, atribuindo-se a causa de morte a “erros de dietética incompatíveis com o naturismo” e, segundo a notícia, a colónia continuava, sem indicar com quem (Borges, 1915, p.286). Joaquim Pedro Gameiro (1915, p.357), em carta não datada dirigida a Amílcar de Sousa, confirmou essa ideia: “A colónia não afrouxa, sempre progredindo, iremos avante”. Mas, o projeto não frutificou, o que causou desapontamento entre alguns naturistas brasileiros (Colónias..., 1915, p.380-383).

Cândido Craveiro regressará posteriormente a Portugal, mas ainda permanecerá no Brasil por algum tempo. Em junho, encontrava-se no Rio de Janeiro, onde notou ser o naturismo quase desconhecido, em carta datada de setembro de 1915. Ainda não perdera o entusiasmo de divulgar o vegetarianismo no Brasil (Craveiro, 1915c, p.393-395). No final do ano, queixava-se do calor e alegrava-se com o aparecimento de mais variedades de frutos, não deixando de mencionar o mais relevante:

Parece que o calor também teve o condão de despertar a Sociedade Naturista Brasileira da profunda letargia em que se achava mergulhada. A jovem coletividade brasileira acordou, espreguiçou-se, bocejou, mudou de direção e, pelo que vejo, abandonou o dolce fare niente a que comodamente se entregara (Craveiro, 1916a, p.75).

A Sociedade Naturista Brasileira programara diversas iniciativas: conferências, divulgação de propaganda e a publicação de um jornal intitulado Vida Naturista. Em agosto de 1918, continuava no Rio de Janeiro. Em 21 de agosto de 1918, em carta a Amílcar de Sousa, forneceu-lhe diversas novidades: estava em contacto com membros do movimento naturopático dos EUA, e deles recebia livros; pretendia aprender a íris diagnose – um processo de diagnosticar enfermidades variadas – e confessou-se integralmente frugívoro, gastando 45$00 por semana, bem menos do que se fizesse as suas refeições numa pensão vegetariana ou numa mista, locais onde a despesa ascenderia a 100$00. Em suma, vivia uma situação de “novos e interessantes horizontes”, nas suas próprias palavras (Craveiro, 1918, p.356). A resposta do seu interlocutor foi igualmente publicada em O Vegetariano. Amílcar de Sousa informou-o de que Joaquim Pedro Gameiro havia lamentado que tivesse abandonado Boim e manifestou o seu desejo de visitar o Brasil, após a guerra, para aí fundar um sanatório (Sousa, 1918, p.357-358).

Em 1921, a participação de Craveiro nas páginas de O Vegetariano continuou com artigos como “Jejuns e jejuadores”, “Propaganda naturista”, “Saber comer”… mas Jerónimo Caetano Ribeiro fez notar que o radicalismo do autor refletia o seu modo de pensar, e não o da Sociedade Vegetariana de Portugal (O Vegetariano, 1921b, p.249-250). Claramente, as opiniões de Craveiro não agradavam a todos. No final do ano, regressou a Portugal no vapor Porto. Fixou-se em Ílhavo e continuou a colaborar na revista. Em especial, a partir do volume 17, de 1926, sucederam-se diversos artigos. A redação fez então saber que as doutrinas expostas pelo autor “eram heterodoxas”, mas que havia espaço para as diferenças de opinião (O Vegetariano, 1926, p.42).

Se o projeto de Boim fracassou, um outro terminou quando estava ainda em fase mais incipiente. Em agosto de 1918, em carta a Cândido Craveiro, Amílcar de Sousa anunciou-lhe que, após o final da guerra, desejava visitar o Brasil, para aí fundar o Sanatório Paraíso, em local “onde corra um regato de águas claras e a bananeira medre” (Sousa, 1918, p.357-358). Ainda que parcialmente, o projeto iniciou em 16 de janeiro de 1920, quando se dirigiu ao Pará para fundar uma Colónia Agrícola Naturista. Partiu no Anselm, da Booth Line (Liverpool), sendo portador de um passaporte diplomático. Seguiu incumbido pelo ministro do Interior, o coronel Ernesto de Sá Cardoso (29 jun. 1919 a 15 jan. 1920), em missão gratuita de estudo de higiene, segundo declarou em entrevista ao jornal A Capital, poucos dias antes de deixar o país (O Vegetariano, 1920b, p.76-79) e fundeou na baía Guajará, em 28 de janeiro (Sousa, 1920b, p.27-28). A viagem de dez dias no mar compreendeu muitos enjoos, uma escala na ilha da Madeira e uma quarentena de oito. Foi acompanhado por A. Pereira e J. Marques, de quem nada se sabe (Sousa, 1920c, p.58-60). A colónia-sanatório era um projeto que contava com a participação de A. Watters, um filantropo inglês, natural de Liverpool, que havia vivido no Chile, na Inglaterra e na ilha da Madeira, e o havia convidado para, em comunhão de esforços, levar o projeto a bom fim (Sousa, 1920d, p.42-43).

Nas vésperas do embarque, Amílcar de Sousa já tecia elogios ao país que o iria receber: “o Brasil hoje ensina Portugal, que o descobriu, em assuntos de higiene social e individual” (Sousa, 1920e, p.76-79). Mas a chegada não foi auspiciosa, a quarentena desesperou-o, levando-o a acusar as autoridades de saúde de incompetência, ao mesmo tempo que escreveu um protesto que enviou e terá feito publicar na Folha do Norte. Aproveitou a oportunidade para pedir um cacho de bananas para poder continuar a sua dieta frugívora. Porém, no meio desse revés, e ainda sem chegar a terra, já manifestava o seu deslumbramento pela natureza prodigiosa da região amazónica: “Tem a força indómita dos elementos enérgicos cheios de mocidade e poder criador” (Sousa, 1920e, p.79).

As crónicas continuaram após o desembarque. Por meio delas, os leitores de O Vegetariano foram sendo informados das expetativas e das desilusões do médico que tinha elegido os trópicos como sinónimo de paraíso. Em abril, num texto intitulado “Pela América: el-rei álcool”, Amílcar de Sousa fez um elogio à higiene pessoal – banho diário – e à higiene doméstica – com a prática das casas desinfetadas –, mas logo atacou as dietas das populações, que considerou desadequadas, e o facto de o álcool dominar (Sousa, 1920f, p.84-85). Em outra crónica, comparou a situação do Norte do Brasil com a de Portugal, perspetivando as diferenças no pós-guerra. Salientou a riqueza da terra, mas não esqueceu de afirmar que quase ninguém a cultivava. Ainda pairava, na ótica do médico, a miragem da borracha e os gastos excessivos, possíveis antes devido ao elevado lucro que aquele produto permitia. Por outro lado, enfatizou o elevado preço dos géneros alimentares. A comparação, ainda assim, não beneficiou Portugal:

Aqui, pelo menos, não há fome. Não há esse desassossego constante que se vê nas cidades, sobretudo, escravizadas aos mil açambarcadores feitos com essas várias tribos de políticos vermelhos ou azuis que levam Portugal à mais abjeta e perigosa ruina moral, económica e política (Sousa, 1920g, p.104).

O médico português alojado no palacete do Ferro (trata-se do palacete Vítor Maria da Silva, também conhecido como Casarão do Ferro de Engomar, o qual possuía painéis de azulejos figurativos Art Nouveau, da responsabilidade de A. Arnoux e Boulanger & Cie.), situado na estrada do Marco, linha do Sousa, continuou a registar as suas impressões do Pará – “terra onde se comem lagartos, caranguejos, peixe cheirando mal e muita carne podre”, além de beber café e cachaça – e a urdir projetos, um deles dedicado às crianças, as quais, após terem sido alimentadas com o leite materno deveriam começar o regime crudívoro, “crescendo indemnes do pecado culinário” (Sousa, 1920h, p.113).

Entretanto, começaram a ser visíveis as diferenças de opinião entre Amílcar de Sousa e A. Watters. Em maio, os leitores de O Vegetariano ficaram informados acerca dos desejos do médico, isto é, a fundação da colónia nos arrabaldes de Belém. Porém, o seu interlocutor pretendia construí-la no interior. Aparentemente, teria mudado de opinião após a leitura de algumas páginas da obra do médico português O naturismo, na qual se especificaram as vantagens – de abastecimento e de comércio de excedentes – de viver fora das cidades, embora perto delas. Amílcar de Sousa rematou: “Eu não iria com ele para o interior selvático e rude” (Sousa, 1920h, p.112).

Em junho, o destino do projeto parecia claro. Amílcar de Sousa publicou o diagnóstico que fez, a título pessoal, de A. Watters: “Não tem vigor suficiente, nem condições de resistência para viver muito tempo, tanto mais que não tem dentes, não mastiga bem os frutos e, sobretudo, as nozes de várias espécies, as deliciosas sapucaias e o saboroso coco” (Sousa, 1920i, p.122). E, tanto ou mais relevante, as opiniões e projetos de cada um apresentavam divergências indissolúveis. O médico português não desejava que os membros da colónia que pretendia fundar fossem pessoas contemplativas, que apenas se dedicassem a comer frutos, ele valorizava o trabalho, projetando criar uma “indústria agrícola” anexa à colónia. Ora, essas ideias entraram em choque frontal com as do inglês, que queria eliminar trabalho, comércio e indústria, em suma, qualquer tipo de relação económica. O espírito competitivo manifestou-se: lamentou não ter meios económicos para se fundarem duas colónias, uma em frente da outra, cada uma delas com o nome do seu fundador. Desse modo, verificar-se-ia qual delas teria sucesso (Sousa, 1920i, p.122-123).

O desfecho não tardou. Em julho, os leitores de O Vegetariano ficaram informados do insucesso do projeto. Os dois homens separaram-se. A. Watters dirigiu-se para o interior do Pará, e Amílcar de Sousa prosseguiria a sua viagem rumo ao Rio de Janeiro. Os comentários foram escassos: “Watters é um filósofo que quer ir viver entre os índios, no interior. Eu não acompanho ao sertão este homem de ciência. O meu fim era fundar, nos arrabaldes do Pará [de Belém do Pará], uma colónia sanatório para tratar dos doentes e pessoas viverem juntamente ou separadamente a vida conforme a natureza” (Sousa, 1920j, p.153).

Em 1920, a prática do frugivorismo no Pará ainda seria muitíssimo limitada, pois, poucos anos antes, em 1912, O Vegetariano publicava que havia “numerosas e valiosas adesões” de pessoas daquela região à Sociedade Vegetariana Portuguesa (incluindo uma lista de 16 pessoas), mas acrescentando que à frente do movimento se encontrava o advogado paraense Alfredo Sousa. Aproveitou-se ainda para exortar os benefícios do naturismo, depois de referir que o clima do Pará era depauperador e a região precisava de alterar as práticas alimentares: “[o Pará] precisa deveras de reforma alimentar por nós preconizada, pois nela encontrará os inúmeros benefícios de ordem física, social e moral e até económica de que os seus filhos, e os que a hospitalidade demandem, têm absoluta necessidade para poderem vencer na luta pela vida” (O Vegetariano, 1912, p.205).

O médico naturista português deixará de dar notícias acerca de A. Watters e rumará para sul. Embarcou no vapor Pará, da companhia Lloyd Brasileiro – companhia brasileira fundada em 1894 –, e, no Rio de Janeiro, instalou-se, na maior parte do tempo, na Pensão Vegetariana, situada na rua da Alfândega, n.120, propriedade de Ana de Aguiar. O estabelecimento servia duzentas a trezentas refeições diariamente. Encontrou-se com Cândido Craveiro logo que chegou, de tal modo que nos primeiros dias permaneceu na mesma casa, junto da praia de Santa Luzia, tendo-se mudado posteriormente para a residência de um amigo, Acácio de Lannes, onde optou por uma cama de campanha para dormir. Como qualquer visitante da cidade, deslumbrou-se com as belezas naturais e fez diversos passeios, hoje diríamos roteiros turísticos, pois visitou o Pão de Açúcar, a Urca, Copacabana…

Durante a estada, notou, de novo, a higiene pessoal dos brasileiros – o banho diário era comum – e a das casas. Fez quatro conferências, uma na Associação de Agricultura Brasileira, outra no Salão do Jornal do Commercio, outra ainda na Biblioteca Pública e, finalmente, no Pavilhão Mourisco de Botafogo (Sousa, 1920l, p.169-173). As notícias sobre essas manifestações públicas e as entrevistas que deu foram posteriormente sendo publicadas em O Vegetariano. Regressou a Portugal no navio Almanzora, ainda em 1920.

Sucessos e insucessos do naturismo português

Independentemente da opção de cada um, omnivorismo, vegetarianismo ou veganismo, as simpatias pelo naturismo começaram a cativar portugueses de forma organizada no início do século XX, muito particularmente por intermédio de figuras como Amílcar de Sousa, Manuel Teixeira Leal, Jerónimo Caetano Ribeiro e sua mulher, Julieta Rodrigues Ribeiro, Ângelo Jorge, Jaime de Magalhães Lima e alguns outros. O mais entusiasmado e exuberante dos divulgadores foi Amílcar de Sousa: não só praticou o naturismo e o vegetarianismo nas vertentes frugívoras e crudívoras, foi, avant la lettre, vegan, quando as bases desse movimento ainda não tinham sido codificadas nem as ideias conceptualizadas. Mas fez muito mais, por meio da palavra oral pronunciou conferências em Portugal, Espanha e Brasil e pela palavra escrita – livros e mais de uma centena de artigos, publicados quer na imprensa generalista, quer na especializada – divulgou as ideias vegetarianas e naturistas pelos países de língua portuguesa, em especial pelo Brasil, mas também pelos de língua castelhana, uma vez que várias das suas obras foram traduzidas para aquele idioma.

Na missão que chamou a si próprio, de divulgador da “dieta verde”, Amílcar de Sousa considerou-se e foi considerado missionário e apóstolo. Espírito inquieto e militante, denunciou o que entendia serem erros de nutrição e encorajou a adesão ao naturismo como a única opção que visava regenerar o homem e, consequentemente, a sociedade. Nesse sentido, o regresso à natureza, em oposição à degeneração e à vida artificial, repleta de consumos embriagantes e envenenadores como álcool, tabaco e carne, era imprescindível. Importava, contudo, ir além, integrando o uso de vestuário ligeiro, de escrupulosa higiene pessoal e da casa, prática de exercício físico e exposição regular do corpo ao sol e à água. Desse modo, defendeu projetos de regeneração do corpo e da sociedade, procurando criar seres com valores diferenciados dos da realidade em que viviam. É, consequentemente, a busca de um novo discurso sobre as relações entre o corpo e a sociedade, por meio de um sistema de valores e de regras comportamentais. Assim se compreende o empenho na criação de colónias naturistas.

Para levar a cabo a referida regeneração e pôr em prática uma vida de acordo com as leis da natureza, a escolha de regiões com climas quentes favorecia cabalmente a vida dos naturistas, uma vez que permitia uma alimentação à base de frutos variados de qualidade e em quantidade ao longo de todo o ano, fazer exercício físico ao ar livre, tomar banhos de ar, água e sol e usar roupa leve. Nesse contexto, o Brasil apareceu aos olhos de vários adeptos das práticas naturistas, naturais e estrangeiros, como o novo Éden. No caso dos projetos portugueses para estabelecer colónias naturistas, o Pará foi o local escolhido, primeiro em Boim, na margem esquerda do rio Tapajós (atual distrito de Santarém) e depois nas redondezas da cidade de Belém. Ambos fracassaram, tornando claro que os modelos de organização social pretensamente mais perfeitos do que aqueles em que estavam inseridos não tinham cabimento. Concretizava-se a utopia, isto é, a sociedade ideal, justa, racional, perfeita e inalcançável.

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Recebido: 12 de Setembro de 2017; Aceito: 13 de Dezembro de 2017

Translated by Rebecca Atkinson.

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