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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2019

https://doi.org/10.1590/s0104-59702019000100004 

ANÁLISE

Métodos de preparação para o parto: um estudo sobre materiais impressos publicados no Brasil em meados do século XX

Lilian Fernandes Arial Ayres1 
http://orcid.org/0000-0003-3809-2660

Luiz Antônio Teixeira2 
http://orcid.org/0000-0001-8871-0928

Bruno David Henriques4 
http://orcid.org/0000-0002-6844-6661

Anna Karolina Gomes Dias5 
http://orcid.org/0000-0003-0737-0103

Wellington Mendonça de Amorim6 
http://orcid.org/0000-0002-5104-4105

1Professora, Departamento de Medicina e Enfermagem (DEM)/Universidade Federal de Viçosa (UFV). Viçosa – MG – Brasil. lilian.ayres@ufv.br

2Professor, Universidade Estácio de Sá; pesquisador, Casa de Osvaldo Cruz/Fiocruz. Rio de Janeiro – RJ – Brasil luizantonioteixeira@gmail.com

4Professor, DEM/UFV. Viçosa – MG – Brasil. bruno.david@ufv.br

5Enfermeira, Centro Capixaba de Oncologia. Vitória – ES – Brasil. annakarolinagdias@gmail.com

6Professor, Departamento de Saúde Pública, Escola de Enfermagem Alfredo Pinto/Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro – RJ – Brasil. amorimw@gmail.com


Resumo

Discute-se a difusão das práticas de parto natural por meio da análise dos livros Parto natural: guia para os futuros pais, escrito pelo obstetra americano Frederick Goodrich Jr. em 1950 e publicado no Brasil a partir de 1955, e Parto natural sem dor, escrito pelo obstetra brasileiro George Beutner, em 1962. Ambos tiveram boa entrada na cultura brasileira e influenciaram a forma de pensar o parto e de parir, tanto no âmbito da obstetrícia brasileira como no que concerne às representações das mulheres. A partir das contribuições de Roger Chartier e das concepções sobre medicalização, concluímos que essas novas práticas de preparação do parto compartilhavam as visões médicas sobre o parto e o nascimento predominantes no período.

Palavras-Chave: nascimento; parto normal; parto sem dor; manuais

Abstract

The article explores the dissemination of natural childbirth practices through an analysis of the books Parto natural: guia para os futuros pais, written by U.S. obstetrician Frederick Goodrich Jr. in 1950, under the title Natural Childbirth: a manual for expectant parents, and first published in Brazil in 1955, and of Parto natural sem dor, written by Brazilian obstetrician Beutner in 1962. Both books found a place in Brazilian culture and influenced thinking about childbirth and delivery in the field of Brazilian obstetrics and in representations of women. Based on Roger Chartier’s contributions and on concepts of medicalization, we conclude that these new practices for childbirth preparation shared the period’s prevalent medical views of childbirth and delivery.

Key words: birth; natural childbirth; painless childbirth; manuals

Os métodos e as técnicas de preparação para a gestação vêm angariando cada vez mais leitores, espectadores e espaços institucionais. No Brasil, constata-se a disseminação de uma diversidade de suportes de comunicação como livros, manuais, revistas, jornais, reportagens de televisão, páginas na internet, entre outros, que visam ensinar as mulheres, seus companheiros e seus familiares a melhor maneira de gestar, parir e maternar.

Essas preocupações são, de alguma forma, caudatárias das técnicas alternativas de preparação para o parto surgidas no âmbito da medicina a partir da década de 1930 e muito difundidas na década de 1950. “Parto sem temor”, “parto natural”, “parto sem dor” foram as palavras de ordem de um grupo de obstetras que buscavam levar às mulheres novas práticas de parto, com menos intervenções e mais conforto. A partir de meados do século XX, essas novas teorias sobre o parto, já difundidas nos países europeus e nos EUA, foram propagadas na cultura brasileira por meio de impressos, congressos, conferências e cursos. Seus divulgadores destacavam a importância da preparação da mulher e de seus familiares para o parto. Além disso, acentuavam a importância da educação para o parto, devendo ser ressaltado que vários obstetras postulavam que a parturiente deveria ler livros que prescrevessem cuidados relacionados a esse processo (Ayres, 2014).

No Brasil, a difusão dos novos ideais de parto se vincula ao processo de intensificação da medicalização1 da vida urbana, ocorrida a partir de meados do século passado. Uma das características inovadoras desse processo foi a popularização de concepções e práticas médicas em materiais impressos, muitas vezes publicados por médicos ou representantes das indústrias de produtos de consumo. Kobayashi e Hochman (2015) apontam a transformação de hábitos das camadas médias urbanas a partir do surgimento de novos produtos industrializados relacionados à saúde e à higiene e sua divulgação por meio da imprensa e da publicidade. Freire (2008) ressalta que o papel dos médicos higienistas se legitimou pelo discurso, veiculado em revistas femininas, que condenava o exercício tradicional da maternidade. Santos (2011), por sua vez, analisou o livro A vida do bebê, do médico Rinaldo de Lamare, publicado pela primeira vez em 1942, mostrando como esse manual de puericultura desempenhou uma função pedagógica, ensinando mães e pais a como agir com seus filhos, e difundiu a cultura médica entre as camadas urbanas.

Aos materiais escritos por médicos brasileiros somavam-se os livros importados. Durante muito tempo o Brasil importou obras internacionais que eram muito vendáveis para as camadas de maior poder aquisitivo. A década de 1950 foi marcada pela ampliação dessa importação, principalmente de materiais produzidos nos EUA, que passaram a ser o principal fornecedor para o Brasil (Hallewell, 1985). A maioria desses livros era das áreas de medicina, engenharia, física, química e técnicas em geral, incluindo artes (Lopes, 1978). Nesse contexto, inicia-se a importação de livros sobre o parto normal de outros países, como EUA, Inglaterra, França e Holanda (Ayres, 2014).

Entre as publicações destinadas às mulheres, destaca-se o livro Parto natural: guia para os futuros pais, escrito pelo médico americano Frederick Goodrich Jr. em 1950, traduzido e publicado pela Livraria Atheneu em 1955.2 Caracterizando-se como uma das obras centrais na difusão das ideias do movimento de preparação para o parto natural, iniciado nos anos de 1950, esse livro teve boa aceitação no Brasil, sendo reeditado em 1957, 1960 e 1964. Ao folheá-lo, observa-se o objetivo de disseminação de um discurso pedagógico para as mulheres, com a finalidade de formatar pensamentos, atos e práticas culturais concernentes ao parto normal. Essa característica permite classificar a obra como manual educativo, que, segundo Chartier (1988, 2004), é um tipo de publicação que pretende incorporar, nos indivíduos não especialistas em um determinado assunto, os hábitos e práticas necessários ou convenientes à sociedade.

Este estudo tem como proposta analisar o livro Parto natural: guia para os futuros pais, utilizando como contraponto a obra Parto natural sem dor, escrita pelo ginecologista brasileiro George Beutner (1962), com o objetivo de difundir as principais teorias sobre parto natural. Argumentamos que as duas obras, além de difundirem os preceitos das novas concepções sobre o parto direcionadas ao conforto das gestantes, exerceram uma função pedagógica prescritiva, que visava promover comportamentos específicos às mulheres, em conformidade com o poder normativo de um grupo de médicos, sem, contudo, ampliar a sua autonomia no parir.

Em relação ao tema de análise, seguimos o caminho aberto pela historiadora Paula Michaels (2010), que, em estudo sobre as narrativas de nascimento utilizadas por Lamaze e seus colaboradores para a difusão de seu método de parto, mostra sua natureza dúbia e conflitante em relação à distribuição do poder entre mulheres e obstetras no âmbito das escolhas relacionadas à gravidez e ao parto. Para a análise das obras foi utilizada a perspectiva conceitual do historiador francês Roger Chartier e de estudos relacionados com a história cultural. Essa perspectiva converge para uma maneira de questionar a realidade, trazendo as referências da cultura e destacando a função das representações (Chartier, 1988).

Postula-se que, para a produção de um livro, algumas práticas culturais (de ordem autoral, editorial e artesanal) e representações são acionadas (Barros, 2011). As práticas culturais veiculadas nas diferentes obras se referem ao modo como os seres humanos falam, calam, discutem, conversam, sentam, andam, comem, bebem, adoecem e morrem. O livro, após sua produção, transmite novas representações e novas práticas. Essas práticas geram padrões de vida cotidiana e são também criadoras de usos e de representações que não são redutíveis às vontades dos produtores dos materiais impressos. A aceitação dos modelos e das mensagens propostas ocorre por meio dos arranjos, dos desvios e, às vezes, das resistências, que manifestam a singularidade de cada apropriação (Chartier, 2004). Portanto, o ato de parir entre as brasileiras consumidoras desses materiais não pode, de maneira nenhuma, ser reduzido ao que é neles apresentado, mas sim a novas práticas recriadas e coconstruídas nas relações com essas produções literárias.

A disseminação dos métodos de preparação para o parto

Os anos de 1950 foram marcados pela intensificação da medicalização do parto. O grande desenvolvimento da assistência hospitalar e do aparato biomédico consolidou o processo, em curso desde o início do século XX, de hospitalização do nascimento em diversos países da Europa e nos EUA. Na contramão, o modelo de parto medicalizado começou a sofrer críticas a partir da concepção de que as dores por que passavam as mulheres não eram – como queriam os religiosos – um problema inerente ao processo de parturição, e sim uma consequência do medo e do despreparo corporal e psíquico vivido pela parturiente. Essa perspectiva também se alinhava à crítica ao excesso de intervenções médicas no parto e à passividade das gestantes nesse processo. Nomeadas de diversas formas, as novas perspectivas de parto surgidas dessas críticas vão ser elaboradas por obstetras alternativos que criaram distintos métodos de parto, que podem ser enfeixados no que ficou conhecido como o movimento do parto sem dor (Diniz, 2005).

Na década de 1930, o médico inglês Grantly Dick-Read elaborou uma teoria de preparação para o parto, então denominada “parto natural”. Ele afirmava que o sofrimento do parto não se relacionava ao evento e sim a temores disseminados socialmente e entranhados na mente das parturientes, que podiam ser eliminados por um novo tipo de treinamento e educação para o parto. Seu primeiro livro, Natural childbirth (1933), não teve boa recepção, mas sua segunda obra, Childbirth without fear, publicada em 1942, tornou-se um sucesso de público nos EUA na década seguinte (Freddi, 1973; Moscucci, 2003). Ainda nos anos 1940, os médicos Frederick Goodrich Jr., Herbert Thoms e Robert H. Wyatt instituíram, na Universidade de Yale (EUA), a concepção de preparação emocional e física para o parto, que ficou conhecida como teoria do parto natural (Goodrich Jr., 1953). Por fim, no início dos anos 1950, o obstetra francês Fernand Lamaze criou o método que ficou conhecido como “parto sem dor”. Lamaze havia tomado conhecimento da utilização da hipnose para a preparação do parto em maternidades soviéticas, em uma viagem a trabalho, e se interessou pelo método, adaptando-o para a utilização em Paris (Lamaze et al., 1956).

Com o apoio da esquerda francesa, Lamaze difundiu o método do parto sem dor pela França, conseguindo até mesmo a aprovação de uma lei que garantia às gestantes francesas algumas seções de preparação para o parto segundo o método de Lamaze.

Os lamazistas pregavam que a preparação da gestante para o parto lhes permitiria não perder o controle das emoções, sobretudo durante o trabalho de parto, ocasião em que uma grande parte delas padece de fortes dores. A ideia era devolver às mulheres seu protagonismo no parto e libertá-las do peso do imaginário católico-cristão sobre suas mentalidades, de tal forma a fazerem-nas perder a capacidade de suportar a dor. As dores do parto eram vistas como passíveis de controle, apaziguamento e até mesmo de substituição por sensações de prazer, desde que as mulheres fossem educadas, de forma racional, contrariando o vaticínio bíblico da mater dolorosa que traz como corolário a submissão aos poderes masculinos (Tornquist, Spinelli, 2009, p.136).

Segundo Salem (1983), esse movimento de revisão do parto pode ser caracterizado como uma ação de correntes heréticas da obstetrícia que, nesse período, disputavam um lugar de legitimidade e de poder no campo biomédico. Em comum, traziam a concepção de que um parto mais confortável e até prazeroso era possível, por meio do maior protagonismo da mulher no processo e de uma crítica ao excesso de intervenções médicas no parto. Sua atuação geraria diferentes formas de pensar e viver o nascimento, contribuindo para as mais recentes concepções de humanização do parto.

As novas práticas de parto correram em paralelo à ampliação das preocupações mundiais com a assistência obstétrica oferecida à mulher e ao recém-nascido. Em 1951 foi publicado o primeiro relatório do Comité d’Experts de la Maternité da Organização Mundial de Saúde (OMS), que define a “proteção da maternidade” por meio dos seguintes objetivos: assegurar a saúde das mulheres ao longo da gestação e durante o aleitamento materno, dar às mães ensinamentos quanto aos cuidados necessários com seus filhos e permitir que elas deem à luz normalmente e a crianças sadias. O comitê recomendou que algumas instruções deveriam ser ofertadas à mãe, entre elas: psicologia da gestação e do parto, modificações somáticas e psicológicas suscetíveis de se produzir ao longo da gravidez, justificativa dos exames efetuados e preparação (física e psicológica) para o parto (OMS, 1952).

No Brasil, o campo médico interessou-se por essas novas práticas de parto. No Rio de Janeiro, em 1953, Arnaldo de Moraes (1953), diretor e proprietário da revista Anais Brasileiros de Ginecologia, um dos principais jornais de ginecologia e obstetrícia do país, descreveu alguns fragmentos do livro de Dick-Read, publicado em 1951, afirmando que os aspectos psicossomáticos da parturição, à época, chamaram atenção dos obstetras nas universidades e nos estabelecimentos de ensino em muitos países. Seu texto informava que os participantes brasileiros do décimo segundo Congresso Britânico de Obstetrícia e Ginecologia, realizado em 1949, tiveram a oportunidade de visitar a Maternidade da Universidade de Londres e assistir à prática dos exercícios musculares no preparo para o parto natural, acrescentando que, a partir disso, conheceram as ideias de Grantly Dick-Read.

Arnaldo de Moraes (1953) reafirmou o valor do programa medicalizado de preparação para o parto natural, indicando que Herbert Thoms e Frederick Goodrich Jr. haviam conseguido ótimos resultados com o método de Dick-Read no Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Universidade de Yale, nos EUA, a partir de um programa educacional que compreendia treino físico para as gestantes e lições dadas no começo da gestação e, novamente, na última metade do terceiro trimestre (após a trigésima semana de idade gestacional). Ele ressaltou que a compreensão dos fenômenos fisiológicos da gestação e do parto, por meio de ensinamentos de médicos e enfermeiras, reduzia a ansiedade e aumentava a confiança da mulher. Além disso, o autor acrescentou que essas medidas deveriam ser empregadas pelas clínicas de pré-natal brasileiras.

O interesse pelo tema se intensificou a partir da tradução de artigos para o português e de sua publicação nas seções de novidades das revistas científicas brasileiras. Logo tiveram início a produção e a publicação das aplicações ou dos experimentos do método. A título de ilustração, pode-se destacar o artigo intitulado “Introdução à obstetrícia psicossomática”, escrito pelo médico Edgard Braga e publicado em 1953 na Revista de Ginecologia e d’Obstetrícia. Ele cita o método pavloviano sobre os reflexos condicionados e ressalta que, a partir dessa conjectura, outros pesquisadores constituíram um novo método:

O chamado ‘método psicoprofilático de analgesia’ – de base educacional, e que consiste em dissipar ou eliminar o medo e as emoções negativas, excluindo na mulher grávida a ideia de fatalidade do sofrimento, ora criando pela sugestão novas relações cordiais sobre o termo do próprio parto, ora ensinando que este não passa de fenômeno natural, absolutamente fisiológico, em que pese o paradoxo. Vasto é, pois, o campo desvendado do advento da obstetrícia psicossomática (Braga, 1953, p.30; destaque no original).

Ao analisar os Anais Brasileiros de Ginecologia, constata-se que, principalmente após os anos de 1950, o tema circulou com frequência, mas de modo irregular, com resumos de artigos, cursos de capacitação e ensaios do método (Ayres, 2014). O médico George Beutner relata que era muito comum rotular de charlatão quem se propusesse a divulgar os métodos de parto natural, pois o ceticismo por parte dos leigos, dos entendidos e mesmo por parte da medicina ortodoxa estava muito presente. Beutner (1962) ressalta que as ideias sobre o método rapidamente ganharam espaço no campo obstétrico brasileiro, em virtude dos resultados obtidos por pioneiros em suas aplicações.

A obra Parto natural: guia para os futuros pais

Para proceder à análise de uma obra escrita, é conveniente regressar ao objeto impresso e interrogá-lo em suas estruturas. É ele que prescreve formas de leituras, modos de compreensão e os diferentes públicos a serem alistados. Na materialidade do livro e nos dispositivos editoriais constitutivos da obra é possível reconhecer as estratégias que conformam esses dispositivos de leitura (Chartier, 1988; Toledo, 2010).

O livro Parto natural, em brochura, apresenta formato retangular, tamanho 14x19cm – bolso francês. Esse tamanho reduzido disseminou-se no Brasil a partir dos anos 1950, visando captar novos leitores e facilitar a vida das pessoas que possuem pouco tempo para leitura, porém se interessam por essa atividade (Szakacs, Durão, 2011). O tamanho contribuiu para o seu uso, uma vez que o leitor podia transportá-lo e abri-lo com tranquilidade e conforto em qualquer espaço social e nos diferentes momentos do dia, até mesmo no transporte público ou durante o horário livre das atividades laborais do lar ou no trabalho externo.

As capas também são fundamentais para a difusão da obra. Muitas vezes o livro é escolhido pela capa. Ela funciona como uma propaganda do livro, um cartão-convite. A partir dela, busca-se a construção de uma identidade na qual os leitores, em sua primeira relação visual ou manual, já identificam o conteúdo, a quem ela pertence e a quem se destina (Manguel, 1997). No caso em tela, os elementos apresentados pressupõem a determinação de uma comunidade de leitores que se pretendia atingir inicialmente, futuros pais, sobretudo as mulheres, pessoas com competências, expectativas e percepções suficientes para identificar as representações da capa no que se refere às questões do parto normal.

A primeira, a terceira e a quarta edições apresentam a figura de uma mulher e um bebê desenhada em preto e branco na porção central (primeira e terceira) ou superior (quarta), ocupando em torno de 42% do espaço da página, o que demonstra a importância e a visibilidade que se quis dar à figura e à relação entre mãe e filho. A felicidade da mãe estampada na capa pode ser vista como a representação de um modelo imaginário: a ilustração de uma mulher (mãe) com o filho abraçado junto ao seu corpo, reforçando o seu papel social de procriadora e a função de maternagem. Assim, as mães são colocadas em primeiro plano e conclamadas a estabelecer o papel de cuidar dos filhos no seio familiar desde a concepção, ou seja, elas são colocadas diante de uma representação modelar da maternidade exibida na metáfora do sorriso no rosto em uma ocasião ímpar da vida. A personagem representa as mulheres que poderiam comprar, ler e degustar a obra. Sua imagem se associa ao título, indicando que o livro poderia proporcionar-lhes uma alegria incomensurável no momento de parir.

O título do trabalho também diz muito sobre os objetivos de seus autores. Acredita-se que o uso da palavra natural não segue somente a denominação utilizada pela teoria que o subjaz. Ela visa aproximar o público de uma característica de gênero que, desde o século XVIII, é atribuída ao feminino: a ideia de maior proximidade ao mundo natural e maior respeito a suas limitações e determinismos. Visa, também, englobar ambos os pais no processo do nascimento, ressaltando a imagem da família e do lar, além de aproximar as mulheres do parto hospitalar, prescindindo da assistência das parteiras e fora do âmbito domiciliar.

A obra Parto natural possui algumas inclinações impostas pelos dispositivos textuais e materiais, o que evidencia ser mais didática do que científica. O teor do conteúdo é, em sua maioria, científico, porém apresenta muitas adaptações que visam estabelecer condições favoráveis para que os leitores leigos não especializados, com pouca competência acadêmica, possam se apropriar do material a ser lido. O livro se organiza em capítulos numerados, seguidos de subtítulos que delineiam claramente os temas e os assuntos a serem expostos de forma pontual e direta. Araújo (2008) ressalta que um livro de divulgação precisa seguir esse atributo, pois a clareza da informação constitui o seu elemento preponderante.

A obra possui algumas ilustrações distribuídas ao longo do texto, em forma de blocos, que não estão articuladas com o conteúdo próximo a elas. Algumas figuras são do aparelho reprodutor feminino, do feto dentro do útero e de sua relação com o cordão umbilical e o útero. Outras são desenhos de corpos femininos grávidos, para demonstrar as melhores posições para exercitar as técnicas de relaxamento e respiração. Todas estão nas cores preta e branca, com alguns tons de cinza. As imagens apresentam uma função pedagógica que se diferencia do discurso apresentado nos textos (Chartier, 2004). A ênfase colocada pela obra nas imagens acentua a forma correta de relaxar e se exercitar.

De forma similar ao que ocorre em outros impressos, o uso das imagens tem como objetivo o aumento da capacidade de sedução da obra e o reforço de sua caracterização como texto estabelecido. Os desenhos dos corpos de mulheres grávidas de cócoras, das técnicas de relaxamento e respiração e de exercícios, como o balanceio pélvico, objetivam facilitar o processo de compreensão do conteúdo pelo leitor e reforçar as postulações existentes na teoria do parto natural, que prega a aplicação dessas técnicas corporais por meio de cursos e treinamento.

Essa sedução, no entanto, se dirige a um público específico. Parto natural se volta principalmente para mulheres letradas das camadas médias urbanas. Eram esses grupos sociais mais abastados que tinham condições financeiras para comprar o livro e consumir alguns dos produtos listados em suas páginas, como vestimenta, cremes para o corpo e alimentos. Além disso, eram essas mulheres que detinham competências específicas para a realização do ordenamento demarcado pela obra, ou seja, de preparação para a gestação, o parto e o pós-parto. Como informam Tornquist e Spinelli (2009), o método de preparação para o parto no Brasil, nas décadas de 1950 e 1960, restringiu-se às clínicas privadas, uma vez que ele era visto como uma forma diferenciada de cuidar, “um atributo a mais” que os médicos podiam ofertar às suas clientes.

A organização da obra Parto natural obedece ao desenvolvimento da gestação. Inicialmente, apresenta um histórico do parto natural (seção 1), seguida de uma argumentação em favor de um parto visto como natural, apresentada em forma de uma parábola (seção 2). Depois o livro traça detalhadamente a anatomia e a fisiologia dos órgãos da reprodução (seção 3). O capítulo 4 retrata a dinâmica da visita ao médico, os exames laboratoriais e a pelvimetria. Já na seção 5, o primeiro trimestre da gestação é descrito e complementado com os ensinamentos de relaxamento, exercícios e dieta (seções 6, 7, 8). Em seguida, acompanhando o desenvolvimento da gestação, fala-se sobre o segundo e o terceiro trimestres (seções 9 e 10). Posteriormente, aparecem os capítulos com assuntos referentes à alimentação ao seio, ao alojamento da criança (seção 11) e à fisiologia e à psicologia do parto (seções 12 e 13). Em seguida, o livro discute o período de pós-parto e a volta da mãe ao lar (seções 14 e 15).

Os parágrafos do livro geralmente são longos, chegando a ultrapassar cinquenta linhas. No entanto, as frases com frequência são curtas e objetivas. O texto segue o padrão editorial em termos de organização: começa com uma ideia central que, em seguida, é trabalhada de maneira minuciosa (Araújo, 2008). Apesar de o conteúdo ser parcialmente familiar, a leitura é rápida e fácil, pois a linguagem empregada é coloquial, rica em diálogos e envolvente. No entanto, a densidade dos parágrafos longos proporciona uma leitura que demanda pausa, marcas e competência intelectual. Essas características reforçam a ideia de que a obra, sobretudo pelo peso das informações e poucas ilustrações, destinava-se às mulheres de classe média e instruídas.

Ainda sobre a linguagem adotada na obra, ressalta-se o ponto de convergência com outros manuais educativos, cuja tendência é tornar o texto mais acessível por meio de frases simples e objetivas, sem investimento denso na linguagem técnica, apesar de trazer um conteúdo científico. Para isso, o livro Parto natural lança mão de certa vulgarização (jargão), com o uso de palavras como cacete, pimpolho, tolice, entre outras, o que é justamente útil para garantir a compreensão pela comunidade leiga de questões específicas.

O uso de vocabulário coloquial dá ao texto um tom de curiosidade divertida, o que visa criar um efeito de realidade suplementar, ao mesmo tempo que é proposto ao leitor um jogo de decifração. Essa estratégia permite que a comunidade de leitores encontre satisfação no segredo revelado e diversão diante de um vocabulário metafórico, regional e prazeroso. O uso do jargão nesse tipo de obra permite criar resultados burlescos, ao torcer e subverter as linguagens autorizadas e as regras da escrita legítima (Chartier, 2004). Dito de outra forma, a obra Parto natural, ao usar essas palavras, possibilita o desnaturamento dos textos científicos. Além disso, seu uso permite um jogo de aproximação entre os autores e a comunidade de leitores.

Nessa época, as revistas femininas já utilizavam dispositivos como léxico informal, narrativas confessionais e em primeira pessoa. Esse estilo proporciona uma proximidade entre a leitora e a revista, dando-lhe o papel de irmã mais velha ou amiga experiente (Heberle, 2004). O livro Parto natural utilizou essa estratégia, apresentando uma linguagem clara, com um palavreado coloquial, com o uso de gírias, de metáforas, de ditados populares e outros recursos da linguagem. Como exemplo podemos destacar que, ao falar do cóccix (parte final da coluna vertebral), o livro informava que “este representa tudo que nos restou do nosso rabo” (Goodrich Jr., 1955, p.36). Ao falar sobre as formas de prevenir determinados problemas, como a anemia na gestação, ressaltou que “é melhor prevenir que remediar” (p.55).

No decorrer da leitura da obra Parto natural, nota-se como foram empregadas algumas técnicas para aproximar o leitor do livro. O pronome “você” foi utilizado com muita frequência. Apesar de prevalecer a linguagem direta e acessível, trata-se do discurso de um médico que instrui, explica, argumenta e ordena. Compreende-se que, ao adotar uma linguagem direta e imperativa, ordenadora de comportamentos e práticas, visava-se à melhor assimilação dessas práticas por aqueles que têm maior acesso às informações oriundas do saber popular – muitas vezes negadas e recusadas pela obra – que são passadas de geração a geração. Nesse sentido, buscava-se estabelecer uma prática medicalizada de conduzir o parto, sob uma forma que ocultava o ordenamento prescrito às mulheres.

Parto natural, uma nova forma de medicalização do nascimento

Desde suas primeiras páginas, o livro Parto natural se apresenta como uma publicação direcionada a guiar as leigas numa atividade que tem como vértice o saber médico. Já na introdução do livro constata-se o progresso da obstetrícia a partir da valorização do médico no atendimento às parturientes. Inicialmente vistos como simples parteiros, ou mesmo proibidos de atuar nos partos, os médicos, a partir dos últimos três séculos, passaram a ser aceitos na cena de parto e a se voltar para a diminuição dos perigos do nascimento e para o aumento da segurança dos nascituros e das gestantes. Se os médicos obtiveram grande sucesso em relação à segurança do parto, não haviam conseguido o mesmo em relação ao prazer de dar à luz, e era esse o objetivo da obra.

O livro Parto natural reforça a importância do profissional médico, o que pode ser comprovado em diversas passagens, como: “mas, antes de fazer isto, é melhor consultar o seu médico” (Goodrich Jr., 1955, p.169). Esse especialista, detentor do saber científico, é visto como o profissional competente para transmitir as informações e os conselhos corretos. Essas afirmações e legitimações da figura médica aparecem com muita frequência no decorrer do texto, revelando mecanismos que objetivam tornar aceitáveis às mulheres as representações e os modos de conduzir o processo produzido por eles. Em sentido complementar, os conhecimentos, os saberes e a prática cultural das mulheres são desqualificados no livro, sendo caracterizados como inferiores e tolos. A conjugação desses dois procedimentos se traduz em um mecanismo de interiorização da ilegitimidade cultural da mulher na gestão de sua própria gravidez e de reforço da autoridade médica em relação ao corpo da mulher grávida.

A palavra “médico”, nas 239 páginas da primeira edição, é citada 266 vezes. Os dispositivos adotados pela obra reforçam a ideia de que o médico é o elemento primordial para a mulher, ao ofertar orientações úteis durante a sua gestação. A rede de elementos textuais permite o reconhecimento imediato do profissional médico como porta-voz autorizado das questões concernentes ao ciclo gravídico-puerperal. O livro, portanto, impõe uma concepção medicalizada para a mulher gestante e, embora se apresente como uma forma de Parto natural, é uma obra atravessada por prescrições, temas e cuidados pertencentes ao mundo da obstetrícia.

Como obra de divulgação de conhecimentos médicos, o livro apresenta uma contradição observada em outros manuais que visam levar conhecimentos e práticas exclusivas dos médicos ao público leigo (Guimarães, 2005), o que, neste caso, pode tornar dispensáveis algumas práticas de informações e aconselhamento. Para contornar esse problema, o autor informa no primeiro capítulo que sua obra se propõe a ser um suplemento dos cuidados que a mulher deve receber de seu médico: “Este é, provavelmente um homem ocupado e, uma vez que o tempo que pode ficar com você é limitado, fica impossibilitado de ajudá-la a se preparar para o parto como gostaria de fazer” (Gooodrich, 1955, p.3).

No segundo capítulo, a obra apresenta uma narrativa ficcional sobre os partos de Vera e Maria. A gestação e o parto do casal Maria e Fernando foi influenciada pelas histórias e superstições publicadas em jornais e contadas por amigas e familiares, o que levou ao desconhecimento, ao sofrimento, ao medo, à tensão e à dor durante o trabalho de parto. Essa situação tornou-se inadequada, em virtude da ausência do médico, que, apesar de oferecer uma assistência adequada, desempenha uma profissão com muitos afazeres, o que reduz o seu cuidado e o tempo dedicado à mulher e a seus familiares (Goodrich Jr., 1955, p.5-12). A história termina com Maria acordando sem se dar conta do que lhe acontecera. Após chamar a enfermeira, ela descobre que teve uma criança e a primeira coisa que lhe vem à cabeça, sugestionada pela situação em que se encontra, é caracterizada pela expressão “nunca mais”.

Já na segunda história – de Vera e Jorge – houve a compra e a leitura de livros relacionados com a gestação. Vera evitou as histórias relatadas pelas amigas, recusando as narrativas fantasiosas. Ambos frequentaram cursos para gestantes, visitaram o hospital, e ela praticou todos os exercícios orientados durante as aulas preparatórias. Vera se sentiu confiante e compreendeu todos os momentos da gestação e do parto e as orientações prescritas pelo médico (Goodrich Jr., 1955, p.13-19). A história termina com Vera em bom estado físico e se sentindo exultante, “às mil maravilhas” com sua criança.

Nos parágrafos finais dessa seção, destaca-se a principal diferença das duas histórias: Vera foi treinada para o parto, mais e melhor que Maria, e estava física, intelectual e emocionalmente preparada. O trecho retoma a ideia destacada no livro sobre a importância da preparação da mulher para o parto, reforçando a noção de que, embora o grande número de atividades dos médicos possa dificultar o acesso da mulher aos seus cuidados e às suas orientações, o livro supriria a ausência da figura médica. Assim, as situações hipotéticas são retratadas com o intuito de justificar a necessidade da leitura da obra por mulheres grávidas.

No capítulo 3, são apresentados os diversos aspectos da estrutura corpórea das mulheres, com ênfase nos aspectos relacionados ao parto. A parte esquelética e o aparelho reprodutor são longamente analisados, seguindo-se a explicação do processo fisiológico da concepção e do nascimento. A seção termina com uma explicação sobre o aborto, suas causas e os sintomas. Na seção 4, o tema é a visita ao médico e as ações praticadas pelo profissional para reconhecer a gravidez e tomar as medidas médicas adequadas ao seu bom desenlace. São apresentados os exames físicos que o médico deve realizar, em especial a medição da pélvis, os exames laboratoriais que serão solicitados e uma longa explicação de sua importância e funcionamento.

O objetivo também era instruir as mulheres em relação à fisiologia do parto, às práticas médicas de conhecimento do corpo das gestantes e ao diagnóstico de possíveis problemas. Salta aos olhos em toda a descrição a busca de uma postura submissa da mulher, que deve saber identificar as bases do conhecimento médico e as dinâmicas de suas práticas profissionais para poder aceitá-las e aplicá-las com maior tranquilidade. Os fragmentos abaixo deixam claro essa postura:

Durante sua gravidez haverá ocasiões em que você julgue necessário chamar seu médico... Não insista em falar com o próprio médico quando a enfermeira atender o telefone: ela mesma levará seu recado ao médico e transmitirá a resposta que ele der. Se houver necessidade de falar diretamente ao médico, ele compreenderá isso e virá logo ao telefone ou a chamará mais tarde...

Quando você telefonar, qualquer que seja a pessoa que atender, esteja segura de saber bem qual o problema que lhe preocupa. Se você tem dúvida sobre algum sintoma novo, seu médico quererá saber quando ele começou, durante quanto tempo se manifesta, outras minúcias semelhantes. Não deixe de telefonar se surgirem algumas dúvidas, mas procure acostumar-se a rotina do consultório médico e não insista em falar pessoalmente quando lhe disserem que isso não é possível (Goodrich Jr., 1955, p.67).

Nos capítulos que seguem, o livro procura instruir as mulheres sobre os diversos sintomas da gravidez e sua relação com as mudanças fisiológicas desse processo. A duração da gravidez, o momento da concepção e os sintomas, como náuseas, possíveis sangramentos, maior frequência da micção, prisão de ventre, são explicados detalhadamente.A construção do texto não difere muito de outros manuais médicos sobre o tema, acentuando a necessidade de repouso e relaxamento para minimizar os sintomas desagradáveis da gestação.

Uma parte longa do livro é dedicada ao relaxamento e à dieta. Em relação ao primeiro ponto, o texto postula a importância do relaxamento e do repouso como forma de fugir da tensão do dia a dia e sua especial importância durante a gravidez.3 O termo “relaxamento” é empregado no sentido de execução de uma atividade com o menor esforço possível. Em relação às grávidas, é postulada a importância de um relaxamento específico, obtido pela alteração na respiração, utilização de uma posição confortável em um local acolhedor. Apresenta-se uma série de exercícios para relaxamento, fortalecimento muscular e preparação dos seios para a lactação. Em relação à nutrição, é apresentada a importância de seguir uma dieta adequada e são informados os alimentos a serem consumidos, seus diferentes grupos e os nutrientes que proporcionam. Um aspecto ressaltado é a importância do controle do peso para evitar complicações. Seguem-se as informações sobre a importância da amamentação e as instruções para que ela aconteça sem sofrimento para as mães.

Deve-se ressalvar que o livro Parto natural teve como foco a descrição minuciosa do relaxamento e dos exercícios que se caracterizavam como a pedra fundamental da teoria que o sustentava. Além de possuir uma seção especialmente para essas questões, a obra disserta sobre elas nas diferentes fases do parto – ou a cada trimestre da gravidez. Como em outros livros de divulgação de uma determinada técnica, essa estratégia de repetição buscava promover o processo de convencimento, persuasão e apreensão do método.

Uma parte do livro (seção 12) se volta para o parto, sua fisiologia, as diferentes fases do processo, a indução ao trabalho de parto e a episiotomia. Este último ponto exige um esforço discursivo do autor, pois, em páginas anteriores, ele havia informado que os exercícios propostos no livro ampliariam a elasticidade do assoalho pélvico, facilitando o parto, no entanto, muitas vezes eles poderiam não ser suficientes para impedir a necessidade do procedimento. Para explicar o paradoxo, o autor se esforça para mostrar que a episiotomia não deveria ser temida, pois não causaria dor nem transtornos posteriores. Sem afirmar explicitamente, o livro acaba imputando à mulher a culpa pela necessidade do procedimento, então visto como natural.

Não há razão para acreditar que a episiotomia seja antinatural ou resultado do fracasso da mulher. Se ela fez tudo que pode para desenvolver eficiência dos músculos do períneo, talvez a episiotomia não seja necessária, mas de qualquer modo a mulher sempre terá a satisfação de ter se esforçado na preparação para seu parto (Goodrich, 1955, p.193).

A obra dá continuidade ao aconselhamento das futuras mães, tratando das sensações do trabalho de parto e dos aspectos do pós-parto. No primeiro ponto, os destaques são a questão da dor do parto e a utilização do relaxamento e da respiração para contorná-la. Todo o processo de intensificação das contrações e de como lidar com elas é detalhadamente explicado, como também são informadas as possibilidades de analgesia. Os últimos capítulos são dedicados ao período de pós-parto, informando sobre a volta ao lar, dieta, higiene e ajuste emocional da mãe.

Ainda que o livro Parto natural nos apresente a possibilidade de um parto natural, verifica-se que seu conteúdo está relacionado com o uso excessivo da tecnologia, com o consumo e com a dependência da opinião do médico, caracterizando-se como uma obra vinculada ao processo, então em curso, de ampliação da medicalização do parto. Dessa forma, o modelo de parto preconizado no livro não é de um evento menos normatizado e direcionado pela vontade das mulheres.

Tal configuração faz com que a figura do médico seja percebida como aquele que gerencia o evento e previne os riscos. Essa concepção foi sustentada ao longo do século XX e ainda permanece nas maternidades brasileiras, pois o parto normal ainda é visto como patológico tanto pela sociedade quanto pelos profissionais de saúde. Com isso, o médico assume a posição de saber e poder sobre a mulher, possibilitando a utilização de diversos procedimentos contrários à sua vontade e mesmo às evidências científicas vigentes (Nakano, Bonan, Teixeira, 2015).

Os manuais educativos de preparação para o parto em terras brasileiras

O livro Parto natural: guia para os futuros pais potencializou a publicação de diversas obras com características semelhantes no país. Sob o rótulo de “parto natural” ou “parto sem dor”, elas enfatizaram a normatização da gravidez e do nascimento na perspectiva inaugurada por Goodrich. Parto sem dor, escrito pelo médico francês Fernand Lamaze e equipe (1956); O que é parto sem dor: método psicoprofilático baseado na teoria dos reflexos condicionados de Pavlov, produzido por Schor, Lamaze e Petrovich (1958); Parto sem dor, elaborado pelo obstetra espanhol Adrian Vander (1974); e O parto sem dor, do obstetra francês Achille Economides (1977), foram algumas dessas obras traduzidas e publicadas no Brasil.

Os obstetras brasileiros também se voltaram para o tema: em 1958, Gerson de Barros Mascarenhas publicou Parto sem dor pelo método psicoprofilático, e, em 1962, George Beutner publicou Parto natural sem dor, pela Editora Fundo de Cultura. Utilizaremos este último para fazer contraponto ao livro de Goodrich, observado na seção anterior. Não conseguimos obter maiores informações sobre seu autor, no entanto, sabemos que ele era obstetra e que o livro foi destinado a dois públicos: aos leigos não especializados e aos profissionais de saúde (Ayres, 2014).

Beutner (1962) não se deteve na discussão dos métodos de parto normal já existentes, e sim na prescrição de uma prática de preparação para o parto cuja denominação foi “método psicoprofilático de preparo ao parto”. Além do título, o livro apresenta algumas semelhanças com o livro Parto natural, como tamanho, formato, capa e público-alvo. Apesar da ênfase de que o livro de Goodrich era destinado aos pais, sobretudo às mulheres, ele também foi utilizado pelos profissionais de saúde e incorporado ao acervo de bibliotecas de saúde de algumas universidades públicas brasileiras (Ayres, 2014).4

Diferentemente da obra Parto natural (Goodrich Jr., 1955), observada na seção anterior, o livro de Beutner apresenta, em algumas seções, conteúdo denso relacionado às especialidades médicas, o que talvez dificultasse o processo de inteligibilidade pela comunidade de leitores da época. Entretanto, como referido pelo autor, os leitores opinaram sobre a obra em uma pesquisa por ele realizada e entenderam que ela era clara e concisa. A existência desse diálogo entre os autores e o público mostra que a obra também foi designada às classes média e alta instruídas.

De forma semelhante ao livro de Goodrich, Beutner aborda assuntos como anatomia, fisiologia e trabalho de parto, e aprofunda a explicação dos reflexos condicionados, a partir de conceitos do fisiologista russo Ivan Pavlov, discorrendo sobre a importância dos exercícios, da respiração e do relaxamento como forma de atenuar as dores e o desconforto do parto. Essa parte, rica em conteúdo denso, fortalece a ideia de que um dos grupos de leitores almejados foi realmente o de profissionais de saúde, em especial as enfermeiras.

O autor também reforça a importância dos cursos de preparação para o parto. Ele descreve o modelo de um curso prático de preparação da mulher que deveria começar no início do período gestacional. Para Beutner, o treinamento deveria ser coletivo e estar adaptado às competências do público-alvo. O curso deveria ser dividido em duas partes, devendo-se destacar que a parte teórica caberia ao médico, de preferência um obstetra, e a parte prática, às enfermeiras. Nesse momento, as enfermeiras, preferencialmente as mais graduadas, articulariam o conteúdo teórico-prático, fariam intervenção, quando necessário, com o propósito de corrigir os erros, e avaliariam a compreensão do tema apreendido pelas mulheres.

A parte teórica, esta sim, e insistentemente o frisamos, deve ser ensinada por médico, preferencialmente, obstetra. Não assim por vaidade ou ‘ciúme’ profissional, mas sim pela influência que exerce o obstetra, pela confiança nele depositada, por parte da gestante, pois que nele reconhece o guia com autoridade e conhecimento, o que, em caso adverso, aplicará sua arte em seu (da gestante) benefício (Beutner, 1962, p.95).

Constata-se que, no campo da saúde obstétrica, estavam em jogo os monopólios da autoridade e da competência científica. A capacidade de falar e agir com legitimidade, isto é, com autoridade, é cultural e historicamente consentida a um agente ou a uma instituição. Era preciso fazer ver e crer na representação do médico diante de um grupo de mulheres. Havia a necessidade de se impor e de se manter dentro dessa representação que lhes conferia uma marca característica, justamente o cunho da medicina e o poder sobre a enfermagem. Os autores do livro Parto natural (Goodrich Jr., 1955) e da obra Parto natural sem dor (Beutner, 1962) determinaram claramente as competências do médico e da enfermeira na assistência à mulher no ciclo gravídico puerperal e na atuação nos cursos de preparação da gestante para o parto.

O livro Parto natural sem dor (1962) também utilizou os discursos das mulheres, suas experiências e os próprios resultados positivos das pesquisas realizadas sobre o método com intuito de destacar a importância e a credibilidade da sua prática. No livro é apresentada uma pesquisa elaborada pelo autor para avaliar a experiência de seu método. O estudo foi feito sob a forma de um questionário aplicado após o parto, que era anexado ao prontuário da mulher. Percebe-se que a aplicação do questionário era uma prática comum entre aqueles que empregavam o método de preparação para o parto e visava difundir os “bons” resultados do método proposto.5

O precursor da publicação desses depoimentos como recurso para a divulgação das novas práticas de parto foi o obstetra francês Fernand Lamaze, que, em 1956, teve os depoimentos das parturientes que atendeu reunidos em livro por seus colaboradores (Vellay, Vellay-Dalsace, 1956). Lamaze buscou reforçar o valor de seu método pela afirmação de sua cientificidade. Para tanto, propunha uma pedagogia científica do parto abalizada pela autoridade do médico. “Desde os primeiros cursos elas compreendem que jamais procuraremos persuadi-las; ao contrário, para educá-las agiremos por meio de demonstrações, trazendo para cada caso, fatos e provas” (Lamaze et al., 1956, p.102).

Na seção 9 da obra Parto natural sem dor (Beutner, 1962) constavam 14 questionários que se propunham a comprovar o que a aplicação do método representou para cada mulher. Destaca-se a última pergunta: “Em resumo: qual é a sua impressão sobre o método psicoprofilático?” As respostas apresentadas buscam evidenciar o sucesso de sua utilização: “foi ótimo, racional e eficiente”, “bom e interessante”, “não pode existir igual”, “é uma maravilha”, “melhores invenções”. Acreditamos que essa seção foi elaborada para convencer os leitores da cientificidade do método psicoprofilático por meio da comprovação dos eventos de sucesso.

Os trabalhos publicados por médicos brasileiros sobre as novas formas de parto mostram o desenvolvimento de um interesse do campo médico nacional na divulgação cultural sobre o parto na década de 1950. Tornquist (2002) ressalta que, embora esse movimento tenha surgido na França, na Inglaterra e nos EUA, desde a primeira geração o Brasil fez parte do itinerário dos obstetras envolvidos nas teorias de preparação do parto. A autora registra que, em 1956, Fernand Lamaze esteve no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, para realizar uma conferência sobre o parto sem dor, reforçando o interesse sobre essas novas práticas (Tornquist, 2004). A chegada de Fernand Lamaze ao país certamente contribuiu para a disseminação de sua teoria, e de diversas outras, e influenciou incipientemente a elaboração de livros escritos por autores brasileiros que visavam à propagação dos métodos de preparação para o parto. Esses acontecimentos mostram que, no Brasil, o momento era propício para obter, produzir, ler e semear os livros sobre teorias e métodos de preparação para o parto.

Considerações finais

Postulamos que a chegada dos manuais sobre os métodos de preparação para o parto ao país potencializou o interesse médico e editorial em relação ao tema, possibilitando o surgimento de iniciativas similares de autores brasileiros que incorporaram os objetivos de seus colegas estrangeiros e as formas de difundi-los entre as mulheres. Nesse aspecto, vale ressaltar que esses produtos culturais, tanto os de autores nacionais como os estrangeiros, foram endereçados a uma emergente classe média urbana em processo de expansão nas grandes cidades brasileiras. Suas diretrizes, seus valores e seus aconselhamentos não se aplicavam às mulheres das camadas populares, muitas das quais ainda afeitas a formas de parto irredutíveis aos parâmetros medicalizados propostos nessas obras.

Em relação à forma de parto apresentada nessas obras, ressaltamos que, sob o manto do termo “parto natural”, foi divulgado um novo modo de dar à luz que pouco se relacionava ao termo que o nomeou. Na verdade, os livros em tela tinham como base diferentes técnicas do saber médico, que mobilizavam uma nova forma de intervenção e controle do corpo grávido, obtendo a docilidade deste pela promoção de um modelo de parto idealizado pelas mulheres.

Os estudos da historiadora Paula A. Michaels (2010) sobre os depoimentos de mulheres submetidas ao método Lamaze demonstram a natureza conflituante desse método que, embora se apresentasse como uma forma libertadora de empoderar as mulheres em relação ao seu próprio corpo, mostrou-se, também, como uma maneira de manter o poder do obstetra sobre a mulher e o parto, a partir do reforço de sua autoridade profissional. De forma semelhante, os achados atinentes aos manuais analisados nesse estudo revelam o desenvolvimento de um modelo de parto, disseminado até os dias de hoje, que tem como núcleo a delimitação pela organização institucional da biomedicina e pelo poder dos obstetras (Davis-Floyd, Sargent, 1997) da capacidade das mulheres de exercerem sua liberdade no parto dada.

Nesse sentido, podemos dizer que os manuais podem ser caracterizados como agentes do processo de medicalização do parto que se intensificava em meados do século XX. Numa visão mais restrita desse conceito, podemos afirmar que, por meio dos manuais, a mulher foi encorajada a confiar seu corpo ao médico desde o início da gestação ou até mesmo antes da concepção, por meio de exames médicos pré-nupciais, seguindo nessa confiança mesmo depois do nascimento da criança (Lima, 2007). Numa acepção mais abrangente da ideia de medicalização, podemos dizer que esses manuais fizeram parte de um processo de ampliação da progressiva jurisdição da medicina aos diversos aspectos da vida. Embora evocassem um tipo de parto mais consciente em relação ao funcionamento biológico do corpo e menos dolorido e desconfortável, sua organização como produto cultural de uma determinada época fez com que eles se constituíssem como instrumentos de legitimação do poder da obstetrícia sobre as mulheres – mães e futuras mães, estabelecendo novas práticas fortalecedoras da vigilância, disciplina e homogeneização médica do processo de parto.

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1 O conceito de “medicalização” é hoje pensado a partir de diversas perspectivas: estratégias populacionais de salubridade; transformação de comportamentos desviantes em doenças; ampliação do consumo de medicamentos; ampliação da jurisdição da medicina sobre diferentes aspectos da vida e da sociedade etc. Neste artigo será utilizada a acepção de Foucault, segundo a qual medicalização se relaciona à impossibilidade de pensarmos e vivermos as experiências relacionadas ao corpo de forma independente da medicina. Ou seja, no mundo contemporâneo, indivíduos e sociedades são cada vez mais constituídos e compreendidos por meio de concepções e práticas relacionadas à medicina (Zorzanelli, Ortega, Bezerra Júnior, 2014).

2 A primeira edição americana do manuscrito foi publicada em outubro de 1950; a segunda, em novembro do mesmo ano; a terceira, em junho de 1953; e a quarta, em abril de 1954. Todas pela editora Prentice Hall, de Nova York.

3 Um aspecto interessante se relaciona aos exercícios para proporcionar conforto à posição do parto. O livro informa que, nas sociedades primitivas, era comum o parto de cócoras, que se apresenta como uma postura eficiente e adequada à mecânica (gravidade), mas a comodidade dos médicos gerou uma pequena modificação para facilitar o partejar. Dessa forma, a mulher deve se preparar para ficar de cócoras sobre as costas (com as pernas mantidas por suportes), numa posição adequada tanto para a mulher quanto para o médico.

4 Em pesquisa anterior, Ayres (2014) observou a existência do livro nas bibliotecas da Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Estadual Paulista, Universidade Federal de Brasília, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

5 Thoms e Wyatt (1950), com o intuito de comprovar as vantagens e desvantagens do programa “Parto Natural”, afirmaram possuir em seus arquivos mais de seiscentos questionários e ressaltaram que os questionários contribuíram para o aprimoramento do método.

Recebido: 30 de Novembro de 2016; Aceito: 3 de Março de 2017

Translated by Diane Grosklaus Whitty

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