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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 2019  Epub June 19, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702019000200023 

LIVROS E REDES

O percurso das drogas no império da anfetamina

The pathway of drugs in the empire of amphetamines

i Químico, Instituto Estadual do Ambiente, Rio de Janeiro. ricardosoaresuff@yahoo.com.br

OHLER, Norman. High Hitler, : como o uso de drogas pelo Führer e pelos nazistas ditou o ritmo do Terceiro Reich. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2017. 384p.

O livro High Hitler: como o uso de drogas pelo Führer e pelos nazistas ditou o ritmo do Terceiro Reich foi lançado em 2015, pelo romancista, roteirista e jornalista alemão Norman Ohler, e tornou-se imediatamente um bestseller na Alemanha, EUA e Grã-Bretanha, sendo traduzido até o momento para mais de 25 países. Essa é a primeira obra não ficcional do autor, que assume no prólogo que não pretende conceber um ensaio historiográfico, mas sim “uma perspectiva inconvencional e distorcida” ( Ohler, 2017 , p.13).

Embora Ohler tenha se valido de fontes documentais inéditas e valiosas, ao não adotar um procedimento teórico-metodológico mínimo, acaba por fazer afirmativas sem respaldo empírico. A polêmica obra descreve em tons fortes e com linguagem jornalística a necessidade crescente da utilização de estimulantes sintéticos pela sociedade alemã em geral e pela cúpula do Terceiro Reich em particular no período de 1933 a 1945. Além disso, o autor apresenta um amplo panorama no qual aborda historiograficamente a grande importância do segmento industrial químico-farmacêutico alemão na síntese de anfetaminas e “narcóticos que marcaram os acontecimentos no Estado nazista e nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial” ( Ohler, 2017 , p.12).

O livro é dividido em quatro partes, adotando uma linguagem que possibilita a leitura por uma ampla gama de leitores, quer estejam ou não familiarizados com o tema, mas assume um caráter trivial e sensacionalista nos importantes assuntos abordados, com isso sofrendo severas e justas críticas na revista Nature ( Weindling, 2016 ).

Na primeira parte, intitulada “Metanfetamina (1933-1938): a droga popular”, o autor narra a evolução histórica da síntese dos narcóticos na Alemanha desde o século XIX. Essa é a parte em que fica mais evidenciado que, embora o livro não tenha a pretensão de ser um “livro de história da química”, encaixa-se perfeitamente no perfil de “livro de química na história”, pois descreve com detalhes não só a síntese dos novos narcóticos, mas também, indiretamente, “o ambiente sem paralelo para investigação científica original alemã, inspirada por um grandioso ideal científico – Wissenschaft ” ( Stokes, 2005 ).1

Ohler elucida didaticamente a trajetória das drogas sintéticas fabricadas e utilizadas na Alemanha e suas relações com a sociedade do período, colocando como ponto de partida a síntese da morfina por Friedrich Wilhelm Adam Sertürner em 1804 e indo até a síntese e comercialização em larga escala do Pervitin (metanfetamina), aquela que, segundo o autor, viria a ser a droga preferida pela Wehrmacht (Exército, Marinha, Força Aérea e tropas da Waffen-SS ).

Na segunda parte, “Siegh High: guerra relâmpago é guerra de metanfetamina (1939-41)”, são apresentadas provas documentais inéditas que indicam a realização de experimentos com Pervitin pelo professor doutor Otto F. Ranke em estudantes voluntários da Academia de Medicina Militar, visando obter resultados científicos acurados a respeito de um possível aumento de rendimento fisiológico e intelectual.

Ohler sugere de forma veemente que o vício crescente de Hitler por doses cada vez mais fortes de remédios patenteados teria prejudicado sua capacidade de julgamento em questões estratégicas, como na batalha de Dunquerque. Essa e outras afirmações feitas no livro são ilações difíceis de serem comprovadas, servindo mais como especulações do que como síntese balanceada, o que trouxe enorme repercussão negativa ao livro na comunidade científica internacional ( Weindling, 2016 ).

A terceira parte do livro, “High Hitler: o paciente A e seu médico particular (1941-44)”, demonstra o apogeu da influência do doutor Morell, que, de médico desprezado e ridicularizado, passa a ser o preferido pela alta cúpula do Reich. Ohler indica que, conforme a escalada dos acontecimentos se desdobra no teatro de operações na Europa, o médico de Hitler avançava na construção de um império farmacoquímico que poderia abastecer com anfetaminas a Wehrmacht. É interessante notar que o médico, na construção de seu conglomerado químico-farmacêutico, utilizou fortemente uma das estratégias já consolidadas desde o século XIX pela ciência e tecnologia germânicas: fez das suas indústrias palco de desenvolvimento tecnológico e de ciência aplicada tais como eram vistos nas consistentes universidades alemãs voltadas ao ensino das ciências da engenharia, as Technische Hochschulen ( Stokes, 2005 ).

Ohler especula, de forma irresponsável, que enquanto a situação nos fronts orientais e ocidentais se deteriorava, cada vez mais Hitler se desconectava da realidade e seu médico passava a lhe prescrever uma nova e mais potente droga sintetizada a partir do ópio, o Eukodal. Além disso, após sofrer um atentado em 1944, Hitler passara a receber também mais uma droga, a cocaína.

Finalmente, na última parte do livro, “Excessos tardios: sangue e drogas (1944-45)”, Ohler (2017 , p.279) retrata que a derrocada das tropas nazistas em todos os fronts prenunciava os estertores de uma guerra perdida e que “somente o Pervitin ajudava os soldados a suportar [a guerra] e fugir”.

Ohler recebeu críticas por sua obra ter se concentrado demasiadamente nos criminosos nazistas que conduziram os experimentos com drogas, e não tanto em suas vítimas ( Weindling, 2016 ). Além disso, devido à natureza polêmica do tema tratado, Ohler (2017) precisou afirmar, de forma totalmente contraditória e incoerente, por mais de uma vez, que o consumo de drogas viciantes por Hitler e no Terceiro Reich não foi a causa dos crimes nem tampouco a inspiração para a pervertida ideologia nazista. “Elas [as drogas] apenas fortaleceram o que já estava destinado” (p.330).

Independentemente de toda a polêmica evidenciada, o livro de Ohler possui uma contribuição importante para a compreensão do papel das drogas nos acontecimentos que culminaram na Segunda Guerra Mundial, tornando-o extremamente interessante para o público em geral, para os historiadores das ciências e para os historiadores da química em particular.

REFERÊNCIAS

OHLER, Norman. High Hitler: como o uso de drogas pelo Führer e pelos nazistas ditou o ritmo do Terceiro Reich. São Paulo: Editora Planeta do Brasil. 2017. [ Links ]

STOKES, Donald Elkinton. O quadrante de Pasteur: a ciência básica e a inovação tecnológica. São Paulo: Editora da Unicamp. 2005. [ Links ]

WEINDLING, Paul. History: addiction and the Reich. Nature , v.538, n.6, p.38-39. 2016. [ Links ]

1Nesta e nas demais citações de textos publicados em outros idiomas, a tradução é livre.

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