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Opinião Pública

Print version ISSN 0104-6276On-line version ISSN 1807-0191

Opin. Publica vol.9 no.1 Campinas May 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-62762003000100007 

Consumo cultural e espaços sociais: os vestibulandos das Universidades Públicas na cidade do Rio de Janeiro, 1990

 

 

Marcelo Costa Ferreira

Departamento de Ciência Política – UFRJ Curso de Especialização em Avaliação Educacional UERJ

 

 


RESUMO

O objetivo deste artigo é analisar a associação entre capital cultural e estilos de vida entre os vestibulandos de quatro universidades públicas da cidade do Rio de Janeiro em 1990. A questão analítica é: quais seriam os espaços sociais e as práticas de consumo cultural no grupo de análise? Os dados aqui analisados consistem na pesquisa sóciocultural aplicada aos citados vestibulandos do finado Vestibular Integrado, que uniu a UFRJ, a UFFRJ, a UFF, a UERJ e a ENCE/IBGE entre 1988-1990. A análise dos dados revela que a relação entre o consumo literário, as práticas culturais e as desigualdades sociais produz a segmentação do público pré-universitário em três macro segmentos. O primeiro consiste nos estudantes com grande capital cultural, mas que não têm necessariamente tantos recursos financeiros quanto os relativos ao seu respectivo acesso à cultura. O segundo reside nos vestibulandos com parco acesso ao consumo cultural, enquanto o terceiro, e intermediário, segmento é composto pelos que têm características comuns ao primeiro e ao segundo grupos citados. Principal conclusão deste estudo consiste na percepção de que, mesmo entre aqueles estudantes que conseguiram chegar à etapa pré-universitária, persistem significativas desigualdades no acesso a bens culturais, o que acaba refletindo na percepção dos estudantes sobre o papel do curso superior e do mercado de trabalho.

Palavras-chave: desigualdades sociais, ensino superior, hábitos culturais, consumo, educação.


ABSTRACT

The purpose of this article is to inquiry about cultural capital and life style(s) associations among university applicants to the public universities of Rio de Janeiro at 1990. The puzzle is which social spaces and cultural consumer practices should be found among these prospective students? The data analysis is based on the social and cultural questionnaire research applied to all the applicant students of the year 1990 (year of) in the following institutions: The Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ), The Federal Rural University of Rio de Janeiro (UFRRJ), The Federal Fluminense University (UFF), The State University of Rio de Janeiro (UERJ) and The National School of Statistical Sciences, of Brazilian Institute of Geography and Statistics (ENCE/IBGE). In short, two major findings are detached. The first one is that correspondence analysis plots of literary consumer consumption, cultural practices and inequalities attributes are summarized in three major clusters. The first is applicants with strong cultural capital, however without the same level of economic resources. The second is students with low access to cultural goods, and the third and middle segment has an average among the two others segments. The second finding is the high level of inequality to cultural resources access, even to the prospective students who are able to apply to a university.

Keywords: inequalities, higher education, cultural habits, consumer behavior , education.


 

 

Introdução1

O objetivo deste artigo é analisar o consumo cultural e os espaços sociais dos vestibulandos das universidades públicas na cidade do Rio de Janeiro em 1990. Discuto neste trabalho as seguintes questões: de que forma espaços sociais são identificados, a partir da correspondência entre o consumo cultural e os estilos de vida dos vestibulandos? Como mecanismos de exclusão e seleção de certos grupos sociais podem ser definidos a partir da sua ambiência cultural e social? Pretendo acrescentar à literatura pertinente uma análise quantitativa sobre este problema – estratégia de pesquisa pouco utilizada - ressaltando, de outro lado, a inegável qualidade dos trabalhos qualitativos já realizados, como Forjaz (1988) e O´Dughesty (1998).

Este estudo analisa dados do questionário sóciocultural do Vestibular Integrado entre 1988 e 1990 aplicado a todos os candidatos no momento de inscrição. Neste período, aquele concurso reuniu todas as instituições oficiais de ensino superior da cidade do Rio de Janeiro, a saber: a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); a Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (ENCE/IBGE) e o Centro Federal de Educação Tecnológica no Rio de Janeiro (CEFET/RJ). O universo de análise refere–se a todos os vestibulandos que prestaram o concurso Vestibular Integrado em 1990.

O artigo está dividido em três partes. Na primeira, apresento a revisão da literatura relativa ao referencial teórico adotado neste estudo. Na segunda, descrevo a base de dados analisada e a metodologia empregada no estudo. Na terceira, os resultados e a discussão, ou seja, a análise dos dados. Este último tópico é baseado na análise multivariada dos gráficos de análise de correspondência das relações entre o consumo cultural e as práticas culturais com espaço social – segundo o conceito que Bourdieu atribui a estes termos. Na conclusão, será apresentado um resumo deste artigo e uma reflexão sobre a relação entre capital cultural e financeiro, comparando os achados desta pesquisa com a análise realizada pela literatura pertinente sobre a associação em questão.

 

Revisão da Literatura e Embasamento Teórico

Esta seção discute a bibliografia referente à questão do consumo cultural como fator de influência na demarcação de espaços e hierarquias sociais. Num primeiro momento, discute-se a relação entre habitus e espaço social (Bourdieu, 1996). A interação entre estes dois conceitos baseia o referencial teórico deste trabalho.

Em seguida, estão apresentados dois trabalhos empíricos que analisam a questão do consumo cultural na hierarquia social, (Eijck, 2001 e Wynne, O'Connor, Philips, 1996) e mais outras duas pesquisas, que estudam a questão do consumo cultural na cidade de São Paulo, Brasil, (Forjaz, 1988; O'Dougherty, 1998), onde o primeiro analisa as práticas culturais da elite paulista, enquanto o segundo investiga os padrões de consumo na classe média paulista como fator de identificação cultural e de classe social.

Os debates contemporâneos sobre estratificação social discutem, segundo Crompton (1993, p.166-186), o consumo e os estilos de vida como produtor de atitudes e definem o estilo de vida, ao invés da classe social, como um ator muito mais importante na formação de grupos sociais do que a inserção do indivíduo nas forças produtivas, conforme uma vigorosa tradição na reflexão sobre estratificação social. Um exemplo deste tipo de análise é a tradição de pesquisa que relaciona consumo e estilo de vida, iniciada a partir dos estudos clássicos de Bourdieu.

A pesquisa de Bourdieu (1996) é uma das mais tradicionais estratégias de investigação sociológica contemporânea do consumo como formador de identidades sociais. Em contraste com a clássica análise marxista das classes e de suas inserções no universo das relações de produção, para Bourdieu a estrutura de poder numa sociedade consiste numa representação do espaço social das hierarquias de poder, identificada pelos estilos de vida e a hierarquia social é composta por sistemas de dominação simbólica (Bourdieu, 1995). Assim, o espaço social é a representação das hierarquias e suas respectivas distâncias sociais. A análise da relação entre o padrão de consumo cultural, de estilos de vida e a respectiva relação destas variáveis com a posição de um dado indivíduo na hierarquia social é um dos pontos principais da análise do autor. Levando-se em conta que um referencial cultural é sempre arbitrário, a sociedade francesa apresenta uma desigualdade social baseada nos sistemas de violência simbólica, e este poder simbólico produz a inculcação de determinados padrões culturais no indivíduo produzido por um longo processo de socialização, denominado de habitus.

O espaço social apresenta a distribuição dos agentes, segundo os respectivos habitus, que sintetizam também o conjunto de práticas e atitudes correspondentes a uma dada posição social de um hipotético indivíduo.

Trata-se do consumo de bens culturais, ou seja, livros lidos, tipos de culinárias apreciadas, percepções de mundo e de atitudes que estariam associadas à inserção na hierarquia social de cada pessoa. Por exemplo,

"Regular sporting activity varies strongly by social class, ranging form 1,7 percent for farm workers, 10,1 percent for manual workers and 10,6 percent for clerical workers to 24 percent for junior executives and 32,3 of members of the professions. Similar variations are found in relation to educational level, whereas the difference between the sexes increases, as elsewhere, as one moves down the social hierarchy (...) Attendance at sporting events (especially the most popular of them) is most common among crasftmen and shopkeepers, manual workers, junior executives and clerical workers (who often also read the sports paper L'Equipe); the same is true of interest in televised sport (soccer, rugby, cycling, horse-racing). By contrast, the dominant class watches much less sport, either live or on TV, except for tennis, rugby and skiing." (Bourdieu, 1984, p.215).

Eijck (2001), por exemplo, analisando dados de uma pesquisa por amostragem representativa da população da Holanda, destaca que os grupos de alto status tendem a apresentar um gosto musical mais diversificado do que os integrantes de baixo status ocupacional. Neste caso, a escolaridade dos entrevistados tende a ser um preditor mais robusto das preferências - e de suas quantidades - do que o pertencimento a um dado grupo ocupacional. Quatro grupos de gostos musicais foram identificados: os Highbrow, pop, folk e um quarto, que seria uma combinação dos três grupos anteriores.

Seguindo a mesma linha de pesquisa, o trabalho de Wynne, O'Connor, Philips (1996) analisa a relação entre os hábitos culturais dos moradores do centro da cidade de Manchester, na Inglaterra, e os seus usos do espaço urbano da cidade enquanto intermediários culturais. A hipótese central desta pesquisa é a promoção de valores pós-modernos, por parte de moradores de classe média, com a estratégia de subverter as hierarquias de distinção dominantes. Os autores destacam três pontos: 1) os novos intermediários culturais não têm pais que atuavam nesta ocupação; logo, eles constituem um grupo com uma identidade nova; 2) possuem médio capital cultural; 3) não existe uma demarcação rígida entre os entrevistados em relação a cultura popular e a clássica.

No Brasil, um exemplo de estudo semelhante ao de Bourdieu é a pesquisa de Forjaz (1988). Esta autora analisa uma etnografia dos hábitos de lazer e trabalho dos grupos empresariais da cidade de São Paulo e mostra que, ao contrário do imaginário popular, os filhos das rotuladas "classes dominantes" costumam trabalhar cedo, as esposas destas famílias apresentam papéis femininos tradicionais e, libertas dos afazeres domésticos, destinam grande parte do seu tempo a cursos e atividades recreativas e culturais. Já os empresários investigados costumam não dissociar trabalho e lazer.

O estudo de O'Dougherty (1998) analisa o padrão de associação entre consumo e formação de identidades sociais nas classes médias da cidade de São Paulo. Analisando os depoimentos de diversos integrantes dos "setores médios", a autora investiga as estratégias de consumo como um conjunto de atitudes de distinção, representadas pelos mecanismos nos quais os indivíduos investigados mensuram a sua respectiva capacidade de consumir. O trabalho investiga como, num contexto inflacionário, a classe média consegue manter a sua posição e identificação enquanto classe, tomando por base o seu próprio consumo. Alguns informantes relataram que necessitavam de mais de um emprego para se manterem nessa posição e, se auto-definiam como "classe média" a partir da frase modal: "É ter uma casa própria e um carro". (O'Dougherty, 1998, p.419).

Em resumo, as análises de Bourdieu revelam que a quantidade acumulada de capital, seja ele econômico, cultural ou social, é o que determina as classes sociais, e sua representação reside no espaço social. Assim, o padrão de consumo de cada indivíduo, identificado pelo habitus, representa a posição do indivíduo na hierarquia social.

No caso brasileiro, a associação entre o consumo e capital cultural é muito evidente na formação de identidades sociais. Em São Paulo, por exemplo, a classe média, e sua respectiva elite empresarial, elabora sua identidade social a partir de práticas de consumo de determinados bens. Nesta mesma direção, o argumento que desenvolvo na seção de análise de dados deste artigo afirma que os vestibulandos das universidades públicas cariocas em 1990 também formam grupos sociais, dispostos na hierarquia social.

Neste estudo, os espaços sociais são demarcados pelos diferenciais de consumo cultural. O resultado esperado é que grupos sociais sejam formados a partir da respectiva distribuição de bens culturais e financeiros. A formação de aglomerados nos gráficos de análise de correspondência representa a formação de grupos no espaço social em função do seu consumo cultural. Na seção seguinte, apresento os resultados da análise dos dados, revelando os aspectos comuns e distintos aos achados discutidos na literatura.

 

Dados e Métodos

A fonte empírica desta pesquisa consiste nas respostas ao questionário sóciocultural dos vestibulandos do então Vestibular Integrado. A partir destes dados, os aglomerados de padrões de consumo literário, capital cultural e estratégias acadêmicas, ou seja, estratos sociais no espaço social definidos em função do tipo de consumo cultural, são interpretados através dos gráficos de análise de correspondência. Esta parte do texto apresenta, portanto, a relação entre o embasamento teórico, os dados e os métodos aqui empregados.

A pesquisa sóciocultural costuma ser aplicada a todos os vestibulandos das grandes universidades públicas e privadas no Brasil. O candidato recebe no momento da inscrição um formulário que deve ser preenchido por ele próprio e entregue com uma ficha de cadastro. Embora com variações no formato, no número e na natureza das questões formuladas pelas diversas universidades, o questionário pergunta sobre seus hábitos de consumo cultural, sobre características socioeconômicas da família, sua percepção em relação ao curso ao qual ele irá concorrer, sobre sua origem e desempenho no segundo grau.

Apesar da riqueza de dados produzidos pelo questionário sóciocultural dos vestibulandos das universidade brasileiras, poucos estudos acadêmicos têm utilizado essa fonte (Ferreira, 2000; Paul e Silva, 1998; Bezzon, 1997; Ribeiro, 1981 e Todorov, 1977). Entretanto, por serem fontes secundárias, as informações estão sujeitas a limitações. Por exemplo, em alguns questionários, a renda foi mensurada em categorias, e não apresentadas em escala contínua; em outros casos, as perguntas sobre capital cultural podem ser limitadas, de acordo com o tipo de análise pretendida. Todavia, mesmo com restrições, o potencial de análise de dados sobre o perfil socioeconômico ou cultural é muito expressivo.

A Tabela 1 descreve as variáveis e suas respectivas escalas.

O Vestibular Integrado foi um consórcio de todas as instituições de ensino superior com cursos de graduação na cidade do Rio de Janeiro, que vingou entre 1988 e 1990. De 1971 a 1987, o vestibular era organizado pela fundação Cesgranrio, que centralizava o acesso a todas as instituições públicas e privadas de ensino superior na cidade carioca. O Vestibular Integrado surgiu sob influência da Constituinte de 1988, que fomentou o princípio de uma maior autonomia universitária das instituições públicas de ensino superior, em contraposição à organização centralizada do vestibular, implantada através da Cesgranrio na época do governo militar.

A metodologia aqui empregada consiste na análise dos gráficos de correspondência de conjuntos de variáveis socioculturais do questionário de 1990 do Vestibular Integrado. Esta técnica estatística é um tipo de análise multivariada, ou seja, um conjunto de procedimentos que visam analisar a relação de várias variáveis ao mesmo tempo. Em termos muito concisos, a análise de correspondência gera gráficos onde os atributos categóricos de uma variável são dispostos num plano bidimensional. A associação, ou não, entre as categorias é dada pela proximidade entre elas no gráfico.

No caso da análise de correspondência, diversas vantagens na sua utilização recomendam o seu uso para investigação de dados em ciências sociais. Ela não requer os típicos pressupostos da normalidade, é uma técnica descritiva e apropriada à análise de variáveis categóricas ou binárias, tipos de mensuração muito comuns na pesquisa social. Além disso, este procedimento já havia sido utilizado nos estudos que analisam questões de pesquisa comuns a este artigo, como Bourdieu (1986; 1989) e Wynne, O'Connor, Philips (1996).

A observação dos gráficos da análise de correspondência identifica grupos de categorias que formam padrões de consumo cultural adotados pelos entrevistados. Neste estudo, um conjunto de quatro gráficos é analisado, que relacionam: 1) "o consumo cultural e o domínio de idiomas"; 2) "assunto mais interessante no jornal" e "capital financeiro"; 3) "capital literário" e "práticas culturais" e 4) "expectativa em relação à instituição universitária" e "expectativa em relação ao curso universitário". Em seguida são identificados grupos de vestibulandos em função do seu capital cultural e a sua inserção no espaço simbólico das hierarquias sociais.

 

Resultados

A teoria pertinente e outros trabalhos empíricos destacam que quanto maior o capital cultural, melhor o desempenho educacional2. A análise de dados aqui efetuada não tem interesse em investigar a relação entre capital cultural e desempenho educacional, mas entre o capital cultural e a formação de grupos e espaços sociais de candidatos ao ensino universitário, segundo os seus respectivos habitus.

Os hábitos de consumo cultural dos vestibulandos revelam práticas bem heterogêneas. Enquanto 29% dos candidatos têm mais do que 101 livros em suas residências, 9,8% e 18,3% possuem, respectivamente, até 20 livros e de 21 a 50 exemplares. O mesmo acontece com a quantidade de livros escolares lidos por ano: 12,3% leram mais de 6 livros, enquanto quase 70% dos vestibulandos leram menos de 5 livros.

Uma outra característica do consumo cultural dos vestibulandos diz respeito ao acesso aos meios de comunicação. Sabe–se que a mídia escrita é utilizada pelos que possuem maior capital cultural, em contraposição à televisão, veículo mais popular. Além disso, percebe–se que os vestibulandos apresentam uma exposição muito maior à mídia oral do que à escrita: 48,8% utilizam a T.V. como principal meio de informação. Além disso, 36,8% lêem jornais e 11% consomem revistas. Entre os que utilizam o jornal, apenas 35% o fazem diariamente. Em outras palavras, a leitura efetiva de jornais não consiste em um hábito muito valorizado pelos vestibulandos.

O mesmo ocorre com a familiaridade com idiomas: apenas 6,7% dos vestibulandos "dominam completamente" uma ou mais línguas estrangeiras; 50,8% "dominam razoavelmente" e aproximadamente 1/3 dos candidatos declara que não domina, mas que gostaria de ter esta habilidade. A percepção da importância ou não do domínio do idioma estrangeiro é uma variável proxy do capital cultural acumulado no período educacional pré–universitário. A análise desta variável poderia, portanto, ser uma estratégia chave para a formação de grupos sociais de estudantes segmentados por desigualdades na aquisição de capital cultural.

É o que mostra o Gráfico 1, que descreve a relação entre o capital literário (leitura e posse de livros) e o domínio de idiomas estrangeiros, entre outras variáveis de consumo cultural.

Existem três grupos bem demarcados no Gráfico 1. O primeiro é representado pelos vestibulandos com elevado capital cultural. Esta característica é identificada pelo conglomerado de três categorias: domínio completo de um idioma, leitura de mais de 11 livros escolares por ano e leitura de jornal escrito. Este último atributo situa–se numa posição intermediária entre o grupo de alto consumo de bens culturais e o conjunto dos indivíduos com médio capital cultural no Gráfico 1.

Contudo, o grupo que consome mídia impressa está um pouco mais próximo do grupo com capital cultural mediano do que o de baixo consumo de bens culturais. O primeiro grupo encontra–se localizado na parte inferior do Gráfico 1, enquanto o outro segmento situa–se à direita do campo visual do leitor no Gráfico em questão: são os estudantes que dominam razoavelmente um idioma, lêem revistas semanais e têm um médio consumo e posse de livros no domicílio, em contraposição ao grupo de parco capital cultural. Este último grupo caracteriza–se por utilizar o jornal falado ou o contato com outras pessoas como principal meio de comunicação e possui no máximo "até 20 livros" no domicílio.

Entretanto, existe um grupo de interseção entre o cluster de baixo e médio capital cultural. Este conglomerado intermediário é constituído pelos que não dominam nenhum idioma, não lêem mais do que um ou dois livros (no domicílio) e possuem de 21 a 50 livros no domicílio. Da mesma forma, a leitura do jornal escrito é uma categoria intermediária entre os grupos com alto e médio capital cultural.

A ocorrência de grupos bem definidos em termos de atributos de variáveis de capital cultural, com algumas categorias de alto ou baixo capital cultural aparecendo como intermediárias entre segmentos bem distintos de consumo cultural, pode revelar a estratégia de ascensão social via escolarização: tratam-se de famílias com baixo capital cultural que convivem com alguns dos seus membros que têm maior acesso a bens de consumo. Em outras palavras, em termos hipotéticos, uma família com baixo consumo de livros, mas que consome jornais escritos revela-se em pleno processo de reformulação de um dos habitus dos seus membros, no caso em questão, o vestibulando.

Neste sentido, a análise do Gráfico 1 sugere a transformação do habitus de alguns grupos de estudantes em relação ao capital cultural familiar. Esta possibilidade sugere que um segmento de vestibulandos experimenta um processo de aquisição de bens culturais em termos qualitativos muito maior do que a sua respectiva família oferece. Observa-se, assim, um processo de mobilidade social, via aquisição de capital cultural, pela transformação do habitus.

O capital cultural desempenha um papel crucial na definição de grupos sociais, muito mais até do que o capital econômico. Poucas famílias de vestibulandos têm mais de um automóvel, 12,2%; enquanto apenas 24,7% possuem imóvel de lazer. A casa própria, já quitada, é característica de 57,3% dos entrevistados, enquanto 38,1% declaram que o domicílio onde moram ou é próprio, ainda por quitar, ou alugado. Já o tipo de assunto considerado interessante na leitura de um jornal escrito opera na formação de uma gradação em termos de consumo cultural entre os vestibulandos. O assunto considerado mais interessante é a leitura de notícias gerais, enquanto o tópico turismo apresenta um ínfimo percentual de interesse: 0,7%.

Entretanto, o Gráfico 2 revela não a formação de grupos, mas de espaços/eixos sociais. Na horizontal, está a dimensão econômica. Na vertical, o componente cultural. O tipo de tópico considerado mais interessante na leitura do jornal consiste no grande demarcador dos grupos sociais no eixo vertical.

O grupo com alta capacidade em termos de consumo material concentra–se na posse de mais de um automóvel e na propriedade de um imóvel de lazer3, à esquerda do campo visual do leitor no Gráfico 2. Já a não posse desses dois atributos está associada, à direita do gráfico, a uma posição intermediária entre o grupo de baixo capital cultural (parte posterior, direita do Gráfico) e o de médio consumo cultural (parte inferior, centro do gráfico).

O cluster dos vestibulandos com alto capital cultural consiste naquele em que política e cultura são considerados como tópicos mais interessantes de leitura em jornal, além do número de "11 ou mais livros não escolares lidos". Os que têm menor capital cultural preferem ler tópicos como "turismo" ou "esportes". No grupo intermediário, "economia" e "assuntos gerais". Este gráfico reproduz, excluindo a dissociação entre capital econômico e cultural, o mesmo tipo de relação estrutural entre habitus, espaço social e hierarquia cultural analisados em Bourdieu (1996)4. Ou seja, os vestibulandos das camadas mais elevadas da sociedade carioca – em termo de capital cultural – tendem a considerar interessantes tópicos como política e cultura, enquanto os mais desfavorecidos lêem apenas esportes e turismo.

O mesmo tipo de análise pode ser feita para a freqüência a cursos extracurriculares. Por exemplo, 24,7% dos candidatos ao Vestibular Integrado em 1990 freqüentam cursos de idiomas, e 14,3%, ginástica/balé/esportes. Uma minoria freqüenta cursos de música, 3%, ou artes, 1,5%, e 44% dos vestibulandos não participam de nenhuma atividade extracurricular.

A relação multivariada entre prática de atividades extracurriculares, freqüência de leitura de jornal, quantidade de livros no domicílio e número de livros não escolares lidos no ano, revela novamente os três grupos de vestibulandos. Os de altíssimo capital cultural freqüentam cursos de artes e lêem mais de onze livros não escolares por ano. Os de parco acesso a bens culturais não freqüentam atividades extra curriculares, têm até 20 livros em casa e leram durante o ano apenas 1 ou 2 livros não escolares. O grupo de médio capital cultural reúne, no caso do Gráfico 3, um conjunto de práticas culturais bem diversificado, desde a leitura diária de jornal até a leitura só aos domingos.

Conforme esperado, é o capital cultural que delimita as posições na hierarquia social. O mesmo tipo de relação entre habitus e consumo cultural ocorre quando se considera as expectativas acerca do curso universitário. Inquiridos sobre esta questão, 59,3% dos vestibulandos declararam que esperam "formação profissional voltada para o mercado de trabalho"; 8,1% também buscam "formação acadêmica para melhorar atividade prática que estou realizando"; 13,2% têm expectativas de cunho intelectual que consistem na aquisição de "cultura geral ampla"; 9,3% almejam "conhecimentos que permitam melhorar o meu nível de instrução"; 4,8% estão interessados em "formação teórica voltada para pesquisa"; 5,2% querem "conhecimentos que permitam compreender melhor o mundo em que vivemos". Quando perguntados sobre os motivos da escolha da primeira opção pelo curso universitário, apenas 18,9% responderam mercado de trabalho, enquanto para 71,7%, a escolha do curso deveu-se a busca da "adequação às aptidões pessoais".

A análise do Gráfico 4 revela que o fator de escolha do curso da primeira opção e o que se espera do curso universitário são variáveis fundamentais na clivagem dos grupos sociais.

De um lado, está delineado o grupo de habitus com alto capital cultural, que consiste no aglomerado das categorias de adequação às "aptidões pessoais", "cultura geral ampla", "formação teórica voltada para pesquisa", "conhecimentos que permitam melhorar o meu nível de instrução" e "conhecimentos que permitam compreender melhor o mundo em que vivemos" – associados à leitura de mais de onze livros escolares por ano. Do outro, localizam-se os vestibulandos com baixo capital cultural, representados pelo seguinte grupo de atributos: formação profissional voltada para o mercado de trabalho, amplas possibilidades salariais, e leitura de 1 ou 2 livros não escolares por ano.

Destacam-se dois achados na análise de dados apresentada nesta seção. O primeiro refere-se à divisão em três grupos de vestibulandos no espaço social, em função de suas práticas de consumo e da percepção do curso superior. Um segmento concentra estudantes com parco capital cultural. Já o outro reúne pré-universitários com superlativo acesso a certos tipos de bens de consumo cultural que indicam que este aglomerado tem discentes com alto capital cultural. Porém, entre estes segmentos, encontra-se ainda um aglomerado de vestibulandos com características intermediárias.

Este grupo, ao mesmo tempo em que possui acesso a bens culturais, tem características do grupo com baixo capital cultural. É, portanto, um grupo híbrido, eqüidistante dos outros dois segmentos. Este achado revela que os que se inscreveram para universidades públicas cariocas em 1990 não poderiam ser considerados como membros de uma elite, tanto em termos culturais quanto econômicos – evidência coerente com a pesquisa desenvolvida por Ferreira (2000), acerca dos determinantes da aprovação no vestibular da UFRJ em 1993.

Já o segundo achado refere-se à complexa relação entre capital financeiro e "assunto mais interessante no jornal" – variável utilizada como proxy de consumo cultural. É possível também interpretar que tanto vestibulandos com baixo, médio ou alto consumo literário podem ter casa de veraneio ou mais de dois ou três automóveis. Da mesma forma, a alta ou baixa quantidade de livros não escolares lidos no ano está eqüidistante tanto dos vestibulandos com alto capital financeiro quanto os que tem baixo poder aquisitivo. Uma possibilidade para este achado seria a dinâmica mobilidade social no Brasil, conforme destaco em seguida na conclusão deste artigo.

 

Conclusão

A análise dos dados de respostas dos vestibulandos do questionário sóciocultural, realizada a partir dos gráficos da análise de correspondência dos atributos de consumo cultural, revela que a relação entre o consumo literário, as práticas culturais e as desigualdades sociais produz a segmentação do público pré-universitário em três macro segmentos. O primeiro: estudantes com grande capital cultural, mas que não têm necessariamente tantos recursos financeiros quanto o seu respectivo acesso à cultura. O segundo refere-se aos vestibulandos com parco acesso ao consumo cultural, e um terceiro segmento, e intermediário, é composto pelos que têm características comuns ao primeiro e ao segundo grupos citados. Duas outras conclusões merecem destaque. A primeira consiste na percepção de que, mesmo entre aqueles estudantes que conseguiram chegar à etapa pré-universitária, persistem significativas desigualdades no acesso a bens culturais, o que acaba refletindo em sua percepção sobre o papel do curso superior e do mercado de trabalho.

A segunda refere-se à complexa interação entre capital cultural e financeiro, representado pelo Gráfico 4. O argumento de Bourdieu (1996) destaca uma associação positiva entre as duas dimensões. Entretanto, a análise dos dados aqui apresentada revela que esta relação não é a mesma que existe nas pesquisas de Bourdieu que têm o capital cultural como um fator de análise. Dentre os 33,8% dos vestibulandos que têm mais de dois automóveis, 30,7% têm mais de 500 livros em casa; enquanto apenas 6,6% dos que não têm automóvel têm mais de 500 livros; todavia, dentre os que leram mais de 11 livros não escolares no ano, 12,3% tinham mais de dois automóveis, enquanto 13,7% não tinham automóveis – ou seja, a posse de livros está associada à quantidade de carros que a família do vestibulando possui – enquanto a leitura de livros não escolares não está relacionada com a posse de veículos de passeio. O mesmo fato ocorre na análise da posse de domicílio de veraneio com as citadas variáveis de capital cultural. Um outro aspecto importante é que a tabulação entre assunto mais interessante no jornal e a posse de automóveis revela que – excluindo a leitura da seção de esportes, que é preferida quanto maior for a quantidade de carros – não existe associação entre a posse de veículos e o assunto preferido no jornal: o tema política é o preferido por 13,8%, 12,6%, 12,2% e 12,5% dos que têm, respectivamente, zero, um, dois ou mais de dois automóveis. Ou seja, o capital financeiro afeta algumas formas de capital cultural, mas não influencia outras.

Uma explicação para este achado podem ser as diferenças existente entre as estruturas de estratificação social no Brasil e na França. Enquanto o primeiro país apresenta uma significativa taxa de mobilidade social, a França apresenta um hierarquia social muito mais rígida, (Pastore e Silva, 2000, pp.50-52). Contudo, as distâncias sociais percorridas pelos ascendentes no Brasil tendem a ser pequenas, e apesar da elite brasileira ter considerável permeabilidade, a permanência de novos membros nos estratos mais elevados da sociedade é muito volátil (Ferreira, 2001).

 

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Recebido para publicação em maio de 2002.
Aprovado para publicação em dezembro de 2002.

 

 

1 Este artigo é dedicado aos meus colegas do departamento de Ciência Política do IFCS/UFRJ, não só pelo fato de que sem o apoio deles este trabalho não teria sido realizado, mas também por terem me ensinado a prática de valores como meritocracia e respeito à pluralidade de idéias. Destaco também minha gratidão ao parecerista anônimo de Opinião Pública, que forneceu comentários que permitiram o aperfeiçoamento desta pesquisa. Além deles, outras pessoas forneceram generosa ajuda à execução desta pesquisa, às quais manifesto os meus superlativos agradecimentos. A redação deste texto, entretanto, é de minha exclusiva autoria e inteira responsabilidade - e o mesmo é válido para quaisquer limitações ou equívocos que o estudo possa apresentar. O argumento e a análise de dados efetuados neste estudo não representam nenhum parecer institucional da finada comissão do Vestibular Integrado de 1990, composta pelas seguintes instituições: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro e da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.
2 No caso deste estudo, os alunos que têm mais livros em casa, ou que possuem hábitos de leitura mais arraigados, e domínio de um idioma estrangeiro, possuem qualidade(s) extra(s) que os diferenciaria de um outro grupo de estudantes com menor capital cultural e os auxiliaria no desempenho de uma prova seletiva a uma universidade concorrida, como era o caso das instituições pertencentes ao então vestibular integrado (Bourdieu e Passeron, 1975)
3 Reconheço que as variáveis "posse de automóveis" e de "domicílios de veraneio" não devem ser as melhores proxies para capital financeiro, mas o questionário do vestibular Integrado de 1990 tinha apenas estas duas questões como as mais confiáveis para este tipo de análise. Além disso, existe um complexo debate na mensuração de renda e/ou riqueza, (Firpo, 2000).
4 "Because the different principles of division which structure the dominant class are never entirely independent [...] The practices of the different fractions tend to be distributed, from the dominant fractions to the dominated in accordance with a series of opposition which are themselves partially reducible to each other: the opposition between the most expensive [...] and the cheapest sports" (Bourdieu, 1996, p.219).

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