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Opinião Pública

Print version ISSN 0104-6276

Opin. Publica vol.17 no.2 Campinas Nov. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-62762011000200002 

Mobilidade social ascendente e voto: as eleições presidenciais de 2010 no Brasil

 

 

Vitor PeixotoI; Lucio RennóII

ICentro de Ciências do Homem, Universidade Estadual do Norte Fluminense
IIUniversidade de Brasília

 

 


RESUMO

Este trabalho analisa os determinantes do voto em Dilma Rousseff no primeiro e segundo turnos das eleições presidenciais de 2010, usando diversos indicadores políticos, econômicos e sociais. São exploradas as variáveis tradicionalmente indicadas como determinantes do voto, como visões sobre o estado da economia, identificação partidária, avaliação do governo, assim como também fatores explorados de forma menos sistemática, como percepções sobre corrupção e religião. Por último, o trabalho inova ao acrescentar a esse debate o efeito da mobilidade social sobre o voto. Assim, o presente estudo capta o efeito político da ascensão social de setores da população brasileira, a dita "nova classe média". O trabalho utiliza dados do Estudo Eleitoral Brasileiro de 2010.

Palavras-Chave: Eleições, voto, mobilidade social, Estudo Eleitoral Brasileiro 2010.


ABSTRACT

This paper analises the determinants of vote for Dilma Rousseff in the first and second rounds of the 2010 Brazilian presidential elections, based on various political, economic and social indicators. The study tests the traditional hypotheses about vote choice in Brazil, such as sociotropic economic voting, party identification, government evaluation, perceptions of corruption and religion. Our contribution comes from the adition of a new explanation for vote choice: perceptions of social mobility. Therefore, the present study captures a political effect of the upward social mobility of sectors of the Brazilian population, the so called "new middle class". The article uses data from the CSES Brazilian Electoral Study (ESEB).

Keywords: Elections, vote, social mobility, CSES – ESEB 2010.


 

 

Introdução

No Brasil, as eleições presidenciais têm sido objeto de análises sistemáticas sobre os determinantes das escolhas eleitorais desde que Collor de Melo foi eleito por sufrágio direto em 1989. Após a eleição de Lula, em 2002, e sua reeleição, em 2006, multiplicaram-se os trabalhos acadêmicos que visam explicar o comportamento dos eleitores. A literatura especializada que focaliza o voto para presidente tem feito muitos avanços e hoje sabemos bastante mais sobre o comportamento eleitoral do brasileiro do que há alguns anos1. Por exemplo, sabemos hoje que o eleitor brasileiro leva em consideração o desempenho do governante quando decide reelegêlo, que o estado da economia, no nível nacional, é fundamental para explicar o voto e que a identificação e rejeição partidárias são determinantes importantes do cálculo eleitoral de cidadãos brasileiros.

Não obstante os avanços recentes da literatura política, muitas questões que envolvem o comportamento dos eleitores permanecem por ser analisadas. Os efeitos dos programas de transferência de renda, mobilidade intrageracional e a recente queda da desigualdade no Brasil são exemplos de perguntas de pesquisas que ainda são debatidas e para as quais não há consenso. A coleção Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), realizada pelo Centro de Estudos da Opinião Pública (CESOP), em 2002, 2006 e 2010, permite testar algumas dessas hipóteses.

Este artigo tem por objetivo principal produzir análises sistemáticas com vistas a explicar o comportamento do eleitor brasileiro nas últimas eleições presidenciais de 2010. Além dos fatores suspeitos de sempre, como avaliação de governo, identificação partidária, ser beneficiário de programas sociais, visões sobre corrupção e classe social, acrescentamos ao debate um aspecto ignorado pela literatura: os efeitos da mobilidade social na escolha eleitoral.

O Brasil, nas últimas duas décadas, tem testemunhado um crescente processo de estabilização e fortalecimento econômico, com ganhos relevantes nas áreas sociais e econômicas, resultando em redução da desigualdade e diminuição da pobreza (NERI, 2010; SINGER, 2010). Singer argumenta que esse processo tem efeito direto na escolha eleitoral do cidadão brasileiro, através do fenômeno do lulismo, que conjuga uma postura ideológica marcada por uma demanda de desenvolvimento econômico associada à manutenção da ordem, e que congrega uma parcela pobre e excluída do eleitorado que apóia Lula, independentemente de seu partido. O sucesso econômico do governo Lula foi incluir mais setores da população no mercado consumidor, através de aumento de renda, facilidade de acesso a crédito e implementação de programas sociais. Esse eleitor ideologicamente flexível e de baixa renda passa a constituir a essência do lulismo.

Essa argumentação, apesar de elegante e convincente, peca quando testada empiricamente. Eleitores mais pobres não são mais propensos a votar em Lula e a definição ideológica desse grupo, baseada em uma variável com imensos problemas de validade (posicionamento em uma escala de esquerda e direita), é nebulosa (RENNÓ E CABELLO 2010). Além disso, os próprios petistas têm mais simpatia por Lula do que os novos eleitores conquistados pelo PT nas eleições de 2002 e 2006. Para Rennó e Cabello, o dito lulismo nada mais é do que uma reação favorável a um governo de sucesso. A pergunta contrafactual adequada é: haveria lulismo sem sucesso econômico do governo e sem seus projetos sociais, principalmente o Programa Bolsa Família? A resposta dada é não.

Contudo, ambos os estudos acima deixam de explorar uma dimensão central da idéia por trás do sucesso econômico do governo Lula. Ou seja, nenhum dos estudos acima explora o mecanismo causal através do qual classe social e avaliação de governo afetam o voto. A pergunta adequada para explorar essa problemática é: como visões sobre a economia e sobre o desempenho do governo se refletem na vida pessoal do eleitorado?

Nosso argumento é que o efeito da economia no voto se dá através da percepção de mobilidade social do eleitor. O eleitor sente a melhora econômica do país em sua vida e traduz isso como uma sensação de que sua vida e sua situação econômica melhoraram. Em suma, a sensação de mobilidade social vivida é fator chave para entendermos os mecanismos através dos quais o estado da economia no país se manifesta nas percepções individuais dos eleitores. Dessa forma, não é a classe social que afeta o voto, como argumenta Singer, mas é a percepção de ascendência social, de melhora na situação econômica, que leva a um maior apoio à candidata do governo e que embasa os altos índices de popularidade de Lula.

Dilma Rousseff, em discurso ainda no fim de outubro de 2010, dá um indício do efeito desse fenômeno de mobilidade social: "Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível"2. Testamos aqui a hipótese de que percepções de mobilidade social ascendente levam a um aumento na probabilidade de voto em candidatos do partido no governo. Em 2010, isso representou o voto em Dilma.

 

Eleições Presidenciais no Brasil: o que mudou e o que permanece?

Em 31 de Outubro de 2010, com aproximadamente 55,8 milhões de votos (56%) Dilma Rousseff (PT) foi eleita a primeira mulher presidente do Brasil. Apoiada por um governante que, após 8 anos no cargo, gozava de 93,9% de aprovação3, o seu principal adversário (José Serra do PSDB) ainda conseguiu levar a decisão para o segundo turno, auxiliado pela votação surpreendente da candidata verde, Marina Silva (PV). Essas eleições foram marcadas por ineditismos. O mais importante deles, e sem dúvida o mais comentado pelos analistas, foi a ausência de Lula como candidato. A estratégia do Presidente de lançar uma candidata que nunca havia disputado uma eleição, e que nas pesquisas de opinião a pouco mais de um ano das eleições contava com o apoio pífio de 11% das intenções de votos4, causou surpresa até mesmo entre os membros do governo. Perguntava-se até que ponto a popularidade de Lula poderia ser transferida para uma candidata até então desconhecida pelo grande público.

Também no transcorrer da campanha emergiram novidades. Um aspecto novo desta eleição foi o debate de cunho religioso sobre a questão do aborto que dominou a agenda de campanha na reta final do primeiro turno. Também merece destaque a forma como essa discussão ocorreu, com grande participação das chamadas novas tecnologias. Grupos de apoio e de críticos aos diferentes candidatos utilizaram mensagens eletrônicas, sites e redes sociais na internet para divulgar suas opiniões e informações. Para alguns (CERVELLINI et al. 2011), esse foi um fator chave para explicar a perda de votos de Dilma no final do primeiro turno e o ganho de Marina Silva. Marina teria atraído os eleitores religiosos mais conservadores, principalmente da denominação evangélica, apenas no final da campanha, levando à perda direta nesse eleitorado por parte de Dilma.

Por outro lado, as eleições de 2010 mantiveram elementos similares às anteriores. Em última instância, como em 2006, e anteriormente em 1998, ganhou o candidato do governo. Manteve-se a tendência do eleitor de premiar políticos competentes, com bons índices de popularidade e de avaliação de governo, e de basear seu voto na situação da economia.

Outro fator que aproxima a eleição de 2010 à de 2006 foi a emergência de escândalos de corrupção no transcorrer da campanha. Um deles merece destaque: as acusações contra Erenice Guerra, divulgadas na véspera do primeiro turno, que a ligavam a tráfico de influência realizado por parentes. A queda de Erenice Guerra, braçodireito de Dilma na Casa Civil e sua indicada para substituí-la na função de ministra chefe, também pode ter afetado o processo eleitoral de forma marcante.

Não obstante esses fatores, Dilma ganhou a eleição. O que poderia explicar esse sucesso? Sem dúvida, a avaliação do governo, as visões sobre a economia e ser beneficiário de programas sociais são explicações plausíveis. Mas, estas se tornam ainda mais claras quando olhamos para um fenômeno recente importante que é a ascensão de uma parcela relevante da população à classe média, com aumento em capacidade de consumo e mudanças nos padrões de consumo5. Evidentemente, esse tipo de situação econômica gera implicações políticas. Investigamos neste trabalho uma das dimensões do efeito político da mobilidade social: seu impacto no voto para presidente.

 

Explicando o voto no Brasil

Desde a primeira metade do século XX empresas de pesquisas e acadêmicos, principalmente nos Estados Unidos, vem construindo e aprimorando instrumentos de sondagens de opinião pública com o objetivo de prever os resultados eleitorais. As técnicas de amostragens e desenhos de questionários foram duas áreas onde se observa grandes avanços. No Brasil, não obstante os empreendimentos hercúleos de pesquisadores individuais6na década de 1960, esses avanços chegaram apenas com as eleições diretas presidenciais. Foi neste período que as campanhas se profissionalizaram e começaram a contratar empresas e especialistas em análises de opinião pública. Concomitantemente a este processo, a academia brasileira também importou modelos analíticos e desenvolveu questões teóricas importantes sobre o comportamento dos eleitores por meio da aplicação de surveys.

Destacam-se entre esses fatores a avaliação do governo e da situação da economia para explicar votos favoráveis aos candidatos do governo (MENEGUELLO 1995; CAMARGOS 2001; CARREIRÃO 2002a, 2002b, 2007a, 2007b; NICOLAU 2007; RENNÓ 2007; SINGER 2010; RENNÓ E CABELLO 2011). Carreirão e Kinzo (2004) e Carreirão e Barbetta (2007) apontam para a importância dos partidos políticos no pleito eleitoral, destacando principalmente o papel de "âncora" do sistema político ocupado pelo Partido dos Trabalhadores (PT). No caso, eleitores votam ou seguindo sua identificação com ou esse partido ou sua rejeição a ele.

Em comum, os elementos acima geram estabilidade nos padrões de voto dos eleitores e repetem-se em eleições consecutivas como critérios de escolha eleitoral. Mais recentemente, dois novos fatores foram acrescentados ao debate: ser beneficiário de programas sociais, principalmente o Bolsa Família (NICOLAU E PEIXOTO 2007a, 2007b; HUNTER E POWER 2007; ZUCCO 2006, 2007; CARRARO et alI 2007; LICIO et al 2008; TERRON E SOARES 2010; BOHN 2011) e percepções sobre corrupção (RENNÓ 2009; RENNÓ E HOEPERS 2010; RENNÓ E CABELLO 2010).

O debate sobre o impacto eleitoral do Bolsa Família tem gerado interessantes controvérsias. Nicolau e Peixoto (2007a, 2007b), ao analisarem as votações de Lula em 2002 e 2006 nos municípios, constataram fortes mudanças das bases geográficas do voto e atribuíram esta mudança ao efeito do programa Bolsa Família:

Quanto maior o gasto municipal per capita despendido durante o governo, maior tende ser a votação de Lula e menor a de Alckmin. O dado é ainda mais impressionante, justamente por se referir a um único programa do Governo Federal. (NICOLAU E PEIXOTO, 2007, pp: 13)

Também no intuito de captar o efeito do Bolsa Família sobre a votação de Lula em 2006, ZUCCO (2006 e 2007) empreendeu esforços similares, porém com maior sofisticação econométrica implementada com modelos para inferência ecológica, e chegou a resultados bastante próximos. Hunter e Power (2007) combinaram distribuição espacial nos Estados com análises de surveys e, além de corroborarem os achados de Nicolau e Peixoto (2007a, 2007b), encontraram forte correlação entre voto em Lula em 2006 com maior aceitação de níveis de corrupção.

Trabalho que advoga o não impacto do Bolsa Família foi realizado por Carraro, et. alli (2008). Não obstante a crítica econométrica a Nicolau e Peixoto acerca da autocorrelação da distribuição espacial, Carraro et. alli (2008) utilizam operacionalizações da variável Bolsa Família diferentes das utilizadas por outros autores, assim como também não utilizaram a mesma variável dependente (% de votos sobre o comparecimento, utilizaram % de votos válidos). Além disso, os autores testaram três modelos com correções espaciais, cada qual com uma operacionalização do programa Bolsa Família (número de famílias atendidas pelo Bolsa Família em Julho de 2006 em relação a 1º- população total, 2º- pobres, e 3º- indigentes) sendo que apenas no 3º modelo a variável pode ser desconsiderada pela significância estatística.

Com modelos econométricos de geografia espacial, Terron e Soares (2010) analisaram quatro eleições presidenciais – 1994, 1998, 2002 e 2006 – e chegaram às mesmas conclusões de Nicolau e Peixoto: o programa Bolsa Família contribui positivamente e com significância estatística para a eleição de Lula:

"Dito de outra forma, mantendo-se constantes os demais efeitos, cada ponto percentual de acréscimo na votação dos deputados implica em 0,15 pontos percentuais de acréscimo na votação de Lula em 2006, independente do efeito do Bolsa Família sobre a renda municipal (TERRON E SOARES, 2010, p. 30)."

Sabe-se, porém, que não é fácil dimensionar o impacto de políticas públicas sobre o voto, sobretudo, quando se trata de dados agregados, onde corre-se o risco de cometer falácias ecológicas. Entretanto, resultados de pesquisas de opinião podem servir para testes de hipóteses e suprir este déficit dos dados agregados. Em 2006, análise com dados ao nível individual (surveys) foi realizada por Licio, Rennó e Castro (2009) e, corroborando achados de trabalhos anteriores, os autores concluem que o Bolsa Família teve impacto na avaliação de desempenho do governo Lula e na probabilidade de voto em Lula. Bohn (2011), por sua vez, não encontra o mesmo resultado, apesar de usar o mesmo banco de dados, mas com um modelo especificado diferentemente. Assim, a análise das eleições de 2010 permitirá verificar a estabilidade do efeito do Bolsa Família no voto.

Da mesma forma, a questão da corrupção também poderá ser colocada a teste com dados mais atuais. Se em 2006 esse fator foi decisivo para a ocorrência de um segundo turno, podemos dizer o mesmo em 2010?

Por último, há que se verificar também se novos fatores podem ter impactado o resultado da eleição de 2010. No caso, visões sobre aborto seriam fundamentais para tentar avaliar a hipótese de que esse tema impactou votos. Contudo, o ESEB não dispõem de dados sobre essa questão. Uma aproximação é verificar se o voto evangélico foi direcionado a Marina, em oposição a Dilma. A análise do efeito da religião no voto não é novo no Brasil, Bohn (2004) já fez progresso nesse sentido analisando as eleições de 2002, quando Anthony Garotinho beneficiou-se do voto evangélico para alcançar a terceira colocação naquele pleito. Incluimos em nossa análise a denominação religiosa do eleitor como um controle sobre o potencial efeito do debate sobre aborto nas eleições de 2010.

Contudo, e esse é nosso ponto central aqui, um dos grandes temas em discussão durante a campanha presidencial de 2010 foi, sem sombra de dúvidas, o comportamento da nova classe média brasileira. Ainda que com diferentes formas de definir exatamente os critérios que distinguem este grupo7, muitos analistas políticos se pronunciaram acerca do comportamento esperado desta classe. Via de regra, os analistas se referem à nova classe média como um grupo de indivíduos que possui uma determinada faixa de renda. A constatação do aumento da classe é realizado comparando-se as Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (PNAD's) em diferentes anos, procedimento que não permite demonstrar quem são os indivíduos que saíram e entraram em cada classe, posto que o IBGE não entrevista os mesmos indivíduos, tampouco realiza pergunta sobre a renda no passado.

Não obstante os enormes avanços realizados pelas análises sobre emprego e renda com as PNAD's, salvo melhor juízo, poucas pesquisas se debruçaram sobre a mudança de percepção de classe dos indivíduos. Analisar a renda dos indivíduos e sua relação com voto é uma tarefa relativamente simples realizada em toda eleição pelos institutos de pesquisas. Nosso objetivo aqui é dar um passo além e resgatar a percepção de mudança (positiva e negativa) de classe dos indivíduos nos últimos oito anos e comparar os diferentes comportamentos nas eleições. No limite, ainda que a rendas individual e familiar tenham, em média, aumentado, isto não significa necessariamente que os indivíduos percebam alterações na sua classe. É nesta autopercepção que centramos nossas análises.

No presente estudo utilizamos a auto-classificação como forma de alocar os indivíduos. Por meio do cruzamento de duas perguntas realizadas pelo ESEB 2010 pode-se chegar a três grupos, quais sejam, (a) os ascendentes, que se autoclassificaram em 2010 como em classes acima do que oito anos antes; (b) os imóveis, que não perceberam qualquer alteração de classe no período; e (c) os descendentes, que se classificaram em pior situação do que há oito anos. Os três grupos podem ser observados na tábua de mobilidade apresentada abaixo. Na diagonal principal se encontram os indivíduos que não perceberam modificações, acima e à direita estão todos aqueles que julgam estar em classes inferiores hoje em comparação com sua condição há oito anos (descendentes), e abaixo e à esquerda os que perceberam mobilidade ascendente.

 

Tabela 1

 

A maioria dos brasileiros entrevistados percebeu uma ascensão social na comparação dos últimos oito anos que antecederam as eleições de 2010, cerca de 55% das 1950 pessoas que responderam ambas as perguntas. Por outro lado, apenas 7,5% tiveram mobilidade descendente, e 37,5% percebem-se hoje tal como antes da "era Lula".

Ou seja, nosso argumento é que não é o pertencimento a uma classe social ou outra que faz a diferença eleitoral, mas sim a percepção de movimento ascendente que leva apoio ao governo e seu candidato.

 

 

A pergunta que fica é: qual o impacto de toda essa mobilidade nas escolhas eleitorais do cidadãos brasileiros? A hipótese óbvia é a:

Hipótese 1: eleitores que apresentam mobilidade ascendente tem maior probabilidade de votar em Dilma.

Alem dessa hipótese, testamos também por outros fatores apontados pela literatura como relevantes para explicar o voto no Brasil, quais sejam:

Hipótese 2: Avaliações positivas da economia e do governo aumentaram a probabilidade de voto em Dilma.

Hipótese 3: Ser beneficiário do Programa Bolsa Família aumenta a probabilidade de voto em Dilma.

Hipótese 4: A identificação partidária com o PT aumenta a probabilidade de voto em Dilma.

Hipótese 5: Percepções sobre corrupção como um problema nacional diminuem a probabilidade de voto em Dilma.

Hipótese 6: Evangélicos serão menos propensos a votar em Dilma.

Dessa forma, podemos visualizar graficamente as principais variáveis em nosso modelo na Figura 1. Distinguimos entre determinantes econômicos, sociodemográficos e políticos para o voto em Dilma. Usamos esse modelo para avaliar o voto no primeiro e segundo turnos das eleições de 20108.

 

 

Decisão de voto no primeiro turno das eleições

Como o voto em sistemas multipartidários envolve diversos candidatos, a variável dependente é nominal, com um número equivalente de categorias ao número de candidatos e, por isso, o modelo deve ser estimado com uma função de ligação logit multinominal. A categoria de referência é o voto em Dilma. Assim, valores negativos nas variáveis independentes demonstram aumento na probabilidade de voto em Dilma. Valores positivos indicam voto declarado em um dos outros candidatos.

Quando comparamos o voto em Dilma com a probabilidade de votar em Serra, os principais fatores que diferenciam essas escolhas são voto em Lula em 2006, raça, escolaridade, renda, denominação religiosa, avaliação do governo, e mobilidade social. Quem votou em Lula em 2006, quem é simpático ao PT, quem avalia bem o governo Lula e quem percebe ter tido mobilidade social ascendente tem muito mais chance de votar em Dilma. Por outro lado, ter a cor da pele branca, ter baixa escolaridade e renda e simpatizar com o PSDB reduzem a probabilidade de votar em Dilma. Assim, a suposição de Singer sobre um efeito de renda no voto em Lula, como indicativo do lulismo, não apresenta resultado esperado na explicação do voto em Dilma. Cabe destacar a ausência de efeito de ser beneficiário do Bolsa Família e de percepções sobre corrupção.

Esse mesmo padrão se reflete na comparação entre a propensão a votar para Dilma e para Marina, entretanto mais categorias das variáveis de renda e escolaridade são significativas, todas favorecendo o voto em Marina, assim como as variáveis que medem denominação religiosa evangélica. Portanto, o eleitor de Marina foi predominantemente evangélico, indicando que a denominação religiosa foi importante em 2010 como havia sido em 2002 para aumentar a probabilidade de voto em Garotinho naquela ocasião. Infelizmente, por não termos dados de pesquisa tipo painel, não podemos avaliar aqui as mudanças nas intenções de voto causadas por este fator. Novamente, a identificação com o PT, a avaliação do governo e o voto em 2006, ao lado de mobilidade social ascendente, favorecem o voto em Dilma.

 

Tabela 3

 

Decisão de voto no segundo turno das eleições

As opções de voto no segundo turno das eleições, apesar de haver apenas dois candidatos, oferecem mais alternativas de atuação para o eleitor, como não votar, votar em branco ou nulo. Assim, a forma adequada de modelar essas escolhas é novamente com uma função de ligação logística multinomial. Repetimos abaixo o mesmo modelo aplicado ao primeiro turno para verificar sua consistência explicativa.

Os resultados, mais uma vez, confirmam nossas expectativas. Ter votado em Lula nas eleições de 2006, identificar-se com o PT, avaliar positivamente o governo Lula e ter experimentado alguma forma de mobilidade social ascendente aumentam a probabilidade de votar em Dilma. Por outro lado, ser evangélico, partidário do PSDB e ser branco aumentam a probabilidade de votar em Serra. A renda não tem qualquer efeito, assim como a escolaridade. Dessa forma, confirmamos que não é a classe social que importa para o voto, mas sim a percepção de ascendência social.

Os resultados acima parecem se manter para as demais alternativas de comportamento no segundo turno, todas levando à nãoescolha de um candidato. Ser evangélico sempre leva a uma escolha que não seja votar em Dilma, mobilidade social descendente aumenta a probabilidade de votar em branco, assim como escolaridade alta.

 

Tabela 3

 

Considerações finais

Neste artigo, argumentamos que não é a classe social que afeta favoravelmente o voto em Dilma, mas sim, a percepção de mobilidade social ascendente, como a própria candidata havia apontado ser um dos principais ganhos do governo de seu antecessor e mentor político, Lula da Silva. Dilma beneficiou-se eleitoralmente desse processo de mobilidade social. Dessa forma, confirmamos a expectativa inicial desse estudo de que o impacto político da mobilidade social expressou-se nitidamente nas eleições de 2010.

Também cabe destacar o efeito político da denominação religiosa do entrevistado. Eleitores evangélicos apresentaram um padrão de voto bastante consistente no primeiro e segundo turnos das eleições, tendo uma probabilidade grande de votar em oposição à Dilma Rousseff. No primeiro turno, esse voto foi galvanizado por Marina Silva; no segundo turno, esses mesmos eleitores parecem ter se distribuído pela escolha por José Serra, e os evangélicos pentecostais tendo optado por um voto em branco ou não comparecer. Infelizmente, por não termos dados em diversos momentos do mesmo eleitor, não podemos explorar claramente os processos de migração da preferência eleitoral durante as eleições.

Além desses dois fatores, a avaliação do governo, o voto em Lula nas eleições anteriores e a identificação partidária com o PT e PSDB continuam sendo explicações sólidas para as escolhas eleitorais feitas por eleitores brasileiros. A despeito da ausência de efeito de variáveis consideradas relevantes para explicar as eleições de 2006, como ser beneficiário do Bolsa Família e percepções sobre corrupção como problema nacional, identificamos uma certa cristalização dos fatores que explicam o voto no Brasil. Nesse sentido, podemos caminhar para uma proposta teórica mais abrangente, na qual a avaliação do desempenho do governo e lealdades pessoais a líderes e partidos políticos passam explicar o voto do brasileiro de forma continua. A esse conjunto, acrescentamos aqui a argumentação de que é a percepção sobre mobilidade social ascendente que também garante o sucesso eleitoral de candidatos que concorrem representando o governo. Ou seja, o eleitor brasileiro mais uma vez recompensa políticos que tiveram desempenho positivo no governo e cuja administração resultou em sua melhoria de vida. Testemunhamos, novamente, o exercício prático da responsabilização política (accountability) através das eleições no Brasil.

 

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Recebido para publicação em setembro de 2011.
Aprovado para publicação em outubro de 2011.

 

 

Lucio Rennó – luciorenno@unb.br
Vitor Peixoto – moraespeixoto@gmail.com
1 Obviamente, não estamos descartando aqui os impressionantes ganhos feitos por estudos pioneiros de comportamento eleitoral nas décadas de 1970 e 1980. Cabe aqui destacar os trabalhos de diversos pesquisadores como Gláucio Soares, Fábio Wanderley Reis, Bolívar Lamounier, Helgio Trindade, entre outros. Veja Rennó para uma revisão dessa literatura (2004). Contudo, é válido argumentar que a literatura para o período atual tem dado saltos de qualidade na robustez metodológica das análises e na construção de teorias do voto.
2 Retirado da reportagem "Dilma começa trocar pronunciamentos burocráticos por falas menos técnicas" publicada no Jornal Correio Braziliense de 28 de agosto de 2011.
3 Pelos dados do Eseb, 32,7% consideravam muito bom e 61,1% como bom o governo Lula. Apenas 1,3% avaliaram como péssimo.
4 Pesquisa do IBOPE realizada entre os dias 11 e 14 de Setembro de 2009.
5 Essas questões repercutiram na mídia nacional e internacional. Veja a reportagem "Brazil Takes Off" no The Economist de 12 de novembro de 2009 e a "Nova Classe Média do Brasil" na Revista Época de 08 de agosto de 2008.
6 Enfrentando grandes resistências, tanto da academia quanto da imprensa, Gláucio Ary Dillon Soares foi o primeiro pesquisador a se lançar na empreitada de realizar surveys eleitorais no Brasil ainda na década de 1960.
7 Analistas criam os critérios de classe ou status para avaliar a mobilidade independente da percepção dos indivíduos. Ou seja, o que conta é o critério do observador, não do observado. Para uma discussão dos critérios de classe por estrato profissional, escolaridade e renda ver Pastore e Valle Silva (2000), para grupos de estratos ver Scalon (1999). Uma interessante discussão sobre os diferentes critérios pode ser encontrada em Ribeiro (2000).
8 As variáveis utilizadas estão descritas no anexo.

 

 

Anexo: Clique para ampliar

 

Modelo

Os logísticos binários para voto em Dilma 2010

Apresentamos cinco modelos logísticos nominais com as probabilidades para o voto em Dilma no primeiro e segundo turno (variável dummy: se votou Dilma, 1; se não, 0). Acreditamos que, desta forma, foi possível otimizar o número de variáveis que foram utilizadas nos modelos multinomiais.

 

Primeiro Turno

 

 

Segundo Turno