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vol.4 issue9DUARTE, Luiz Fernando Dias; LEAL, Ondina Fachel (Org.). Doença, sofrimento, perturbação: perspectivas etnográficas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1998. 210 p.ARILHA, Margareth; RIDENTI, Sandra G. Unbehaum; MEDRADO, Benedito (Org.). Homens e masculinidades: outras palavras. São Paulo: Ecos: Editora 34, 1998. 304 p. author indexsubject indexarticles search
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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.4 no.9 Porto Alegre Oct. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71831998000200016 

Resenhas

ALVES, Paulo César B.; RABELO, Miriam Cristina (Org.). Antropologia da saúde: traçando identidades e explorando fronteiras. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz: Relume Dumará, 1998. 248 p.

Janie K. Pacheco1  *

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

ALVES, Paulo César B.; RABELO, Miriam Cristina. Antropologia da saúde: traçando identidades e explorando fronteiras. 1998. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, Relume Dumará, 248p.


A coletânea de artigos organizada por Paulo Cesar Alves e Miriam Cristina Rabelo, ambos pesquisadores do Núcleo de Estudos em Ciências Sociais e Saúde – ECSAS – Universidade Federal da Bahia, aponta para as tendências desta “recente” disciplina no campo acadêmico, por ora designada Antropologia da Saúde – apesar de não haver um consenso entre os autores participantes de como se deve chamá-la, tendo em vista a designação Antropologia Médica, trazida pela vertente norte-americana, ou ainda Antropologia da Doença, da vertente francesa, bem como das orientações e preocupações referentes a cada uma.

Contudo, em que pese não haver um termo consensual entre os antropólogos da área para designar a nova disciplina, é certo que a coletânea traz reflexões pertinentes sobre a própria constituição deste campo de saber, bem como apresenta alguns trabalhos empíricos, cuja diversidade das orientações teóricas assinala as diferentes possibilidades de apreensão do objeto etnográfico em questão, qual seja, as concepções de saúde, doença, cura e corpo de agentes sociais em contextos contemporâneos singulares, seja nas ditas sociedades complexas, em pequenas cidades interioranas ou nas sociedades indígenas.

O livro está dividido em duas partes: a primeira contém artigos teóricos sobre a Antropologia da Saúde que, além de discutirem o estatuto das ciências sociais em saúde no país, destacam quais os espaços institucionais ocupados pela disciplina, como é o caso dos dois primeiros ensaios, Alves e Rabelo, e Minayo, a reflexão prossegue no debate entre as relações entre epidemiologia e antropologia, Sevalho e Castiel, Menendéz e Grimberg, e finaliza com outro artigo dos organizadores, desta vez referente aos estudos sobre representações e práticas na área da doença/saúde.

A segunda parte apresenta cinco trabalhos etnográficos com temas e abordagens distintas: a doença e a cura no candomblé, de Caprara; as percepções de mulheres soropositivas sobre psicoterapia, depressão e morte, de Knauth; o mecanismo de defesa constituído culturalmente e a experiência de possessão, de Cravalho; a identidade feminina e o nervoso, de Hita; e as representações sobre o corpo numa sociedade indígena, de McCallum.

Os ensaios da primeira parte apresentam as dificuldades, impasses e também propostas para a consolidação da Antropologia da Saúde – restringindo-se não exclusivamente ao caso brasileiro, como nas reflexões de Menendéz, México; e de Grimberg, Argentina. Percebe-se uma certa constância na preocupação dos autores, bem como ao referencial teórico ao qual são, de certo modo, tributários, e a disposição sequencial destes artigos certamente não é casual.

Contudo, é na segunda parte do livro que as diferentes orientações teóricas na área da antropologia, e que não são exclusivas da abordagem antropológica às questões de saúde e doença, fazem-se notar.

Este segundo módulo, por sua vez, pode ser dividido em outros dois: o primeiro está voltado para o entendimento da doença, da cura e do corpo mediante a apreensão da lógica nativa, destacando as categorias e expressões que lhe dão sustentação, no qual incluem-se os estudos de Caprara, Knauth e MacCallum; e segundo, a “aplicação” de categorias psiquiátricas e psicológicas à doença dos agentes sociais em distintos contextos, no qual inscrevem-se os de Cravalho e Hita. O resultado destes trabalhos, a meu ver, é desigual.

Se no primeiro caso, os autores esforçam-se para apresentar uma visão “de dentro” e dão sentido às dimensões da doença e do corpo percebidas pelos agentes; no segundo, o entendimento da doença trazido pelos dois autores, e que está referendado nas narrativas de aflição e sofrimento dos agentes, é apresentado como uma “visão de fora”, pois ambos fazem uso de categorias e conceitos da psiquiatria e da psicologia, cuja aplicação aos contextos de pesquisa em questão revelam-se insuficientes.

Tal desacordo entre estes estudos etnográficos está a expressar, de certo modo, duas tendências atuais no campo da Antropologia da Saúde: uma que está mais próxima das reflexões que vinculam as representações e práticas dos agentes a um conjunto de relações sociais, no qual estão presentes concepções e expectativas de gênero, masculino e feminino; afinidade e consaguinidade, valores morais e também de duas possibilidades de agenciamento frente ao social, evidenciado nas concepções de holismo e de individualismo; tal tendência está mais próxima da corrente francesa, ou Antropologia da Doença.

Por outro lado, a outra tendência, ao destacar a experiência da doença, ou como é referida pelos autores, da aflição, do sofrimento, centrando-se nas narrativas dos agentes, nas suas falas, bem como na noção de self , relaciona-se com a vertente norte-americana, ou Antropologia Médica.

Por fim, gostaria, mais uma vez, de assinalar a importância desta publicação, sem desmerecer nenhum dos seus artigos, sendo que o único senão ao livro é de ordem técnica, pois nota-se que uma revisão final acurada livraria o leitor de certos erros reincidentes.

*

Mestranda em Antropologia Social.

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